João nasceu de uma intenção. Seus pais não chegaram a se conhecer, se amar, se tocar, que dirá fazer sexo. Ainda assim, em 1979 brotou no ar a possibilidade que os dois se cruzassem e dali nasceu João.
Jairo, o pai de João, tocava escaleta na banda do colégio. Mariana, mãe de João, era baliza. Os dois viajariam juntos para um torneio de bandas marciais em Três Cachoeiras, mas
Mariana teve cachumba e ficou em casa, sofrendo muito, lendo um pouco e descobrindo o tarô. Jairo, por sua vez, passou a viagem toda de ônibus desenhando homens com capa e espada ao lado da guria que anos depois seria sua esposa e com quem teria três filhos. Nenhum deles era João.
Mariana não teria filhos. Dedicaria parte de sua vida ao tarô e outra à mãe, doente crônica desde sempre e para sempre. Jairo, mesmo sem conhecer Mariana, vivia irritado com a excessiva dedicação dela à mãe e a certa altura declarou não ter condições de sustentar a relação. Então partiu, deixando Mariana, a mãe e a possibilidade de João nascer em suspenso.
Mariana e Jairo não se conheceram, não se casaram, não trepararam, não se amaram, mas se divorciaram. João, ora, nasceu de uma possibilidade. Apareceu com oito anos de idade, nu, envolto em uma cortina de fumaça no campo do terreno baldio ao lado do colégio e foi adotado por uma freira. É considerado, até hoje, o primero filho dos chamados divórcios quânticos, as rupturas de meras possibilidades amorosas, onda endêmica nos anos 90 e que até hoje persiste sem explicação científica.
Pergunto a João como ele se sente.
“Como qualquer pessoa normal.”
Pergunto de seus planos para a vida.
“Viver e construir meu caminho.”
Peço que seja mais específico.
“Me tornar bom em escaleta e no tarô.”
Comento que eram as habilidades de seus pais quânticos.
“Coincidência.”
João não é amargo. É ingênuo. Peço que toque uma canção na escaleta.
“Neil Young? Ou Roberto Carlos?”
Esse é João. O primeiro filho dos divórcios quânticos da primeira onda. Diga adeus para nossa platéia, João.
“Fuen.”
Tire a escaleta da boca, João. Seus pais não lhe ensinaram bons modos?
***
E assim termina a saga de João, que contei esse ano na MaisSoma.
Epílogo saiu na Mais Soma #14. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.
A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos. A quarta é A Bandeira Laranja.
A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.
“Arô?”
“Quem fala?”
“Sô eu, mané.”
“Ô, Jamil! Fala, mano. Como tá aí no sul?”
“Firmeza. Na buena. E tu?”
“Tudo certo. Que que manda?”
“Cara, só liguei pra te contar um lance. Tu já viu o vídeo do Lula dançando em cima dum prédio?”
“Lula dançando? Não, não… do que você tá falando?”
“Cara, é muito engraçado! Tu precisa ver isso! O Ramiro, de Recife, me mandou pelo Correio um DVD com um monte de vídeos caseiros. Um bem engraçado, uma montagem com o Lula dançando Daft Punk. Tipo… a trilha é o Daft Punk. Aí tem um cara dançando vestido de terno e gravata. Mas, tipo… dançando bem. Dançando bem mesmo. Só que os caras colocaram…. tipo… trocaram a cabeça do Lula, quer dizer… a cabeça do cara… e botaram o rosto do Lula no lugar.”
“Ahn…. sim… parece…”
“Sei que parece tosco, mas é super bem feito. Cara, é muito engraçado. Tu precisa ver isso. Ele fica dançando… mas dançando legal, mais do que o Lula de verdade dançaria. E é tipo um heliporto, tem uma paisagem massa atrás. Um troço muito louco. Bem legal. Bah, eu precisava te mostrar isso. Não vai passar na TV.”
“Mano… faz o seguinte. Me faz uma cópia disso e me manda por registrada. Demora, mas pelo menos chega aqui.”
“Beleza. Vou fazer o seguinte. Vou te mandar umas seis cópias, aí tu pode dar aí pros teus amigos.”
“Posso chamar o pessoal aqui em casa pra uma cerveja e daí mostro pra todo mundo.”
“Mas tem aqueles teus parceiro de Boa Vista e o carinha aquele de Cuiabá…”
“Tá, tá certo. Me manda uns oito DVDs que eu repasso pra eles, mando daqui.”
“Beleza. Depois me manda uma carta ou me liga pra me dizer o que tu achou.”
“Combinado. Abraço.”
“Outro.”
***
Imagem: Spudnik.
“É preciso ir fundo.”
“Fundo até onde?”
“Se há onde, ainda não é fundo o suficiente.”
João acordou com esse sonho. As costas duras, o pescoço duro, as opções engessadas. Subiu até o terraço e agitou a bandeira. Ele tem uma bandeira. Um enorme estandarte laranja. Sempre que se pega deprimido, não toma comprimidos, não bebe, não reclama, não chora, não fuma maconha. Sobe em cima do prédio e agita uma bandeira laranja. Uma vez quase caiu, estava ventando e chovendo. Se desequilibrou e foi salvo por uns cabos da NET.
Faz treze dias desde o impacto e a cada noite ele acorda com uma conversa entre pessoas conhecidas sem saber se aquilo foi dito ou não. Antes de despertar totalmente, já está no terraço com a bandeira laranja. Esses dias um cara desceu flutuando do norte e ficou observando a cena: João brandindo o mastro pra lá e pra cá, fazendo tremular o enorme pedaço de tecido com o céu escurecido como pano de fundo.
“Por que você faz isso?”
“É meu antidepressivo.”
“Como assim?”
“Se eu acordo mal, venho aqui pra cima bandeirear e melhoro. Consigo dormir.”
“Como assim acorda mal?”
“Acordo mal. Me sentindo vazio, sem respostas.”
“Sem respostas pra quê?”
“Pra qualquer pergunta.
“Não entendo.”
“Você não precisa entender. Você vem voando do norte. Não tem que entender nada.”
“Agora entendi menos ainda.”
“Toma.”
Entregou a bandeira ao ser. E sentou na caixa d’água.
“E agora?”
“Agora balança de um lado pro outro.”
O cara balançou.
“É isso?”
“É.”
Devolveu a bandeira a João, que voltou a bandeirear enquanto o outro observava sentado.
“Interessante.”
“Gostou?”
“É bom.”
“Pois é. É o que funciona pra mim.”
“Você faz por isso?”
“Por isso o quê?”
“Por essa sensação?”
“É.”
“Só isso?”
“Me basta.”
“Não parece.”
“É? Mas me basta.”
“Empresta de novo.”
O homem que veio do céu pegou a bandeira de João, quebrou o mastro no joelho e jogou tudo lá pra baixo.
“Por que você fez isso?”
“É preciso ir fundo.”
“Fundo até onde?”
“Se há onde, ainda não é fundo o suficiente.”
“Me diz: quem é você pra quebrar minha bandeira?”
Mas o cara já tinha alçado vôo, flutuando com calma de volta para o norte.
“Desgraçado!”
***
A Bandeira Laranja saiu na Mais Soma #13. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.
Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos.
A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.
Quando João estava alinhado com o cosmos, haviam lhe dito, tudo funcionava. Se ele não tinha dinheiro, aparecia. Ou desaparecia a preocupação que o perrengue gerava. Por isso, João pegou uns reais e foi até a casa de um amigo comprar o DVD do Cosmos que ele tinha. O pai do cara gravou todos os episódios. A voz do Sérgio Chapelein retumbava nas paredes de ótima acústica das lembranças de infância de João. Ele precisava daquilo.
“Quanto você quer no DVD?”
“Não vendo. Tá louco, João.”
“Então me faz uma cópia.”
“Não posso. Prometi ao meu pai no leito de morte.”
Quem viu muito Cosmos fala coisas como “no leito de morte”.
“Deixa de ser mané. Me faz uma cópia.”
“Não posso, já te disse. Qualé, João.”
“Qualé, nada. Não te custa. Te dou uma cimitarra.”
“Cimitarra o cacete. Fiz uma promessa. Promessa é dívida.”
Já “Promessa é dívida.” não tinha nada a ver com excesso de Cosmos.
“Tá, meu. Sujou na minha. Era isso, tchau.”
“Ô, João, não fica assim. Volta aqui. Deixa eu ver a cimitarra.”
“Deixa quieto.”
E João se foi. Pegou o ônibus circular e sem querer acompanhou a órbita de um satélite na trecosfera, muitos quilômetros acima da sua cabeça. O centro do satélite coincidia com o seu chacra coronário, aquele que fica no topo do crânio. Mas só por sete paradas. Depois disso, João desceu na frente do shopping e o satélite seguiu seu curso. Chinês, o satélite.
Os satélites chineses foram criados no início da década para controlar o tempo. Dezesseis foram lançados e nenhum deles cumpriu direito sua função. Pelo menos era o que diziam os jornais ocidentais. As autoridades de olhos puxados e pele levemente amarelada contavam outra versão. Diziam que os aparelhos funcionavam sim, pô, só que o pensamento ocidental não entendia a lógica deles. Um dia, um satélite chinês caiu sobre setenta vacas no Quênia. Fica difícil entender a lógica oriental desse jeito.
Mas João sacava isso tudo quando estava alinhado com o cosmos. Por isso, queria tanto o DVD.
“Ah, que se desfaça aquele DVD…”
Contornou o shopping e se embrenhou no mato. Lá, em certo ponto, o chacra coronário dele e o centro do satélite voltaram a se encontrar por breves instantes. Nesse ponto da história o bosque cai, derramando a paisagem em um barranco íngreme. Além, só uma cerca, vaquinhas, coxilhas e o sol se pondo. João sentou na ponta do barranco e ficou olhando a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo.
Respirou aquilo tudo, trouxe junto com o ar pra dentro dele. E veio junto a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo, entrando pelo nariz, percorrendo a traquéia, chegando aos pulmões, enolvendo os brônquios e inebriando o cérebro. João vangloriou-se, sentiu-se vivo e feliz por ter a oportunidade de sentar uns minutos ali e apenas estar calmo daquele jeito. Daí expirou e, para sua surpresa, a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo não foram embora de dentro dele. Cabreiro, inspirou novamente e, dessa vez, pareceu vir apenas ar. A cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo continuaram lá, adiante. Mas a sensação boa, cerquícea, vaquícea, coxilhícea e solstícia permanecia dentro dele.
Na falta de algo mais elaborado, só conseguia pensar em palavrões de satisfação. Então levantou, largou a cerca, as vaquinhas, as coxilhas e o sol se pondo e foi viver sua vida. Uma vaquinha mugiu ao
longe. A cimitarra ficou na grama, abandonada.
***
Cosmos saiu na Mais Soma #12. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.
Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos.
A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.
A Zero Hora cometeu um de seus gauchismos mais interessantes no último sábado. Três páginas do Segundo Caderno foram dedicadas a imaginar como seria um filme do Woody Allen se ele viesse filmar aqui. É sabido que ultimamente o diretor novaiorquino vem produzindo em cidades como Londres ou Barcelona graças ao incentivo de produtores ou governos desses locais. Por isso, o diretor, roteirista e ex-Replicantes Carlos Gerbase, a escritora Cinthia Moscovitch e a escritora Claudia Tajes foram convidados pelo nosso querido jornal local a dar sua versão portoalegrense do fato. É só clicar nos nomes que a internet te leva pros respectivos textos.
Eu, de minha parte, passei o fim de semana pensando, então, em como seria o meu filme do Woody Allen em Porto Alegre. Seria assim…
Noah Flemming é um escritor novaiorquino em fim de carreira. Seus livros raivosos e libertários foram quitutes valorizados nos anos 70 e até a metade dos anos 80. Mas, a partir daí, tudo que ele produziu se tornou irrelevante. Diferente de seu público habitual, Flemming não amadureceu e manteve a mesma verve adolescente até os 60 anos. Por mais 20 anos não houve problema, pois ele nunca deu grande peso à bajulação do público e os direitos autorais de seus livros e das adaptações (teatro, cinema, TV) sustentaram sua rotina simples (acordar, escrever, passear, beber, jantar fora, assistir TV e dormir com muitas mulheres).
Mas quando os contratos começaram a expirar, o escritor se viu com uma série de dívidas incrementadas com as pensões de suas três ex-mulheres. A saída foi aceitar todo e qualquer bico que surgisse, fosse de escritor ou não. Uma das fontes de remuneração mais consistentes de Flemming era a doação sistemática de esperma a um banco de um laboratório que ficava feliz em pagar um bônus extra pelos espermatozóides de um intelectual renomado ainda que semi-esquecido. Dessa forma, a vida seguia com algumas dificuldades mas sem grandes sobressaltos.
Problema mesmo foi quando ele descobriu em um médico que uma série de ataques depressivos que vinha lhe acometendo tinham uma origem clara: seus orgasmos. Cada vez que atingia o orgasmo, fosse na cama com uma de suas frequentes companhias, fosse na doação de esperma, Flemming sofria uma severa depressão aguda que durava exatas 24 horas. Para um homem que vivia psicologicamente e financeiramente de ejaculações, a vida começava a se tornar um pequeno inferno.
Sem poder abrir mão do dinheiro do laboratório e com medo de perder suas companheiras, Flemming passou a viver um dia deprimente atrás do outo enquanto buscava uma solução. Nenhum médico de nenhuma área oficial ou alternativa foi de ajuda. Contrariando toda sua mentalidade cética, a resposta veio em um documentário sobre a Amazônia que passou de madrugada na TV e que mostrava um curandeiro capaz de resolver qualquer problema sexual com a baba de sapo. Descrente porém desesperado, Noah Flemming, intelectual que nunca havia tirado os pés de Manhattan, comprou um pacote turístico (incluindo trechos locais pela VARIG) que o levaria até a floresta amazônica pra resolver o único obstáculo intransponível da sua vida.
Foi uma viagem triste. Primeiro porque Flemming tivera que deixar porções extra de esperma no laboratório para poder bancá-la. Segundo, porque quando chegou em Guarulhos, a VARIG estava às portas de falir. Na confusão, uma atendente trocou por engano sua passagem para Porto Velho por uma para Porto Alegre. Dezoito horas depois de sair do aeroporto Kennedy, Flemming desembarcou em uma cidade fria, úmida e sem nenhum traço de floresta por perto. Que espécie de Brasil era aquele?
Ele não entendeu nada. Foi reclamar no balcão da Varig, mas a companhia praticamente não existia mais. Um atendente compreensivo lhe arrumou um voucher para ele passar uns dias em Porto Alegre até que conseguisse que lhe mandassem pra Porto Velho. Desesperado, sem falar português, pegou um táxi para o Sheraton, no Moinhos de Vento (bairro de classe média alta que flutua entre o agradável e o pretensioso). Se a língua e o destino errado preocupavam Flemming, ao menos algo lhe fazia bem: sem precisar doar esperma e encontrar suas namoradas, ele não precisava ejacular nem atender às ligações de suas ex-mulheres.
À medida em que os dias passavam, enquanto ele esperava uma solução da Varig, ele tinha seus dias mais tranquilos e felizes em um bom tempo. Nos primeiros dias, apenas passeou a pé pelas imediações do hotel, conhecendo belas praças, olhando as lindas mulheres e tomando café enquanto fingia ler jornais em português. Depois, se aventurou pelo Museu Iberê Camargo. No terceiro dia, até aceitou a sugestão da concierge e foi a uma churrascaria, onde pôde experimentar um pouco da selvageria brasileira com aquele monte de carne espetada sendo trazida de forma intensa à mesa. Talvez, pensava, não precisava mesmo de baba de sapo de curandeiro, mas simplesmente um pouco de férias e de excessos latinos.
A tranquilidade foi interrompida por um encontro casual no corredor do hotel. Ao ajudar uma mulher a abrir a porta do seu quarto, Flemming se viu atraído por uma conterrânea. A dra. Amy Fitzpatrick se apresentou como uma cardiologista novaiorquina participando de um trabalho no Instituto do Coração por tempo indeterminado. Estava ficando o primeiro mês no hotel, mas depois iria para um apartamento alugado por uma fundação e ficara feliz de encontrar alguém da sua cidade. À noite, os dois jantaram no Bar do Beto (outra sugestão da concierge), beberam uma cerveja que só tem no Rio Grande do Sul e resolveram caminhar na beira do Parque da Redenção às dez da noite, como gostavam de fazer no Central Park individualmente quando estavam na sua cidade. Quase foram roubados, não fosse a intervenção de um vendedor de cachorro quente que os advertiu minutos antes de serem abordados por assaltantes.
Já no hotel, Flemming resistiu bravamente às insistentes propostas de Amy para que os dois dormissem juntos. Sentindo-se solitária e sendo bastante ativa sexualmente, desde o jantar ela começara a fazer insinuações, mas com medo de cair novamente em depressão, ele se fez de salame e conseguiu escapar por pouco. No entanto, havia se afeiçoado por ela. Na semana seguinte, os dois passaram todo o tempo livre de Amy juntos. Conheceram a Zona Sul de Porto Alegre e visitaram o centro em um fim de semana. Foram ao Theatro São Pedro e comeram no Mercado Público. Pediram bauru por tele-entrega no hotel uma noite e em outra passearem pela Cidade Baixa (os dois tinham isso em comum, adoravam caminhar) e acabaram a noite tomando Polar e comendo xis no Cavanha’s. Nessa noite, bêbado no Cavanha’s, Flemming revelou sua história a Amy. Contou de seu problema e por que vinha resistinto às investidas da amiga, apesar de estar bastante interessado. Chocada, ela comentou com ele que sua pesquisa versava justamente sobre os efeitos do orgasmo no coração. Bêbado, ele acreditou e aceitou se submeter a um exame no Instituto do Coração.
No dia seguinte, tomado por uma ressaca portoalegrense, Flemming correu vinte minutos em uma esteira do Instituto do Coração e quase morreu. Passou o dia no hospital dormindo e no fim da tarde recebeu a notícia de Amy: seu problema havia sido resolvido com o desentupimento voluntário de uma artéria. Ela mostrou rapidamente os exames a ele, que não entendeu nada, mas ficou tão feliz que pulou da cama e a convidou de volta para o hotel, o que ela aceitou prontamente.
Na manhã seguinte, após uma noite de amor, Flemming acordou receoso. Abriu primeiro um olho, depois o outro. Olhou para Amy ao seu lado na cama e depois para o próprio corpo. Abriu uma fresta na janela e viu que o dia estava nublado, cinza. Ainda assim, sentia-se bem. Achou o cinza inspirador e a chuva que se anunciava como um bom sinal. Estava curado.
Antes de acordar, ainda percebeu uma folha dobrada que havia sido empurrada por baixo da porta do quarto. Era um bilhete da recepção, avisando que a companhia aérea havia resolvido a questão de sua passagem e que ele podia partir para Porto Velho no mesmo dia. Olhou para Amy e olhou para a carta em suas mãos.
Corta para dois meses adiante.
Amy e Flemming estão caminhando na beira do Rio Guaíba, olhando o Pôr-do-Sol com o Gazômetro às costas. Crianças brincam ao redor e Flemming está com cara de surpreso olhando para Amy. Fala de forma nervosa:
“Quer dizer que aquele exame era de outra pessoa? Nunca houve nada de errado comigo? Você simulou aquele teste? Os relaxantes musculares, tudo aquilo… você me manipulou? Eu não posso acreditar como caí nessa. Você vê a ironia disso tudo? Eu deixei de ir à Amazônia me consultar com um curandeiro duvidoso pra me colocar nas mãos de uma cientista e você…. você…. Amy… você é incrível…”
Os dois se abraçam com o Pôr-do-Sol às costas e o filme termina.
Lucas achou uma cimitarra entre os presentes de casamento. Veio sem cartão, então nem ele nem a Carla sabiam a origem.
“Deve ter sido um dos seus amigos da TI.”
“Pode ser. É cool.”
Um amigo programador do Lucas era fã de Prince of Pérsia.
“Quem disse que cimitarra é cool? Eu acho brega.”
“Sei lá. Foi só um comentário.”
Nisso, tocou a campainha. João apareceu na porta.
“Sim?”
“Estou procurando uma cimitarra.”
“…”
“Vocês têm uma cimitarra pra dar?”
“Desculpe?”
“Uma cimitarra… uma daquelas espadas assim e assim.” disse João desenhando no ar o tal formato.
“Só um pouquinho.”
Lucas fechou a porta e voltou pra sala.
“Carlinha, tem um cara querendo uma cimitarra aí fora.”
“Ótimo. Vende pra ele a nossa. Eu não quero isso aqui. Daqui a pouco a gente vai ter filho, não quero saber de arma em casa.”
“Nem pra decoração?”
“Você não vai pendurar essa citarra na parede, Lucas?”
“É cimitarra. Seu pai, não vai querer?”
“Lucas, se livra desse negócio. A gente nem sabe quem deu. Deve até dar azar.”
“E se for de um de nossos chefes?”
“Azar, Lucas. Você vai ter medo do seu chefe o resto da vida?”
“Tá bom. Mas o cara aí não tem dinheiro.”
“Então dá pra ele, faz um leasing, qualquer coisa, só se livra disso.”
Lucas pegou a cimitarra e foi até a porta. Abriu e mostrou a peça para a visita.
“Ah.. é perfeita” disse João examinando o fio.
“Pode ficar para você.”
“Obrigado. Muito obrigado.”
“De nada.”
Lucas fechou a porta e João desceu pela escada, com a cimitarra embaixo do braço, embalada em papel de presente amassado. Pegou o ônibus circular e parou em uma papelaria da zona norte.
“Quanto custam os bloquinhos?”
“50 centavos cada.”
“Posso pagar com uma cimitarra?”
“Uma o quê?”
“Isso.”
João desembrulhou a cimitarra no balcão.
“Ai Jesus!”
“Chama o gerente…”
“É assalto?”
“Não. Quero propor uma troca.”
“Ai, eu sabia, é assalto.”
“Não é… chama o gerente…”
“Ai Jesus…”
A vendedora saiu rezando e voltou com o gerente.
“É um assalto?”
“Não, quero propor uma troca.”
“Manda.”
“Essa cimitarra por 600 bloquinhos.”
“Hmmm…”
O gerente calculou mentalmente, coçando o cabelo com gel. Pegou a cimitarra, examinou o fio.
“Certo. Eu fico com ela e pago pelos bloquinhos. Marta, pega 600 bloquinhos no estoque.”
“600? Ai Jesus…”
“Vai, Marta!”
João saiu com os 600 bloquinhos em duas sacolas. Pegou o ônibus de novo e abriu o primeiro pacote de bloquinhos quando lembrou que não tinha caneta. O sol riu da ironia enquanto se punha atrás dos transformadores da empresa pública de energia elétrica. Assunto clássico para ao menos um bloquinho.
***
Essa história saiu na Mais Soma #11. Download da revista inteira em PDF clicando com o botão direito aqui.
Leia a primeira história da caminhada de João aqui.
A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.
João comprou uma escaleta de brinquedo numa loja podre da Voluntários. Pediu pra moça nem embalar e saiu tocando pela rua, com a cabeça baixa e os olhos virados para cima, não queria esbarrar em ninguém. Soprava e tirava melodias amenas, sem pressa nem euforia, desviando dos camelôs que tentavam lhe vender um monte de coisa.
Só o que João precisava era a escaleta e preencher seu coração vazio. Por isso, deixou que a música conduzisse seus passos e entrou em um shopping de fábrica que oferecia ótima acústica. Tocou um pouco sem dançar, tomou algumas olhadas feias dos lojistas do lugar e acabou entrando na tenda de Tamásia – Tarô e Astrologia Viking. Aceito vale.
“Você quer saber seu futuro? Dez paus. Aceito vale.”
“Eu li na plaquinha.” disse João dando um tempo à escaleta. “Mas não preciso saber do meu futuro. Estou construindo ele a partir de agora.”
“Ih, eu hein! Cada maluco… e esse piainho aí?”
“É uma escaleta. Não é de verdade, mas sai som na boa.”
“Toca alguma coisa aí pra mim.”
João tocou notas aleatórias.
“Bonito isso. É pagode?”
“Não, toquei agora.”
“Inventou?”
“É, não sei… eu simplesmente toco.”
“Bonito mesmo. Por que você não toca um pouco pra mim? É meio chato aqui, ficar ouvindo o bate estaca do box de CDs do Marião. Toca pra mim que eu leio as cartas para você.”
“Combinado.”
João sentou e Tamásia começou a colocar as cartas. O som da escaleta embalava o descortinar místico da vida do rapaz.
“Hmmm… interessante… essa escaleta você arrumou para expressar uma dor no coração…”
João não falava nada. Apenas soprava.
“Curioso… as suas cartas estão vazias… nada faz muito sentido…”
A música da escaleta ficou mais melodiosa.
“Deixa eu ver de novo… é… tem uma mulher aqui…”
A melodia se tornou triste.
“Ela foi embora. Olha, não sei se é uma boa notícia, mas é provável que ela nunca mais apareça.”
E melancólica.
“Bonito isso que você está tocando. Parece que as cartas saem com mais facilidade. Que o futuro desliza pra fora. Você não quer fazer um negócio?”
João balançou os ombros e sequenciou notas indiferentes.
“Eu tiro as cartas, você toca. Cobro 5 a mais pela música. Tamásia e… como é seu nome?”
Finalmente um descanso ao instrumento. O som do box de CDs voltou a bombar dentro da tenda.
“João.”
“Então, João. Cobro 5 a mais pela consulta com música. Tamásia e João. Tarô e… como é o nome do pianinho mesmo?”
“Escaleta.”
“Tamásia e João. Tarô e Escaleta. Dez reais o tarô simples, quinze com música. A música acalma as feras. Acho que o pessoal vai curtir. Já tenho meus clientes, conheço eles. Recebo uns 8 por dia. 6 dias por semana, você tira aí seus… mil reais por mês, por baixo. Parte em vale-refeição. Se bem que agora o vale é em cartão magnético, mas bola pra frente.”
“Combinado.”
Foi um sucesso. Tamásia e João, Tarô & Escaleta. Quando as cartas davam notícias boas, João tocava algo alegre. Quando aparecia alguma nuvem negra, tudo ficava mais suportável para o cliente com o sonzinho calmo que saía do brinquedo. Tamásia se impressionava com o talento de João. E elogiava. Agradecia. Mas ele só sacudia os ombros. Dizia que bastava soprar e mexer os dedos. E estava sendo sincero. Mas a coisa tomou outras proporções. O pessoal quis até comprar CD do João tocando escaleta. O músico involuntário começou a se incomodar. E o invitável aconteceu. Caiu fora. Para Tamásia não era novidade. As cartas a tinham avisado e ela aceitava o plano maior. João partiu numa manhã de sábado enquanto chovia. Deixou a escaleta de presente pra falsa cigana de Uruguaiana e foi seguir sua vida. Quando parou de chover, saiu um arco-íris que emoldurou o shopping de fábrica.
***
Essa história saiu na Mais Soma #10. Download da revista inteira em PDF clicando com o botão direito aqui.
A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.
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