OEsquema

Arquivo: Mente

Fórum Social & Conexões Globais – fechando a tampa

 

Então: acabei não indo no último dia do Conexões Globais, que eu estava acompanhando presencialmente (leia aqui e aqui). Mas ainda peguei alguns debates via uébi e os assuntos permaneceram comigo no fim de semana. Vamos, então, a algumas considerações finais.

Não sou exatamente um conoisseur de ativismo social, mas ficou bastante clara a crise no ENTENDIMENTO do desdobramento dos encontros. Não foram poucas as pessoas que ouvi e artigos que li comentando sobre uma suposta rarefação dos movimentos e dos eventos ligados ao Fórum Social Temático: tudo muito espalhado, sem uma centralização, sem  um leque de propostas finais consolidado. Particularmente, acho muito estranho isso ser considerado um problema quando me parece que é justamente essa horizontalização uma nova forma de funcionamento.

De minha parte, ainda que eu não seja diretamente atuante politicamente, não senti FALTA ALGUMA de um final consolidado. A mim, o que interessou, foi justamente passar pela experiência de assistir aos debates (declinei o convite para um porque queria justamente OUVIR), encontrar pessoas, respirar um ar diferente. Ninguém sai igual depois de eventos como esses e essa modificação é, por si, um produto válido. Saí dos poucos encontros que fui certo de que, sim, é preciso articulação formal, mas que a troca de experiências e o aprendizado que você leva são também vetores políticos importantíssimos. No meu caso, trouxe o que absorvi para o blog, para o meu funcionamento familiar e profissional e para algumas conversas particulares com pessoas que estão inseridas em processos sociais ativos.

Talvez uma boa forma de representar isso seja o comentário que ouvi uma vez de uma monja zen a respeito da dinâmica da comunidade que ela coordena. Era algo assim: uma fogueira precisa de vários elementos pra funcionar. Precisa da lenha, que vai queimar, que seriam as pessoas que se entregam de corpo e alma à “causa”. Mas uma fogueira precisa também de pessoas que fiquem ao redor alimentando o fogo, jogando gravetos, recebendo o calor. E eu adicionaria mais um elemento: tem também as histórias que as pessoas contam ao redor da fogueira. Elas também são combustível, elas também são parte do que faz a fogueira não morrer.

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Imagem: roubei do post do Matias.

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Don’t believe the hype

Comprar um aparelho digital é hoje uma das tarefas mais ingratas que existem. Se você não tem um amigo ou alguém na família que seja especialista vai ter que confiar em vendedores, na propaganda do fabricante ou em reportagens da mídia. Mas nem sempre essas fontes dão a dica mais essencial, que é a seguinte: a melhor saída é sempre escolher o aparelho de acordo com a sua necessidade e não pelo que ele ou o mercado oferecem.

Muitas vezes acabamos comprando aparelhos cheios de penduricalhos só porque é o padrão do momento. Mas, diferente da retórica anti-consumista, isso não acontece por sermos todos zumbis consumistas e sim porque, no geral, não sabemos bem o que queremos e o que precisamos diante da oferta acelerada e crescente de tecnologia. Uma forma de se relacionar com isso é olhar com atenção para a situação, reduzindo a velocidade entre o impulso e a ação, e reunindo o máximo de informações antes de efetivar a compra. Pra facilitar, vale fazer uma lista escrita em papel com itens que se pretende usar, cruzar com as reais necessidades do cotidiano e definir a compra a partir disso.


Repito: o que você precisa nem sempre corresponde ao que o mercado está oferecendo como sendo o melhor. A melhor TV com o melhor home-theather é pra quem aprecia qualidade de som e imagem, não pra quem só gosta de se jogar no sofá pra ver uma tvzinha. O computador mais rápido e mais moderno é pra quem gosta de jogos complexos ou pretende produzir conteúdo, não pra quem só quer acessar emails e redes sociais. O celular mais avançado é pra quem vive de conexão constante. A câmera mais poderosa é pra quem tem aspirações fotográficas, ainda que amadoras. E assim por diante.

Outra coisa: nem sempre você precisa do modelo mais moderno. Existem versões antigas de câmeras, mp3 players ou de computadores que podem dar conta da sua necessidade. Eu vivi anos com um Creative Zen Mini de 5GB (acima) que pra mim serviu melhor do que os iPods da época. Hoje, abri mão de ter mp3 player, uma vez que meu celular pode armazenar e tocar música. Nesse caso, pra que a sobreposição? Exemplos de sobreposição hoje podem ser encontrado em todas as áreas.

Em resumo, a história é bastante simples: tomar nas próprias mãos a decisão sobre o que se precisa ou não. Pode ser um pouco mais complicado, exigir um pouco mais de pesquisa. Mas vale a pena. Resistir ao hype fácil da cultura digital é ecológico e econômico.

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Leitura Complementar

In Praise of Crap Technology – artigo no Boing Boing sobre o valor de tecnologia não tão de ponta.

Preparado para Morrer – artigo sobre obsolescência programada no Estadão.

The Unconsumption Project – outra do Boing Boing, dessa vez sobre uma marca sem dono pra revitalizar antigos objetos.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: logo do unconsumption.

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O bom e velho menos é mais

Essa idéia não é nova, mas sempre vale o remix. O curioso, nesse caso, o que chama a atenção nessa fala, é aquele olhar americano: os caras tem o talento de pegar qualquer coisa e transformar no pacote método + slogan. Chega a parecer um dos números do McDonalds. Ainda assim, vale o recado.

Outra nota: para quem já ganha pouco, não tem muito e mora apertado por conjunção econômica, esse papo deve soar estranho. No fundo, claro, é uma reação urbana de países desenvolvidos. Mas alguma coisa podemos aprender com o colapso econômico/psicológico dos EUA.

Tinha aquela frase, né, do William Blake: “O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”. Mas, pelo jeito, não é bem assim. Com frequência, o caminho do excesso simplesmente alimenta os excessos do palácio.

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Aproveito o gancho pra resgatar um post de 2008, Menos é menos e tudo bem! Eu sou meio incomodado com essa frase “Menos é mais”, porque no fim das contas ela valoriza o “mais”, né?

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Linha da vida

As moças devem saber, mas eu descobri há pouco: a Vivara lançou esse ano uma linha chamada LIFE. Que, na verdade, é mais do que uma simples linha, é uma espécie de editor/agregador de significados de vida muito mais eficiente do que algumas ferramentas digitais. Viajei demais? Acho que não. Vejamos.

A idéia é bem simples (e comercialmente inteligente): você compra uma pulseira ou colar e vai acumulando berloques que, sugere-se, tenham a ver com a sua história de vida. Arrumou um namorado novo? Bota um coração. Casou e foi passar a lua de mel em Paris? Bota uma Torre Eiffel. Ficou grávida? Bota um bebezinho. E por aí vai. Claro que dá pra usar como mero enfeite, mas a graça está justamente em compor a pulseira pra contar uma história. E com um brinde semiótico: é a linha da vida, em um círculo.

No fundo, é o que o Facebook gostaria que a gente fizesse na sua Timeline. Só que o Facebook, apesar de dar sua ferramenta de graça, é muito mais arrogante e pretensioso. Uma timeline em forma de pulseira (em que pesem aí questões monetárias e sociais) é infinitamente mais lúdica e fiel a uma história de vida do que uma timeline da forma como o Facebook sugere.

Porque a edição, no caso da pulseira, está muito mais na sua mão (sem trocadilhos) e é muito mais simbólica, não é tão estatística e forçada como a timeline digital no estilo Facebook (ou dos fracassados lifeblogs). Nesse último caso, além de partir do antipático pressuposto (ou, pior, da aspiração comercial) de que o que vale da sua vida passa pelo Feice, uma Timeline bacana e fiel dependeria de um usuário que domina perfeitamente as complexas configurações de privacidade. É comum, também, que usuários menos aplicados acabem deixando que configurações padrão façam as escolhas por eles.

Claro, pode-se considerar que uma Timeline do Feice fragmentada, produzida por enganos e baixa intimidade com as configurações técnicas, acabe dando um resultado tão legítimo quanto um diário escrito à mão, cheio de rasuras, imperfeições e lacunas. Mas, de alguma forma, me parece que os lapsos derivados do não entendimento completo de uma ferramenta digital resultam em um produto final menos autêntico. Rasuras aparecem, gritam, enquanto que configurações erradas frequentemente se misturam às postagens corretas, tornam-se postagens corretas.

Outro problema é que, por mais dados que uma pessoa gere ao interagir com os diversos aplicativos que atravessam seu cotidiano, mesmo que isso seja coletado e classificado de forma matematicamente perfeita, ainda estamos falando de fragmentos reunidos dentro de um condomínio fechado – enquanto a vida segue mais rica lá fora (não só fora da internet, mas, antes disso, fora do Facebook, no resto da internet).

Viver e dar sentido à vida, alguns defendem, é narrar e editar a própria história o tempo todo. Sempre fomos, de certa forma, sujeitos às (e impulsionados pelas) limitações das ferramentas da nossa época. Pode ser que no futuro dominemos as configurações de uma timeline digital da mesma forma como dominamos já a fala, a escrita, o recorte, a colagem e a confeção de pulseiras. Mas enquanto isso não acontece, não custa nada investir um pouco de atenção e reflexão no que tentam nos empurrar como sendo a linha da nossa vida.

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Leitura Sugerida

O psicanalista Mário Corso publicou um texto bem interessante na Zero Hora sábado agora sobre O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea. O âmago da história é o seguinte: As classificações das doenças mentais surgiram para que os profissionais das áreas da saúde mental pudessem falar entre si sobre os pacientes e para, de alguma forma, poder prever certa evolução. Ou ainda porque um raciocínio dessa natureza se tornou necessário para efeitos sociais: como para fazer estatísticas, pensar políticas públicas, ou ainda normatizar coberturas por planos de saúde. O dilema é que essa busca por uma classificação científica inclinou os esforços da psiquiatria numa direção pouco produtiva no sentido da evolução da cura.

Aproveitando a batida: quinta passada, o Contardo Calligaris falou na sua coluna sobre o seguinte: Existe um grupo de trabalho encarregado de revisar o “Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais”, cuja quinta versão (“DSM V”) será publicada em 2013. Esse grupo manifesta periodicamente suas decisões e seus pensamentos no site www.dsm5.org. Foi assim que em 2010, se não me engano, soubemos que o “transtorno da personalidade narcisista” sumiria da próxima versão do “Manual”. Tanto mais bizarro que, aos olhos de muitos (assim como aos meus), a personalidade narcisista, longe de estar extinta, é a que melhor resume a subjetividade contemporânea.

Mas ora veja. O Andy Wharol não só foi premonitório (15 segundos de fama e blablablá) como des-diagnosticou todo mundo… tá liberado, galera… pode olhar no lago à vontade.

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Update: a Mari lembrou também dessa reportagem que saiu na Piauí há algum tempo: A Epidemia da Doença Mental.

Também vi que a Alfa desse mês tá com uma matéria na mesma linha… o assunto tá no ar…

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Regras da Firma

“Sérgio, você pode vir aqui na minha sala um minuto?”
“Claro, chefe.”

“Diga.”
“Sérgio, você sabe que… bem, você não sabe… mas nós instalamos recentemente nos computadores do escritório um software que mede o uso que as pessoas fazem da nossa internet.”
“Não sabia… chefe.”
“Pois então, Sérgio. Feche a porte ali, por favor.”

Clam.

“Este calhamaço aqui… estas 934 páginas que eu estou segurando… e só consigo segurar porque faço academia quatro vezes por semana… o que você acha que é isso?”
“Chefe… nunsei… é… “
“Faça sua aposta… chute…”
“É… hmm… bem… o relatório do que eu… faço… na…”
“Continue… você está indo bem…”
“… na internet… aqui… no trabalho?”
“…”
“Chefe?”
“Não, Sérgio. Estas 934 páginas são o meu livro de endereços do Facebook que eu imprimi. O relatório da sua atividade na internet durante o trabalho não preenche nem um post it.”
“Chefe… eu…”
“No mês de junho, Sérgio, você ficou exatamente trinta e… dois… minutos e quarenta e sete segundos na internet. Você é a pessoa que passa menos tempo na internet aqui no escritório. Olha aqui: Silveira, 54 horas no mês passado. Silvinha, 38 horas, sendo 30 no YouTube. Romeu, 28 horas, a maior parte delas no Orkut. Eu: 87 horas de internet.”
“Chefe, eu posso explicar…”
“Sérgio, isso não tem explicação. Pra mim, alguma coisa você está aprontando. A grande questão é: o que você está fazendo o dia inteiro neste escritório que você não está na internet? Você já ouviu falar em redes sociais? Você sabe o que significa a palavra social? Claro que não, Sérgio. Você é anti-social. Você é mais do que anti-social, você e anti-rede-social. Um psicopata!”
“Mas, chefe, eu que juntei o povo pra ir no meu apartamento fazer um churrasco…”
“E não foi ninguém, Sérgio. Porque você não sabe usar a porra do Eventos do Facebook. Mas não é nem essa a questão, Sérgio. A questão é que você precisa entender por que nós somos pagos. Você não está aqui pra ficar de brincadeirinha, ficar de papo no café, ficar fazendo amizadezinhas reais, como você disse no seu único post do Facebook.”
“Chefe, eu prometo que vou entrar mais…”

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Texto meu publicado na revista Noize #46. A revista, como sempre, está ótima.
Leia online aqui. Baixe o PDF aqui.

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Narcóticos

Em matéria de aplacar angústias humanas básicas (solidão, morte, falta de sentido, brutalidade), o mundo contemporâneo pode estar sendo ineficiente, mas não dá pra dizer que é por falta de esforço. Poucas épocas na historia da humanidade (se alguma) oferecem tamanha diversidade de analgésicos para as pequenas e grandes dores da existência.

Mas o que eu acho curioso na nossa época é o seguinte: embora a farmacologia venha se sofisticando cada vez mais, bem como responsabilizada por tentar tapar o sol com a peneira, não é a ciência que tem criado os remédios mais populares e sim a cultura pop. Pela sua farta disponibilidade, seu diálogo constante com as vontades gerais e a possibilidade de auto-administração, a cultura pop continua sendo a principal fonte de busca em massa de conforto, escape e (nos melhores casos) transcendência. Entre Platão e Prozac, o pessoal ainda prefere Insensato Coração, Cat Power, Colheita Feliz, Two and a Half Men e Planeta Terra.

Levando-se em consideração que sempre acabamos usando novelas, seriados, músicas e games pra dialogar em algum nível com nossos dilemas mais profundos, talvez não seja uma má escolha.

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Imagem daqui.

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Lesão Mental por Esforço Aleatório

“Na última década, vem sendo muito comum que as empresas contratem serviços de ginástica laboral pra evitar lesões associadas ao computador em seus funcionários. Todo mundo sempre lembra de cuidar dos dedos, das mãos, dos ombros e das costas. Mas pouca gente se dá conta que a mente também está sendo submetida a estímulos novos e mais intensos nos ambientes de trabalho.

A cabeça também precisa de ginástica e descanso pra dar conta de tanta informação. Se o seu pulso sofre com tantos cliques do mouse, a sua mente deve sofrer com a enxurrada de emails, tabelas, relatórios e documentos que você esta abrindo com esse mouse. Mesmo um vendedor que passe o dia inteiro na rua pode estar sendo impactado negativamente com o fluxo constante de emails e mensagens que recebe no celular.

Falar em despoluir e cuidar da mente no ambiente de trabalho ainda é um assunto novo e um pouco esquisito. Mas tomara que não seja preciso surgir um tipo de tendinite mental pra gente prestar mais atenção nisso.”

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O texto acima foi meu programete Minimalismo de 3 de agosto na Oi FM. Quando fui colar o roteiro do programa aqui, me lembrei dessa iniciativa da ONG britânica Mental Health Foundation de divulgar a prática de “mindfulness” como uma ferramenta de redução de stress e como profilaxia no que diz respeito a outras condições, que vão de ansiedade crônica a depressão. A imagem acima é um dos cartazes da campanha.

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No Brasil, mindfulness é frequentemente traduzido como “atenção plena” ou “presença mental”. Eu conheci a prática de atenção plena através do budismo, mas ela é absolutamente isenta de adesão religiosa. Inclusive, já encontrei o mesmo princípio em aulas de Yoga, alongamento e no relato de esportistas. A prática em si é muito simples. Sabe aquela música do Titãs “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”? Pois então, atenção plena é justamente um outro verso da canção: “Uma coisa de cada vez”. Para aprender, existem certas técnicas: focar a atenção na respiração, fazer contagens, sentar com a coluna ereta, andar prestando atenção nos passos… mas a essência é não se perder no tsunami de estímulos que o mundo sensorial oferece usando algo como eixo (geralmente o corpo). Vale sublinhar que não se trata de NEGAR os estímulos, pelo contrário. Com a prática de atenção plena, se aproveita melhor cada um deles – na sua vez.

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Uma vez, lembro que li no ex-blog do Eduf um termo interessantíssimo que me grudou na mente: mindless browsing. Traduzindo, vamos dizer que seria “ficar browseando a esmo, sem presença mental”. Que é quando a gente fica na internet pulando de um site pra outro, abrindo um monte de abas, passando um pouco de tempo em cada uma…enfim, praticando o tal do mindless browsing. Se você parar pra perceber, o mindless browsing agita a mente e, na repetição, deixa o cara meio zonzo, meio abobalhado. Mindless browsing é a condição básica de navegação da maior parte de nós. Mas só porque ela é a forma corrente de uso do computador, não quer dizer que seja a mais saudável.

A prática de atenção plena seria justamente o antídoto para o mindless browsing: parar, respirar, fazer uma coisa de cada vez. Eu não estou dizendo que é fácil (muito menos que eu seja bom nisso…). Na verdade não é, porque parece que ficar a esmo, essa sim é o nosso funcionamento natural. Mas, iniciativas como a da Mental Heatlh Foundation estão jogando luz sobre uma outra possibilidade: a presença mental, a atenção no momento presente, é que seria a nossa condição básicas de sanidade e operação.

Para mais argumentos, dados e até um curso online de prática de mindfulness,visite o site da campanha.

Se alguém quiser dicas de onde encontrar esse tipo de treinamento, falamos nos comentários.

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Telas

Talvez um dos principais objetivos na vida de uma tela seja seduzir os humanos. E que alvo fácil nos tornamos. Diante de telas, todos somos um pouco como aqueles insetos que procuram a luz (ou, pra não ficar no clichê dos insetos, como a Carolyne de Poltergeist). Telas e olhos humanos: feitos uns para os outros.

São muitos os aspectos que nos atraem nas telas, mas creio que o princiapal é o fato de que uma tela estabelece limites claros entre o que está acontecendo dentro e fora delas. E dentro, todos sabemos, a vida é bem mais confortável: as explosões são inofensivas, a pobreza é suportável, a morte é uma abstração, a corrupção é do outro, os dramas são controlados e a comédia, fartamente disponível.

Não há dúvida de que uma tela conectada à internet oferece maior nível de interatividade e borra um pouco os limites entre a confusão de dentro e a de fora do retângulo. Mas na comparação, não adianta: em termos de perigo, a confusão de fora sempre vai ganhar da confusão de dentro.

A constatação é simples e deve ser antiga. É fácil imaginar o primeiro ser humano que buscou refúgio pela primeira vez dentro de uma caverna. Aposto que não foi o teto ou as paredes que lhe transmitiram alívio. Olhando para o tumultuado mundo lá fora, com o rosto iluminado por descargas elétricas, ele deve ter percebido as inegáveis (ainda que temporárias) vantagens de ver uma tempestade emoldurada pelo buraco da entrada.

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Imagem 1: série The Iluminatti de Eva Baden, toda com fotos de rostos iluminados por telas.

Imagem 2: anúncio da Band Sports que ganhou Leão de Bronze em Cannes.

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Leia também: Telas Fixas, Telas Móveis, Telas Coletivas, Telas Íntimas.

Leia também: As telas como personagens de Star Wars.

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Minimalismo – de 3 a 14 de junho

Nas últimas duas semanas, eu não tenho postado muito aqui. Mas tenho falado diariamente, como sempre, na Oi FM sobre…

- Os mitos da usabilidade. Pra ouvir, clique aqui.

- Os expansivos da internet. Pra ouvir, clique aqui.

- A confusão entre  passado, presente e fututo. Pra ouvir, clique aqui.

- Quem tem o poder do tempo real? Pra ouvir, clique aqui.

- De novo ele: o futuro! Pra ouvir, clique aqui.

- Democracia digital. Pra ouvir, clique aqui.

- Tecnostress! Pra ouvir, clique aqui.

- Crowdsourcing na publicidade. Pra ouvir, clique aqui.

Beleza?

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O início, o fim e o meio

A onda não é nova, mas agora parece estar chegando a algum tipo de tipping point: bandas fazendo shows (e turnês) para tocar discos inteiros, geralmente clássicos da sua própria discografia. O que o De Falla (de forma relevante e bem sucedida) fez aqui em Porto Alegre duas semanas atrás vem de uma linhagem interessante que atravessa diversas estirpes do rock. Basta dar uma googleada pra descobrir que já tivemos o Pixies tocando o Dolittle (inclusive no SWU aqui no Brasil), o Weezer tocando o Pinkerton, o Queens fazendo shows especiais do álbum de estréia, o Motley Crüe tocando o Dr. Feelgood, o Nine Inch Nails tocando o Downward Spiral, o Cracker fazendo o Kerosene Heat, o Melvins mandando o Houdini, o Primal Scream viajando com o Scremadelica e o Sonic Youth desenferrujando o Daydream Nation (que, na verdade, nunca enferrujou). Isso é só um aperitivo, claro. Continuando a pesquisa, a lista não termina.

O ponto é: pra que isso? O caminho mais raso pra responder à questão é culpar uma indústria da música perdida, que está experimentando todas as opções de venda e conexão com os fãs. Isso nos levaria, então, às famosas turnês caça-níqueis. Mas… se não nos contentarmos com a explicação mais simplista e militante, precisamos cavar um pouco mais. E descobrimos que, na cultura pop, a física quântica venceu: hoje, é possível você viver simultaneamente em duas, três, quatro épocas diferentes ao mesmo tempo sem que isso seja mal visto como era nos anos 90. Logo, se hoje tudo pode e tudo é de hoje, seria natural resgatar álbuns clássicos em sua totalidade.

Mas aí também a resposta está incompleta. O resgate de um clássico recente não é o mais importante (apesar de ser curioso). O ÂMAGO da história é o formato álbum, AQUELA COISA COM INÍCIO, MEIO E FIM que foi despedaçada e jogadas em pastinhas com o advento do mp3. Início, meio e fim são três elementos absolutamente estranhos à cultura digital, cujo fluxo de conteúdo sempre tende a um indigesto infinito.

Pois bem. Esses dias, comentei na Oi FM que uma das grandes vantagens  dos livros e revistas tradicionais em relação às suas versões interativas (e experimentais) em tablets e e-readers é o fato dos meios impressos terem INÍCIO, MEIO E FIM. Preste atenção: mesmo os recordes de venda de e-books da Amazon são baseados em obras digitais que emulam o conceito clássico de livro, com INÍCIO, MEIO E FIM. O Flipboard, aplicativo popular entre os usuários de iPad, também tenta formatar a enxurrada de conteúdo das redes sociais como uma revista com… INÍCIO, MEIO E FIM.

(Não adianta: o ser humano, todos sabemos, adora limites. Até pra poder ficar tirando onda de que quer vencê-los, transcendê-los.)

O conceito de álbum guarda essa semelhança com os livros e revistas impressos: ele seduz pela finitude. Mas ok. Mas então por que precisa ser tocado presencialmente? Por que o álbum ganha tanta exposição mais na sua forma ao vivo do que no seu formato em vinil, CD ou até mesmo digital? Ora: o que é mais finito (e, hoje, atraente) do que assistir a um SHOW de um álbum inteiro, com as músicas tocadas na ordem? O que é mais excitante do que um evento físico – porém intangível – que poderá não acontecer de novo e que não está sujeito nem a 1) ser despedaçado num shuffle qualquer 2) ser relegado ao limbo de uma pasta de MP3 que é poucas vezes visitada com tanta solenidade?

Tem algo que muita gente não entende - especialmente os envolvidos no lado mais comercial da tecnologia: a finitude, o estático, a desconexão, tudo isso são elementos fundamentais para a cultura digital – e para nossa sanidade coletiva.

É como quando passa aquele cara na rua carregando uma placa que diz O FIM ESTÁ PRÓXIMO. Se você pensa que o pessoal se apavora, você não está entendendo. O pessoal, hoje, grita OBA!

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Corrida-dô

Do Que Estou Falo Quando Eu Falo de Corrida é aquela coletânea de elegantes ensaios em que o escritor japonês Haruki Murakami divaga sobre os meandros do hábito que mantém há mais de 25 anos: correr. O livro tem diversos predicados, mas talvez o mais impressionante seja criar um nexo popularmente acessível para a associação entre exercícios físicos e tarefas intelectuais.

A surpresa começa assim: em pleno 2011, quando se discute largamente preconceitos de raça, vontades sexuais e opção religiosa, o clichê do escritor de vida insalubre reina sólido entre nós. Não sou eu que digo, é o próprio autor num dos ensaios, corroborado pelo fato do livro surgir como exceção, como objeto de curiosidade. Que autoridade tem um romancista para escrever sobre corrida?

Murakami dá suas credenciais: além de correr quase que diariamente, ele costuma participar de uma maratona por ano e ainda inclui alguns triatlos no currículo. Não é, certamente, daquele pelotão de elite e nem quer ser. Embora não despreze os companheiros de esporte nem os eventos de que participa, não é tanto a corrida que o interessa e sim o caminho. Típico de um japonês.

Aprendi com uma shiatsuterapeuta e monja zen que caminho em japonês é DÔ. Daí os termos Judô (caminho suave) e Aikidô (caminho da harmonização da energia), por exemplo. Vem da cultura oriental, acho, a noção de que toda e qualquer atividade pode ser tomada como “caminho”, como um meio de autoconhecimento, de consciência e domínio das sua própria capacidade. Desde tomar chá até jogar flechas em um alvo (e fica aqui a recomendação do excelente A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen), tudo pode ser utilizado como método de investigação da própria mente e da realidade que ela tricota. É aquela história: um caminho que tem por objetivo ser percorrido mais do que levar a algum lugar.

Mas o livro vai bem além da filosofia barata que estou engendrando aqui. Ele é, na verdade, o relato sóbrio e racional de um homem experiente que já escreveu mais de 12 romances (fora os contos, ensaios e traduções) e correu perto de 30 maratonas, uma lista de feitos que o colocaram tempo suficiente em contato consigo mesmo para conhecer seus limites e suas potencialidades, bem como reentrâncias da consciência que a maior parte de nós não costuma visitar.

É aqui que reside o argumento que abre o post: pouco se vê escrito por aí, ainda mais composto de forma tão poética, sobre a sutil conexão entre mente e corpo. O segredo da Murakami é o seguinte: estamos lendo sobre uma experiência de primeira mão cujo resultado é a investigação. A corrida é parte do seu processo de trabalho, uma forma, segundo ele, de lidar com as toxinas da mente que um romancista acessa quando se vale da introspecção profunda como ferramenta de mineração.

Esse, a meu ver, é o aspecto mais bonito do livro. Embora ele fale de mente e fale de corpo, à medida em que avançamos na leitura vai ficando mais difícil dissociar um do outro – assim como a linha de chegada se mescla ao percurso de quem transforma tudo em caminho.

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Minimalismo – 16 a 20 de maio

O que rolou essa semana na minha coluna auditiva diária sobre cultura digital na Oi FM:

- Dia 16 eu falei sobre os commonplace books. (Pra ouvir, clique aqui.)

- Dia 17, o tema foi a nova fronteira dos dispositivos sensíveis ao toque. (Pra ouvir, clique aqui.)

- Os sites mais caros do mundo foram o assunto do dia 18. (Pra ouvir, clique aqui.)

- Dia 19, comentei sobre o valor da sua atenção. (Pra ouvir, clique aqui.)

- E hoje, dia 20, foi dia de tratar dos games de geolocalização. (Pra ouvir, clique aqui.)

O Minimalismo vai ao ar de segunda a sexta às 10h15 dentro do programa Rádio Café.

Você pode ouvir no rádio ou nas internétes.

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Calças Cáqui

Por acaso, continuo escrevendo sobre roupas. O assunto está me perseguindo. Ou eu a ele, certamente. Freud explica. Ou Jung. Ou Lacan. Ou Perls. Ou eu.

Enfim.

Neste fim de semana, entrei na reta final da biografia do Allen Ginsberg – cuja leitura vem se estendendo desde outubro passado – e me deparei com mais uma passagem que merece uma escrevinhadinha aqui.

O trecho conta um episódio de 1994 quando a Gap, clássico magazine da classe média americana, botou na rua uma campanha com nomes proeminentes da cultura e da contracultura que haviam… usado calças cáqui. As chamadas “khakis” são um dos ícones mais perenes da história da moda, tendo origem na vestimenta militar e chegando ao uso civil como parte do uniforme “business casual”.

Segundo o blog Listology…

“Arthur Miller wore kakhis.
Kerouac wore khakis.
Andy Warhol wore khakis.
James Dean wore khakis.
Isamu Noguchi wore khakis.
Miles Davis wore khakis.
Howlin’ Wolf wore khakis.
Marlene Dietrich wore khakis.
Amelia Earhart wore khakis.
Allen Ginsberg wore khakis.
Pablo Picasso wore khakis.
Marilyn Monroe wore khakis.
Jean Cocteau wore khakis.
Chet Baker wore khakis.
Hemingway wore khakis.
Steve McQueen wore khakis.
Frank Lloyd Wright wore khakis.
Zsa Zsa wore khakis.”

A idéia da Gap com a campanha não é difícil de decodificar: apimentar um pouco o status das calças cáqui, que haviam se transformado (e ainda são, de certa forma) em sinônimo de caretice e yuppismo. No voraz mercado consumidor americano, forjado à base de consumo como forma de rebeldia, não tinha como dar errado. Deve ter vendido horrores.

Mas, ao mesmo tempo, claro que um monte de gente caiu matando em cima do Allen Ginsberg. Como um dos pais da contracultura aceitou 20 mil dólares pra pousar pra anúncios da Gap? É mais ou menos como se o Lourenço Mutarelli daqui a pouco aparecesse num comercial da Renner.

Mas no livro do Bill Morgan, esse que tô lendo, conta-se que a motivação do velho beat era nobre: o dinheiro seria – e foi – todo doado à Escola Jack Kerouac para Poetas Desencarnados, parte da universidade budista de Naropa no Colorado. Não adiantou muito. Mesmo com a doação integral do cachê citada no anúncio, Ginsberg foi alvo de uma onda de críticas por “ter se vendido”. Qualquer defesa diante de turbas contraculturais enfurecidas é sempre inútil e o poeta se limitou a lamentar (e talvez aproveitar o fuzuê, pois era conhecido tanto por sua generosidade quanto por seu ego tamanho família). O curioso é que Ginsberg sempre viveu de forma materialmente muito mais simples do que nomes como o amigo Bob Dylan ou Mick Jagger, também ícones da contracultura mas que raramente foram criticados por seus luxos.

Coisas do mundo pop, que obedece a uma lógica, mas não necessariamente serve a algum tipo de justiça. Ou seria o contrário?

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Nos anos 90, a Levi’s também fez anúncio usando trechos de livros (e grandes fotos) de Kerouac, Ken Kesey e Hunter Thompson onde eles citavam a marca no meio da história. Não achei numa busca rápida do Google Images, mas lembro claramente de ver isso em algum anuário de publicidade. Se eu achar um dia desses, escaneio as peças.

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O Crushable fez uma brincadeira – não tão brincadeira – com a primeira imagem do On The Road do Walter Salles Jr. De fato, como coloca o blog, é uma foto que se presta perfeitamente para anúncios.

A foto original:

Versão Levi’s:

Versão Converse:

Mais uma prova da bagunça que se tornou a iconografia contemporânea. Ninguém é mais de ninguém – e isso, ainda que assustador, tem aí um componente de liberdade.

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Crônicas de Gelo, Fogo e Sangue do Autor

Deu na The New Yorker semana passada: o escritor George R.R. Martin vem sofrendo há anos bullying dos seus próprios fãs. Roteirista da série Além da Imaginação e premiado escritor de ficção científica, Martin já vendeu mais de 15 milhões de livros ao redor do mundo com Crônicas de Gelo e Fogo, um descomunal épico de fantasia soturno e violento que vem sendo publicado desde 1996 e deve ser encerrar em alguns anos com a contagem total de sete populdos volumes. Os quatro primeiros já foram lançados nos EUA, sendo que Game of Thrones, que inaugura a coleção, também está para estrear semana que vem como série na HBO gringa. No Brasil, A Game of Thrones chegou às livrarias só no ano passado, o segundo segmento chegou agora no início do ano e a série estréia na nossa HBO em maio.

Como é de se esperar, o criador de um verdadeiro universo a la Tolkien (com mais sangue e lágrimas, segundo relatos) tem um séquito de apaixonados que costuma esmiuçar a obra e discuti-la nos mínimos detalhes em fóruns e blogs internet afora. Até aí tudo bem. Martin, ele mesmo, é um clássico fã de ficção científica e frequentador de convenções do gênero desde sempre, o que o coloca em posição de igualdade com seus leitores em muitos aspectos.

Os problemas começaram quando o intervalo entre o lançamento mais recente e o próximo começou a se estender. A Feast for Crows é de 2005 e A Dance With Dragons está previsto apenas para julho deste ano. Para nós, que não estamos nem aí pra tudo isso, tudo bem. Mas para uma série de fãs exaltados, o assunto é sério. Tão sério que eles começaram a vigiar digitalmente o ex-ídolo. Postando com certa frequência sobre futebol, política e suas viagens particulares em seu blog, Martin começou a ser xingado em comunidades de fãs sobre sua suposta preguiça. Quando os revoltados mais desbocados foram expulsos dos fóruns oficiais, passaram a criar seus próprios espaços para cultivar a ira de quem se sentiu… hmmm… bem… traído. Chegou-se ao ponto de alguns ex-fãs calcularem o número de horas que o autor supostamente utilizou em suas atividades cotidianas e mostrar que esse tempo poderia ter sido utilizado para adiantar o lançamento de A Dance With Dragons.

Muito há o que se dizer e o que se pensar desse caso.

Martin com alunos de uma oficina literária em 2004

Primeiro, numa certa altura, a matéria da New Yorker levanta uma questão fundamental que atravessa o tema como uma lança medieval: muitas pessoas hoje se consideram não exatamente público de um artista ou de uma obra, mas CLIENTES. Não estamos falando de processos colaborativos, da aproximação e troca entre audiência e artista, mas sim da redução da relação entre as partes a uma mera transação comercial. Em outras palavras, gente que acha que pode qualquer coisa só porque “está pagando.” Por mais que a divisão entre artistas e público esteja cada vez mais borrada, “Eu estou pagando” é uma frase arrogante e que pouco contribui para o aprofundamento desses laços. Não sou a favor da canonização de artistas, mas também não defendo de forma alguma a dessacralização pelo poder financeiro. Aliás, derrubar pedestais a golpes de maços de dinheiro não é um bom negócio pra ninguém em área alguma.

É importante frisar, como bem lembrou o repórter, que quem pagou pelos livros de Martin teve sua mercadoria entregue. O que se começou a cobrar foi uma espécie de capital futuro, como se o investimento emocional absolutamente voluntário e particular no universo criado por Martin o obrigasse a devolver certos dividendos para os “investidores”. Já dizia Exupery que “és responsável pelo que cativas”, mas talvez as coisas estejam um pouco fora de controle aqui.

(Uma digressão: infelizmente, a atitude dos fãs enfurecidos não é um fato isolado. Preste atenção e perceba como cada vez mais tem gente dando uma de “estou pagando” nas ruas ou na internet. Tem um lado certamente saudável de nós, brasileiros, começarmos a lutar por nossos direitos. Mas em algumas situações, desajeitados com essa nova idéia, talvez estejamos nos perdendo. Precisamos cuidar para não nos tornarmos mimados e birrentos como alguns povos do tal primeiro mundo.)

Vamos adiante.

Em segundo lugar, lembrei do debate do qual participei ano passado no Fórum Música Brasil, onde um dos assuntos era a divisão de tempo de artistas que também fazem as vezes de produtores. Alguém da platéia foi direto ao ponto: o artista que fica muito tempo interagindo com seus fãs nas redes sociais,  uma atividade extremamente absorvente, não perde tempo de criação?

Antes de mais nada, é preciso reconhecer a variedade de formatos de atuação artística que existe hoje. De um lado do espectro, temos artistas que se dedicam apenas a compor, tocar, escrever, filmar e se envolvem o mínimo possível em questões alheias ao processo criativo por uma opção ideológica ou por simplesmente terem construído essa condição. Na outra ponta, temos artistas que precisam, por questão de sobrevivência, gerenciar completamente sua carreira, produzir seus shows, vender seus quadros, fazer contatos telefônicos, pagar seus impostos (caso não sejam anarquistas roots) e também manter contato constante com os fãs, seja pra efeito artístico ou de divulgação.

Entre um pólo e outro, há toda uma gama de combinações: artistas que gostam e fazem com talento a ponte com os fãs, artistas que tem a mão para os negócios, artistas que se autoproduzem para ter controle de todos os aspectos do seu trabalho e por aí vai. Podemos inclusive chegar ao ponto de encontrar artistas que transformam a produção do seu trabalho e de sua carreira como uma obra em si, senão uma obra artística ao menos uma peça interessante de comunicação social. O Emicida é o que me vem à mente como exemplo disso. Sua presença na internet é quase como um processo constante de rimar, não necessariamente a rima da música, mas a rima da labuta artística.O Radiohead é outro exemplo constante há muito anos. Lembram quando um dos guitarristas abriu um blog pra falar do processo de produção de Kid A?

O tabuleiro do jogo A Game of Thrones.

Voltando à questão do público, não é exatamente novo o caso de fãs que sentem-se donos da vida particular do artista, bem como de sua arte. O que vem mudando, já faz algum tempo, são as imensas possibilidades de colaboração e vigilância que a internet permite. No caso do autor de Crônicas de Gelo e Fogo, obviamente a coisa tomou proporções épicas. Podemos olhar como um épico do Monthy Pyton, rindo à distância dos exageros dos detratores de George R. R. Martin. Ou podemos buscar uma via mais interessante e pensar em como toda essa função é quase uma extensão do processo criativo do autor (como essa pressão interferiu na trama que está pra ser publicada?) e até mesmo das batalhas travadas em Westeros, o continente místico-medieval que serve de palco para as aventuras da saga. Onde começa e termina Westeros? São os fãs personagens vivos de uma trama paralela de Crônicas de Fogo e Gelo? É tudo um grande RPG bizarro que fugiu do controle de Martin?

Meu veredicto, se é que ele é necessário: Martin e seus fãs são vítimas do tempo em que vivem, do tempo em que todos vivemos. Um tempo em que a maior parte das pessoas não desenvolveu suas ferramentas sociais internas na mesma velocidade em que evoluíram as ferramentas sociais digitais – externas. Um tempo em que os códigos que servem pra mediar as relações pessoais são influenciados por softwares e redes ainda novos, quase ingênuos, e que não estão organizados ainda pra suportar – sem causar uma boa porção de tensão – o amplo escopo da experiência humana.

Boa sorte a todos os envolvidos!

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À Sombra da Liberdade

Ano passado fui convidado pra participar da concepção do Fórum da Liberdade 2011 como Consultor de Conteúdo. Evento já tradicional do pensamento liberal, o Fórum este ano resolveu ampliar o seu alcance de público e escopo, sabiamente cruzando a questão da liberdade com a cultura digital. Entre os palestrantes, estão Marcelo Tas, Marcelo Madureira, Lobão, Pedro Dória,o Romero Rodrigues do Buscapé, o Rony Rodrigues da Box 1824 entre outras figuras ligadas ao mundo da mídia, economia e política.

Abaixo, um post que escrevi para o blog do evento.

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No livro “Cartas a um Jovem Terapeuta”, o psicanalista Contardo Calligaris reuniu uma série de conselhos a aspirantes (ou curiosos) da área do tratamento psíquico. E, como faz parte do trabalho desses profissionais compreenderem o espírito do tempo em que vivemos, ele traz à tona um traço marcante da nossa era. Diz Contardo:

“A modernidade define o sujeito não por sua herança, mas por suas potencialidades. À primeira vista, é uma libertação, o passado não nos define mais com a mesma veemência, os anseios de mudança podem salvar o dia. De fato, a libertação é apenas aparente: o futuro projeta sobre o presente uma sombra tão escura quanto a que antigamente era projetada pelo passado.”

Discutir a liberdade na era digital passa obrigatoriamente por discutir essa sombra que o futuro projeta sobre nós – uma sombra formada em boa parte pela onipresença da tecnologia em nossas vidas. É cada vez mais comum discutir na mesa de bar ou ver no noticiário da TV rumores sobre o próximo tablet, mas, até bem pouco tempo atrás, isso era assunto de publicações especializadas e técnicos que conversavam com jargão próprio. Hoje, a tecnologia tornou-se pop.

Os gadgets, que atraem o interesse de pessoas de todas as idades e classes sociais, estão compondo uma poderosa simbologia que está moldando nossa forma de ver e atuar no mundo. Essa é a ideia de sombra que estou roubando de Calligaris: o videogame do futuro, o celular do futuro, a casa do futuro, o carro do futuro, embora ainda não existam de fato, embora sejam “do futuro”, estão exercendo uma influência tão grande em nossas vidas quanto exerciam antes as tradições familiares e os dogmas religiosos.

Por serem cheios de luzinhas coloridas e nos permitirem fazer coisas fantásticas (estacionar sem usar as mãos, jogarvideogame sem usar as mãos, talvez em breve usar as mãos sem usar as mãos), acabamos dando um desconto e não sentindo as sanções que eles nos impõem. Mas não deve ser fácil para nosso inconsciente ser confrontado tantas vezes e com tanta intensidade com ideias pré-concebidas – se você prestar atenção, as matérias são cada vez mais taxativas – de como viveremos.

Se lutamos tanto para nos libertarmos de antigas amarras do passado, dos dogmas, das tradições, das visões conservadoras, não podemos perder de vista que também teremos de ser cuidadosos com a ditadura do futuro pré-concebido. Ele é bonitinho, divertido e, sem dúvida, útil. Mas também pode ser ditatorial. Cabe a nós desfrutar de tudo que a tecnologia pode nos prover, sem deixar de perguntar constantemente o quanto estamos construindo o nosso futuro e o quanto estamos sendo construído por ele.

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Infinito

O consumo de conteúdo através de meios digitais tem uma grande diferença para os meios impressos. No caso dos meios impressos, não há um fluxo de conteúdo e sim um volume fixo que é mais fácil de se lidar. No caso dos meios digitais, como o computador, o fluxo é é constante, renovado o tempo todo e você ainda abre quantas janelas ou programas quiser. É como um rio caudaloso com uma série de comportas e registros que você pode abrir e fechar de acordo com a sua vontade.

O problema é que a nossa vontade às vezes é comandada pelo fluxo de conteúdo e não por nós. Todo mundo já esteve em frente a uma interminável caixa de emails que parecem gritar pra serem respondidos todos numa única sentada ou colado num site de vídeos que tem um acervo que parece ser infinito.

Lidar com o fluxo de conteúdos nos meios digitais é lidar com a idéia de infinito. Uma idéia que muitas vezes nos hipnotiza, nos paralisa e frequentemente nos faz perder tempo.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.

Todos os dias às 9h30 e às 13h45 no seu rádio ou na webradio

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A importância do pimpão

Esses tempos, alguém me passou essa apresentação desse cara chamado Scott Prindle. Ela foi apresentada (claro, apresentações são apresentadas) num evento de nome curioso —> Make Digital Works, um encontro de profissionais de publicidade ligados à tecnologia pra conversar sobre os caminhos tortuosos na implantação de cultura digital em agências. Mais curioso que o nome do evento é o nome do cargo que o Scott Prindle propõe e que vem se tornando cada vez mais comum, ainda que nem sempre com esse rótulo. O Creative Technologist é o cara que entende de tecnologia mas que dialoga bem com a linguagem criativa. Minha descrição, em uma frase, é ingênua e simplista, porque no dia-a-dia a coisa é bem mais complexa.

Lidar com essa mudança, já dizia uma moça da Fallon no Proxxima em 2007, não é uma questão de processos e sim uma questão de cultura. E cultura é ar, você não enxerga, você não pega, você não manipula – você respira, inspira, processa e expira, interagindo de forma sutil com ela. É comum buscar a revisão de processos com o objetivo de reciclar a cultura, e é mais comum ainda que isso dê errado. Mexer com cultura é mexer com o indizível e com o invisível. Exige, acima de tudo, uma infinita paciência, artigo raro no mercado e frequentemente substituído por truculência e pelo falso poder dos altos investimentos instantâneos.

É impressionante a imensa disponibilidade de profissionais de todas as áreas pra conversar sobre esse tema. Parece haver, na verdade, uma necessidade generalizada de falar, porque ninguém tem respostas definitivas, todo mundo tem problemas culturais ou estruturais e faltam profissionais qualificados pra fazer trabalhos que já tem demandas bem importantes e significativas. Nos últimos 4 anos, não tenho tido dificuldade de trocar idéia em mesas onde todo mundo rapidamente abre o jogo dos seus dilemas (e engana-se quem pensa que eles residem somente nas agências ditas offline). Diante de cenários conturbados, a conversa continua sendo uma forma poderosa de conexão e quase que de terapia de grupo do mercado.

Por isso, todas as dicas são válidas e bem-vindas. Além da apresentação do Scott Prindle, que botei lá em cima, queria dividir com os leitores interessados no assunto essa outra, abaixo. Fazendo uma pesquisa sobre E-Government há alguns meses, me deparei com uma pequena mina de ouro: todas as apresentações da Gov 2.0 Conference que rolou em novembro passado na Austrália. Entre elas, há esta, bem prática, que traz um esquema simples e que pode ser aplicado na maior parte dos lugares no que diz respeito a introduzir cultura digital em um ambiente analógico.

Eu tenho uma série de idéias a esse respeito e vou escrever ao longo dos próximos meses sobre isso aqui também. Mas como introdução ao tema, eu colocaria na roda a minha primeira regra pra integração de equipes de diferentes backgrounds: CONTRATE UM PIMPÃO.

Se você chama pra sua equipe um cara que é genial do ponto de vista técnico mas que é 1) antipático ou 2) anti-social ou 3) psicopata da competição interna ou 4) desagregador ou 5) alucinado por reconhecimento ou qualquer outra coisa que o isole da massa, é quase certo que 1) os projetos se tornem dolorosos 2) e comecem a ser boicotados e por fim 3) todo o vasto manancial da nova cultura seja prejudicado e atrasado em alguns anos porque todo mundo vai pegar nojo de qualquer coisa ligada àquela figura lamentável. Como diz um psicólogo social que eu conheço, “Todos os grupos cooperam. Uns cooperam para trabalhar e outros cooperam para não trabalhar”. É fácil que, no segundo caso, equipes inteiras se unam em torno de lideranças às avessas que são especialistas em inspirar a união através do boicote e da procrastinação.

Não é?

O PIMPÃO, por outro lado, é… PIMPÃO. Claro que não basta ser PIMPÃO, é preciso entregar. Vamos partir do pressuposto que o PIMPÃO está bem resolvido tecnicamente e aí a disseminação da nova cultura é quase que uma parte natural da personalidade e das atividades diárias dele. O PIMPÃO não dissemina conhecimento, ele transforma toda e qualquer conversa técnica em papo de boteco. Você tá lá, no corredor, falando bobagem e quando viu, aprendeu alguma coisa interessante. E o corredor é um poderoso instrumento de trabalho para o PIMPÃO. Ele passa muito tempo nele, transitando entre diferentes departamentos e fazendo a polinização tão cara à disseminação da nova cultura. O PIMPÃO reconhece barreiras, paredes, cargos, andares e salários. Mas ele não leva isso tão a sério. Só o suficiente pra não ser mandado embora.

O PIMPÃO, claro, nem sempre é uma pessoa. Às vezes é uma equipe. Mas mais do que isso, ele é um conceito, uma forma de fazer as coisas. O PIMPÃO, ou o PIMPÃONISMO, não é uma unanimidade e nem sempre a única resposta pra introdução de novas culturas. Também dá pra fazer com aquele psicopata lá de cima (e como tem agência que usa esse recurso, faz-se fortunas com isso). Mas é como diz uma frase que vi numa matéria da The New Yorker sobre outro assunto: ”Nós passamos uma geração inteira tentando reorganizar as escolas pra tentar fazê-las melhores, mas a verdade é que as pessoas aprendem com pessoas que elas amam.”

Desculpa o fechamento hippie, talvez seja um exagero. Mas acho que deu pra entender qual é o ponto.

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Imagens: esculturas da Kiki Smith

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Código de Barras

Você viu essa? Uns cientistas espanhóis conseguiram uma façanha curiosa: implantar códigos de barras em embriões e células embrionárias de camundongos usados em pesquisas. São códigos de barras feitos de silicone que se desfazem com o tempo ou não, podem também permanecer na célula.

O objetivo dos caras com isso é facilitar a identificação de determinadas células pra acelerar os processos de pesquisa. Apesar de hoje o recurso só estar sendo testado em camundongos, os cientistas esperam poder identificar também embriões e células humanas.

Em algumas pessoas a notícia pode causa calafrios. Não porque os cientistas estejam mal intencionados, mas porque o código de barras é um dos símbolos gráficos mais fortes da pasteurização da cultura e do comportamento humano. Quantas vezes você já viu algum tipo de cartaz ou imagem de contracultura associando o código de barras a conceitos como comoditização do pensamento ou lobotomia consumista ou coisas desse tipo?

A mera possibilidade de um embrião humano crescer identificado com um código de barras soa sem dúvida como algo prático em procedimentos médidos, mas também toca no nosso inconsciente, no nosso desejo de não sermos tratados como produtos, e faz a festa de quem gosta duma campanhazinha anti-qualquer-coisa-da-sociedade-de-consumo.

Estou até impressionado que ninguém ainda fez muita gritaria sobre isso.

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Monja Coen dia 25 em Porto Alegre

O flyer é bastante auto-explicativo, então só deixo aqui um convite de minha parte. Eu estarei lá. Já ouvi a Monja Coen falar sobre esse assunto e garanto que sua presença e sua fala não tocam somente corações e mentes budistas. Muito antes pelo contrário, ela costuma se posicionar de forma bastante abrangente e abarcar situações universais.

Divulguem o evento a amigos e colegas que possam se interessar pelo assunto. Qualquer pessoa que lida com gestão, liderança ou essas coisas aí certamente terá uma ótima experiência.

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Não-lugares

Augé entrevistado pelo programa Milênio, da Globo News.

Alguns meses atrás eu comentei no Minimalismo e aqui no blog sobre o efeito que os aeroportos têm sobre nós, de fazer a gente se sentir numa espécie de limbo, num lugar entre lugares. Uma pessoa nos comentários me alertou que o antropólogo francês Marc Augé tem toda uma teoria sobre o assunto. Ou seja, eu estava de metido no assunto.

Augé criou o conceito de não-lugares, espaços ambivalentes, de passagem, que não causam naturalmente a sensação de você fazer parte daquele lugar. Outros exemplos de não-lugares, além dos aeroportos, são os supermercados, os metrôs e os quartos de hotéis. É um conceito interessante porque é derivado e parente próximo da noção de exclusão que permeia a visão urbanista contemporânea. Na ânsia de excluir-se o diferente, o velho, o sujo e o tédio, em alguns casos acaba-se excluindo a si mesmo dos lugares. E os transformando em não-lugares.

Um outro efeito colateral é transformar lugares familiares, como a nossa casa e o nosso trabalho, em não-lugares. Mas isso é assunto pra oooutro post…

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Meus amigos do Facebook

No momento em que escrevo esse post, eu tenho exatos mil cento e catorze amigos no Facebook. No meio dessa turma, tem de tudo: gente realmente próxima, gente que eu conheço de vista, gente que eu conheço de email, gente que eu nunca vi na vida e que nunca me viu, gente que me viu (com os Walverdes, em alguma palestra), me leu (no Conector ou em outros sites) ou ouviu (na Oi FM), mas que eu nunca vi, ouvi ou li. Pra quem mexe com música, cultura digital, mídia, essas coisas, é o tipo de configuração normal. Mas acontece que eu ainda não tinha parado pra pensar e olhar com calma o assunto em termos de Facebook, que é onde mantenho alguns canais de comunicação pessoal. Perfil de ferreiro, espeto de pau.

O que pegou pra mim é algo que já é no máximo tangenciado em análises críticas de redes sociais: a nomenclatura de “amigo”. O conceito de amigo é bem debatido, mas a nomenclatura nem tanto. Quem chama essas pessoas de amigo não sou eu, nunca fui eu: é o Facebook, que não me deixa mudar essa configuração (ou eu não achei o botão certo??). Se fosse eu, chamava tudo de contato e deixara a palavra “amigo” pra algumas pessoas especiais.

Uma certa consertada na situação pode rolar com a criação das listas. Pra poder acompanhar o newsfeed dos meus amigos de fato, sentei como quem escolhe feijão e comecei a separar os amigos dos “amigos”. E é aí que a coisa começou a ficar curiosa.

Listar os amigos não é difícil. Ao contrário do Facebook, que chama todo mundo de amigo, eu tenho bem noção de quem são meus amigos. Mas, saindo desse grupo seleto, tive que começar a inventar categorias. Os conhecidos. Os contatos do rock. Os conhecidões (aquelas pessoas de quem você não é amigo, mas seguido encontra e troca uma idéia). Os mais ou menos conhecidos. O pessoal da publicidade. Os totais desconhecidos. Os nadaver. E por aí vai.

Não é que essas classificações não aconteçam, de alguma forma, na minha mente. Sim, elas ocorrem. Mas quando eu preciso criar nomes tão específicos de grupos numa rede social que possa refletir em termos objetivos e quase matemáticos o que sinto por essas pessoas, tudo fica um pouco engraçado. Uma coisa é você entrar numa nova empresa ou fazer parte de uma nova turma e ao longo do tempo ir encontrando seu espaço, suas afinidades, colocando as pessoas em flutuantes prateleiras mentais. Outra, bem diferente, é fazer isso sentado na frente de uma tela, teclando, classificando, encontrando lugares objetivos para cenários totalmente subjetivos em um curto espaço de tempo.

E o mais interessante: não tem saída a curto prazo. Provavelmente vamos fazer isso cada vez mais nos próximos anos, não apenas nas redes sociais, mas em qualquer meio que exija a entrada de nossos dados particulares que tenhamos gerenciar. A lógica de classificação digital ainda é toda baseada em formulários, listas, caixas de diálogos, colunas, tabelas. E esse raciocínio está migrando para nossas interações pessoais. É uma necessidade de protocolos comuns para o bom diálogo entre sistemas que contamina um pouquinho a busca do bom diálogo pelos humanos.

Nada disso é motivo pra coisas como suicídio coletivo. Escrevo mais como um lembrete, uma nota, um post-it, uma passada de marca texto em uma questão que acaba despercebida muitas vezes (a da nomenclatura!). Em outras palavras, é só uma paradinha de dois minutos pra lembrar que é na tentativa de classificar as pessoas que mora a maior parte dos nossos problemas.

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The Zen Dude

Olha só que pérola: a revista Tricycle promoveu um bate papo de 40 minutos, dividido em duas partes, entre Jeff Bridges e Bernie Glassman. Bridges, você conhece. Provavelmente pelo sua icônica atuação em O Grande Lebowski, obra dos Irmãos Coen que passou de cult movie a culto de fato. Ou então de aparições recentes em filmes de diferentes intenções como Homem de Ferro, Homens que Encaravam Cabras e Coração Louco, que deu o Oscar ao já famoso “Dude”.

Bernie Glassman, por sua vez, é um personagem, digamos assim, mais de nicho. Aluno de um dos mais importantes mestres zen budistas do Ocidente, Maezumi Roshi, Glassman é considerado uma figura importante na construção do conceito de budismo socialmente engajado nos Estados Unidos. Sua organização, o ZenPeacemakers, desenvolveu modalidades de prática totalmente integradas à vida urbana contemporânea, o que incluiu a criação de negócios socialmente engajados e os inusitados retiros de rua (onde os praticantes passam alguns dias vivendo como e entre moradores de rua).

A conversa, em um tom de descontração que lembra muito o climão Lebowski, começa com a história de como os dois se conheceram, passa pelos projetos sociais de cada um e envereda por interessantes reflexões sobre a semelhança entre práticas meditativas e o processo de atuação. Bridges comenta, inclusive, seus sentimentos ambíguos em relação ao trabalho do ator em filmes que são construídos em sua maior parte na pós-produção, como é o caso de Tron Legacy. Se isso, por um lado, tira o romantismo de vestir a roupa do personagem, substituída por vestes especiais que marcam os pontos da computação gráfica posterior, por outro ele declara calmamente: “é como voltar à infância, quando você brinca e tem que inventar tudo na sua cabeça”. E ainda compara a situação com uma expressão clássica de outro grande mestre zen, Suzuki Roshi: “É a mente de principiante.”

***

Uma nota curiosa: interessado em trazer mais substância para a história de Tron Legacy, Bridges convidou Glassman pra participar de algumas reuniões de produção e discutir alguns temas existenciais do ponto de vista do zen budismo. Mas a influência é em duas mãos. Segundo uma outra matéria da Trycicle, do ano passado, Glassman tem na sala dele os três pilares espirituais do ZenPeacemakers com uma tradução em Lebowkês abaixo de cada um:

“Not Knowing, thereby giving up fixed ideas about myself and the universe.
(The Dude is not in)
Bearing Witness to the joy and suffering in the world
(The Dude abides. . .)
Loving Action
Healing myself and others
(Enjoyin’ my coffee)”

***

Outra coisa: vale um passeio no site do centro zen budista gaúcho Via Zen. Ali tem o relato de um monge zen gaúcho que está vivendo na Suíça e que participou de um retiro de rua. Também há uma sessão dedicada a uma série de textos e entrevistas em português sobre a conexão Porto Alegre/Brasil-Zenpeacemakers pilotada pelo psiquiatra José Ovídio Waldermar, coordenador do Instituto da Família.

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Vida Artificial

Você deve ter lido ou ouvido a gritaria semana retrasada: o geneticista americano Craig Venter “criou vida artificial” ao produzir em laboratório o genoma de uma bactéria e depois fazendo ele funcionar dentro de uma outra bactéria pela primeira vez na história. Com isso, ele estabeleceu as bases de um futuro repleto de possibilidades, não apenas para a biologia mas também para o cinema de ação e os protestos católicos.

Duas coisas me chamaram a atenção no auê todo que se criou em torno desse marco da genética. A primeira é até natural nos tempos em que vivemos: a chamada dos noticiários nos induzia a tomar o potencial do feito pelo feito. A mensagem que ficava, especialmente se você assistia às reportagens da TV, a era a de que um cientista havia de fato criado vida totalmente sintética em laboratório. Só que lá no meio de algumas reportagens de revistas, mas muuuuuito discretamente, vinha alguns esclarecimentos a respeito das limitações do “ato divino”.

Por exemplo, não é que Venter tenha criado os genes de um DNA. Ele na verdade usou genes produzidos por laboratórios especializados nisso, uma atividade que existe desde os anos 70. Em segundo lugar, ele não inventou a sequência do nada, mas replicou a codificação do DNA já existente de uma bactéria. O grande feito de Venter, na verdade, foi conseguir sintetizar essa sequência de forma perfeita e inseri-la em um outro organismo vivo pra que ela funcionasse como DNA, permitindo a replicação celular. Então… bem… não é que não tenha sido um grande movimento pra genética, mas daí pra tingir a história com cores bíblicas é um pouco demais. Vocês vão me desculpar, mas uma coisa é injetar DNA sintético numa bactéria e outra bem diferente é criar vida. E não sou eu que estou dizendo isso.

O segundo ponto que passou meio despercebido no meio do tumulto foi o conceito de vida que está sendo vendido com esse tipo de abordagem. É verdade que até hoje pouca gente veio com respostas práticas satisfatórias, mas pensa bem: desde quando “vida” se resume à organização de ácidos? Como assim um cientista criou vida artificial mexendo uns genominhas? Empresas burocratas vem criando vida artificial há muitas décadas e com muito sucesso!

Não é preciso acreditar em alma ou em Deus pra questionar o conceito utilitarista de “vida” que se passa adiante quando se divulga a sintetização de DNA dessa forma. O conceito de vida é algo muito mais amplo e complexo e se, não fosse assim, o mundo seria muito mais livre de complicações, bem como de poesia e arte. Todo mundo querendo fugir de vida sintética, vida copiada, e o cara se vangloria de criar vida sintética… vai entender…

Não sei quantas pessoas realmente param pra pensar no peso que tem a palavra “vida” quando vem agregada de tanto papo científico. Não que a vida não tenha seu lado científico, matemático, biológico e genético. Mas se a gente vai deixar essa visão dominar o conceito de vida, vamos arrumar ainda mais complicação no lado não genético, não biológico, não matemático dela. Entende?

Bom, eu sei que acabei levando a conversa pra outro lado. Mas é isso aí, genética. Bem vinda ao papo de boteco. Daqui pra frente é só ladeira abaixo. Mas não se assuste. Qualquer dúvida, converse com o futebol. Ele tem décadas de prática pra instruir você em como se portar nessa nova situação.

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Aeroportos

Aeroportos são lugares de ninguém. Isso não é uma crítica às companhias aéreas ou às agências federais. É só uma constatação conceitual. Fora os funcionários, pra todo o resto da população flutuante dos aeroportos, a relação com tempo e espaço é muito diferente. Porque o aeroporto é um lugar entre lugares.

Todo mundo que passa uma, duas, três, cinco, seis horas esperando vôos está passando um tempo em lugar nenhum. É daí que vem aquela sensação esquisita quando você faz muitas conexões em um mesmo dia. O problema não é você. O problema é que estar no aeroporto é estar a caminho e estar parado ao mesmo tempo.

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A imagem que eu escolhi pra ilustrar o post quase rende outro post. Ela mostra  a parede luminescente do Terminal 5 do aeroporto de Heatrhow, Londres, criada pelo estúdio Troika. O horário de Londres aparece como eixo central do relógio e é ladeado pelos horários de regiões ou locais interessantes do mundo como o Museu Guggenhein, o Everest, o Canal do Panamá e a Torre Eiffel. Uma leve e divertida subversão dos tradicionais relógios de aeroporto que trazem o horário em diversas capitais financeiras ou políticas do mundo.

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O post e esse assunto todo são inspirados num dos programas Minimalismo que eu fiz pra Oi FM.

Pra ver outros textos relacionados ao programa, vá por aqui.

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