Recomendação: o Trasel escreveu um post interessante sobre a importância da linearidade no processo educativo. Bom… pedagogia DEFINITIVAMENTE não é algo que eu possa comentar com consistência, mas o que me cativou no texto do Trasel é o tom “epa-calmalá” no que diz respeito a surtos gerais do tipo “GENTE, OS JOVENS SÃO MULTITAREFA, PRECISAMOS REMODELAR O MUNDO AO REDOR PRA QUE SEJA MULTITAREFA SENÃO FICAREMOS PARA TRÁS.”
(Comentei também algo sobre isso nesse post recente.)
Enfim. Criou-se, nos últimos anos, a idéia de que o distúrbio de atenção é uma criação das mídias digitais. E, embora elas colaborem pra isso, faz bem o Trasel em lembrar que “Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.”
Nos comentários, teve gente que gentilmente discordou e trouxe um outro ponto de vista. Mas no geral eu tendo a concordar com o Trasel pois no meu entender ele colocou a questão da educação ocidental como um lembrete de equíbrio em meio ao alarmismo e não como uma verdade definitiva. Aliás, o ponto dele, se eu bem entendi, não é fazer uma apologia da linearidade mas ressaltar que não precisamos sucumbira a essas reações exageradas no que diz respeito às novas formas de consumo de mídia, achando que tudo na pedagogia contemporânea precisa ser jogado fora de uma hora pra outra.
Como diria um sábio da antiguidade: calma, calma, não priemos cânico.
O número de câmeras que estão nos filmando está crescendo ano a ano, sejam as câmeras digitais dos nossos amigos ou as onipresentes câmeras de seguranças em supermercados, bancos ou prédios. Todo mundo hoje está em alguma tela em algum momento do dia, o que vem gerando muita discussão sobre privacidade mas também está fazendo a felicidade de muita gente vaidosa e que gosta de aparecer - mesmo que seja nas tvzinhas dos seguranças.
Portanto, se você algum dia sonhou em celebridade de TV, seu sonho já se realizou porque nos dias de hoje você é muito mais filmado e gravado do que muitos atores da década de 70.
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Post inspirado num dos Minimalismos que eu faço pra Oi FM.
O trecho acima, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu 2, além de ser um clássico momento da comédia moderna também oferece um excelente paralelo pra responder à questão proposta no título do post. No filme, a espaçonave que faz o primeiro vôo tripulado à Lua enfrenta sérios problemas técnicos enumerados pela aeromoça: asteróides e problemas no sistema de navegação, que está levando a nave direto pro Sol. Mas o caos se instala mesmo quando um passageiro se revolta e acusa a moça de estar escondendo algo. E ela admite: “Ok… é verdade… também acabou o café.” Aaaaaaaaah!!
Bom.
Digamos, então, que um dia o Al Qaeda puxe a tomada da internet e toda rede fique desativada por uma semana. Honestamente, eu não me apavoro tanto com o provável caos no mercado financeiro ou no sistema de serviços à população, seja público ou privado.
Essa semana, o @maurodorfman comentou que o Twitter é o SAC do universo. Portanto, eu fico imaginando que o verdadeiro problema no caso de um “web blackout” (uéblecáuti) seriam os bilhões de pessoas que reclamam e desabafam no Twitter, no MSN, nos blogs e redes sociais todos os dias. Onde toda essa energia vai ser depositada? O que essas pessoas vão fazer?
Aaaaaahhhh!!!
Segundo o pesquisador americano David Dalrymple, a capacidade de ser focado em um mundo cheio de distrações é mais importante do que acumular conhecimento. Vale ler o artigo todo do Dalrynple, porque ele meio que quebra alguns conceitos solidifcados que flutuam nas nossas conversas de churrasco e mesa de bar.
Qualé o ponto dele? É assim: vivemos num período em que as instituições educacionais e as empresas ainda valorizam, ensinam e se estruturam em torno do acúmulo de conhecimento, a habilidade de você simplesmente SABER coisas. Mas, hoje, com tanta informação à disposição de forma rápida e barata, o que conta são as mentes capazes de navegar com clareza nos oceanos de dados, que não se afogam mas que conseguem dar um sentido maior e mais profundo a eles. Em outras palavras, saber qualquer um sabe. Mas e coordenar tudo de acordo com cada situação necessária?
Daqui pra frente, vamos provavelmente assistir a uma valorização cada vez maior da faculdade natural da mente humana para se focar e ligar os pontos. O mais curioso disso é que a tecnologia, indo contra o que muitas vozes apocalípticos pregam, não está matando o nosso lado mais mágico e intuitivo, mas tornando-o, isso sim, um artigo essencial.
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Post inspirado num dos Minimalismos que eu faço pra Oi FM.
A pesquisadora e jornalista inglesa Aleks Krotoski está investigando a relação entre a identidade das pessoas dentro e fora da internet. O mito que se criou em torno disso é que muita gente inventa um personagem quando cria um perfil digital, aumentando algumas qualidades e reduzindo defeitos. Mas o que o estudo da Aleks está descobrindo é que cada vez mais as identidades digitais refletem a identidade da pessoa fora da rede.
Ou seja, lentamente estamos amadurecendo na construção das nossas relações online, e descobrindo que não podemos fugir de quem realmente somos nem mesmo no tal “mundo digital”. A fuga não esconde nossos traços. Apenas, de um jeito indireto mas geralmente flagrante para olhos atentos, os reforça.
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A imagem acima é do set do Flickr de desenhos feitos no iPhone pelo incrível José Carlos Lollo.
E o texto do post é inspirado num dos Minimalismos que eu faço pra Oi FM.

Depois de abrir o escopo e não se restringir a livros, também trazendo artigos pra nossa coleção, a Biblioteca Conector insere o primeiro filme na sua lista de referências. E, pra surpresa de alguns, não é nenhum documentário cabeçudo sobre o cenário da comunicação (embora venha um por aí, aguarde).
Mas enfim. O que é que um filme da Nora Ephron, mais conhecida por comédias românticas como Sintonia de Amor e Mensagem para você, está fazendo aqui? Bom, eu explico direitinho e, se precisar, faço um desenho.
A publicidade, nos últimos anos, vem demandando cada vez mais dos seus profissionais a sensibilidade de uma comunicação mais próxima e menos invasiva. Em palestras e artigos, se fala muito em conversar com o consumidor em vez de tentar convencê-lo de alguma coisa a golpes de repetição intrusiva. Pra conversar, existem, sim, técnicas e tecnologias, mas muito mais eficiente e profundo do que simplesmente absorver e replicar as técnicas e as tecnologias é compreender as motivações por trás desse valioso diálogo. E, pra isso, Julie e Julia se presta muito bem.
Pra quem não sabe, o filme retrata o cruzamento de duas trajetórias: a da chef maluquete Julia Child e a da aspirante a escritora Julie Powel. A mistura realmente aconteceu na vida real em 2002 quando Julie se viu inspirada pela leitura da biografia de Julia e resolveu cozinhar as suas 524 receitas em um ano. Detalhe: Julie compartilhou sua aventura com (primeiro dezenas, depois) milhares de leitores em um diário digital, formato ainda incipiente na época mas que viria a se tornar bastante popular nos anos seguintes sob o nome de… blog.
Julie e Julia é, então, uma agradável e consistente Sessão da Tarde com um brinquedinho a la Kinder Ovo incluído pra quem se interessa por comunicação. Seus 123 minutos caem bem pra explicar a qualquer um como surge uma voz própria e relevante que cativa uma audiência de nicho na internet - e como essa autenticidade pode levar um conteúdo a conquistar espaço em outras mídias e no coração de um catatau de gente. Ver o envolvimento de Julie com seu blog, aquele derramamento de emoções em um template tosco sem garantias de qualquer retorno que não a mera expressão pessoal deve ensinar a corações duros a necessidade de vozes humanas na comunicação de marca.
Ou não. Nunca sabemos.
O mais bacana é que o blog original da Julie Powell (que depois virou livro e, mais tarde, esse filme) ainda está online, no mesmo lugar onde foi criado. Pode ser interessante vasculhá-lo, mas minhas inclinações arqueológicas não são pra tanto. O filme me parece suficiente ao menos para o ponto que eu queria estressar aqui.
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Uma última nota.
Não sei se você notou, mas a Nora Ephron deu uma de Dangermouse e pode ser que ela tenha cometido o primeiro mashup de livros na história do cinema, ao menos em nível mainstream e de forma tão clara que podemos ver as duas tracks se alternando. Legal, né?
Tchau.
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A Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis reúne livros e artigos pra quem se interessa por estudas novas manifestações e usos de meios de comunicação. Em outras palavras, pra entender essa baguncinha aí. Pra saber mais, leia a introdução.
Pra ver todos as entradas, clique aqui.
Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.
O Blippy é daqueles sites que surgem e levantam três questões clássicas relacionadas à tecnologia hoje: 1) Pra que serve esse troço? 2) Tá, mas pra que serve MESMO esse troço? 3) Santo cristo, onde é que isso vai parar?
Vamos às respostas.
1) No Blippy, que está em testes ainda, você cadastra seu cartão de crédito e seus perfis na internet e o programa mostra pra todos seus amigos da suas redes sociais seus gastos em detalhes e em tempo real, na hora em que você acabou de passar o cartão na maquininha.
2) Quem é que vai querer ser controlado e comentado pelos outros dessa forma, eu não sei. Mas, vamos combinar que tem um uso excelente pro Blippy: cadastrar todos os cartões de crédito de todos os políticos brasileiros no site e fazer aparecer no Orkutão.
#ficadica.
Ah: a pergunta 3 não é comigo, é no guichê seguinte.
Os celulares são aparelhos difíceis de serem customizados por fora, na sua estrutura física, a grande maioria deles, pelo menos. Ainda assim, todo mundo dá um jeito de deixar o telefone com a sua cara. Uma vez que papéis de parede e fotinhos são limitadas pra um raio de ação mais amplo, o som é que é, hoje, um dos grande fatores de diferenciação do aparelho. É por isso que os ringtones são tão importantes e geram tanto dinheiro no mundo todo pra operadoras e gravadoras. É o toque pessoal de cada um, seja uma música, uma voz gravada ou uma piadinha qualquer que faz dois aparelhos iguais parecerem de donos tão diferentes.
Em resumo, o som é hoje a cara do celular.
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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.
Ilustra: daqui
Os artistas europeus Ronnie Yarisal e Katja Kublitz tiveram uma idéia interessante pra quem gosta de descontar suas frustrações quebrando coisas. Eles inventaram uma vending machines, essas máquinas que vendem refrigerantes, só que colocaram ali dentro objetos de porcelana. Então você chega na máquina, coloca a moeda e escolhe o objeto, ele cai na gaveta e quebra na hora.
No fundo, a máquina funciona bem como uma dupla crítica: sobre a tendência atual de transformar tudo em compras, e também sobre a digitalização das nossas vidas, de não tocarmos diretamente naquilo que estamos envolvidos emocionalmente. Ou seja: a máquina de quebrar coisas não serve só pra lidar com a raiva (um subterfúgio controverso de acordo com algumas correntes psicológicas, diga-se de passagem), mas também com outras questões mais profundas do mundo contemporâneo.
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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.
A câmera fotográfica é um objeto que mudou muito de status nos últimos anos. Ela surgiu na vida de nós, não-fotógrafos, como um simples capturador de momentos especiais. E as imagens que elas produziam eram guardadas com toda pompa e circunstância em álbuns super bem cuidados.
Hoje, a câmera, em sua encarnação digital, está à disposição de muito mais gente. Ela se tornou um objeto mais comum que captura momentos também mais comuns. Ficou mais fácil registrar o dia-a-dia e ficou mais difícil selecionar (e desfrutar d’) os momentos realmente especiais no meio de tantos gigas de imagens
Esse é mais um dos paradoxos da cultura digital que não serão resolvidos por aparelhos mas pela mentalidade do usuário.
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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.
Imagem: “Stairway to Nothing”, Centro Cultural Martin Cererê em Goiânia.
… tem um artigo do jornalista, escritor e apresentador inglês Matthew Sweet na última Monocle que joga uma nova luz sobre os repetidos estudos (e manchetes sensacionalistas) que demonstram o futuro envelhecimento da população terráquea, em especial na Europa. Você já deve ter lido ou visto por aí, mas o fato é que existem previsões contando que, em duas décadas, 50% da população dos países desenvolvidos será composta por pessoas acima dos 50 anos.
As primeiras reações a esses números, diz Sweet, são de desconfiança. Eles trazem à tona o medo da perda da força de trabalho, dos custos de previdência e saúde e da falta de opções de lazer e acomodação para os idosos (como se estivéssemos falando de volumes a serem guardados). Adicione à equação a intensidade com que a idéia de juventude vem sendo martelada sobre nós e podemos ver aí um outro problema sutil: a falta de familiaridade de nossas gerações atuais com o conceito de envelhecer. Uma hora, a conta psicológica de tanto desviarmos nosso olhar disso será cobrada - mas esse não é o ponto do meu post.
O bacana do texto da Monocle é que ele desvia completamente o papo da metade vazia do copo. Não há dúvida de que o envelhecimento traz certos prejuízos pessoais e sociais mas, ao mesmo tempo, diz o autor, uma população mais variada em termos de idade significa riqueza de conteúdo e de visões de mundo. Como exemplo, conta que no ano passado conheceu um engenheiro de som aposentado em idade bastante avançada que nos anos 80 (da década de 1880) havia ido pra cama em Moscou com um militar idoso que lembrava do dia em que Napoleão havia marchado sobre a cidade. Tá bom?
Expandindo um pouco o raciocínio de Sweet, logo lembrei que, em algumas décadas, não vai ser preciso ir pra cama com um militar das antigas pra ter uma conversa tão interessante. Se hoje os idosos não estão presente em massa na internet, vamos combinar que os milhões de usuários atuais, com seus blogs e perfis em redes sociais, um dia chegarão (se tudo der certo) aos 60, 70, 80 e 90 anos. Alguns estudos demográficos prevêem que metade das meninas nascidas agora no Leste Europeu estarão vivas no século 22 e com certeza entre elas estarão blogueiras, flogueiras e algumas Suicide Girls.
Visto que a internet, como já discutimos aqui, “veio para ficar”, tenho a absoluta certeza de que não podemos prever o quão rica e interessante vai ser a rede daqui a 40 ou 50 anos. E não estou falando de avanços em termos de equipamentos e linguagens e sim do grosso corpo de experiências humanas que vão estar circulando independente de sexo, classe, raça, localização geográfica e, obviamente, idade.
Outro efeito colateral dessa movimentação pode ser a iminente implosão do conceito de 18-24, hoje largamente utilizado em marketing. Não sei bem de onde saiu essa teoria, mas ela existe e diz que as pessoas mais novas do que 18 anos e os mais velhos do que 24 costumam se referenciar pela turma entre os 18 e 24. A tese é interessante e mercadologicamente funciona, mas a meu ver à base de três elementos que não são impermeváveis a mudanças: 1) uma forte estrutura consumista; 2) uma sociedade/comunidade em crise; 3) a falta de ferramentas psicológicas e/ou espirituais para lidar com o envelhecimento.
Bem, quem viver, verá. Estou apenas dando o meu melhor chute. Na dúvida, vamos de fibras, exercício 3 vezes por semana, frutinha, saladinha e meditação pra ver se conseguimos comprovar essas projeções ao vivo. Digo, vivos.
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Roubei as ilustras daqui.
Um dos efeitos colaterais da disseminação de novas tecnologias, curiosamente, é o retorno a velhos hábitos. Por exemplo, já foi dito que o mp3 trouxe de volta a era dos singles e que o email também trouxe de volta o diálogo escrito entre as pessoas depois de um longo declínio na troca de cartas.
(Embora alguns hoje decretem a morte do email, eu não acredito. Pra mim, é que nem a morte do cinema, do rádio, da televisão…)
Bom, mas a questão é que o celular também é responsável por um desses fenômenos. No século passado, antes da criação do relógio de pulso, era comum alguém puxar um aparelho do bolso pra saber as horas. Hoje, tu vê só, é igualzinho. Pra se situar e não ficar perdidão, a maior parte das pessoas precisa ir no bolso em busca das horas, consultando o celular.
Pobre pulso: perdeu status no que diz respeito a nos conectar com o fluxo do tempo. E pro bolso, que nem parte do corpo é!!!
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Leia também A volta dos que não foram - 1.
Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
Imagem daqui.
A imagem acima eu vi num post do PSFK falando de um selo inglês que está lançando edições limitadas de seus artistas somente em fita cassete. Num primeiro e rápido olhar, a notícia tem cara de revival: “as boas e velhas fitas cassete estão de volta” (muito embora eu, como um cara prático para escutar som, não vejo muita vantagem na volta da fita cassete).
Depois do primeiro e rápido olhar, vem a pergunta: as fitas cassete estão de volta pra quem? Para os “omanenses” é que não. Pra eles, as fitinhas nunca foram embora.
Assim que botei os olhos no texto do PSFK, me lembrei desse post do Jan Chipcase, pesquisador da Nokia que anda por lugares fora dos grandes centros em busca de insighst de mobilidade. Em Oman (um sultanato árabe), diz Jan, 90% do conteúdo à venda é música local, e quase toda ela no formato de fitas cassete. Ainda. Hoje.
(E em uma rápida busca na minha memória, lembro de ver ainda muitas fitas cassete presente em vários bares de beira de estrada em várias partes do Brasil, provavelmente pra alimentar os toca-fitas dos caminhoneiros. As fitinhas disputando espaço com os CDs piratas…)
Bem… o caso é que 99% das matérias a respeito do comportamento frente às novas tecnologias tem por base o cotidiano de americanos e ingleses descolados. Que, já faz algum tempo, não têm mais o mesmo impacto no que diz respeito a exportar tendências para o resto do mundo. O trabalho de gente como Jan Chipcase, só pra dar um exemplo mais mainstream, é justamente de garimpar insights em locais e estratos sociais com necessidades muito mais variadas do que simplesmente ter o mais novo gadget à disposição. No mesmo blog, se você procurar bem, vai achar um estudo que ele fez pra Nokia em favelas de várias partes do mundo buscando um novo olhar sobre questões de mobilidade.
Enfim…
O ponto aqui é algo que me lembro de ter aprendido vendo filmes de ficção científica: o que caracteriza um determinado cenário como futurista não é o fato de haver novíssimas tecnologias bem estabelecidas e espalhadas por tudo quanto é lado. O futuro, creio, é feito da convivência (nunca bem resolvida) de novas e antigas tecnologias que insistem em não arredar o pé porque simplesmente resolvem muito bem o problema de determinados grupos sociais ou de certas regiões geográficas.
A necessidade é a mãe da invenção e madrasta da manutenção.
Esses dias estava relendo a matéria do Telegraph sobre as 50 coisas que estão sendo mortas pela internet e, na calada da noite, horas depois de ler, me veio a imagem de uma coisa que faltou incluir na lista: apresentadores no topo de montanhas de cartas.
Essa imagem foi, por muitas décadas, um dos maiores símbolos da interatividade entre os programas de TV e seu público. Era o data visualization versão analógica. A popularidade de um programa ou de um sorteio era inquestionável diante da abundância de envelopes com garranchos de pessoas de todas as idades e de todos os lugares do Brasil. Dava uma sensação interessante, de ser parte de uma grande comunidade. Ainda que parte daquilo fosse material cenográfico, vai saber.
Não assisto TV aberta o suficiente pra atestar se as montanhas de cartas efetivamente sumiram da inconografia do meio. Mas suspeito que, se ainda existem, elas devem estar em vias de extinção graças à erosão causada pelo SMS e pela internet.
Talvez falte um pouco de imaginação aos produtores, pois seria interessante ver os apresentadores metidos numas roupinhas Tron navegando em um cenário virtual que mostra todos os emails e SMS enviados pelos telespectadores. Referências de data visualization pra isso não faltam. É meio trash? É muito anos 90, muito çáiberpânque? Não. É algo bem hoje mesmo. E se tem um lugar pra fazer esse tipo de coisa, vamos convir que é na TV. E, de preferência, aberta. Bem aberta.
Freqüentar palestras de publicidade, nos últimos, digamos, quatro ou cinco anos, têm sido desafiador para a paciência. Mesmo em eventos de porte, como o Festival de Cannes, é comum a sobreposição de assuntos e exemplos, de forma que no terceiro dia você já começa a ter intensas experiências de déjà vu, para não falar de desagradáveis flashbacks nas semanas seguintes.
Ok, os mais radicais vão me lembrar que festivais de publicidade não são lugar de novidade, novidade MESMO. Ainda assim, acho que a coisa está um pouco demais. O que posso fazer, além de tentar evitar esses assuntos e exemplos nas minha eventuais palestras, é compartilhar uma singela e sincera listinha com os temas que, sugiro, deveriam ser sumariamente DELETADOS desses encontros.
Vamos lá.
1. O consumidor está no poder.
Caso ninguém tenha percebido, o consumidor sempre esteve no poder. Agora ele só tem um megafone na mão. Megafone esse que será usado para gritar bem pertinho no ouvido dos palestrantes de publicidade: NÃO-PRECISA-MAIS-REPETIR-ISSO.
2. A internet veio para ficar*
Sério? Há controvérsias. O senhor de 112 anos que mora num casebre atrás do sítio do primo do meu amigo sem luz, telefone e água encanada acha que a internet é um modismo. Então talvez ainda vejamos alguns palestrantes por aí pregando desnecessariamente que “a internet é uma revolução sem volta”.
3. A criatividade pode vir de qualquer lugar
Frase muitas vezes dita com gosto por executivos que não sabem como coordenar suas equipes e pra quem entregar determinados trabalhos. Tira a responsabilidade das costas de muita gente e por isso espero que em 2010 ela suma das palestras de publicidade e quem sabe vire assunto de gestão no HSM Expo Management.
4. Quem não inovar, está morto.
A frase mais dita por gente sem imaginação nos últimos 200 anos. E ainda é mentira: muita gente que não inova está vivo, bem como muitas marcas e empresas. A quem duvidar, recomendo que leia a matéria sobre os Biscoitos Globo na revista Piauí número 32. E tem mais, mesmo que fosse verdade, a frase já cansou. É antiga, retrógrada e exclusivista.
5. A força do boca-a-boca
Outra incrível descoberta dos últimos tempos: o consumidor acredita mais no seu amigo de infância do que num comercial de televisão com um ator que mal chegaria perto dele dizendo frases elogiosas porque foi muito bem pago por uma multinacional com doze milhões de funcionários que investe um bilhão de dólares em publicidade pra tentar convencê-lo de que aquele amontoado de produtos químicos perigosos são um sabonete que faz bem pra pele. E você ainda se surpreende que as pessoas confiam mais na indicação de amigos? Chega né?
6. Não existe diferença entre o mundo online e offline
Existe sim. Ninguém na vida real (fora o Roberto Carlos) tem tantos amigos e vê tantas fotos deles quanto no Orkut. O mundo online e o mundo offline tem diferenças importantes e essa frase não só vem sendo repetida à exaustão como não foi pensada direito pela maior parte das pessoas que a repetem. O que não foi bem pensado, é melhor que caia fora do PPT.
7. A verdadeira agência de publicidade é on e off.
Primeiro você monta uma agência assim. Daí você constrói um bom número de cases sólidos dentro desse escopo com clientes de porte. Em seguida, você mantém essa filosofia por no mínimo 3 anos. Não, 5. Aí, só aí, você coloca essa frase na palestra.
Obrigado.
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Ah: aceito colaborações para uma segunda lista.
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Créditos dos desenhos na ordem: Robert Crumb, Allan Siber,Will Eisner, Rafael Sicca, David Mazzuchelli, Jano, Fábio Zimbres.
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* “A internet veio para ficar” is a trademark registered by Joviano Quatrin.
A dúvida se a tecnologia atrapalha ou incrementa o talento de um artista não é nova. Ela vem de séculos e chega até os nossos tempos envolta em polêmica. O escritor Charles Bukowski foi um dos que abraçaram a tecnologia como uma facilitadora. Em 91, Bukowski ganhou um computador de sua esposa e a partir daí sua produção de poemas aumentou. Em parte pela sua maturidade como poeta, é claro. Mas em parte também graças ao processador de textos do computador, algo que ele deixou claro em algumas cartas.
Bukowski, que também chegou a comentar sobre a possibilidade de lançar um e-book, é um escritor até hoje comemorado pela sua tosquice. Ele poderia muito bem ser associado um certo sentimentalismo com o passado. Mas sua abertura à tecnologia é apenas um lembrete de que seu espírito transgressor não estava preso à nostalgia por ferramentas de trabalho vintage.
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Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
E nesse link que alguém me passou, não lembro quem.
O economista e prêmio Nobel Herbert Simon escreveu em 1971 que um mundo com riqueza de informação provoca naturalmente a escassez daquilo que a informação consome: atenção. Resumindo, riqueza de informação produz pobreza de atenção. É um fenômeno que estamos claramente vivendo hoje, quando não temos atenção suficiente pra dar a tudo que aparece ao nosso redor.
Quando uma marca faz uma campanha publicitária, ela está justamente querendo comprar a nossa atenção, seja com a repetição de uma mensagem sem graça, seja sendo apelativa pra impactar ou usando uma moeda mais digna, a criatividade.
Sim, é isso mesmo. Os investimentos milionários em televisão, rádio, jornal, internet e celular servem só pra chamar a sua atenção. Na verdade, o poder de prestar ou não prestar atenção na campanha é seu.
Quem é dono da sua atenção, é mais poderoso do que qualquer uma dessas grandes empresas.
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Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
A noção de lixo reciclável acaba de ganhar um novo significado. Foi lançado este ano pela editora americana Mark Batty o livro Glitch: Designing Imperfections. Glitch traz 206 imagens de telas de erros de computador formaram desenhos interessantes sem querer. Por exemplo: sistemas que deram pau, programas que travaram ou desenhos que foram corrompidos pela máquina. São pixels desorganizados, problemas que aos olhos de um bom editor foram reunidos como um material gráfico inspirador.
A bem da verdade, eu ainda não botei as mãos nesse livro. Mas adorei o conceito. Porque acho que é bom a gente se acostumar com esse tipo de coisa. Com tanta tecnologia nova surgindo, durante muito, muito tempo o erro vai acontecer com mais frequência do que o acerto. E, embora seja cool falar que “erro é legal”, o fato é que erro geralmente dá frio na barriga e perna mole. Então ao menos é bom ver o desconforto compensado por um olhar benevolente e positivo.
Mas, vamos ver pelo lado bom: ao poucos, estamos nos tornando especialistas nesses erros. É isso aí minha gente! Nenhuma geração vai errar tão bem nos meios digitais como nós!
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Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
Trim, trim.
“Lunara, comercial.”
“Oi Lunara.”
“Quem tá falando?”
“Você não sabe? Eu estou piscando pra você agora.”
“O quê? Piscando? Quem…”
“E agora eu sou um Bart Simpson fazendo uma dancinha.”
“Quem tá falando? Eu vou desligar.”
“Agora estou piscando de novo.”
Pá.
Trim, trim.
“Lunara, comercial.”
“Lunara, é o Marcos. De ontem à noite.”
“Aahh… não reconheci sua voz. Por que você não falou que era você?”
“Ah eu sou um pouco tímido.”
“Ontem não parecia.”
“Eu tava bêbado.”
“Você até fez várias fotos.”
“…”
“Alô?”
“Oi, tô aqui. Tô com as bochechas vermelhas de vergonha e olhando de soslaio.”
“Tá, tá. Me diz uma coisa. Por que você não me manda uma foto de ontem pra eu ver?”
“Certo. Peraí que vou mandar um motoboy. Quando chegar você me liga.”
Duas horas depois.
Trim, trim.
“Lunara, comercial.”
“Chegou a foto?”
“Chegou, mas não posso falar com você, estou fazendo outra coisa, não posso falar com você no telefone e preencher os formulários ao mesmo tempo.”
“Quem sabe um dia inventam algo que dê né?”
Pá.
Vinte minutos depois.
Trim, trim.
“Oi, Marcos, é a Lunara. Agora eu posso falar.”
“…”
“Alô? Você tá aí?”
“Tô. Tô fazendo uma carinha fofa.”
“Você é um querido Marcos. Queria pode enviar um coração que cresce pra você.”
“Ah que bonito. Estou fazendo uma carinha feliz agora. E a foto, o que você achou?”
“Linda né? Adorei! Estou fazendo uma carinha feliz. E também estou pensando num arco-íris. A foto é bem daquela hora que a gente tava dançando aquela música que eu adoro.”
“Eu tenho todos os CDs dessa banda.”
“Me manda uma cópia pra eu ouvir?”
“Mando sim. Só que motoboy agora só amanhã. Mando amanhã tá.”
“Tá certo. Olha, preciso ir. Meu chefe tá chegando e eu preciso terminar de preencher os formulários.”
“…”
“Alô?”
“Eu tô mandando beijos pra você agora. Beijos que voam.”
“Ah tá. Obrigado. Mais arco-íris, corações que crescem e personagens infantis fofos dando tchau pra você.”
“Carinha que pisca!”
“Carinha que pisca, tchau!”
Pá.
***
Leia também A vida (hoje) sem internet.
“Arô?”
“Quem fala?”
“Sô eu, mané.”
“Ô, Jamil! Fala, mano. Como tá aí no sul?”
“Firmeza. Na buena. E tu?”
“Tudo certo. Que que manda?”
“Cara, só liguei pra te contar um lance. Tu já viu o vídeo do Lula dançando em cima dum prédio?”
“Lula dançando? Não, não… do que você tá falando?”
“Cara, é muito engraçado! Tu precisa ver isso! O Ramiro, de Recife, me mandou pelo Correio um DVD com um monte de vídeos caseiros. Um bem engraçado, uma montagem com o Lula dançando Daft Punk. Tipo… a trilha é o Daft Punk. Aí tem um cara dançando vestido de terno e gravata. Mas, tipo… dançando bem. Dançando bem mesmo. Só que os caras colocaram…. tipo… trocaram a cabeça do Lula, quer dizer… a cabeça do cara… e botaram o rosto do Lula no lugar.”
“Ahn…. sim… parece…”
“Sei que parece tosco, mas é super bem feito. Cara, é muito engraçado. Tu precisa ver isso. Ele fica dançando… mas dançando legal, mais do que o Lula de verdade dançaria. E é tipo um heliporto, tem uma paisagem massa atrás. Um troço muito louco. Bem legal. Bah, eu precisava te mostrar isso. Não vai passar na TV.”
“Mano… faz o seguinte. Me faz uma cópia disso e me manda por registrada. Demora, mas pelo menos chega aqui.”
“Beleza. Vou fazer o seguinte. Vou te mandar umas seis cópias, aí tu pode dar aí pros teus amigos.”
“Posso chamar o pessoal aqui em casa pra uma cerveja e daí mostro pra todo mundo.”
“Mas tem aqueles teus parceiro de Boa Vista e o carinha aquele de Cuiabá…”
“Tá, tá certo. Me manda uns oito DVDs que eu repasso pra eles, mando daqui.”
“Beleza. Depois me manda uma carta ou me liga pra me dizer o que tu achou.”
“Combinado. Abraço.”
“Outro.”
***
Imagem: Spudnik.

O Tiago Dória recentemente comentou que estamos vivendo na era do desmanche do conteúdo. Adorei essa expressão que resume bem um jeito de viver contemporâneo. É aquela coisa: em vez de ouvir discos inteiros, estamos preferindo músicas individuais que coletamos e selecionamos de acordo com a nossa preferência. Ou então, em vez de ler todo o conteúdo de um só portal de notícias, escolhemos matérias específicas de diferentes fontes de informação na internet.
Isso me lembra um assunto freqüente que vi no “Twitter” há alguns meses: pessoas de mau humor reclamando do mau humor do “Twitter”. As aspas são propositais: não faz sentido reclamar do Twitter, mas talvez sim do “Twitter”. O primeiro, sem aspas, é a ferramenta, algo neutro, cujo usuário decide como vai utilizar. O segundo, com aspas, é o consolidado. Aquela telinha com um conteúdo de pessoas que EU decido seguir (e não o programador da rádio), onde EU sou o editor (e não o diretor de programação do SBT), onde EU fiz a escolha (e não o chefe de redação da Folha). Se o MEU “Twitter”, com o grupo de seguidores que EU montei, está chato ou repetitivo ou insosso ou irrelevante, a responsabilidade é toda minha (e não do editor da Veja). É mais ou menos como brigar com o shuffle do mp3 player por ele estar tocando só música ruim.
A questão toda é que o desmanche do conteúdo coloca nas mãos de nós, ouvintes, leitores, espectadores, a responsabilidade de editar obras artísticas e informações. Todos nós - e não apenas os “formadores de opinião” ou os “curadores” - estamos nos tornando de fato editores e cada vez mais temos duas coisas: primeiro, a liberdade de escolha. E em segundo lugar, a responsabilidade. Porque se nós é que estamos escolhendo e selecionando, também não podemos mais botar a culpa em ninguém da má qualidade do que consumimos em termos de informação e entretenimento.
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Ilustração roubada do blog do Guy Deslile.
Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
Mas o que que é isso? Isso é a Miranda July aprontando mais uma das suas, dessa vez com a conivência da revista novaiorquina Vice (onde foi publicada a série) e do fotógrafo Roe Ethridge. July, como é bem do seu feitio, sugou figurantes de filmes como Vidas Sem Rumo, Nos Tempos da Brilhantina, Kramer Vs Kramer, O Poderoso Chefão, entre outros, “recortou-os” dos fotogramas e reencenou seu papel em fotos onde ELES são o personagem principal. Não apenas principal, mas ÚNICO.
A minuciosa arqueologia de July e Ethridge é doce e inspiradora, mas também é um golpe baixo e um sintoma muito interessante sobre o espírito do nosso tempo. O golpe baixo vem da escolha de Miranda de filmes que caminham no inteligente limite entre o cult e o mainstream. É uma seleção fina que pende ora para o estilo cinemateca (Vidas sem Rumo), ora para o glorioso Sessão de Gala (Kramer Vs Kramer), mas que têm em comum um apelo visual nostálgico muito forte. Se cozinharmos a fotografia e o figurino desses filmes, sem grandes dificuldades vamos chegar em estéticas bastante utilizadas hoje em revistas como a própria Vice.
Graham, gurizão do blog Future Shipwreck, escreveu com um certo ar compassivo que o trabalho da Miranda July resgata figuras que foram destinadas ao total esquecimento, criadas especificamente pra serem invisíveis. Sem dúvida essa visão tem um apelo poético, especialmente quando ampliamos a questão do figurante pra vida real. Lembro automaticamente de Shady Lane, uma das músicas mais bonitas do Pavement, na qual Stephen Malkmus canta com melancolia: “You’ve been chosen as an extra to a movie adaptation of the sequel to your life” - “Tu foi escolhido como figurante numa adaptação pro cinema da sequência da tua vida”. É o cúmulo da humilhação na era do tudo-é-mídia-todos-estão-na-mídia.
Por outro lado, existe mais de uma via pra se enxergar o trabalho da Miranda July. Uma delas é essa busca intensa por protagonismo. Declarada no bilhete que abre a série no site da Vice, essa forte intenção de não ser simplesmente parte da paisagem é inata da cultura americana e ganhou nos últimos anos um caráter endêmico. Com a quantidade de ferramentas digitais de produção e distribuição de conteúdo, bem como as inúmeras novas formas de comunicação, não faz mais sentido ser um extra ficar lá trás. A internet, especialmente, tem esse caráter de trazer para a frente todos os extras. Todo mundo é figurante e todo mundo é protagonista, depende de quem está no comando do teclado, dependendo do ponto de vista.
Existe uma frase clássica da indústria do cinema a respeito de figurantes. Não tenho bem certeza, acho que é do diretor de épicos religiosos Cecil B. DeMille. Rezalenda que, de megafone na mão, ele gritou certa vez pra uma multidão que se preparava pra encenar uma batalha: “Não sejam figurantes! Sejam uma nação!”
Esse é bem o tipo de chamado bastante sedutor - sessenta anos atrás.
Já hoje, oito em dez palestrantes de publicidade adoram dizer que “Se o Facebook fosse um país, seria maior que o Brasil.” Pois é. Os figurantes já se tornaram uma nação, DeMille e seu megafone não são mais necessários. Os grandes chamados se diluiram. E a questão é o que fazer quando você faz parte de uma superprodução onde você e todos os figurantes em algum nível também são os atores principais.
Tempos interessantes.
Matéria no Link dessa semana levanta uma lebre interessantíssima: fica mais difícl esquecer em tempos de hiper-documentação digital? O jornalista Rafael Cabral conversou com especialistas e entusiastas do assunto pra encontrar correntes diferentes de pensamento.
O professor de Harvard (perceba que ao escrever DE HARVARD, eu deixo o post mais sério e crível) Viktor Mayer-Schönberger acredita que nossas informações não devem ser eternas, mas que a web dificulta o controle delas. Então, segundo o professor, precisamos criar mecanismos que possam apagar automaticamente o que não queremos ver eternizado, como se fixássemos prazos de validade para nossos traços digitais. Já o pesquisador da Microsoft Gordon Bell parece meio fanático por traduzir sua vida em dados e registros, postulando que o esquecimento é um bug do cérebro (ou da mente) e que se todos nós soubéssemos das nossas recordações em minúcias, nos conheceríamos melhor, seríamos pessoas melhores.
Embora eu seja mais simpático à fala de Mayer-Schönberger, acredito que ambas as linhas de pensamento se baseiam em um terreno frágil: a noção de que os meios digitais permitem que controlemos melhor a nossa vida.
No caso de Gordon Bell, a busca pelas rédeas é bastante extrema, parecendo ser baseada em inputs de informação exata. “Nesses oito anos, os dados apontam que ele visitou 221.173 sites, escreveu 156.041 textos, falou 2 mil vezes ao telefone e ouviu 7.139 músicas. Para gravar tudo o que faz, o pesquisador usa scanner, câmera, gravador, GPS, contador de passos, smartphone e um leitor eletrônico.” diz a matéria do Estadão. A meu ver, isso soa como uma espécie de politeísmo matemático e um tremendo de um reducionismo. Ignora-se a mais elementar regra da consolidação de informações: talvez mais importante que os dados em si é a forma como eles são processados. Em Blink, o Malcom Gladwell, do jeito dele, já deu a barbada de que mais informação nem sempre quer dizer mais compreensão. Pode significar simplesmente mais informação.
No caso de Mayer-Schönberger, fala-se de estipular prazo de validade para determinadas memórias. Isso, novamente, cria padrões exatos para processos que na mente não acontecem de forma tão cartesiana assim. Você pode até escolher quando uma foto sua vai sumir de vez da internet, mas não tem controle sobre quando aquele momento vai sumir da memória das outras pessoas presentes na cena e muito menos um controle absoluto sobre quando aquela cena vai sumir da sua memória.
Escrevo isso pensando se não estou falando bobagem, mas curti o que a matéria levantou. Embora muitos gostem de desprezar alguns protocolos da cultura digital, comparando com hábitos prévios (isso já existia, só que de outro jeito), a verdade é que estamos vivendo um momento de mudança profunda em uma série de práticas sociais que estão impactando não apenas a forma como lembramos, mas como estamos construindo as nossas lembranças.
De certo, até o momento, apenas sabemos que todas essas questões se originam na mente de cada um de nós, é ela que cria, é ela que absorve. Podemos, então, explorar os confins do mundo externo e criar também infinitos métodos de controle, armazenagem e classificação para nossas manifestações digitais. Mas o cerne do problema reside na mente e só vamos resolver isso olhando pra ela, pra dentro, conhecendo intimamente esse software ainda bastante inexplorado, ainda pouquíssimo conhecido da maioria.
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A ver com esse post: o trabalho de Katerina Seda que comentei num texto sobre a exposição Younger Than Jesus.
Esses dias vi um anúncio na Folha de um portal de internet choramingando a diferença entre o montante da verba publicitária brasileira investida na rede em relação ao crescimento da audiência. Não lembro os números e tou com preguiça de pesquisar, mas era algo assim, tipo, o investimento era metade do que a internet tem de audiência. Em outras palavras, as escolhas de mídias de anunciantes e agências não correspondem ao gosto e escolhas dos mais de 60 mil brasileiros que vem acessando a web com certa frequência.
Mas entonces, se a matemática fecha (e no geral o marketing adora matemática mais do que humanas), por que diabos é que não se coloca MAIS dinheiro na mídia online? Em corredores de agências, esperas de palestras e papos informais em almoços, já ouvi as mais diversas opiniões. A maior parte delas, indignada com a ignorância do alto clero, acusa o alto clero simplesmente DESCONHECER a existência da internet. O que não acho verdade. Em segundo lugar, não menos acompanhado de virulência, vem a tese da idade: as pessoas que tem a chave do cofre, a mão na carteira, o titular do cartão, eles não acessan tanto a internet, por isso não são sensíveis a ela como mídia pra vender. Em terceiro, a boca pequena, corre a científica nota de que “são tudo um bando de imbecil”, argumento que, além de não ser prudente em termos políticos, não passa de mimimi e de fato não serve de base pra se construir soluções adequadas pro problema.
Um dia, entretanto, eu entrei na casa de um conhecido e vi no canto da sala a resposta pra questão da vasta diferença entre os investimentos em mídia online e o consumo de mídia online. Estava lá, ele, tocaidao, pronto pra nos atacar: O BARZINHO.
Lembro que, quando eu era criança, nos loucos anos 70, toda família tinha na sua sala um BARZINHO, com uísque, vermute, campari, vodka, licores diversos, alguma cachaça, além de copos, balde de gelo, aquele pegador em forma de garrinha e, o mais lúdico de tudo, aqueles mexedorezinhos de plástico, a versão brasileira do guarda-chuvinha que eu só via em filmes. Por décadas, o barzinho reinou na sala de estar de uma sociedade que aceitava abertamente formas brandas de alcoolismo. Nas novelas, nos filmes, nos seriados e na vida real, os destilados não eram apenas um elemento de celebração ou um afogador de mágoas, mas também fazia as vezes de cafezinho em reunião, relaxante muscular e acessório de gravata (ao menos na TV, não conheço ninguém que tenha conseguido afrouxar uma gravata sem um copo de uísque na outra mão entre 79 e 87).
Nos anos 90, o BARZINHO caiu em desuso. Talvez seja uma maior consciência da população em geral quanto à problemática onipresença do álcool no dia-a-dia, talvez seja simplesmente o ciclo de vida e morte aplicado a um elemento de decoração, mas o fato é que cada vez vejo menos casais e famílias jovens que detém um BARZINHO em casa. Os que ainda detém não o fazem porque precisam do BARZINHo, porque ele é uma espécie de pivô na vida social ou familiar, mas simplesmente… porque sim. Porque era assim na casa dos seus pais e que assim seja na sua casa, ainda que ninguém mais beba vermute, campari ou afrouxe a gravata quando chega em casa com um copo de uísque na mão (embora a Você S/A tente, os yuppies não venceram).
O BARZINHO não é eterno. Desde 1987 ele vem sofrendo seguidos revezes como elemento de mobiliário doméstico E profissional. É apenas uma questão de tempo para que o barzinho suma completamente do mapa ou ressurja transvestido de modernidade, provavelmente com uma pitada de nostaliga ou forte ironia, aí de forma mais inofensiva e totalmente integrado aos hábitos correntes.
Em suma: com a mídia online é a mesma coisa. O hábito de se investir mais em mídias “não-online” é muitas vezes apenas isso, um hábito. E como todos os hábitos, é difícil de ser mexido. Como o BARZINHO, a dissonância entre o investimento e o consumo de mídia online com o tempo vai simplesmente desaparecer. Gritar e espernear são as formas menos produtivas de se dissolver um hábito, muito embora seja catártico e às vezes divertido. Gente da velha guarda já viu de tudo nessa vida (olha que aconteceu coisa nesse meio publicitários dos últimos 40 anos) e não vai se impressionar com terrorismo de evangelizadores digitais. Então em vez de fazer cara de apavorado, reclamar da suposta ignorância alheia e tentar criar pânico, talvez o melhor seja oferecer calmamente a toda uma geração a oportunidade de sentar e poder afrouxar a gravata usando as duas mãos.
Estava eu, sozinho em casa, deitadão na cama, TV desligada, vendo um episódio do Curb Your Enthusiasm no laptop, quando, sem mais nem menos, vem aquele avisinho que a bateria está prestes a cair. Era uma quinta à noite, meio tarde, eu também já na última barrinha da bateria e tive que fazer AQUELA mão: sair debaixo das cobertas no frio, ir até a sala, abrir o armário, pegar o cabo de força, grudar no computador, acender a luz de cima, desligar o abajur, afastar o criado-mudo, plugar o cabo de força na luz, voltar pra baixo das cobertas, soltar o pause e terminar de assistir ao seriado.
Acompanhe o gráfico: todo aquele processo de levanta e vai até a sala pra carregar o laptop é o tipo de questão que já foi resolvida há décadas no aparelho de televisão. Pra assistir a qualquer coisa na TV, você se joga no sofá, agarra o controle remoto e com dois ou três toque nos botões está assistindo ao que está passando no canal. É coisa de segundos. Tente o mesmo processo no laptop e você vai ver que tem muito mais passos pra cumprir, mais janelas pra abrir, mais arquivos ou folders pra navegar. É o preço que se paga por viver em uma época de tão brutal transição.
Não tenho dúvidas que isso soa como reclamação de preguiçoso e conservador, mas acho que vale o gancho pra lembrar o quanto estamos em uma era primitiva e tosca. Nós nos achamos OS CARAS porque lemos emails no celular e falamos com amigos pelo Skype com imagem, mas a verdade é que somos uns brucutus da pós-modernidade, gente maravilhada e ansiosa, cercada por aparelhos carentes, que precisam da nossa constante atenção pra funcionar direito, que não são maduros ainda pra se conversar (sem que você seja um especialista em conectividade) e que nem mesmo compartilham linguagens de interface (de modo que você tem que aprender diferentes sets de interface a cada novo aparelho). Os gadgets atuais são, em linhas gerais, adolescentes egoístas, cheios de energia e boas idéias, mas com os hormônios a mil, dotados de pouca desenvoltura social e pouca praticidade.
Tá e daí? E daí não sei.
Só acheio graça no pensamento de que, pode ter certeza, um dia nós vamos olhar para isso…
… da mesma forma como hoje olhamos pra isso:
Né?
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