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Nem todo mundo é mídia

A cultura digital – como toda cultura – é fértil em conceitos que viajam pela conversação social sem um exame mais aprofundado de suas implicações ou de sua veracidade. Um dos exemplos mais recentes e bem forjados é a ideia de que o acesso aos meios digitais de produção e distribuição de conteúdo transformou cada indivíduo em uma central de mídia, uma equação que vem sendo utilizada como argumento de sedução e orgulho nos mais diversos segmentos. Você vê fácil fácil esse discurso na boca de estudiosos de mídia, presidentes de multinacionais, publicitários, políticos conservadores, ativistas sociais, professores de ensino médio, jornalistas, enfim: tem um povo aí que está gostando de declarar solenemente que “hoje todo mundo é uma mídia”, que o cidadão comum tem poderes de geração e distribuição de conteúdo comparáveis ao de grandes grupos de comunicação.

Não dá pra negar que o poder das mobilizações digitais em seus diferentes níveis e campos de influência está mudando a cara de todos os processos sociais, econômicos e políticos. Como publicitário, músico e comentarista de cultura digital, tenho visto com meus próprios olhos esse efeito na estrutura de empresas, no modo de pensar de políticos e na formatação dos mercados culturais. Mas confundir (ou considerar) essa ação coletiva e complexa como a soma de uma ação nivelada de todos os indivíduos é forçar um pouco a barra.

Um cidadão é mídia apenas na medida em que ele sabe articular e/ou distribuir conteúdos. Isso não é uma verdade da cultura digital, mas sim um modelo de funcionamento da maior parte das interações sociais. Por mais democrático e horizontal que seja um ambiente, mesmo numa organização em rede, sempre vai existir uma dependência da mobilização e das habilidades de determinados indivíduos. Não porque eles sejam seres especiais, mas porque costumam abraçar interesses, desenvolvem habilidades específicas, reúnem pessoas ao seu redor ou integram grupos relevantes.

Esta divisão – entre pessoas que articulam/distribuem e as que são mais passivas – é um modelo que acontece também na inserção social offline. Por exemplo, quando uma pessoa almeja participar de um processo político formal, ela terá primeiro que dominar a linguagem e conhecer os meandros deste meio. Para isso, ela provavelmente vai precisar se unir a um grupo de ação política como um sindicato, um partido ou uma associação de bairro. E, então, utilizar as ferramentas disponíveis para a ação – as eleições, o parlamento, os mecanismos de orçamento participativo. Claro que ela pode, também, ir pra uma praça com um cartaz contendo frases de protesto, solitariamente. E se essa atitude angariar seguidores, disparar um movimento, isso já demonstra uma capacidade mínima de articulação e distribuição de conteúdo. O que nos leva de volta ao ponto inicial: é necessário adquirir (formal ou intuitivamente) um conhecimento mínimo da linguagem e do funcionamento destes mecanismos pra deixar de ser espectador e tornar-se algo como uma mídia.

No ambiente digital é mesma coisa. A maior parte das pessoas não pode ser considerada mídia porque não articula conteúdos de forma consistente e sua rede de distribuição (ou a influência de seus contatos) é restrita. A sociologia há um bom tempo diz isso e o jornalista Malcom Gladwell tornou pop a noção de que os conteúdos que se espalham pelo tecido social dependem da participação de figuras com características e conexões específicas. Desse ponto de vista, o grande benefício das cultua digital para a democracia não é empoderar a todos, mas empoderar mais do que alguns poucos. A boa novidade para nós se enunciaria melhor assim: entre os grandes grupos de mídia e o cidadão comum hoje existe, felizmente, uma estratificação rica de poderes e de potencialidades.

Um bom exemplo disso é o trabalho de grupos de ativistas digitais com dados governamentais disponibilizados na internet. A grande vantagem desse tipo de transparência não é que todo cidadão possa acessar os gastos do seu deputado ou o orçamento de seu município, mas sim o potencial de atuação de grupos ferramentados e organizados (como o Transparência Hacker), que sabem extrair os dados mais significativos e traduzir em apresentações facilmente compreensíveis ou em aplicativos úteis.

Isso não quer dizer que as pessoas individualmente não estejam mais empoderadas, mas é muito mais relevante afirmar que esse segmento intermediário de representação é que teve sua força multiplicada. Quando se fala que todo mundo é mídia, na verdade está se falando dessas pessoas ou grupos que reúnem as aspirações de seus pares, de seu entorno (físico ou ideológico), e que promovem ação ou reflexão social com um poder de conexão e disseminação nunca antes visto na história. Claro que isso beneficia indiretamente a todos, mas daí a considerar cada cidadão como mídia existe uma distância importante a ser considerada.

Pode parecer besteira implicar com a expressão “todo mundo é mídia”, afinal, dã, é só “modo de dizer”. Mas esses “modos de dizer” geralmente calcificam ideias no imaginário popular e o estrago a longo prazo costuma ser grande. Porque mitificar esse conceito pode gerar uma certa negligência com a necessidade de treinar e educar as pessoas para um uso produtivo dos meios digitais de produção e distribuição.

Se as revistas semanais, os políticos fisiológicos, os palestrantes de ocasião e as marcas sem personalidade querem fazer isso, tudo bem. Mas no meu megafone, na minha central de mídia, a conversa vai ser outra.

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Todas as imagens daqui.

Post inspirado no papo que participei dentro da programação do Observatório Fora do Eixo.

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Dinheiro móvel

O infográfico acima, em forma de apresentação, é um dos mais objetivos e diretos pra quem quer entender essa história de pagamento via celular. O assunto vem ocupando espaço de sites, revistas e blogs de tecnologia já faz anos, mas o uso prático desse conceito no dia-a-dia ainda depende de uma conjunção complexa de fatores.

Não é só nesse caso. Muitas das novidades criadas em laboratórios de universidades, departamentos de pesquisa de empresas ou quartos de garotos encarnados são noticiadas na mídia logo que surgem, mas às vezes demora anos até que elas se materializem na vida das pessoas de fato. O motivo dessa demora nem sempre tem a ver com a falta de interesse do público ou das empresas, mas sim da dificuldade que é determinar padrões de funcionamento pra novidades desse calibre. Em especial, nesse caso, é fundamental a criação de um padrão que seja adotado por um número razoável de lojas e instituições financeiras, assunto coberto a partir da lâmina 14.

Criar esse ecossistema de funcionamento e fazer todos os envolvidos se entenderem
hoje é tão (ou mais) importante quanto criar a tecnologia em si.

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Hoje vou estar no Observatório Fora do Eixo em Porto Alegre

Aparece lá no Centro Meme na Cidade Baixa às 20h. Ou aparece na frente do computador aí. O papo é sobre Cultura Digital.

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Picaretagem ou novo formato?

A história é a seguinte: estava eu procurando esse livro de fotos do Chris McCandless (o carionha do Na Natureza Selvagem) na Amazon, quando me deparei com o livro acima. Interessado no tema, fui dar uma vasculhada no conteúdo, na autora e na editora e encontrei o seguinte:

As passagens grifadas dizem o seguinte.

“Por favor atente para o fato de que o conteúdo deste livro consiste primordialmente de artigos disponíveis na Wikipedia e em outras fontes online. (…) (A editora) Project Webster representa um novo paradigma de edição, permitindo que fontes de conteúdo espalhadas sejam consolidadas em livros coerentes, relevantes e informativos.”

É isso mesmo! O livro acima não é nada mais do que uma compilação de artigos pescados na internet que estavam com os direitos liberados em algum nível. E o Chris McCandless não é o único assunto coberto pela autora Dakota Stevens e o Project Websters. Na própria Amazon você encontra DEZENAS de livros no mesmíssimo formato, com o mesmo layout de capa, sobre todo tipo de assunto, desde Ayrton Senna, passando pela cozinha de Porto Rico, tribos nativas dos Estados Unidos, a história do hip hop e Cameron Diaz. E não é só na Amazon, se encontra material similar no Google Books e na Barnes & Nobles. Deve ter em mais lugares, mas eu parei por aí.

Bom, fique curioso com essa história e comecei a procurar algum site ou alguma referência a Dakota Stevens e ao Project Websters, mas não encontrei NADA, nem site da autora, nem da editora, nem mesmo matérias criticando a idéia. O nome de Dakota Stevens, na verdade, aparece mais frequentemente como o personagem dos livros de mistério do escritor Chris Orcutt. Esse Dakota Stevens, apesar de fictício, tem até site do seu escritório de investigação.

Enfim, se alguém encontrar mais alguma coisa sobre Dakota Stevens/Project Websters, por favor avise. Mas o fato é que estamos diante de uma ideia muito interessante. Nos reviews de leitores da Amazon, algumas pessoas avisam o leitor incauto que aquele livro é, de certa forma, uma picaretagem, uma reunião de artigos que qualquer um pode sentar, procurar e reunir pra ler na internet. Mas o que retira um pouco do ar de picaretagem dessa história (descontando qualquer questão de direitos autorais) é que hoje o trabalho de garimpar, fazer curadoria e reunir material de forma que faça sentido é absolutamente valioso.

 

Esses dias, eu pensava justamente sobre isso: é possível aprender sobre tudo na internet, mas um dos grandes problemas é sentar, garimpar e juntar num formato que tenha portabilidade, que seja simples de colocar em algum dispositivo ou imprimir. Esse trabalho – apesar de alguns conhecidos meus gritarem o contrário – é um saco de fazer e são poucas as pessoas que 1) estão dispostas 2) tem as habilidades de garimpagem,  de consolidação e de edição gráfica necessárias pra tanto.

Veja bem: não estou falando de edição online, de portais de conteúdo, de RSS feeders, de blogueiros que curam conteúdo. Estou falando de um conteúdo que em um certo ponto precisa se tornar estático pra ser consumido. Que chega um ponto em que ele pára de ser alimentado, que você corta o fluxo, e ele se torna um objeto (digital ou físico) com início, meio e fim. Um livro ou uma revistas feitos por você com o que você acha na internet. A princípio, é um conceito que soa anacrônico, mas eu diria que ele é mais fundamental hoje do que em qualquer outra época da história da humanidade – porque é um saco você precisando absorver informação sobre um determinado tema e não parar de entrar coisa nova.

Pra dar um exemplo mais prático: eu uso o Flipboard como interface do meu Google Reader (ainda não testei o Currents e nem o Zite). Ou seja, quando eu quero me informar, eu abro o Flipboard no iPad e seleciono a aba que me interessa. O problema é que a informação não só não pára de entrar um segundo como tem um rabicho em direção ao passado. Essa é a grande vantagem de livros e revistas impressos: chega uma hora que a leitura acaba. Esse lado estático e limitado também tem valor de leitura. Eu gostaria de poder “cortar” a alimentação do meu Flipboard de vez em quando. Como o aplicativo não faz isso, eu preciso fazer isso com a minha mente.

Aí está uma ideia pra quem quiser produzir: um aplicativo de uso popular, fácil e intuitivo, que busque conteúdo na internet sobre um determinado assunto e consolide em um documento em formato e layout também popular. Tá picando essa história. Se existe isso, me avisem por favor.

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Update 1: o Rodrigo Azevedo avisa que dentro da própria Wikipedia existe o Criador de Livros, que cria arquivos em PDF e ODF com artigos dali mesmo. Vou testar e em seguida dou meu veredicto.

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Black Mirror – a série do agora

Esses tempos, li uma entrevista do psicanalista Contardo Calligaris comentando que os filmes vem substituindo os romances como espelho da psiquê coletiva nas últimas décadas  - alguma coisa assim. Espelho não no sentido de colocar na tela o que somos, mas sim de servir como um instrumento de auto-reflexão mesmo: olhar para a expressão cultural da nossa época e encontrar coisas sobre nós que não víamos conscientemente. Bom, acho que todo mundo vai concordar que o próprio cinema está sendo ultrapassado pelos seriados nesse papel e é a partir desse nível que eu queria falar de Black Mirror.

A série de três episódios foi ao ar no final do ano passado na Inglaterra e é fruto da mente criativa do roteirista, jornalista, produtor e apresentador de TV Charlie Brooker (também responsável pela série de horror Dead Set, que não vi). Fortemente temperados com a peculiar acidez inglesa (que também é uma marca da trajetória de mídia de Brooker), o conjunto de Black Mirror cobre boa parte dos assuntos que antes eram do mundo da tecnologia e que hoje se tornaram vetores da cultura geral: telas onipresentes, gente que vive conectada, superexposição particular, ansiedade crônica, rolos amorosos causados por novas tecnologias, itens virtuais como combustível para a ambição e por aí vai. A lista é bem grandinha, mas cada episódio tem um vetor como o mais proeminente.

Por exemplo, em “The National Anthem”, o tema é a hiperexposição de um fato público e todos seus desdobramentos nas redes sociais, tanto do ponto de vista pessoal quanto na visão da imprensa e do poder público. Através da interação de cidadãos, políticos, jornalistas e policiais com a mídia digital, vamos acompanhando o sequestro da princesa da Inglaterra por um terrorista. As camadas interessantes de Black Mirror começam a se mostrar quando descobrimos que o resgate não é em dinheiro: pra liberar a princesa numa boa, o sequestrador exige como pagamento a humilhação pública do Primeiro Ministro em rede nacional.

Humilhação pública é um eufemismo, mas não vou entregar o jogo demais pra não estragar a surpresa, que é grande. Se você resolver assistir, também não deixe de prestar atenção também na ferramenta que o governo inglês escolhe pra resolver a questão da exposição do Ministro no fim da história: é, talvez, o melhor comentário crítico do episódio e ele tende a ficar enterrado quando comparado com o eixo central da história, a tal da humilhação pública.

Já “15 Million Merits” é uma sátira ambientada em um futuro próximo onde aparentemente todo mundo vive preso em um complexo claustrofóbico. São quartos individuais  minúsculos com paredes revestidas de telas (imagem acima), corredores estreitos e cinzas que levam a refeitórios padronizados e salas onde acontece a única atividade física permitida, que é andar em bicicletas ergométricas pra gerar energia elétrica em troca de créditos. O problema é que esses créditos só podem ser usados de duas formas: dentro do próprio complexo, na compra de comida e entretenimento digital ou então, caso você pedale bastante e gaste pouco, comprando seu golden ticket pra sair dali através de uma espécie de American Idol (onde o Rupert Everett faz uma impagável versão do americano inglês Simon Cowell).

Em relação ao primeiro episódio (que já é bom), aqui temos um salto. Onde “The National Anthem” pressiona e faz pensar abusando de um certo sensacionalismo explícito, “15 Million Merits” quase deprime o espectador ao deixar bem claro que nenhuma metáfora, visão de futuro ou traquitana digital esconde o quanto esta é uma narrativa sobre o presente.  Geralmente, na ficção científica tradicional, isso é um pouco mais bem disfarçado. Nesse caso, a fantasia é propositalmente translúcida.

Mas o melhor, Charlie Brooker deixou pro final. O último segmento, “The Entire History of You”, acompanha, como tantos outros dramas televisivos, a história de degradação de um jovem casal. Só que no epicentro do processo está um dispositivo digital implantado na base do crânio, atrás do ouvido. Esse popular aparelhinho chamado “Grão” registra todas as imagens e sons percebidos pelo usuário 24 horas por dia ao longo de toda sua vida. Mais interessante, as “cenas” da vida podem ser facilmente reprisadas de duas maneiras: no modo “particular”, somente nos olhos do usuário, ou então enviadas para uma tela próxima, um computador ou televisão.

A partir dessa premissa, o episódio (e o protagonista) descem em espiral. Ao questionar a fidelidade da esposa pega em um deslize, o marido empilha replays de cenas casuais do passado procurando o famoso cabelo em ovo que alimenta tantas discussões de relacionamento. A diferença é que hoje em dia as DRs contam com a memória de cada um – sempre cheia de lacunas e fértil em distorções, ou no máximo uma miríade de registros digitais externos. No futuro visualizado por Black Mirror, as cenas gravadas com detalhes no Grão ficam “dentro da cabeça” e servem de apoio para a potencialização de cada mínima picuinha. Aí não tem quem não enlouqueça.

Diz-se (não me lembro quem) que toda análise do amor é autópsia. O último segmento de Black Mirror mostra o perigo da biópsia baseada em todos os registros que a tecnologia nos provê. Mais uma vez, a ficção aqui é científica não por conta de colocar um elemento tecnológico avançadíssimo no coração da narrativa, mas sim por usar códigos da cultura digital para enunciar com clareza uma equação universal dos relacionamentos.

Em resumo: o grande perigo ao assistir Black Mirror é achar que está se falando da acepção popular de ficção científica, que seria “histórias sobre o futuro”. Como eu sublinhei no título e em diversas passagens do post, esta na verdade é muito mais uma série que fala sobre como as coisas são – ou inclusive sobre como elas sempre foram.

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Black Mirror não saiu em DVD aqui e nem nos EUA, pelo que me consta. Mas tem pra vender na Amazon UK. Também pra encontrar nos torrents da vida, mas aí você é que se entende com o FBI depois.

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Defeito de Fabricação

Curta-metragem de testes pra tecnologia de captura & digitalização de imagens. Trabalho do estúdio Quantic Dream. Vi lá no Pipoca Moderna.

O bom e velho argumento sci-fi: quando uma máquina dá errado, ela acaba com emoções. Pois é, espera esse andróide com emoções sentar na frente do Facebook, aí tu vai ver o que é ter emoções.

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Projetos de Garagem

Domingo agora tem em São Paulo a primeira edição do Projetos de Garagem, uma iniciativa da Inesplorato e do pessoal do Ideiafixa que vai botar no palco do Cine Jóia 10 idéias bacanas que precisam de atenção e investimento pra acontecerem. O Alma de Batera é um dos projetos e a gente vai poder conhecer esse e os outros nove acompanhando as apresentações dos criadores ao vivo no site do Projetos de Garagem (o evento presencial é só pra convidados).

Curiosidade a ser sublinhada: um evento dessa estirpe acontecer em um espaço de shows que também vai receber em breve o Foster The People e o Thurston Moore. São universos criativos que hoje parecem se sobrepor. Você já deve ter notado essa coisa de grandes empreendedores estarem sendo tratados como rockstar e os pequenos como se fossem ícones do rock alternativo.

Aliás, também é interessante como a idéia de garagem como um lugar pra crição está voltando a grudar no conceito de empreendedorismo e tecnologia depois de anos sendo usada pra definir um tipo de bandas de rock. Não sei exatamente onde isso começou, mas tem toda a cara de ser um papo de classe média americana pós-guerra, aquela coisa de casas de subúrbio onde havia um espaço marginal pra guardar o carro e as tralhas em geral. Espaços marginais cheios de tralha tradicionalmente são os melhores pra ter e fermentar idéias.

Claro que a garagem há algum tempo já não é mais a garagem. Quando se fala de garagem se fala justamente desse espaço marginal, recortado do cotidiano. Que pode ser um quarto (vem sendo nas últimas décadas de urbanização extrema), um espaço de co-workig, um bar ou um café pra onde você leva seu bloquinho, seu laptop, suas elucubrações. Ao transcender a garagem física, a garagem-idéia se transformou em uma mentalidade, um cenário que você instala em qualquer lugar que lhe convier.

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Os tablets não vão matar os computadores

Não sou eu que estou dizendo. É o articulista de tecnologia do Guardian John Naughton numa coluna bem interessante publicada há duas semanas.

A história é a seguinte: você já deve ter lido ou ouvido por aí que os tablets são o futuro da computação e que todo o resto se tornou obsoleto. O que Naughton defende é que, na prática, o furo é mais embaixo.

Segundo ele, essa idéia é fantasiosa porque até agora a explosão de vendas de tablets tem sido um fenômeno do usuário indidvidual e existe todo um mercado (nada desprezível) de milhões de computadores corporativos que resolvem muito bem as tarefas dos seus escritórios.

Mudar em bloco para tablets, em muitos casos, seria uma despesa gigantesca pois isso mexeria em infraestruturas de TI já estabelecidas. Quem trabalha em uma empresa de médio ou grande porte sabe como é a corrida diária por manter os custos de operação baixos e o impacto de uma mudança num sistema inteiro.

Outro ponto levantado pelo colunista inglês é que mesmo o melhor tablet do mercado não é capaz de desempenhar tarefas complexas, que exijam grande capacidade de processamento e armazenamento. Mais do que isso, as interfaces e o modelo de interação por toque não se prestam a todo tipo de trabalho e a todo perfil de profissional.

No fundo, a questão é a seguinte: as pessoas adoram uma notícia apocalíptica e o mundo da tecnologia é fértil em viradas históricas. Mas pra desespero de quem gosta de uma novela, é bem pouco provável que tablet vá matar o PC.

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Godzilla is Biotech

Segundo uma notícia do PSFK, pesquisadores israelenses estão desenvolvendo semicondutores com proteínas encontradas no corpo humano, mais especificamente no sangue, no leite e nos mucos. Os semicondutores são a base de funcionamento de diversas tecnologias e esse tipo de pesquisa mostra que seria possível criar dispositivos digitais com propriedades orgânicas. Exercitando um pouco a imaginação poderíamos falar de telas, celulares ou tablets biodegradáveis, o que seria um grande avanço em termos de sustentabilidade e funcionalidade.

Mas a grande questão dessa noticia é o caráter simbólico dela. Até agora, tudo que a gente vem ouvindo falar sobre a interação entre seres humanos e máquinas é que as máquinas podem melhorar os humanos. Nesse caso parecer ser o contrário: são as proteínas humanas que permitiriam às máquinas funcionarem melhor. Virou o jogo?

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Variedade humana

A GSMA, uma associação global de empresas da área da mobilidade, prevê que até 2020 vão existir cerca de três celulares por pessoa no mundo. Esse número por si só já é impressionante mas ele pode ficar ainda mais interessante se a gente pensar em todas as conexões que esses aparelhos vão promover.

Pensa bem: não estamos falando só de 20 bilhões de aparelhos, mas de zilhões e zilhões de discussões pessoais, segredos entre casais, negociações comerciais, fotos comprometedoras, jogos viciantes, mensagens de texto novelescas, perfis rocambolescos em redes sociais, mensagens de voz cheias de malícia, enfim, todo um caldo humano que vai ser potencializado com multiplicação do acesso às tecnologias móveis.

O impacto que esse crescimento vai ter na economia, na política, na diversão e na educação serão imensos. Mas o impacto na cultura e no nosso dia-a-dia mais ordinário é muito mais significativo e curioso.

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Imagem: daqui.

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Digital Gotham

 

À distância não tem como saber com certeza, mas se a gente for pelas notícias e pela repercussão que tem pipocado na internet, Nova Iorque vem se firmando como o grande exemplo de integração entre governo municipal e cultura digital. Meu parceiro André Azeredo está sempre me alimentando com manchetes sobre isso e esses dias ele me passou o “Road Map for The Digital City“, o documento que oficializa a estratégia da prefeitura da cidade pra desdobrar a participação digital dos cidadãos. Vale dar uma olhada porque, na verdade, eu diria que ele serve como modelo pra estratégia digital também em casos não-governamentais.

O plano é composto por quatro eixos: promover a indústria da tecnologia, promover o engajamento dos cidadãos, facilitar esse engajamento com transparência digital e, claro, facilitar o acesso à internet. Geralmente quando se fala em inclusão digital, as pessoas lembram só desse último item, mas é fundamental para o crescimento de uma cidade (ou de uma região) que esses quatro eixos cresçam integrados. O acesso à internet com redes de boa qualidade, mais baratas ou gratuitas é básico. A partir disso, é preciso construir uma estrutura política, cultural e econômica que dê sentido à existência da rede.

Uma rede sem pessoas, sem cultura e sem economia é só uma estrutura.

Em geral, as pessoas tratam por si só de gerar uma cultura. Já no aspecto economia, quase sempre é preciso algum tipo de diretriz oficial pras coisas andarem. Senão no sentido de investimentos, ao menos no sentido de SAIR DA FRENTE. Desse ponto de vista, o grande salto da cultura digital vai ser quando governos e empresas retirarem esse assunto da rubrica da tecnologia e o migrarem para o setor da economia, da educação, da indústria ou da infra-estrutura.

Mesmo a proposta da Prefeitura de Nova Iorque para isso, por mais avançada que seja, soa como uma etapa a ser superada. Uma das fatias da pizza ali em cima diz “Industry: a digital vibrant sector”. Não há dúvida de que hoje negócios digitais podem ser aglomerados em uma indústria: empresas de software, de hardware, de mobilidade, de processamento e armazenamento, de games, etc. Mas empresas como Nike e Ford, que não nasceram ligadas à tecnologia digital, vem investindo cada vez mais em inovações nessa área como o coração dos seus produtos e não só como penduricalhos pra agradar as pessoas.

Ao colocar a tecnologia no centro de indústrias tradicionais como calçados ou automóveis, essas marcas estão criando uma nova forma de enxergar certos setores. O que vai interessar daqui pra frente é a conectividade dos produtos e os ambientes digitais nos quais eles estão inseridos e não só os produtos isolados em si. Logo, é bem provável que muito e breve toda empresa se torne uma empresa de tecnologia.

Quando isso acontecer, a pizza lá de cima já datou. Mas pelo grau de esperteza dos novaiorquinos, é provável que eles já estejam com o forno pré-aquecido e uma nova receita pronta pra ser preparada.

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War on… general purpose computers

Há muitos anos o escritor e ativista digital Cory Doctorow vem defendendo o livre trânsito de conteúdos e a extinção dos artifícios que impedem as cópias digitais. No vídeo acima, ele abriu oficialmente uma frente de batalha mais profunda e radical: a necessidade de manter os nossos APARELHOS também livres de proteções que nos impeçam de executar uma determinada tarefa.

Na área de tecnologia isso se chama de “computadores de propósito geral”, máquinas que podem executar qualquer tarefa dependendo da forma como elas são configuradas. O PC que a gente usa no dia-a-dia pode ser classificado nessa casinha. Você (ou algum amigo entendido) pode pegar seu computador e remexer em toda a configuração pra que ele execute melhor um tipo (games online) ou outro (editar vídeos) de tarefa. Segundo Doctorow, não interessa à indústria tamanha flexibilidade e o futuro se encaminha pra dispositivos que vem com extras (físcos ou digitais) que impedem o usuário de fazer essas modificações.

O colunista do site Torrent Freak, Rick Falkvinge, também entrou também na briga. Ele compara a liberdade de reconfigurar uma máquina que você comprou com a liberdade de você se expressar e dizer o que pensa. Parece exagero? Assista a primeira meia hora da palestra do Cory Doctorow (depois vem perguntas da platéia) e depois voltamos a conversar.

Ah: se você não quiser ASSISTIR, pode LER a transcrição.

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Update: o Link já tinha publicado a transcrição em bom português.

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No túnel do tempo

Uma rápida anotação: a internet + o Viva (aquele canal vintage da Globo na TV por assinatura) estão mexendo com o fluxo do tempo alternativo que a Globo havia criado nas tardes dos dias úteis. Relembrando: até bem pouco tempo atrás, a faixa de horário que ficava entre o Video Show e o Malhação (antes, a novela das 18h) era ocupada por uma espécie de resgate temporal constante. Não apenas o Vale a Pena Ver de Novo regredia o tempo em alguns anos como a Sessão da Tarde mantinha em evidência obras de, no mínimo, meia década antes. Isso mantinha o passado recente na órbita do presente de forma incrivelmente influente.

Agora o monopólio do delay não é mais da Globo: faz parte da própria cultura digital resgatar continuamente o passado – tanto o passado distante como o recente. O Viva e o Vale a Pena Ver de Novo são o YouTube sem esforço de digitar o que se quer no campo “busca”. A Sessão da Tarde também: o passado recente à disposição em horário combinado e revisitado com o mínimo esforço.

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Uma nota de rodapé sobre isso: há muitos anos, antes da real popularização da internet, a agência que eu trabalhava fez uma pesquisa pra levantar celebridades pro comercial de uma marca. A maior parte das atrizes americanas que apareciam na pesquisa não batiam com as capas de revistas que cobriam Hollywood naquela época. A preferência do público estava claramente ultrapassada. A explicação era óbvia: a maior parte dos brasileiros matinha contato com as atrizes de Hollywood por meio da Sessão da Tarde, Tela Quente e o Temperatura Máxima, cujo delay de lançamentos não afetava de forma alguma sua influência sobre a cultura pop.

Agora, claro, isso tudo está muito mais bagunçado.

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Drone Journalism

Eu venho comentando desde o ano passado no Minimalismo sobre a onda dos drones, que são esses pequenos veículos aéreos não tripulados, já utilizados com uma certa frequência por alguns exércitos em guerras e começando também a serem usados por forças policiais.

De olho nisso, a Universidade de Nebraska-Lincoln criou há poucos meses um laboratório de Drone Journalism voltado a investigar as aplicações do uso de drones em coberturas jornalísticas. O papel do laboratório não é simplesmente pesquisar tecnologias, porque essa questão não é tão complexa: os drones estão ficando mais baratos e as câmeras de alta definição cada vez mais leves. A grande discussão diz respeito às questões éticas que essa nova ferramenta certamente vai levantar não só no uso pelas polícias, mas também por empresas privadas. Inclusive da área de comunicação de massa.

Uma empresa de comunicação pode usar drones em reportagens investigativas em áreas particulares? E firmas de segurança privada podem fazer sobrevôos em áreas públicas? Dá uma passada no Tumblr Drone Journalism pra acompanhar algumas dessas discussões. O site DroneJournalism.org é outra fonte interessante.

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A reinvenção da matemática

A cada novidade que a cultura digital traz pras nossas vidas vem junto uma conta nova pra pagar. Hoje, pelo menos metade dos brasileiros parece ter colocado a conta da internet no mesmo patamar de importância que a conta de água, luz e telefone, e algumas pessoas inclusive tem conta de internet e não tem conta fixa de telefone.

O orçamento doméstico do novos tempos inclui uma série de cálculos e cuidados que não existiam há dez anos. Por exemplo, 80% dos celulares no Brasil são pré-pagos e exigiram de todo um segmento da população uma habilidade pra lidar com toda essa função dos créditos e também com os diferentes chips combinados pra aproveitar melhor as ofertas de cada operadora. Computadores, celulares, câmeras digitais, consoles de games, tudo que era considerado supérfluo há bem pouco tempo começa a se tornar item de necessidade básica, parte da estrutura familiar de educação, entretenimento e empregabilidade. Mesmo a população de baixa renda está integrada com uma parte dessa história e tudo isso demanda uma reorganização prática e mental das contas em casa.

Em resumo, a alfabetização digital passa por uma nova matemática doméstica – que a maior parte dos brasileiros não está aprendendo e sim inventando.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Redes Sociais

Segundo um relatório recente da empresa de monitoramento e inteligência digital Comscore (esse acima), usar redes sociais é a atividade online mais popular do mundo. 80% das pessoas que acessam a internet no planeta Terra estão em redes sociais, um crescimento de 174% nos últimos 4 anos. Um terço desses usuários está na Ásia, mas é na América Latina que as pessoas passam mais tempo em sites como Orkut, Facebook e Twitter.
Um fenômeno interessante (porém lógico) é o crescimento acelerado dos usuários com mais de 55 anos. Aos poucos, as redes sociais estão deixando de ser um privilégio de jovens de classe média alta de países ricos pra se tornar de fato uma rede global de comunicação. Quem está chegando na internet rapidinho entra numa rede social porque, claro: não faz o menor sentido estar conectado numa rede de computadores e não estar conectado numa rede de pessoas.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Hapiness is a warm cam

Não sei se chamou a atenção de vocês, mas no domingo passado, as imagens mais interessantes do Fantástico sobre o desabamento do edifício Liberdade no Rio foram feitas pelo telefone de um morador de rua. Caso você não tenha visto nada de curioso aí, eu vou repetir: as imagens mais interessantes de uma reportagem da maior emissora de televisão do país, dona de um poder sem precedentes na história, foram produzidas por um mo-ra-dor-de-ru-a. Ok, eu sei que esse comentário pode parecer estranho vindo de alguém que diz acompanhar o cenário da cultura digital, mas mesmo que a tecnologia esteja cada vez mais popularizada por conta da “ascenção da classe C baseada na estabilidade econômica”, é preciso ser muito blasé pra não achar esse tipo de situação digna de negrito.

Na verdade, acho fundamental sublinhar casos assim pra que a gente não perca de perspectiva o tamanho da mudança que estamos vivendo. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso já percebeu o quanto os vídeo amadores são fundamentais na composição dos notíciários. E, mais do que isso, como eles têm sido peças-chave na construção do imaginário visual de momentos históricos – de um jeito que não aconteceria se dependêssemos apenas da mídia estabelecida. Não é nem uma questão ideológica, é uma questão prática e logística: um grande veículo, por mais poderoso que seja, não pode estar em tantos lugares quanto o povo, não tem nem mesmo legitimidade pra tanto em alguns casos. Exemplo recente: as imagens sobre a ação policial no Pinheirinho que correram a rede não vieram das câmeras da imprensa pois os repórteres tiveram acesso restrito. Já quem estava tomando porrada podia gravar “à vontade”.

Dentro disso, me chamou a atenção uma reportagem da The Economist contando sobre a preocupação de algumas instituições de ativismo social em ensinar às pessoas noções básicas de gravação e tecnologia para que os vídeos amadores sejam mais eficientes e mais seguros. Por exemplo, no vídeo, um ativista da Witness conta que capturar um acontecimento inteiro com closes, mostrando uma sequência de eventos, pode ser bem mais eficaz do que panorâmicas tremidas e desconexas. Por outro lado, planos fechados podem induzir a produção de provas contra participantes de protestos, problema abordado por um desenvolvedor do The Guardian Project que criou um aplicativo para borrar o rosto de quem aparece inadvertidamente em imagens de mobilizações.

Ou seja: usar ferramentas digitais pra deixar o mundo melhor exige também que a gente aprenda a usar melhor as ferramentas digitais.

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Falando em câmera…

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Fórum Social & Conexões Globais – fechando a tampa

 

Então: acabei não indo no último dia do Conexões Globais, que eu estava acompanhando presencialmente (leia aqui e aqui). Mas ainda peguei alguns debates via uébi e os assuntos permaneceram comigo no fim de semana. Vamos, então, a algumas considerações finais.

Não sou exatamente um conoisseur de ativismo social, mas ficou bastante clara a crise no ENTENDIMENTO do desdobramento dos encontros. Não foram poucas as pessoas que ouvi e artigos que li comentando sobre uma suposta rarefação dos movimentos e dos eventos ligados ao Fórum Social Temático: tudo muito espalhado, sem uma centralização, sem  um leque de propostas finais consolidado. Particularmente, acho muito estranho isso ser considerado um problema quando me parece que é justamente essa horizontalização uma nova forma de funcionamento.

De minha parte, ainda que eu não seja diretamente atuante politicamente, não senti FALTA ALGUMA de um final consolidado. A mim, o que interessou, foi justamente passar pela experiência de assistir aos debates (declinei o convite para um porque queria justamente OUVIR), encontrar pessoas, respirar um ar diferente. Ninguém sai igual depois de eventos como esses e essa modificação é, por si, um produto válido. Saí dos poucos encontros que fui certo de que, sim, é preciso articulação formal, mas que a troca de experiências e o aprendizado que você leva são também vetores políticos importantíssimos. No meu caso, trouxe o que absorvi para o blog, para o meu funcionamento familiar e profissional e para algumas conversas particulares com pessoas que estão inseridas em processos sociais ativos.

Talvez uma boa forma de representar isso seja o comentário que ouvi uma vez de uma monja zen a respeito da dinâmica da comunidade que ela coordena. Era algo assim: uma fogueira precisa de vários elementos pra funcionar. Precisa da lenha, que vai queimar, que seriam as pessoas que se entregam de corpo e alma à “causa”. Mas uma fogueira precisa também de pessoas que fiquem ao redor alimentando o fogo, jogando gravetos, recebendo o calor. E eu adicionaria mais um elemento: tem também as histórias que as pessoas contam ao redor da fogueira. Elas também são combustível, elas também são parte do que faz a fogueira não morrer.

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Imagem: roubei do post do Matias.

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Don’t believe the hype

Comprar um aparelho digital é hoje uma das tarefas mais ingratas que existem. Se você não tem um amigo ou alguém na família que seja especialista vai ter que confiar em vendedores, na propaganda do fabricante ou em reportagens da mídia. Mas nem sempre essas fontes dão a dica mais essencial, que é a seguinte: a melhor saída é sempre escolher o aparelho de acordo com a sua necessidade e não pelo que ele ou o mercado oferecem.

Muitas vezes acabamos comprando aparelhos cheios de penduricalhos só porque é o padrão do momento. Mas, diferente da retórica anti-consumista, isso não acontece por sermos todos zumbis consumistas e sim porque, no geral, não sabemos bem o que queremos e o que precisamos diante da oferta acelerada e crescente de tecnologia. Uma forma de se relacionar com isso é olhar com atenção para a situação, reduzindo a velocidade entre o impulso e a ação, e reunindo o máximo de informações antes de efetivar a compra. Pra facilitar, vale fazer uma lista escrita em papel com itens que se pretende usar, cruzar com as reais necessidades do cotidiano e definir a compra a partir disso.


Repito: o que você precisa nem sempre corresponde ao que o mercado está oferecendo como sendo o melhor. A melhor TV com o melhor home-theather é pra quem aprecia qualidade de som e imagem, não pra quem só gosta de se jogar no sofá pra ver uma tvzinha. O computador mais rápido e mais moderno é pra quem gosta de jogos complexos ou pretende produzir conteúdo, não pra quem só quer acessar emails e redes sociais. O celular mais avançado é pra quem vive de conexão constante. A câmera mais poderosa é pra quem tem aspirações fotográficas, ainda que amadoras. E assim por diante.

Outra coisa: nem sempre você precisa do modelo mais moderno. Existem versões antigas de câmeras, mp3 players ou de computadores que podem dar conta da sua necessidade. Eu vivi anos com um Creative Zen Mini de 5GB (acima) que pra mim serviu melhor do que os iPods da época. Hoje, abri mão de ter mp3 player, uma vez que meu celular pode armazenar e tocar música. Nesse caso, pra que a sobreposição? Exemplos de sobreposição hoje podem ser encontrado em todas as áreas.

Em resumo, a história é bastante simples: tomar nas próprias mãos a decisão sobre o que se precisa ou não. Pode ser um pouco mais complicado, exigir um pouco mais de pesquisa. Mas vale a pena. Resistir ao hype fácil da cultura digital é ecológico e econômico.

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Leitura Complementar

In Praise of Crap Technology – artigo no Boing Boing sobre o valor de tecnologia não tão de ponta.

Preparado para Morrer – artigo sobre obsolescência programada no Estadão.

The Unconsumption Project – outra do Boing Boing, dessa vez sobre uma marca sem dono pra revitalizar antigos objetos.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: logo do unconsumption.

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Pura poesia

“Na neblina da noite em Odessa, Ucrânia, quando um outdoor digital deu pau e mostrou uma caixa de erro flutuando no céu escuro…”

Vi no The New Aesthetic via @danielgalera.

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Google em botecos: um estrago

O Google sem dúvida é um das invenções mais incríveis e úteis das últimas décadas. Mas ele também tem seu lado estraga-prazeres. Principalmente quando você junta o Google com o acesso à internet pelo celular e uma mesa de bar. Isso porque geralmente uma boa parte do tempo que se passa com os amigos no boteco é investido em discussões sem sentido e sem objetivo. E, pra jogar conversa fora, é fundamental que a mesa seja ignorante em determinados assuntos.

Com o acesso ao Google no celular, discussões que ocupariam a noite inteira de especulação criativas podem acabar em poucos minutos quando alguém acha uma resposta lógica e exata na internet. Pior ainda: além de acabar com a criatividade na mesa, ainda tem gente que fica com a ilusão de que sabe alguma coisa só porque achou um site no Google.

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Texto de um dos programentes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: daqui.

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Galgando a hierarquia

O comercial acima (que eu peguei no Matias) é mais um exemplo daquilo que conversamos aqui e aqui a respeito da saga do Harry Potter (também pesquei uma evidência aqui). Um comercial desses sendo criado, aprovado e veiculado é fruto do envelhecimento de toda uma geração, que agora tem alguns representantes em posição de poder (no mínimo, aqui, no marketing da indústria automobilística e, claro, em agências de propaganda). No futuro, Star Wars certamente será esquecido e conviveremos com esquetes desse tipo relacionados a novos personagens, sendo Harry Potter o mais provável e em seguida, quem sabe?

Ah: não sei se você tem notado, mas Senhor dos Anéis também teve um poder de gerar memes no mainstream. Agora me deu preguiça de procurar no YouTube, mas tenho visto o bordão “my precious” em diversos seriados, inclusive alguns programas de TV aberta…

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Lembrando: não é a primeira vez que a VW fuça no baú de Star Wars. No ano passado rolou o premiado e comentado comercial The Force também.

Nerd power…

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Relação

A essa altura do campeonato, já não é mais novidade pra ninguém esse papo do quanto nós estamos sendo inundados de informação hoje em dia. Na verdade, e felizmente, já estamos chegando no ponto em que muitas vozes estão propondo reflexões e comportamentos alternativos. O problema é que a questão é quase sempre tratada do ponto de vista da nossa relação com outras pessoas.

Por exemplo, a crítica que se faz contra quem fica muito tempo grudado no celular ou no computador geralmente vem acompanhada da sugestão que a pessoa saia da frente da tela e vá se encontrar com outras cara a cara. Mas antes disso, a pessoa talvez devesse se preocupar com sua relação consigo mesma.

Ficar grudado em qualquer tela nos rouba de nós mesmos, nos desacostumamos a ficar conosco. Antes de aprender a abrir mão da mediação de uma tela com o mundo, quem fica muito tempo conectado precisa aprender a abrir mão da mediação de uma tela consigo mesmo.

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Texto de um dos programentes Minimalismo.

Imagem: MarciaMonica Cook, daqui.

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Coletivos

Eu fecho minha blogagem esse ano com um post muito especial. A foto acima, que talvez alguns já devem ter visto no Feice, registra o primeiro encontro físico dos quatro fundadores d’Oesquema, o teto que me abriga. Isso aconteceu em circunstâncias tão curiosas quanto obviamente simbólicas: nos reunimos para o lançamento da série de micro-documentários Diálogos Coletivos produzida generosamente pela Colméia. Nós somos objeto de um deles e os outros dois falam sobre a revista Soma (da qual também sou colaborador desde o primeiro número) e do Fora do Eixo (do qual meu contato vem de ter tocado em um ou dois festivais com os Walverdes).

Diz muito o fato de termos nos reunido pela primeira vez devido a forças alheias a nós, devido a um convite externo e não por conta de alguma “reunião de planejamento” ou coisa do tipo. Diz não apenas sobre o jeito como Oesquema surgiu e funciona, mas também sobre como as coisas podem funcionar hoje em dia. Tu vê só: quatro caras que gostam de absorver, digerir e produzir cultura conseguem gerar impacto, audiência e uma certa relevância mesmo sem a construção de uma rede formal (como o FdE) ou a constituição de uma estrutura microempresarial de viés fortemente cultural (como é a Soma/Kultur Estúdio).

Desse ponto de vista, o coletivo mais interessante do projeto da Colméia (já que nenhum dos protagonistas se considera representado pela palavra coletivo, outra discussão interessante) é justamente o formado pelos três vídeos. Ainda que não cubram todas, eles pegam pontos fundamentais das imensas possibilidades de empreender culturalmente no meio de tantas mudanças estruturais que o mundo está vivendo. O presente, como diz o Pablo Capilé, está grávido. Eu acrescento: de multigêmeos (existe isso?) que não são univitelinos, que vão crescer com personalidades e características físicas bastante diversas. Não é prudente deixar que vistam as crianças todas com a mesma roupa.

Feliz Ano Novo pra todos os indivíduos, para todos os coletivos e para imenso o coletivo formado pelos coletivos – formais ou não.

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iPad como moldura

Acontece periodicamente, com todas as novidades tecnológicas: elas logo viram molduras de cartazes e anúncios que precisam de um “toque de modernidade”.  Você já deve ter visto por aí em revistas. Já aconteceu com celulares e monitores de computador. Agora é a vez do iPad.

Melhor: essa foto eu tirei no (único) posto de gasolina de São Vicente do Sul, cidade de pouco mais de 8 mil habitantes no interiorzão do Rio Grande do Sul.

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