21 de maio de 2012 às 8h00
Nem todo mundo é mídia
A cultura digital – como toda cultura – é fértil em conceitos que viajam pela conversação social sem um exame mais aprofundado de suas implicações ou de sua veracidade. Um dos exemplos mais recentes e bem forjados é a ideia de que o acesso aos meios digitais de produção e distribuição de conteúdo transformou cada indivíduo em uma central de mídia, uma equação que vem sendo utilizada como argumento de sedução e orgulho nos mais diversos segmentos. Você vê fácil fácil esse discurso na boca de estudiosos de mídia, presidentes de multinacionais, publicitários, políticos conservadores, ativistas sociais, professores de ensino médio, jornalistas, enfim: tem um povo aí que está gostando de declarar solenemente que “hoje todo mundo é uma mídia”, que o cidadão comum tem poderes de geração e distribuição de conteúdo comparáveis ao de grandes grupos de comunicação.
Não dá pra negar que o poder das mobilizações digitais em seus diferentes níveis e campos de influência está mudando a cara de todos os processos sociais, econômicos e políticos. Como publicitário, músico e comentarista de cultura digital, tenho visto com meus próprios olhos esse efeito na estrutura de empresas, no modo de pensar de políticos e na formatação dos mercados culturais. Mas confundir (ou considerar) essa ação coletiva e complexa como a soma de uma ação nivelada de todos os indivíduos é forçar um pouco a barra.
Um cidadão é mídia apenas na medida em que ele sabe articular e/ou distribuir conteúdos. Isso não é uma verdade da cultura digital, mas sim um modelo de funcionamento da maior parte das interações sociais. Por mais democrático e horizontal que seja um ambiente, mesmo numa organização em rede, sempre vai existir uma dependência da mobilização e das habilidades de determinados indivíduos. Não porque eles sejam seres especiais, mas porque costumam abraçar interesses, desenvolvem habilidades específicas, reúnem pessoas ao seu redor ou integram grupos relevantes.
Esta divisão – entre pessoas que articulam/distribuem e as que são mais passivas – é um modelo que acontece também na inserção social offline. Por exemplo, quando uma pessoa almeja participar de um processo político formal, ela terá primeiro que dominar a linguagem e conhecer os meandros deste meio. Para isso, ela provavelmente vai precisar se unir a um grupo de ação política como um sindicato, um partido ou uma associação de bairro. E, então, utilizar as ferramentas disponíveis para a ação – as eleições, o parlamento, os mecanismos de orçamento participativo. Claro que ela pode, também, ir pra uma praça com um cartaz contendo frases de protesto, solitariamente. E se essa atitude angariar seguidores, disparar um movimento, isso já demonstra uma capacidade mínima de articulação e distribuição de conteúdo. O que nos leva de volta ao ponto inicial: é necessário adquirir (formal ou intuitivamente) um conhecimento mínimo da linguagem e do funcionamento destes mecanismos pra deixar de ser espectador e tornar-se algo como uma mídia.
No ambiente digital é mesma coisa. A maior parte das pessoas não pode ser considerada mídia porque não articula conteúdos de forma consistente e sua rede de distribuição (ou a influência de seus contatos) é restrita. A sociologia há um bom tempo diz isso e o jornalista Malcom Gladwell tornou pop a noção de que os conteúdos que se espalham pelo tecido social dependem da participação de figuras com características e conexões específicas. Desse ponto de vista, o grande benefício das cultua digital para a democracia não é empoderar a todos, mas empoderar mais do que alguns poucos. A boa novidade para nós se enunciaria melhor assim: entre os grandes grupos de mídia e o cidadão comum hoje existe, felizmente, uma estratificação rica de poderes e de potencialidades.
Um bom exemplo disso é o trabalho de grupos de ativistas digitais com dados governamentais disponibilizados na internet. A grande vantagem desse tipo de transparência não é que todo cidadão possa acessar os gastos do seu deputado ou o orçamento de seu município, mas sim o potencial de atuação de grupos ferramentados e organizados (como o Transparência Hacker), que sabem extrair os dados mais significativos e traduzir em apresentações facilmente compreensíveis ou em aplicativos úteis.
Isso não quer dizer que as pessoas individualmente não estejam mais empoderadas, mas é muito mais relevante afirmar que esse segmento intermediário de representação é que teve sua força multiplicada. Quando se fala que todo mundo é mídia, na verdade está se falando dessas pessoas ou grupos que reúnem as aspirações de seus pares, de seu entorno (físico ou ideológico), e que promovem ação ou reflexão social com um poder de conexão e disseminação nunca antes visto na história. Claro que isso beneficia indiretamente a todos, mas daí a considerar cada cidadão como mídia existe uma distância importante a ser considerada.
Pode parecer besteira implicar com a expressão “todo mundo é mídia”, afinal, dã, é só “modo de dizer”. Mas esses “modos de dizer” geralmente calcificam ideias no imaginário popular e o estrago a longo prazo costuma ser grande. Porque mitificar esse conceito pode gerar uma certa negligência com a necessidade de treinar e educar as pessoas para um uso produtivo dos meios digitais de produção e distribuição.
Se as revistas semanais, os políticos fisiológicos, os palestrantes de ocasião e as marcas sem personalidade querem fazer isso, tudo bem. Mas no meu megafone, na minha central de mídia, a conversa vai ser outra.
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Todas as imagens daqui.
Post inspirado no papo que participei dentro da programação do Observatório Fora do Eixo.




































Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital no programa Minimalismo (em pausa!). Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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