24 de janeiro de 2012 às 10h50
Pura poesia
“Na neblina da noite em Odessa, Ucrânia, quando um outdoor digital deu pau e mostrou uma caixa de erro flutuando no céu escuro…”
Vi no The New Aesthetic via @danielgalera.
“Na neblina da noite em Odessa, Ucrânia, quando um outdoor digital deu pau e mostrou uma caixa de erro flutuando no céu escuro…”
Vi no The New Aesthetic via @danielgalera.
Estou de férias e volto só dia 9 de janeiro. Enquanto isso, fique com uma seleção dos posts mais bacanas de 2011 selecionados por uma comissão formada por me, myself and I.
Toque - uma tela touch no aeroporto de Florianópolis.
New Orleans After The Deluge – quadrinhos jornalísticos sobre a tragédia do Katrina.
Minhas impressões sobre o Kindle – é isso aí que o título diz.
Intermediários – a chuva na fazenda.
Pimpão – a importância do especialista de tecnologia ser simpático.
Reclamões - o bom uso da energia das reclamações digitais.
5 Coisas que deveriam ter sumido das palestras publicitárias em 2011 – será que se foram?
Jeffrey Brown – ele parece não saber desenhar, mas acho que é truque
Acúmulo – juntar coisas digitais também é juntar tralha.
Diversidade – não dá mais pra dizer “meu, não acredito q vc não viu isso!”
Crônicas de Gelo, Fogo e Sangue do Autor – o bullying em cima do criador de Guerra dos Tronos.
Corrida-dô – anotações sobre o livro do Murakami, aquele de corrida.
Malditos Cartunistas – a grande colaboração desses caras na análise do Brasil.
Calças cáqui – tudo pode virar ícone…
Patti Smith em Cannes – eu estava lá!
O início, o fim e o meio – por que tantos shows de discos clássicos?
Ginsberg – anotações sobre a biografia dele.
De todos os tamanhos – sobre a escalabilidade do rock.
Amigos, amigos, redes à parte – tiveram que nos explicar a diferença.
TV did not kill the web stars – as empresas de internet se mandam pra TV.
Television em Porto Alegre – eu fui e tava massa.
Telas – elas sempre chamam nossa atenção.
Diferentes iguais – sobre Diálogons en La Escuridad e Yo También.
The Quitter – anotações sobre esse livrinho do Harvey Pekar.
Documentário como ferramenta de marketing – além dos 30 segundos.
Sobre escrever – um texto que escrevi sobre… escrever.
Nevermind em 12 faixas – todo mundo falou alguma coisa sobre ele. Eu também quis.
Primal Scream em Porto Alegre – eu fui e tava massa.
Matt Damon, educação e idéias vagas – o pessoal não pensa antes de falar.
Nunca esqueça da torneira – pra não se afogar em informação.
Regras da firma – redes sociais no trabalho.
Balde – chutá-lo ou não chutá-lo?
Clichês – como evitá-los.
Minha impressão sobre o iPad 2 – é isso aí!
Julgamentos – anotações sobre o documentário Judgment Day – Intelligent Design on Trial
Linha da vida – a arrogância da Timeline do Feice.
El Jardin Armado – mais um belo trabalho do David B.
Eu fecho minha blogagem esse ano com um post muito especial. A foto acima, que talvez alguns já devem ter visto no Feice, registra o primeiro encontro físico dos quatro fundadores d’Oesquema, o teto que me abriga. Isso aconteceu em circunstâncias tão curiosas quanto obviamente simbólicas: nos reunimos para o lançamento da série de micro-documentários Diálogos Coletivos produzida generosamente pela Colméia. Nós somos objeto de um deles e os outros dois falam sobre a revista Soma (da qual também sou colaborador desde o primeiro número) e do Fora do Eixo (do qual meu contato vem de ter tocado em um ou dois festivais com os Walverdes).
Diz muito o fato de termos nos reunido pela primeira vez devido a forças alheias a nós, devido a um convite externo e não por conta de alguma “reunião de planejamento” ou coisa do tipo. Diz não apenas sobre o jeito como Oesquema surgiu e funciona, mas também sobre como as coisas podem funcionar hoje em dia. Tu vê só: quatro caras que gostam de absorver, digerir e produzir cultura conseguem gerar impacto, audiência e uma certa relevância mesmo sem a construção de uma rede formal (como o FdE) ou a constituição de uma estrutura microempresarial de viés fortemente cultural (como é a Soma/Kultur Estúdio).
Desse ponto de vista, o coletivo mais interessante do projeto da Colméia (já que nenhum dos protagonistas se considera representado pela palavra coletivo, outra discussão interessante) é justamente o formado pelos três vídeos. Ainda que não cubram todas, eles pegam pontos fundamentais das imensas possibilidades de empreender culturalmente no meio de tantas mudanças estruturais que o mundo está vivendo. O presente, como diz o Pablo Capilé, está grávido. Eu acrescento: de multigêmeos (existe isso?) que não são univitelinos, que vão crescer com personalidades e características físicas bastante diversas. Não é prudente deixar que vistam as crianças todas com a mesma roupa.
Feliz Ano Novo pra todos os indivíduos, para todos os coletivos e para imenso o coletivo formado pelos coletivos – formais ou não.
A linguagem humana é uma coisa engraçada. A gente tem mania de construir alfabetos inteiros usando conceitos que se mantém cristalizados e inquestionados por décadas e que acabam se transformando em dogmas laicos. Por exemplo, você consideraria a ação de alugar um apartamento um ato revolucionário? Certamente não. Quando se fala em alugar um apartamento, é provável que a sua mente abra gavetas e escaninhos ligados a ideias como burocracia, complicação e pequeno aburguesamento. Muito raramente, senão nunca, alguém diz “vou alugar um apartamento” e você lembra, digamos, da geração beat e de tudo que ela significou para a cultura dos últimos 60 anos.
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Acontece, curiosamente, que o fato de Joan Vollner ter alugado um apartamento no número 412 da W118 Street em Nova Iorque foi fundamental para a explosão beat na década 50. Esse foi o endereço que Joan dividiu com Edie Parker, mulher de Jack Kerouac, e cujas portas estavam sempre abertas pra receber gente fina como William Burroughs, Lucien Carr e Allen Gisnberg – além do proprio Kerouac, claro. Nesse pequeno apartamento alugado, madrugadas agitadas por anfetaminas e jazz bebop funcionaram como uma espécie de líquido amniótico para o feto da turma que logo depois colocaria o pé na estrada e aprontaria tremendas confusões. Talvez o contrato de locação desse imóvel tenha sido, de fato, a obra escrita que inaugurou o legado beat.
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Em seu livro mais recente, De Onde Vem as Boas Ideias, o escritor de “ciências pop” Steve Johnson fala sobre a importância desse tipo de lugar, que ele define como tendo propriedades líquidas. Johnson lembra que a maior parte das teorias relacionadas à criação de vida na terra são baseadas em água. E não só porque hidrogênio e oxigênio sejam elementos fundamentais em muitos compostos orgânicos, mas também porque H2O em estado líquido é simplesmente um excelente apartamento para interações químicas. O carbono, a base da vida terráquea, é um excelente conector (como era Allen Gisnberg), ou seja, tem a capacidade de se ligar a uma grande variedade de outros elementos. Mas sem um meio que permitisse numerosas colisões randômicas desse conector com outros parceiros, não haveria a exploração – e a posterior efetivação – dessas possibilidades. Ou seja: líquido é o estado da criação. No gasoso, há muita distância entre as partículas, nada vai a lugar algum. Congelado é paradão demais.
Acredito que muitos que lêem essa revista já estiveram, mesmo que por algumas poucas horas, em um lugar assim. Puxe da memória e certamente você vai se lembrar da atmosfera: uma noite movimentada, com gente entrando e saindo, os copos e cigarros passando de mão em mão, os grupos se fazendo e se desfazendo, os assuntos pulando de pessoa em pessoa, a informação fluindo e as ideias, mesmo que disparatadas e desestruturadas, sendo exploradas, retorcidas – moeda intelectual trocando de carteira e tendo sabe-se lá que destino.
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Nem sempre são apartamentos. Às vezes são ruas que concentram bares ou centros culturais. Uma esquina, uma quebrada. Não precisa ser à noite. Pode ser um campinho de futebol com goleiras nuas e, no lugar da grama, areião. Ou uma feijoada semanal num bairro longe do centro. Pode ser um escritório de portas abertas para a peregrinação de talentos complementares. Ou um ateliê que sirva de imã pra gente que compartilha curiosidades – mas não necessariamente o mesmo segmento artístico ou filosofia de vida. Pode ser qualquer lugar, desde que seja líquido. E, claro, desde que tenha uma Joan Vollner e uma Edie Parker pra bancar a parada e abrir as portas pras moléculas colidirem e se experimentatem como pares.
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Na história da cultura, muitos são lembrados, comemorados e seguidos por revolucionarem modelos e condutas. Mas poucos levam o devido crédito por criar, fomentar e manter ativo o ambiente onde essas viradas acontecem com toda a carga de energia e interação que necessitam. Essa gente pode até se manter anônima. Só não pode deixar de existir.
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Essa foi minha coluna pra revista Soma#26. Não deixe de dar uma boa olhada em toda a revista aqui.
O David B. já tinha dado a dica. Na sua já clássica graphic novel autobiográfica, Epilético, as batalhas medievais apareciam como fertilizantes pra imaginação e impulso artístico desde a infância do autor. Tamanha foi essa influência que a história da família Beauchard acabou retratada, de fato, como uma longa cruzada em busca da cura e redenção da epilepsia do irmão de David.
Desta vez, em El Jardim Armado y Otras Historias, as batalhas são o mote principal dos três contos criados e ilustrados pelo cartunista francês. Flutuando com elegância entre história e mito, David B. nos leva a lugares como a Pérsia no século VIII, em pleno califado de Harun Al Rashid (de Mil e Uma Noites) e Praga no século XVI. Em cenários de disputas territoriais, políticas e, sobretudo, religiosas, se desdobram episódios que promovem o encontro de três forças: os governantes e seu poderio militar, o homem comum em busca do paraíso e seres místicos que encaminham ou desencaminham conforme alguma lógica não-aparente.
Não se engane com meu palavreado ou com a minha descrição barroca: as páginas de David B. fluem como uma mãe lendo um conto de fadas na beira da cama à noite. Não há compromisso excessivo com o rigor histórico. A arte é primorosa e agradável. Tudo que temos que fazer é sentar confortavelmente, abrir o livro e deixar símbolos universais fazerem o seu habitual trabalho.
O livro saiu em espanhol pela Editoral Sin Sentido. E tem também em inglês na Amazon.
Ah: quem curtiu Persépolis vai certamente encontrar alguma afinidade com El Jardim Armado. Embora o trabalho do David B. não seja, neste caso, autobiográfico, o sabor do oriente médio está presente. Vai sem medo.
Um dos grandes acertos desse 2011 que se encaminha para o fim foi a escolha da Associação Riograndense de Propaganda de dedicar sua tradicional semana de palestras ao tema Indústria Criativa. Também conhecido como “economia criativa”, o assunto vem sendo debatido e retratado intensamente nos útlimos dois ou três anos, especialmente nos veículos de economia e negócios.
(Economia criativa é como vem sendo chamado o escopo de atividades que inclui setores como moda, design, arquitetura, música, teatro, games, enfim, tudo aquilo que não era comumente tratado como indústria por ter seus produtos baseados em ativos culturais ou intangíveis. Pra entender um pouco mais, vale a pena dar uma olhada na extensa e didática matéria que a Época Negócios publicou no fim do ano passado.)
É sintomático (e muito inteligente) que a ARP surfe essa onda através do seu evento anual. A publicidade sempre funcionou, de certa forma, como um hub de economia criativa. O dinheiro ganho por redatores, diretores de arte, designers, diretores de comerciais e produtores de jingles a vida toda foi informalmente “desviado” para financiar projetos paralelos/pessoais de música, cinema, moda e design. A publicidade também é agregadora (ou corruptora, dependendo do seu ponto de vista…) de talentos das mais diversas áreas (arquitetos, designers, produtores digitais e audivisuais) e também o setor mais organizado e mais visível da economia criativa hoje. Natural, então, que uma iniciativa voltada à indústria criativa tenha como estopim um festival de publicidade. Antes isso do que a premiação pura, simples e irrefletida.
Estou sabendo também que há a intenção de que o assunto economia criativa não seja apenas um tema dessa semana de palestras (que tem no seu programa gente de moda, games, jornalismo musical, design, cinema e o Joh Howkins, autor do livro que conceitua a economia criativa). Já ouvi conversas, inclusive, sobre uma futura organização de clusters locais para negociar incentivos junto ao poder público. Uma das inspirações seria o Porto Digital em Recife.
Mas vamos com calma. O primeiro passo é prestigiar a Semana da ARP e dar uma boa pensada no assunto. Afinal, a base de toda indústria criativa é justamente isso: a capacidade de pensar, de imaginar, de criar.
Uma descoberta recente de minha parte –> a editora do Liniers anda lançando coisas bem bacanas além das coisas bacanas dele. Aí em cima estão três exemplos que conheço. De baixo pra cima, vemos: 1) a versão argentina de Umbigo sem Fundo (cuja edição brasileira resenhei aqui) 2) o Liniers em carne e osso mostrando no scanner o Vírus Tropical da equatoriana/colombiana Power Paola (resenha assim que eu tiver tempo!) e 3) uma aventura meio urbana meio fantástica do argentino Federico Pazos que está na fila de leitura aguardando também o bom e velho TEMPINHO LIVRE (hahahaha).
Aguardem sentados.
Não sei quanto a vocês, mas de minha parte não adianta: é difícil entender a extensão da encrenca dos outros a menos que eu esteja na mesma situação. Não que me falte capacidade de abstração ou criatividade para imaginar os cenários. Mas é que o poder da experiência direta, sem dúvida, continua sendo o professor mais eficiente.
Escrevo sobre isso porque há algumas semanas estive em Buenos Aires e minha mulher me proporcionou viver um desses momentos em que você, queira ou não, se coloca no lugar do outro. Ganhei de presente uma visita à… exposição? Instalação? Experiência?… enfim, ao Dialogos en La Escuridad, um… passeio? Caminho?… onde você passa pouco mais de sessenta minutos experimentando como é ser cego.
Funciona da seguinte forma: você chega, paga o ingresso, ganha uma bengala e se junta a um pequeno grupo de visitantes. É instruído a deixar mochilas e óculos num armariozinho e entra por um corredor absolutamente – ABSOLUTAMENTE – escuro. Mesmo. Não dá pra enxergar NADA. ZERO. BREU. E assim vai ser pela próxima hora.
Lá dentro, uma voz se identifica como seu guia. É um cego, um especialista em um contexto no qual somos todos, de repente, novatos. Isso já faz parte do aprendizado involuntário: de uma hora pra outra, o grupo passa a DEPENDER de alguém que costuma olhar como portador de uma deficiência em vez de portador de habilidades. Ao londo do trajeto, precisamos intensamente da orientação do nosso guia para nos locomovermos, nos entendermos, nos encontrarmos, darmos alguns passos que sejam. O guia, por outro lado, é justamente isso: um guia. Como ele não pode levar cada um pela mão – embora o faça em situações de maior dificuldade, procura orientar, acalmar e incentivar a exploração dos ambientes usando os sentidos que nos sobram.
São quatro situações pelas quais passamos: um bosque, uma rua movimentada, um barco e um bar. Em todos precisamos nos localizar, nos movimentar e tentar aproveitar. No bosque, o desfrute é mais simples. O som, os cheiros e o entorno é agradável. Somos convidados a cheirar, tocar, ouvir e sentir. Na cidade, o bicho pega com buzinas, carros e o onipresente ruído da construção civil. Nesse momento, todo meu entusiasmo com anos de leitura de Demolidor (o herói cego da Marvel que me fez pensar que eu sabia como fazer isso tudo) foram por água abaixo. A situação é opressora e estressante, mas – outra lição – o grupo se ajuda e também servimos de guia entre nós. No barco, não há grandes dificuldades. E no bar já chegamos um pouco mais “experientes”. Compramos café, água, refrigerante e alfajor com as notas de dois pesos que fomos orientados a trazer. Sentados, a última aula. Trocamos impressões, contamos o que sentimos, ainda sem podermos enxergar uns aos outros.
Lembre-se: mal nos vimos lá fora, não nos conhecemos. No entanto, a intensidade da experiência e o escuro estimulam todos a revelarem não apenas o lado agradável da experiência, mas também a angústia, as dificuldades e o medo de ficar uma hora – apenas uma hora! – desprovidos de informações visuais.
Eu pensei que experimentar um pouco da dificuldade de viver sem enxergar seria o mais tocante, o mais chocante, o mais incrível. Mas o que REALMENTE me impressionou foi ver tão claramente (desculpe o trocadilho barato) as minhas dificuldades e os meus limites no que diz respeito a entender as dificuldades e os limites dos outros, sejam eles cegos ou não.
É muito bonito saber da importância e do valor de colocar-se no lugar do outro. Mas também é muito útil saber o quanto isso é difícil e contraintuitivo.
Ainda nesse departamento.
Esses dias assistimos Yo También, cujo trailer está aqui. É também uma experiência interessante no que diz respeito a entrar um pouco no universo de uma pessoa portadora de deficiência. No caso, a história começa apresentando um rapaz sevillano com síndrome de Down que, aos 34 anos, se forma na universidade e começa a trabalhar.
O que se segue, definitivamente, NÃO é o desenrolar de um dramalhão no estilo “rapaz com dificuldades vence as adversidades, luta contra tudo e contra todos e mostra que quem vai atrás dos seus sonhos pode tudo.” Sim, as questões do preconceito, da inserção social, da família, da sexualidade dos portadores de Down, tudo isso é abordado. Mas se você quer se rasgar com choro fácil, esqueça. Os sentimentos que o filme sucita são bem mais amplos (e às vezes constrangedores) do que a clássica “pena”.
O que torna Yo También especial, na verdade, é justamente a capacidade de encontrar áreas comuns que pessoas portadoras e não portadoras de síndrome de Down compartilham, como amor não correspondido, isolamento e a dificuldade de encontrar o seu lugar no mundo. No fim das contas, quem não porta ou já não portou essas deficiências?
Resumo: o bom de Yo También não é o que nos faz diferentes, mas sim iguais ao protagonista.
Nos últimos dois anos tenho escrito com frequência sobre quadrinhos de jeitão autobiografico, sejam relatos de viagem, sejam simples fatias do cotidiano servidas individualmente ou em narrativas mais complexas. Esta cepa, cada vez mais rica em opções para quem quer variar um pouco do universo de heróis uniformizados ou de historias fantásticas, não nasceu ontem e nem vem do nada. Na verdade, ela tem uma linhagem clara de autores e, na base deste cânone, um dos pilares leva o nome de Harvey Pekar.
Verdadeiro muso do underground, Pekar ficou conhecido fora do seu círculo natural em 2003* devido à passagem de American Splendor pelo circuito alternativo de cinema. Premiado em Cannes e Sundance, o filme é um primor da metalinguagem, mesclando um pouco de filmagem documental com a escultura narrativa que todos nós fazemos (verbalmente ou mentamente) com a nossa vida. A única diferença é que Harvey transformava o material em (bons) roteiros de quadrinhos.
Boa parte da vida de Pekar poderia ser a vida de qualquer um. Mesmo numa cultura específica, sendo um jovem judeu americano num bairro pobre de Cleveland nos anos 50, a maioria dos dilemas que brotam das páginas dessa excelente Graphic Novel são de fácil identificação. The Quitter (que poderia ser traduzido como “O Desistente”) relata as repetidas e fracassadas tentativas do protagonista de criar um eixo para sua vida em torno dos esportes, da universidade e da carreira profissional. Vez após vez, ele desiste de caminhos relativamente retos quando encontra obstáculos universais (pais distantes, vizinhança inóspita, solidão adolescente, trabalhos tediosos). Atormentado por inseguranças e construindo involuntariamente a crença em sua displicência, Pekar vai se descobrindo bom em uma coisa: desistir das coisas.
Ao menos o que se convenciona de chamar de “coisas” na competitiva sociedade americana. Enquanto ia enfileirando empregos burocráticos, Harvey semeava uma vida paralela à base de boemia cultural leve, reviews não pagos para revistas de jazz e, mais adiante, roteiros inovadores para quadrinhos underground. Contemporâneo e parceiro de Robert Crumb (outro mestre da mesma linhagem), a descoberta da vocação não trouxe fama e fortuna, mas ao menos contradisse a “maldição do desistente”.
Não dá pra desprezar a dor e o drama de Harvey Pekar, mas de certa forma ele enganou a todos nós. Em primeiro lugar, pintou sua imagem como “desistente”, quando no fim das contas se engajou em algo realmente significativo. Em segundo, parecia escrever quadrinhos de não-ficção, mas contar a própria história é sempre um exercício ficcional. Por fim, costumava desprezar revistas de homens em uniformes coloridos combatendo gênios do mal. Mas, ao lutar contra seus demônios e fantasmas, ao encerrar uma graphic novel pedindo aprovação geral e dinheiro para pagar as contas, o que ele faz em “The Quitter” é mostrar um outro significado – talvez mais verdadeiro – para a palavra super-herói.
***
Mais algumas notas.
1. De primeira, eu torci o nariz para a arte do Dean Haspiel. Não sou muito fã desse traço estilizado e anguloso. Mas, aos poucos, fui percebendo o MEU olhar superficial e percebendo a profundidade dos quadros, os enquadramentos, a estética e o ritmo que o cara imprime: é coisa finíssima.
2. Antes do lançamento do American Splendor em filme, o Harvey Pekar teve um período curto de celebridade televisiva ao participar de oito programas do David Letterman. Como ele era muito ácido e falou mal da proprietária do canal NBC, acabou cortado do programa, conforme ele mesmo contou ao Douglas Rushkoff. A história aparece nessa série de quadrinhos online da Smith.
***
O que já escrevi por aqui sobre quadrinhos autobiográficos ou de não-ficcção:
- Jefrey Brown
- Lucy Knisley
- Josh Neufeld
- David B.
- Dash Shaw
- Liniers
- Alison Bechdel (aqui e aqui).
- Guy Deslile
…e…
- Cachalote, que não é propriamente autobiográfico, mas vou botar aqui.
O vídeo acima é o trabalho mais recente do Kutiman, figura conhecida por mashups de YouTube. Dessa vez, ele juntou dezenas de cenas de pessoas tocando Black Dog do Led Zeppelin em um único clip. É um desses trabalhos simbólicos do nosso tempo. É um tipo de manifestação que já se prepara pra virar clássico: a edição de vídeo virtuosa que revela habilidades forjadas em milhões de garagens e quartos.
Mas não é isso que mais me chamou a atenção. Na verdade, esse vídeo me lembrou uma outra história, que é a ESCALABILIDADE INVERSA DO ROCK.
É assim.
Escalabilidade, em comércio, é a propriedade de uma empresa de ir crescendo organizadamente à medida em que sua produção, suas vendas ou a demanda por seu atendimento também cresça. Em telecomunicações, por exemplo, a escalabilidade de um sistema é a capacidade dele crescer de acordo com a entrada de novos usuários. Uma operadora de celular precisa ter um esquema “escalonável”, que possa ser replicado e aumentado de acordo com a entrada de novos clientes, de preferência sempre com a mesma ou com melhor qualidade.
É mais ou menos isso.
No caso do rock (e do futebol), a escalabilidade acontece de forma inversa. É propriedade do rock que três pessoas em um quarto possam experimentar o gostinho que três pessoas em um estádio sentem quando estão tocando para vinte mil pessoas. Na verdade, a Escalabilidade Inversa do Rock é tão intensa que UMA ÚNICA PESSOA num quarto, em frente ao espelho, com uma guitarra tosca e um amplificador meia boca, pode experimentar a sensação (proporcional) de seus ídolos quando eles estão levando uma turba à loucura.
(Na verdade, como o Air Guitar prova, não é nem preciso guitarra, amplificador ou espelho.)
Pois então. Em se tratando de Escalabilidade Inversa do Rock, numa ponta do espectro, está o Led Zeppelin no Madison Square Garden escrevendo uma parte da história do rock. Na outra, está um garoto qualquer, tocando Black Dog no quarto, fazendo as notas de rodapé.
Daí vem a beleza do vídeo acima. Daí vem a beleza do rock.
Tenho pra mim que toda arte (mesmo a mais maluca, proscrita e depravada) é uma forma de organização da verdadeira bagunça que é a vida.
Alguns artistas se dedicam a avacalhar (no bom sentido…) a média dos signos da sua época/aldeia. E, na avacalhação, acabam criando uma certa ordem visível no que até então era invisível, perturbador, desorganizado. Outros artistas trabalham diretamente com o material mais bruto e desesperador do invisível e o moldam não só para torná-lo visível, mas também palatável.
Acho que esse texto da escritora americana Daphne Merkin numa Piauí de 2009, contando sua saída de um histórico punk de depressão, pertence ao segundo grupo. É um texto bem escrito, redondo, interessante, sobre um assunto desagradável, triste e desesperador.
Me lembrou, de certa forma, o Nick Drake.
Um Beco lotadíssimo, com uma idade média mais alta do que o comum, preparou o clima para que o Television fizesse bonito no segundo dia do Gig Rock. E, diga-se de passagem, os caras pelo jeito fizeram mais bonito do que em São Paulo. Segundo relatos de amigos confiáveis, o show de SP foi morno e sem tesão. Mas, em Porto Alegre, alguma química esquisita da cidade permitiu que a turma de Tom Verlaine vivesse um momentinho especial no sul da América do Sul. Essa foi minha sensação do show: a banda mandou bem, mas o público é que fez a cama para que o quarteto novaiorquino deitasse e rolasse.
Quem foi sabia o que queria ver e ouvir. E todo mundo teve o que pediu. Ou quase tudo. See no Evil foi pedida insistentemente, mas não levamos. Seria bacana, mas diante de Venus, Marquee Moon, Prove it e até Psychotic Reaction (do excelente Count Five) não houve muito do que reclamar. As execuções não foram sempre perfeitas (punk, anyone?), mas na maior parte do tempo as guitarras floreadas de Verlaine e Ripp dialogaram com precisão e poesia. Ah, as guitarras do Television: suas lindas!
No meio do show me caiu uma ficha: como o Wilco rescende a Television desde a entrada de Nels Cline! E essa conexão Wilco-Television é só a pontinha do fio da meada. Um dos grandes trunfos da banda é justamente o emaranhado de referências em que ela se baseou e gerou. Se você começa a puxar uma pontinha, logo novelos de lãs inteiros das cores mais diversas caem na sua cabeça. Sendo que o novelo do Strokes é a base de muitos figurinos em Porto Alegre, fez total sentido que o Television se desse bem por aqui, melhor que em São Paulo ao menos.
Enfim…
Pra terminar.
De tão cheio que estava o Beco, fiquei lá atrás, perto do bar. Fora a primeira música, que consegui assistir clandestinamente no palquinho do operador de som até ser convidado a me retirar, de resto o visual do show pra mim foi só nucas e escápulas.
Mas tudo bem. Television em Porto Alegre. Não vi e adorei.
O vídeo aí de cima é a Patti Smith cantando My Blakean Year depois de dar uma entrevista no seminário da agência Grey no Cannes Lions na sexta passada. Todos os anos a Grey traz um artista pra entrevistar e falar de seu processo criativo, contar histórias, etc. Em 2009 foi o Roger Daltrey, que falou dos anos de ouro do The Who e de como a adoção do jeitinho mod pela banda foi uma jogada de marketing.
Voltando à Patti Smith, o dela foi o único seminário no qual eu larguei de mão meu caderno e minha caneta. Como no vôo até Cannes fui lendo um bom pedaço do Just Kids (o livro de memórias sobre a relação dela com o Robert Mapplethorpe), sentia que não era o caso de ouvir e anotar, mas sim de simplesmente estar por lá e sentir qualé a da moça. E realmente, ela tem uma coisa meio xamânica que não tem como ser “anotada”.
Diferente do que eu pensava, ela entrou no palco toda sorrisos, de tranças. Estava certamente em outra batida, mas não distante nem separada da audiência. Foi extremamente atenciosa, realmente dividiu sua presença com todo mundo no lugar. Essa, eu acho, é a única frase exata que lembro dela dizer: “Sempre senti que não há divisão entre eu e meu público. Eu dou alguma coisa e ele me devolve algo”. Ou seja, o sentido mais profundo da palavra comunicação foi ensinado ali, com uma simples presença, sem qualquer outro recurso.
A não ser quando ela pegou o Just Kids pra ler uma carta que escreveu enquanto Mapplethorpe estava morrendo, um texto lindo que ganhou vida MESMO com um dos recursos mais poderosos da Patti Smith: a voz. Durante a leitura, ninguém comentava, ninguém falava nada. E olha que manter um auditório cheio de publicitários quietos não é pra qualquer um.
A leitura foi tão bonita que eu nem me dei ao trabalho de ligar a câmera, o que fiz só quando ela pegou o violão e tacou-lhe My Blakean Year. Antes disso, não parecia fazer sentido gravar…
Assim como comentei sobre Gay Talese, não sou leitor da obra do Allen Ginsberg. Tenho lá em casa dois volumes de poesia das antigas edições da L&PM (Uivo e A Queda da América), ambos fruto dos apetitosos balaios da Feira do Livro do final da década de 80. Mas eles foram apenas semi-lidos, ou lidos mais no folhear descompromissado. O que realmente li, com gosto, nessa mesma época, foi o Cartas do Yage, a desbocada e interessantíssima troca de missivas entre Ginsberg e William Burroughs contando das experiências deste último com ayahuasca e garotos latinos na Amazônia colombiana e peruana.
De forma que: não sou exatamente um especialista. Não tenho muito contexto literário para oferecer ao comentar I Celebrate Myself, o obeso compêndio do arquivista e bibliógrafo particular de Ginsberg, Bill Morgan, que acabei de ler. Mas posso – e quero – dividir impressões bem particulares sobre o empreendimento de passar 700 páginas acompanhado as anotações e lembranças pessoais do homem que deu liga à geração beat.
Na verdade, o grande barato de qualquer biografia do Ginsberg (e há várias por aí) é que a história dele se mistura com uma série de conceitos recentes da história americana – e, claro, mundial. A saber: o surgimento e consolidação da contracultura, o nascer da juventude como segmento social (e comercial…), a luta pelos direitos civis, o encontro da cultura oriental com a ocidental e, finalmente, a idéia do indivíduo como um ser cosmopolita, em permanente trânsito físico e conceitual.
Para usar um termo bem contemporâneo, dá pra dizer que Ginsberg era o “conector” descrito no Tipping Point do Malcom Gladwell: o sujeito realmente móvel, que tem como superpoder a capacidade de viajar por diferentes estratos da sociedade e assim ir polinizando pensamentos avançados, que ainda não contam não com as condições ideais de se estabelecerem no comportamento médio. Essa ausência de CNTP para a disseminação de causas nunca foi problema para ele. Em cicunstâncias adversas, sua melhor ferramenta era simplesmente atravessar – cantando mantras, destilando poesia inovadora e tocando pratinhos hare krishna – fronteiras políticas, culturais e sociais.
Peter Orlosvky e Ginsberg: amigos, amantes, co-dependentes até o fim.
Ainda assim, para quem tem – ou tinha, como eu – a idéia de um homem cônscio do seu lugar no mundo, certo de suas convicções e livre de quaisquer amarras, o livro é surpreendente. Das suas notas particulares, organizadas ano a ano por Morgan, brota uma pessoa cronicamente insegura e egocêntrica, muitas vezes atormentada a um nível que chega a provocar compaixão. Allen, com o perdão do trocadilho, passou metade da vida sentindo-se um alien e a outra metade tentando convencer o mundo – e a si mesmo – que talvez essa seja a condição humana. Um bando de aliens convivendo no mesmo planeta – que bela imagem.
A batalha por liberdade foi sempre em mão dupla. O vetor que emanava para fora de sua personalidade apontava para políticos, governantes, leis, regras sociais, figuras conservadoras.O vetor que apontava para dentro revolvia suas próprias barreiras internas e seus intermináveis dilemas, que o acompanharam até a morte. É curioso, além de instrutivo, que um dos grandes porta-vozes da liberdade tenha sido, durante toda sua existência, refém da vaidade, do sexo, da carência afetiva, enfim, da necessidade de afirmação que todo ser humano carrega consigo em alguma medida.
Turminha que se meteu em tremendas confusões em Tangier, Africa, 1961: Peter Orlovsky, Burroughs, Ginsberg, Corso, Paul Bowles e outros serelepes.
Essa conturbada bagagem psíquica serviu também de combustível para realizar não só sua potencialidade criativa, mas também a dos amigos ou daqueles que ele considerava dignos de reconhecimento. Com frequência, Ginsberg abdicou de dinheiro, energia e tempo próprios pra financiar outros poetas e escritores que orbitavam em seu entorno. “Na verdade, todo o fenômeno da Geração Beat poderia ser visto como um grupo de escritores que tinham pouco em comum estilisticamente mas que eram unidos pela amizade com Allen Ginsberg.” diz o autor da biografia. Foi assim até o fim de uma vida marcada pela falta de recursos financeiros, geralmente consequência de inúmeros investimentos em subvenções culturais, aluguéis, drogas, comida e até mesmo propriedades imobiliárias utilizadas por artistas dos mais diversos calibres. Muitos foram os que viveram, mesmo que por um pequeno período, sustentados por Ginsberg.
Ao fim da longa leitura, fica clara a complexidade da história e da personalidade de uma das mais marcantes figuras do século XX. Ginsberg foi um humanista, mas tinha tendências misóginas. Foi ativista social de tons individualistas e dono de uma espiritualidade que andava de mãos dadas com o hedonismo. Abraçou as contradições do regime cubano e do governo sandinista na Nicarágua enquanto combatia o conservadorismo americano. Enfim, ele personificou com maestria todas as incoerências da sociedade do século passado.

Snyder & Ginsberg & 1 flecha vermelha (o antigo TAG) apontando pra alguém que não conheço
A melhor forma de passar a régua na história de Allen Ginsberg talvez seja um pensamento do companheiro Gary Snyder quando viajaram juntos pela India em 1962. Segundo Bill Morgan, “Gary foi esperto o suficiente pra perceber que o mais importante na India era o fato de que mesmo os falsos homens sagrados eram, de fato, sagrados, e havia algo a aprender de cada um deles.”
Do Que Estou Falo Quando Eu Falo de Corrida é aquela coletânea de elegantes ensaios em que o escritor japonês Haruki Murakami divaga sobre os meandros do hábito que mantém há mais de 25 anos: correr. O livro tem diversos predicados, mas talvez o mais impressionante seja criar um nexo popularmente acessível para a associação entre exercícios físicos e tarefas intelectuais.
A surpresa começa assim: em pleno 2011, quando se discute largamente preconceitos de raça, vontades sexuais e opção religiosa, o clichê do escritor de vida insalubre reina sólido entre nós. Não sou eu que digo, é o próprio autor num dos ensaios, corroborado pelo fato do livro surgir como exceção, como objeto de curiosidade. Que autoridade tem um romancista para escrever sobre corrida?
Murakami dá suas credenciais: além de correr quase que diariamente, ele costuma participar de uma maratona por ano e ainda inclui alguns triatlos no currículo. Não é, certamente, daquele pelotão de elite e nem quer ser. Embora não despreze os companheiros de esporte nem os eventos de que participa, não é tanto a corrida que o interessa e sim o caminho. Típico de um japonês.
Aprendi com uma shiatsuterapeuta e monja zen que caminho em japonês é DÔ. Daí os termos Judô (caminho suave) e Aikidô (caminho da harmonização da energia), por exemplo. Vem da cultura oriental, acho, a noção de que toda e qualquer atividade pode ser tomada como “caminho”, como um meio de autoconhecimento, de consciência e domínio das sua própria capacidade. Desde tomar chá até jogar flechas em um alvo (e fica aqui a recomendação do excelente A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen), tudo pode ser utilizado como método de investigação da própria mente e da realidade que ela tricota. É aquela história: um caminho que tem por objetivo ser percorrido mais do que levar a algum lugar.
Mas o livro vai bem além da filosofia barata que estou engendrando aqui. Ele é, na verdade, o relato sóbrio e racional de um homem experiente que já escreveu mais de 12 romances (fora os contos, ensaios e traduções) e correu perto de 30 maratonas, uma lista de feitos que o colocaram tempo suficiente em contato consigo mesmo para conhecer seus limites e suas potencialidades, bem como reentrâncias da consciência que a maior parte de nós não costuma visitar.
É aqui que reside o argumento que abre o post: pouco se vê escrito por aí, ainda mais composto de forma tão poética, sobre a sutil conexão entre mente e corpo. O segredo da Murakami é o seguinte: estamos lendo sobre uma experiência de primeira mão cujo resultado é a investigação. A corrida é parte do seu processo de trabalho, uma forma, segundo ele, de lidar com as toxinas da mente que um romancista acessa quando se vale da introspecção profunda como ferramenta de mineração.
Esse, a meu ver, é o aspecto mais bonito do livro. Embora ele fale de mente e fale de corpo, à medida em que avançamos na leitura vai ficando mais difícil dissociar um do outro – assim como a linha de chegada se mescla ao percurso de quem transforma tudo em caminho.
VIDEOGIOCO by Donato Sansone from Enrico Ascoli – Sound Design on Vimeo.
Já que falei de preguiça no post ante-anterior, vai aqui um vídeo de alguém com muita disposição…
Vamos tirar o óbvio da frente 1: Malditos Cartunistas supre uma lacuna histórica ao documentar, de forma direta, com uma simples e bem sacada edição de entrevistas, um pedaço fundamental porém pouco valorizado na cultura brasileira. É uma hora e meia de papo pra câmera que poderia ser duas ou três horas, em parte porque os entrevistados (cartunistas, desenhistas, quadrinistas, editores ) são todos figuraças, em parte porque existe uma demanda reprimida por reflexão e referências nessa área.
Vamos tirar o óbvio da frente 2: Não estamos falando de gente que simplesmente desenha, mas de uma categoria que ajuda a moldar a forma como o país se diverte, se pensa e se enxerga. Quando não é pelas invisíveis cordas das publicações underground, que colocam os malditos cartunistas na posição de influenciadores indiretos da cultura (como a finada revista Animal que pautou editores, diretores de arte, designers, escritores, jornalistas durante sua vida), temos a atuação direta no mainstrem, como Angeli e suas 100 mil edições de Chiclete com Banana vendidas em banca, o pequeno império de Mauricio de Sousa, as tiras diárias de Caco Galhardo, Ota, Arnaldo Branco e outros espalhados por jornais brasileiros, o Reinaldo com o Casseta e Planeta na Globo (por sua vez filhotes do Pasquim de Jaguar e Ziraldo) e, claro, não podemos esquecer, da época em que o Laerte e o Adão Iturrusgarai faziam parte da equipe de roteiristas do TV Colosso. Os malditos cartunistas, na verdade, não são tão malditos assim.
Agora, além desses pontos óbvios, há um mérito extra no Malditos Cartunistas, que é juntar essa turma para que possamos ouvi-los e vê-los em sequência, comparando sua fala, sua atitude e, talvez o mais bacana, o seu visual. Sim, pode parecer futilidade, mas dentro todas as coisas bacanas do filme, o que eu mais gostei foi poder enxergar a cara, as roupas e principalmente o CENÁRIO DE FUNDO das entrevistas: a nesga da cozinha do Ota com o lixo transbordando, a pilha de livros do Angeli, a prancheta do Adão Iturrugarai, a janela de apartamento de classe média portoalegrense da Chiquinha (veja os comentários), o escritório do Ziraldo e por aí vai.
Quando você tiver a oportunidade de assistir Malditos Cartunistas (fique ligado nos festivais de cinema e nas internétes), não deixe, então, de prestar atenção nos cenários. Esse tipo de informação nem sempre entra pelo nosso canal mais racional de compreensão, mas vai ajudando a sedimentar inconscientemente uma cultura visual mais própria do brasileiro. Que aqui não é exclusividade dos entrevistados: o formato do documentário, bem punk, à base de edição de conversas com a câmera, dá o tom perfeito para contar um pedaço importante da nossa história.
O Brasil estava se devendo um trabalho como este.
BRAZIU-ZIU-ZIU-ZIUUUU…
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Update: o Fabio postou nos comentários o link de um Documento Especial (o Globo Repórter punk) sobre os quadrinhos brasileiros nos anos 80. Ainda não tive tempo de ver (talvez eu tenha visto na época!) mas de qualquer forma, puxo aqui pro post o link.
Por acaso, continuo escrevendo sobre roupas. O assunto está me perseguindo. Ou eu a ele, certamente. Freud explica. Ou Jung. Ou Lacan. Ou Perls. Ou eu.
Enfim.
Neste fim de semana, entrei na reta final da biografia do Allen Ginsberg – cuja leitura vem se estendendo desde outubro passado – e me deparei com mais uma passagem que merece uma escrevinhadinha aqui.
O trecho conta um episódio de 1994 quando a Gap, clássico magazine da classe média americana, botou na rua uma campanha com nomes proeminentes da cultura e da contracultura que haviam… usado calças cáqui. As chamadas “khakis” são um dos ícones mais perenes da história da moda, tendo origem na vestimenta militar e chegando ao uso civil como parte do uniforme “business casual”.
Segundo o blog Listology…
“Arthur Miller wore kakhis.
Kerouac wore khakis.
Andy Warhol wore khakis.
James Dean wore khakis.
Isamu Noguchi wore khakis.
Miles Davis wore khakis.
Howlin’ Wolf wore khakis.
Marlene Dietrich wore khakis.
Amelia Earhart wore khakis.
Allen Ginsberg wore khakis.
Pablo Picasso wore khakis.
Marilyn Monroe wore khakis.
Jean Cocteau wore khakis.
Chet Baker wore khakis.
Hemingway wore khakis.
Steve McQueen wore khakis.
Frank Lloyd Wright wore khakis.
Zsa Zsa wore khakis.”
A idéia da Gap com a campanha não é difícil de decodificar: apimentar um pouco o status das calças cáqui, que haviam se transformado (e ainda são, de certa forma) em sinônimo de caretice e yuppismo. No voraz mercado consumidor americano, forjado à base de consumo como forma de rebeldia, não tinha como dar errado. Deve ter vendido horrores.
Mas, ao mesmo tempo, claro que um monte de gente caiu matando em cima do Allen Ginsberg. Como um dos pais da contracultura aceitou 20 mil dólares pra pousar pra anúncios da Gap? É mais ou menos como se o Lourenço Mutarelli daqui a pouco aparecesse num comercial da Renner.
Mas no livro do Bill Morgan, esse que tô lendo, conta-se que a motivação do velho beat era nobre: o dinheiro seria – e foi – todo doado à Escola Jack Kerouac para Poetas Desencarnados, parte da universidade budista de Naropa no Colorado. Não adiantou muito. Mesmo com a doação integral do cachê citada no anúncio, Ginsberg foi alvo de uma onda de críticas por “ter se vendido”. Qualquer defesa diante de turbas contraculturais enfurecidas é sempre inútil e o poeta se limitou a lamentar (e talvez aproveitar o fuzuê, pois era conhecido tanto por sua generosidade quanto por seu ego tamanho família). O curioso é que Ginsberg sempre viveu de forma materialmente muito mais simples do que nomes como o amigo Bob Dylan ou Mick Jagger, também ícones da contracultura mas que raramente foram criticados por seus luxos.
Coisas do mundo pop, que obedece a uma lógica, mas não necessariamente serve a algum tipo de justiça. Ou seria o contrário?
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Nos anos 90, a Levi’s também fez anúncio usando trechos de livros (e grandes fotos) de Kerouac, Ken Kesey e Hunter Thompson onde eles citavam a marca no meio da história. Não achei numa busca rápida do Google Images, mas lembro claramente de ver isso em algum anuário de publicidade. Se eu achar um dia desses, escaneio as peças.
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O Crushable fez uma brincadeira – não tão brincadeira – com a primeira imagem do On The Road do Walter Salles Jr. De fato, como coloca o blog, é uma foto que se presta perfeitamente para anúncios.
Mais uma prova da bagunça que se tornou a iconografia contemporânea. Ninguém é mais de ninguém – e isso, ainda que assustador, tem aí um componente de liberdade.
“Ele tratava entrevistas como um forma de arte para transmitir conhecimento de uma geração a outra, como fazem os roshis japoneses. De fato, a habilidade de conversação de Ginsberg, além de seu talento literário, talvez fosse sua mais marcante qualidade. (I Celebrate Myself – The Life and Times of Allen Ginsberg)
No post sobre a questão do George R.R. Martin, comentei sobre a tendência da comunicação dos artistas com seu público se tornarem obras em si. Claro, não é algo recente e nem exclusivo da cultura digital, como mostra a citação acima. A persona dos artistas, em muitos casos, sempre foi também um trabalho de criação, às vezes narrativa, às vezes verbal, às vezes visual, às vezes uma criação por ausência de sinais (no caso de reclusos como Salinger e Rubem Fonseca). O que acontece, atualmente, é que se intensifica a instantaneidade dessa criação, prescidindo muitas vezes da mediação da imprensa estabelecida, que geralmente impõe um atraso nessa comunicação.
Mais uma vez, isso tudo me lembra o Twitter do Emicida, que manteve-se em constante tuitagem durante sua viagem pelos Estados Unidos de uma forma tão espontânea (ou aparentemente espontânea). De alguma forma, o fluxo de twitts guarda parentesco próximo com suas rimas, cada um no seu meio, claro. Próximo passo: batalha de MC’s no Twitter. Acho que já andou rolando informalmente, mas alguém já ouviu falar de uma organizada? Talvez sim, não frequento com frequencia a tuitosfera rappeira.
Como diz não me lembro quem: que tempo para viver, senhores!
PS1: É com imenso prazer que coloco George R.R. Martin, Emicida e Allen Ginsberg no mesmo texto!
PS 2: Tá com tempo? Interessado? Complemente sua leitura com , um texto sobre batalha Emicida x Cabal do mestrando em antropologia social Ricardo Indig Teperman – que o Matias postou na íntegra no Sujo.
Numa rápida folheada, o que mais chama a atenção em um livro do Jeffrey Brown são aspectos que provavelmente vão afastar a maior parte das pessoas. Afinal, estamos falando de 1) quadrinhos 2) autobiográficos 3) desenhados toscamente, uma combinação que não fica em pé na sua estante ou na sua memória a menos que 1) o cara seja muito bom contador de histórias e 2) os desenhos toscos sejam mera fachada.
Esse é o golpe ao contrário de Jeffrey Brown que, de fato, me enganou direitinho. Não fosse minha mulher, que nem é fã de quadrinhos mas que teve a sensibilidade de comprar dois livretos dele, eu não teria ultrapassado esse esquisito pedágio estético e não teria tido 3 das leituras mais bacanas dos últimos tempos.
Vamos começar por Clumsy, primeiro livro publicado por Brown e também o primeiro que eu li dele. Curiosamente, também é o tipo de livro do qual eu fujo: cansei de quadrinhos sobre caras desajeitados (uma das traduções pra clumsy) e suas desventuras sentimentais. Mas, por algum motivo, Clumsy me prendeu do início ao fim e nem tanto porque eu queria saber o fim da história (o rompimento da relação de Brown com uma namorada à distância, anunciado logo de cara) nem tampouco porque eu precisasse ir até o fim para terminar a narrativa (Clumsy é uma coleção de pequenas cenas cotidianas).
O grande atrativo do Clumsy (e, na verdade, também dos outros dois livros dele que eu li) é a sensibilidade de Brown pra escolher a dedo que momentos da vida privada rendem uma cena interessante. Em uma época em que o escangalhamento da privacidade é regra, se torna ainda mais difícil criar narrativas a partir de momentos privados, já que muita gente passou a acreditar que todo momento privado fosse naturalmente uma narrativa. É aí que entra o treinamento exaustivo a que o autor se submeteu.
Em Funny Misshapen Body, Brown deixa de focar apenas sua vida sentimental pra nos entregar fartas e bem servidas sequências de sua formação. Lá descobrimos que ele se alimentou durante anos de uma dieta consistente de quadrinhos, começando com os super heróis mas passando, mais adiante, para a seara das graphic novels independentes. Nomes como Chris Ware e Daniel Clowes são frequentemente citados e, no caso de Ware, ele mesmo é personagem de algumas historietas deste volume: o respeitado autor de Jimmy Corrigan é quem dá o primeiro empurrão na carreira de quadrinista de Brown, orientando o rapaz a investir na autopublicação de Clumsy depois de repetidas rejeições editoriais.
Isso é bacana: após acompanharmos o autor em momentos de sua infância, da vida na escola, da escolha pela educação formal em arte (tô dizendo que esses desenhos toscos são só pra nos enganar…), pelos seus clássicos subempregos de Geração X e até por alguns relacionamentos, o livro termina com a história da concepção e publicação de Clumsy, o primeiro livro. Algum ciclo certamente se fecha aí.
O título Funny Misshapen Body é inspirado em grande parte na doença crônica de intestinos que acompanha Brown num bom pedaço da sua vida até então. Essa passagem é ao mesmo tempo exercício e prova do talento do cartunista: transformar um episódio médico de intestinos em algo a ser acompanhado exige mais do que meia dúzia de câmeras escondidas e uma audiência adestrada no mundo dos reality shows. É preciso, de fato, ter o olhar detalhista que revela (ou induz) as nuances escondidas no cotidiano mais intragável. Não estamos falando de um mero relato, mas quase de um trabalho de escultura, de retirar os excessos e deixar o essencial, tanto em termos verbais quanto visuais.
Little Things pende mais para Body do que para Clumsy. Continuam, aqui e ali, as aventuras sentimentais, mas está mais para uma coleção de fatias (como diz o subtítulo) da vida cotidiana. Apesar de ser mais do mesmo, é um pouco como Ramones: se você curte o jeito como ele resolve as coisas no papel (que não deixa de ser meio Ramones, à base do 1-2-3-4), não é enjoativo.
A história que fecha Little Things, assim como em Body, também é simbólica. Deixando pra trás os rolos de relacionamento, as doenças crônicas, as viagens de acampamento e a vida de gerente de loja de CD pra dar as primeiras pinceladas da paternidade. De novo, o tema de concepção fecha um volume do autor. Não sei dizer se esse padrão se repete no resto da obra, mas assim que eu for voltando aos livros de Brown, o que pretendo fazer aos poucos, vou contando pra vocês.
Deixo aqui, então, mais essa indicação dessa tecla que tenho insistido em bater: quadrinhos de não-ficção. Em temos de investigação endêmica da vida alheia, como já disse, por meio de reality shows e redes sociais, é bacana ver uma abordagem que se insere nesse traço forte da cultura contemporânea conseguindo fugir da vulgaridade. Ou seja, não precisamos negar nossa inserção no zetgeist, no espírito do tempo, e nem precisamos chafurdar na superficialidade.
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Algumas notas finais.
A produção de Brown é relativamente grande. Não deixe de dar uma olhada na página dedicada a ele na Amazon ou, se preferir, compre direto nas editoras. O site do autor tem os links.
Ele inclusive já publicou material de ficção e humor, fora do escopo das próprias memórias. Mas esses, confesso, ainda não conheço.
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Cheguei no trabalho do Jeffrey Brown de um jeito muito bacana e meio do avesso. Em outubro, eu e minha mulher estávamos em Montreal (ainda sai um post sobre a cidade) quando encontramos por acaso (juro) a loja da Drawn & Quaterly, uma das mais importantes editoras de quadrinhos independentes do mundo, uma espécie de Fantagraphics menorzinha e canadense. Lamentavelmente, me esqueci de tirar uma foto na frente da loja.
Bem, na primeira esbarrada com a D&Q, fizemos uma visita rápida pois nossa caminhada tinha outros objetivos e também tinha tanta coisa pra comprar que fiquei meio tonto e não gosto de comprar nada logo de cara. Alguns dias depois, voltamos lá dedicados a explorar a loja de fato e saímos com duas sacolas de material muito bom. Foi lá que comprei, por exemplo, o French Milk e o New Orleans After the Deluge, já comentados aqui.
Minha mulher, que não é tão fã de quadrinhos, também fez seu pequeno rancho e levou dois pequenos livros do Jeffrey Brown, além de um outro álbum bacana que ainda não li e que certamente será comentado aqui em breve. Devo a ela a descoberta. É como se eu, inapto para o mundo gourmet, tivesse apresentado um bom restaurante a ela, que domina os prazeres da mesa.
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Se você também curte quadrinhos, explore a categoria LIVROS do blog. Eu não faço distinção entre livros “escritos” e livros “desenhados”. Pra mim é tudo LIVROS.
Muito já foi, muito está sendo e muito será dito sobre este filme. Portanto, serei breve. É preciso ter visto o filme pra que meus comentários façam sentido. Logo, contém spoilers.
1. Me chamou a atenção o quanto o Darron Aronofsky foi comedido e segurou bem a onda de não enfiar o pé no dramalhão. Cisne Negro, daqui a alguns anos, vai cair bem no Tela Quente ou no Supercine. Ou seja, é pop mas se exime, por exemplo, de flashbacks lacrimosos sobre a história da mãe da Natalie Portman ou então explorar à exaustão a tensão entre ela e o macho-alfa Vicent Cassel, ou entre ela e a Mila Kunis.
2. O lado mais mágico do filme também não faz muito alarde. A suposta transformação física da bailarina humana em um animal é tocada de leve, aqui e ali. Mais uma vez, Aronofsky poderia ter metido o pé com cenas bizarras e chocantes de Natalie se tornando de fato o cisne negro. Mas o cara manteve a compostura e limitou-se a pinceladas do bizarro.
3. Cisne Negro é o In Utero do Aronofsky.
4. No fundo, Cisne Negro é mais um dessa linhagem recente de filmes de Hollywood que se passa em grande parte dentro da mente de protagonistas, como A Origem ou Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança. Aliás, a meu ver, esse é justamente o seu mérito: é uma excelente história no sentido de mostrar a capacidade humana pra causar confusão dentro da sua própria mente e achar que ela está acontecendo fora.
Como diria John Lennon, mind games…
O texto abaixo não me pertence, ele é do UOL. Eu ia só linká-lo aqui, mas não o encontrei numa página decente, que desse pra vocês lerem direito (só num site wap, bizarro), então copiei e colei aqui. É o melhor texto de zumbis que já li e ficou vários dias na minha mente. Bem, na verdade, acho que foi único texto de zumbis que eu já li. Mas, independente disso, pela primeira vez vejo alguém ir um pouco além da tradicional clichê de comparar os zumbis com os cidadãos dominados pela sociedade de consumo, hipnotizados pela tv, toda essa lenga-lenga. Agradeço ao amigo @acarlucci por me ter enviado a matéria (e todas as outras).
Preste atenção ao ponto principal do ensaísta Chuck Klosterman: lidar com zumbis se parece muito com lidar com as repetitivas e automultiplicadoras tarefas do cotidiano contemporâneo. A caixa de emails, como já comentei aqui, é um dos melhores exemplos. Lidar com os emails é mais ou menos como lidar com zumbis. Você senta e fica atento. À medida em que eles chegam, você precisa eliminá-los sob pena de ser soterrado, mordido e se transformar num deles. Um tanto quanto drástico, não? Talvez não seja a verdade inteira, mas é uma visão bacana e frutífera, rende uma reflexãozinha básica.
(Ah: se você gosta de zumbis, talvez curta ler minha resenha de Colin , um filme de zumbis diferente, porque toda a narrativa é feita do ponto de vista de um zumbi e não dos seres humanos não infectados. O filme é bem interessante.)
Sem mais, ao texto:
O iminente apocalipse de zumbis: por que o mundo moderno parece morto-vivo
por Chuck Klosterman
Os zumbis são um patrimônio valioso. Eles são mudos, lentos e sem cérebro, mas são um mercado em constante expansão e sem obstáculos. Os zumbis são um ambiente muito rico, literalmente e figurativamente. Quanto mais você os enche de balas, mais interessantes eles se tornam.
Cerca de 5,3 milhões de pessoas assistiram ao primeiro episódio de “The Walking Dead” na AMC, surpreendentes 83% a mais do que os 2,9 milhões que assistiram à estréia da quarta temporada de “Mad Men”. Isso significa que existem pelo menos 2,4 milhões de norte-americanos com TV a cabo que talvez prefeririam ver Christina Hendricks se ela fosse um defunto animado.
Estatística e esteticamente essa dissonância parece perversa. Mas provavelmente não deveria. O interesse da cultura de massa pelos zumbis aumentou constantemente durante os últimos 40 anos. Os zumbis são um produto que avançou lentamente e sem uma grande evolução. Eles são parecidos com as criaturas chocantes que George Romero popularizou em seu filme “Noite dos Mortos-Vivos” de 1968.
O que torna essa ampliação curiosa são as limitações inerentes ao próprio zumbi: não é possível acrescentar muita profundidade a uma criatura que não pode falar, não pensa e cuja única razão de ser é comer carne. Você não pode humanizar um zumbi, a menos que o torne menos zumbi. Há zumbis lentos, há zumbis rápidos – e este é praticamente todo o espectro da diversidade dos zumbis. Não é que todos os zumbis estejam mudando para se adaptar à condição do mundo; é que a condição do mundo se parece mais com uma ofensiva de zumbis. Alguma coisa a respeito dos zumbis está se tornando mais intrigante para nós. E acho que sabemos o que é essa coisa.
Os zumbis são simplesmente muito fáceis de matar.
Quando pensamos criticamente sobre monstros, tendemos a classificá-los como personificações do que tememos. O monstro de Frankenstein ilustra nossa trepidação em relação à ciência descontrolada; Godzilla nasceu do medo da era atômica; lobisomens se alimentam de um pânico instintivo da predação e da alienação do homem em relação à natureza. Vampiros e zumbis compartilham uma ansiedade arraigada em relação às doenças. É fácil projetar uma relação simbólica entre os zumbis e a raiva (ou entre os zumbis e as armadilhas do consumismo), assim como é fácil projetar uma relação simbólica entre o vampirismo e a Aids (ou o vampirismo e a perda da pureza). Do ponto de vista criativo, essas projeções de medo são narrativas fundamentais; elas transformam as criaturas em ideias, e este é o ponto.
Mas e se o público deduzir uma metáfora totalmente diferente?
E se as pessoas contemporâneas estiverem menos interessadas em ver retratos de seus medos inconscientes e mais atraídas pelas alegorias de como se sentem em sua existência cotidiana? Isso explicaria porque tantas pessoas assistiram ao primeiro episódio de “The Walking Dead”: elas sabiam que seriam capazes de se relacionar com aquilo.
Boa parte da vida moderna é exatamente como assassinar zumbis.
Se há uma coisa que todos nós entendemos sobre matar zumbis, é que o ato não é complicado: você explode o cérebro de um bem de perto (de preferência com uma arma de fogo). Este é o primeiro passo. O segundo é fazer a mesma coisa com o próximo zumbi que aparecer. O terceiro passo é idêntico ao segundo, e o quarto não é nem um pouco diferente do terceiro. Repita o processo até que (a) você é derrotado, ou (b) os zumbis acabam. Esta é de fato a única estratégia viável.
Cada guerra com zumbis é uma guerra desgastante. É sempre um jogo de números. E é mais repetitiva do que complexa. Em outras palavras, matar zumbis é filosoficamente semelhante a ler e deletar 300 e-mails de trabalho numa manhã de segunda-feira ou preencher documentos que apenas geram mais documentos, ou acompanhar fofocas no Twitter por obrigação, ou fazer tarefas entediantes nas quais o único risco verdadeiro é ser consumido pela avalanche. O principal problema em qualquer ataque de zumbis é que eles nunca pararão de aparecer; o principal problema da vida é que você nunca vai terminar com o que quer que seja que você faça.
A internet nos lembra disso todos os dias.
Eis uma passagem de uma jovem escritora chamada Alice Gregory, retirada de um ensaio recente sobre o livro distópico de Gary Shteyngart, chamado “Super Sad True Love Story” na revista literária n (PLUS)1: “É difícil não pensar ‘pulsão de morte’ toda vez que entro na internet”, ela escreveu. “Abrir o Safari é uma decisão ativamente destrutiva. Estou pedindo que a consciência seja tirada de mim.”
O temor auto-dirigido de Gregory é tematicamente semelhante a como o cérebro do zumbi é descrito por Max Brooks, autor da história oral ficcional “World War Z” e do manual de autoajuda que o acompanha, “The Zombie Survival Guide”: “Imagine um computador programado para executar uma função. Esta função não pode entrar em pausa, ser modificada ou apagada. Nenhum dado novo pode ser guardado. Nenhum novo comando pode ser instalado. Este computador fará apenas aquela função, repetidas vezes, até que sua fonte de energia eventualmente se esgote.”
Esta é a projeção do nosso medo coletivo: de que seremos consumidos. Os zumbis são como a internet e a mídia e todas as conversas que não queremos ter. Tudo isso chega a nós incessantemente (e irrefletidamente), e – se nos rendermos – seremos tomados e absorvidos. Mas esta guerra é administrável, se não necessariamente vencível. Desde que continuemos deletando o que quer que esteja à nossa frente, sobreviveremos. Nós vivemos para eliminar os zumbis de amanhã. Nós somos capazes de continuar sendo humanos, pelo menos por enquanto. Nosso inimigo é incansável e colossal, mas também estúpido e sem criatividade.
Lutar contra zumbis é como lutar contra qualquer coisa … ou contra tudo.
Por causa da série “Twilight” é fácil argumentar que os zumbis estão meramente substituindo os vampiros como monstros do momento, uma designação que deveria ser importante por motivos metafóricos, não monstruosos. Mas esse tipo de pensamento é enganador. O aumento de interesse por vampiros durante os últimos cinco anos diz respeito apenas ao sucesso da série multiplataformas “Twilight”, uma marca que não tem nada a ver com o vampirismo. Ela diz respeito à nostalgia pela castidade adolescente, à atração causada pelo elenco do filme e ao fato de que os consumidores de ficção contemporâneos tendem a preferir livros longos e em série que são lidos rapidamente.
Mas isso ainda assim criou um efeito dominó. O filme sueco de vampiros “Let the Right One In”, de 2008, não teria sido refilmado nos Estados Unidos se “Twilight” nunca tivesse existido. “The Gates” foi uma tentativa aberta da ABC de atrair o público pré-adolescente que não sai de casa; “True Blood” da HBO é uma reação à sinceridade direta de Robert Pattinson.
A diferença com os zumbis, é claro, é que é possível gostar de um tipo específico de vampiro temporariamente, o que não é uma opção em se tratando de mortos-vivos. Personagens como Edward Cullen de Pattinson em “Twilight” e o Lestat de Lioncourt de Anne Rice, e até mesmo o velho e chato Conde Drácula, podem ser multidimensionais e eróticos; é possível descobrir quem eles são e quem foram um dia. O amor por vampiros pode ser singular. O amor do zumbi, entretanto, é sempre comunal.
Se você gosta de zumbis, você gosta do conceito inteiro de zumbi. Nunca é algo pessoal. Você se interessa pelo significado dos zumbis, você gosta do jeito que eles se movem e entende o que é necessário para detê-los. E essa é uma atração confortável, porque esses aspectos não mudam na verdade. Eles se tornaram um conhecimento arquetípico compartilhado.
Poucos dias antes do Halloween eu estava no estado de Nova York com três outras pessoas. Nós acabamos indo parar no Celeiro do Terror, nos arredores de uma cidade chamada Lake Katrine. Entrar no celeiro era levemente perturbador, embora talvez não tão assustador quanto entrar num verdadeiro celeiro abandonado que não cobrasse US$ 20 e não tem seu próprio domínio na internet.
Independente disso, a melhor parte foi quando saímos do celeiro do terror e fomos imediatamente conduzidos a um ônibus escolar que nos levou a uma plantação de milho a cerca de 40 quilômetros dali. A plantação estava repleta de atores amadores, alguns interpretando militares e outros fazendo o papel de “infectados”.
Disseram-nos para correr pelo campo à luz da lua se quiséssemos sobreviver. Enquanto corríamos, soldados armados gritavam instruções contraditórias enquanto zumbis emergiam do meio da escuridão da plantação. Era para ser divertido, e foi. Mas pouco antes de entrarmos no meio do milharal, um de meus companheiros criticou sardonicamente a realidade de nossa situação.
“Sei que isso deveria meter medo”, disse ele. “Mas estou muito confiante na minha capacidade de lidar com um apocalipse de zumbis. Sinto-me estranhamento informado sobre o que fazer nesse tipo de cenário.”
Eu não poderia discordar. Nesse ponto, quem não está informado. Todos nós sabemos como é: se você acordar do coma, e não ver imediatamente um membro da equipe do hospital, assuma que os zumbis tomaram o local durante sua incapacitação. Não viaje à noite e mantenha suas cortinas fechadas. Não deixe zumbis cuspirem em você. Se você derrubar um zumbi, atire uma segunda bala em seu cérebro. Mas acima de tudo, não assuma que a guerra está vencida, porque ela nunca está.
Os zumbis que você mata hoje serão meramente substituídos pelos zumbis de amanhã. Mas você pode fazer isso, meu amigo. É desencantador, mas não é difícil. Mantenha seu dedo no gatilho. Continue com o extermínio. Não deixe de acreditar. Não deixe de deletar. Responda às suas mensagens de voz e cumpra com seus acordos. Este é o mundo dos zumbis, e nós apenas vivemos nele. Mas podemos viver melhor.
Chuck Klosterman é autor de “Eating the Dinosaur” [“Comendo o Dinossauro”] e “Sex, Drugs, and Cocoa Puffs” [Sexo, Drogas e Cereal de Chocolate]
Tradução: Eloise De Vylder
Fazia tempo que eu não dava uma olhada no trabalho dela.
Lembrando que eu entrevistei a Jeana…
… alguns anos atrás. Dá uma lida aqui.
Nos últimos anos, algum bichinho me mordeu e tenho preferido muito mais ler não-ficção do que ficção. Biografias e diários de viagem, em especial, tem me chamado a atenção e não vou aborrecer vocês com possíveis detalhes psicanalíticos sobre os motivos que me levaram a gestar essa nova preferência.
Mais especificamente, diários de viagem em quadrinhos passaram a ocupar mais espaço na minha biblioteca e a razão é muito simples: embora escritores, em geral, tenham um olhar rico para relatos estrangeiros, quando eles são produzidos por cartunistas, esse olhar é de fato um olhar (com os olhos!) Mais do que isso, é quase um processo de transferência, uma relação interativa porque como leitores a gente compartilha não só as impressões verbais mas também um pouco do universo visual visitado, mediado pela sensibilidade plástica e pelo traço particular de quem desenha. Ou seja, a gente viaja um pouco mais no relato de viagem ilustrado.
Enfim, foi por isso (e impulsionado pela capa adorável) que acabei comprando French Milk, da Lucy Knisley (tem pro Kindle!). O livro é o relato do período de um mês que a cartunista americana passou com sua mãe em Paris na dobra da adolescência para os primeiros passos do mundo adulto. É durante French Milk, flanando por Paris, que Lucy começa a ter pequenos lampejos das dúvidas práticas e existenciais que vão permear sua década pós-faculdade. E embora sem muita profundidade, o traço simpático beirando o clássico (lembra um pouco Craig Thompson e Will Eisner, bem como antigos cartunistas americanos) e a boa noção de Lucy ao selecionar recortes de sua estadia sem necessariamente montar uma narrativa com focos dramáticos (de dramatização, não de dramalhão) – essa equação que acabou me ganhando.
Nesse sentido, ler French Milk é bem diferente de ler os relatos de Guy Deslile ou Conejo de Viaje do Liniers (cartunistas em diferente estágio de maturidade artística e pessoal). Também não dá pra colocar Lucy na mesma área de gente com densos ares autobiográficos como o Dash Shaw e a Alison Bechdel. Mas essa despretensão não chega a diminuir o prazer de folhear a crise de 1/4 de idade de Lucy. Ainda mais uma crise que come croissant e visita o túmulo do Oscar Wilde. Se não é chique no último, deve ser pelo menos no antepenúltimo. E já tá de bom tamanho.
Bom, disto isto, não deixe de dar uma olhada no blog da Lucy, onde você também vai encontrar mais uma história confessional sobre a separação com o namorado (que aparece em French Milk). São 20 páginas com uma série de pequenos insights bacanas sobre a participação de objetos pessoais em separações e que poderiam muito bem render um disco emo caso fossem mal lapidados – e não são. Salvaged Parts está pra download em PDF (dá pra carregar no Kindle também e fica bem decente) por míseros dois dólares.Eu baixei e vale os R$ 3,50.
Além do mais, o blog é recheado com ilustrações doces e divertidas como essa:
Ou então, o trabalho que ela teve de compactar um filme inteiro do Harry Potter em um único poster:
Alô, Zarabatana Books! Ficadica!
Esse blog sobrevive da ambição suicida de tentar entender o contexto em que vivemos hoje através dos códigos da cultura digital, cinema, música, quadrinhos, entre outras prateleiras.
Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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