Do the twist
Do the fly
Do the swim
And do the bird
Well do the duck
Aaah, and do the monkey
Hey hey, watusi
And, ah, what about the frug
Do the mashed potato
What about the boogaloo
Oh, the bony marony
Come on let’s do the twist
Aaah
O trecho acima, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu 2, além de ser um clássico momento da comédia moderna também oferece um excelente paralelo pra responder à questão proposta no título do post. No filme, a espaçonave que faz o primeiro vôo tripulado à Lua enfrenta sérios problemas técnicos enumerados pela aeromoça: asteróides e problemas no sistema de navegação, que está levando a nave direto pro Sol. Mas o caos se instala mesmo quando um passageiro se revolta e acusa a moça de estar escondendo algo. E ela admite: “Ok… é verdade… também acabou o café.” Aaaaaaaaah!!
Bom.
Digamos, então, que um dia o Al Qaeda puxe a tomada da internet e toda rede fique desativada por uma semana. Honestamente, eu não me apavoro tanto com o provável caos no mercado financeiro ou no sistema de serviços à população, seja público ou privado.
Essa semana, o @maurodorfman comentou que o Twitter é o SAC do universo. Portanto, eu fico imaginando que o verdadeiro problema no caso de um “web blackout” (uéblecáuti) seriam os bilhões de pessoas que reclamam e desabafam no Twitter, no MSN, nos blogs e redes sociais todos os dias. Onde toda essa energia vai ser depositada? O que essas pessoas vão fazer?
Aaaaaahhhh!!!

Depois de abrir o escopo e não se restringir a livros, também trazendo artigos pra nossa coleção, a Biblioteca Conector insere o primeiro filme na sua lista de referências. E, pra surpresa de alguns, não é nenhum documentário cabeçudo sobre o cenário da comunicação (embora venha um por aí, aguarde).
Mas enfim. O que é que um filme da Nora Ephron, mais conhecida por comédias românticas como Sintonia de Amor e Mensagem para você, está fazendo aqui? Bom, eu explico direitinho e, se precisar, faço um desenho.
A publicidade, nos últimos anos, vem demandando cada vez mais dos seus profissionais a sensibilidade de uma comunicação mais próxima e menos invasiva. Em palestras e artigos, se fala muito em conversar com o consumidor em vez de tentar convencê-lo de alguma coisa a golpes de repetição intrusiva. Pra conversar, existem, sim, técnicas e tecnologias, mas muito mais eficiente e profundo do que simplesmente absorver e replicar as técnicas e as tecnologias é compreender as motivações por trás desse valioso diálogo. E, pra isso, Julie e Julia se presta muito bem.
Pra quem não sabe, o filme retrata o cruzamento de duas trajetórias: a da chef maluquete Julia Child e a da aspirante a escritora Julie Powel. A mistura realmente aconteceu na vida real em 2002 quando Julie se viu inspirada pela leitura da biografia de Julia e resolveu cozinhar as suas 524 receitas em um ano. Detalhe: Julie compartilhou sua aventura com (primeiro dezenas, depois) milhares de leitores em um diário digital, formato ainda incipiente na época mas que viria a se tornar bastante popular nos anos seguintes sob o nome de… blog.
Julie e Julia é, então, uma agradável e consistente Sessão da Tarde com um brinquedinho a la Kinder Ovo incluído pra quem se interessa por comunicação. Seus 123 minutos caem bem pra explicar a qualquer um como surge uma voz própria e relevante que cativa uma audiência de nicho na internet - e como essa autenticidade pode levar um conteúdo a conquistar espaço em outras mídias e no coração de um catatau de gente. Ver o envolvimento de Julie com seu blog, aquele derramamento de emoções em um template tosco sem garantias de qualquer retorno que não a mera expressão pessoal deve ensinar a corações duros a necessidade de vozes humanas na comunicação de marca.
Ou não. Nunca sabemos.
O mais bacana é que o blog original da Julie Powell (que depois virou livro e, mais tarde, esse filme) ainda está online, no mesmo lugar onde foi criado. Pode ser interessante vasculhá-lo, mas minhas inclinações arqueológicas não são pra tanto. O filme me parece suficiente ao menos para o ponto que eu queria estressar aqui.
***
Uma última nota.
Não sei se você notou, mas a Nora Ephron deu uma de Dangermouse e pode ser que ela tenha cometido o primeiro mashup de livros na história do cinema, ao menos em nível mainstream e de forma tão clara que podemos ver as duas tracks se alternando. Legal, né?
Tchau.
***
A Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis reúne livros e artigos pra quem se interessa por estudas novas manifestações e usos de meios de comunicação. Em outras palavras, pra entender essa baguncinha aí. Pra saber mais, leia a introdução.
Pra ver todos as entradas, clique aqui.
Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.
Acho que já se falou e escreveu bastante sobre Avatar. Mas com a poeira da quarta-feira-de-cinzas finalmente baixando e toda a purpurina da avenida se depositando no concreto, talvez seja uma boa hora pra perguntar: quem é que andou espalhando essa idéia de que o filme tem uma mensagem new age, pacifista e ecológica?
Tudo bem, tudo bem, eu comprei total, lépido e faceiro, o papo da árvore que serve como um grande hub de conexão entre a tribo de Pandora e a inteligência vegetal do planeta. A idéia é super bacana e podia render uma série inteira de filmes interessantíssimos só em cima disso (Avatar Chronicles? Animavatar?). Agora, vamos combinar: fazendo os cálculos, descontando os juros e botando tudo na ponta do lápis, o que temos no fim das contas é mais um blockbuster com uma pancadaria pesada de meia hora no final e, pela pela milésima vez na cultura cinematográfica, um americano salvando um povo considerado “primitivo”. Não se engane: Avatar é mais uma (exuberante, linda, visualmente muito bem executada) sessão de terapia da alma americana.
Bom, isso tudo pode ser meu lado cínico falando. Deve ser meu lado cínico. Mas o fato é que não consegui abraçar Avatar como algo mais do que uma super experiência de direção de arte e computação gráfica (embora, como bem lembrou minha mulher, não é tão surpreendente pra quem tem filhos e vem assistindo a 3D intensamente nos últimos anos). O motivo do meu desencanto? O humanismo no filme é muito mal distribuído. Exemplo. O lado tosco do coronel Quaritch é espremido até tirar todo o suco e encher o copo de um vilão absolutamente caricato e nada dúbio. E dubiedade é o que faz os grandes vilões da mitologia moderna serem grandes vilões, pois assim podemos nos conectar com eles e não cair no conto do “pessoas do bem contra pessoas do mal”.
É impossível, mesmo para a platéia mais retrógrada, se identificar com o Coronel Quaritch de tanto que ele é pintado como malvadão. O papel das mitologias pop, a meu ver, não é de forma alguma colocar as coisas totalmente em seu devido lugar, mas dar uma bagunçada nas percepções ao fazer você se identificar com personagens de diferentes matizes - encontrar pequenas partes de você ao longo de todo o elenco. Não é o caso de Quartich, não é o caso de Avatar.
Veja bem: não estou desfazendo o filme. Adorei vê-lo. Tive boas três horas de cinema. Só estou aguardando, com certa ansiedade, a evolução dos roteiristas de blockbuster pra acompanhar tanta acrobacia visual.
Vi no Matias os primeiros teaser/trailers do The Inception, filme novo do Christopher Nolan. E, na hora, me lembrei de como o cinema vem explorando a mente humana como cenário de narrativas, como ambiente cenográfico MESMO e não “uma história na cabeça de alguém ou do ponto de vista de alguém”. Mal puxando da memória, o primeira exemplo que me ocorre numa linha de tempo é A Cela (que eu e o Marcos vimos num intervalo de vagabundagem num dos primeiro Goiânia Noise que tocamos). Na época achei tenebroso. Talvez hoje revendo eu até goste, quem sabe? Mas aquela estética nunca me desceu… Bem… algum cinéfilo pode me ajudar a lembrar de referências mais antigas e mais consistentes?
Um pequeno salto no tempo e nos anos seguintes tivemos uma série de filme que exploravam o espaço interno da mente: Quero Ser John Malkovich enfiou o pé na porta e a seguir veio o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança, que a meu ver é o Nevermind dessa onda (sendo o Nevermind o mínimo denominador comum entre coisas esquisitas/novas e mainstream). Adoro esse filme e acho que ele transforma em imagens alguns processos terapêuticos de forma muito interessante. E no ano passado ainda rolou o Synedoque Nova Iorque, num clima bem mais barroco e pesado, menos pop-tchuras.
Bom, o fato é que o próprio Nolan explorou bastante os recônditos da mente como plataforma de histórias: seu Memento era construído a partir de memórias desconexas (outro assunto “mental”), Insônia se segurava sobre uma mente disfuncional pela falta de sono e ninguém me tira da cabeça (olha ela aí) que a Gotham City de The Dark Night é um reflexo da mente do Batman.
A mente humana tem sido assunto frequente na mídia mais mainstream. Mas geralmente, dividida em dois terrenos: o cérebro, a máquina, a química, e a psiquê, os processos psicológicos. O leitor de Veja e a audiência do Fantástico vem sendo sistematicamente bombardeados nos últimos anos com matérias superficiais e um tanto quanto inúteis na prática sobre as últimas descobertas da neurociência, essa criança recente que também vem mexendo com as bases do marketing e começando a abrir os olhos de picaretas ávidos por ganhar dinheiro com apresentações em Power Point e frases de efeito. E vocês já viram a quantidade de revistas de psicologia e psicanálise nas bancas?
Filmes como The Inception, por outro lado, parecem explorar o assunto com uma perspectiva mais interessante (ainda que baseado na ficção): a mente humana é uma viagem e explorá-la é um assunto interno. Ao parecer misturar os dois espaços (o interno e o externo), o The Inception promete. Veremos se cumpre.
Em breve explorarei mais esse assunto em um post que estou desde abril do ano passado pra escrever. Mas o que é o tempo né?
Excelente invasão alien em… Montevidéu!
Então… não é que os gringos do espaço estão se ligando que tem mais o que fazer no planeta Terra do que ir pros Estados Unidos? Primeiro uns caíram na África do Sul. Agora no Uruguai. Os ets entendem as tendências terráqueas, tu vê. É que tem bastante gente indo pra Montevidéu. Sou o próximo, se sobrou algo depois da investida.
Bom, o fato é que o curta acima é produção da uruguaia Murdoc Filmes com pós-produção da também uruguaia Aparato. Que, segundo os próprios, são “los mejores directores y artistar gráficos del medio local. (…) Somos artistas, músicos, geeks y gamers compulsivos”. Não deixe de visitar os sites das duas!
O diretor do curta, Federico Alvez, curte uma bizarrice bem feita. Olha só.
Agora, na trilha do filminho bem que podia ter rolado um Hablan por La Espalda.
Mas o que que é isso? Isso é a Miranda July aprontando mais uma das suas, dessa vez com a conivência da revista novaiorquina Vice (onde foi publicada a série) e do fotógrafo Roe Ethridge. July, como é bem do seu feitio, sugou figurantes de filmes como Vidas Sem Rumo, Nos Tempos da Brilhantina, Kramer Vs Kramer, O Poderoso Chefão, entre outros, “recortou-os” dos fotogramas e reencenou seu papel em fotos onde ELES são o personagem principal. Não apenas principal, mas ÚNICO.
A minuciosa arqueologia de July e Ethridge é doce e inspiradora, mas também é um golpe baixo e um sintoma muito interessante sobre o espírito do nosso tempo. O golpe baixo vem da escolha de Miranda de filmes que caminham no inteligente limite entre o cult e o mainstream. É uma seleção fina que pende ora para o estilo cinemateca (Vidas sem Rumo), ora para o glorioso Sessão de Gala (Kramer Vs Kramer), mas que têm em comum um apelo visual nostálgico muito forte. Se cozinharmos a fotografia e o figurino desses filmes, sem grandes dificuldades vamos chegar em estéticas bastante utilizadas hoje em revistas como a própria Vice.
Graham, gurizão do blog Future Shipwreck, escreveu com um certo ar compassivo que o trabalho da Miranda July resgata figuras que foram destinadas ao total esquecimento, criadas especificamente pra serem invisíveis. Sem dúvida essa visão tem um apelo poético, especialmente quando ampliamos a questão do figurante pra vida real. Lembro automaticamente de Shady Lane, uma das músicas mais bonitas do Pavement, na qual Stephen Malkmus canta com melancolia: “You’ve been chosen as an extra to a movie adaptation of the sequel to your life” - “Tu foi escolhido como figurante numa adaptação pro cinema da sequência da tua vida”. É o cúmulo da humilhação na era do tudo-é-mídia-todos-estão-na-mídia.
Por outro lado, existe mais de uma via pra se enxergar o trabalho da Miranda July. Uma delas é essa busca intensa por protagonismo. Declarada no bilhete que abre a série no site da Vice, essa forte intenção de não ser simplesmente parte da paisagem é inata da cultura americana e ganhou nos últimos anos um caráter endêmico. Com a quantidade de ferramentas digitais de produção e distribuição de conteúdo, bem como as inúmeras novas formas de comunicação, não faz mais sentido ser um extra ficar lá trás. A internet, especialmente, tem esse caráter de trazer para a frente todos os extras. Todo mundo é figurante e todo mundo é protagonista, depende de quem está no comando do teclado, dependendo do ponto de vista.
Existe uma frase clássica da indústria do cinema a respeito de figurantes. Não tenho bem certeza, acho que é do diretor de épicos religiosos Cecil B. DeMille. Rezalenda que, de megafone na mão, ele gritou certa vez pra uma multidão que se preparava pra encenar uma batalha: “Não sejam figurantes! Sejam uma nação!”
Esse é bem o tipo de chamado bastante sedutor - sessenta anos atrás.
Já hoje, oito em dez palestrantes de publicidade adoram dizer que “Se o Facebook fosse um país, seria maior que o Brasil.” Pois é. Os figurantes já se tornaram uma nação, DeMille e seu megafone não são mais necessários. Os grandes chamados se diluiram. E a questão é o que fazer quando você faz parte de uma superprodução onde você e todos os figurantes em algum nível também são os atores principais.
Tempos interessantes.
Opressão cotidiana? Demência crônica? Encosto? Oito minutos de boas perguntas num climão meio “psicologia Cronenberg”. Grande dica do Marceleza. Produção da Spy Films.
Os anos 00 (ou 10) já descobriram seu Robert Rodriguez. Ele atende por Marc Price, tem 30 anos e uma história pronta pra entrar para os classicos “do underground para o mainstream”: como fã de terror, Marc fez seu filmes de zubmis por pura vontade de fazer e, diz ele, investiu apenas 45 libras na producao.
Colin foi sensação no Festival de Cinema de Cannes mas não tanto aqui no Festival de Publicidade. Ontem, a agência britânica Saathi & Saatchi, célebre por incentivar novos talentos das câmeras, trouxe Price para a apresentação do décimo nono Saatchi & Saatchi Director`s Showcase. Price teve seus quinze minutos de fama entre os publicitários e anunciou uma projeção exclusiva do filme pra hoje. Às 18h no auditório Debussy do Palais, entretanto, havia apenas eu, um amigo e mais cinco ou seis pessoas na platéia. Ao que parece, filmes de zumbis feitos com 45 libras não são atraentes para a maior parte do mercado publicitário.
É uma pena que poucos tenham ido assistir. Não que Colin seja propriamente uma obra prima: a história tem uma estrutura narrativa um pouco confusa e pelo menos 20 minutos de cenas sobando. Por outro lado, é um representante clássico da cultura do it yourself com todos os méritos que isso traz, como uma energia visceral e um claro frescor. Mais do que isso, Price introduziu na história do cinema de terror a perspectiva do zumbi. Em vez de acompanharmos a trajetória de sobreviventes que tentam fugir dos zumbis, pegamos carona mesmo é no no cotidiano de Colin, desde seus primeiros minutos como zumbi até seu vagar trôpego por uma Londres imersa no caos. Na sua viagem pela cidade, Colin encontra a irmã, que não foi afetada pela praga e tenta trazê-lo de volta a normalidade levando-o pra casa da mãe, buscando ativar sua memória afetiva.
Há pouca explicação e muitas vísceras, bem como uma trilha sonora absolutamente claustrofóbica, responsável por metade do clima do filme. A outra metade fica por conta da câmera tosca e da edição nervosa, que Price confessou ser um recurso de compensação pelo baixo orcamento.
Como não havia ninguém no auditorio, minutos antes da projeção meu amigo chamou Price pra bater um papo. Nervoso com a pouca platéia, deu seu primeiro autógrafo da vida e disse que adorou a semana em Cannes, uma vez que segunda feira precisava voltar para seu dayjob burocrático. Também queria saber nossa impressão sobre o filme e eu tinha meia dúzia de perguntas pra entrevistá-lo, mas o cara simplesmente sumiu durante a projeção. Com 30 anos, aparentava 21 e seu filme de certa forma reflete esse paradoxo.
Uma ultima anotação: ao longo do filme, não parei de pensar em como a cultura pop geralmente funciona como um sintoma dos climas sociais dos países. Me lembrei que ano passado a revista Monocle publicou um artigo falando sobre um certo estado de depressão que estava pairando sobre a Inglaterra devido aos problemas econômicos que o Reino Unido estava enfrentando. Durante o festival aqui em Cannes, muitos foram os altos executivos de agências do primeiro mundo que se referiram a crise com um certo tom depressivo. Não está sendo fácil pra “eles” do primeiro mundo e tenho certeza que a falação em torno de Colin tem uma certa ressonância com o momento problemático que as finanças da elite do planeta esté vivendo. É ou não é?
***
Minhas impressoes sobre o Festival de Publicidade de Cannes continuam sendo publicadas diariamente no blog da Escala.
Tem lá o video do Roger Daltrey cantando em voz e violão a poucos metros de mim… foi massa…
Há um tempão li um artigo muito legal na Esquire a respeito da importância do Harry Potter para a cultura pop contemporânea. O ponto do jornalista Chuck Klosterman era muito simples: se você não está acompanhando a série agora em algum nível, prepare-se para ser excluído: você vai perder o fio da meada da maior parte dos produtos da cultura pop dos próximos trinta anos.
Como isso? Bem, acompanhe o gráfico. Se você tem aí entre 25 e 35 anos, com certeza teve algum nível de contato com a série Guerra nas Estrelas ou Os Trapalhões. Da mesma forma, deve ter amigos que não absorveram essas referências e hoje têm dificuldades em serem engajados por determinadas músicas, programas de televisão, filmes ou seriados produzidos hoje. Tenho um amigo que passou batido pelos Trapalhões por morar nos Estados Unidos e o melhor do Hermes e Renato não faz nem coceirinha nele.
Estamos falando aqui de Unidades Básicas de Cultura Pop. Guerra nas Estrelas e Trapalhões são Unidades Básicas de Cultura Pop, átomos fundamentais que serviram de espinha dorsal para uma série de estruturas nas décadas subsequentes. A disco music e o Monthy Pyton são outros exemplos clássicos. Sem o Monty Phyton, não existiria TODA a publicidade contemporânea, especialmente a produzida entre 95 e 2005. Sem a disco music, não teríamos uma cinzenta área sexual que permite a homens chegarem perto do limiar da homossexualidade sem se comprometer demais, mas isso é outro assunto. Também tenho vontade de expandir esse tópico para os filmes do trio Zucker, Abrahams and Zucker como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu e a obra prima Top Secret, mas isso também rende um blog inteiro…
De volta ao cerne da questã.
A princípio, parecemos estar falando a respeito de um universo bastante restrito formado pelo entretenimento masculino jovem de classe média ocidental. Mas isso é o suficiente para causar uma fissão nuclear. Piadas internas de Star Wars não ficaram presas à órbita desses imberbes. Elas ganharam o mundo, chegaram a paródias de Bollywood e letras de funk carioca. Isso acontece porque os representantes mais intensos dessa cultura, à medida que crescem, passam de fãs a pessoas extremamente bem posicionadas na indústria cultural, chegando ao posto de produtores de cultura pop mainstream. Eu vi isso acontecer com meus próprios olhos. Eu participei de uma lista de emails em 1995 com pessoas que hoje ocupam postos chave da cultura pop (em diferentes níveis, ok). As “bobagens” discutidas naquela lista hoje pautam investimentos substanciais de alguns players relevantes nessa área - inclusive em nível gringo.
Resumindo: quem vai escrever, produzir, dirigir e criticar os seriados, as músicas, os filmes e os games das próximas décadas passou as últimas se embebendo da cultura da magia, especialmente em Harry Potter mas também através da trilogia Senhor dos Anéis, pra não falar de todo o caldo esotérico-tecnológico de Matrix. Se você, como eu e o Chuck Kloterman, não tem uma afinidade muito grande com o mundo das varinhas mágicas, dos elfos, das vassouras que voam, você está FORA. Para quem trabalha com comunicação, isso pode ser impeditivo.
Existem três saídas clássicas pra esse problema que me ocorrem no momento. A primeira é ler os livros da série Harry Potter, um investimento de tempo e paciência talvez muito grande pra quem, como eu, não tem pendor pelo universo de magia. O segundo é ver os filmes, embora você corra o risco de pegar uma fatia mais superficial daquele universo. E o terceiro é o que acabou me beneficiando: conviver com crianças. Minha enteada de 8 anos não é propriamente maluca por Harry Potter, mas tem os filmes e os vê com uma certa regularidade. Ela é minha esperança. Meu salvo-conduto. Meu visto americano. Minha memória expandida em termos de Unidade Básica de Cultura Pop.
(continua semana que vem)
Darkened Room (2002)
Absurda (2007)
O escritor mexicano e roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel no Roda Viva.
Ele fala sobre as carreiras paralelas de escritor e roteirista, as experiências com produção e direção, etc. Mas o que me marcou nessa entrevista foi a reflexão dele sobre o impacto das cenas de morte no cinema. É bastante lúcida. Veja que vale a pena.
Como eu já disse aqui, em hipótese alguma me considero uma fonte confiável para falar de Watchmen. Meu envolvimento emocional com a minissérie não chega a derrubar meu senso crítico, mas deixa bastante tonta minha capacidade de abstração ao tentar imaginar como é a experiência de assistir ao filme sendo alguém que não leu umas quatro vezes a série e não é fã do Alan Moore. Então, de qualquer forma, feitas as ressalvas… vamoslá…
***
Ah: você pode ler o texto todo mesmo que não tenha visto o filme. Não contém spoilers, nem sobre o final.
***
Pois bem.
Watchmen é um filme realmente fantástico em muitos aspectos. Todos eles ligados à noção de heroísmo. Antes de mais nada, é preciso aplaudir o heroísmo do diretor Zac Snyder, que conseguiu colocar quase tudo que importa da densa obra de Alan Moore e Dave Gibbons em um filme de 2h40min. E o que é quase tudo que importa? É o amálgama de referências audiovisuais da cultura americana dos últimos 60 anos (o início do fim do maximalismo?). É também a excelente trama conspiratória que questiona o papel dos super heróis no imaginário popular. Mas, acima de tudo, o que importa e o que vou tratar aqui são os ganchos que Zac Snyder ofereceu para que a audiência possa questionar a própria noção de heroísmo. Isso poderia se perder na adaptação para as telas, mas não. Está tudo lá, bastando prestar atenção.
Watchmen, nesse sentido, vem em boa hora. Como nação, tenho a impressão que os Estados Unidos estão vivendo um momento em que a idéia de heroísmo dá sinais de cansaço. A eleição de Barack Obama, apesar de cercada de ares redentores, marcou o rechaço de uma parte da população americana à cultura do caubói, do herói de guerra, do maverick que vai lá, dá umas porradas e umas canetadas e resolve os seus problemas e os de todo mundo.
O que me leva automaticamente às anotações mentais que fiz de Milk. O filme de Gus Van Sant que deu o Oscar a Sean Penn é um relato intenso e emocionante sobre um herói civil americano, que lutou com tenacidade, bom humor e inteligência política para salvaguardar os direitos dos homossexuais. Harvey Milk, como a maior parte dos heróis civis, foi um homem que utilizou intuitivamente as noções básicas de ativismo para ativar o senso de comunidade de seus pares. Um detalhe, portanto, pode passar despercebido pelos que se apegam à figura do homem entusiasmado e dado a subir em caixotes e discursar com um megafone: os colaboradores de Milk, sua rede de parceiros políticos, amigos e amantes que sustentaram seu caminho e se tornaram tão importantes quanto sua liderança. Milk não seria nada sem sua rede. Sua rede não seria nada sem Milk. Todos estão interligados. Por isso também vem em boa hora a cinebiografia de Milk, pois estamos entrando, como cultura global, em uma era onde a colaboração horizontal e o trabalho de formiguinha vai fazer muito mais diferença do que os atos de grandiosidade e espalhafato.
De volta a Watchmen, tudo começa (cronologicamente, não na trama) com um grupo de pessoas interessadas em complementar o trabalho da justiça e da polícia de forma anônima. O recurso é um velho conhecido nosso no campo da fantasia: um uniforme chamativo, algumas habilidades especiais (humanas ou sobre-humanas) e os criminosos que se cuidem. Quem dera fosse tão fácil resolver os problemas do mundo. Infelizmente, como mostra Watchmen, não podemos solucionar a maior parte dos nossos problemas pessoais ou coletivos como se estivéssemos nos preparando para um baile de carnaval.
Os super heróis de Moore são, como vemos ao longo do filme, seres com incríveis capacidades físicas mas com capacidades psicológicas extremamente limitadas, não muito diferentes de qualquer um de nós. Mesmo Dr. Manhattan, o super-homem capaz de se teletransportar, ver o futuro e manipular a matéria, trava ao tentar resolver as questões mais básicas de relacionamento. Toda sua inteligência e racionalismo só o colocam em uma encrenca atrás da outra, muito embora os mais materialistas possam o cultuar em uma espécie de teísmo bizarro.
As cenas de violência de Watchmen são outro gancho revelador do caráter problemático dos heróis. Propositalmente ou não, Zac Snyder escolheu manter o naturalismo do traço do desenhista Dave Gibbons, ou seja, quando alguém toma uma porrada, vemos muito sangue, fraturas expostas, crânios rachados ao meio. E mais. Vemos os envolvidos, os chamados heróis, sentindo prazer ou alívio com a violência. Não é como em Homem Aranha ou Quarteto Fantástico. São cenas chocantes, extremamente físicas e pesadas, que vão além do que se poderia chamar de justiça ou autodefesa, parecendo servir mais para exorcizar fantasmas particulares. Assim são os heróis de Moore: humanos, sensíveis, confusos, esperançosos. Na maior parte do tempo, eles se comportam como pitboys em um bloco de rua.
A suposta redenção ao final de Watchmen existe, mas é absolutamente questionável uma vez que baseada na clássica lógica americana: um indivíduo se considera apto a executar um plano que envolve milhões de pessoas sem o poder de escolher e joga sobre si a responsabilidade da vida delas como se isso atenuasse o sofrimento pela qual elas passam. Curiosamente, os americanos sempre chamaram isso de “democracia”. É impressionante, mais uma vez, como a história da Alan Moore é atual e profunda. Não trata apenas da psiquê deformada e problemática dos heróis individualmente, mas da psiquê deformada de uma sociedade inteira e suas crenças em uma justiça individualista e arbitrária.
A impressão que dá, no fim das contas, é que todos os heróis precisam de apoio terapêutico especializado e não apenas o psicopata Rorschach. Cada um na tela representa com perfeição um aspecto do mundo atual: Dr Manhattan é o existencialista-materialista-ateu convicto, cujo Deus é a física quântica. Rorschach é o tiozão de churrasco de domingo, que fica violento ao reclamar da degradação do mundo; Daniel é o homem médio resignado diante de sua impotência de lidar com os seus fantasmas e os do mundo, precisando literalmente de fantasias para funcionar; Adrian Veidt é o semi-deus cujo dinheiro e inteligência asseguraram a seu egocentrismo condições para manipular pilares econômicos e militares… e por aí vai. Nenhum deles tem a menor condição de atuar como juiz ou defensor da humanidade. Nenhum deles traz felicidade e harmonia sem um custo enorme e questionável. Eles apenas geram mais dor e sofrimento com sua própria confusão.
Em resumo.
Ao Sr. Snyder, os meus parabéns. E quanto aos super heróis: todo mundo já pra terapia!
Woody Allen em seu tempo de comediante stand up, em 1965. Poucos sabem, mas muito antes de começar a filmar, Allen exercitou seu texto como redator de comédia para a TV e de frases irônicas para artistas atendidos por um escritório de RP.
Esse monólogo não é a coisa mais engraçada do mundo, é um outro estilo de humor e outra época. Mas vale pela curiosidade e pelo valor histórico pra quem, como eu, curte o cara.
Eu andava evitando escrever sobre o Watchmen por dois motivos. Primeiro porque o Matias vem debulhando o assunto com intensidade no Trabalho Sujo e não é preciso chover no molhado aqui n’Oesquema. Segundo porque, à medida que fui vendo os vídeos que surgiam, percebi que minhas ligações emocionais com Watchmen provavelmente me fariam escrever como um guri de 8 anos de idade (embora, a saber, li pela primeira vez com 15 - sim, eu tenho a primeira edição nacional!).
Masssss… vamoslá…
Pra começar, diferente do Matias eu penso que, em grande parte, Watchmen é Watchmen também por conta de Dave Gibbons. Toda idéia ganha força com um contexto visual adequado à sua proliferação na mente de quem tem contato com ela (e a história inteira da cultura pop está aí para me ajudar a defender essa tese). Gibbons foi o responsável por dois aspectos fundamentais de Watchmen: o primeiro diz respeito a crer que estávamos lendo uma história passada em um “mundo real”. Ele fez isso através do traço realista e elegante, suprimindo onomatopéias e linhas de movimento, pra não falar da incrível coleção de detalhes visuais (fachadas, figurinos, carros, apetrechos domésticos) que colocaram os dois pés da narrativa no chão. O segundo aspecto é o fato dele simplesmente ter saído da frente da história da Alan Moore. Como um bom diretor de cinema cujos cortes e movimentos de câmera são imperceptíveis em detrimento de um bom texto, Gibons usou um grid fixo de quadros por página, dando espaço para que as idéias de Alan Moore fizessem sua evolução na avenida com total desenvoltura sem maximalismo pra atrapalhar.
Quanto a isso, já vimos que não precisamos nos preocupar. O diretor de Watchmen, Zac Snyder, vem deixando bastante claro sua dedicação em reconstruir visualmente o que Gibbons concebeu. Entretanto, o que vai impedir que o filme vire uma mera caricatura da graphic novel não é a fidelidade de Snyder a Gibbons, mas sim a Moore. Fica a pergunta: Snyder vai sair da frente de Moore? O visual incrível que estamos apreciando nos vídeos disponíveis estarão a serviço da boa história? Uma coisa é adaptar 300, espetáculo visual do estético Frank Miller. Outra, bem diferente, é Watchmen, uma tour de force narrativo com ares literários e realistas.
Mas eu sou um homem de boa vontade. Creio que Snyder fez um bom trabalho. Quero que Snyder tenha feito um bom trabalho. O que nos leva, automaticamente, ao problema seguinte: quantos dos frequentadores do shopping terão paciência com um bom trabalho feito de homens mascarados com roupas colantes? Mesmo com uma cultura de magia e ficção científica se espalhando por grupos sociais menos restritos (Lost na Globo, novela de mutantes e Heroes na Record, Harry Potter em tudo quanto é lugar), mesmo com o assunto “super heróis na vida normal” sendo levantado em filmes mais leves (Hancock; Bolt, o Supercão; Minha Super Ex-Namorada) quantos estarão dispostos a assistir homens fantasiados destilando questionamentos morais, existenciais, políticos e sociais? Aqui eu concordo com o Matias: é muito mais fácil ver um cara de cueca por cima da calça dando porrada do que filosofando. Faz mais sentido.
Para fazer com que um projeto que vem atravessando as décadas na indústria cinematográfica aconteça nas bilheterias, a campanha de marketing nos Estados Unidos vem sendo intensa, com um trabalho forte de educação a respeito dos personagens e da trama. No Brasil, por outro lado, Wacthmen vem no embalo normal de estréia blockbuster e sua contextualização vai depender do jornalista aficionado que existe em cada caderno cultural.
Esses recursos garantem, com certeza, um bom fluxo inicial de audiência. A questão passa a ser o que o boca a boca vai dizer a partir daí. A tarefa de Zac Snyder, desse ponto e vista, é conseguir manter o grosso caldo original da trama e, ao mesmo tempo, permitir que o espectador médio consiga definir aos amigos sobre o que é o filme. Ou então ativar uma quantidade considerável de influenciadores apaixonados que vão direcionar todos seus contatos sociais aos cinemas. Sei lá.
Voltando à obra, Watchmen é um trabalho tão interessante e complexo que, mesmo mais de 20 anos depois de seu lançamento, ainda não surgiram paralelos, mesmo num ecossistema tão rico quanto os quadrinhos. Sua intrincada mitologia, na época condensada em um único meio, é perfeita para espalhar-se em uma teia transmedia storytelling com todas as possibilidades de conexão que a cultura digital atual propicia. Já temos promessas de um game com uma narrativa prévia à original e um extra de DVD que explora uma célebre história paralela. O que mais vem por aí?
Mas isso é outro assunto. Se o Alan Moore já tem dores de cabeça com o que vai acontecer com seu trabalho em uma tela, imagina em todas as outras.
É de 1982 a parada.
Precisa dizer mais? Tudo contigo agora.
Existe muitos ângulos e muitas leituras para este filme. Eu poderia escrever linhas e mais linhas a respeito de cada pequeno detalhe bem pensado e construído que conduz tão bem a história. Também poderia destilar algumas boas lições de vida, quase beirando a auto ajuda barata (se é que não vou acabar aí). Poderia até mesmo comentar meu pé atrás inicial com a possibilidade do diretor David Fincher entrar numa fase barroca. Mas a real é que eu simplesmente saí perturbado e tocado pelo filme.
De tudo, o que mais me chamou a atenção em Benjamin Button, e o que é possível racionalizar, é o movimento que os personagens fazem para lidar com os fatos inevitáveis da vida. O mágico, o fantástico e o inusitado, ou seja, a condição de Benjamin (que nasce velho e morre novo), não impede o comum, o mundano, o inevitável: nascimento, doença, morte, velhice, solidão. Desse ponto de vista, o filme é cru e direto. Não há fábula que remedie de forma definitiva o básico da vida humana. A imaginação frequentemente rende, no máximo, um Tylenol 750g.
Obviamente, há muito de inspirador nas quase três horas de projeção. Uma das pontas do durex: no entrecruzar dos caminhos, Benjamin, seu pai, sua madrasta e seu grande amor, todos precisam extrapolar suas identidades usuais para poderem se relacionar de forma mais direta uns com os outros. Pai, mãe, filho, namorado, namorada, marido, esposa, mãe, velho, criança, amante, funcionário, chefe, todos esses rótulos não são propriamente invalidados, mas são (às vezes dolorosamente, às vezes naturalmente) transcendidos pra que as relações se viabilizem e as pessoas possam trazer algum cuidado, alguma compreensão, ou simplesmente fazer companhia umas às outras.
David Fincher foi sagaz. Com um truques básicos de ilusionismo narrativo, conseguiu chamar de curioso o que existe de mais humano e usual em todos nós.
Obrigado, camarada.
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Imagens: Heather Horton
Quando o nome Michel Gondry vem à tona, a primeira coisa que eu penso é como ele borra completamente a fronteira entre a “vida real” (o mundo supostamente externo que experimentamos) e a “mente” (nosso mundo interno que supostamente só experimenta). De Human Behaviour, seu primeiro clip de maior repercussão, passando pelo megapremiado comercial da Levi’s, Drugstore, até chegar a seu terceiro longa, The Science of The Sleep, sempre ficou clara a intenção do diretor de transformar a realidade em playground. Ou, para ser mais preciso, em uma oficina de artesanato misturada com hora do conto.
Na sua trajetória, mesmo mantendo um modus operandi marcante, Gondry ainda mostrou uma diversidade de abordagens, especialmente nos videoclips. No cinema, seus três primeiros longas são um pequeno retrato desse espectro: Human Nature (se bem me lembro) vai mais pela senda do sarcasmo, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança é busca esperança ao mergulhar na melancolia e The Science of The Sleep, bem… The Science of The Sleep só se livra do tedioso estigma de egotrip porque, apesar do ego atrapalhar, a trip é visualmente interessante.
Mas aí, para salvar a pátria que parecia perdida com “The Science”, chega Be Kind Rewind. Apesar da controvérsia nos escritórios d’Oesquema, eu sustento que o filme tem tudo aquilo que fez Gondry célebre no baixo-mainstream (aquela região situada no início da Cauda Longa) mas com um toque sensacional de Sessão da Tarde.
Pela primeira vez, o jeitão Mr. Maker de Michel Gondry entra com louvor no gênero “tremenda confusão”. A história, de certa forma, você já conhece: um sujeito responsável que cuida do negóco de um tiozinho tem um amigo vagabundo que quer resolver uma encrenca e acaba botando todo mundo numa tremenda confusão. Na prática, Mos Def cuida de uma falida locadora de VHS do Danny Glover. O Jack Black, ao fracassar na tentativa de sabotar uma estação elétrica, volta energizado e apaga todas as fitas do Glover, obrigando a dupla de trapalhões a refilmar clássicos pop com seus próprios recursos.
Rocamboles visuais e ingenuidades temáticas à parte, Be Kind Rewind é simplesmente isso e se você sentar pra assistir assim, não vai se decepcionar. Mas, pra mim, o filme também funcionou como uma ode à criatividade, à noção de que todo mundo pode ser criativo em qualquer circunstância. Em uma época em que boa parte da população brasileira tem um celular com câmera na mão e que acompanhar certos drama no Orkut rende mais do que certas novelas, um filme desse tipo é estimulante. Não apenas a noção de produção lo-fi é celebrada em Be Kind Rewind. Assuntos tangentes como autoria, ficção vs. realidade, processo criativo, ética e direitos autorais são salpicados de forma esperta ao longo da trama.
Como todos os outros filmes de Michel Gondry, este também trasncende a questão da “mente”. Mas, aqui, aborda mais a “mão”. Para ser mais preciso, a necessidade de se botar a MÃO na massa pra fazer as idéias da mente ganharem representação no que chamamos de vida real. O veículo para isso em Be Kind Rewind é a criação artesã, onde as mãos e os objetos físicos cotidianos, que estão ao alcance de qualquer um, se transformam em ferramentas sofisticadas do pensamento. (E a ironia aqui fica por conta do conhecido envolvimento do diretor com alta tecnologia para criar visual de artesanato.)
Seja ao se relacionar de forma mais íntima com telas sensíveis ao toque, ou ao transformar o cargo de chef em algo similar ao rockstar underground, as mãos vem ganhando importância na cultura pop. Lembre-se de todos os pôsteres de filme que vem sendo feitos à mão, do vídeo do Daft Punk com os dedinhos ou dos bonequinhos da capa do Dirty (à beira do revival). As mãos são uma parte importante da nossa cultura contemporânea. Não é propriamente isso que o Michel Gondry nos diz exatamente em Be Kind Rewind. Mas é isso que eu vi ali. Ah eu vi.
Em 1966, o jovem Edward Esper Brown estava trabalhando na cozinha de um resort em São Franciso. Em 1967, ele continuava na mesma cozinha, no mesmo lugar, mas agora fazia parte de um centro zen budista, entremeando suas atividades culinárias com a meditação. Isso porque no fim de 66, o resort comandado por Robert e Anna Beck foi vendido a uma comunidade zen budista e transformado no Tassajara Zen Mountain Center, o primeiro monastério da linhagem Soto-Zen nos Estados Unidos.
Brown foi aluno de Suzuki Roshi, um dos pioneiros no ocidente a desbravar a floresta de longos cabelos hippe abrindo picadas de lucidez e estabelecendo a base para a exploração de uma espiritualidade que fosse além de viagens lisérgicas imersas em auto-ilusão. Em 1970, o estudante foi ordenado professor por Roshi, atividade que levou adiante em paralelo com sua carreira de chef.
Fazendo a ponte entre a visão zen e a sabedoria de chef, Ed Bronw escreveu um livro que até hoje é considerado uma bíblia de bakery (qual seria a tradução? padaria?): The Tassajara Bread Book. Na sequência, ao longo de quase duas décadas, vieram The Tassajara Cooking e The Tassajara Recipe Book. Em 2006, 36 anos depois do primeiro livro, Brown virou tema de um dos mais interessantes documentários que eu já assisti nos últimos tempos. Em How To Cook Your Life, a cineasta Doris Dörrie, aluna de Brown, registra uma das oficinas do chef/mestre na qual ele ensina que o ato de cozinhar e o ato de meditar são caminhos muito parecidos.
How To Cook Your Life não é didático tampouco moralista. Portanto, foge da prateleita da auto-ajuda e flutua entre categorias. É um documentário mas não se limita a documentar; é sobre cozinhar, mas com ingredientes que estão dentro de nós; é sobre uma religião, mas em vez de pregar, seu objetivo é muito mais derivado da origem da palavra religião, o ato de religar. Algo fundamental quando, segundo a diretora do filme, ”nós nos tornamos especialistas em nos desconectarmos.”
Cena após cena, How To Cook Your Life não só retrata o dia-a-dia no curso liderado por Edward Espe Brown como oferece uma experiência imersiva: a trilha, a edição, o clima como um todo do filme transporta você por um tempo para uma outra batida. É assustador perceber que falar na necessidade de baixar o ritmo em um mundo cada vez mais acelerado virou clichê. Mas é reconfortante ver que existem maneiras tão atraentes e eficientes de fazê-lo. Isso é How to Cook Your Life.
O filme entrega uma sequência inspiradora atrás da outra. Mas uma em especial me marcou muito.
O rosto do chef e professor aparece muito próximo de nós. Os olhos dele são calmos porém intensos. É possível ver as rugas de expressão, bem como cada vinco da pele. Esse é Justamente o assunto que ele levanta, mostrando as antigas chaleiras da cozinha. As palavras não são exatamente estas porque não estou com o filme aqui. Mas é mais ou menos isso:
“Um dia eu estava olhando para estas chaleiras e percebi como elas são marcadas, amassadas, queimadas, por terem sido usadas por tantos anos. E percebi que nós somos assim também. A vida deixa marcas. A vida faz isso com os seres humanos também, ficamos marcados. Mas…”
Os olhos de Brown se enchem de lágrimas, porém ele continua sereno e com um leve sorriso.
“… eu também percebi que mesmo amassadas e queimadas as chaleiras ainda servem às pessoas. Ainda podemos usá-las pra esquentar água ou fazer café. Então eu percebi que também poderia ajudar as pessoas.”
How To Cook Your Life não saiu no Brasil, mas dá pra comprar na Amazon ou achar algum torrent da vida por aí.
“Quando criamos esse personagem, nos divertimos pensando em alguém que tivesse essa liberdade toda. Eu certamente adoraria beber tanto quanto ele e não me preocupar com o meu fígado. Seria legal acordar de manhã numa total ressaca, já pegar uma garrafa de Scotch, beber uns goles no gargalo, dizer ‘Ah, me sinto melhor agora’ e então começar meu dia. Mas eu nunca faria isso porque eu me preocuparia o dia todo se não estou me tornando um alcoólatra, se eu estou me destruindo, se meu casamento não vai sofrer com isso. Ele não pensa nessas coisas e há algo incrivelmente atraente a respeito disso.”
Trecho de uma matéria no caderno de mídia do Guardian que explora um fenômeno praticamente estabelecido no mainstream, mas ainda pouco comentado mais claramente: a cultura machoman setentista no jeito de ser e vestir, acho que até mais no vestir do que no ser. O texto do articulista John Harris é todo calcada em cima do seriado Life on Mars, que eu nunca vi mais gordo, mas que também não senti a necessidade de assistir pra escrever esse post. Porque, você vai ver, no fim das contas tudo que é comentado ali de certa forma é facilmente encontrável em outras referências que andam nos rodeando.
O ponto do Harris é que o clima de “sou durão e posso tudo” que emana dos antigos seriados de televisão e hoje permeia a cultura pop traz consigo uma certa inocência também derivada daquela época. E ele traz mais uma declaração do criador de Life on Mars a respeito de sua cria:
“Se ele soubesse o que sabemos hoje, provavelmente ele não se comportaria assim. (…) O fato é que na vida real Gene Hunt seria provavelmente feio e racista.”
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Memórias dos anos 70 trazem uma estranha nostalgia: ela pega de jeito as pessoas entre 27 e 35 anos e ok, normal. Mas o engraçado aqui é como esse refluxo estético e, por vezes, comportamental, está tão onipresente independente da pessoa ter vivido ou não aquela época - um traço fascinante da forma como as pessoas se instruem e se divertem hoje. Uma das explicações, caso você queira teorias: as pessoas entre 27 e 35 anos estão distribuídas estrategicamente em funções influentes da indústria do entretenimento, informação e tecnologia.
Se é difícil determinar pontos de mudança definitivos (uma vez que o caldo cultural se move de maneira fluída, numa espécie de degradê), com um mínimo esforço podemos pinçar obras de referência que sacramentaram o início do retro-setentismo em nossa era. Agora me vêm à cabeça apenas dois: o Boogie Nights do Paul Thomas Anderson (derivado de Os Bons Companheiros e Cassino) e o Soundgarden (as pessoas falam falam do Nirvana e esquecem a banda que de fato trouxe o Sabbath de volta). Se formos adiante, vamos chegamos no stoner rock, no Hermes & Renato (trazendo de volta toda uma subcultura de amor aos Trapalhões e às pornochanchadas brasileiras), o Canal Brasil e o culto ao Peréio. Em paralelo, o Cidade de Deus, queira ou não queira, cimentou a estética brasileira dos anos 70 que já vinha sendo embalada pela volta do samba rock e pelo prévio resgate underground do Tim Maia Racional.
Na raia ao lado, temos os shows da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A revivendo um certo riponguismo universitário que veio desaguar no Cordel do Fogo Encantado e, mais recentemente, no Teatro Mágico. O Cheiro do Ralo, do Heithor Dhalia, é um dos melhores e mais interessantes ícones dessa estética (felizmente acompanhado de algo que nem sempre está presente: conteúdo). Não vi O Dia em que meus Pais Saíram de Férias, mas sei que também está nessa pilha.
A lista é grande e grifada com marca texto eu certamente destacaria Zodíaco, filme mais recente do David Fincher que não só investiga a história real de um serial killer americano dos anos 70 como mergulha totalmente no clima e no visual da época. Tive uma sensação engraçadíssima com esse filme: me senti em casa, totalmente reconfortado com aquelas imagens todas, a fotografia, os objetos, as roupas, muito embora eu não tenha vivido tanto nos anos 70 (6 anos apenas), muito menos nos Estados Unidos e muito menos perto de serial killers (que eu saiba). Deve ser a exposição massiva aos seriados dos anos 70 ao longo dos anos 80. Enfim.
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O mercado publicitário abraçou totalmente esse sabor setentista, em parte pela influência do Hermes & Renato e tudo isso que viemos comentando, em parte porque é o jeito como os argentinos fazem publicidade - e eles estão pautando os comerciais brasileiros nos últimos 3 anos. Se bem me lembro, tudo começou com uns comerciais da Sprite meio que imitando Hermes & Renato, lembra disso? Tem esse daí de cima do Twix também, o melhor de todos.
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Ah.. como é que eu fui esquecer uma das PRINCIPAIS obras nesse lance de “neo-setentismo” (inventei agora, não existe, não passe adiante): o Âncora.
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Como é que se explica tudo isso? Que misteriosas forças na cultura fazem com que isso tudo aconteça? Me recuso a teorizar demais porque só pensei clichês: o conforto de voltar ao passado, especialmente aquele que não vivemos e que permite refilmagens mentais particulares, bem como o limbo temporal que as tecnologias digitais ajudaram a criar (tudo pode em qualquer tempo).
O fato é que esses dias eu olhei pra mim: casaco de abrigo Adidas azul marinho, calça de veludo meio boca de sino cor de vinho, tênis Adidas branco…. me dei conta, pô, que cheguei aos 33 anos de idade vestido de um jeito muito parecido com quando eu tinha seis…
Os psicanalistas podem ficar à vontade nos comentários, mas eu não vou pagar a consulta.

Estava vasculhando as lindas fotos do Takeda em NYC quando esbarrei nos comentários do Flickr dele, onde um pessoal explicou o que era essa bicicleta branca que o Tax havia fotografado. Trata-se de um memorial urbano dedicado à memória de um ciclista que morreu ali em um acidente. Em outras palavras, Ghostbikes.
De parecido por aqui, já vi nas estradas do Rio Grande do Sul cruzes de madeira enterradas ao lado da rodovia marcando o local de algum acidente, mas na cidade é raro. O que me lembro de ter visto - e achado muito interessante - são as borboletas da Fundação Thiago Gonzaga, que também marca locais de acidentes fatais.
O que me chama a atenção em tudo isso é que tanto as bicicletas quanto as borboletas (super interessantes pela simplicidade) são um tipo de apropriação espiritual do espaço urbano (artística já é mais comum), uma expressão perdida seja pela velocidade imposta às grandes metrópoles do primeiro mundo, seja pela violência e desestruturação no caso das metrópoles dos países emergentes.
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Agora, a grande questão: vão colocar uma ghostbike pro Isaac Hayes em algum lugar?
E David Lynch conseguiu mais uma vez: criou um ambiente surreal, mas dessa vez de um jeito que ninguém esperava (apesar do claro título da palestra). Sua participação na conferência Fronteiras do Pensamento estava mais pra “A História Real” do que pra “Cidade dos Sonhos”. Em vez de enfatizar o lado bizarro e obscuro do ser humano, como faz na maior parte dos seus filmes, Lynch veio subilnhar a natureza pura e brilhante da mente humana que ele declara experienciar regularmente por ser praticante da Meditação Transcedental.
Técnica divulgada pelo mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi, a Meditação Transcedental se tornou célebre nos anos 60 e 70 quando os Beatles, o cantor folk Donovan e Mike Love dos Beach Boys (que virou professor de MT) se conectaram com os ensinamentos de Maharishi. Uma história controversa no retiro de seis semanas dos Beatles jogou sombras sobre a experiência durante um tempo, mas tanto Lennon quanto George e outros presentes desmentiram a maledicência creditada ao “mago da eletrônica” da Apple Records Alexis Mardas. O que há por trás de tudo isso, não sei dizer ao certo, teria que pesquisar mais.
O fato é que a Meditação Transcedental é uma das práticas contemplativas que mais ganhou notoriedade no ocidente. Eu, particularmente, não conheço e vejo algumas diferenças básicas com as práticas budistas que eu pratico, mas fiquei muito feliz de ver um cara como o David Lynch chegar aqui e subverter o clichê do gênio atormentado que cria obras dementes e divulgar amplamente uma prática de meditação. Para algumas pessoas, ouvir certas palavras de um cara imerso na cultura pop faz mais sentido do que se elas fossem ditas por um senhor de barbas, cabelos, roupas brancas e chinelos. São nossas limitações. Eu sou meio assim às vezes.
Lynch contou que pratica Meditação Transcedental há 35 anos e que a considera uma chave para acessar um nível de consciência mais claro, infinito, repleto de potencial criativo e amoroso. Falou de estados de bem aventurança que experimenta graças à sua prática e também das soluções criativas que ela traz para determinados filmes.
“Cidade dos Sonhos foi rodado para ser um piloto de TV. Um executivo da ABC assistiu ao copião às seis e meia da manhã, com uma caneca de café numa mão e um telefone na outra. Ele detestou o filme e eu fiquei com aquelas histórias abertas todas sem saber o que fazer. Demorou um ano para termos a liberação legal do que foi filmado e quando conseguimos eu precisava transformar aquilo em um filme pra cinema. A solução criativa veio em uma sessão de Meditação Transcedental, como um colar de pérolas que brotou do meu interior”.
O diretor de Veludo Azul também defendeu que uma técnica contemplativa como a Meditação Transcedental ajuda as pessoas a procurarem a felcidade e a criatividade dentro de si e jogou uma pá de cal sobre a imagem de artista sofrido dizendo que a negatividade é inimiga da criatividade, que você não pode criar em estados depressivos e, em voz firme, pausada e clara que “o ser humano não existe para sofrer. Nossa natureza básica é a felicidade. O indivíduo é cósmico”, slogan que repetiria ainda umas duas vezes ao longo da noite. Contou do trabalho de sua fundação, que levantou mais de 5 milhões de dólares nos últimos dois anos para divulgar e implantar programas de meditação em escolas públicas e privadas, contribuindo para a diminuição da ansiedade, stress e violência.
A uma certa altura, uma pergunta bem colocada veio da platéia: “Por que então seus personagens sofrem tanto?” A resposta veio sem constrangimento: “Em todo lugar as pessoas me perguntam isso. Acontece que todas as histórias tem conflitos. Mas o artista não precisa sofrer pra mostrar sofrimento”. Ainda trouxeram à tona os exemplos de Van Gogh e Artaud, mas ele não arredou o pé: “Garanto que enquanto Vang Gogh e Artaud criavam, eles experimentavam felicidade.”
Sobre cinema, falou pouco e ninguém pareceu sentir muita falta. A respeito das limitações de certos equipamentos digitais, comentou que a má qualidade pode ser uma ferramenta: “Você acaba mostrando na tela menos coisas e isso aguça a imaginação de quem assiste.” Também declarou que no momento não tem planos para um longa e que o meio ideal para histórias contínuas como Twin Peaks é a internet. E que tem se dedicado a divulgar a Meditação Transcedental, a pintar e a fotografar.
A platéia se mostrou bastante receptiva às idéias contemplativas de Lynch, provavelmente encantada por sua figura carismática, calma e elegante. No final da palestra, entrou em cena o parceiro de Lynch na tour de divulgação da Meditação Transcedental, o trovador escocês Donovan. Armado apenas com um violão e um amplificador, tocou seus clássicos entremeados com histórias dos Beatles e de Maharishi. Uma vibe boa invadiu o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, mas tive que sair antes do final, perdendo a recitação do mantra de Maharishi pelo David Lynch. Ainda pude pegar, ao menos uma pergunta do mediador Gilberto Perin sobre a relação entre drogas e auto conhecimento. Donovan falou na boa: “As drogas são um caminho de fora pra dentro. A meditação é um caminho de dentro pra fora”.
Enfim. Fazendo jus à sua imagem de cineasta altamente criativo, Lynch teve a manha de inverter algumas lógicas do seu meio. Mesmo sem ter uma câmera ao seu comando, criou uma atmosfera e fez mais do que falar de sua obra e contar histórias. Mesmo a quem não se conectar com seu caminho, deixou um recado claro e importante a respeito da necessidade de paz interior como eixo fundamental de uma paz no “mundo externo”. Também é interessante alguém falar de técnica, regularidade e disciplina no que diz respeito à contemplação. A vasta literatura e o jornalismo de auto-ajuda falam, falam, falam em buscar a felicidade interior, mas muito pouco é dito sobre a necessidade de treinamento de práticas contemplativas. Quando vemos uma reportagem em uma revista ou na TV, parece que “basta você simplesmente querer”, mas esse tipo de coisa é como aprender a tocar um instrumento, uma nova língua ou desenhar ou tocar: é preciso treino, prática constante e, o mais importante e diferente de tocar guitarra, um professor.
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Um disclaimer necessário: não conheço a tradição da Meditação Transcedental e seus professores e acho muito delicado sugerir algo desse tipo às pessoas sem um contato mais próximo. Portanto, se alguém quiser alguma dica de centro de meditação ligado à tradição budista, que é o que eu conheço, é só escrever: gustavomini(arroba)gmail.com.
Pois então The Dark Knight é tudo isso e um pouco mais. Eu tinha algum receio porque achei uma bomba o Batman Begins, com aquele Batman emo e chormingão. Mas dessa vesz, o diretor Christopher Nolan se redimiu comigo - não que ele se importe tanto com a minha opinião, mas enfim.
Diferente do Batman Begins, The Dark Knight é intenso, pesado e sem uma folguinha. São duas horas e meia de Gotham City indo ladeira abaixo sem espaço pra respirar. E a velocidade na ladeira abaixo, o melhor de tudo, nem sempre se dá por conta de cenas aceleradas ou ação desenfreada, mas devido à lenta degradação da sanidade da cidade imposta por um Coringa determinado a provar suas teses com um pensamento não só cruel mas altamente sofisticado.
Não quero chover no molhado em relação ao filme, por isso, pra não perdermos tempo, vou direto ao ponto que quero destacar e que pouco é destacado: o desejo de anarquia do Coringa é um desejo de ordem muito bem disfarçado.
Conversando com um Harvey Dent à beira da demência, o Coringa larga essa:
“Eu realmente pareço um cara com planos? Você sabe que eu sou só um cachorro perseguindo carros… eu não saberia o que fazer se eu alcançasse o carro. Você sabe… eu só faço as coisas. Planos? A máfia tem planos. A polícia tem planos. Gordon tem planos. Eles são todos schemers (esquematizadores). Sempre tentando controlar seus pequenos mundinhos… eu tento mostrar para os schemers o quão patéticas são suas tentativas de controlar as coisas. (…) Você era um schemer e olha onde isso levou você. (…)”
A empreitada do Coringa, a meu ver, nunca é disseminar o caos, mas fazer valer a sua própria noção de ordem. Durante o filme inteiro (e sua vida nos quadrinhos) o que ele faz é tentar impôr essa noção ao mundo ao seu redor. Não se trata de um anarquista político, mas de um ser que arquiteta meticulosamente formas de exercer seu egoísmo e sua birra em um nível doentio.
A certa altura, Bruce Wayne debate com Alfred as motivações do louquinho, dando a deixa para mais uma tirada do mordomo filósofo: “Algumas pessoas apenas querem ver o circo pegar fogo.” Alfred, a meu ver, está errado.
O Coringa não quer ver o circo pegar fogo. O Coringa quer é reproduzir seu circo particular. Seu circo interno já pega fogo o tempo todo. Seu suposto humor esconde um sofrimento constante de uma mente agitada e permanentemente ocupada (o que o Heath Ledger deixou bem claro). E a solução para se acalmar é fazer com que o circo externo seja sincronizado com o circo interno.
Dessa forma, diferente do que parece, o Coringa não é a epítome do mal ou da loucura. É, como muitos falsos rebeldes, a epítome de algo bem mais infantil e precedente ao mal e à loucura: o egoísmo.
Estava pesquisando para um artigo sobre product placement (no Brasil, o famoso merchandising), quando me deparei com esse incrível fato: os irmãos Lumiére, pioneiros do cinema, também são pioneiros de product placement.
Segundo Jay Newell, media analist da Universidade Estadual de Iowa (parece Casseta e Planeta…), os Lumiére tinham um associado que também trabalhava como divulgador na Lever Brothers (hoje a multinacional Unilever). Ou seja, não foi por acaso que um certo sabonte Sunlight apareceu em muitas de suas produções.
Não cheguei a ir tão longe no artigo, mas dois filmes prometesm bagunçar de novo os limites entre conteúdo e publicidade: o do Burger King e o da Red Nose. Ainda vou falar mais disso por aqui. Aguardai.
“Quando acordava nos bosques, na escuridão e no frio, estendia a mão para tocar na criança que dormia a seu lado. Noites de trevas mais densas do que as próprias trevas e cada dia mais cinzento do que anterior. Como os primórdios de um glaucoma frio a obscurecer o mundo.”
Pai e filho caminham por uma estrada que corta um mundo dizimado. A fina chuva de cinzas cai persistentemente sobre árvores retorcidas, corpos carbonizados e esqueletos de construções. Um carrinho de supermercado velho carrega as poucas provisões e apetrechos. A jornada é lenta e perigosa. Os poucos remanescentes do que quer que tenha acontecido surgem vez que outra no horizonte. Alguns passam ao largo sem querer cruzar histórias de sobrevivência. Outros exigem distância devido à ameaça de roubo e canibalismo. Ainda assim, é preciso ir em frente.
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Que prato para o Tom Cruise ou o Will Smith correrem de um lado pro outro fugindo de ameaças em um ritmo frenético e protegendo um garoto prodígio do cinema enquanto destila moralismo barato em falas pretensamente elaboradas, hein?
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Felizmente, parece que não é isso que vai acontecer com “A Estrada”, novela do escritor americano Cormac McCarthy. O livro usa uma pesada distopia americana para reduzir a relação de um pai e um filho ao básico: poucas palavras, muitos pensamentos ruminados, toda a energia concentrada na sobrevivência física e moral. Descrevendo assim, a narrativa ganha contornos duros, como uma prova de resistência em pleno apocalipse. Mas esse é apenas o cenário. A história em si não é externa, mas interna. Um frágil e desgastado fiapo psicológico conecta pai e filho. Uma fagulha de vida que para o filho tem jeito de referência e para o pai, combustível. É assustador. É depressivo. É tenro. É lindo.
Pelo que tudo indica, é bem possível que saia um bom filme. Especialmente pela decisão da equipe de filmagem de utilizar o Mad Max como um contra-exemplo. E, de fato, se tem uma coisa que não cai bem em uma história como “A Estrada” é uma galeria de personagens bizarros do futuro atacando uma dupla de heróis.
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Os inimigos de pai e filho em “A Estrada” não são os outros seres humanos deseseperados. São o esquecimento, a inutilidade de certas lembranças e hábitos mais prosaicos, as coisas, pessoas e sentimentos perdendo sua função à medida em que o mundo se desfaz. Não com uma sequência de explosões, mas com uma lentidão assustadoramente convicente. “A Estrada” ganha de você por pontos e não por nocaute.
Isso me remeteu dirato ao 11 de setembro. Lembro perfeitamente da noite depois que os aviões bateram nas Torres Gêmeas, eu e uns amigos num bar conversando sobre as possíveis consequências. Havia uma certa eletricidade no ar, como algo muito grande fosse acontecer imediatamente. Uma espécie de revival da guerra fria, aquela iminência de ataque nuclear muito comum em filmes.
E o pior aconteceu: nada aconteceu. Quer dizer, nada no sentido espetacular da coisa. Não houve uma grande guerra concentrada com muita destruição rápida resultando no apocalipse geral e irrestrito. O que aconteceu foi o início da corrosão de algumas seguranças e certezas. Lenta corrosão.
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Talvez aí resida grande parte da plausabilidade de “A Estrada”. Não somos apresentados à catástrofe em um espasmo, mas de forma extendida, constante, frase a frase. E que frases…
“Apenas lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre.
Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.”
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O “The Observer” sugeriu que se lesse o livro como uma meditação sobre a morte (incrivelmente não consigo achar o link do texto de novo, azar). É algo que foge a nós durante a maior parte dos filmes/livros futuristas. Como se passa no futuro, parece que estamos falando de algo que ainda vai acontecer. E não do principal fato a respeito da dissolução das coisas: ela acontece paulatinamente, detalhe a detalhe, átomo a átomo, sob nossos narizes, o tempo todo. Claramente o ambiente que está sendo descrito como dizimado em “A Estrada” é o reflexo da mente dos personagens. O que acontece fora, na verdade, também está acontecendo com a mesma intensidade dentro. Não o “dentro” como consequência do “fora”, mas juntos, indissociáveis. Não há devastação espacial/material sem um correspondente mental. E isso é algo a se pensar não só do ponto de vista global, mas principalmente no âmbito de cada um.
“A grande realização de Cormac McCarthy não é o sonho americano (…). Agora, ele nos deu o grande pesadelo americano. “
Um review do The Guardian contextualiza legal o Cormac McCarthy no cenário do romance americano, dividindo o gênero entre os escritores mais intelectuais e os “durões”. Segundo o texto, McCarthy é meio que o avô dos “novos durões”, mas se você quer se aprofundar nisso vai lá e lê porque entra em toda uma seara que eu não sei muito. Tudo que sei do vovô Cormac é que outro livro dele foi base para o Onde os Fracos Não Tem Vez dos Irmãos Coen, ou seja, parece que essa coisa de exploração do apocalipse pessoal é a praia do cara.
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Mas voltando ao filme: o diretor é o australiano John Hillcoat, que tem no seu currículo um filme com roteiro do Nick Cave (The Promise, já baixei pra assistir) e outro que parece bastante sinistro a respeito do sistema prisional no futuro. Não sei muito mais do que isso, mas essas pistas + as fotos, a escolha do Aragorn como ator principal e a presença do taciturno Nick Cave na trilha sonora reforçam a idéia de que algo decente pode muito bem vir por aí.
Aguardemos.
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