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Chorão não se fez ouvir

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Escrevo esse texto com alguma apreensão: ainda são nebulosas as circunstâncias da morte do Chorão e uma pesquisa rápida no Google não traz esclarecimentos muito além do que a grande mídia está divulgando. Juntando os cacos até agora, o resumo diz que Chorão não estava bem por conta de uma separação de seis meses atrás, que andava deprimido e reclamava de solidão. Mais recentemente, segundo apuração preliminar da polícia, se hospedou em quatro hotéis diferentes em uma semana, demonstrava “mania de perseguição” ou alguma perturbação parecida. Fotos do quarto onde ele foi encontrado morto mostram um ambiente sujo e destruído, sinais de degradação. Descarta-se a princípio as teses de suicídio e homicídio. Trabalha-se com a hipótese de overdose de drogas ou remédios. O tempo logo esclarecerá.

O que me interessa nesse caso todo são os sinais do brutal desamparo de um ser humano. Lembro de uma conversa com meu terapeuta na época da morte de Amy Winehouse. Ele comentou comigo num papo pós-sessão: “será que não tinha ninguém pra escutar ela?” Nem sempre casos mais agudos de desamparo são resolvidos exclusivamente pela escuta atenta e amorosa, mas essa é sempre uma porta importante. Lembro também de uma palestra do Lama Padma Samtem onde ele dizia: “o problema não é quando a pessoa não tem dinheiro, mas quando ela não tem rede”. Dizer que Chorão não tinha rede ou que não tinha escuta pode soar como uma agressão aos familiares e amigos. Não sei. Pode ser também que ele não tenha se feito ouvir, não tenha utilizado uma rede disponível. Tem gente que, por absoluta confusão, pula do trapézio pro chão, ignora sua valiosa rede. Talvez Chorão tivesse rede, mas não pode se utilizar dela. Talvez, especulo, pelo tipo de cultura em que estava inserido.

Como a muitos outros fãs de música e críticos culturais, Chorão não me interessava como artista, mas como fenômeno pop. Ele personificou um estilo que caracterizou a passagem dos anos 90 para os 00 no Brasil. Antecipou a tão falada ascensão da classe C ao cantar o orgulho de um certo jeito de viver urbano, malandro, calcado na mistura de uma musicalidade pop americana com a cultura das ruas brasileiras – não exatamente a periferia, mas aquela zona cinzenta em que circulam e se misturam personagens marginais com filhos razoavelmente bem nascidos da antiga classe média. Era um recorte vertical e não horizontal da juventude nacional, algo que foi identificado apenas alguns anos depois do surgimento do Charlie Brown Jr. por alguns institutos de pesquisa mais antenados.

Infelizmente, a autenticidade dessa cultura não era acompanhada de muita sofisticação no comportamento. A face mais triste disso era uma certa truculência, um peito empinado, uma empáfia de rua talvez necessária para a sobrevivência em certos ambientes conturbado, mas perniciosa quando transplantada para o mundo dos códigos pop. Um dos pontos significativos nessa estrada foi o soco que Chorão deu em Marcelo Camelo alguns anos atrás em um aeroporto. Para alguns, o gesto era envernizado com um certo ar de molecagem e de macheza diante de um artista chato e sensível. O que é uma total bobagem. O ato foi apenas o desequilíbrio de uma pessoa que não tinha outro meio de se relacionar com uma crítica a não ser batendo em quem o criticou. Triste que tenha acontecido, mais triste que tenha sido revestido de qualquer tipo de justificativa. O jornalista Ricardo Alexandre identificou muito bem esse aspecto mais arisco do Charlie Brown Jr. em uma resenha para a exinta Bizz. Se bem me lembro, ele associava essa truculência com os resquícios da cultura de violência e do autoritarismo do regime militar. Achei brilhante, mas falhei em encontrar esse texto na internet.

Então, por trás de letras cheias de bravatas comportamentais e sociais, provavelmente estava escondido o lamento de uma mente conturbada. Não que Chorão fosse muito diferente de mim ou de você, pelo contrário. O que me move a escrever esse texto é justamente encontrar um ponto comum com um artista pelo qual nunca nutri qualquer simpatia. Como Chorão, tenho – todos temos – angústias, contradições, momentos de desolamento e solidão, épocas de confusão e turbulência emocional. Diferente de Chorão, tive acesso a uma boa quantidade de ferramentas pra lidar com isso tudo, algumas delas ainda cercadas de desconhecimento. Mais importante do que isso, sempre me senti autorizado a usar essas ferramentas sem preconceito.

Apenas um dos vários exemplos são as psicoterapias, sejam elas as mais estabelecidas e socialmente aceitas – psicanálise, psicoterapia, terapia cognitiva-comportamental – ou as que ainda enfrentam o estigma de “alternativas”, como as terapias corporais (derivadas do trabalho de Willhem Reich), as terapias com uso de medicamentos naturais e assim por diante. Mesmo no caso das terapias mais aceitas, o binômio preconceito-desconhecimento ainda parecer manter afastadas pessoas que poderiam se beneficiar imensamente de uma abordagem e um ambiente que proporcione um olhar panorâmico sobre as próprias angústias. Chorão pode ter sido paciente de qualquer uma dessas terapias e pode não ter aderido por um motivo ou por outro, pode não ter encontrado o tratamento certo, pode ter sido mal atendido. Ou pode também não ter sido atendido, não ter buscado, não ter ouvido as orientações. Não sei.

Estou usando o gancho do Chorão pra levantar essa lebre. Espaços de escuta e abordagem terapêutica como essas que eu comentei acima ainda são muito estigmatizados. Não se tem informação suficiente, seja para chegar num profissional, seja para compreender quais são as ofertas e quais são as possibilidades. Uma pessoa pode ter uma experiência ruim com um terapeuta e abandonar para sempre as tentativas de tratar suas questões subjetivas por meio do contato direto com elas. Muita gente acaba retornando ao que a sociedade estabeleceu como o método mais rápido e correto, que é o afogamento das angústias em drogas autorizadas (álcool, remédios pra depressão e ansiedade) ou o amortecimento dos sentidos com consumo de música, filme, revistas, aplicativos e assim por diante. Caminhos que só abafam, e por vezes fermentam, problemas difíceis de entender e verbalizar. Mas que são em geral comuns todos nós e não exclusivos de “pessoas problemáticas”.

Uma das coisas que mais está se repetindo sobre Chorão nesse momento é como ele falava muito bem com um certo público. Suas letras, de fato, encontravam uma poderosa ressonância com um segmento do público consumidor de música pop. Durante os meses em que treinei numa academia de escalada indoor, o professor colocava um dos discos do Charlie Brown Jr. pra tocar TODOS os dias. Ouvi repetidamente e sempre me impressionava a falta de sofisticação das letras, mas também a clara conexão delas com o momento que o país estava vivendo. Chorão, pelo jeito, sabia muito bem falar com as multidões, sabia muito bem traduzir o ar cultural que o cercava. Mas talvez não soubesse SE traduzir. Infelizmente, especulo de novo, parece que ele não encontrou uma forma de se fazer ouvir no que mais precisava botar pra fora.

21 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Destaque, Música, Texto tags: , ,

21 Comentários

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7 de março de 2013 às 14h15

[...] Por Gustavo Mini [...]

Comentário por Lúcia
7 de março de 2013 às 14h18

Quanta lucidez nesse texto!

Muito bom mesmo.

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Comentário por Tryck
7 de março de 2013 às 15h06

Comecei a acompanhar o blog ontem. Teus textos são muito bons Gustavo!
E esse não foi diferente!
Da gosto de ler!
Abraço!

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Comentário por Cristiane Giuriatti
7 de março de 2013 às 15h35

Ótimo pto de vista!!!!

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Comentário por Marion Velasco
7 de março de 2013 às 19h15

Obrigada pelas pertinentes reflexões e argumentações.

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Comentário por João Felipe
7 de março de 2013 às 22h07

Ótimo texto!

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Comentário por Cláudio Bull
7 de março de 2013 às 23h53

cool

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Comentário por gab
8 de março de 2013 às 0h46

do lixo ao luxo nenhum louco sobrevive.

Chorão carregava consigo o peso de um mundo brutal, do lixo ao luxo ele se perdeu, vendeu a arte dele e quis misturar dois cotidianos contrários.
Sempre me identifiquei com suas músicas, mas achava que as coisas tinham se sucedido demais pra ele, e como fã, sempre tentei entende-lo a partir dessa tese tão clara que aparece em várias letras dele. E não simplesmente falando mal dele, que era traidor, vendido, etc.
Agora penso que essa morte foi um surto existencial, uma partida que pra ele já estava em hora.. é uma pena. Ainda dizem que dinheiro traz felicidade. Não na mão de um rueiro, anti-poeta e malandro como ele, que durante algum tempo não teve nada e do nada teve tudo em mãos. Maldita fama, como já diria os Racionais “Presta atenção que o sucesso em excesso é cão”.

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Comentário por Rayanne Sampaio
8 de março de 2013 às 12h09

Muito bom o seu comentário, mesmo como Fã foi imparcial!
Quando recebi a noticia da morte me veio o mesmo pensamento.
O universo que ele estava vivendo não era dele. Deve ser doloroso se perder de você mesmo e viver oque você sempre criticou.

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Comentário por Zé Pedro
8 de março de 2013 às 0h47

Quando diz da forma como se relacionada com as críticas, parece traduzir exatamente a estrutura da personalidade que, igualmente, parece refletir seu apelido. Embora possamos apenas especular sobre as peculiaridades de Chorão, acredito que esse caso suscita uma boa dose de empatia a partir de uma reflexão inerente a todos nós: a dificuldade em lidar com a perda, seja simbólica ou factual.

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Comentário por Mauricio
8 de março de 2013 às 5h02

O texto ‘e de uma pessoa que nao conhecia o Chorao. Nao afirma nada sobre o que escreveu. Escreve o que acha baseado no que pensa e ternima com : Nao sei. Talvez. Sera? Achei de estrema arrogância e pretensão a tentativa de classificar o Chorao como desequilibrado, mente conturbada e violento. Quem nunca teve vontade de dar um soco ou um chute na bunda de alguem que atire a primeira pedra. Na musica dele via sentimento, via amor, paixao cantado de um jeito so dele, mas que agradava uma pa de gente. Gostaria de saber um pouco da vida do amigo que escreveu o texto. Por que dependendo do angulo que se olha as coisas ha diferenças que para um ‘e coisa de marginal e para outros e atitude. Quer escrever sobre o fenomeno social cinzento da classe media pode escrever, mas nao usa o Chorao para dar uma imagem negativa deste fenomeno, pois ele inspirou e conquistou muita gente dos dois lados…do rico ao pobre.

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Comentário por Gustavo Mini
8 de março de 2013 às 9h16

Maurício

Uma pena que você tenha lido o texto como arrogante, mas, enfim, dizem que o erro é de quem falhou em se comunicar. Então a falha é minha.

Na verdade, o que me tocou na morte do Chorão foram justamente os pontos em comum com questões internas minhas – que eu acho que são, em certa medida, de todo mundo, são universais.

Sim, a música dele tem paixão e era adorada por muita gente. Escrevi mais ou menos sobre isso duas vezes no texto, sempre vi que ele refletia os sentimentos de uma parcela grande do público de música pop – isso está no texto.

Sim, acho que todo mundo tem vontade de chutar ou bater em alguém, mas tem pessoas que lidam com isso, outras não tem muita escolha a não ser seguir seus impulsos. Nem todo mundo atira a primeira pedra, porque se todo mundo atirasse a primeira pedra viveríamos na barbárie.

Quanto à palavra “marginal”, talvez ela não tenha sido colocada claramente – eu estava falando sobre estar à margem. Quanto à palavra “atitude”, essa eu não gosto porque muita gente justifica qualquer coisa com essa palavra.

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Comentário por Jordana
8 de março de 2013 às 12h18

Eu to aqui me perguntando se vc leu o mesmo texto que eu. Se sim vc fez uma interpretação um tanto deturpada do que o autor quis dizer.
Simplesmente , dentre outras coisas, ele quis demonstrar a importância de expor o que pensa, o que sente e principalmente , de ter alguém com quem compartilhar isso.
E ao contrario do que vc achou ele destacou e atribuiu ao Chorão um papel importante que ele exercia sobre aqueles que conheciam e acompanhavam seu trabalho.
Isso não é somente questão de interpretação, é exatamente o que o texto relata.

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Comentário por Vinícius Vivente
8 de março de 2013 às 8h59

Muitos artistas gritam por socorro em sua arte, mas acabamos apenas “consumindo” – talvez por identificação. Mas isso pode mudar, com aqueles que um dia pediram socorro e encontraram ela.

Muitos criticaram o Rodolfo Abrantes quando ele mudou radicalmente de vida. Mas ele segue vivo, fazendo música, e incompreendido pela maioria dos fãs. Chorão estaria sendo criticado, por muitos que hoje manifestam amor e admiração por ele, se tivesse tomado uma atitude semelhante a do Rodolfo.

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Comentário por KELLEN GENRO
8 de março de 2013 às 10h58

Infelizmente oque aconteceu com o Chorão é o retrato da realidade da sociedade em que vivemos, a diferença está no fato dele ser conhecido publicamente. Temos em nosso país uma grande massa de jovens e adultos que vivenciam as mesmas situações pelas quais ele estava passando. Toda essa correria que se vive hoje em dia só tem trazido uma grave doença para os homens, em geral, conhecidas por diferentes nomenclaturas todas resumem-se em uma única definição “caos mental”. As pessoas estão diariamente ficando mais insanas e surtadas, é bipolaridade, depressão síndrome de pânico e nada mais resta além da loucura. As pessoas deixaram de se comunicar de dividir suas ideias e pensamentos e isso automaticamente as afastou. Como não iremos viver num mundo caótico se as pessoas não mais se reconhecem.Fico triste por ter perdido um ídolo que a sua maneira soube entender e encantar toda uma geração falando dos sentimentos dela de maneira a ser entendido e idolatrado, ele soube falar sobre o cotidiano e sentimentos vividos por essa geração, e isso o ergueu, mas quem soube falar dos sentimentos dele? Foi nesse vazio que ele se perdeu e muitos se perdem, por não saber se comunicar e sem ser ouvidos.

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Comentário por Felipe
8 de março de 2013 às 15h41

Morreu por amor. Assim como Amy. A comparação com as redes só traz a tona a fraqueza das relações. É sempre um inferno.

Sobre métodos: enrole-os em tapeçaria. Não vai funcionar.
Há certos tipos de configurações realmente complexas. Nem todos se dão um presente barato: felicidade. É como comprar flores para si. Triste.

Adoro seu espaço aqui mas o que quis dizer com sofisticação?

Abraços,

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Comentário por Gustavo Mini
8 de março de 2013 às 16h08

Por sofisticação quero dizer o seguinte: compare a escrita de uma letra do Racionais MC com as letras do Charlie Brown Jr. A escrita dos MCs dos Racionais são bem mais sofisticadas.

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Comentário por Celso
9 de março de 2013 às 13h37

As pessoas buscam incessantemente o sucesso no meio artístico cultural, entretanto não se preparam para ele!

A história do Chorão acontece todos os dias em muitas cidades do mundo apenas com a diferença de que ele por ser reconhecido artista com uma grande quantidade de fãs, criador de tendências faz a gente se questionar: SE ELE UMA PESSOA QUE hipoteticamente ATINGIU O SUCESSO E GANHOU FAMA DINHEIRO RECONHECIMENTO TEM PROBLEMAS psíquicos QUE O LEVAM AO ABUSSO DE ENTORPECENTES e PSIQUITROPICOS ATÉ CHEGAR ao ÓBITO, o que eu posso esperar da vida então? ainda mais num país desigual e injusto como esse?

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16 de março de 2013 às 15h11

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Comentário por Ieda
10 de janeiro de 2014 às 10h26

Chorão chorava – de amor, de dor, de horror – e poucos perceberam.

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Comentário por Vanessa Oliveira
14 de fevereiro de 2014 às 12h16

Quantos bla, bla, bla, uma pessoa que não conhece o cara e que não viveu o que ele viveu, não sentiu o que ele sentiu, não tem como saber de fato, ou da opinião por conta do que a midia mostra, O Chorão apesar da capa de durão, era um cara sensivel, humano, e por mais que ele tivesse 37438743847387438743 de fãs ele estava sim se e sentindo sozinho, sentindo falta de alguém pra trocar ideia com ele, alguém sem interesse do que ele é, alguém que enxergasse ele como ser humano e não como o famoso da banda CHARLIE BROWN JR, dias antes de morrer, fui em um show em Caraguatatuba, e na hora de ir embora ele passou de carro e me viu, ele parou o carro e me chamou, ele estava muito mal, ele estava querendo desabafar algo, ele parecia um menino perdido precisando de colo, conheci o Chorão atráves de um Fã Club que tenho da banda, e falo com toda propiedade do mundo, o cara estava precisando de carinho e comprienção, mesmo que ele não fosse santo, que ele tenha errado pra caralho como todos seres humanos erram, ele só precisava de carinho, e a unica pessoa que poderia ajudar ele, nao ajudou, não julgo ela, porque só ela sabe o que passou, e sabe os motivos de ter tomado essa decisão, mas na realidade ninguém poderia ajudar ele, a não ser ele mesmo, ele se afastou de todo mundo, ele sumia 5 dias e aparecia mal, ele se perdeu e não conseguiu mais se achar, Muita luz para nosso eterno menino Chorão, Te amo Gordin s2

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