Categoria: Mente


sábado, 27 de fevereiro, 2010

Mischa Island

“Nossa consciência não é nada mais do que um pedaço de ilha insignificante flutuando em um vasto oceano circundante. Mas é desse insignificante pedaço de terra que nós podemos olhar para a imensa expansão do inconsciente.”

***

Livremente traduzido daqui.

Postado por Gustavo Mini às 9:00 | Sem comentários | Permalink

sexta-feira, 12 de fevereiro, 2010

O engano é se surpreender

Quando eu vi as comparações entre as fotos photoshopeadas e não photoshopeadas da Madonna há algumas semanas, minha primeiríssima reação foi: “cara, o que que é isso? Ela é assim???” Acredito que a maior parte dos mortais deve ter pensado algo parecido.

Alguns segundo depois, me dei conta de que o mais surpreendente não deveria ser a descoberta de que a Madonna “está assim”, mas perceber o quanto fiquei mal acostumado com a imagem dela. Nossa percepção, no geral, automaticamente classifica a foto natural como esquisita e a foto artificial como “natural”. Não aconteceu com você?

É que o conceito de natural é algo bem mais maleável do que o seu significado sugere. O que parece “natural” geralmente é algo adquirido e, de forma consciente ou não, treinado. Nosso olho é um dos órgãos mais treinados à nossa revelia. E nossa percepção visual, na última década, vem sendo treinada em uma série de códigos bizarros no que diz respeito à passagem da idade do ponto de vista visual.

É tudo muito divertido, tudo muito legal, mas é certo que isso dá bode no sistema operacional.

***

Tem mais comparações entre photoshop e vida real que o Bruno andou linkando.

Postado por Gustavo Mini às 14:47 | 4 Comentários | Permalink

segunda-feira, 1 de fevereiro, 2010

Quebrando coisas & conceitos

Os artistas europeus Ronnie Yarisal e Katja Kublitz tiveram uma idéia interessante pra quem gosta de descontar suas frustrações quebrando coisas. Eles inventaram uma vending machines, essas máquinas que vendem refrigerantes, só que colocaram ali dentro objetos de porcelana. Então você chega na máquina, coloca a moeda e escolhe o objeto, ele cai na gaveta e quebra na hora.

No fundo, a máquina funciona bem como uma dupla crítica: sobre a tendência atual de transformar tudo em compras, e também sobre a digitalização das nossas vidas, de não tocarmos diretamente naquilo que estamos envolvidos emocionalmente. Ou seja: a máquina de quebrar coisas não serve só pra lidar com a raiva (um subterfúgio controverso de acordo com algumas correntes psicológicas, diga-se de passagem), mas também com outras questões mais profundas do mundo contemporâneo.

***

Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.

Postado por Gustavo Mini às 11:56 | 2 Comentários | Permalink

sexta-feira, 29 de janeiro, 2010

Câmeras

A câmera fotográfica é um objeto que mudou muito de status nos últimos anos. Ela surgiu na vida de nós, não-fotógrafos, como um simples capturador de momentos especiais. E as imagens que elas produziam eram guardadas com toda pompa e circunstância em álbuns super bem cuidados.

Hoje, a câmera, em sua encarnação digital, está à disposição de muito mais gente. Ela se tornou um objeto mais comum  que captura momentos também mais comuns. Ficou mais fácil registrar o dia-a-dia e ficou mais difícil selecionar (e desfrutar d’) os momentos realmente especiais no meio de tantos gigas de imagens

Esse é mais um dos paradoxos da cultura digital que não serão resolvidos por aparelhos mas pela mentalidade do usuário.

***

Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.

Imagem: “Stairway to Nothing”, Centro Cultural Martin Cererê em Goiânia.

Postado por Gustavo Mini às 9:33 | 2 Comentários | Permalink

sexta-feira, 22 de janeiro, 2010

O interior da mente humana ganha espaço no mainstream

Vi no Matias os primeiros teaser/trailers do The Inception, filme novo do Christopher Nolan. E, na hora, me lembrei de como o cinema vem explorando a mente humana como cenário de narrativas, como ambiente cenográfico MESMO e não “uma história na cabeça de alguém ou do ponto de vista de alguém”. Mal puxando da memória, o primeira exemplo que me ocorre numa linha de tempo é A Cela (que eu e o Marcos vimos num intervalo de vagabundagem num dos primeiro Goiânia Noise que tocamos). Na época achei tenebroso. Talvez hoje revendo eu até goste, quem sabe? Mas aquela estética nunca me desceu… Bem… algum cinéfilo pode me ajudar a lembrar de referências mais antigas e mais consistentes?

Um pequeno salto no tempo e nos anos seguintes tivemos uma série de filme que exploravam o espaço interno da mente: Quero Ser John Malkovich enfiou o pé na porta e a seguir veio o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança, que a meu ver é o Nevermind dessa onda (sendo o Nevermind o mínimo denominador comum entre coisas esquisitas/novas e mainstream). Adoro esse filme e acho que ele transforma em imagens alguns processos terapêuticos de forma muito interessante. E no ano passado ainda rolou o Synedoque Nova Iorque, num clima bem mais barroco e pesado, menos pop-tchuras.

Bom, o fato é que o próprio Nolan explorou bastante os recônditos da mente como plataforma de histórias: seu Memento era construído a partir de memórias desconexas (outro assunto “mental”), Insônia se segurava sobre uma mente disfuncional pela falta de sono e ninguém me tira da cabeça (olha ela aí) que a Gotham City de The Dark Night é um reflexo da mente do Batman.

A mente humana tem sido assunto frequente na mídia mais mainstream. Mas geralmente, dividida em dois terrenos: o cérebro, a máquina, a química, e a psiquê, os processos psicológicos. O leitor de Veja e a audiência do Fantástico vem sendo sistematicamente bombardeados nos últimos anos com matérias superficiais e um tanto quanto inúteis na prática sobre as últimas descobertas da neurociência, essa criança recente que também vem mexendo com as bases do marketing e começando a abrir os olhos de picaretas ávidos por ganhar dinheiro com apresentações em Power Point e frases de efeito. E vocês já viram a quantidade de revistas de psicologia e psicanálise nas bancas?

Filmes como The Inception, por outro lado, parecem explorar o assunto com uma perspectiva mais interessante (ainda que baseado na ficção): a mente humana é uma viagem e explorá-la é um assunto interno. Ao parecer misturar os dois espaços (o interno e o externo), o The Inception promete. Veremos se cumpre.

Em breve explorarei mais esse assunto em um post que estou desde abril do ano passado pra escrever. Mas o que é o tempo né?

Postado por Gustavo Mini às 9:10 | 2 Comentários | Permalink

quarta-feira, 6 de janeiro, 2010

The Jesus Lizard

Uma das minhas bandas prediletas voltou à ativa no ano passado para alguns shows. O Jesus Lizard foi um dos pilares submersos (aqueles que não ficam aparentes…) do som dos anos 90 e chegaram a ter dois hits em programas como Lado B e Gás Total na MTV Brasil, Glamorous (a de cima) e Puss (a de baixo).

O Jesus Lizard, como bem frisou a The New Yorker, é uma das poucas bandas cujo vocalista pode realmente evocar o cajado de Iggy Pop de sua época. Mas as comparações com o rock garageiro dos Stooges é unicamente restrita à intensidade da presença de palco de David Yow, porque o som do Jesus Lizard vai bem além do rock garageiro da turma de Detroit.

Uma tal de Hand Job Films teve a generosidade de postar um show inteiro dos caras no YouTube. São 14 músicas tocadas em 2009, aparentemente com o mesmo gás e a mesma virulência de 1991. Me lembrou o show dos Pixies de Curitiba: parecia que a banda tinha se separado na semana anterior. Eu selecionei alguns sons pra embedar aqui. O show todo, você encontra lá.

O bonito de ver no Jesus Lizard é a constante tensão entre melodia e ritmo esquemático, entre contenção e esporro (uma das marcas do som dos 90), entre os instrumentos mantendo a estrutura e as histórias bizarras e erráticas contada pelo vocal detonando tudo.

Estranhamente bonito.

Postado por Gustavo Mini às 9:20 | Sem comentários | Permalink

quarta-feira, 2 de dezembro, 2009

El dia de la independencia

Excelente invasão alien em… Montevidéu!

Então… não é que os gringos do espaço estão se ligando que tem mais o que fazer no planeta Terra do que ir pros Estados Unidos? Primeiro uns caíram na África do Sul. Agora no Uruguai. Os ets entendem as tendências terráqueas, tu vê. É que tem bastante gente indo pra Montevidéu. Sou o próximo, se sobrou algo depois da investida.

Bom, o fato é que o curta acima é produção da uruguaia Murdoc Filmes com pós-produção da também uruguaia Aparato. Que, segundo os próprios, são “los mejores directores y artistar gráficos del medio local. (…) Somos artistas, músicos, geeks y gamers compulsivos”. Não deixe de visitar os sites das duas!

O diretor do curta, Federico Alvez, curte uma bizarrice bem feita. Olha só.

Agora, na trilha do filminho bem que podia ter rolado um Hablan por La Espalda.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 7 Comentários | Permalink

sexta-feira, 20 de novembro, 2009

O valor da nossa atenção

O economista e prêmio Nobel Herbert Simon escreveu em 1971 que um mundo com riqueza de informação provoca naturalmente a escassez daquilo que a informação consome: atenção. Resumindo, riqueza de informação produz pobreza de atenção. É um fenômeno que estamos claramente vivendo hoje, quando não temos atenção suficiente pra dar a tudo que aparece ao nosso redor.

Quando uma marca faz uma campanha publicitária, ela está justamente querendo comprar a nossa atenção, seja com a repetição de uma mensagem sem graça, seja sendo apelativa pra impactar ou usando uma moeda mais digna, a criatividade.

Sim, é isso mesmo. Os investimentos milionários em televisão, rádio, jornal, internet e celular servem só pra chamar a sua atenção. Na verdade, o poder de prestar ou não prestar atenção na campanha é seu.

Quem é dono da sua atenção, é mais poderoso do que qualquer uma dessas grandes empresas.

***

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

Postado por Gustavo Mini às 8:35 | 5 Comentários | Permalink

sexta-feira, 13 de novembro, 2009

Tehching

O tailandês taiwanês (obrigado Good Blood) radicado nos Estados Unidos Tehching Hsieh é um dos mais interessantes artistas de performance dos últimos tempos. De 78 a 99 ele executou uma série de trabalhos que tinham como principal instrumento a sua própria vida.

Por exemplo, entre 85 e 86 ele passou o tempo inteiro sem produzir arte, sem falar em arte, sem ler sobre arte e sem entrar em museus ou galerias.

Ele apenas… viveu… seguindo essa regra simples que criou pra si mesmo e ficou durante um ano livre do mundo das artes.

Um dos aspectos mais interessantes da obra de Tehching é mostrar que regras não existem apenas para serem seguidas ou questionadas, mas também utilizadas como moldura; Enquanto muita gente busca alcançar liberdade tentando cortar todas as amarras, a pilha do cara é criar fronteiras específicas que servem como uma poderosa ferramentas de criação.

Conheci o trabalho do Tehching num dos workshops do professor Charles Watson sobre Processo Criativo, que já foram tema deste post e deste post.

***

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 1 Comentário | Permalink

quarta-feira, 4 de novembro, 2009

Como desatar nós

Não sei se o nó na garganta tem registro na literatura médica. Mas sei que todo mundo conhece e que ele é assunto em diversas terapias corporais, especialmente aquelas que consideram o corpo como algo além do que um amontoado de células, uma estrutura que também guarda e elabora emoções. Falar sobre a conexão entre elas (as emoções) e o corpo físico não é exatamente minha especialidade. Minha experiência é muito mais empírica, de paciente, do que propriamente a de um estudioso formal. É com esse espírito que toco no assunto nó na garganta x MSN.

Ambos, acredito, são bem conhecidos por você. O nó é aquela sensação de algo entalado na garganta: uma discussão não elaborada, uma raiva mal digerida ou um “sapo engolido” - e coloco aspas aqui porque, ao contrário do que reza a expressão popular, é da natureza dos sapos se agarrar nas paredes da laringe em vez de descer para o estômago.

Existem muitas formas de lidar com o nó na garganta. Vocalizações, exercícios posturais, massagens e visualizações fazem parte do cardápio, mas a maior parte das pessoas gosta mesmo é de falar sobre o assunto que causou o nó na garganta (muitas vezes na companhia de uma cerveja). Mais intenso ainda e talvez mais eficiente (ao menos a curto prazo) é chorar. Falar e chorar não apenas mexe fisicamente com a garganta, mas também libera o peito, provavelmente mexe com todo o corpo. Não sei bem. Mas acho eu que todo mundo (ou quase todo mundo) conhece o alívio de falar ou chorar sobre algo que está trancado.

Acontece que há alguns anos entraram em cena os instant messengers como ICQ, AOL Messenger, o mais popular no Brasil, o MSN. Vamos combinar que o MSN talvez devesse ser estudado por faculdades de psicologia pois está substituindo muitas mesas de bar no quesito local-de-desabafo. Quantas pessoas você não conhece que já teclaram cachoeiras e mais cachoreiras de letras e emoticons na tentativa desesperada de desaguar alguma mágoa?

O MSN é prático para desabafos pois pode ser utilizado a qualquer hora do dia ou da noite, durante o trabalho, enquanto você assiste TV, enquanto come, até mesmo enquanto outra pessoa envolvida no problema está circulando pela casa. O desague pode incluir imagens, links ou músicas que tenham a ver com o assunto. Melhor ainda, tem à disposição uma grande variedade de winks que exprimem sentimentos difíceis de serem colocados em palavras. O MSN oferece anonimato a quem precisa, proteção para que olhos inchados e vermelhos não sejam vistos por mais ninguém, bem como uma lista de “ouvintes” a que você pode recorrer: alguém sempre vai estar disponível pra “ouvir” você e, diante da intimidade instantânea de alguns contatos digitais, nem sempre precisa ser um grande amigo.

(Agora eu vou me dar o direito de pular toda aquele blablablá a respeito das conexões reais e virtuais, sobre quem é amigo de verdade e quem não é, sobre a fraqueza de muitos laços digitais, todos esses clichês do momento. Não vamos pensar dentro desse contexto!)

O ponto é: o MSN é eficiente pra desfazer nó na garganta? Eu acredito que não totalmente. Não há como negar que qualquer contato humano é melhor do que nenhum contato e que um pouco de atenção às vezes basta para detonar um processo de elaboração de um obstáculo. Mas também é preciso dar atenção ao fato de que um longo desabafo pelo MSN geralmente é feito por DEDOS e não usando a garganta. Da mesma forma, o corpo, em frente ao computador, geralmente está tenso ou mal acomodado. Os sentimentos expressos no desabafo pelo MSN percorrem um caminho confuso: rebatem entre o peito e a garganta enquanto os dedos e o cérebro funcionam a todo vapor. Sem um complemento de trabalho físico que ajude a dissolver os nós, uma hora vai dar problema na máquina.

ESSA máquina, não aquela.

O post termina aqui sem terminar. Não é um post-resposta, nem um post-proposta. É um post-pergunta. Juro que não é um post-preguiça, só não quero escrever besteira demais.

Os comentários estão à disposição dos terapeutas e pacientes.

***

Imagens gentilmente roubadas daqui.

Postado por Gustavo Mini às 10:44 | 10 Comentários | Permalink

sábado, 3 de outubro, 2009

Mondo Video: alongamento express

Precisando alongar? Aprende esse setzinho básico aqui que vale a pena. Usamos nas Oficinas de Shiatsu do Via Zen algo parecido.

Ah: não adianta esperar que aconteça alguma coisa bizarra no vídeo. É só o alongamento mesmo, não é viral nem nada.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 1 Comentário | Permalink

quarta-feira, 23 de setembro, 2009

O underground da espiritualidade

Caminho espiritual é um assunto complicado. Pra começar, é um pouco como a noção de “bom senso”: cada um tem o seu. Em segundo lugar, muita gente tem aversão a termos como “caminho espiritual” ou “espiritualidade” porque lembram de péssimas experiências religiosas de infância, geralmente mais ligadas a protocolos sociais do que propriamente a uma busca sua, genuína e de coração. E, por último, falar de caminho espiritual também traz junto conceitos difusos e errôneos como passividade lacônica (”hoje não fiz nada o dia todo, fiquei bem zen”), idealismo ingênuo ou relações bastante superficiais com coisas como maconha e ácidos meia boca.

Pra efeito de você ir adiante nesse post, vamos tentar fazer um acordo que vale ao menos aqui no Conector: caminho espiritual não é aquela missa de domingo que você ia quando criança e nem tampouco as lajotas se liquefazendo depois que você tomou aquele AC no carnaval. Também não vale aquela discussão sobre Matrix ou aquela super ficha que caiu quando você resolveu TODOS seu problemas depois de ficar olhando o mar de cima do Morro da Guarita em Torres por duas horas.

O caminho espiritual de que vou falar aqui, combinemos, tá mais pra 1) quando a gente procura resolver nossas questões mais profundas olhando pra dentro e não pra fora, e 2) faz isso de forma mais ou menos constante, como parte do dia-a-dia e não apenas como uma experiência de fim de semana ou como um tipo de férias da vida comum.

Bom, se você mais ou menos concorda com esse postulado e o acha simpático, vamos lá: é sobre isso que fala Jack Kornfield em “Depois do Êxstase, Lave a Roupa Suja”. Reconhecido professor de meditação nos Estados Unidos, Kornfield entrevistou dezenas de outros mestres e contemplativos do budismo, hinduísmo, judaísmo, sufismo e outros ismos pra falar dos descaminhos, acostamentos, desvios, obstáculos, enfim, do “Lado B” da busca pelo fio da meada da mente e do coração humanos.

São cerca de 250 páginas com centenas de depoimentos costurados pelo texto simples e direto de Kornfield. Grande parte das histórias traz revelações íntimas, algumas pesadas, como problemas com a família, períodos de vida depressivos, cisões em comunidades espirituais, desprezo ao corpo, entre tantos quebra-molas que aparecem e que, como os relatos insistem em ratificar, devem ser trazidos para o caminho em vez de serem tratados como anomalias. Parágrafo após parágrafo, essa parece brotar como a grande mensagem de “Depois do Êxtase…”: o caminho espiritual é um caminho de inclusão dos obstáculos, de desenvolver a habilidade de lidar, dançar com eles e não de eliminá-los. Como diz Kornfield a certa altura, “não existe aposentadoria iluminada”.

A busca por respostas internas, segundo vários depoimentos, pode até passar por experiências de êxtase ou de transcendência (seja lá o que isso significa). Mas ficar preso a uma dessas experiências, sublinha-se repetidamente, pode trazer mais apego e mais dificuldades em vez da tão almejada liberdade. Na essência dos caminhos espirituais genuínos está uma mente aberta e inclusiva. Diz um mestre entrevistado:

“Sob vários aspectos, a transformação espiritual das décadas passadas é diferente do que eu havia imaginado. Sou ainda a mesma pessoa esquisita, com o mesmo estilo e maneira de ser. Por fora, não sou aquela pessoa incrivelmente transformada e iluminada que eu queria ser. Mas por dentro a transformação é grande. (…) Minha vida era como uma garagem entulhada, onde eu ficava trombando com os móveis e me julgando. E agora parece que eu mudei para um hangar que está sempre com as portas abertas. Tenho as mesmas coisas, mas elas não me limitam mais como antes.”

Essas não são apenas idéias de religiosos. Além de pessoas ligadas a caminhos espirituais formais, Konrfield se vale de constantes citações de outros buscadores, como escritores (Walt Withman, Alice Walker, Rainer Maria Rilke, TS Elliot), ativistas (Martin Luther King, As Mães da Praça de Maio) e outras referências célebres (Anne Frank, Carl Sagan, Joseh Campbell). O mosaico pode parecer indigesto e um tanto quanto new age, mas funciona para abrir um pouco o escopo de experiências e mostrar que, por mais diferentes que sejam as trilhas, os calos nos pés são comuns a todos os caminhantes. Não existe ninguém especial. Todos são especiais.

Conclusão da história: o mundano e o espiritual não são excludentes. E, provavelmente, talvez não sejam nem mesmo duas coisas separadas. Ou, como diz o poeta beat, pai e professor zen Gary Snider:

“Todos nós aprendemos com o mesmo professor - a realidade… pôr as crianças na perua escolar todas as manhãs é tão difícil quanto cantar os sutras no salão do Buda nas manhãs frias. Uma coisa não é melhor que a outra, as duas podem ser aborrecidas e ambas têm a virtuosa qualidade da repetição. A repetição e seus bons resultados transformam as atividades da vida no caminho.”

***

Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey, da biografia da monja inglesa Tenzin Palmo e das memórias do ex-monge búlgaro Nikolai Grozni.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 7 Comentários | Permalink

sábado, 12 de setembro, 2009

Videofine: Monja Coen…

… fala sobre sua vida pré-monja, o casamento cedo, a gravidez, o trabalho de jornalista, o rock, o Buda…

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | Sem comentários | Permalink

quinta-feira, 3 de setembro, 2009

Turtle Feet: The Making and Unmaking of a Buddhist Monk

Nikolas Grozni era um simples jovem búlgaro, estudante prodigioso de jazz, treinado desde os 4 anos em piano clássico e mais tarde aceito na famosa faculdade de música de Berkeley. Como qualquer jovem, búlgaro, estudante e prodigioso, Grozni passava seus dias às voltas com os bundalelês da faculdade, tocando a vida à base de bebida, maconha, sexo, Coltrane e muito questionamento existencial.

Porém, enquanto as buscas existenciais de muitos eram sufocadas com os anestésicos comuns à idade, Grozni acordou um dia com seu bichinho da curiosidade atiçado e foi atrás de respostas mais decentes. Foi assim que se aproximou do budismo e foi assim que começou a ler filosofia budista e praticar meditação por conta própria. A certa altura do campeonato, entretanto, algumas fichas mais pesadas caíram e ele acabou abandonando o dia-a-dia de universitário pra pedir ajuda aos universitários, abraçando a vida monástica na India.

Turtle Feet é o livro de memórias do período indiano de Grozni e cobre seus três anos de estudo de tibetano e dialética budista, bem como sua ordenação de monge do Budismo Tibetano e suas tremendas confusões ao lado de habitantes do underground de Dharamsala. À primeira vista, a contracapa de Turtle Feet engana pois promete uma visão ácida do autor a respeito das instituições monásticas. Mas, mesmo com opiniões contundentes e fatos curiosos pra sustentar seu ponto de vista, no fim o que Grozni faz é reforçar a necessidade de uma mente crítica e aberta para quem quiser ir além de um olhar superficial da vida, seja dentro de uma estrutura religiosa ou não.

Grande parte do livro, na verdade, é calcada nas muitas desventuras vividas por Grozni ao lado das figuraças que formavam seu círculo social em Dharamsala. A principal delas é Tsar, um refugiado da guerra da Iugoslávia sem documentos e nem dinheiro que também se ordenou monge mas que largou os mantos pra viver da ajuda de eventuais namoradas ou de negócios bizarros. O melhor de todos, sem dúvida, é a padaria que improvisa no seu barraco, instalando resistências elétricas direto no assoalho para usar o cômodo principal como forno.

Tsar é a grande estrela de Turtle Feet e, como personagem, serve de porta-voz das idéias mais dissonantes de Grozni. Durante toda a segunda metade da narrativa, Tsar discursa incansavalmente sobre o absurdo da existência humana enquanto procura por sexo e se mete em problema atrás de problema no que parece ser o roteiro perfeito para uma Sessão da Tarde. Sem passaporte, por ter jogado fora o seu durante uma crise de identidade, Tsar é um cara flutuando entre definições, sem nacionalidade, sem destino, sem plano de vida concreto, sem futuro. Ou seja, no fundo é como qualquer um de nós.

Ou seja, o que faz de Turtle Feet um livro interessante e cômico não são as dificuldades particulares que um ocidental enfrentou para se tornar um monge budista, mas sim as dificuldades universais de quem tenta se encontrar. Por mais bizarras e únicas que sejam as situações que Grozni viveu na India, a impressão que se tem é que por baixo de todas as cascas culturais e circunstanciais de cada capítulo, temos contato direto com o dramático e hilário recheio que se encontra dentro de qualquer pessoa em qualquer coordenada deste estranho planetinha.

Postado por Gustavo Mini às 16:34 | 2 Comentários | Permalink

sábado, 15 de agosto, 2009

Videofinde: Terminus

Opressão cotidiana? Demência crônica? Encosto? Oito minutos de boas perguntas num climão meio “psicologia Cronenberg”. Grande dica do Marceleza. Produção da Spy Films.

Postado por Gustavo Mini às 7:00 | Sem comentários | Permalink

quarta-feira, 22 de julho, 2009

Cave in the Snow

Falar sobre longos retiros geralmente causa uns calafrios não é mesmo? Imagina deixar o conforto da sua casa, desfazer os laços (físicos) familiares, abrir mão de todo o vasto leque de distrações disponíveis e de todo o sistema social e psicológico em que crescemos em troca de ficar consigo mesmo, convivendo, conhecendo e se aprofundando na própria mente e seu vasto potencial durante mais de uma década em uma caverna pedregosa na India. Não é pra qualquer um, né? E não é mesmo.

Existem muitas boas lições na biografia da monja budista Tenzin Palmo, mas o fato de ser especificamente ela a protagonista de sua história é uma das mais importantes. Calma que eu já explico. Palmo nasceu Diane Perry no East London em 1943 e cresceu em uma família humilde, porém feliz, que se estruturou ao redor da figura materna após a morte do pai. Até os 20 anos, viveu uma vida “normal”. Brincou, estudou, namorou, dançou na swinging london, mas o bichinho da curiosidade espiritual a corroeu desde pequena. Buscou alimento para o bichinho em diversas religiões, mas a ficha caiu mesmo quando ela encontrou os primeiros e escassos ensinamentos budistas disponíveis no Ocidente através de alguns livros e conexões com intelectuais interessados no Tibet. A partir daí, uma peça começou lentamente a encaixar na outra: Diane conheceu os primeiros lamas budistas a aportarem na Inglaterra, se mandou pra India, quase casou na viagem de barco, se instalou em uma escola fundada por uma inglesa, deu aulas de inglês para lamas e finalmente encontrou o professor que a guiaria uma boa parte da vida.

A sede por realizar o potencial mais perfeito de sua mente a lançou numa busca constante por conhecimento e espaço para praticar o conhecimento adquirido. Para unir os dois, pediu ordenação de monja e, depois de alguns anos de estudo e serviços para a comunidade monástica local, partiu para meditar em uma caverna nos himalaias indianos. Desencorajada por muitos colegas (que julgavam uma mulher ocidental incapaz da empreitada) porém apoiada por seu professor, a agora monja Tenzin Palmo concentrou sua energia em uma série de retiros fechados nos quais ficava até oito meses sem ver ninguém (nem mesmo o sol no duríssimo inverno dos Himalaias). Na etapa final de sua trajetória de retirante, Palmo completou três anos em total isolamento até ser despejada da India por problemas legais com seu visto.

A volta à vida em sociedade, entretanto, não foi um fardo. Pelo contrário, a monja abraçou o novo capítulo em sua vida, colocando sua experiência a serviço de causas interessantes. Por um lado, Palmo passou a militar ativamente no meio religioso pelo reconhecimento dos direitos e das nuances femininas dentro das comunidades espirituais, geralmente organizações mais masculinas e de contornos patriarcais. Em outro âmbito, menos político e mais prático, viajou o mundo levantando fundos para a construção de um mosteiro para monjas tivessem condições de receber os ensinamentos completos, algo negado a muitas mulheres em determinadas tradições budistas.

Contada assim, rapidamente, a história de Tenzin Palmo tem sementes de fantasia. Tipo…. mulher-ocidental-larga-tudo-e-vai-viver-o-misticismo-oriental-na-caverna. Porém, Cave in The Snow dificilmente passa como conto da carochinha. A ida de Tenzin Palmo para a India não foi uma fuga repentina de alguém estressado com seu cotidiano ou a tentativa de realização de uma idéia juvenil. Foi, isso sim, uma peça no lego particular de uma menina desde cedo bastante encucada com os mistérios não exatos do universo. Quando ela falou para sua mãe que estava pensando em ir à India buscar ensinamentos, não recebeu olhares de espanto ou reprimendas, mas uma simples pergunta: “Quando você vai?”. A dona de casa de Bethnal Green conhecia bem a filha e sempre apoiou sua busca.

Esses e muitos outros detalhes tornam Cave In The Snow uma leitura interessante mesmo pra quem não sente nenhuma vontadezinha de ter um envolvimento tão intenso com a prática espiritual. Ao contrário do que poderia ser, o livro é dedicado a desmistificar os anos na caverna. Eles recheiam o livro mas não são de forma alguma o único fator de reflexão. Página após página, um paradoxo se constrói: por mais particular que seja a história de Tenzin Palmo, ela também é temperada fortemente com o viés das questões humanas universais: insegurança acerca de nossa identidade, medo da morte, a necessidade de recursos financeiros pra viver, amores não correspondidos, relações complicadas, as diferenças entre o mundo masculino e feminino, e a velha pergunta… no que vale a pena investir tempo da sua vida?

Para Tenzin Palmo, encontrar a resposta passava por ficar um bom tempo em retiro. Ela nunca teve dúvidas disso. Não sofreu com o isolamento. Encontrou sua vocação. Mas depois, ao precisar fazer uma difícil escolha, se viu de volta ao mundo cotidiano, viajando em turnês mundiais, dando ensinamentos e buscando fundos para a construção de um mosteiro. Dividindo o que descobriu na caverna.

Talvez cada um de nós tenha uma caverna nos esperando. Para alguns ela pode até estar nos Himalaias. Para outros, ela pode significar simplesmente algumas horas sem banda larga. Ainda há os que vão encontrar sua caverna ao se retirar de situações de isolamento e ao engajar-se em uma atividade. Quem sabe? A autora do livro e jornalista Vicky Mackenzie delega ao leitor, com a ajuda de livros inspiradores como esse, encontrar os paralelos e descobrir o seu caminho.

***

Mais três coisas.

1. A Elka, que morava aqui no templo de Três Coroas, se mandou há alguns meses pra India com sua filha pequena. Ela vem escrevendo em um blog pra TPM sobre as experiências que está vivendo lá e também falou da Tenzin Palmo em um post de junho, que também traz algumas palavras sobre a situação das monjas e das mulheres na India.

2. O Guardian também fez uma matéria sobre ela (a monja) recentemente.

3. Existe um documentário bem simples mas bem bom sobre a trajetória de Tenzin Palmo. Se chama Cave in The Snow. Me foi copiado por um amigo. Não sei se você vai encontrar um torrent. Mas se encontrar, faça com eu: depois doe o valor de um DVD nacional pra causa da Tenzin Palmo.

***

Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 4 Comentários | Permalink

quarta-feira, 17 de junho, 2009

Street Zen: The Life and Work of Issan Dorsey

Issan se preparando para a ação.

Espiritualidade é um tema complicado de abordar num país como o Brasil. Vivemos uma espécie de paradoxo. Se temos uma população que se diz majoritariamente católica (83%), no dia-a-dia ela se ampara mais no sincretismo, na crença em santos particulares ou então na boa e velha reza aleatória na hora do desespero. Para deixar tudo ainda mais ambíguo, apesar de muitos não praticarem formalmente o cristianismo, a moral cristã meio que paira sobre a cultura do país. Ela não rege os desejos e não dá as cartas claramente, mas funciona como o eixo médio da nossa moral coletiva e qualquer duas horas de televisão aberta mostram isso. Mesmo os intelectuais do país costumam frequentemente se comportar como carolas: apontam, acusam, pedem punição.

No outro extremo do espectro, existe também, claro, uma adoração dos loucos desvairados como oposição à moral instituída, mas isso é apenas o outro lado da moeda. 99% das vezes que vejo alguém puxar o saco de algum “rebelde”, me parece mais birra do que qualquer outra coisa. A verdade é que raramente ambos conceitos, suposta perfeição e suposta imperfeição, convivem em harmonia.

Se na vida cotidiana eles são obrigados a conviver, o mesmo não acontece no imaginário popular. A ambiguidade no Brasil, acredito, é sutilmente bem vinda na prática, mas na teoria, no discurso ou na iconografia ela não pega bem. Somos um país de mulatos práticos que gosta do preto no branco teórico. Ainda que saibamos de todos os detalhes sórdidos sobre nossos santos/modelos/salvadores/representantes, preferimos os relegar a um papel secundário de seu caráter, recusando-nos a acreditar que o lado escuro da mente e do coração de alguém possa realmente fazer parte do seu todo.

Por isso, enquanto virginiano inverterado e maniqueísta eventual, achei tão inspiradora a leitura de Street Zen. O livro é a biografia do mestre zen budista Issan Dorsey escrito por um jornalista, colega praticante e amigo que escolheu abordar todos os aspectos da vida de Dorsey sem deixar nada de fora. Tudo é exposto, desde seu homossexualismo, seu trampo de drag queen e eventual garoto de programa, sua relação com anfetaminas, heroína e LSD, sua convivência com estratos baixos e considerados pervertidos da sociedade até sua trajetória como praticante zen, criador de um hospice pioneiro para pacientes de AIDS e reconhecido professor que… morreu de AIDS. Pra resumir, um outro mestre zen americano, Bernie Glassman, escreveu no prefácio que via Issan como “uma mistura de Lenny Bruce e S.S. Dalai Lama”.

O interessante da abordagem de Street Zen é que a primeira etapa da vida do biografado em momento algum é colocada como oposição à segunda. A jornada descrita no livro não segue o roteiro comum de “degradação, descida ao inferno, expiação dos pecados por meio do sacrifício e redenção”. É mais como se fosse tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. O lado outsider de Issan Dorsey, em vez de contraponto ao lado religioso, funcionou como base, como fundação, como fonte de incríveis ferramentas sociais e espirituais que ele utilizou mais tarde para ajudar os que habitavam as margens da conservadora sociedade americana dos anos 60, 70 e 80.

A trupe da qual Issan fazia parte como Tommy Dee.

A mensagem aqui é uma só: por conta de nossas limitações, achamos que só os perfeitos alcançam a perfeição e Issan Dorsey vem para torcer completamente essa lógica injusta e inútil. A compaixão mais ampla não deixa nada nem ninguém de fora. Nem as pessoas que marginalizamos socialmente, nem nossos sentimentos e aspectos pessoais que marginalizamos mentalmente, escondendo no fundo do baú. Dorsey, segundo o livro, foi a personificação desse tipo de compaixão. Justamente por sua convivência com pessoas marginalizadas, por ter experimentado e visto de tudo, ele serviu de referência para os sem-referência. Ele abraçou tudo. O próprio autor da biografia diz que, se não fosse pelo amigo, talvez não se sentisse apto a praticar o budismo.

Como pano de fundo pra tudo isso, recebemos de brinde uma série de rápidas porém valiosas contextualizações: o surgimento da cena psicodélica em San Francisco; a chegada de Suzuki Roshi (um grande mestre zen budista) aos Estados Unidos e o desenvolvimento de sua comunidade, com direito a escândalos cabeludos protagonizados pelo seu sucessor; a intersecção do mundo gay de San Francisco com as comunidades espirituais; e os primeiros baques ali causados pela AIDS.

Street Zen é de escrita simples, fluída e direta. Uma boa parte das histórias vêm contada em primeira pessoa, por Issan ou por companheiros próximos. Dessa forma, em dois ou três capítulos você já se sente íntimo dele e lá pela página 200 bate uma certa melancolia porque os dois estão chegando ao fim: o livro e o protagonista. Issan morreu em 6 de setembro de 1990 de complicações ligadas à AIDS, no próprio hospice que criou, cercado de amigos e experimentando na prática lições básicas do budismo que vinha ensinando: compaixão e, principalmente, a impermanência.

Vertido das páginas do diário pessoal do autor, o relato dos últimos dias de Issan são crus e perturbadores. Sensacionalismo? Não. Uma narrativa que se pretendia tão aberta quanto seu personagem principal realmente não poderia se eximir e deixar de fora o momento de maior significado da história de Issan e que Suzuki Roshi chama de “O maior professor”: a morte.

Desesperador, desagradável e incômodo, muitas vezes é melhor nem tocar nesse assunto. Mas, se for pra tocar, melhor que seja assim, como Issan fez, de forma completa. Mesmo sofrendo e com dificuldades físicas, ele deixou sua última lição ao abraçar a morte da mesma forma que abraçou a vida.

Postado por Gustavo Mini às 12:46 | 6 Comentários | Permalink

terça-feira, 26 de maio, 2009

Alan Wallace no Brasil

Wallace à direita de S.S. Dalai Lama

Um dos mais importantes nomes mundiais do estudo da consciência vem de novo ao país no mês que vem pra conduzir um retiro e dar uma série de palestras promovidas pelo CEBB. De 4 a 15 de junho, o físico e ex-monge budista vai passar pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Viamão para falar sobre a convergência entre o método científico e o método contemplativo de investigação da consciência.

Wallace tem uma trajetória inspiradora, que reflete o tema de suas palestras: sua vida é, em si, a convergência de ciência e espiritualidade. Sua busca começou nos anos 70, década na qual foi ordenado monge por S.S. Dalai Lama. A seguir, passou a ensinar meditação e filosofia budista bem como servir de tradutor para diversos mestres budistas. Depois, iniciou uma vivência acadêmica que começou com o estudo de física e filosofia da ciência e um PhD em estudos religiosos em Stanford.

Hoje, ele é uma das principais interfaces no diálogo entre cientistas e contemplativos religiosos, atuando frequentemente em conferências, construindo produtivas pontes entre a filosofia budista, a psicologia, a filosofia e os conceitos da ciência moderna. Esse é um dos principais objetivos do Santa Barbara Institute for Consciousness Studies, que Alan Wallace dirige em parceria com profissionais como o psicólogo americano Paul Ekman, uma figura quase pop, célebre por seus estudos das emoções relacionadas às expressões faciais.

Alan Wallace no Google Tech Talks

Mas, afinal de contas, o método científico não dá conta sozinho disso? Bom esse encontro de diferentes visões é fundamental na busca por uma compreensão mais ampla e prática da consciência e de seus diferentes estados. Pelo pouco que li é assim: os estudos científicos são produzidos a partir de medições objetivas e externas à consciência. Não existem aparelhos que pentrem os pensamentos, as sensações, as percepções, os conceitos que uma pessoa experiencia. Só é possível medir a atividade cerebral.

Uma vez que a consciência é uma experiência fundamentalmente subjetiva, a contribuição de pessoas com um extenso treinamento contemplativo (como a meditação) traz complementos valiosos na descoberta de caminhos para a investigação científica dos aspectos mais profundos da mente. Alguém que navega bem pela sua própria mente, com clareza e disciplina, pode ajudar de forma mais eficiente a responder questões como: do que é feita a consciência? Como ela é? Que tipo de condições internas a satisfazem? Qual a fonte do bem estar e da sanidade mental? Como ter uma mente estável, saudável, sem depender intensamente de fatores externos? Como não ser chachaolhado ao sabor dos ventos sem criar uma fortaleza emocional intransponível que acaba sendo obstáculo a muitas experiências da vida?

Alan Wallace, Lama Padma Samtem e Chagdud Khadro em Viamão/RS.

As respostas para essas perguntas são detalhadas em muitas tradições contemplativas, mas geralmente não tem respaldo científico e por isso são consideradas inválidas em muitos âmbitos sociais, médicos e acadêmicos. Pessoas como Alan Wallace, S.S. o Dalai Lama, o Lama Padma Samtem e Yongey Mingyur Rinpoche (entre tantos outros, inclusive de outras tradições) vem trabalhando pessoalmente no sentido de produzir encontros frutíferos que resulte em ações práticas e programas educacionais facilmente acessíveis por pessoas que não desejam se engajar em alguma prática religiosa.

Se você lê esse blog, certamente se interessa de alguma forma pelas novas relações que estamos formando com a tecnologia e através da tecnologia. A capacidade de prestar atenção, entre outros aspectos cognitivos, é um dos tópicos mais discutidos nesse sentido. Então, não perca a oportunidade de ouvir a eloquência e o conhecimento de uma pessoa que é TÃO referência quando o assunto é estudo de consciência. Poucas vezes temos acesso direto a fontes tão qualificadas.

***

Leitura complementar:

- Entrevista com Dr. Wallace na Istoé.

- Li e recomendo. Como Lidar com as Emoções Destrutivas: pela capa, esse livro tem a maior cara de auto-ajuda, mas na verdade é um minucioso documento sobre um diálogo de cinco dias de cientistas com  S.S. Dalai Lama sobre as emoções humanas. É um panorama rico, com visões da neurologia, biologia, psicologia e budismo. O Alan Wallace é um dos protagonistas desse encontro promovido periodicamente pelo instituto Mind and Life.

- Não li, mas recomendo. Livros em português do Alan Wallace: A Revolução da Atenção (sobre a importância da atenção e do foco sustentado como base pra uma mente saudável) e Budismo com Atitude (sobre a importância do ajuste de ações e atitudes como parte do caminho contemplativo).

E era isso!

Postado por Gustavo Mini às 12:22 | 3 Comentários | Permalink

terça-feira, 14 de abril, 2009

Os limites da cultura digital 2

Ele é incrível. Faz de tudo. Atende aos comandos dos nossos dedos. Faz barulhinhos sintetizados quando algo dá certo ou dá errado. Toca música, filminho e mostra foto. Guarda música, filminho e foto. Muita música, muito filminho e muita foto. Ah, o computador.

***

O computador é distração de gente grande. Sim, informa, educa, ajuda a comunicar, a construir e derrubar governos, a terminar monografias e teses, a realizar sonhos e administrar empresas. Mas também distrai. Distrai pra cacete.

Não apenas o computador, mas seu rosto, sua interface com o mundo, as telas. Sacanas. Telas, em geral, são ladras de atenção por excelência. Desde o tempo da TV. Experimente jantar em um restaurante com uma tela por perto. Elas são irresistíveis, com suas imagens coloridas em movimento e seu brilho hipnotizante. O primeiro bem subtraído na presença de uma tela é o ambiente, o segundo patrimônio perdido são as pessoas ao redor, mas o terceiro e talvez mais problemático fator esquecido é nosso próprio corpo. Se na frente da TV o corpo facilmente vira uma geléia, um mero acessório para segurar os olhos e os ouvidos, ao menos ele geralmente se encontra em uma posição de relativo conforto, jogado no sofá ou na cama cercado de almofadas. Mas, em frente à maior parte dos computadores e celulares, o corpo geralmente se torna uma estrutura alheia, corcunda e tensa, fadada a respirar mal e a desenvolver uma série de problemas.

E é aí que entra o post anterior sobre o assunto dos limites da cultura digital: é uma cultura pouco afeita à limites e isso inclui a relação do usuário com o seu corpo. Com o olho grudado na tela, a mente é agitada de tal forma que parece não se cansar. Pulando de site em site, de arquivo em arquivo, em uma sedutora sequência aparentemente eterna de hyperlinks, é possível consumir um pouco de cada coisa sem se aprofundar em nenhuma e dessa forma perder a medida das horas, ficando ligadaço, desrespeitando completamente os avisos do corpo: ombros tensos, dedos doloridos, antebraço ardendo, respiração curta, coluna curvada para a frente. Uma hora, a fome, ou o namorado, ou o despertador, ou o cansaço extremo dão o alarme e você precisa levantar, desgrudar da tela. Mas a mente continua ali ainda por um bom tempo, ligada e amortecida ao mesmo tempo. O corpo, por sua vez, leva junto a postura ruim, o inspirar e expirar combalidos e as dores como suspeitos troféus às vezes exibidos com um questionável orgulho.

A dica para evitar esse problema, que dá origem a muitos outros, é só uma: tomar consciência do corpo. Lembrar que ele existe. Prestar atenção em como ele se acomoda. O corpo é inteligente e cada pessoa sabe de seus limites, basta prestar atenção. Esse é o problema hoje em dia. Prestar atenção.

A respiração é um guia poderoso para a atenção: se ela está curta demais, não está bem. Se está cheia de pausas demais no meio da inspiração e expiração, não está bem também. Um corpo curvado não respira bem. Uma cabeça baixa durante muitas horas faz erguer e tensionar os ombros. Não respirar direito também tensiona os ombros. Ficar horas e horas jogado numa cadeira meio torto com os olhos grudados na tela é um pedido por escrito pra se incomodar mais adiante. Mas ficamos tão dentro da tela que esquecemos completamente do corpo, da respiração, das costas. E só lembramos ao levantar suspirando pesado, soltando ais e uis com surpresa.

Parece papo new age, mas eu acho que é muito mais simples e direto: causa e consequência. Fique assim que você levantará assado. Falar em prestar atenção na respiração parece algo ridículo. Como assim prestar atenção em algo que eu faço automático? Esse é o problema. O automático. Quem faz as coisas no automático é computador. Pessoas fazendo coisas no automático, bem, acredito que para os leitores desse blog não precisamos entrar nos detalhes desta questão. Até porque isso rende outro texto.

Tentando dar um fechamento ao post, então.

1) Sobre valorizar a atenção.

A atenção é um de nossos bens mais preciosos. É o que a indústria da mídia mais preza e o que mais custa caro. A sua atenção por 30 segundos custa uma fortuna na TV e está se valorizando na internet. Faz bem escolher onde aplicar a atenção, não tratá-la como uma balinha de 10 centavos.

2) Telas são ladras de atenção.

Mas o ponto aqui não é que elas roubem atenção somente de outros aspectos do ambiente ou de outras pessoas. Telas roubam nossa atenção de nós mesmos. Mergulhamos nas telas e esquecemos completamente do nosso corpo, por exemplo. Em alguns casos, isso traz prejuízos para o corpo e para a capacidade de prestar atenção.

3) A respiração é um guia confiável

A forma como respiramos reflete nossa posição de corpo e mente. Um corpo agitado respira de forma rápida e inconstante. Uma mente agitada também. O contrário também é verdade: acalmar a respiração influi na batida do corpo e da mente. Mas nem precisamos ir tão longe. Simplesmente prestar a atenção na respiração já muda o quadro em que estamos metidos.

Por hoje é isso. Talvez eu expanda esse post mais adiante. Talvez não. Vamos ver. O que vocês acham?

***

Imagens roubadas do Flickr do Guilherme Dietrich, dica do Fernando Ribeiro.

Postado por Gustavo Mini às 5:00 | 9 Comentários | Permalink

sábado, 28 de março, 2009

Videofinde: acalmando a mente

Uma das questões que ainda quero tratar no blog é sobre o efeito fragmentador de trabalhar muitas horas na frente do computador, ainda mais quem lida com comunicação e publicidade, áreas dinâmicas nas quais há pouco prazo para tudo e os projetos acontecem em curtos espaços de tempo. Nossa mente, que já temos por costume manter agitada e ocupada mesmo quando não fazemos nada, adora esse monte de janelas abertas simultaneamente e o caminho quase infinito que os hyperlinks permitem. Tenho dificuldades com isso. É distração que não acaba mais, um buffet atraente. Só que não é a distração, ao contrário do que o senso comum prega, a base da satisfação e sim a atenção.

O vídeo acima traz informações mais exatas sobre a prática de meditação. No primeiro vídeo o repórter fala sobre “tentar não pensar” e eu, particularmente, não aprendi dessa forma. Tentar não pensar é lutar e treinar luta dentro da mente não dá certo.

Existem muitas técnicas de meditação dentro de muitas tradições. Existe até mesmo meditação caminhando, uma prática que parece coisa de bicho grilo mas que é muito interessante e eficiente, especialmente pra quem tem dificuldade de ficar sentado, parado.

Se alguém se interessar, o ideal é buscar orientação adequada de um professor confiável e não ficar só nas reportagens de TV e de revistas semanais, ou mesmo tomar um livro como mestre. Bom proveito.

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 4 Comentários | Permalink

quinta-feira, 26 de março, 2009

A mente & os protocolos da cultura digital (3)

Esse papo todo, estou chegando à conclusão, é coisa de migrante digital. Saca migrante digital? É um conceito que vi numa palestra (não lembro de quem, não lembro qual) que dividia as pessoas em migrantes e nativos digitais. Os nativos nasceram e cresceram com as internet e as tecnologias móveis já implementadas, enquanto que nós, os migrantes, começamos a lidar com isso depois dos 20 anos.

Fato: a maior parte dos migrantes digitais “fala” com sotaque. E estranha a maior parte dos novos protocolos de comunicação, por mais que adote e curta muitos deles. É o que o Bruno comentou há algumas semanas, no post A Geração do Meio.

***

Bom, estou tentando retomar o meu eixo de pensamento. Não é meu objetivo, ao escrever esses posts, refletir sobre as dificuldades que certas pessoas tem com novos gadgets e muito menos criticar comportamentos surgidos da popularização da tecnologia. Não, não… o que eu acho interessante é como estamos mandando pra dentro da mente os protocolos da cultura digital. Que é algo que não começou a acontecer ontem. Nos comentários, alguém trouxe à tona a idéia de ciborgues, de junção do corpo humano com aparelhos. Embora isso não esteja rolando da forma cool como acontece nos filmes, a verdade é que toda vez que o ser humano começa a conviver mais intensamente com uma máquina, a simbiose acontece. O automóvel é o melhor exemplo: ao entrarmos dentro dele, nos vestimos de automóvel e agimos como automóvel. Andamos como automóvel, falamos a língua dos automóveis (composta basicamente por buzina, reclamação e xingamentos) nos restringindo às áreas dos automóveis, ou ao menos às que é possível um automóvel entrar. Não subimos escadas com automóvel, por exemplo. A identidade do automóvel passa a compor a nossa identidade temporariamente. Esse exemplo do automóvel não é meu, tirei de um texto do Lama Padma Samtem.

Assim acontece com tudo. Os objetos que utilizamos compõem nossa identidade e passamos a agir de acordo com essa nova identidade, olhando o mundo de outra forma. Exemplo clássico: de celular na orelha, falando com um amigo, automaticamente a rua vira uma cabine telefônica. Não é mais rua, é um espaço íntimo expandido que faz parte da conversa (sim, mesmo as pessoas “educadas” fazem isso). E assim por diante.

Olha, na real acho que me perdi na curva. Antes que alguém me acuse a) de estar fumando maconha ou b) de estar meramente regurgitando um monte de clichês de teorias pós-modernas (sendo que eu não conheço nenhuma delas formalmente, mea academica ignorância), tento de novo trazer o eixo da idéia inicial e fazer um rápido fechamento antes que isso tudo vire um grande fiasco.

1. Nossa identidade é um fluxo contínuo de fenômenos impermanentes (um corpo, sensações, percepções, conceitos e uma consciência, todos elementos se modificando a cada instante) que ganha sentido graças a uma narrativa que criamos, contamos e recriamos a cada interação com o mundo (ou com nosso inquieto fluxo de pensamentos).

2. A forma de contarmos e absorvermos histórias vem mudando significativamente com a digitalização da produção, distribuição e consumo de conteúdo.

3. Uma vez que nossas narrativas “interiores” são altamente influenciadas pela nossa interação com narrativas “exteriores” (contos de fadas, pinturas, cinema, romance), a introdução de fundamentos de transmedia storytelling (narrativas fragmentadas cujo sentido completo está na intersecção de diversas mídias) em larga escala…

4. … vai invariavelmente afetar a forma como as pessoas lidam com as identidades, adquirindo novas habilidades, especialmente no que diz respeito a fragmentar e reconstruir suas narrativas pessoais (como se faz em um universo transmedia) devido ao contato continuado com interfaces digitais e uso intenso de uma variedade cada vez maior de meios de produção, distribuição e consumo de conteúdo digital.

5. O Henry Jenkins já citou a necessidade de ter críticos de arte que possam fazer, digamos, resenhas de universos transmedia (e não crítico de “cinema”, “quadrinhos”, “TV”). Da mesma forma, vamos ter terapeutas, por exemplo, ferramentados para lidar com essa nova forma de construção de identidades?

Algo assim. AAAAAH. Chega!

Na próxima semana: design and the elastic mind.

***

Leitura complementar: as 5 famílias de usuários da internet por Eduf.

Postado por Gustavo Mini às 11:28 | 4 Comentários | Permalink

terça-feira, 10 de março, 2009

Watchmen, Milk e o ocaso do heroísmo

Como eu já disse aqui, em hipótese alguma me considero uma fonte confiável para falar de Watchmen. Meu envolvimento emocional com a minissérie não chega a derrubar meu senso crítico, mas deixa bastante tonta minha capacidade de abstração ao tentar imaginar como é a experiência de assistir ao filme sendo alguém que não leu umas quatro vezes a série e não é fã do Alan Moore. Então, de qualquer forma, feitas as ressalvas… vamoslá…

***

Ah: você pode ler o texto todo mesmo que não tenha visto o filme. Não contém spoilers, nem sobre o final.

***

Pois bem.

Watchmen é um filme realmente fantástico em muitos aspectos. Todos eles ligados à noção de heroísmo. Antes de mais nada, é preciso aplaudir o heroísmo do diretor Zac Snyder, que conseguiu colocar quase tudo que importa da densa obra de Alan Moore e Dave Gibbons em um filme de 2h40min. E o que é quase tudo que importa? É o amálgama de referências audiovisuais da cultura americana dos últimos 60 anos (o início do fim do maximalismo?). É também a excelente trama conspiratória que questiona o papel dos super heróis no imaginário popular. Mas, acima de tudo, o que importa e o que vou tratar aqui são os ganchos que Zac Snyder ofereceu para que a audiência possa questionar a própria noção de heroísmo. Isso poderia se perder na adaptação para as telas, mas não. Está tudo lá, bastando prestar atenção.

Watchmen, nesse sentido, vem em boa hora. Como nação, tenho a impressão que os Estados Unidos estão vivendo um momento em que a idéia de heroísmo dá sinais de cansaço. A eleição de Barack Obama, apesar de cercada de ares redentores, marcou o rechaço de uma parte da população americana à cultura do caubói, do herói de guerra, do maverick que vai lá, dá umas porradas e umas canetadas e resolve os seus problemas e os de todo mundo.

O que me leva automaticamente às anotações mentais que fiz de Milk. O filme de Gus Van Sant que deu o Oscar a Sean Penn é um relato intenso e emocionante sobre um herói civil americano, que lutou com tenacidade, bom humor e inteligência política para salvaguardar os direitos dos homossexuais. Harvey Milk, como a maior parte dos heróis civis, foi um homem que utilizou intuitivamente as noções básicas de ativismo para ativar o senso de comunidade de seus pares. Um detalhe, portanto, pode passar despercebido pelos que se apegam à figura do homem entusiasmado e dado a subir em caixotes e discursar com um megafone: os colaboradores de Milk, sua rede de parceiros políticos, amigos e amantes que sustentaram seu caminho e se tornaram tão importantes quanto sua liderança. Milk não seria nada sem sua rede. Sua rede não seria nada sem Milk. Todos estão interligados. Por isso também vem em boa hora a cinebiografia de Milk, pois estamos entrando, como cultura global, em uma era onde a colaboração horizontal e o trabalho de formiguinha vai fazer muito mais diferença do que os atos de grandiosidade e espalhafato.

De volta a Watchmen, tudo começa (cronologicamente, não na trama) com um grupo de pessoas interessadas em complementar o trabalho da justiça e da polícia de forma anônima. O recurso é um velho conhecido nosso no campo da fantasia: um uniforme chamativo, algumas habilidades especiais (humanas ou sobre-humanas) e os criminosos que se cuidem. Quem dera fosse tão fácil resolver os problemas do mundo. Infelizmente, como mostra Watchmen, não podemos solucionar a maior parte dos nossos problemas pessoais ou coletivos como se estivéssemos nos preparando para um baile de carnaval.

Os super heróis de Moore são, como vemos ao longo do filme, seres com incríveis capacidades físicas mas com capacidades psicológicas extremamente limitadas, não muito diferentes de qualquer um de nós. Mesmo Dr. Manhattan, o super-homem capaz de se teletransportar, ver o futuro e manipular a matéria, trava ao tentar resolver as questões mais básicas de relacionamento. Toda sua inteligência e racionalismo só o colocam em uma encrenca atrás da outra, muito embora os mais materialistas possam o cultuar em uma espécie de teísmo bizarro.

As cenas de violência de Watchmen são outro gancho revelador do caráter problemático dos heróis. Propositalmente ou não, Zac Snyder escolheu manter o naturalismo do traço do desenhista Dave Gibbons, ou seja, quando alguém toma uma porrada, vemos muito sangue, fraturas expostas, crânios rachados ao meio. E mais. Vemos os envolvidos, os chamados heróis, sentindo prazer ou alívio com a violência. Não é como em Homem Aranha ou Quarteto Fantástico. São cenas chocantes, extremamente físicas e pesadas, que vão além do que se poderia chamar de justiça ou  autodefesa, parecendo servir mais para exorcizar fantasmas particulares. Assim são os heróis de Moore: humanos, sensíveis, confusos, esperançosos. Na maior parte do tempo, eles se comportam como pitboys em um bloco de rua.

A suposta redenção ao final de Watchmen existe, mas é absolutamente questionável uma vez que baseada na clássica lógica americana: um indivíduo se considera apto a executar um plano que envolve milhões de pessoas sem o poder de escolher e joga sobre si a responsabilidade da vida delas como se isso atenuasse o sofrimento pela qual elas passam. Curiosamente, os americanos sempre chamaram isso de “democracia”. É impressionante, mais uma vez, como a história da Alan Moore é atual e profunda. Não trata apenas da psiquê deformada e problemática dos heróis individualmente, mas da psiquê deformada de uma sociedade inteira e suas crenças em uma justiça individualista e arbitrária.

A impressão que dá, no fim das contas, é que todos os heróis precisam de apoio terapêutico especializado e não apenas o psicopata Rorschach. Cada um na tela representa com perfeição um aspecto do mundo atual: Dr Manhattan é o existencialista-materialista-ateu convicto, cujo Deus é a física quântica. Rorschach é o tiozão de churrasco de domingo, que fica violento ao reclamar da degradação do mundo; Daniel é o homem médio resignado diante de sua impotência de lidar com os seus fantasmas e os do mundo, precisando literalmente de fantasias para funcionar; Adrian Veidt é o semi-deus cujo dinheiro e inteligência asseguraram a seu egocentrismo condições para manipular pilares econômicos e militares… e por aí vai. Nenhum deles tem a menor condição de atuar como juiz ou defensor da humanidade. Nenhum deles traz felicidade e harmonia sem um custo enorme e questionável. Eles apenas geram mais dor e sofrimento com sua própria confusão.

Em resumo.

Ao  Sr. Snyder, os meus parabéns. E quanto aos super heróis: todo mundo já pra terapia!

Postado por Gustavo Mini às 17:40 | 2 Comentários | Permalink

sexta-feira, 27 de fevereiro, 2009

O Não Tão Curioso Caso de Benjamin Button

Existe muitos ângulos e muitas leituras para este filme. Eu poderia escrever linhas e mais linhas a respeito de cada pequeno detalhe bem pensado e construído que conduz tão bem a história. Também poderia destilar algumas boas lições de vida, quase beirando a auto ajuda barata (se é que não vou acabar aí). Poderia até mesmo comentar meu pé atrás inicial com a possibilidade do diretor David Fincher entrar numa fase barroca. Mas a real é que eu simplesmente saí perturbado e tocado pelo filme.

De tudo, o que mais me chamou a atenção em Benjamin Button, e o que é possível racionalizar, é o movimento que os personagens fazem para lidar com os fatos inevitáveis da vida. O mágico, o fantástico e o inusitado, ou seja, a condição de Benjamin (que nasce velho e morre novo), não impede o comum, o mundano, o inevitável: nascimento, doença, morte, velhice, solidão. Desse ponto de vista, o filme é cru e direto. Não há fábula que remedie de forma definitiva o básico da vida humana. A imaginação frequentemente rende, no máximo, um Tylenol 750g.

Obviamente, há muito de inspirador nas quase três horas de projeção. Uma das pontas do durex: no entrecruzar dos caminhos, Benjamin, seu pai, sua madrasta e seu grande amor, todos precisam extrapolar suas identidades usuais para poderem se relacionar de forma mais direta uns com os outros. Pai, mãe, filho, namorado, namorada, marido, esposa, mãe, velho, criança, amante, funcionário, chefe, todos esses rótulos não são propriamente invalidados, mas são (às vezes dolorosamente, às vezes naturalmente) transcendidos pra que as relações se viabilizem e as pessoas possam trazer algum cuidado, alguma compreensão, ou simplesmente fazer companhia umas às outras.

David Fincher foi sagaz. Com um truques básicos de ilusionismo narrativo, conseguiu chamar de curioso o que existe de mais humano e usual em todos nós.

Obrigado, camarada.

***

Imagens: Heather Horton

Postado por Gustavo Mini às 18:24 | 3 Comentários | Permalink

quinta-feira, 26 de fevereiro, 2009

The Real Mad Men

O genérico de George Lucas aí em cima é Bob Garfield, um dos colunistas da Advertising Age, a Meio & Mensagem do mercado publicitário americano. Há alguns anos ele vem batendo na tecla que chama de Chaos 2.0: o fim das estruturas de mídia como conhecemos até hoje (faça o download do PDF aqui, botão direito, salvar como, pq no site da AdAge vc vai ter que pagar). Garfield faz aquela estilêra caubói: distribui opiniões ácidas e grandiosas, temperadas com dados, piadinhas e frases de efeito. Como a maior parte dos seriados gringos, o texto é bom e faz sentido, só às vezes é metido a “ishperrto” e “provocativo” demais. Acredito que esse é um estilo em decadência, mas isso é assunto pra outro post (que não vou escrever, não espere).

Bom, agora que você já foi rapidamente contextualizado, vamos a uma interessante entrevista que eu achei com o cara no site da PBS, uma emissora de TV pública nos EUA. A conversa, de 2004, é em torno do documentário The Persuaders (já passou no GNT) produzido pela Frontline (ligada à PBS) e apresentado pelo articulista Douglas Rushkoff. Em 90 minutos, Rushkoff desnuda a estrutura básica do trabalho de marqueteiros e publicitários, expondo o passo-a-passo da construção de uma marca e dos métodos de persuasão utilizados na indústria da publicidade. A tese erguida e bem sustentada ao longo do Persuaders é boa e velha visão da relação entre publicitáros e consumidores como um teatro de fantoches, no qual os publicitáros movem os fios e os consumidores simplesmente seguem a onda. Garfield contrapõe, dizendo que não é bem assim, que os bonequeiros não são tão hábeis quanto parecem e os fantoches não tão inocentes.

Concordo e discordo de Garfield. Concordo quando ele diz que a maior parte das corporações não é tão eficiente em convencer os consumidores a comprar seus produtos. Popularmente, credita-se poder demais às empresas. Meu senso comum (e minha experiência de 15 anos no ramo) me diz que alguém que precisa investir TANTO dinheiro ou dizer TANTAS vezes a MESMA coisa em TANTOS lugares é porque não está sendo tão bom assim. A opinião de Garfield é que 99,9% das marcas falham na persuasão. Eu não seria tão catastrófico no número, mas tendo a concordar com a linha básica de pensamento.

Outro ponto, que Garfield não cobre, é que poucas pessoas se dão conta de que não existe uma Sala do Mal, onde os grandes vilões se encontram e traçam estratégias para tomar conta do mundo. A Naomi Klein e alguns de vocês talvez me considerem ingênuo a esse respeito, mas taí outra experiência que eu venho tendo nos últimos anos: empresários e dirigentes políticos são bem mais trapalhões do que parecem. As trapalhadas não são exatamente engraçadas, trazem consequências mais graves, mas não deixam de ser trapalhadas. É realmente incrível que algumas empresas prosperem e vão pra frente montadas sobre estruturas tão caóticas e bizarras.

Onde eu não concordo com Garfield: ele tem uma linha de pensamento muito funcional no que diz respeito aos desejos das pessoas. Certamente não se pode responsabilizar unicamente os marqueteiros ou os fabricantes de celulares ou os programas de compartilhamento de arquivo pela carência natural do ser humano, que está sempre aberto a um docinho, uma balinha, uma forma qualquer que seja para se anestesiar das dores básicas e preencher seus vazios. Mas Garfield trata todo o sistema comercial atual como se fosse autônomo e desligado das causas e consequências do hiper-consumismo que ele precisa gerar para se manter vivo e, er… bem… “saudável”.

No fundo, no fundo, o grande problema do tipo de análise que encontramos tanto no Persuaders quanto na visão do Bob Garfield é o maniqueísmo. Enquanto continuarmos a culpar “eles” (atribua-lhes a identidade que você quiser) pelo que “nós” passamos, a coisa toda vai andar na lenta e vamos passar eternamente discutindo isso pelo único propósito de discutir e nos anestesiarmos sem resolver a insatisfação crônica da espécie. Que, sob hipótese alguma, vai ser solucionada à base de objetos, substâncias, pessoas ou qualquer outro tipo de elemento externo à nossa mente.

Postado por Gustavo Mini às 18:17 | 6 Comentários | Permalink

quarta-feira, 25 de fevereiro, 2009

Fun Home, revisitado

Na real, na real, achei que meu post sobre o livro ficou muito burocrático. Entenda-se: eu vinha de oito dias na praia com os neurônios em pleno estado de largação nas areias de Santa Catarina e acabei me tensionando ao tentar passar para o blog minhas impressões mais emocionais sobre o livro.

A bem da verdade, não tem muito como dividir com vocês o que eu senti ao ler Fun Home. Obviamente eu revisitei minhas próprias questões familiares com o apoio da edição elegante e o olhar compassivo da Alison Bechdel. Às vezes, o calor das questões presentes nos rouba a elegância e a compaixão, mas não custa nada buscá-las na hora de revisitar tais questões. Fun Home foi um passeio interessante em um local que poderia ser assustador.

Isso é algo bonito sobre arte, quando ela entra como uma agulha através da pele e chega até alguns recantos lodosos da nossa mente incutindo um pouco de espaço. Isso pode ser feito de muitas formas, algumas divertidas, outras incômodas, melhor ainda quando são divertidas E incômodas juntas. Significa que algo está sendo mexido mas com um pouco mais de leveza. Ponto para a autora ao fazer isso comigo, loas amplificados caso isso tenha acontecido em uma escala maior (acredito que sim, ou o livro não teria sido alvo de tanta atenção qualificada). 

Mais: é boa essa sensação, a de ler sem matar tempo. Não existe, lembra o lama budista e diretor de cinema Dzongsar Khyentse RInpoche, expressão mais estúpida do que “matar tempo”. Tempo é o que temos de mais valioso, a possibilidade de respirar e andar sobre essa terra. Por isso, eu me regozijo em não ter matado tempo lendo um livro, mas realmente ter aproveitado pra fazer algo interessante com meus pensamentos, minhas memórias e algumas de minhas mofadas paredes mentais. 

Bom, agora eu estraguei tudo de vez. Se antes alguém se sentiu incentivado a comprar Fun Home, espero que agora eu não tenha exagerado colando o rótulo de terapia pop na capa. Não se deixe enganar pelo sentimentalismo que estou arranhando. Alison Bechdel simplesmente fez o que um bom artista deve fazer: ao abrir o seu coração e a sua mente, ofereceu ganchos para que o leitor atento também o fizesse.

Postado por Gustavo Mini às 14:34 | 1 Comentário | Permalink

 Página 1 de 3  1  2  3 »

RSS URBe

RSS Mau Humor

RSS Trabalho Sujo

tags

Arquivo

Conector

OESQUEMA | Voltar a página principal © OESQUEMA/ 2008 | Reprodução permitida após consulta | Os textos desta página nem sempre são revisados | Créditos