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Arquivo: Mente

Mais Soma Ano Um


A revista mais legal do Brasil conseguiu completar um ano de vida na ascendente em termos de qualidade gráfica e de conteúdo. Conector esteve presente desde o primeiro número, começando com essa entrevista do Jonathan Harris e depois estabelecendo uma coluna sem muito estilo ou assunto definido. Eu esqueci de divulgar o lançamento da número 5, então aviso que a 6 está por aí e abaixo vai o texto que saiu na 5.

foto daqui


Oficina de Zen-Shiatsu


Uma pessoa deitada à minha frente no tatame. Uma pessoa: dois braços, duas pernas, uma cabeça, tronco e, destaco, uma mente. Cobrindo uma parte considerável do corpo, há músculos enrijecidos – não por musculação ou exercícios, mas pelo simples andar intenso dos dias. É assim com todos. De diferentes maneiras, todos usamos um pouco nosso corpo como depósito do que nos acontece. Como um armário, as coisas vão se empilhando. Como um armário, existe uma parte mais aparente (que algumas pessoas costumam dar uma ajeitada rápida) e outra mais profunda, cuja limpeza demanda, mais do que atenção, um bom motivo para ser mexida.

Dois polegares, trabalhando juntos, em dupla, são instrumentos eficientes no lidar com esse armário. Eu me curvo o mais atento que é possível naquele dia (às vezes não muito), junto os polegares e deixo que o peso do meu corpo chegue até os polegares. Eles pressionam o músculo endurecido enquanto respiramos: eu, a pessoa no tatame, meus polegares, seus músculos, meus pensamentos, seus ruídos. Todos damos uma boa respirada, caso eu consiga não cruzar a linha que determina quando termina a intenção e quando começa a invasão.

Quando aplico zen-shiatsu em alguém, também recebo. Sem o músculo doente, não haveria a possibilidade de promoção dos meus polegares. O refino da minha atenção (e da minha intenção) é, nesse caso, totalmente dependente do músculo duro empurrando meu dedo de volta. Sua resistência é causa de mudança em mim também. A força contrária viaja pelos meus polegares e toma conta de toda minha pessoa. A inspiração, a expiração, a inclinação e a consciência são convidadas a dançar. Sem precisar ir a uma festa, a dança me faz mais suave, mais alegre e mais ligado.

Não dá para dizer exatamente onde começa e onde termina o zen-shiatsu. E nem qualquer atividade. Com a música é a mesma coisa. Há uma intenção de tocar, cordas sendo manipuladas, som produzido, ouvidos recebendo o som e uma mente processando tudo. Nada disso sozinho constitui um show. O ouvido que bem recebe e o ouvido que mal recebe também são responsáveis pela experiência. Nada é mérito próprio, não há um elo ou uma figura singular que possa apreender o sucesso ou mesmo o fracasso. São todos veículos fluídos.

Da mesma forma, essa é uma compreensão inútil sob a forma de estalo ou epifania. Em outras palavras: é fácil absorvê-la em nossos elaborados esquemas intelectuais. Mas é um pouco mais trabalhoso integrá-la de forma prática ao dia-a-dia. Sem a repetição continuada por anos a fio, não haverá familiaridade com a idéia de que você co-escreve essa coluna comigo a cada palavra que lê. E tudo terminará apenas como um gancho para um final espertinho de texto.

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Necessário 2

espaço

reservado

para descansar

a mente.

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Terra Pura de Padmasambava


Em Três Coroas, a uma hora e meia de Porto Alegre, existe o Chagdud Gonpa Khadro Ling, um centro budista com diversos monumentos e um grande templo que abriga cerimônias e retiros. O complexo todo também é aberto à visitação e virou ponto turístico obrigatório no circuito da serra gaúcha. Tudo lá é construído a partir da orientação de mestres realmente roots e com a ajuda de trabalhadores voluntários que são praticantes budistas, em grande parte brasileiros e americanos. As obras mais elaboradas, no entanto, costumam exigir a presença de artistas butaneses, tibetanos ou nepaleses devido à complexidade da execução.

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Nesse último fim de semana eu tive uma oportunidade incrível: ajudei o pessoal do Khadro Ling a registrar entrevistas dos artistas butaneses e nepaleses que estão trabalhando no mais recente projeto do centro.

A “Terra Pura de Padmasambava” é um templo com 3 andares que estão sendo preenchidos com estátuas e pinturas incríveis, constituindo numa réplica perfeita da morada simbólica de Padmasambava, o mestre indiano que levou o budismo da India ao Tibet e criou toda uma classe de ensinamentos budistas que ainda hoje são praticados e fazem total sentido.

Alguns dos artistas estão há cerca de cinco anos no Brasil e a presença deles por aqui é uma pequena e discreta jóia cultural e espiritual.

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A arte desses cara é indissociável da prática espiritual. Você aprende as duas coisas juntas. Esse tipo de abordagem artística geralmente causa um certo desconforto em nós, acostumados à ditadura da expressão individual – que é uma ditadura, vamos combinar.

Na hora de construir a pauta para as entrevistas, eu sugeri que se perguntasse a eles como é fazer arte sem estar ligado à questão espiritual ou religiosa e a pessoa com quem eu estava trabalhando falou: “Nem perca seu tempo, não existe isso pra eles”.

Ou seja, não existe essa coisa de “arte pela arte”. O que eu, enquanto músico obcecado pela identidade das músicas que componho junto com meus colegas de banda, blogueiro preocupado com a linha do meu blog, acho ao mesmo tempo assustador e desafiador.

Comentando isso, não quero cair no precário clichê de que “os orientais são mais profundos que os ocidentais”, pelo contrário. Até que se prove o contrário, são todos seres humanos. Mas é justamente esse choque de possibilidades, parâmetros e visões diagonais que produz novas formas de ver as coisas.

O pensamento que mais me vinha à mente ao longo das entrevistas ou quando eu estava por lá vendo o trabalho era: “O que eu estou fazendo aqui?” Não estou falando da questão existencial da vida, mas propriamente de estar lá olhando aquelas estátuas e pinturas. O que eu estava fazendo lá? Olhar estátuas, pinturas, rezar…

O melhor é isso, não? Não existe uma boa resposta para isso. Eu posso escrever parágrafos inteiros justificando, mas e daí? Ainda assim, eu tenho esse hábito de explicar… mas vou poupá-los… pobre da minha mulher, que ouve toda a intelectualização…

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Existem outros clichês que são verdade: a paciência, a dedicação e o detalhismo na execução das tarefas. Mas isso, eu me dei conta à pouco, não é exclusividade de artistas orientais. Os bons artistas, em geral, não costumam ser vagabundos, mas gente incrivelmente focada e trabalhadora.

Vale dar uma olhada também no blog da artista brasileira Tiffani Rezende. Ela passou anos estudante arte sacra tibetana e está pintando um outro templo budista em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre.

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Esse tipo de energia, focada, direta e respaldada pelos ensinamentos de grandes mestres espirituais, têm a capacidade de construir um lugar altamente inspirador. Não é como se simplesmente qualquer um sentasse lá e começasse a tirar do papel um projeto arquitetônico tradicional do Tibet. É mais do que isso: é intenção compassiva e energia de alta qualidade moldando cimento, barro e tinta com o único intuito de inspirar as pessoas a se reconectarem com sua natureza mais básica e tranqüila.

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Pensamento vai, pensamento vem, parece que eu vou ficando em cima do muro. Mas é porque não estou conseguindo, de fato, passar algumas coisas que eu estava sentindo. O melhor é o seguinte: dêem uma boa olhada nas fotos, aguardem um novo site sobre a obra que vem por aí e se preparem que no final do ano a Terra Pura de Padmasambava vai ser consagrada e aberta à visitação pública.

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Arctic Monkeys Vs. Nirvana – a morte da alta fidelidade


A Jeanne Caligari deu o toque: materizainha na Rolling Stone americana sobre a “piorização” da qualidade de som dos CDs atualmente, masterizados de forma tosca pra que as músicas sobrevivam com um bom volume à compressão do mp3.

Masterização é o processo de pós-produção pelo qual passa um álbum. Nessa etapa se acerta o volume do conjunto todo, se reduzem os ruídos, se faz uma equalização única, resumindo, é onde uma boa parte do clima do disco é definida e o masterizador tem que ter a manha pra não achatar ou expandir demais o som da banda, encontrar o ponto certo da história.

O que vem ocorrendo é a criação de um novo padrão de masterização no qual grande parte das nuances são eliminadas em benefício de um volume maior, com mais intensidade. O problema é que isso também significa menos diversidade no som, o que deixa as músicas todas meio iguais. Por exemplo, você pega a visualização gráfica da antiga Smells Like Teen Spirit …

… e compara com I Bet You Look Good on The Dancefloor do Arctic Monkeys…

Sacou? Não é que os Monkeys sejam mais intensos do que o Nirvana. É que o disco deles foi masterizado de forma mais intensa, comprimindo o som e carregando no volume de forma absurda.

A justificativa da indústria para essa mudança é que o som precisa ser mais alto pra fazer sentido sob a forma de um arquivo comprimido (MP3) e que é consumido cada vez mais em caixinhas de computador e fones de iPod, que não oferecem uma fidelidade muito boa no som.

Para o usuário médio isso não faz a menor diferença, mas há artistas, produtores e uma parte do público incomodada com isso. Em alguns casos, até mesmo certos instrumentos ou detahes da música somem no meio da zoeira.

O que provavelmente vai acontecer é que os álbuns “mais bem masterizados” vão se tornar também parte de um nicho indicado (na matéria já se cita movimentos nesse sentido): artigos direcionados, baseados na disposição de uma banda ou um produtor querendo se conectar a um público interessado em uma experiência mais sofisticada em termos de sonoridade.

Apesar de adorar som, não sou propriamente um audiófilo e não vejo volta nesse standard. Evito, na medida do possível, as lamentáveis caixinhas de computador, mas morro nos fones de mp3 player. O som do meu Creative Zen até é bem razoável e há pouco passei uns meses com um celular Motorola K1 que tinha mp3 player e uns fones decentes. Depois de ser roubado, tive que pegar um LG cujos fones já são bem mais podrinhos, mas é a vida.

Isso tudo não é um caso isolado. Como escrevi num post do ano passado, acredito que vivemos uma era de extrema tolerância à baixa resolução, não apenas na música mas também na fotografia, nas artes gráficas, na alimentação e nos relacionamentos humanos. Nénão?

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Quitutes pro Finde

Antes de mais nada, olha q barato esse clip que alguém aí fez pruma música do Grey Album. Tá ligado no Grey Album não? White Album dos Beatles + Black Album do Jay-Z pelo DJ Dangermouse (que depois criou o Gnarls Barkley e produziu o excelente segundo Gorillaz), talvez o primeiro grande clássico da cultura mashup, se é que dá pra dizer assim… john lennon no break, sensacional…

Um show inteiro do Spiritualized em versão acústico + cordas + backing gospel. Comecei a ouvir e achei meio chatinho, mas ainda vou dar uma chance, acho q vale a pena tentar.

Resumindo: o Chaves e mais outros dois ilustradores/designers fizeram uns puta desenho enormes que foram aplicados em uma enorme chapa q foi cortada de forma que virou centenas de palmilhas para a série Custom Brasil Series II. O tênis desenhado pelo Chaves leva o nome do skatista Cezar Gordo e foi inspirado na pista aqui do IAPI.

Mais aqui no site Pico dos Sonhos.

O estado das coisas pela monja budista Ven. Tenza Palmo.

Bom finde a todos.

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O mundo é de quem faz ou de quem não faz?

O IG anda bastante saidinho, cheio de comerciais, salamaleques e invencionices pra vender seu conceito, que dá nome ao post. Apesar de não curtir os comerciais (essa coisa manifesto já deu, né) e de admirar o esforço da agência em criar alternativas pra correr atrás da máquina do tal do conteúdo gerado pelo consumidor, eu comecei a sentir uma coceira do tipo “não tá certo esse lance de o mundo é de quem faz”… não é bem assim… o mundo tá cheio de gente interessante que não faz coisas e talvez em muitos casos não fazer seja mais relevante do que propriamente fazer.

Eu não sou, estabeleça-se, a pessoa mais indicada pra levantar qualquer bandeira de que o mundo é de quem não faz porque eu vivo fazendo coisas. Tantas coisas que nos últimos meses comecei a pesquisar alguns sistemas de organização tipo o famoso “Getting Things Done” ou GTD do tal do David Allen.


Navegando por blogs a respeito do assunto, acabei conhecendo por alto toda a cultura do LifeHacking, uma espécie de comunidade mundial de gente que troca informações a respeito de eficiência em tarefas cotidianas de modo que sobre mais tempo pra vida pessoal. O termo lifehacking vem de atalhos que os programadores usam pra facilitar sua vida de escritores de códigos. Mas acabou se tornando uma subcultura própria.

É um assunto que eu achei fascinante e assustador, acabei escrevendo uma coluna pra Mais Soma que deve sair mais pro final do ano. Quando sair eu coloco aqui. Aliás, eu tou pra colocar a coluna da edição impressa atual, mas eu perdi o texto, não sei onde coloquei.

Há pouco rolou uma grande matéria na Wired a respeito do criador do GTD (em inglês). Eu na minha cabecinha oca achava que o Allen era tipo um cara oriundo (adoro essa palavra) do meio corporativo, uma história repleta de sucessos gravados em ouro a ferro e fogo no Power Point. Contudo, entretanto, todavia, ocorre que o cara é o maior gonzo, passou uma parte da vida se detonando, foi parar na heroína e de lá num hospital psiquiátrico. Ou seja, ziguezagueou intensamente antes de se encontrar na vida por intermédio de um guru new age que no meio dos anos 80 estava metido num programa de auto-aprimoramento pra gente corporativa, uma mania na época.

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RESUMO DA ÓPERA.

É como um grande mashup de Um Estranho no Ninho com O Aprendiz.

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No Brasil, um dos sites dedicados a esse lance todo de culto da hiper-eficiência, como chama a Wired, é o Efetividade, de onde eu tirei essa frase ótima: “As coisas estão sempre tramando contra a sua organização doméstica e pessoal.” Sério, eu gostei dessa frase. As coisas não são fáceis!



Tá mas, afinal, o mundo é ou não é de quem faz? Se é pra responder, adorei esse texto, que recebi numa lista de emails e que originalmente saiu num livro do Chogyam Trungpa Rinpoche.

“Podemos realmente sentar numa almofada sem finalidade alguma, sem qualquer objetivo. É ultrajante. É impensável. É terrível — estaríamos desperdiçando nosso tempo. Agora, este é o ponto: desperdiçar nosso tempo. Talvez seja algo a se pensar: desperdiçar nosso tempo. Dar um descanso ao tempo. Deixar que ele se desperdice. Criar tempo virgem, tempo não contaminado, tempo que não foi importunado pela agressão, paixão e velocidade. Que criemos tempo puro. Sentemos e criemos tempo puro.”

Pois é. Por aqui, segue-se tentando.

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Toda realidade é virtual

“Quando ligarem os neurônios a chips, teremos mais hardware. E a iluminação se dá a nível de software. Nossa mente é um software que tem a capacidade da adaptar-se a diferentes hardwares e de auto transformar-se. Agora, como se vê, dispõe também do poder de mudar e expandir o hardware como quiser. Pelos comandos elétricos, o próprio corpo foi sendo criado pelo software-mente, que se desenvolveu junto. A iluminação está ligada a um processo ainda mais básico: é quando o software decide que suas funções de auto-indulgência e auto-satisfação e proteção não são mais o foco. Ele decide ‘morrer’ enquanto identidade e reintegra-se, abandona-se na confiança à natureza básica e luminosa que o produziu e o sustenta. Somos como que robôs autoconscientes e auto-sustentados que enlouquecem através de seus circuitos de satisfação vazia e de proteção também vazia. A iluminação é o retorno à realidade.”

Entrevista que eu fiz com o Lama Samtem em 2002 para a finada revista Play.

Uau.

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Quitutes para o feriadão – com adendos

Não sei quanto a você, mas eu sempre gosto de ter à mão uma fontezita megacool tipo a PingMag. Bom, outra que me surgiu por intermédio do Migrante Digital foi a Monocle. Eu ainda não tive tempo de explorar tudo, mas é aquela coisa: “global affairs” com um pé no design e na arquitetura (eu ando bem interessado em arquitetura), cultura não tão pop um pouco metida à besta mas bem instrutiva e, acima de tudo, bem embalada.
Enfim. Confere a Monocle lá.

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Por falar nisso, o blog Migrante Digital entrou para meu rol de informantes interessantes. Ainda mais que a titular do Migrante, Guta, está em Nova Iorque mandando notícias. E tem uma amiga enviando posts da China também. Vale dar uma conferida.

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Estou acompanhando meio de longe todo esse fandango em torno do iPhone. Mas esse post aqui no blog do Information Architets me chamou a atenção. Primeiro por identificar um “brand crime” da Apple. Segundo porque o post “chama” pra uma interação com a tela do teu computador. Fazendo o teste, tu acaba acreditando no post deles. Terceiro porque eu adoro essas coisas de design de informação. Tenho até medo de ler mais sobre o assunto e estragar meu encanto ingênuo com essas coisas.

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Eu falei lá embaixo dos meus flickr/fotologs prediletos e esqueci de colocar o do Sapo, um grande parceiro. Já citei aqui no blog, ele e mais uma galera andam inventando coisas interessantes na galeria Subterrânea aqui em Porto Alegre, dando uma chacoalhadinha geral. No Flickr dele tem os trabalhos artísticos e também os trabalhos de ilustrador. Dá uma boa conferida no que ele fez pra nossa campanha de Unisinos, que ficou um troço muito massa.

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O Ian Brown é tão preguiçoso, mas tão preguiçoso, que até nessa música nova ele deu um jeito de usar um pedaço grande de uma letra de outra música dele, So Many Soldiers… mas Ian Brown é Ian Brown e eu sempre adoro esse jeito malemolente de cantar e de conduzir o som… a cançoneta tem participação da Sinead O’Connor e foi lançada num site aí desses contra a guerra, esses troços, sabe?

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Era isso. Até segunda. Güentaí.

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É tudo culpa do Bernays

Bernézinho

Faz dias que estou querendo escrever sobre esse documentário. Na real eu venho digitando sobre ele há dias, compilando as anotações que fiz enquanto assistia, trabalhando e retrabalhando o texto. Mas cada vez que repasso, minha cabeça dá mais uma imensa volta e tudo se revira.

Vamos tentar do início: tou falando de The Century of Self, documentário ma-ga-vi-lho-so da BBC escrito, produzido e locutado pelo Adam Curtis, ao que tudo indica um exímio documentarista punk pop. Por que punk pop? Pop porque qualquer um com dois neurônios consegue entender a linha de raciocínio dele mesmo sem dominar todos os complexos assuntos que ele trata. Punk porque a colagem de imagens me lembra muito a estética de zines e também as músicas do Sonic Youth. Como é que alguém consegue parecer experimental e pop ao mesmo tempo? Talvez o fato dele ter freqüentado a mesma escola do pessoal do Gang of Four explique a sutil ressonância que a estética do documentário emana em relação ao zetgeist pop atual.

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Você entendeu a última frase? Nem eu.

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Explicação: Gang of Four > Franz Ferdinand > zetgeist pop atual

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Eu sei que tu já rolou a barra pra baixo e o post tá grande. Eu sei que tu é déficit de atenção é um problema endêmico atualmente.

Mas tende paciência: isso tem a ver com o assunto no fim das contas.

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Voltando ao documentário: tem pra ver na web, mas eu sugiro que vocês tentem baixar pq deve ser chato ficar vendo em streaming no You Tube ou no Google Video.

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Mas o babado é o seguinte: nos anos 20 o Edward Bernays, sobrinho americano do Freud, fez um mashup espertíssimo de teoria psicanalítica com interesses industriais e montou o esquema básico de funcionamento da sociedade de consumo. Para ser mais claro, a grande deixa de Bernays para a indústria foi abrir a possibilidade tratar os consumidores como pessoas com pensamentos inconscientes, não expressos claramente. Isso significou começar a oferecer produtos que satisfizessem não apenas suas necessidades, mas também seus desejos. Por exemplo: eu necessito calçados. Mas eu desejo tênis Adidas vintage ou similares. Essa pequena diferença semântica revolucionou toda a cadeia produtiva e forneceu meios para o crescimento econômico e para o controle de massas por parte do governo americano.

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Freud &Anna (freudiana?)

Sim, controle de massas. A influência das teorias do Freud na política e economia americana não se resumiram ao sobrinho Bernays. A filhota, Anna Freud, também teve um papel fundamental em difundir a necessidade de reprimir os impulsos primais de forma coletiva pra impedir grandes levantes irracionais que poderiam levar a desvios como o nazismo. Anna (e muita gente poderosa) acreditava que isso era o caminho para uma sociedade feliz, democrática e estável.

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Grande parte da população devia concordar com isso, não vamos botar tudo nas costas dos poderosos.

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Corta para o Institute of Motivational Research, no qual o psicólogo Ernest Dichter também curtiu mixar a teoria psicanalítica com os problemas das corporações. Foi dele a idéia de, pela primeira vez na história, reunir consumidores numa sala e colocá-los para bater papo enquanto se analisava as motivações subjacentes à conversa. Aqui a idéia não seria propriamente controlas as massas, mas sim oferecer produtos mais afinados com os desejos que elas não estavam expressando claramente.

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Um case bem elucidativo é o da mistura de bolos Betty Creek, que enfrentava rejeição da dona de casa dos anos 50. Graças aos focus groups dirigidos por Dichter, foi possível descobrir que o problema da mistura era ser muito fácil de fazer! Sendo muito fácil, a dona de casa se sentia uma inútil numa época em que o trabalho doméstico era altamente valorizado na sociedade. A solução? Tirar o ovo da receita pré-pronta e estampar bem grande na embalagem: ADICIONE UM OVO.

As vendas dispararam.

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Marcuse & abuse

O problema é que no fim dos anos 50 pensadores como Willhelm Reich, Herbert Marcuse e Arthur Miller (de cara porque a Marylin fez psicanálise e acabou se suicidando) começaram a criticar as idéias psicanalíticas e a sublinhar sua ligação com o controle de massas por intermédio da política e da publicidade. Esse pensamento não era um fato isolado, mas parte de uma inquietação cultural que buscava combater o conformismo dos anos 50 com a simples auto-expressão, a afirmação do indivíduo. Algo comum e ridículo em tempos de blogs e flogs, mas um grande statement político na época.

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O que o pessoal da contracultura não esperava é que, em vez de se tornar o ponto de partida para uma sociedade mais livre, essa revolta acabou criando a maior oportunidade de negócios de toda a história. Pois se as pessoas estava meio perdidas tentando se encontrar, buscando suas identidades, a indústria de bens de consumo estava aí para atender essa demanda también!

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A questão era a seguinte: como criar produtos para pessoas tão diferentes entre si? Mais uma vez o problema foi resolvido pela associação de psicologia, pesquisa e marketing. Ao longo dos anos 70, surgiram novos métodos de pesquisa para compreender o gosto do público não mais do ponto de vista demográfico (classe social, posição geográfica, sexo), mas sim pelo viés dos seus pensamentos e sentimentos mais, digamos, profundos. A possibilidade de se identificar e classificar esses dados em “lifestyles” foi o grande motor do consumo nos anos 80 e a base do individualismo yuppie.

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Não é pra menos que os hippies foram tão desmoralizados, porque o mercado soube compreender o que eles pediram ao establishment ao longo de duas décadas e entregou tudo direitinho, embaladinho, classificado em prateleiras (e tinha até lojas alternativas para os que não queriam ser encontrados nos grandes mercados). É como diz o ditado: cuidado com o que você pede, porque pode acontecer.

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Clinton, chegado numa pesquisa oral

Nos anos 90, enquanto essas idéias todas semeadas lá nos anos 20 pelo Bernays estavam bem estabelecidas no mercado de consumo e se desenvolvendo com uma complexidade que até hoje me comove, chegou a hora da política entrar de cabeça na metodologia marqueteira. O último episódio de The Century of Self conta das mudanças históricas que o Partido Democrata americano e o Partido dos Trabalhadores inglês tiveram que fazer em suas plataformas por conta de descobertas feitas em focus groups. O gancho é utilizado para lembrar o problema que é ouvir os “desejos inconscientes” do público sem fazer algum tipo de filtro, especialmente na área de política. O mesmo grupo de eleitores que reclama que o governo gasta demais com ferrovias, alguns anos depois reclama que o governo gastou de menos com ferrovias.

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Tá mas e daí?

Pois é, meu filho. Daí nada. Porque enquanto milhões ao redor do mundo enchem a cara de cerveja em boteco repetindo antigos slogans dos anos sessenta na esperança de mudar alguma coisa, estamos todos dentro de uma trilha muito bem pavimentada desde os anos 20. As idéias do Bernays são os alicerces da economia e da sociedade mundial hoje. Mas isso não é uma questão de acreditar ou não, de concordar ou não: é parte integrante do sistema de funcionamento do planeta no momento. Ponto final. Deal with it.

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A associação de consumo com expressão pessoal virou standard não só na economia mas também em toda a área da cultura: somos o que consumimos, não só o que compramos.

Consumo não quer necessariamente dizer compra. Nem sempre é preciso comprar para consumir, ainda mais nesses tempos de download grátis.

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O mínimo que eu posso pensar disso tudo é que tem que se ter um cuidado incrível com o resultado de pesquisas e que não é um bom negócio pra ninguém simplesmente sair atendendo o desejo dos consumidores. O resultado é sempre irregular.

Nos países em que existe uma massa de consumo bem formada, temos um bando de gente mimada e mal acostumada.

Nos países onde o consumo é desigual, não preciso nem falar.

Pelo lado da indústria isso é ruim porque gera uma ansiedade do cão: nunca se sabe o que mais precisa fazer pra satisfazer essa gente.

Pelo lado da publicidade, idem: temos sempre que ficar inventando uma maneira nova de vender Danoninho, agora no sabor Goiaba.

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O que eu vou fazer na prática, no meu trabalho, com isso tudo? Não queira saber…

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A saída? Se eu soubesse a saída, eu não estava escrevendo em blog. Tava dirigindo táxi.

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Mas arrisco um palpite (não me seguro).

Consciência do momento presente, compaixão aberta a todos (todos mesmo, hard work), clareza quanto à impermanência de tudo e noção de que toda ação tem um efeito, que tudo que acontece vem de causas e não de alguma randomicidade maconheira.

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Vai lá e vê o documentário, tá?

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Travelers and Magicians

Nos comentários do post Idoru e Space Invaders, o Tiago Dória me fez pensar se não somos sempre invasores em outros territórios. E, de fato, acho que somos. Temos a ilusão da permanência em determinados locais e situações, o que ajuda a dar algum conforto, mas na real estamos sempre de passagem. Lembro do conselho de Dzongsar Khyentse Rinpoche, que era algo mais ou menos assim: mantenha sempre uma mente de viajante, ele falou em “wanderer mind”. Talvez vagabundo seja melhor do que viajante, mas não o vagabundo que não faz porra nenhuma e sim o vagabundo que “vaga” e que mantém uma mente aberta mesmo sentado no mesmo lugar.

Fácil falar.

Como inspiração e resposta pra essas questões, sugiro uma visita ao Pocket Film For Travelers (dica da Jajá), o site de uma moça aí que tem a manha de viajar e produzir pequenas colagens de audio e video. Impressões particulares (existe alguma que não é) que mostram que o lugar mais interessante pra se visitar não é o Butão ou Barcelona ou Nova Iorque, mas as idéias de alguém. Inclusive as nossas próprias. Viajar é ótimo, eu adoro. Mas tem lugar mais louco e doente e diferente do que dentro da cabeça?

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Consciência

Matéria na Time sobre ciência da mente. É mais sobre o hardware do que o software (que é a parte que me interessa mais), mas ainda assim tem várias coisas interessantes.

Como esse trecho abaixo (tradução tosca):

Outra conclusão estarrecedora da ciência da consciência é o fato de ser ilusório o sentimento intuitivo que temos sobre existir um “EU” que está sentado numa sala de controle do cérebro, escaneando as telas dos sentidos e apertando os botões que movem os músculo. A consciência, na verdade, consiste em uma miríade de eventos distribuídos ao longo do cérebro. Esses eventos competem por atenção e, à medida que um processo se sobrepõe a outro, o cérebro racionaliza as “saídas” e dá a impressão de que um “eu” estava no comando o tempo todo.

Já pensou? Se o sentimento de “eu” é uma ilusão? Quem está aqui? Quem está fazendo tudo isso?

Estarrecedor. Somos todos avatares.

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A mente mente

Qual é a grande questão?

Acho que eu vou começar pelo fato de que os primeiros 60 minutos de A Scanner Darkly me irritaram muito. Primeiro eu pensei que fosse pelo excesso de papo junky pointless, saca? Aqueles círculos de raciocínio de chapados que não chegam a lugar algum, o que pode até ser divertido pra quem está conversando mas que é um pé no saco de assistir. Pois que metade do filme é feito disso e eu lá pensando “com uns 8 anos a menos eu ia adorar essa chalaça toda”. E mais ainda: o filme é todo animado sobre imagens reais de atores, o que dá um ar ainda mais nervoso à experiência. E a legenda era podre, mal traduzida.

Mas de repente, depois que eu quase dormi, tudo começa a fazer sentido. Porque o filme em si dá um jeito de clarear as coisas e também porque me caiu a ficha: tudo gira em torno do abuso da tal “substância D”, uma droga que divide o cérebro do usuário e faz com que ele desenvolva dupla personalidade, esquizofrenia, esses troços. Então, claro: tome-lhe de cara uma hora de esquizofrenia pura a ponto de cansar a sua cabeça, pra você entrar na paranóia dos personagens. Transferência de experiência. A paisagem mental confusa, tomada de fog, é transferida da cabeça deles pra sua. Causa um desconforto.

Diferente deles, no entanto, você tem a visão panorâmica e a certo ponto, antes que resolva abandonar a trama, começa ser informado sobre o que está acontecendo por um avatar da Wynona Rider. E o interesse pelo filme se reacende. E se assanha a certeza de que, mesmo com seus problemas, o Phillip K Dick é um pensador incrível em termos de comentário cultural & mental. Assim como a idéia de que o Richard Linklater é um excelente comequieto, a ponto de transitar tão bem entre doenças, romantismo indie e sessões da tarde sem fazer grandes escândalos.

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É o tipo de filme com uma temática muito contemporânea: o funcionamento da mente visto de dentro como um espelho do que está fora (e não como uma massa cinzenta descnectada do resto do corpo e do mundo e dos fenômenos).

Não há como negar, é uma tendência. Rapidinho podemos colocar aí o terrível A Cela, Quero Ser John Malkovich, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança, esse novo aí Mais Estranho que a Ficção… deve haver mais coisa… A mente está na moda. Olha a quantiade de livros sobre o assunto. E capas de revista semanal. E quadros no Fantástico. Se está num quadro do Fantástico, é porque rolou.

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O que é a web 2.0 se não a externalização mais clara de modelos mentais nas interfaces?

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Como falei antes, revi o Brilho Eterno. Com o perdão do trocadilho, é um filme brilhante… O que ele tem em comum com o A Scanner Darkly? Os dois trabalham com a idéia de que a realidade exterior e a realidade interior são intercambiáveis se não “espelháveis”. E o “Brilho” mostra isso de uma maneira gráfica comovente. Vai dizer: deviam passar isso nas faculdades de psicologia.

É triste o fato de que não somos ensinados a navegar em nossa própria mente como o Jim Carrey faz. Na verdade, o que acontece com ele é bem um reflexo da nossa cultura: não conhecemos nossa própria mente, com quem andamos todos os dias, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Não somos educados a lidar com ela, mas estimulados a interferir de fora pra dentro em vez do contrário, de dentro pra fora.

É o que mostra o filme. O Jim Carrey chamou cientistas pra manipularem as memórias dele. Alterar. Apagar. No meio do caminho, descobriu que era melhor ele mesmo fazer o serviço. Porque as memórias podiam ser ressignificadas. Reestruturadas. Não são estanques. Não são números. Não são exames.

Foi isso que aconteceu. Se o pessoal da Lacuna Inc tivesse sido bem sucedido, teria tirado dele a oportunidade de refazer conexões, aprender. É duro e dolorido: dói revisitar e dóis mais ainda encontrar fragilidades durante o processo. Lembram dele buscando situações constrangedoras pra se refugiar da limpeza étnica memorial da Lacuna? É o que acontece quando se olha pra dentro com tanta disposição e entrega. É o preço que se paga para não se submeter a processos cirúrgicos frios e matemáticos.

E não se pode nem garantir um final feliz. Porque embora o filme termine bem, sabe-se lá o que aconteceu com o Jim Carrey e a Kate Winslet depois. Quanto tempo eles ficaram juntos? Foi uma decisão acertada impedir que a Lacuna terminasse seu trabalho?

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Acho que foi. Não importa se eles ficaram juntos por muito tempo depois, é possível que sim, é possível que não. Acho que com tudo que aprenderam no processo, ganharam mais chances de viverem juntos por mais tempo.

A parte mágica do filme, a interpretação cinematográfica dos processos mentais é linda. Mas mais lindo ainda é a parte em que eles se ouvem sendo detonados um pelo outro, na gravação da fita cassete. É tudo exposto e todas as cartas são colocadas na mesa. Ainda assim, eles decidem ir adiante. É lindo.

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Talvez não seja “ainda assim, eles decidam ir adiante”. Talvez seja “por isso mesmo”.

Suspeito que amor seja isso. “Por isso mesmo” e não “ainda assim”.

Meu uso-ato-falho de “ainda assim só demonstra um pouco da minha imaturidade…

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E semana passada saiu na Zero Hora que cientistas isolaram o processo de síntese da proteína que fixa memórias. Isso vai permitir, no futuro, que você escolha que memórias quer manter e quais você quer apagar da sua mente. Pelo menos essa é a promessa. Daqui a pouco sai na capa da Veja assim. Um desserviço que provavelmente vai ser prestado.

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Esses caras não viram o filme?

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A mente não tem forma, nome, cor, substância. A ciência ainda não descobriu o que é a mente. Não sou eu que estou dizendo. Vi em vários livros e artigos. Não vou linkar, vocês vão ter que acreditar em mim… ou não.

O fato é que o estudo da mente saudável é recente. A psicologia e a psiquiatria se esmeraram durante décadas pra conhecer as anomalias da mente. Mas, pasme: estudos sobre o que é uma mente saudável são novos e inconclusivos. E nebulosos.

Por quê? Porque não tem como descobrir o que é a mente olhando de fora, somente de dentro, por experiência própria e subjetiva.

Talvez pareça que eu sou contra remédios ou intervenções externas. Não é o caso. Há casos e casos e o problema é que hoje é tudo muito fácil: apertar botões, tomar pílulas, corta aqui, tira ali.

Meu comentário é mais sobre uma cultura pouco difundida mas profundamente sólida e bem fundamentada que diz: você pode treinar, observar, ressignificar, reestruturar, conhecer e se familiarizar com os seus processos mentais. Ninguém nos conta isso.

Boa sorte pra nós.

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Mente Walverdes Design

Esse fim de semana vimos de novo Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança e A Scanner Darkly. Junte-se a isso a audição do podcast do Buddhist Geek com o Allan Wallace, a notícia de que cientistas descobriram o “mecanismo protéico” que fixa memórias e algumas releituras rápidas do Como Lidar com as Emoções Destrutivas e seria um crime escrever um post sobre tudo isso agora.

Ainda estou digerindo e em breve sai algo.

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Enquanto isso… dá um pulo no blog dos Walverdes e olha o que eu descobri com algum atraso: fizeram uma versão do nosso clip pra celular e a versão ganhou um prêmio.

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Spiekermann fala sobre a Helvetica.

Erik Spiekerman, designer, criador de fontes como Meta e Officina, tem um blog (adorei o layout, super simples).

Há uns 5 anos, talvez um pouco mais, ele esteve em Porto Alegre dando uma palestra no Instituto Goethe. Foi muito massa, me marcou especialmente por dois momentos.

Primeiro quando ele mostrou toda a programação visual que o estúdio dele fez pro transporte público de Berlim. Ele ofereceu o serviço de graça pra Prefeitura desde que tivesse liberdade total no trabalho. Não pra loquear, mas pra fazer o trabalho direito sem as implicações políticas tradicionais.

Outro ponto muito interessante foi quando ele falou sobre abrir outras unidades do estúdio, em outras partes do mundo (aí já não lembro se era Meta ainda, de onde ele saiu, ou se era o escritório novo). Ele disse que as “filiais” sempre partiram de relações pessoais de amizade e nunca de necessidades comerciais de estar naquela cidade.

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Ainda sobre design: tenho frequentado o site do Information Architets, um escritório de design e branding no Japão. Ainda que meio querendo malandrear de vez em quando com um “nós somos os caras” escondido aqui e ali, tem pequenos artigos bem legais a respeito de organização e disseminação de informações. Tudo muito claro e simples, sem grandes voltas conceituais. Como não sou diretamente do meio, agradeço.

Recomendo o texto sobre Simplicidade em Websites e também outro sobre interfaces que eu adorei por uma pequena frase ótima e que diz muito sobre muitas coisas: Interface is the brand.

Apesar de ser redator, sou sempre muito preocupado com a “cara” das campanhas nas quais eu esto envolvido porque não adianta nada, por exemplo, você dizer EU SOU SÉRIO e estar com uma camiseta verde cheia de palmeiras. Muitas vezes a interface, o comportamento, a organização das informações é muito mais discurso que o próprio discurso.

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Pra vc meio q se divertir no finde

Além de ver o que acontece com um Gerente de Tecnologia quando a rede cai (acima), vc pode…

- Dar uma vasculhada em aberturas legais de filmes (embora as minhas prediletas sejam básicas e sempre iguais do Woody Allen q não estão aqui!).
- Ou ouvir o ex-monge e cientista Allan Wallace falar sobre prática de concentração e foco no podcast dos Buddhist Geeks.
- Quem sabe, então, conhecer um pouco mais da música chilena?
- Por que não bota pra ouvir a fina seleção musical do o VF67, que tá bem astral?

Ou sei lá…

Bom fim de semana. Até segunda.

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Ética (1)

Um dos principais objetivos desse blog é abrir um espaço de reflexão sobre a atividade publicitária. Por diversos motivos, a reflexão pura e simples é muitíssimo rara no dia-a-dia das agências e eu acho que isso faz uma falta tremenda.

Dois interessantes espaços de reflexão disponíveis seriam a imprensa especializada e o meio acadêmico. Mas o primeiro é muito próximo do mercado, gerando às vezes uma relação incestuosa à base de press-releases e muito pouca crítica real. E o segundo me parece distante, não vejo chegar no ambiente das agências material de reflexão útil com que pudéssemos trabalhar. Falo da minha experiência, é bem possível que haja parcerias produtivas por aí que não se limitem ao fornecimento de estagiários.

Um dos assuntos que é muito pouco discutido em profundidade no mercado publicitário é a ética. Ética em publicidade não se discute, se resolve à base de normas (inclusive quando se trata de remuneração).

A rigor, todas as agências respeitam o Código de Auto-Regulamentação Publicitária confeccionado pelo CONAR, o Conselho de Auto-Regulamentação Piublicitária. O CONAR foi criado no fim dos anos 70 como reação a uma disposição do Governo em criar um órgão de censura prévia à atividade publicitári. Antes que os militares fizessem mais bobagem, os publicitários se reuniram e propuseram esse conselho auto-regulador, formado por lideranças do setor.

Pode parecer que isso não daria certo, você pode achar que publicitários não puniriam publicitários, mas aí vai uma boa notícia: o CONAR funciona muito bem. Realmente incentivo uma visitar ao site do CONAR e um passeio entre os processos que já foram julgados. Entre disputas comerciais, você encontra ali uma boa quantidade de ações iniciadas por denúncias de consumidores contra publicidade que de alguma maneira foi entendida como prejudicial ao cidadão.

Na maior parte dos casos, o cidadão ganha a causa. E em 100% das vezes a decisão do CONAR é totalmente acatada, apesar dele não ser um órgão oficial, não ter poderes executivos. Os comerciais podem ter até mesmo sua veiculação sustada totalmente. Eu já tive a oportunidade de acompanhar a decisão do voto de um relator do CONAR em que ele pedia que o anúncio em questão não trouxesse mais informações fundamentais naquele asterisquinho no canto da página, mas explícita junto à chamada. A ação foi acolhida pela câmara do CONAR e a retificação foi feita.

É de total interesse dos publicitários que a publicidade ruim, mal feita e prejudicial seja estancada, barrada e filtrada. Todo mundo sai ganhando quando a publicidade é mais inteligente, mais divertida e mais ética.

No entanto, eu comecei a me perguntar se esse tipo de norma basta para definir a publicidade como ética e resolvi estudar um pouco do assunto. Um pouco mesmo, não é algo muito profundo.

Reuni alguns livros e alguns artigos, entre os quais um especial da Lia Diskin, fundadora da Associação Palas Athena na revista Bodisatva. No texto, Lia faz um rápido apanhado da história da Ética citando duas raízes: uma de ética normativa e uma de ética reflexiva – se bem entendi.

A ética normativa é “de fora pra dentro”: baseia-se num sistema de regras de conduta que precisamos obedecer.

A ética reflexiva é “de fora pra dentro”, portanto baseada em julgamento interno, individual.

Acho que uma não funciona sem a outra. A ética normativa, pelo que entendi, serve para orientar a ética reflexiva, mas o que costuma acontecer é que o sujeito se deita nas cordas e simplesmente pára de refletir, levando as regras de conduta ao pé da letra e esquecendo do caráter orgânico da vida. Todos nós vimos isso acontecer com a ética religiosa católica, um sistema que pode ser muito benéfico sendo talvez mal utilizado.

Mas, de volta à publicidade. O fato é que, pelo menos na minha experiência, existe muito pouco da tal ética reflexiva. Ou, quando existe, acontece duas coisas.

1) Ela é totalmente balizada por motivações comerciais. As decisões éticas são norteadas por questões de conquistar mercados e consumidores.
2) Quando a motivação é nobre, ela é mal pensada e formulada. Não existe um esclarecimento ou uma sabedoria mais profunda do que pode, de fato, trazer satisfação ao consumidor.

No primeiro caso, a reflexão até costuma ser profunda e muito estudada. É normal trabalharmos com pesquisas que duram vários meses e vão realmente longe na compreensão dos desejos dos seus consumidores. E não só dos desejos materiais, mas de suas aspirações de vida.

No entanto, geralmente se acredita que essas aspirações possam ser respondidas com comunicação, serviços ou produtos. Quer dizer, nem todo mundo acredita. Uma parte acredita e a outra parte (na qual me incluo) finge que acredita para poder fazer o seu trabalho.

(continua)

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Interdependência

Enquanto eu não escrevo e nem arrumo uns artigos decentes e bem escritos para o blog, vou linkando o de outras pessoas. Um site que vale a pena vasculhar é o do americando Douglas Rushkoff. Ainda estou conhecendo o trabalho do cara, mas só por meia dúzia de textos que li, dá pra dizer que vale a pena. Ele é um desses caras que tem às pencas nos EUA, um “ensaísta”. Fica lá, tendo idéias e publicando-as, aparecendo em conferências, dando aula e tal.
Mas, enfim, o Rushkoff é um cara que faz cortes e conexões interessantes, abordando desde a cultura do ecstasy até poluição midiática, persuasão em publicidade, consumo jovem, essas coisas. É como se o Beck resolvesse estudar teoria da comunicação em vez de fazer discos.
(Esses dias estava passando um documentário no GNT em que ele apareceu como apresentador e co-roteirista. Mais adiante falo do documentário.)
De cara, recomendo a leitura do artigo What’s Next. Aqui ele começa explorando a necessidade do mercado (que não deixa de ser reflexo da necessidade das pessoas) de uma “next big thing”, uma nova onda, um novo lance, uma grande virada. Esse processo engatou uma quinta marcha nos últimos dez anos e estamos num ritmo alucinado de “novidades” e “lançamentos”.
Ele não cita especificamente isso, mas acho que o exemplo mais visível e popular hoje seria os lançamentos de celulares. Em poucos meses o aparelho que era pequeno, moderno e útil se torna grande, ultrapassado e ineficiente perto dos outros. Embora uma parte das pessoas não se importe com os novos modelos lançados, é cada vez maior o número de consumidores que adere à chamada obsolecência programada. Longe de ser apenas um artifício industrial “promovido pelo grande demônio capitalismo”, vejo isso muito como uma expressão em maior escala do próprio hábito humano de buscar a novidade, de se entediar com o que conquista e logo querer um pouquinho mais.
Mas na real o tópico do texto do Rushkoff é outro, um conceito muito interessante chamado Social Currency – a Moeda Social. O exemplo que ele dá é perfeito: as figurinhas que vem com chicletes. Aquilo é pura Moeda Social, um produto que em si tem um valor muito baixo (péssima resolução nas imagens, material de baixa qualidade, durabilidade duvidosa), mas que ganha importância à medida em que é usado para interação social entre os garotos. Ou seja, o que interessa não são as figurinhas em si, mas a diversão de ver quem tem e quem não tem, trocar as repetidas, quem já achou aquela mais valiosa, enfim.
De posse do seu bolinho de figurinhas, do seu bolinho de Moeda Social, você faz parte de uma comunidade e o lance do ser humano é achar seu lugar numa comunidade, não é?
O fator Moeda Social é um dos grandes motivos pelos quais os virais funcionam na internet, desde o incrível vídeo do Ronaldinho botando a bola várias vezes no travessão quanto aqueles “Power Points Edificantes” com fotos de Image Bank e mensagens batidas: embora o conteúdo em si seja o impulsionador, o grande prazer aqui é compartilhar o que você está vendo. Tipo “nossa, o Ronaldinho fez isso, não acredito, outras pessoas precisam ver isso”. O conteúdo – e isso o Rushkoff advoga diretamente – é apenas um veículo para essa necessidade de interação social que existe no coração até do mais misantropo.
Eu sei que isso soa óbvio, mas a maneira como o conteúdo é tratado hoje não demonstra essa consciência. Essa interação social é citada geralmente em segundo plano, numericamente, nunca em termos qualitativos, em termos humanos. Cada vez mais se cria conteúdo (comercial ou não) pensando na sua multiplicação e menos nos motivos reais e mais profundos de cada pessoa.
Ok, e qual a saída? O Rushkoff aponta algumas. Eu tenho lá minhas idéias, aos poucos vou comentando aqui alguma coisa.
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