Categoria: Arte


terça-feira, 15 de dezembro, 2009

File à Pé - encerramento

A idéia inicial era fazer uma boa pesquisa a respeito do último trabalho do Francis Alÿs que eu ia comentar. Mas mudei de idéia e vou escrever tudo de cabeça mesmo, sem link pra lugar nenhum, baseado no único gancho físico que eu tenho: esse postalzinho aí em cima que peguei no Malba em Buenos Aires há uns 3 anos. Ele, pobrecito, está todo amassado e meio detonado. Já foi o olhar de boas vindas da porta do banheiro do meu ex-apartamento, mas hoje descansa embaixo da minha tela no trabalho pra me lembrar dos espejismos. Você já leu o texto embaixo da foto?

O negócio é o seguinte: você entrava no Malba, descia as escadas e, à direita, lá embaixo, havia um salão com diversas mesas. Sobre elas, umas vinte ou trinta peças entre mapas, esquemas e desenhos. Em uma sala contígua, um filme em loop mostrava uma estrada da Patagônia do ponto de vista do motorista de um carro. Ou um pouco mais à frente, pois o motorista enxergaria o volante e nós, assistindo ao filme, é como se  fôssemos uma câmera presa no capô. Então o panorama era esse: uma larga faixa que se afinava até chegar ao horizonte, encontrando o céu, e os dois (a larga faixa e o céu) confundiam-se a partir de uma terceira faixa intermediária de calor, sabe aquela faixa de calor na estrada? Ela mesma, tratando de cozinhar sem cerimônias o arroz e feijão da terra e do céu.

Era um loop. Uma viagem interminável que levava a lugar nenhum.

Os mapas e esquemas, pelo que me recordo, diziam respeito ao planejamento dessa viagem feita pelo Francis Alÿs. O nome do projeto todo: The Story of a Deception / Historia de um Desegaño. Não sei se decepção e desengaño são correspondentes diretos na tradução inglês/espanho. Mas lembre-se que desengano em português é muito usado pra classificar a morte. “Ele foi desenganado pelos médicos.” Cara, de onde saiu essa expressão? Quer dizer que ele estava se enganando? Que os médicos o estavam enganando? Que estamos todos enganados? Smart people…

Eninuêi, apesar do filme em loop indicar claramente uma viagem de carro, o registro no cartão postal (a melhor coisa do projeto todo, a meu ver, o gancho necessário e massa) falava da tribo dos tehuelches, que caçava o ñandú caminhando (você ainda não leu o texto?). Pelo que me lembro, havia também um outro texto em alguma parede da exposição contando que o Francis Alÿs esbarrou nesse hábito dos tehuelches enquanto trabalhava no projeto do filme em loop. Ele não foi atrás dos tehuelches, mas, como muitos artistas, cientistas e buscadores, encontrou o que estava procurando sem ter procurado. Vai ver ele, de carro, perseguindo espejismos, cruzou com um tehuelche perseguindo ñandú. Os dois se olharam e se sentiram em frente a um espelho. O gringo e o índio. O caçador e o artista.

“We, of our time, must chase mirages”.

Sem mais perguntas. A testemunha, agora, é sua.

Postado por Gustavo Mini às 9:08 | Sem comentários | Permalink

segunda-feira, 7 de dezembro, 2009

Filé à pé

Engraçado essas coisas: eu demorei 35 anos pra descobrir que adoro caminhar. E como uma boa parte das coisas que eu gosto na minha vida, eu primeiro recebi isso com um ponta de decepção (”putz, eu gosto de caminhar e não caminho tanto”) pra depois perceber que, ei, de alguma forma, na verdade, eu sempre caminhei bastante, mesmo quando achava que não. O que acontecia é que eu só inventava desculpas pra caminhar e agora que eu descobri isso, não preciso: eu posso simplesmente sair caminhando.

Caminhar também é parte fundamental do meu processo criativo, seja no trabalho, seja pra resolver qualquer outra questão pessoal. E não é que na caminhada eu pense ou raciocine, muito antes pelo contrário. Eu gosto de pensar sentado. Vejo o caminhar como aquela folga dos pensamentos, aquele espaço aberto onde as peças talvez possam se encaixar, caso estejam prontas pra se encaixar. É um espaço criativo no sentido mais passivo. Você abre espaço e deixa que os elementos da sessão anterior de pensamento laborioso façam o que têm que fazer - e se não tiverem que fazer nada, azar o meu.

Descobri que é por isso também que gosto tanto dos trabalhos do Francis Alÿs. Mas o cara, esse artista belga que mora na Cidade do México e de quem já falei aqui, leva a questão da caminhada um pouco além do “simples” processo criativo. Uma boa parte do que ele faz usa o caminhar como linguagem ou como ferramenta. Não é que o Alÿs curta uma caminhadinha. Ele é um caminhante, um botânico da calçadas (essa é do Baudelaire) que flutua entre o envolvimento e o distanciamento com o espaço à sua volta.

Em 2005, eu estava em Barcelona e, depois de caminhar bastante, fui visitar o MACBA numa pilha “o que tiver aí eu vejo”. E o que “tinha lá” era a mostra “A pie desde el estudio”, do sujeito supracitado. A exposição reunia uma série de obras em diferentes suportes todas geradas, segundo as palavras do próprio Alÿs, a partir de “tudo que vi, ouvi, fiz, não fiz, entendi ou não entendi num raio de dez quarteirões a partir do meu atelier no centro histórico da Cidade do México”. Ou seja, pra falar mais tecnicamente, produtos de passeadinhas.

Mas uma passeadinha do Alÿs não é como as minhas passeadinhas. O cara tem a manha, por exemplo, de entrar em uma loja, comprar uma arma e sair caminhando durante doze minutos com um parceiro filmando até que a polícia seja chamada, o aborde e o prenda. Mais do que isso, ele ainda consegue convencer os policiais de que é um… artista e a re-encenar a caminhada COM a participação dos “tiras”. E o que a gente assiste no museuzinho não é o vídeo do primeiro passeio e nem da re-encenação, mas os dois reunidos em uma única projeção, cada um de um lado da tela. Os últimos minutos de “Re-enactement” estão aí em cima.

Coisas de gringo no terceiro mundo. Ou você acha que na Bélgica, terra natal do Alÿs, ele ia conseguir essa mamata? Ou será que assistimos a um típico ato de prevaricação de policiais do hemisfério sul? Ou a um caso isolado de homens da lei fanfarrões sobre o qual estou aplicando meus preconceitos menos sutis? Bom, meu amigo, aí…

(continua)

Postado por Gustavo Mini às 17:22 | 3 Comentários | Permalink

quinta-feira, 26 de novembro, 2009

Bukowski e os computadores

A dúvida se a tecnologia atrapalha ou incrementa o talento de um artista não é nova. Ela vem de séculos e chega até os nossos tempos envolta em polêmica. O escritor Charles Bukowski foi um dos que abraçaram a tecnologia como uma facilitadora. Em 91, Bukowski ganhou um computador de sua esposa e a partir daí sua produção de poemas aumentou. Em parte pela sua maturidade como poeta, é claro. Mas em parte também graças ao processador de textos do computador, algo que ele deixou claro em algumas cartas.

Bukowski, que também chegou a comentar sobre a possibilidade de lançar um e-book, é um escritor até hoje comemorado pela sua tosquice. Ele poderia muito bem ser associado um certo sentimentalismo com o passado. Mas sua abertura à tecnologia é apenas um lembrete de que seu espírito transgressor não estava preso à nostalgia por ferramentas de trabalho vintage.

***

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

E nesse link que alguém me passou, não lembro quem.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 2 Comentários | Permalink

terça-feira, 24 de novembro, 2009

Sobre ir fundo em camadas horizontais

David e Maggie Loony se conheceram, namoraram e viveram casados por 40 anos. Ao longo desse tempo, tiveram três filhos, Dennis, Claire e Peter, que foram criados em uma casa de três andares na praia. Agora, beirando os 70 anos, papai e mamãe Loony chamam os filhos de volta à casa para um último aviso: eles estão se separando. Dennis pira, Claire reflete sobre o próprio divórcio e Peter… bem, Peter é o único que não é retratado com uma cabeça humana, mas com a de um sapo. E, não sei se tem a ver com isso, Peter encontra uma oportunidade de respirar.

Umbigo sem Fundo é isso: pura investigação humana usando como ferramentas a dissolução, a manutenção e a construção de laços familiares, usando um arsenal de escolhas narrativas e estéticas que faz o livro não parecer as 720 páginas que tem. Como objeto, Umbigo Sem Fundo é pesado e chato de carregar. Mesmo assim, eu o levei pra ler na praia, porque, como obra, a densidade e o peso do assunto são temperadas com um olhar amplo que empresta leveza e espaço pra que qualquer leitor (mesmo que não seja americano e filho de pais idosos se separando) possa se identificar com algum aspecto do impacto da decisão de David e Maggie. Conscientemente ou não, o que o jovem autor Dash Shaw fez foi transformar os meandros dolorosos da micro-saga dos Loony em um buffet de pequenas questões universais que pode ser acessado - como os bons buffets - por vários lados.

E assim o mundo anda. Página após página, podemos observar o desdobramento do divórcio dos Loony através diversas camadas: temos o discurso, as palavras, o que é dito pelos personagens; temos as onomatopéias, que são tão presentes na história como os ruídos do dia-a-dia são em momentos embaraçosos; temos as escolhas anatômicas dos personagens (Dennis é meio Homer Simpson, Peter é meio Caco dos Muppets); temos as decisões estéticas e técnicas de linguagem de quadrinhos (Shaw usa quase tudo que é possível usar); temos os cenários, os móveis, o céu, a areia, o mar, todos fazendo as vezes de apoio visual para pequenos dramas; e, por fim, temos a casa dos Loony, personagem fundamental na trama por servir de território de busca física e emocional, de Dennis e sua sobrinha Jill.

Pra completar, o traço de Shaw ainda se localiza numa espécie de limbo técnico: parece rascunho, mas é detalhista; é detalhista, mas parece relapso; é relapso, mas bate fundo. Como se isso não bastasse, a edição brasileira (talvez a americana também, não sei) vem impressa (por quê?) em uma cor bege, o que é perfeito para o tom da história já que pouca coisa entre os Loony é, em termos de sentimentos, só preto ou branco.

Bom, a essa altura talvez você já tenha notado… uma família disfuncional, uma casa na praia, um narrador que oferece espaço para a história se desenrolar e gosta de usar cenários e objetos como personagens. Se você juntar A com B, vai perceber que Umbigo sem Fundo se insere em toda uma linhagem americana de autores que trabalham dessa forma. Nos quadrinhos, já falei aqui sobre a recente Fun Home (aqui e aqui), por exemplo. No cinema, não é difícil lembrar de Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia, e Tempestade de Gelo, Os Excêntricos Tennenbauns, pra ficar em algo recente (alguém lembra de coisas mais antigas nesse sentido?) Se algum desses títulos calou fundo aí, não pense duas vezes sobre adquirir o pesado tomo de Umbigo sem Fundo. Também é um bom presente de Natal para um amigo ou parente que gosta de boas histórias desenhadas.

Exemplares autografados por Shaw durante a Bienal do Rio.

Uma última nota curiosa: diferente do que esse tipo de graphic novel/filme/romance possa sugerir (e quanta terapia disfarçada de literatura se faz nesse sentido!), Dash Shaw disse em entrevista à New Yorker que o livro não é autobiográfico. A família do autor sempre foi tranquila, seus pais estão juntos até hoje e, segundo ele, tem muito pouco dos Loony. O que talvez explique a poesia de Umbigo Sem Fundo: pra enxergar com tantas nuances certas tragédias, é preciso 1) a capacidade de se distanciar ou 2) estar de fato distante delas.

***

Bom, aqui tem dois links interessantes caso você queira ir um pouco mais adiante. Mas minha sugestão é a seguinte: leia o livro primeiro, depois explore as entrevistas.

Em todo caso, aqui estão elas.

Em inglês, pra New York Magazine: How Dash Shaw Wrote The Graphic Novel of The Year.

Em português, pro Grito.

E também, pra facilitar sua vida, comparação de preços no Buscapé.

Boa leitura.

Postado por Gustavo Mini às 9:25 | 4 Comentários | Permalink

sexta-feira, 13 de novembro, 2009

Tehching

O tailandês taiwanês (obrigado Good Blood) radicado nos Estados Unidos Tehching Hsieh é um dos mais interessantes artistas de performance dos últimos tempos. De 78 a 99 ele executou uma série de trabalhos que tinham como principal instrumento a sua própria vida.

Por exemplo, entre 85 e 86 ele passou o tempo inteiro sem produzir arte, sem falar em arte, sem ler sobre arte e sem entrar em museus ou galerias.

Ele apenas… viveu… seguindo essa regra simples que criou pra si mesmo e ficou durante um ano livre do mundo das artes.

Um dos aspectos mais interessantes da obra de Tehching é mostrar que regras não existem apenas para serem seguidas ou questionadas, mas também utilizadas como moldura; Enquanto muita gente busca alcançar liberdade tentando cortar todas as amarras, a pilha do cara é criar fronteiras específicas que servem como uma poderosa ferramentas de criação.

Conheci o trabalho do Tehching num dos workshops do professor Charles Watson sobre Processo Criativo, que já foram tema deste post e deste post.

***

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

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terça-feira, 6 de outubro, 2009

Miranda July & Cecil B DeMille

Mas o que que é isso? Isso é a Miranda July aprontando mais uma das suas, dessa vez com a conivência da revista novaiorquina Vice (onde foi publicada a série) e do fotógrafo Roe Ethridge. July, como é bem do seu feitio, sugou figurantes de filmes como Vidas Sem Rumo, Nos Tempos da Brilhantina, Kramer Vs Kramer, O Poderoso Chefão, entre outros, “recortou-os” dos fotogramas e reencenou seu papel em fotos onde ELES são o personagem principal. Não apenas principal, mas ÚNICO.

A minuciosa arqueologia de July e Ethridge é doce e inspiradora, mas também é um golpe baixo e um sintoma muito interessante sobre o espírito do nosso tempo. O golpe baixo vem da escolha de Miranda de filmes que caminham no inteligente limite entre o cult e o mainstream. É uma seleção fina que pende ora para o estilo cinemateca (Vidas sem Rumo), ora para o glorioso Sessão de Gala (Kramer Vs Kramer), mas que têm em comum um apelo visual nostálgico muito forte. Se cozinharmos a fotografia e o figurino desses filmes, sem grandes dificuldades vamos chegar em estéticas bastante utilizadas hoje em revistas como a própria Vice.

Graham, gurizão do blog Future Shipwreck, escreveu com um certo ar compassivo que o trabalho da Miranda July resgata figuras que foram destinadas ao total esquecimento, criadas especificamente pra serem invisíveis. Sem dúvida essa visão tem um apelo poético, especialmente quando ampliamos a questão do figurante pra vida real. Lembro automaticamente de Shady Lane, uma das músicas mais bonitas do Pavement, na qual Stephen Malkmus canta com melancolia: “You’ve been chosen as an extra to a movie adaptation of the sequel to your life” - “Tu foi escolhido como figurante numa adaptação pro cinema da sequência da tua vida”. É o cúmulo da humilhação na era do tudo-é-mídia-todos-estão-na-mídia.

Por outro lado, existe mais de uma via pra se enxergar o trabalho da Miranda July. Uma delas é essa busca intensa por protagonismo. Declarada no bilhete que abre a série no site da Vice, essa forte intenção de não ser simplesmente parte da paisagem é inata da cultura americana e ganhou nos últimos anos um caráter endêmico. Com a quantidade de ferramentas digitais de produção e distribuição de conteúdo, bem como as inúmeras novas formas de comunicação, não faz mais sentido ser um extra ficar lá trás. A internet, especialmente, tem esse caráter de trazer para a frente todos os extras. Todo mundo é figurante e todo mundo é protagonista, depende de quem está no comando do teclado, dependendo do ponto de vista.

Existe uma frase clássica da indústria do cinema a respeito de figurantes. Não tenho bem certeza, acho que é do diretor de épicos religiosos Cecil B. DeMille. Rezalenda que, de megafone na mão, ele gritou certa vez pra uma multidão que se preparava pra encenar uma batalha: “Não sejam figurantes! Sejam uma nação!”

Esse é bem o tipo de chamado bastante sedutor - sessenta anos atrás.

Já hoje, oito em dez palestrantes de publicidade adoram dizer que “Se o Facebook fosse um país, seria maior que o Brasil.” Pois é. Os figurantes já se tornaram uma nação, DeMille e seu megafone não são mais necessários. Os grandes chamados se diluiram. E a questão é o que fazer quando você faz parte de uma superprodução onde você e todos os figurantes em algum nível também são os atores principais.

Tempos interessantes.

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sábado, 26 de setembro, 2009

Videofinde: lúdico e comestível

Conheça os sucos Do Bem. Se o suco é bom e a história é real eu não sei. Mas os vídeos são massa.

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sexta-feira, 7 de agosto, 2009

Conector em Gotham parte 12: jesus é véio

… já a Liu Chuang, diferente do Sang Dong (sonoro esse início de post, não?) escolheu uma abordagem diferente pra questionar noções de identidade e falar da relação das pessoas com seus objetos e sentimentos. Ela simplesmente chegou em algumas pessoas aleatoriamente na rua e comprou TUDO que a pessoa estava usando e portando no momento, INCLUINDO chicletes, cuecas e documentos. TUDO. Depois, ajeitou as coisas numa bancada do New Museum e chamou a parada de “Buying Everything On You”. Eu olhei e comprei a idéia na hora. Foi mal aí o trocadilho, mas eu realmente me conectei com o trabalho da Liu Cheung por mais óbvio e direto que ele seja. Se um grande pintor pode, em pleno museu, despir uma pessoa com um quadro intenso, por que negar a outro artista a oportunidade de fazer isso literalmente e no meio da rua? E depois trazer pra dentro do museu não a pessoa prestes a ser despida mas tudo aquilo do que ela foi despida? Você vai negar? Hein? Hein? Eu não.

E se outro chinês, o Chu Yun, quiser criar uma escultura usando uma pessoa? E se a única forma de convencer essa pessoa a fazer parte de uma escultura viva for emboletar a querida com Dormonid (ou outra dessas substâncias que as pessoas usam pra se anestesiar) e colocá-la pra dormir dentro do museu (quem nunca “dormiu” dentro de um museu?), em uma cama branca, com lençóis brancos, como são as paredes da maior parte dos museus? Quem vai dizer que talvez ela seja a pessoa mais concentrada que está lá dentro? Não me meto nessas coisas. Cada um com seus problemas.

E o que você me diria se aparecesse mais um desse hoje ubíquo país pra botar alguns pingos nos is e outros embaixo do ponto de interrogação quando falamo da cultura cosplay, congelando imagens de cosplayers em situações absolutamente cotidianas, dando a real não apenas para eles, mas também para quem não entende qualé, borrando os limites e mostrando que está tudo certo como está, não há qualquer dissonância de realidade no cosplay? O que você me diria?

E, quando, cansado de chineses, você se deparasse com desenhos aparentemente infantis de objetos domésticos? E descobrisse que são desenhos da vó da Katerina Seda, a qual, nos seus últimos anos de vida, foi convencida a desenhar o que a rodeava, fazendo você pensar na degradação do corpo e da mente ao mesmo tempo em que tenta lhe convencer do valor do mundo cotidiano? E se isso tudo lembrasse a pequena distância que existe entre a infância e a velhice, lembrando que quando crianças desenhamos para conhecer um mundo que vamos explorar e que a senhora ali está desenhando infantilmente um mundo do qual está prestes a se despedir? Você ia sacanear a senhora e dizer que os desenhos dela não prestam?

E se você chegasse ao fim de um post cheio de pontos de interrogação e descobrisse que isso foi só uma gambiarra pra encobrir o fato de que o blogueiro amigo não sabia direito por onde começar o seu texto, estava com preguiça de consolidar um raciocínio decente então tacou-lhe o conteúdo fazendo pergunta atrás de pergunta para um leitor aleatório, puro fruto da imaginação hiperativa de alguém que queria, de alguma forma, por mais estúpida que fosse, dividir um pouco da fascinação que lhe causou a exposição Younger Than Jesus que estava rolando no New Museum?

Hein? Hein?

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terça-feira, 28 de julho, 2009

Conector em Gotham parte 11: não gaste, meu filho

A senhora Zhao Xiangyuan nasceu em 1938, algum tempo antes da revolução de Mao. Ela tinha 11 anos quando o caldo entornou, o que a colocou automaticamente dentro de uma geração marcada pra sempre pelas dificuldades de uma guerra civil, de medidas econômicas duras e de uma intensa revolução cultural. Não bastasse essa bagunça, o pai da senhora Xiangyuan ainda foi acusado de ser um espião anti-comunista e perdeu todo seu patrimônio. Mais tarde, já casada, a senhora Xiangyuan teve seu marido também acusado de atividades contra-revolucionárias, sendo obrigado a cumprir sete anos de trabalhos forçados.

E eu acho que tenho problemas.

Um dos legados mais fortes desse período, que a senhora Xiangyaun levou para toda sua vida, foi a filosofia do “Wu jin qi young”, traduzido pro inglês como “waste not” ou, em português razoável, “não gaste”. Diante da escassez de bens e recursos, o hábito de guardar embalagens e objetos velhos na garagem para um possível uso posterior se entranhou nela (e em seus amiguinhos) de tal forma que, mesmo quando em melhores condições, o hábito de juntar tralha permaneceu na cultura depois do período de dureza.

(Quem leu Maus do Art Spiegelman? O mesmo acontece com o pai do autor depois de passar por Aschwitz e acho que todo mundo tem em seus pais algo assim em menor escala.)

Em 2002, a senhora Xiangyaun estava lá, ainda juntando suas valiosas quinquilharias de forma agora extravagante e desnecessária diante de certas melhorias econômicas quando o senhor Xiangyaun… morreu. Seguiram-se, então, três anos de depressão e desespero, até que seu filho resolveu propôr uma forma interessante de trabalhar o luto. O filho da senhora Xiangyaun não é psicólgoco, mas um respeitado artista conceitual chinês. O nome dele é Sang Dong.

Bom nome. Sonoro.

Desistindo de convencer a senhora Xiangyaun a se mudar e se livrar do lixo seco, Sang Dong pediu à mãe que trabalhasse com ele em um novo projeto: expôr tudo aquilo que ela acumulou em décadas de “Wu jin qi young” ou “waste not”. Dessa forma, argumentou, ela conseguiria ir em frente e abrir mão do peso daqueles pertences acumulados mas dando um significado e um uso para tudo aquilo que, por tanto tempo, estava esperando… um uso.

Vai dizer: o cara é bom hein?

Waste not é uma das instalações mais lindas e emocionantes que eu já vi. É uma piada pronta em termos de arte contemporânea, porque basicamente é composta de lixo seco. Coisas que, pelo senso comum, deveriam ir pra reciclagem. Surpresa: elas foram pra reciclagem.

Como disse uma vez o Jorge Furtado, lixo é só uma coisa fora do lugar. Me desculpe se eu explico demais e tiro a poesia da situação, mas o que era inútil na casa da senhora Xiangyaun se tornou útil em uma série de âmbitos: ao se tranformar em obra de arte (embora muita gente não coloque isso na categoria de utilidade), ao ocupar espaço em um museu, ao servir de plataforma pra reflexões do público.

Quer mais ironia? Toma-lhe: a China é hoje, provavelmente, o maior produtor de quinquilharias da história da humanidade. Mais uma? Esse lixo todo deve ter viajado em containers e depositado sem dó nem piedade no meio do MoMA (o nosso lixo de container não é tão sofisticados conceitualmente). Outra? Os objetos estão todos dispostos de forma organizada, classificados e agrupados de acordo com suas antigas utilidades. Raramente os sentimentos dentro de nós têm esse privilégio. Raramente podemos olhar para nossa quinquilharia interna disposta de maneira tão clara e objetiva.

Ok, menos. A útima então.

Depois de esvaziar a garagem, a senhora Xiangyaun concordou finalmente em deixar sua velha casa e se mudar para um apartamento mais aprazível em Pequim, próximo a um parque. Lá ela morreu em janeiro último ao cair de uma escada depois de tentar salvar um passarinho.

***

Aos links.

Roubei essas boas fotos da instalação desse blog. As minhas não tavam lá essas coisas.
E tem um texto interessante, de onde tirei mais dados da história, aqui.

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sábado, 13 de junho, 2009

Videofinde: a real human interface

Da Multitouch Barcelona. Dica do Vini.

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sábado, 6 de junho, 2009

Videofinde: henri cartier-bresson na rua

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sábado, 30 de maio, 2009

Videofinde: picasso desenhando

Só isso.

Precisa mais? Então tá:

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sexta-feira, 29 de maio, 2009

Harry Potter vai chutar a sua bunda

Há um tempão li um artigo muito legal na Esquire a respeito da importância do Harry Potter para a cultura pop contemporânea. O ponto do jornalista Chuck Klosterman era muito simples: se você não está acompanhando a série agora em algum nível, prepare-se para ser excluído: você vai perder o fio da meada da maior parte dos produtos da cultura pop dos próximos trinta anos.

Como isso? Bem, acompanhe o gráfico. Se você tem aí entre 25 e 35 anos, com certeza teve algum nível de contato com a série Guerra nas Estrelas ou Os Trapalhões. Da mesma forma, deve ter amigos que não absorveram essas referências e hoje têm dificuldades em serem engajados por determinadas músicas, programas de televisão, filmes ou seriados produzidos hoje. Tenho um amigo que passou batido pelos Trapalhões por morar nos Estados Unidos e o melhor do Hermes e Renato não faz nem coceirinha nele.

Estamos falando aqui de Unidades Básicas de Cultura Pop. Guerra nas Estrelas e Trapalhões são Unidades Básicas de Cultura Pop, átomos fundamentais que serviram de espinha dorsal para uma série de estruturas nas décadas subsequentes. A disco music e o Monthy Pyton são outros exemplos clássicos. Sem o Monty Phyton, não existiria TODA a publicidade contemporânea, especialmente a produzida entre 95 e 2005. Sem a disco music, não teríamos uma cinzenta área sexual que permite a homens chegarem perto do limiar da homossexualidade sem se comprometer demais, mas isso é outro assunto. Também tenho vontade de expandir esse tópico para os filmes do trio Zucker, Abrahams and Zucker como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu e a obra prima Top Secret, mas isso também rende um blog inteiro…

De volta ao cerne da questã.

A princípio, parecemos estar falando a respeito de um universo bastante restrito formado pelo entretenimento masculino jovem de classe média ocidental. Mas isso é o suficiente para causar uma fissão nuclear. Piadas internas de Star Wars não ficaram presas à órbita desses imberbes. Elas ganharam o mundo, chegaram a paródias de Bollywood e letras de funk carioca. Isso acontece porque os representantes mais intensos dessa cultura, à medida que crescem, passam de fãs a pessoas extremamente bem posicionadas na indústria cultural, chegando ao posto de produtores de cultura pop mainstream. Eu vi isso acontecer com meus próprios olhos. Eu participei de uma lista de emails em 1995 com pessoas que hoje ocupam postos chave da cultura pop (em diferentes níveis, ok). As “bobagens” discutidas naquela lista hoje pautam investimentos substanciais de alguns players relevantes nessa área - inclusive em nível gringo.

Resumindo: quem vai escrever, produzir, dirigir e criticar os seriados, as músicas, os filmes e os games das próximas décadas passou as últimas se embebendo da cultura da magia, especialmente em Harry Potter mas também através da trilogia Senhor dos Anéis, pra não falar de todo o caldo esotérico-tecnológico de Matrix. Se você, como eu e o Chuck Kloterman, não tem uma afinidade muito grande com o mundo das varinhas mágicas, dos elfos, das vassouras que voam, você está FORA. Para quem trabalha com comunicação, isso pode ser impeditivo.

Existem três saídas clássicas pra esse problema que me ocorrem no momento. A primeira é ler os livros da série Harry Potter, um investimento de tempo e paciência talvez muito grande pra quem, como eu, não tem pendor pelo universo de magia. O segundo é ver os filmes, embora você corra o risco de pegar uma fatia mais superficial daquele universo. E o terceiro é o que acabou me beneficiando: conviver com crianças. Minha enteada de 8 anos não é propriamente maluca por Harry Potter, mas tem os filmes e os vê com uma certa regularidade. Ela é minha esperança. Meu salvo-conduto. Meu visto americano. Minha memória expandida em termos de Unidade Básica de Cultura Pop.

(continua semana que vem)

Postado por Gustavo Mini às 11:37 | 27 Comentários | Permalink

sexta-feira, 22 de maio, 2009

Walverdes e Superguidis: bastidores

Desde que a idéia desse encontro surgiu, passei a tomar notas em um caderninho registrando fatos e sensações de todo o processo de produção, ensaio e troca criativa entre nós e a Superguidis. Abaixo vai um compilado dos relatos mais relevantes.

06 de janeiro de 2009 - Vitor (dono do Beco) ligou pro Marcos (baterista e produtor dos Walverdes) e marcou um encontro secreto no Cavanha’s (bistrô portoalegrense). Chegando lá, o Marcos achou estranho o Vitor estar de sobretudo e óculos escuros em uma tarde de verão, mas de qualquer forma ouviu a proposta dele: um milhão de reais para um show conjunto com a Superguidis. Na hora, o Marcos infartou e o garçom do Cavanha’s chamou uma ambulância da SAMU e trouxe a conta.

07 de janeiro de 2009 - Eu (guitarrista e faxineira dos Walverdes) e o Patrick (baixista e chapeador dos Walverdes) visitamos o Marcos (gaitista e frentista dos Walverdes) no Pronto Socorro de Porto Alegre, onde ele contou do milhão. Chegamos à conclusão de que ele estava delirando, o que foi confirmado pelo Vitor (arquiteto do Beco), que foi visitar o Marcos vestido de czar russo. Ele disse que ofereceu 400 reais. Eu e o Patrick aceitamos na hora, mas o Marcos ficou agitado e foi preciso chamar enfermeiros de torso esbelto com medicamentos fortes pra contê-lo.

19 de fevereiro de 2009 - Marcos (escultor e eletricista dos Walverdes) acordou do coma induzido e foi levado pela Lise direto para o estúdio Marquise 51 onde começamos os ensaios das músicas do Superguidis. Mesmo debilitado, ele tocou brilhantemente. Após oito horas de intenso trabalho, conseguimos tocar os dois primeiros compassos da introdução de O Véio Máximo e saímos pra comer um pastel com borda.

31 fevereiro de 2009 - Eu (quiropraxista e tocador de tuba dos Walverdes) recebi uma ligação da secretária do apresentador e torturador de meninininhas Silvio Santos pedindo a letra de Altos e Baixos. Ouvi risadas ao fundo, mas desde que perdi um pacote turístico pra Europa porque não acreditei na mulher do telemarketing do Show de Prêmios Biloca, passei a responder a todo e qualquer telefonema esquisito. Enviei a letra para o fax particular do apresentador, na sede do SBT em Phobos, uma das luas de Marte.

1º março de 2009 - Comprar meias urgente.

5 de março de 2009 - Hoje Andrio (cabelereiro do Superguidis) tentou atropelar o Marcos (motoboy e modelo dos Walverdes), que se salvou pulando dentro de um papa-entulho (o que vai gerar material pra piadas por meses a fio). De dentro do equipamento, o Marcos ouviu o Andrio vociferar algo a respeito da dificuldade em acertar as batidas quebradas de Anticontrole.

23 de março de 2009 - Concluímos o ensaio da primeira parte de O Véio Máximo. O mês de abril será dedicado ao refrão.

28 de março de 2009 - O Patrick (estilista e maquiador dos Walverdes) lançou pela sua grife Sound and Image uma camiseta com os acordes e a letra de Spiral Arco Íris do Superguidis. Um fã ardoroso da banda de Guaíba (cidade famosa por hospedar o sol após o pôr-do-sol de Porto Alegre) corrigiu o Patrick no Orkut, no Twitter, no Facebook e por cartão-postal, dizendo que está tudo errado, fora a palavra Arco Íris. Embora sejam duas palavras, o garoto está certo mas foi sumariamente vetado do mailing da Sound and Image, o que lhe causou problemas de pele e complicou a parada do visto pra Eslováquia.

20 de março de 2009 - Começou o outono.

1º de abril de 2009 - Um DOC no valor de 1 milhão de reais caiu na conta do Marcos (economista e poeta dos Walverdes). O preço do trigo no Zimbabwe disparou.

12 de abril de 2009 - Lucas (articulista e chargista da Superguidis) me ligou de madrugada e conversamos longamente sobre progressões de acordes, dedilhados, pestanas e piruetas das músicas da Publica. Falei que eles tinham que tocar Walverdes mas ele me ignorou e mudou de assunto, passando a comentar sobre as progressões de acordes, dedilhados, pestanas e piruetas das músicas da Publica. Desde então, cortei a comunicação falada e passamos a nos dirigir um ao outro apenas pela língua dos sinais.

18 de abril de 2009 - Michele (produtora e ativista social do Beco) ligou para o Marcos (coletor de impostos e fotógrafo dos Walverdes) implorando que fizéssemos um ensaio sensual com as duas bandas seminuas para o Colírio do ClicRBS. Ofereceu um milhão de reais, o que levou o Marcos de volta ao hospital (as anotações do resto desse dia estão confusas, muitas contas e desenho, como se eu tivesse passado bastante tempo ao telefone).

1º de maio de 2009 - Dia do Trabalhador.

12 de maio de 2009 - Diogo (mestrando em direito e vestibulando de nutrição dos Superguidis) fez um comentário jocoso sobre o cabelo do Marcos (geógrafo e manipulador de imagens dos Walverdes) em pleno Open Bar do Beco às 4 da madrugada, o que gerou uma briga escorregadia sobre uma poça de conhaque, lembrando aquelas lutas femininas no gel. O Vitor (cientista e maquinista do Beco) pediu que eles repetissem a performance no fim de semana seguinte e lançou o Teatro do Beco.

17 de maio de 2009 - Grande dia! Finalmente as duas bandas se reuniram! Grandes esclarecimentos, me sinto muito mais aliviado agora que descobrimos estar tocando tudo errado! Realmente, O Véio Máximo não é uma polka como julgávamos! Planejamos tocar juntos, mas perdemos a tarde e a noite inteira buscando uma saída para as empresas de Warren Buffet, que foi capa da Exame. A revista pegou pesado com o bom velhinho, acusando-o de investidor fracassado. Às 3 e meia da madrugada em Guaíba, encontramos uma saída para os investimentos de Buffet, mas perdemos o papel.

***

Espero que essas anotações tenham enriquecido a experiência de quem foi ao show e oferecido a quem não foi um olhar mais aprofundado no incrível processo desse projeto!

Até a próxima!

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sábado, 16 de maio, 2009

Videofinde: curtas do David Lynch (legendados)

Darkened Room (2002)

Absurda (2007)

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quinta-feira, 14 de maio, 2009

Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis - Tribe/Jana: New Media Art

Ano passado, de Cannes, sublinhei num post a esperta declaração de Sam Roddick (filha da Anita Roddick da Body Shop) que creditava ao ativismo social a origem do marketing de guerrilha. Concordo, mas isso é apenas parte da história, porque à influência de ações impactantes como as do Greenpeace e do PETA precisamos também agregar todo um rol de idéias fertilizadas no ambiente da arte moderna e contemporânea. Por isso esse livro veio parar aqui. Se vamos falar em new media (ou seja lá o nome que você queira chamar, tanto faz pra mim), precisamos falar em new media art. Desse ponto de vista, esse livrinho amigável da Taschen é revelador e estimulante.

Revelador porque o ensaio que abre o livro delineia, de uma forma que não dá sono, a árvore genealógica da New Media Art, colocando-a como descendente mais ou menos direta do Dadaísmo, da Pop Art, da Arte Conceitual e da Vídeo Arte. E faz sentido. Olhar para obras relacionadas a esses movimentos vai sempre nos causar uma sensação de incrível familiaridade, mesmo que a gente não domine (eu ao menos não domino) esse cânone. Lá atrás, os caras já estavam sintonizados com o que estamos vivendo hoje e acho que estamos num bom momento pra olhar pra trás,  uma vez que já tem gente demais pedindo pra você olhar pra frente. E quando muita gente pede a mesma coisa…

Em segundo lugar, a leitura de New Media Art é estimulante porque esbarramos com uma penca considerável de trabalhos cuja base é burlar sistemas, conceitos, percepções. Ok, toda boa arte deve fazer isso, mas o que chama a atenção no escopo dessas obras é uma intenção declarada na ruptura, a ruptura como forma e não apenas como conteúdo. E mais, essa ação é conduzida em suportes digitais, uma boa parte delas usando a internet e outras tantas baseadas em dispositivos móveis, instralações ou gadgets.

Quer uma palhinha? Pois eu achei o livro inteiro num wikisite da Brown University, amigo! Não sabe por onde começar? Tá com preguiça? Tudo bem, faz o seguinte. Começa pelo LifeSharing, um projeto no qual Eva e Franco Mattes permitiram que todo mundo pudesse ver TODO o conteúdo e tráfego dos seu computador pessoal durante 3 anos. Depois dá um pulo até etoy.share, uma “corporação artística” que vende ações pra financiar suas performances. Não deixe de passar por A-Trees, trabalho de Natalie Jeremijenko que criava (em 1999!) árvores em desktops a partir da emissão de carbono em escritórios. Divirta-se com a descrição de Dialtones, onde o Golan Levin (do We Feel Fine) e sua turminha usaram (em 2001!) celulares de uma platéia para um concerto. Também vale ler sobre 1 Year Performance Video, que remixa com certo sarcasmo o trabalho do Tehching (que vou comentar aqui semana que vem) ao recriar uma exaustiva performance presencial com vídeo online.

O resto, como sempre, é por sua conta.

***

Pra saber mais sobre a Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis, leia a introdução.

Pra ver todos os livros, clique aqui.

Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.

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sábado, 9 de maio, 2009

Videofinde: kontopoulos

Sem mais para o momento, subscrevo-me.

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quarta-feira, 6 de maio, 2009

Philip Roth: O Animal Agonizante

Faz três semanas que eu li o Animal Agonizante em duas sentadas (metade num hotel, outra metade num vôo RJ-Poa) e até hoje tive uma série de pudores para escrever qualquer coisa sobre o livro. Muitos pensamentos me ocorreram,  mas nenhum faz jus porque O Animal Agonizante oferece um panorama tão claro e feroz (já acusado de misoginia) do desejo masculino que quase deveria estar nas prateleiras de auto-ajuda junto daqueles livros tipo “Homens são de Marte, Mulheres São de Vênus.”

Logo que terminei a leitura, a única coisa que tive condições foi rabiscar esse gráfico aí de cima, que vale tanto para o Animal Agonizante quanto para outros livros de Roth: o cruzamento da potência masculina (não apenas sexual, mas social também) com a passagem do tempo. O rabisco marrom, no caso, é de David Kepesh, professor sessentão de crítica literária, um solteirão sensualista e fundamentalista (com páginas e páginas de proselitismo hardcore). O rabisco rosa é de Consuela Castillo, uma de suas alunas seduzidas, porém a primeira que abala uma série de fortificações emocionais e físicas de Kepesh.

No gráfico acontece mais ou menos o que acontece no livro: por duas vezes em suas vidas as necessidades e desejos do professor e da aluna se encontram e se tocam. Por duas vezes são produzidos efeitos devastadores. O ponto um é o encontro clássico entre o homem “experiente” e a mulher “sendo iniciada”. As aspas são cortesia das sutilezas desses conceitos nada concretos, desnundados por Roth ao soterrar qualquer romantismo em relação à toda carga de ansiedade que essa intersecção traz consigo. O ponto dois é a pá de cal nesse romantismo: ambos os protagonistas enfrentam junto a perda de suas potências (sexuais e sociais), muito embora em idades e por motivos diferentes. Dentre tantas generosas bordoadas distribuídas pelo autor, uma é taxativa: a incompetência do desejo em produzir satisfação.

Bom, não vou contar mais pra não estragar a bela experiência que é ler o livro. Mas, mais uma vez, o que Roth faz é cruzar questões humanas milenares e universais (sexo, morte, tempo, vida) dentro de âmbitos específicos (o surgimento da contracultura nos EUA, a vida em um meio cultural restrito). A colisão de temas amplos com contextos delimitados não produz apenas uma boa narrativa,  mas oferece faíscas poderosas e uma franqueza comovente e necessária. Não é que muita gente por aí não tenha experiência de vida e não tenha condições de dar “a real”. Mas é que poucos o fazem com tanto talento pra escrita.

Boas obras são assim: parecem escape, mas na verdade te colocam cara a cara com o que precisa ser dito e repetido um milhão de vezes até que um dia entre nessa cabecinha dura.

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sábado, 2 de maio, 2009

Videofinde: guillermo arriaga

O escritor mexicano e roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel no Roda Viva.

Ele fala sobre as carreiras paralelas de escritor e roteirista, as experiências com produção e direção, etc. Mas o que me marcou nessa entrevista foi a reflexão dele sobre o impacto das cenas de morte no cinema. É bastante lúcida. Veja que vale a pena.

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quinta-feira, 16 de abril, 2009

Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis - McLuhan + Fiore: The Medium is the Massage

É um tanto quanto óbvio colocar esse livro aqui e minha idéia era evitar os óbvios. Mas eu não pude resistir: ao explicar teoria da comunicação com uma linguagem gráfica fragmentada (para a época) e mais próxima da cultura pop do que da academia, Marshall McLuhan e o designer Quentin Fiore tornaram vivo o conceito apresentado no título de sua obra.  Para isso, lançam mão de metáforas visuais e de citações de Bob Dylan, Montaigne, cartuns do The New Yorker e onomatopéias de quadrinhos a la Linchestein.

Mas é preciso tomar cuidado e não trocar a eloquência gráfica de Medium is the Massage pelo seu estofo. Há visões deliciosas e úteis neste volume, a maior parte delas oferecendo uma razoável retaguarda teórica para quem trabalha com as ditas “novas mídias”, elas que não têm ainda, ao menos com acesso universal, um corpo teórico que ajude a pensar trabalhos de forma mais estratégica e menos “vamos fazer assim pra rolar”.

Um desses conceitos, a respeito do ambiente invisível, eu explorei no post Quer Aparecer, Seja Invisível. Outros, como a dimensão mítica dos circuitos elétricos ou a necessidade de cultura participatória entre o público jovem, você vai ter que ler pra debulhar.

***

Página 142: “A propaganda termina onde o diálogo começa”.

Ok?

***

Duas curiosidades.

Uma: capa da edição que eu tenho, essa ai de cima, é do David Carson, um dos ícones dos anos 90 (será q o design a la Carson vai voltar também?)

Duas: o McLuhan é considerado o “santo patrono” da Wired.

***

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sábado, 11 de abril, 2009

Videofinde: heaven do spike jonze & ty evans

Uma palavra só sobre esse vídeo: não seja impaciente e veja até o fim. Dicaça do Pedro Damásio.

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sábado, 4 de abril, 2009

Videofinde: provisional danza

Uma pequena seleção de Calle 4, uma das coreografias dessa companhia de dança de Madrid sobre a qual falei em novembro passado. Altamente inspirador.

Esse vídeo aqui de cima é maior, tem quase dez minutos. Mas eu não gostei da edição. É melhor mais cru, não atrapalha tanto. Os vídeos que achei mais interessantes de ver são bem toscos mas funcionam melhor. Só não estão com a opção de incorporar desativado, mas tu pode ver, começando por aqui e depois indo aqui.

E tem também essa matéria de um programa jornalístico:

Bom videofinde!

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terça-feira, 10 de março, 2009

Watchmen, Milk e o ocaso do heroísmo

Como eu já disse aqui, em hipótese alguma me considero uma fonte confiável para falar de Watchmen. Meu envolvimento emocional com a minissérie não chega a derrubar meu senso crítico, mas deixa bastante tonta minha capacidade de abstração ao tentar imaginar como é a experiência de assistir ao filme sendo alguém que não leu umas quatro vezes a série e não é fã do Alan Moore. Então, de qualquer forma, feitas as ressalvas… vamoslá…

***

Ah: você pode ler o texto todo mesmo que não tenha visto o filme. Não contém spoilers, nem sobre o final.

***

Pois bem.

Watchmen é um filme realmente fantástico em muitos aspectos. Todos eles ligados à noção de heroísmo. Antes de mais nada, é preciso aplaudir o heroísmo do diretor Zac Snyder, que conseguiu colocar quase tudo que importa da densa obra de Alan Moore e Dave Gibbons em um filme de 2h40min. E o que é quase tudo que importa? É o amálgama de referências audiovisuais da cultura americana dos últimos 60 anos (o início do fim do maximalismo?). É também a excelente trama conspiratória que questiona o papel dos super heróis no imaginário popular. Mas, acima de tudo, o que importa e o que vou tratar aqui são os ganchos que Zac Snyder ofereceu para que a audiência possa questionar a própria noção de heroísmo. Isso poderia se perder na adaptação para as telas, mas não. Está tudo lá, bastando prestar atenção.

Watchmen, nesse sentido, vem em boa hora. Como nação, tenho a impressão que os Estados Unidos estão vivendo um momento em que a idéia de heroísmo dá sinais de cansaço. A eleição de Barack Obama, apesar de cercada de ares redentores, marcou o rechaço de uma parte da população americana à cultura do caubói, do herói de guerra, do maverick que vai lá, dá umas porradas e umas canetadas e resolve os seus problemas e os de todo mundo.

O que me leva automaticamente às anotações mentais que fiz de Milk. O filme de Gus Van Sant que deu o Oscar a Sean Penn é um relato intenso e emocionante sobre um herói civil americano, que lutou com tenacidade, bom humor e inteligência política para salvaguardar os direitos dos homossexuais. Harvey Milk, como a maior parte dos heróis civis, foi um homem que utilizou intuitivamente as noções básicas de ativismo para ativar o senso de comunidade de seus pares. Um detalhe, portanto, pode passar despercebido pelos que se apegam à figura do homem entusiasmado e dado a subir em caixotes e discursar com um megafone: os colaboradores de Milk, sua rede de parceiros políticos, amigos e amantes que sustentaram seu caminho e se tornaram tão importantes quanto sua liderança. Milk não seria nada sem sua rede. Sua rede não seria nada sem Milk. Todos estão interligados. Por isso também vem em boa hora a cinebiografia de Milk, pois estamos entrando, como cultura global, em uma era onde a colaboração horizontal e o trabalho de formiguinha vai fazer muito mais diferença do que os atos de grandiosidade e espalhafato.

De volta a Watchmen, tudo começa (cronologicamente, não na trama) com um grupo de pessoas interessadas em complementar o trabalho da justiça e da polícia de forma anônima. O recurso é um velho conhecido nosso no campo da fantasia: um uniforme chamativo, algumas habilidades especiais (humanas ou sobre-humanas) e os criminosos que se cuidem. Quem dera fosse tão fácil resolver os problemas do mundo. Infelizmente, como mostra Watchmen, não podemos solucionar a maior parte dos nossos problemas pessoais ou coletivos como se estivéssemos nos preparando para um baile de carnaval.

Os super heróis de Moore são, como vemos ao longo do filme, seres com incríveis capacidades físicas mas com capacidades psicológicas extremamente limitadas, não muito diferentes de qualquer um de nós. Mesmo Dr. Manhattan, o super-homem capaz de se teletransportar, ver o futuro e manipular a matéria, trava ao tentar resolver as questões mais básicas de relacionamento. Toda sua inteligência e racionalismo só o colocam em uma encrenca atrás da outra, muito embora os mais materialistas possam o cultuar em uma espécie de teísmo bizarro.

As cenas de violência de Watchmen são outro gancho revelador do caráter problemático dos heróis. Propositalmente ou não, Zac Snyder escolheu manter o naturalismo do traço do desenhista Dave Gibbons, ou seja, quando alguém toma uma porrada, vemos muito sangue, fraturas expostas, crânios rachados ao meio. E mais. Vemos os envolvidos, os chamados heróis, sentindo prazer ou alívio com a violência. Não é como em Homem Aranha ou Quarteto Fantástico. São cenas chocantes, extremamente físicas e pesadas, que vão além do que se poderia chamar de justiça ou  autodefesa, parecendo servir mais para exorcizar fantasmas particulares. Assim são os heróis de Moore: humanos, sensíveis, confusos, esperançosos. Na maior parte do tempo, eles se comportam como pitboys em um bloco de rua.

A suposta redenção ao final de Watchmen existe, mas é absolutamente questionável uma vez que baseada na clássica lógica americana: um indivíduo se considera apto a executar um plano que envolve milhões de pessoas sem o poder de escolher e joga sobre si a responsabilidade da vida delas como se isso atenuasse o sofrimento pela qual elas passam. Curiosamente, os americanos sempre chamaram isso de “democracia”. É impressionante, mais uma vez, como a história da Alan Moore é atual e profunda. Não trata apenas da psiquê deformada e problemática dos heróis individualmente, mas da psiquê deformada de uma sociedade inteira e suas crenças em uma justiça individualista e arbitrária.

A impressão que dá, no fim das contas, é que todos os heróis precisam de apoio terapêutico especializado e não apenas o psicopata Rorschach. Cada um na tela representa com perfeição um aspecto do mundo atual: Dr Manhattan é o existencialista-materialista-ateu convicto, cujo Deus é a física quântica. Rorschach é o tiozão de churrasco de domingo, que fica violento ao reclamar da degradação do mundo; Daniel é o homem médio resignado diante de sua impotência de lidar com os seus fantasmas e os do mundo, precisando literalmente de fantasias para funcionar; Adrian Veidt é o semi-deus cujo dinheiro e inteligência asseguraram a seu egocentrismo condições para manipular pilares econômicos e militares… e por aí vai. Nenhum deles tem a menor condição de atuar como juiz ou defensor da humanidade. Nenhum deles traz felicidade e harmonia sem um custo enorme e questionável. Eles apenas geram mais dor e sofrimento com sua própria confusão.

Em resumo.

Ao  Sr. Snyder, os meus parabéns. E quanto aos super heróis: todo mundo já pra terapia!

Postado por Gustavo Mini às 17:40 | 2 Comentários | Permalink

segunda-feira, 2 de março, 2009

Watchquem?

Eu andava evitando escrever sobre o Watchmen por dois motivos. Primeiro porque o Matias vem debulhando o assunto com intensidade no Trabalho Sujo e não é preciso chover no molhado aqui n’Oesquema. Segundo porque, à medida que fui vendo os vídeos que surgiam, percebi que minhas ligações emocionais com Watchmen provavelmente me fariam escrever como um guri de 8 anos de idade (embora, a saber, li pela primeira vez com 15 - sim, eu tenho a primeira edição nacional!).

Masssss… vamoslá…

Pra começar, diferente do Matias eu penso que, em grande parte, Watchmen é Watchmen também por conta de Dave Gibbons. Toda idéia ganha força com um contexto visual adequado à sua proliferação na mente de quem tem contato com ela (e a história inteira da cultura pop está aí para me ajudar a defender essa tese). Gibbons foi o responsável por dois aspectos fundamentais de Watchmen: o primeiro diz respeito a crer que estávamos lendo uma história passada em um “mundo real”. Ele fez isso através do traço realista e elegante, suprimindo onomatopéias e linhas de movimento, pra não falar da incrível coleção de detalhes visuais (fachadas, figurinos, carros, apetrechos domésticos) que colocaram os dois pés da narrativa no chão. O segundo aspecto é o fato dele simplesmente ter saído da frente da história da Alan Moore. Como um bom diretor de cinema cujos cortes e movimentos de câmera são imperceptíveis em detrimento de um bom texto, Gibons usou um grid fixo de quadros por página, dando espaço para que as idéias de Alan Moore fizessem sua evolução na avenida com total desenvoltura sem maximalismo pra atrapalhar.

Quanto a isso, já vimos que não precisamos nos preocupar. O diretor de Watchmen, Zac Snyder, vem deixando bastante claro sua dedicação em reconstruir visualmente o que Gibbons concebeu. Entretanto, o que vai impedir que o filme vire uma mera caricatura da graphic novel não é a fidelidade de Snyder a Gibbons, mas sim a Moore. Fica a pergunta: Snyder vai sair da frente de Moore? O visual incrível que estamos apreciando nos vídeos disponíveis estarão a serviço da boa história? Uma coisa é adaptar 300, espetáculo visual do estético Frank Miller. Outra, bem diferente, é Watchmen, uma tour de force narrativo com ares literários e realistas.

Mas eu sou um homem de boa vontade. Creio que Snyder fez um bom trabalho. Quero que Snyder tenha feito um bom trabalho. O que nos leva, automaticamente, ao problema seguinte: quantos dos frequentadores do shopping terão paciência com um bom trabalho feito de homens mascarados com roupas colantes? Mesmo com uma cultura de magia e ficção científica se espalhando por grupos sociais menos restritos (Lost na Globo, novela de mutantes e Heroes na Record, Harry Potter em tudo quanto é lugar), mesmo com o assunto “super heróis na vida normal” sendo levantado em filmes mais leves (Hancock; Bolt, o Supercão; Minha Super Ex-Namorada) quantos estarão dispostos a assistir homens fantasiados destilando questionamentos morais, existenciais, políticos e sociais? Aqui eu concordo com o Matias: é muito mais fácil ver um cara de cueca por cima da calça dando porrada do que filosofando. Faz mais sentido.

Para fazer com que um projeto que vem atravessando as décadas na indústria cinematográfica aconteça nas bilheterias, a campanha de marketing nos Estados Unidos vem sendo intensa, com um trabalho forte de educação a respeito dos personagens e da trama. No Brasil, por outro lado, Wacthmen vem no embalo normal de estréia blockbuster e sua contextualização vai depender do jornalista aficionado que existe em cada caderno cultural.

Esses recursos garantem, com certeza, um bom fluxo inicial de audiência. A questão passa a ser o que o boca a boca vai dizer a partir daí. A tarefa de Zac Snyder, desse ponto e vista, é conseguir manter o grosso caldo original da trama e, ao mesmo tempo, permitir que o espectador médio consiga definir aos amigos sobre o que é o filme. Ou então ativar uma quantidade considerável de influenciadores apaixonados que vão direcionar todos seus contatos sociais aos cinemas. Sei lá.

Voltando à obra, Watchmen é um trabalho tão interessante e complexo que, mesmo mais de 20 anos depois de seu lançamento, ainda não surgiram paralelos, mesmo num ecossistema tão rico quanto os quadrinhos. Sua intrincada mitologia, na época condensada em um único meio, é perfeita para espalhar-se em uma teia transmedia storytelling com todas as possibilidades de conexão que a cultura digital atual propicia. Já temos promessas de um game com uma narrativa prévia à original e um extra de DVD que explora uma célebre história paralela.  O que mais vem por aí?

Mas isso é outro assunto. Se o Alan Moore já tem dores de cabeça com o que vai acontecer com seu trabalho em uma tela, imagina em todas as outras.

Postado por Gustavo Mini às 19:55 | 3 Comentários | Permalink

sexta-feira, 27 de fevereiro, 2009

O Não Tão Curioso Caso de Benjamin Button

Existe muitos ângulos e muitas leituras para este filme. Eu poderia escrever linhas e mais linhas a respeito de cada pequeno detalhe bem pensado e construído que conduz tão bem a história. Também poderia destilar algumas boas lições de vida, quase beirando a auto ajuda barata (se é que não vou acabar aí). Poderia até mesmo comentar meu pé atrás inicial com a possibilidade do diretor David Fincher entrar numa fase barroca. Mas a real é que eu simplesmente saí perturbado e tocado pelo filme.

De tudo, o que mais me chamou a atenção em Benjamin Button, e o que é possível racionalizar, é o movimento que os personagens fazem para lidar com os fatos inevitáveis da vida. O mágico, o fantástico e o inusitado, ou seja, a condição de Benjamin (que nasce velho e morre novo), não impede o comum, o mundano, o inevitável: nascimento, doença, morte, velhice, solidão. Desse ponto de vista, o filme é cru e direto. Não há fábula que remedie de forma definitiva o básico da vida humana. A imaginação frequentemente rende, no máximo, um Tylenol 750g.

Obviamente, há muito de inspirador nas quase três horas de projeção. Uma das pontas do durex: no entrecruzar dos caminhos, Benjamin, seu pai, sua madrasta e seu grande amor, todos precisam extrapolar suas identidades usuais para poderem se relacionar de forma mais direta uns com os outros. Pai, mãe, filho, namorado, namorada, marido, esposa, mãe, velho, criança, amante, funcionário, chefe, todos esses rótulos não são propriamente invalidados, mas são (às vezes dolorosamente, às vezes naturalmente) transcendidos pra que as relações se viabilizem e as pessoas possam trazer algum cuidado, alguma compreensão, ou simplesmente fazer companhia umas às outras.

David Fincher foi sagaz. Com um truques básicos de ilusionismo narrativo, conseguiu chamar de curioso o que existe de mais humano e usual em todos nós.

Obrigado, camarada.

***

Imagens: Heather Horton

Postado por Gustavo Mini às 18:24 | 3 Comentários | Permalink

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