OEsquema

Arquivo: Digital

War on… general purpose computers

Há muitos anos o escritor e ativista digital Cory Doctorow vem defendendo o livre trânsito de conteúdos e a extinção dos artifícios que impedem as cópias digitais. No vídeo acima, ele abriu oficialmente uma frente de batalha mais profunda e radical: a necessidade de manter os nossos APARELHOS também livres de proteções que nos impeçam de executar uma determinada tarefa.

Na área de tecnologia isso se chama de “computadores de propósito geral”, máquinas que podem executar qualquer tarefa dependendo da forma como elas são configuradas. O PC que a gente usa no dia-a-dia pode ser classificado nessa casinha. Você (ou algum amigo entendido) pode pegar seu computador e remexer em toda a configuração pra que ele execute melhor um tipo (games online) ou outro (editar vídeos) de tarefa. Segundo Doctorow, não interessa à indústria tamanha flexibilidade e o futuro se encaminha pra dispositivos que vem com extras (físcos ou digitais) que impedem o usuário de fazer essas modificações.

O colunista do site Torrent Freak, Rick Falkvinge, também entrou também na briga. Ele compara a liberdade de reconfigurar uma máquina que você comprou com a liberdade de você se expressar e dizer o que pensa. Parece exagero? Assista a primeira meia hora da palestra do Cory Doctorow (depois vem perguntas da platéia) e depois voltamos a conversar.

Ah: se você não quiser ASSISTIR, pode LER a transcrição.

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Update: o Link já tinha publicado a transcrição em bom português.

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No túnel do tempo

Uma rápida anotação: a internet + o Viva (aquele canal vintage da Globo na TV por assinatura) estão mexendo com o fluxo do tempo alternativo que a Globo havia criado nas tardes dos dias úteis. Relembrando: até bem pouco tempo atrás, a faixa de horário que ficava entre o Video Show e o Malhação (antes, a novela das 18h) era ocupada por uma espécie de resgate temporal constante. Não apenas o Vale a Pena Ver de Novo regredia o tempo em alguns anos como a Sessão da Tarde mantinha em evidência obras de, no mínimo, meia década antes. Isso mantinha o passado recente na órbita do presente de forma incrivelmente influente.

Agora o monopólio do delay não é mais da Globo: faz parte da própria cultura digital resgatar continuamente o passado – tanto o passado distante como o recente. O Viva e o Vale a Pena Ver de Novo são o YouTube sem esforço de digitar o que se quer no campo “busca”. A Sessão da Tarde também: o passado recente à disposição em horário combinado e revisitado com o mínimo esforço.

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Uma nota de rodapé sobre isso: há muitos anos, antes da real popularização da internet, a agência que eu trabalhava fez uma pesquisa pra levantar celebridades pro comercial de uma marca. A maior parte das atrizes americanas que apareciam na pesquisa não batiam com as capas de revistas que cobriam Hollywood naquela época. A preferência do público estava claramente ultrapassada. A explicação era óbvia: a maior parte dos brasileiros matinha contato com as atrizes de Hollywood por meio da Sessão da Tarde, Tela Quente e o Temperatura Máxima, cujo delay de lançamentos não afetava de forma alguma sua influência sobre a cultura pop.

Agora, claro, isso tudo está muito mais bagunçado.

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Drone Journalism

Eu venho comentando desde o ano passado no Minimalismo sobre a onda dos drones, que são esses pequenos veículos aéreos não tripulados, já utilizados com uma certa frequência por alguns exércitos em guerras e começando também a serem usados por forças policiais.

De olho nisso, a Universidade de Nebraska-Lincoln criou há poucos meses um laboratório de Drone Journalism voltado a investigar as aplicações do uso de drones em coberturas jornalísticas. O papel do laboratório não é simplesmente pesquisar tecnologias, porque essa questão não é tão complexa: os drones estão ficando mais baratos e as câmeras de alta definição cada vez mais leves. A grande discussão diz respeito às questões éticas que essa nova ferramenta certamente vai levantar não só no uso pelas polícias, mas também por empresas privadas. Inclusive da área de comunicação de massa.

Uma empresa de comunicação pode usar drones em reportagens investigativas em áreas particulares? E firmas de segurança privada podem fazer sobrevôos em áreas públicas? Dá uma passada no Tumblr Drone Journalism pra acompanhar algumas dessas discussões. O site DroneJournalism.org é outra fonte interessante.

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A reinvenção da matemática

A cada novidade que a cultura digital traz pras nossas vidas vem junto uma conta nova pra pagar. Hoje, pelo menos metade dos brasileiros parece ter colocado a conta da internet no mesmo patamar de importância que a conta de água, luz e telefone, e algumas pessoas inclusive tem conta de internet e não tem conta fixa de telefone.

O orçamento doméstico do novos tempos inclui uma série de cálculos e cuidados que não existiam há dez anos. Por exemplo, 80% dos celulares no Brasil são pré-pagos e exigiram de todo um segmento da população uma habilidade pra lidar com toda essa função dos créditos e também com os diferentes chips combinados pra aproveitar melhor as ofertas de cada operadora. Computadores, celulares, câmeras digitais, consoles de games, tudo que era considerado supérfluo há bem pouco tempo começa a se tornar item de necessidade básica, parte da estrutura familiar de educação, entretenimento e empregabilidade. Mesmo a população de baixa renda está integrada com uma parte dessa história e tudo isso demanda uma reorganização prática e mental das contas em casa.

Em resumo, a alfabetização digital passa por uma nova matemática doméstica – que a maior parte dos brasileiros não está aprendendo e sim inventando.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Redes Sociais

Segundo um relatório recente da empresa de monitoramento e inteligência digital Comscore (esse acima), usar redes sociais é a atividade online mais popular do mundo. 80% das pessoas que acessam a internet no planeta Terra estão em redes sociais, um crescimento de 174% nos últimos 4 anos. Um terço desses usuários está na Ásia, mas é na América Latina que as pessoas passam mais tempo em sites como Orkut, Facebook e Twitter.
Um fenômeno interessante (porém lógico) é o crescimento acelerado dos usuários com mais de 55 anos. Aos poucos, as redes sociais estão deixando de ser um privilégio de jovens de classe média alta de países ricos pra se tornar de fato uma rede global de comunicação. Quem está chegando na internet rapidinho entra numa rede social porque, claro: não faz o menor sentido estar conectado numa rede de computadores e não estar conectado numa rede de pessoas.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Hapiness is a warm cam

Não sei se chamou a atenção de vocês, mas no domingo passado, as imagens mais interessantes do Fantástico sobre o desabamento do edifício Liberdade no Rio foram feitas pelo telefone de um morador de rua. Caso você não tenha visto nada de curioso aí, eu vou repetir: as imagens mais interessantes de uma reportagem da maior emissora de televisão do país, dona de um poder sem precedentes na história, foram produzidas por um mo-ra-dor-de-ru-a. Ok, eu sei que esse comentário pode parecer estranho vindo de alguém que diz acompanhar o cenário da cultura digital, mas mesmo que a tecnologia esteja cada vez mais popularizada por conta da “ascenção da classe C baseada na estabilidade econômica”, é preciso ser muito blasé pra não achar esse tipo de situação digna de negrito.

Na verdade, acho fundamental sublinhar casos assim pra que a gente não perca de perspectiva o tamanho da mudança que estamos vivendo. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso já percebeu o quanto os vídeo amadores são fundamentais na composição dos notíciários. E, mais do que isso, como eles têm sido peças-chave na construção do imaginário visual de momentos históricos – de um jeito que não aconteceria se dependêssemos apenas da mídia estabelecida. Não é nem uma questão ideológica, é uma questão prática e logística: um grande veículo, por mais poderoso que seja, não pode estar em tantos lugares quanto o povo, não tem nem mesmo legitimidade pra tanto em alguns casos. Exemplo recente: as imagens sobre a ação policial no Pinheirinho que correram a rede não vieram das câmeras da imprensa pois os repórteres tiveram acesso restrito. Já quem estava tomando porrada podia gravar “à vontade”.

Dentro disso, me chamou a atenção uma reportagem da The Economist contando sobre a preocupação de algumas instituições de ativismo social em ensinar às pessoas noções básicas de gravação e tecnologia para que os vídeos amadores sejam mais eficientes e mais seguros. Por exemplo, no vídeo, um ativista da Witness conta que capturar um acontecimento inteiro com closes, mostrando uma sequência de eventos, pode ser bem mais eficaz do que panorâmicas tremidas e desconexas. Por outro lado, planos fechados podem induzir a produção de provas contra participantes de protestos, problema abordado por um desenvolvedor do The Guardian Project que criou um aplicativo para borrar o rosto de quem aparece inadvertidamente em imagens de mobilizações.

Ou seja: usar ferramentas digitais pra deixar o mundo melhor exige também que a gente aprenda a usar melhor as ferramentas digitais.

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Falando em câmera…

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Fórum Social & Conexões Globais – fechando a tampa

 

Então: acabei não indo no último dia do Conexões Globais, que eu estava acompanhando presencialmente (leia aqui e aqui). Mas ainda peguei alguns debates via uébi e os assuntos permaneceram comigo no fim de semana. Vamos, então, a algumas considerações finais.

Não sou exatamente um conoisseur de ativismo social, mas ficou bastante clara a crise no ENTENDIMENTO do desdobramento dos encontros. Não foram poucas as pessoas que ouvi e artigos que li comentando sobre uma suposta rarefação dos movimentos e dos eventos ligados ao Fórum Social Temático: tudo muito espalhado, sem uma centralização, sem  um leque de propostas finais consolidado. Particularmente, acho muito estranho isso ser considerado um problema quando me parece que é justamente essa horizontalização uma nova forma de funcionamento.

De minha parte, ainda que eu não seja diretamente atuante politicamente, não senti FALTA ALGUMA de um final consolidado. A mim, o que interessou, foi justamente passar pela experiência de assistir aos debates (declinei o convite para um porque queria justamente OUVIR), encontrar pessoas, respirar um ar diferente. Ninguém sai igual depois de eventos como esses e essa modificação é, por si, um produto válido. Saí dos poucos encontros que fui certo de que, sim, é preciso articulação formal, mas que a troca de experiências e o aprendizado que você leva são também vetores políticos importantíssimos. No meu caso, trouxe o que absorvi para o blog, para o meu funcionamento familiar e profissional e para algumas conversas particulares com pessoas que estão inseridas em processos sociais ativos.

Talvez uma boa forma de representar isso seja o comentário que ouvi uma vez de uma monja zen a respeito da dinâmica da comunidade que ela coordena. Era algo assim: uma fogueira precisa de vários elementos pra funcionar. Precisa da lenha, que vai queimar, que seriam as pessoas que se entregam de corpo e alma à “causa”. Mas uma fogueira precisa também de pessoas que fiquem ao redor alimentando o fogo, jogando gravetos, recebendo o calor. E eu adicionaria mais um elemento: tem também as histórias que as pessoas contam ao redor da fogueira. Elas também são combustível, elas também são parte do que faz a fogueira não morrer.

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Imagem: roubei do post do Matias.

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Don’t believe the hype

Comprar um aparelho digital é hoje uma das tarefas mais ingratas que existem. Se você não tem um amigo ou alguém na família que seja especialista vai ter que confiar em vendedores, na propaganda do fabricante ou em reportagens da mídia. Mas nem sempre essas fontes dão a dica mais essencial, que é a seguinte: a melhor saída é sempre escolher o aparelho de acordo com a sua necessidade e não pelo que ele ou o mercado oferecem.

Muitas vezes acabamos comprando aparelhos cheios de penduricalhos só porque é o padrão do momento. Mas, diferente da retórica anti-consumista, isso não acontece por sermos todos zumbis consumistas e sim porque, no geral, não sabemos bem o que queremos e o que precisamos diante da oferta acelerada e crescente de tecnologia. Uma forma de se relacionar com isso é olhar com atenção para a situação, reduzindo a velocidade entre o impulso e a ação, e reunindo o máximo de informações antes de efetivar a compra. Pra facilitar, vale fazer uma lista escrita em papel com itens que se pretende usar, cruzar com as reais necessidades do cotidiano e definir a compra a partir disso.


Repito: o que você precisa nem sempre corresponde ao que o mercado está oferecendo como sendo o melhor. A melhor TV com o melhor home-theather é pra quem aprecia qualidade de som e imagem, não pra quem só gosta de se jogar no sofá pra ver uma tvzinha. O computador mais rápido e mais moderno é pra quem gosta de jogos complexos ou pretende produzir conteúdo, não pra quem só quer acessar emails e redes sociais. O celular mais avançado é pra quem vive de conexão constante. A câmera mais poderosa é pra quem tem aspirações fotográficas, ainda que amadoras. E assim por diante.

Outra coisa: nem sempre você precisa do modelo mais moderno. Existem versões antigas de câmeras, mp3 players ou de computadores que podem dar conta da sua necessidade. Eu vivi anos com um Creative Zen Mini de 5GB (acima) que pra mim serviu melhor do que os iPods da época. Hoje, abri mão de ter mp3 player, uma vez que meu celular pode armazenar e tocar música. Nesse caso, pra que a sobreposição? Exemplos de sobreposição hoje podem ser encontrado em todas as áreas.

Em resumo, a história é bastante simples: tomar nas próprias mãos a decisão sobre o que se precisa ou não. Pode ser um pouco mais complicado, exigir um pouco mais de pesquisa. Mas vale a pena. Resistir ao hype fácil da cultura digital é ecológico e econômico.

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Leitura Complementar

In Praise of Crap Technology – artigo no Boing Boing sobre o valor de tecnologia não tão de ponta.

Preparado para Morrer – artigo sobre obsolescência programada no Estadão.

The Unconsumption Project – outra do Boing Boing, dessa vez sobre uma marca sem dono pra revitalizar antigos objetos.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: logo do unconsumption.

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Pura poesia

“Na neblina da noite em Odessa, Ucrânia, quando um outdoor digital deu pau e mostrou uma caixa de erro flutuando no céu escuro…”

Vi no The New Aesthetic via @danielgalera.

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Google em botecos: um estrago

O Google sem dúvida é um das invenções mais incríveis e úteis das últimas décadas. Mas ele também tem seu lado estraga-prazeres. Principalmente quando você junta o Google com o acesso à internet pelo celular e uma mesa de bar. Isso porque geralmente uma boa parte do tempo que se passa com os amigos no boteco é investido em discussões sem sentido e sem objetivo. E, pra jogar conversa fora, é fundamental que a mesa seja ignorante em determinados assuntos.

Com o acesso ao Google no celular, discussões que ocupariam a noite inteira de especulação criativas podem acabar em poucos minutos quando alguém acha uma resposta lógica e exata na internet. Pior ainda: além de acabar com a criatividade na mesa, ainda tem gente que fica com a ilusão de que sabe alguma coisa só porque achou um site no Google.

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Texto de um dos programentes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: daqui.

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Galgando a hierarquia

O comercial acima (que eu peguei no Matias) é mais um exemplo daquilo que conversamos aqui e aqui a respeito da saga do Harry Potter (também pesquei uma evidência aqui). Um comercial desses sendo criado, aprovado e veiculado é fruto do envelhecimento de toda uma geração, que agora tem alguns representantes em posição de poder (no mínimo, aqui, no marketing da indústria automobilística e, claro, em agências de propaganda). No futuro, Star Wars certamente será esquecido e conviveremos com esquetes desse tipo relacionados a novos personagens, sendo Harry Potter o mais provável e em seguida, quem sabe?

Ah: não sei se você tem notado, mas Senhor dos Anéis também teve um poder de gerar memes no mainstream. Agora me deu preguiça de procurar no YouTube, mas tenho visto o bordão “my precious” em diversos seriados, inclusive alguns programas de TV aberta…

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Lembrando: não é a primeira vez que a VW fuça no baú de Star Wars. No ano passado rolou o premiado e comentado comercial The Force também.

Nerd power…

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Relação

A essa altura do campeonato, já não é mais novidade pra ninguém esse papo do quanto nós estamos sendo inundados de informação hoje em dia. Na verdade, e felizmente, já estamos chegando no ponto em que muitas vozes estão propondo reflexões e comportamentos alternativos. O problema é que a questão é quase sempre tratada do ponto de vista da nossa relação com outras pessoas.

Por exemplo, a crítica que se faz contra quem fica muito tempo grudado no celular ou no computador geralmente vem acompanhada da sugestão que a pessoa saia da frente da tela e vá se encontrar com outras cara a cara. Mas antes disso, a pessoa talvez devesse se preocupar com sua relação consigo mesma.

Ficar grudado em qualquer tela nos rouba de nós mesmos, nos desacostumamos a ficar conosco. Antes de aprender a abrir mão da mediação de uma tela com o mundo, quem fica muito tempo conectado precisa aprender a abrir mão da mediação de uma tela consigo mesmo.

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Texto de um dos programentes Minimalismo.

Imagem: MarciaMonica Cook, daqui.

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Coletivos

Eu fecho minha blogagem esse ano com um post muito especial. A foto acima, que talvez alguns já devem ter visto no Feice, registra o primeiro encontro físico dos quatro fundadores d’Oesquema, o teto que me abriga. Isso aconteceu em circunstâncias tão curiosas quanto obviamente simbólicas: nos reunimos para o lançamento da série de micro-documentários Diálogos Coletivos produzida generosamente pela Colméia. Nós somos objeto de um deles e os outros dois falam sobre a revista Soma (da qual também sou colaborador desde o primeiro número) e do Fora do Eixo (do qual meu contato vem de ter tocado em um ou dois festivais com os Walverdes).

Diz muito o fato de termos nos reunido pela primeira vez devido a forças alheias a nós, devido a um convite externo e não por conta de alguma “reunião de planejamento” ou coisa do tipo. Diz não apenas sobre o jeito como Oesquema surgiu e funciona, mas também sobre como as coisas podem funcionar hoje em dia. Tu vê só: quatro caras que gostam de absorver, digerir e produzir cultura conseguem gerar impacto, audiência e uma certa relevância mesmo sem a construção de uma rede formal (como o FdE) ou a constituição de uma estrutura microempresarial de viés fortemente cultural (como é a Soma/Kultur Estúdio).

Desse ponto de vista, o coletivo mais interessante do projeto da Colméia (já que nenhum dos protagonistas se considera representado pela palavra coletivo, outra discussão interessante) é justamente o formado pelos três vídeos. Ainda que não cubram todas, eles pegam pontos fundamentais das imensas possibilidades de empreender culturalmente no meio de tantas mudanças estruturais que o mundo está vivendo. O presente, como diz o Pablo Capilé, está grávido. Eu acrescento: de multigêmeos (existe isso?) que não são univitelinos, que vão crescer com personalidades e características físicas bastante diversas. Não é prudente deixar que vistam as crianças todas com a mesma roupa.

Feliz Ano Novo pra todos os indivíduos, para todos os coletivos e para imenso o coletivo formado pelos coletivos – formais ou não.

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iPad como moldura

Acontece periodicamente, com todas as novidades tecnológicas: elas logo viram molduras de cartazes e anúncios que precisam de um “toque de modernidade”.  Você já deve ter visto por aí em revistas. Já aconteceu com celulares e monitores de computador. Agora é a vez do iPad.

Melhor: essa foto eu tirei no (único) posto de gasolina de São Vicente do Sul, cidade de pouco mais de 8 mil habitantes no interiorzão do Rio Grande do Sul.

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15 minutos

Esses dias eu escrevi o seguinte pro Minimalismo da Oi:

“A expressão cultura pop não tem uma definição fechada e científica mas daria pra dizer que cultura pop é a média do que aparece na tv, na internet, nas revistas, nos games, no cinema, todo esse conteúdo que funciona um pouco como a linguagem do nosso tempo. A cultura pop sempre foi produzida por profissionais e consumida por nós. Mas uma coisa interessante está acontecendo: a nossa vida está cada vez mais parecida com a cultura pop.

Talvez essa seja uma outra forma de ler a já surrada (mas ainda atual) frase do Andy Wahrol – “no futuro todos terão seus 15 minutos de fama”. Como é amplamente aceito, o futuro chegou, só que os 15 minutos de fama vieram diferente. Me parece que sempre se pensou que os 15 minutos de fama seriam na Rede Globo, no grande jornal da sua cidade, na principal rádio da região. Uma coisa, assim, meio “anônimos no Big Brother”.

Mas parece que aconteceu o contrário. Em vez da vida privada ir pra mídia, os parâmetros de mídia (distribuição em escala, medição de audiência, estética pensada) é que vieram pra vida privada. Não é preciso correr atrás da fama, os conceitos ligados a ela permeiam o nosso dia-a-dia, as nossas relações pessoais, via rede e dispositivos digitais. A fama (ou sua versão made in china) é que ficou sedenta por gente. Ou pela gente. E assim nos abraçou, deixando suas marcas.

Voltando pro texto da Oi:

“Não é só aquele papo de que agora a gente também produz vídeos e músicas em casa, mas é que a nossa vida está servindo de recheio pra blogs e redes sociais, está emoldurada em telas de todos os tamanhos, se transformou na linha narrativa de muitos projetos interativos. Hoje, qualquer foto tem cara de ensaio e até um toque de telefone tem jeito de trilha sonora. Esse é um dos efeitos colaterais que não se esperava da tecnologia: era pra ela deixar a vida mais fácil, mas também está deixando a vida mais pop.”

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Linha da vida

As moças devem saber, mas eu descobri há pouco: a Vivara lançou esse ano uma linha chamada LIFE. Que, na verdade, é mais do que uma simples linha, é uma espécie de editor/agregador de significados de vida muito mais eficiente do que algumas ferramentas digitais. Viajei demais? Acho que não. Vejamos.

A idéia é bem simples (e comercialmente inteligente): você compra uma pulseira ou colar e vai acumulando berloques que, sugere-se, tenham a ver com a sua história de vida. Arrumou um namorado novo? Bota um coração. Casou e foi passar a lua de mel em Paris? Bota uma Torre Eiffel. Ficou grávida? Bota um bebezinho. E por aí vai. Claro que dá pra usar como mero enfeite, mas a graça está justamente em compor a pulseira pra contar uma história. E com um brinde semiótico: é a linha da vida, em um círculo.

No fundo, é o que o Facebook gostaria que a gente fizesse na sua Timeline. Só que o Facebook, apesar de dar sua ferramenta de graça, é muito mais arrogante e pretensioso. Uma timeline em forma de pulseira (em que pesem aí questões monetárias e sociais) é infinitamente mais lúdica e fiel a uma história de vida do que uma timeline da forma como o Facebook sugere.

Porque a edição, no caso da pulseira, está muito mais na sua mão (sem trocadilhos) e é muito mais simbólica, não é tão estatística e forçada como a timeline digital no estilo Facebook (ou dos fracassados lifeblogs). Nesse último caso, além de partir do antipático pressuposto (ou, pior, da aspiração comercial) de que o que vale da sua vida passa pelo Feice, uma Timeline bacana e fiel dependeria de um usuário que domina perfeitamente as complexas configurações de privacidade. É comum, também, que usuários menos aplicados acabem deixando que configurações padrão façam as escolhas por eles.

Claro, pode-se considerar que uma Timeline do Feice fragmentada, produzida por enganos e baixa intimidade com as configurações técnicas, acabe dando um resultado tão legítimo quanto um diário escrito à mão, cheio de rasuras, imperfeições e lacunas. Mas, de alguma forma, me parece que os lapsos derivados do não entendimento completo de uma ferramenta digital resultam em um produto final menos autêntico. Rasuras aparecem, gritam, enquanto que configurações erradas frequentemente se misturam às postagens corretas, tornam-se postagens corretas.

Outro problema é que, por mais dados que uma pessoa gere ao interagir com os diversos aplicativos que atravessam seu cotidiano, mesmo que isso seja coletado e classificado de forma matematicamente perfeita, ainda estamos falando de fragmentos reunidos dentro de um condomínio fechado – enquanto a vida segue mais rica lá fora (não só fora da internet, mas, antes disso, fora do Facebook, no resto da internet).

Viver e dar sentido à vida, alguns defendem, é narrar e editar a própria história o tempo todo. Sempre fomos, de certa forma, sujeitos às (e impulsionados pelas) limitações das ferramentas da nossa época. Pode ser que no futuro dominemos as configurações de uma timeline digital da mesma forma como dominamos já a fala, a escrita, o recorte, a colagem e a confeção de pulseiras. Mas enquanto isso não acontece, não custa nada investir um pouco de atenção e reflexão no que tentam nos empurrar como sendo a linha da nossa vida.

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Minimalismo

Como sempre, eu lembro: clicando aqui ou no banner ali do lado, você vai para a tag do meu programete no site da Oi FM sobre cultura digital. Lá tem o Minimalismo em áudio e texto pra re-ouvir ou ler.

Nos últimos tempos, eu venho falando sobre o quanto nós somos mais do que a soma de nossas conexões digitais, sobre a noção de buffet na hora de comprar aparelhos digitais, sobre o futuro da blogagem por voz, sobre a origem da hashtag, sobre Pittsburgh disputando atenção com o Vale do Silício, entre muitas outras coisas.

Aparece lá…

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Bebês

Todos já vimos esse vídeo, não? E todos nos impressionamos com ele, não? Ok.

Claro que é impressionante ver um bebê interagindo com uma revista como se fosse um iPad. É, como reza o clichê, uma quebra de paradigma para nós, que estamos aí há mais tempo. Mostra, também, como a interação digital à base de toque dialoga melhor com… bebês. Nesse estágio da vida, tocar, arrastar e manipular são algumas das ferramentas básicas de interação com o mundo – e não só com revistas ou iPads.

Mas tem uma coisa não muito dita nesse caso: o bebê se dá melhor com o iPad porque ele ainda não é capaz de mexer numa revista. A revista é muito complicada pra ele. Ele precisa crescer e evoluir para poder interagir decentemente com uma revista (que pode ser rasgada e comida, diferente de um tablet). Em se tratando de interação analógica, o bebê ainda é um ignorante.

Sem ofensas.

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Leitura Sugerida

Essa semana, peguei dois textos pra ler em sequência e, serendipitosamente, eles faziam muito sentido juntos. Vejamos: primeiro, o artigo do Douglas Rushkoff sobre o #occupywallstreet e toda a questão da crise americana, perguntando: “Desde quando o desemprego é um problema?”. Bem, obviamente a pergunta é retórica e não se dirige às pessoas que estão desempregadas (o que seria perverso).

Rushkoff, isso sim, aproveita o gancho do desemprego pra lembrar que “o que nos falta não é emprego, mas uma maneira de distribuir justamente a abundância que geramos com nossas tecnologias, e uma maneira de criar significado num mundo que produz coisas demais.” Antes disso, vai mais longe: “como podemos organizar uma sociedade em torno de outra coisa que não o emprego?”

O ponto de Rushkoff é que a tecnologia permite que as pessoas, entre outras coisas, divirtam umas às outras, ajudem umas às outras a criar sentido (como sempre, o empreendimento mais difícil). Se o dinheiro circular nesse sentido horizontal, a economia seria um tantinho mais saudável.

Infelizmente, o argumento ainda soa mais filosófico do que prático (o que não deveria nos desanimar). No texto seguinte que entrou na minha fila de leitura, o escritor e ensaísta Sam Harris comenta sobre sua experiência com os Kindle Singles, os “livretos” digitais da Amazon de menor extensão e menor preço, criados justamente pra atender uma nova demenda de leitores que não querem gastar tempo para absorver 600 páginas de argumentação em torno de um assunto.

Diz Harris > “Os editores não conseguem cobrar dinheiro suficiente por livros de 60 páginas. Logo, os autores não conseguem se remunerar com eles. Mas os leitores estão começando a perceber que isso não é problema deles. Pior, a maior parte das pessoas acredita que pode dar um pulo no YouTube e assistir a uma conferência com o autor, ou então dar uma espiada no blog dele e, assim, absorver muito do que ele tem a dizer sobre determinado assunto.”

Ou seja: diminuindo-se os intermediários, é preciso contornar a questão da gratuitade para que as relações horizontais (quando nós consumimos conteúdos que nós criamos) sejam viabilizadas também economicamente. Sem excessos, mas economicamente.

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Imagem: daqui.

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O futuro de Mad Men

Se você não assiste Mad Men, aqui vai um resumo: o seriado é um novelão (bem bacana) que gira em torno da equipe de uma agência de publicidade nos anos 60. Maaaaas, a história da agência é apenas um recurso (bem pensado) pra falar dos problemas existenciais da classe média americana da época. Não é apenas a gênese da publicidade moderna que se vê, é também a gênese da maior parte dos males psíquicos que emplacaram nas últimas décadas (depressão, falta de pertencimento, ansiedades, desestruuração de um sistema vigente de status etc).

Uma das coisas mais interessantes do seriado (e que eles enfatizam claramente! são os pequenos hábitos cotidianos da época que caíram em desuso, como uma certa misoginia e, especialmente a tendência de beber e fumar a qualquer hora, o tempo todo. Não só publicitários estressados, mas donas de casas (inclusive grávidas) e médicos (que atendem grávidas) fumam e bebem numa quantidade impensável para os padrões médios atuais.

Não dá pra saber o quanto é verdade, mas dá pra ter uma idéia: eu trabalhei com algumas pessoas que viveram os anos 70 da publicidade brasileira e também lembro do status do álcool e do cigarro durante a minha infância. Eles eram, de fato, mais presentes fora de eventos sociais. O que antes era um comportamento comum hoje é algo quase alienígena, considerado fora da curva. Você olha alguns episódios e pensa (ao menos eu penso): “meu, o que é essa gente tosca?”

Pois o escritor de ficção científica William Gibson, em entrevista para o Boing Boing (que eu vi no Caos Ordenado), disse uma coisa que me lembrou justamente esse aspecto de Mad Men:

“Ao longo da minha vida, eu pude observar emergirem narrativas da história completamente diferentes. A história do que hoje é a Segunda Guerra e de como ela aconteceu é radicalmente diferente da história que me foi ensinada no colégio. Se você lê lê os Vitorianos escreverem sobre si mesmos, eles descrevem algo que nunca existiu. Os Vitorianos não pensavam sobre si mesmos como sexualmente reprimidos ou racistas. Eles não se viam como colonialistas. Eles se consideravam a jóia da coroa da criação.

Obviamente, nós poderíamos ser Vitorianos também.”

A partir dessa perspectiva, é curioso imaginar como seria a 55a temporada de Mad Men lá por 2051. Que comportamentos nossos hoje soarão toscos, retrógrados e excessivos? Que armadilhas sociais não conseguimos enxergar por estarem tão próximas de nossos olhos?

Não tenho muita certeza, mas acho que os episódios da 55a temporada de Mad Men:

- Se passariam em uma agência digital.
- Teriam como protagonista central um Diretor de Planejamento.
- Documentariam a chegada do Twitter e do Facebook.
- Mostrariam a decadência do atual modelo de agência digital.
- E também a frustração dos profissionais, que na verdade queriam todos ter sua própria startup de tecnologia.
- Deixariam claro como “era” exagerada a necessidade das pessoas de estarem conectadas 100% do tempo.
- Daria vergonha de ver como as pessoas “costumavam” ficar acessando emails durante reuniões
- Renderiam cenas hilárias sobre nosso entusiasmo com tablets e smarphones.
- Exporiam a nossa empáfia ao falarmos sobre comunicação digital como se realmente tivéssemos noção do que está acontecendo e o que estamos fazendo.

E por aí vai.

Não adianta: os sofisticados de hoje sempre serão os toscos de amanhã.

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Mas e você? O que acha que hoje é levado na boa mas será tosco no futuro?

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Minimalismo

Caso você não saiba ou não seja um frequentador do blog da Oi FM: lá tem todos (ou quase) os programentes Minimalismo que eu faço, em áudio e texto. Por exemplo, nas últimas semanas, você pode perceber, eu andei falando sobre como um trabalho do argentino David Lamelas de 1974 lembra a lógica das fotos atuais, sobre o Dia de Desconectar nos EUA, sobre como os aparelhos ficam menores mas mais presentes na nossa vida, sobre como os memes viraram rockstars, sobre como a internet está virando assunto de engenharia civil, entre outros papos.

Confere os posts/audios todos indo por aqui, na tag do Minimalismo no blog da Oi.

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O que diabos dizer mais de Steve Jobs

Pois é: foi a questão que me coloquei ontem no início da tarde, depois de todo mundo já ter escrito (quase) de tudo. Então, o que me saiu pra gravar um Minimalismo especial pra Oi FM foi o seguinte:

“A essa altura você já deve estar sabendo que o fundador da Apple, Steve Jobs, morreu ontem devido a complicações de um câncer no pâncreas. A morte de Jobs está sendo comentada intensamente em jornais, canais de tv, blogs e nas redes sociais e o motivo é muito simples: ao longo da sua trajetoria ele deixou de ser apenas um empreendedor visionário pra se tornar um ícone do nosso tempo. A figura dele se fundiu com as criações da Apple, que foram no fundo as grandes reponsáveis por transformar tecnologia em cultura pop. Com a morte de Steve Jobs não morre essa nova forma de enxergar tecnologia, que já se entranhou na nossa cultura e transcendeu os produtos da empresa californiana. O que vai embora, além do ser humano e do empresário, é uma certa idéia de que precisamos de uma figura central, masculina, iconoclasta e controversa pra dar uma chacoalhada nas coisas. Essa missão agora, talvez fique nas nossas mãos. E quem sabe assim Steve Jobs vai poder descansar mesmo em paz.”

A isso, gostaria de adicionar mais duas coisas que me ocorreram entre ontem e hoje.

1. Entre tantos conceitos, acho que o Steve Jobs encarnou bem a idéia de CURADORIA, tão cara à nossa época. Eu sei que a palavra anda meio desgastada, mas pelo que me consta, é a melhor forma de descrever o que ele fazia: juntar idéias inteligentes, porém desconexas, e as colocar em um contexto, em um sistema, dar um sentido. Daí o sucesso de produtos que em outras empresas ou situações haviam naufragado (é sabido que não foi a Apple que inventou o mp3 player, o mouse, o mp3 ou o tablet). Pelo que se fala do Jonathan Ive (VP de Design Industrial) e o Tim Cook (atual CEO), parece que Jobs também era um bom curador de equipes e não só de idéias.

2. É imprescindível, nesse momento, botar na balança alguns artigos que contrapōem a beatificação do Steve Jobs. Isso não vai impedir que as pessoas sedimentem uma idéia planificada sobre o cara, mas não custa dar uma espalhada nesse tipo de informação. Segue aí então, um post do blog trezentos colocando Jobs como inimigo da distribuição, um texto de 2009 do Umair Haque sobre o custo real de um iPod e um artigo crítico que saiu em agosto na Carta Capital.

 

Update: tem um texto também com esse viés feito pelo Matias: ser um bom homem de negócios não o torna um homem bom.

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PS: se você quer saber como seria Mad Men nos anos 80, leia o texto de Steve Hayden, redator da célebre campanha 1984, que lançou o primeiro Macintosh.

PS 2: Também recomendo o texto do meu vizinho Matias que dá uma geral sobre o significado de Jobs para a cultura.

PS3: Mais um interessante sobre a juventude de Jobs, do Financial Times.

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Minhas impressões sobre o iPad 2 (e o mundo dos tablets)

Em janeiro, escrevi aqui sobre minha experiência de ter comprado e usar o Kindle. E avisei você que não era um cara muito dado a sair comprando o último gadget do momento por impulso. Confesso que disse aquilo com um certo orgulho, mas estou um pouco arrependido dessa bravata. Não porque eu tenha me tornado um gadgetmaníaco desde então, mas porque percebi que cada compra de eletrônicos pra mim é sempre um calvário. Deve ser bem mais fácil sair e comprar por impulso de uma vez por todas.

No caso do iPad, esse calvário incluiu quase dois meses de leituras e pesquisas pra saber: compro um iPad ou compro outro tablet qualquer que custe mais barato? Na época em que comprei (junho) a dúvida era ridícula. Como produto e como ecossistema (algo que explorarei mais adiante)o iPad era obviamente superior. Os concorrentes mais próximos claramente não chegavam perto do iPad. Mas eu queria me certificar ao máximo de não estar pagando pelo hype e cheguei a experimentar três ou quatro modelos em lojas.

Primeira questão, então: não adianta pesquisar apenas o tablet. Claro que é importante a pessoa manusear e sentir como é a interface e as funcionalidades básicas (peso, câmeras, sensibilidade da tela), mas no fim tem um fator crucial pra comprar um tablet que raramente é explorado nas tabelas comparativas que saem na imprensa – o ecossistema de serviços que envolvem o tablet.

Embora algumas pessoas assim o considerem, um tablet não é um netbook. Ele é uma lâmina que serve de interface para um universo que está na tal de nuvem. Tablet bom não é só aquele que é rápido, tem design agradável e interface bacanuda, mas principalmente aquele que anda em boa companhia. A loja de aplicativos, a loja de filme e música, a loja de livros e revistas, tudo isso faz parte quase da fisicalidade do tablet (e é a base do provável sucesso do Kidle Fire, que vem com uma Amazon como principal acessório). Pense assim: compramos uma TV pra que a TV suma e o conteúdo dos canais apareçam. Com o tablet, é mais ou menos a mesma coisa. Mas, como eu disse, nem sempre isso é destacado com a devida importância.

(Um adendo: essa experiência é sempre dependente de gambiarras no Brasil. Não existe uso pleno de tablet por aqui porque a maior parte das lojas de aplicativos tem restrições para o nosso país, o que exige se contentar com o que pode ou mergulhar no jeitinho.)

Dito isto, vamos para o segundo aspecto: não acredite em quem diz COMO você deve usar um tablet ou PRA QUE SERVE um tablet. É o uso que você der que vai determinar o que o tablet é. Eu comprei um iPad pra consumir conteúdo, pra assistir filmes carregados nele, pra ler jornal e revista. Mas acabou que o que eu mais faço no iPad é ESCREVER – coisas como esse post, os meus programetes de rádio pra Oi e anotações de trabalho em reuniões. Aliás, descobrir que ESCREVER é minha principal atividade no iPad me deixou mais tranquilo por não ter comprado um tablet com tela de 7 polegadas. Fica, então a dica: se você pretende escrever, prefira os modelos maiores.

Também não acredite em quem diz que você PRECISA de um tablet com 3G. Pra quem trabalha muito na rua ou viajando, é bem provável que valha a pena. Mas pra quem trabalha direto em locais com wifi ou tem em casa, não custa nada esperar algumas horas pra sincronizar anotações ou ler/jogar/assistir o que quer que seja na internet. No meu caso, a falta do 3G é um componente valioso pra minha capacidade de concentração. É um auxílio pra eu não me perder na “mania” de ficar navegando por qualquer besteira em qualquer lugar.

Porque tem isso: com um tablet, entrar na internet é muito menos trabalhoso. O tablet nos faz um pouco mais ridículos porque torna o ato de ligar um desktop ou um notebook algo “trabalhoso”. Preciso ver emails. “Putz… tenho que ligaaaaaaaaaaaaaaaar o notebook… esperar carregar…. entrar no browser… 2 minutos é muito tempo…..”. O que antes era leve e rápido, agora se torna um fardinho.

Por último: tablet é um luxo ou é pra todo mundo? Olha, eu acho que deveria ser pra todo mundo. Não dá pra dizer que é um artigo de primeira necessidade, mas ele facilita o trabalho, o estudo, o consumo de cultura, enfim, a inclusão digital (que é também inclusão social e econômica). Espero que surjam tablets com preços humanos (como o desenvolvido pelo governo indiano a 35 dólares e anunciado ontem) e com qualidade decente (já tem por aí tablets chinas a 200 reais, mas não saberia dizer sobre a experiência com eles…) A Amazon, de novo, prestou um bom serviço ao lançar o que parece ser um excelente tablet a um preço não tão proibitivo (claro, nos EUA, mas assim ela dá a morta). Muita gente pode se beneficiar do uso de um tablet e, organizando-se as demandas domésticas, equilibrando com a compra de um celular mais simples, ele pode compor sim uma escolha utilitária e que faça sentido. É claro que no início a gente se vê rodeado de equipamentos, mas acredito que com o tempo vamos aprender a racionalizar a bagunça toda.

Em resumo: num pequeno texto pra revista PEK (ainda vou escrever sobre ela aqui), eu disse que os tablets são como os koans zen budistas, ferramentas pra transcender o pensamento racional e quebrar caminhos formais do pensamento, deixando a mente mais flexível, fresca e criativa. O koan aparece geralmente como uma questão, uma pequena narrativa ou uma afirmação entregue a um estudante pelo seu mestre. Um koan clássico, por exemplo, pergunta: “qual é o som de uma mão batendo palmas?”

A função do koan não é propriamente ser respondido, mas investigado e raramente pode ser respondido de primeira. É assim que eu vejo os tablets hoje. Logo, não há porque ter pressa.

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Netflix

Como comentei no Face e no Twitter, assinei o Netflix há algumas semanas pra testar o serviço de “locação online” (não é bem isso, mas enfim). De cara, gostei: tem 30 dias de graça pra experimentar e a interface, apesar de tosca, dá pra navegar com mais facilidade do que os concorrentes (que eu nem sabia que existiam direito, o que mostra o que é a força de uma marca global). O acervo do Netflix nacional não é lá essas coisas, mas também não precisa ser. Aliás, esse problema é generalizado com locação online por questões contratuais com os grandes estúdios (leia o dossiê completo do Link). De minha parte, gosto de dar uma vasculhada em filmes mais antiguinhos e tou podendo assistir o Mad Men Tem Muppets, De Volta para o Futuro, Duna… tá na boa.

Uma coisa que faz toda a diferença: lá em casa temos Wii, então usamos o Netflix na TV. Se fosse pra ser só no computador, na boa, teriam que cobrar menos que 14,90 por mês. Agora, tem um lance muito engraçado e curioso que tem a ver com a foto que eu postei acima.

O botão B do controle do Wii funciona como “VOLTAR” no Netflix. E ele fica na parte de baixo do controle. Ou seja: toda vez que você dá play e se recosta pra assistir o que quer que seja, não pode simplesmente largar o controle displicentemente no sofá. Precisa tomar cuidado e colocar ele de lado, de forma que não aperte o botão B sem querer e nem o controle fique apontando pra tela (porque senão ficam aparecendo os menus).

É uma bobagem, não chega a ser um problema. Mas são essas pequenas coisas que mostram 1) como estamos acostumados a sistemas estabelecidos – no caso, jogar o controle da TV ou da NET no sofá sem receios e 2) como um pequeno detalhe não previsto originalmente coloca um pequeno empecilho na sua interação com um novo sistema.

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Só pra não deixar de dar meu prognóstico, que é igual ao que tem saído em geral por aí: não acho que os serviços de locação online ameacem as locadoras tão cedo. Em primeiro lugar, pela questão dos lançamentos, que no DVD (original ou pirata) ainda saem antes por questões legais. Em segundo lugar, porque ainda precisa facilitar a vida do usuário médio que no geral prefere (minha intuição) ir até a locadora (ou o seu camelô) do que ficar se envolvendo com o mundo dos plugins e dos cabos (coisa de nerd).

Quando os lançamentos estiverem na mão e a experiência de compra/locação/assinatura for realmente suave, aí sim.

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Nunca esqueça da TORNEIRA

Pós-ruminando o post do último domingo, sobre o Dia de Desconectar, me lembrei de dois Minimalismos que fiz pra Oi num passado recente.

Num deles, eu trouxe à tona uma metáfora bastante comum hoje quando se discute mídias digitais, que é essa história de comparar informação à água. Não sei bem quem começou com isso, mas um dos caras que costuma usar esse comparativo é o futurista Gerd Leonhard. Também me lembro de um livro (que não li) chamado The Future of Music (o Matias comenta sobre ele nesse debate), no qual o futuro consumo de música é comparado com o consumo de água. É uma forma de explicar os modelos de assinatura, nos quais você paga uma mensalidade e tem acesso à música quando quiser no seu computador ou celular – que, preste atenção, deixam de ser garrafinhas pra se tornarem torneiras.

Digo isso, porque essa história de água, garrafinhas e torneiras é um excelente gancho pra quem se sente sobrecarregado com tanta informação que chega pelos meios digitais. Assim como nós somos cercados por informação, nós também somos cercados por água. Tem água correndo por canos nas paredes, no teto e no chão – inclusive na rua. A gente só não enxerga, mas somos rodeados de água encanada.

Se não existissem as torneiras, a água encanada ficaria o tempo todo jorrando, faria a maior molhaçada e seria uma incomodação do cacete. Então, inventaram essa maravilha que é a torneira. Quando a gente precisa, abre a torneira, usa a água. Parou de usar, fecha a torneira.

Com o excesso de informação, tem que ser a mesma coisa. Não é porque existe um fluxo constante de informação chegando que a torneira precisa ficar aberta o tempo todo. Ou, para ser mais direto, não é porque ficam vendendo o conceito de “always on” e que o email pode ser configurado no celular que você vai deixar ele aberto, atualizando o tempo todo.

O email, o Facebook, o Twitter, o Orkut, a rede de SMS são como canos por onde passa água. Cabe a cada um abrir e fechar a torneira adequadamente se não quiser se afogar.

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