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Snyder’s

Primeiro, ele recontextualiza a palavra ‘conservadorismo’.

“O conservadorismo tem alguns significados válidos. Claro, a maior parte das pessoas que se denominam conservadoras não o são porque elas estão aí extraindo e usando, criando lucro. Curiosamente, artistas e pessoas ligadas à ecologia e à prática do dharma são os conservadores no melhor sentido da palavra, porque nós estamos tentando salvar alguma coisa!”

Depois, bota em perspectiva a atitude dos beats.

“Era uma época diferente na economia americana. Costumava ser assim: você chegava numa cidade estranha, arrumava um emprego, achava um apartamento, ficava por um tempo e então ia adiante. Sem esforço. Tudo que você precisava ter era algumas habilidades básicas e disposição pra trabalhar. Esse é o tipo de mobilidade que você vê celebrada por Kerouac em On The Road. Pra muitos americanos, era algo garantido. Isso dava uma qualidade despreocupada aos jovens trabalhadores norte-americanos que não tinham que frequentar uma faculdade se quisessem um emprego.”

(…)

Imagine tentar viver em São Francisco ou Nova Iorque com salário mínimo hoje. Você não consegue. Além do mais, não é mais tão fácil conseguir emprego.

O repórter segue:

“A liberdade e a abertura da economia pós-guerra permitiu a pessoas como Snyder, Kerouac, Allen Ginsberg, Lew Welch e outros se desfiliarem dos sonhos de respeitabilidade da América mainstream.”

São trechos de uma entrevista de 1996 que o poeta beat Gary Snyder concedeu pra revista Shambala Sun que me fizeram pensar muito no Brasil atual.

Primeiro, essa onda de conservadorismo. Que, como mostra a questão do Código Florestal, não quer conservar muita coisa apesar de vir de uma bancada “conservadora”. Eu sei que é um jogo semântico meio barato, mas não deixa de ser instigante, né?

Em segundo lugar, fico curioso pra ver que tipo de legado cultural essas primeiras décadas de estabilidade econômica vão imprimir no país. Porque, como os Estados Unidos nos provam há pelo menos 70 anos, a pujança de uma nação é paradoxalmente um dos melhores combustíveis para o surgimento de uma cultura pop, hmmm, bem… alternativa.

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Dinheiro móvel

O infográfico acima, em forma de apresentação, é um dos mais objetivos e diretos pra quem quer entender essa história de pagamento via celular. O assunto vem ocupando espaço de sites, revistas e blogs de tecnologia já faz anos, mas o uso prático desse conceito no dia-a-dia ainda depende de uma conjunção complexa de fatores.

Não é só nesse caso. Muitas das novidades criadas em laboratórios de universidades, departamentos de pesquisa de empresas ou quartos de garotos encarnados são noticiadas na mídia logo que surgem, mas às vezes demora anos até que elas se materializem na vida das pessoas de fato. O motivo dessa demora nem sempre tem a ver com a falta de interesse do público ou das empresas, mas sim da dificuldade que é determinar padrões de funcionamento pra novidades desse calibre. Em especial, nesse caso, é fundamental a criação de um padrão que seja adotado por um número razoável de lojas e instituições financeiras, assunto coberto a partir da lâmina 14.

Criar esse ecossistema de funcionamento e fazer todos os envolvidos se entenderem
hoje é tão (ou mais) importante quanto criar a tecnologia em si.

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Picaretagem ou novo formato?

A história é a seguinte: estava eu procurando esse livro de fotos do Chris McCandless (o carionha do Na Natureza Selvagem) na Amazon, quando me deparei com o livro acima. Interessado no tema, fui dar uma vasculhada no conteúdo, na autora e na editora e encontrei o seguinte:

As passagens grifadas dizem o seguinte.

“Por favor atente para o fato de que o conteúdo deste livro consiste primordialmente de artigos disponíveis na Wikipedia e em outras fontes online. (…) (A editora) Project Webster representa um novo paradigma de edição, permitindo que fontes de conteúdo espalhadas sejam consolidadas em livros coerentes, relevantes e informativos.”

É isso mesmo! O livro acima não é nada mais do que uma compilação de artigos pescados na internet que estavam com os direitos liberados em algum nível. E o Chris McCandless não é o único assunto coberto pela autora Dakota Stevens e o Project Websters. Na própria Amazon você encontra DEZENAS de livros no mesmíssimo formato, com o mesmo layout de capa, sobre todo tipo de assunto, desde Ayrton Senna, passando pela cozinha de Porto Rico, tribos nativas dos Estados Unidos, a história do hip hop e Cameron Diaz. E não é só na Amazon, se encontra material similar no Google Books e na Barnes & Nobles. Deve ter em mais lugares, mas eu parei por aí.

Bom, fique curioso com essa história e comecei a procurar algum site ou alguma referência a Dakota Stevens e ao Project Websters, mas não encontrei NADA, nem site da autora, nem da editora, nem mesmo matérias criticando a idéia. O nome de Dakota Stevens, na verdade, aparece mais frequentemente como o personagem dos livros de mistério do escritor Chris Orcutt. Esse Dakota Stevens, apesar de fictício, tem até site do seu escritório de investigação.

Enfim, se alguém encontrar mais alguma coisa sobre Dakota Stevens/Project Websters, por favor avise. Mas o fato é que estamos diante de uma ideia muito interessante. Nos reviews de leitores da Amazon, algumas pessoas avisam o leitor incauto que aquele livro é, de certa forma, uma picaretagem, uma reunião de artigos que qualquer um pode sentar, procurar e reunir pra ler na internet. Mas o que retira um pouco do ar de picaretagem dessa história (descontando qualquer questão de direitos autorais) é que hoje o trabalho de garimpar, fazer curadoria e reunir material de forma que faça sentido é absolutamente valioso.

 

Esses dias, eu pensava justamente sobre isso: é possível aprender sobre tudo na internet, mas um dos grandes problemas é sentar, garimpar e juntar num formato que tenha portabilidade, que seja simples de colocar em algum dispositivo ou imprimir. Esse trabalho – apesar de alguns conhecidos meus gritarem o contrário – é um saco de fazer e são poucas as pessoas que 1) estão dispostas 2) tem as habilidades de garimpagem,  de consolidação e de edição gráfica necessárias pra tanto.

Veja bem: não estou falando de edição online, de portais de conteúdo, de RSS feeders, de blogueiros que curam conteúdo. Estou falando de um conteúdo que em um certo ponto precisa se tornar estático pra ser consumido. Que chega um ponto em que ele pára de ser alimentado, que você corta o fluxo, e ele se torna um objeto (digital ou físico) com início, meio e fim. Um livro ou uma revistas feitos por você com o que você acha na internet. A princípio, é um conceito que soa anacrônico, mas eu diria que ele é mais fundamental hoje do que em qualquer outra época da história da humanidade – porque é um saco você precisando absorver informação sobre um determinado tema e não parar de entrar coisa nova.

Pra dar um exemplo mais prático: eu uso o Flipboard como interface do meu Google Reader (ainda não testei o Currents e nem o Zite). Ou seja, quando eu quero me informar, eu abro o Flipboard no iPad e seleciono a aba que me interessa. O problema é que a informação não só não pára de entrar um segundo como tem um rabicho em direção ao passado. Essa é a grande vantagem de livros e revistas impressos: chega uma hora que a leitura acaba. Esse lado estático e limitado também tem valor de leitura. Eu gostaria de poder “cortar” a alimentação do meu Flipboard de vez em quando. Como o aplicativo não faz isso, eu preciso fazer isso com a minha mente.

Aí está uma ideia pra quem quiser produzir: um aplicativo de uso popular, fácil e intuitivo, que busque conteúdo na internet sobre um determinado assunto e consolide em um documento em formato e layout também popular. Tá picando essa história. Se existe isso, me avisem por favor.

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Update 1: o Rodrigo Azevedo avisa que dentro da própria Wikipedia existe o Criador de Livros, que cria arquivos em PDF e ODF com artigos dali mesmo. Vou testar e em seguida dou meu veredicto.

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Harry Potter vai escalando a cultura geral

A imagem acima, que vi no Facebook, é mais uma prova: lentamente, a linguagem Harry Potter vai ganhando espaço no léxico cultural. Fica a dúvida: quando vai ultrapassar em volume o alfabeto de Star Wars? Talvez demore ainda, mas HP está a caminho.

Não sabe do que eu estou falando? Dê uma olhada em posts como este e este, que escrevi sobre o papo de que os códigos do universo Harry Potter serão importantes na cultura pop das próximas décadas, uma lebre levantada pelo Chuck Klosterman.

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No coração das tréva!

O Brasil República mal completava 30 anos quando o jornalista Ulisses de Araújo foi enviado aos grotões de Minas Gerais pra cobrir a convulsão social gerada por um grupo de bandoleiros. Os relatos misturavam histórias de saques e violência com fortes teorias de associação com o demônio – só isso explicaria a crueldade e a suposta invencibilidade do líder do bando, Antonio Mortalma. Mas, na medida em que Ulisses vai penetrando o Estado e as diversas camadas de informações desconexas fornecidas por autoridades, religiosos e cidadãos, um quebra-cabeças mais complexo vai se montando. Mortalma, na verdade, é apenas um dos vértices de uma disputa maior e mais virulenta entre ele, outro bandoleiro chamado Manoel Grande e o lado da lei, representado pelo Coronel Odorico Pereira.

Num primeiro olhar, então, o fio condutor de Estórias Gerais parece cobrir o processo de formalização da república brasileira, o trabalho de levar a lei onde não há lei. Mas claro que mesmo os quadrinhos em preto & branco não são em preto & branco e à medida em que avançamos na leitura vamos acompanhando, pelos olhos de Ulisses, a descoberta dos fundamentos humanos que regem as estruturas & as batalhes de poder. São questões, então, estruturais e que persistem até hoje. A história se passa em 1920 mas tem todos os ingredientes do noticiário atual. Poderia muito bem se estar falando da atuação das milícias nas comunidades cariocas ou dos bandos endemoniados que agem no Senado e no Congresso. Muda o tom e a cor da novelinha, mas os elementos são estritamente os mesmos.

Por outro lado, a investigação de Ulisses também é interna e não apenas externa. Essa noção me veio quando lembrei do comentário de um amigo sobre a história de Apocalipse Now (e calcada no romance “O Coração das Trevas” de Joseph Conrad). Segundo ele, há uma leitura que olha a essência de ambas as obras como uma viagem interior disfarçada de aventura exterior. Assim como no filme a trajetória do Capitão Willard rumo ao coração do Camboja pra resolver a insanidade do Coronel Kurtz poderia ser comparada à imersão que muitas pessoas fazem em seu próprio “coração das trevas”, em Estórias Gerais a viagem ao interior do Brasil pelo jornalista Ulisses pode também ser lida como uma investigação da alma brasileira, da linha nacional que separa barbárie e civilidade. E aí está se falando tanto a linha externa, no âmbito social, quando a interna, que se funda no âmbito psíquico (do coletivo ou de cada indivíduo).

Ficou complicado? É culpa minha que viajei na análise, porque Estórias Gerais é simplesmente Guimarães Rosa com Francis Ford Coppola, um livro direto, vigoroso e dinâmico, sublimemente roteirizado por Wellington Srbek (aliás, um dos melhores roteiros de HQ que já li) e divinamente desenhado, uma delícia de ler. Tem um ritmo e uma habilidade no contar da história que servem de plataforma pra arte minimalista e exuberante (sim, adjetivos aqui não excludentes) de um grande mestre dos quadrinhos, o Flávio Colin. Ou seja, não estamos falando de “mais uma graphic novel”, mas sim de um trabalho que atravessa gêneros e culturas, que diverte, instrui, chacoalha e faz pensar, cumprindo integralmente a ambição de uma forma maior de arte pop.

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Estórias Gerais saiu em 2001 em edição limitada e foi relançada em 2007 em formato mais amplo e comercial pela Conrad. Compre lá.

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Como foi Thurston Moore em Porto Alegre

Está provado & comprovado: Thurston Moore é um fanfarrão! O guitar-anti-hero mais célebre do rock contemporâneo abriu ontem sua tour pelo Brasil sacaneando os namorados & namoradas de fãs do Sonic Youth que levaram seus pares ao bar Opinião com a promessa de que “o disco solo dele é bem calminho, quase tudo no violão.” Bom, de fato, durante 80% do show o ovacionado TÃRSTON empunhou seu violão acompanhado de parceiros com outro violão, um violino e uma bateria que estava mais pra percussão do que tum-tum-dá de rock. Mas não demorou muito pra que os desavisados do local fossem apresentados ao que TÃRSTON sabe fazer melhor: barulho fino, bem estruturado, caos que consegue ser cerebral e visceral, ruído branco alternado com dedilhados elegantes entremeados pelas cordas dos três instrumentos & carregados por um baterista tarimbado. E tudo sem largar o violão na maior parte do set.

Tãrston

O clima geral, claro, era de celebração. Aquele bom e velho encontro de gerações portoalegrenses interessadas em gente interessante. E que esperava há muito tempo pela presença de uma figura tão emblemática, tão fundamental na formação musical de toda uma geração de roqueiros “alternativos”. Claro que por baixo estava o desejo de ser o Sonic Youth naquele palco, mas rapidamente se dissipou qualquer traço de resmungo que pudesse surgir no ar: o ruivão supriu totalmente a carência sônica do público empreendendo longas jams de microfonia & distorção entre um sonzinho calmo e outro. Não havia o que duvidar: é o bom e velho talento do cara para escrever canções que sobrevivem em ambientes sonoros inóspitos e agressivos. Quase um ensinamento de vida.

Foi um golpe experiente atrás do outro: um show de abertura em clima de revival anos 90 (embora o tal de Kurt Ville me lembrou até Galaxie 500 uma hora); canções decentes que bebem na fonte da sua banda original mas que não soam como sobras; piadinhas sarcásticas e nonsense; uma banda com músicos de personalidade; jams milimetricamente afiadas; COVER DE IT’S ONLY ROCK’N'ROLL BUT I LIKE IT, e, pra fechar com chave de ouro: ELE NÃO TOCOU O HIT DO DISCO, Benediction.

Entendeu? O TÃRSTON veio, trouxe o violão, fez barulho, botou um Stones no meio e não tocou o hit.

É muita malandragem…

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A foto que abre o post é do Fernando Halal. As outras são do meu celular.

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Black Mirror – a série do agora

Esses tempos, li uma entrevista do psicanalista Contardo Calligaris comentando que os filmes vem substituindo os romances como espelho da psiquê coletiva nas últimas décadas  - alguma coisa assim. Espelho não no sentido de colocar na tela o que somos, mas sim de servir como um instrumento de auto-reflexão mesmo: olhar para a expressão cultural da nossa época e encontrar coisas sobre nós que não víamos conscientemente. Bom, acho que todo mundo vai concordar que o próprio cinema está sendo ultrapassado pelos seriados nesse papel e é a partir desse nível que eu queria falar de Black Mirror.

A série de três episódios foi ao ar no final do ano passado na Inglaterra e é fruto da mente criativa do roteirista, jornalista, produtor e apresentador de TV Charlie Brooker (também responsável pela série de horror Dead Set, que não vi). Fortemente temperados com a peculiar acidez inglesa (que também é uma marca da trajetória de mídia de Brooker), o conjunto de Black Mirror cobre boa parte dos assuntos que antes eram do mundo da tecnologia e que hoje se tornaram vetores da cultura geral: telas onipresentes, gente que vive conectada, superexposição particular, ansiedade crônica, rolos amorosos causados por novas tecnologias, itens virtuais como combustível para a ambição e por aí vai. A lista é bem grandinha, mas cada episódio tem um vetor como o mais proeminente.

Por exemplo, em “The National Anthem”, o tema é a hiperexposição de um fato público e todos seus desdobramentos nas redes sociais, tanto do ponto de vista pessoal quanto na visão da imprensa e do poder público. Através da interação de cidadãos, políticos, jornalistas e policiais com a mídia digital, vamos acompanhando o sequestro da princesa da Inglaterra por um terrorista. As camadas interessantes de Black Mirror começam a se mostrar quando descobrimos que o resgate não é em dinheiro: pra liberar a princesa numa boa, o sequestrador exige como pagamento a humilhação pública do Primeiro Ministro em rede nacional.

Humilhação pública é um eufemismo, mas não vou entregar o jogo demais pra não estragar a surpresa, que é grande. Se você resolver assistir, também não deixe de prestar atenção também na ferramenta que o governo inglês escolhe pra resolver a questão da exposição do Ministro no fim da história: é, talvez, o melhor comentário crítico do episódio e ele tende a ficar enterrado quando comparado com o eixo central da história, a tal da humilhação pública.

Já “15 Million Merits” é uma sátira ambientada em um futuro próximo onde aparentemente todo mundo vive preso em um complexo claustrofóbico. São quartos individuais  minúsculos com paredes revestidas de telas (imagem acima), corredores estreitos e cinzas que levam a refeitórios padronizados e salas onde acontece a única atividade física permitida, que é andar em bicicletas ergométricas pra gerar energia elétrica em troca de créditos. O problema é que esses créditos só podem ser usados de duas formas: dentro do próprio complexo, na compra de comida e entretenimento digital ou então, caso você pedale bastante e gaste pouco, comprando seu golden ticket pra sair dali através de uma espécie de American Idol (onde o Rupert Everett faz uma impagável versão do americano inglês Simon Cowell).

Em relação ao primeiro episódio (que já é bom), aqui temos um salto. Onde “The National Anthem” pressiona e faz pensar abusando de um certo sensacionalismo explícito, “15 Million Merits” quase deprime o espectador ao deixar bem claro que nenhuma metáfora, visão de futuro ou traquitana digital esconde o quanto esta é uma narrativa sobre o presente.  Geralmente, na ficção científica tradicional, isso é um pouco mais bem disfarçado. Nesse caso, a fantasia é propositalmente translúcida.

Mas o melhor, Charlie Brooker deixou pro final. O último segmento, “The Entire History of You”, acompanha, como tantos outros dramas televisivos, a história de degradação de um jovem casal. Só que no epicentro do processo está um dispositivo digital implantado na base do crânio, atrás do ouvido. Esse popular aparelhinho chamado “Grão” registra todas as imagens e sons percebidos pelo usuário 24 horas por dia ao longo de toda sua vida. Mais interessante, as “cenas” da vida podem ser facilmente reprisadas de duas maneiras: no modo “particular”, somente nos olhos do usuário, ou então enviadas para uma tela próxima, um computador ou televisão.

A partir dessa premissa, o episódio (e o protagonista) descem em espiral. Ao questionar a fidelidade da esposa pega em um deslize, o marido empilha replays de cenas casuais do passado procurando o famoso cabelo em ovo que alimenta tantas discussões de relacionamento. A diferença é que hoje em dia as DRs contam com a memória de cada um – sempre cheia de lacunas e fértil em distorções, ou no máximo uma miríade de registros digitais externos. No futuro visualizado por Black Mirror, as cenas gravadas com detalhes no Grão ficam “dentro da cabeça” e servem de apoio para a potencialização de cada mínima picuinha. Aí não tem quem não enlouqueça.

Diz-se (não me lembro quem) que toda análise do amor é autópsia. O último segmento de Black Mirror mostra o perigo da biópsia baseada em todos os registros que a tecnologia nos provê. Mais uma vez, a ficção aqui é científica não por conta de colocar um elemento tecnológico avançadíssimo no coração da narrativa, mas sim por usar códigos da cultura digital para enunciar com clareza uma equação universal dos relacionamentos.

Em resumo: o grande perigo ao assistir Black Mirror é achar que está se falando da acepção popular de ficção científica, que seria “histórias sobre o futuro”. Como eu sublinhei no título e em diversas passagens do post, esta na verdade é muito mais uma série que fala sobre como as coisas são – ou inclusive sobre como elas sempre foram.

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Black Mirror não saiu em DVD aqui e nem nos EUA, pelo que me consta. Mas tem pra vender na Amazon UK. Também pra encontrar nos torrents da vida, mas aí você é que se entende com o FBI depois.

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Projetos de Garagem

Domingo agora tem em São Paulo a primeira edição do Projetos de Garagem, uma iniciativa da Inesplorato e do pessoal do Ideiafixa que vai botar no palco do Cine Jóia 10 idéias bacanas que precisam de atenção e investimento pra acontecerem. O Alma de Batera é um dos projetos e a gente vai poder conhecer esse e os outros nove acompanhando as apresentações dos criadores ao vivo no site do Projetos de Garagem (o evento presencial é só pra convidados).

Curiosidade a ser sublinhada: um evento dessa estirpe acontecer em um espaço de shows que também vai receber em breve o Foster The People e o Thurston Moore. São universos criativos que hoje parecem se sobrepor. Você já deve ter notado essa coisa de grandes empreendedores estarem sendo tratados como rockstar e os pequenos como se fossem ícones do rock alternativo.

Aliás, também é interessante como a idéia de garagem como um lugar pra crição está voltando a grudar no conceito de empreendedorismo e tecnologia depois de anos sendo usada pra definir um tipo de bandas de rock. Não sei exatamente onde isso começou, mas tem toda a cara de ser um papo de classe média americana pós-guerra, aquela coisa de casas de subúrbio onde havia um espaço marginal pra guardar o carro e as tralhas em geral. Espaços marginais cheios de tralha tradicionalmente são os melhores pra ter e fermentar idéias.

Claro que a garagem há algum tempo já não é mais a garagem. Quando se fala de garagem se fala justamente desse espaço marginal, recortado do cotidiano. Que pode ser um quarto (vem sendo nas últimas décadas de urbanização extrema), um espaço de co-workig, um bar ou um café pra onde você leva seu bloquinho, seu laptop, suas elucubrações. Ao transcender a garagem física, a garagem-idéia se transformou em uma mentalidade, um cenário que você instala em qualquer lugar que lhe convier.

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Os tablets não vão matar os computadores

Não sou eu que estou dizendo. É o articulista de tecnologia do Guardian John Naughton numa coluna bem interessante publicada há duas semanas.

A história é a seguinte: você já deve ter lido ou ouvido por aí que os tablets são o futuro da computação e que todo o resto se tornou obsoleto. O que Naughton defende é que, na prática, o furo é mais embaixo.

Segundo ele, essa idéia é fantasiosa porque até agora a explosão de vendas de tablets tem sido um fenômeno do usuário indidvidual e existe todo um mercado (nada desprezível) de milhões de computadores corporativos que resolvem muito bem as tarefas dos seus escritórios.

Mudar em bloco para tablets, em muitos casos, seria uma despesa gigantesca pois isso mexeria em infraestruturas de TI já estabelecidas. Quem trabalha em uma empresa de médio ou grande porte sabe como é a corrida diária por manter os custos de operação baixos e o impacto de uma mudança num sistema inteiro.

Outro ponto levantado pelo colunista inglês é que mesmo o melhor tablet do mercado não é capaz de desempenhar tarefas complexas, que exijam grande capacidade de processamento e armazenamento. Mais do que isso, as interfaces e o modelo de interação por toque não se prestam a todo tipo de trabalho e a todo perfil de profissional.

No fundo, a questão é a seguinte: as pessoas adoram uma notícia apocalíptica e o mundo da tecnologia é fértil em viradas históricas. Mas pra desespero de quem gosta de uma novela, é bem pouco provável que tablet vá matar o PC.

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Godzilla is Biotech

Segundo uma notícia do PSFK, pesquisadores israelenses estão desenvolvendo semicondutores com proteínas encontradas no corpo humano, mais especificamente no sangue, no leite e nos mucos. Os semicondutores são a base de funcionamento de diversas tecnologias e esse tipo de pesquisa mostra que seria possível criar dispositivos digitais com propriedades orgânicas. Exercitando um pouco a imaginação poderíamos falar de telas, celulares ou tablets biodegradáveis, o que seria um grande avanço em termos de sustentabilidade e funcionalidade.

Mas a grande questão dessa noticia é o caráter simbólico dela. Até agora, tudo que a gente vem ouvindo falar sobre a interação entre seres humanos e máquinas é que as máquinas podem melhorar os humanos. Nesse caso parecer ser o contrário: são as proteínas humanas que permitiriam às máquinas funcionarem melhor. Virou o jogo?

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Variedade humana

A GSMA, uma associação global de empresas da área da mobilidade, prevê que até 2020 vão existir cerca de três celulares por pessoa no mundo. Esse número por si só já é impressionante mas ele pode ficar ainda mais interessante se a gente pensar em todas as conexões que esses aparelhos vão promover.

Pensa bem: não estamos falando só de 20 bilhões de aparelhos, mas de zilhões e zilhões de discussões pessoais, segredos entre casais, negociações comerciais, fotos comprometedoras, jogos viciantes, mensagens de texto novelescas, perfis rocambolescos em redes sociais, mensagens de voz cheias de malícia, enfim, todo um caldo humano que vai ser potencializado com multiplicação do acesso às tecnologias móveis.

O impacto que esse crescimento vai ter na economia, na política, na diversão e na educação serão imensos. Mas o impacto na cultura e no nosso dia-a-dia mais ordinário é muito mais significativo e curioso.

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Imagem: daqui.

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Drone Journalism

Eu venho comentando desde o ano passado no Minimalismo sobre a onda dos drones, que são esses pequenos veículos aéreos não tripulados, já utilizados com uma certa frequência por alguns exércitos em guerras e começando também a serem usados por forças policiais.

De olho nisso, a Universidade de Nebraska-Lincoln criou há poucos meses um laboratório de Drone Journalism voltado a investigar as aplicações do uso de drones em coberturas jornalísticas. O papel do laboratório não é simplesmente pesquisar tecnologias, porque essa questão não é tão complexa: os drones estão ficando mais baratos e as câmeras de alta definição cada vez mais leves. A grande discussão diz respeito às questões éticas que essa nova ferramenta certamente vai levantar não só no uso pelas polícias, mas também por empresas privadas. Inclusive da área de comunicação de massa.

Uma empresa de comunicação pode usar drones em reportagens investigativas em áreas particulares? E firmas de segurança privada podem fazer sobrevôos em áreas públicas? Dá uma passada no Tumblr Drone Journalism pra acompanhar algumas dessas discussões. O site DroneJournalism.org é outra fonte interessante.

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A reinvenção da matemática

A cada novidade que a cultura digital traz pras nossas vidas vem junto uma conta nova pra pagar. Hoje, pelo menos metade dos brasileiros parece ter colocado a conta da internet no mesmo patamar de importância que a conta de água, luz e telefone, e algumas pessoas inclusive tem conta de internet e não tem conta fixa de telefone.

O orçamento doméstico do novos tempos inclui uma série de cálculos e cuidados que não existiam há dez anos. Por exemplo, 80% dos celulares no Brasil são pré-pagos e exigiram de todo um segmento da população uma habilidade pra lidar com toda essa função dos créditos e também com os diferentes chips combinados pra aproveitar melhor as ofertas de cada operadora. Computadores, celulares, câmeras digitais, consoles de games, tudo que era considerado supérfluo há bem pouco tempo começa a se tornar item de necessidade básica, parte da estrutura familiar de educação, entretenimento e empregabilidade. Mesmo a população de baixa renda está integrada com uma parte dessa história e tudo isso demanda uma reorganização prática e mental das contas em casa.

Em resumo, a alfabetização digital passa por uma nova matemática doméstica – que a maior parte dos brasileiros não está aprendendo e sim inventando.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Redes Sociais

Segundo um relatório recente da empresa de monitoramento e inteligência digital Comscore (esse acima), usar redes sociais é a atividade online mais popular do mundo. 80% das pessoas que acessam a internet no planeta Terra estão em redes sociais, um crescimento de 174% nos últimos 4 anos. Um terço desses usuários está na Ásia, mas é na América Latina que as pessoas passam mais tempo em sites como Orkut, Facebook e Twitter.
Um fenômeno interessante (porém lógico) é o crescimento acelerado dos usuários com mais de 55 anos. Aos poucos, as redes sociais estão deixando de ser um privilégio de jovens de classe média alta de países ricos pra se tornar de fato uma rede global de comunicação. Quem está chegando na internet rapidinho entra numa rede social porque, claro: não faz o menor sentido estar conectado numa rede de computadores e não estar conectado numa rede de pessoas.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

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Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.

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Hapiness is a warm cam

Não sei se chamou a atenção de vocês, mas no domingo passado, as imagens mais interessantes do Fantástico sobre o desabamento do edifício Liberdade no Rio foram feitas pelo telefone de um morador de rua. Caso você não tenha visto nada de curioso aí, eu vou repetir: as imagens mais interessantes de uma reportagem da maior emissora de televisão do país, dona de um poder sem precedentes na história, foram produzidas por um mo-ra-dor-de-ru-a. Ok, eu sei que esse comentário pode parecer estranho vindo de alguém que diz acompanhar o cenário da cultura digital, mas mesmo que a tecnologia esteja cada vez mais popularizada por conta da “ascenção da classe C baseada na estabilidade econômica”, é preciso ser muito blasé pra não achar esse tipo de situação digna de negrito.

Na verdade, acho fundamental sublinhar casos assim pra que a gente não perca de perspectiva o tamanho da mudança que estamos vivendo. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso já percebeu o quanto os vídeo amadores são fundamentais na composição dos notíciários. E, mais do que isso, como eles têm sido peças-chave na construção do imaginário visual de momentos históricos – de um jeito que não aconteceria se dependêssemos apenas da mídia estabelecida. Não é nem uma questão ideológica, é uma questão prática e logística: um grande veículo, por mais poderoso que seja, não pode estar em tantos lugares quanto o povo, não tem nem mesmo legitimidade pra tanto em alguns casos. Exemplo recente: as imagens sobre a ação policial no Pinheirinho que correram a rede não vieram das câmeras da imprensa pois os repórteres tiveram acesso restrito. Já quem estava tomando porrada podia gravar “à vontade”.

Dentro disso, me chamou a atenção uma reportagem da The Economist contando sobre a preocupação de algumas instituições de ativismo social em ensinar às pessoas noções básicas de gravação e tecnologia para que os vídeos amadores sejam mais eficientes e mais seguros. Por exemplo, no vídeo, um ativista da Witness conta que capturar um acontecimento inteiro com closes, mostrando uma sequência de eventos, pode ser bem mais eficaz do que panorâmicas tremidas e desconexas. Por outro lado, planos fechados podem induzir a produção de provas contra participantes de protestos, problema abordado por um desenvolvedor do The Guardian Project que criou um aplicativo para borrar o rosto de quem aparece inadvertidamente em imagens de mobilizações.

Ou seja: usar ferramentas digitais pra deixar o mundo melhor exige também que a gente aprenda a usar melhor as ferramentas digitais.

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Falando em câmera…

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

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As conexões humanas

Seguindo o espírito do texto de ontem sobre o Conexões Globais, escrevo rápida e livremente sobre o segundo dia do evento (hoje dando mais nomes aos bois). A base dessas anotações foi o debate com sobre o Occupy Wall Street com a Vanessa Zteler, Wilhemina Trout, Renato Rovai e Emiliano Bos e também o debate da Pós-TV com um povo ligado ao cinema que eu não sei quem são.

1. O que mais me chamou a atenção ontem, sendo mais específico, foi a apresentação do Emiliano Bos, esse jornalista italiano que cobriu conflitos no Oriente Médio, na África e nos Balcãs. Em um evento cujo principal foco de discussão é a conexão digital como forma de mobilização, o Emiliano falou sobre os 43 milhões de pessoas que hoje estão em fuga de países em conflito ou em condições sociais e econômicas degradadas. Na foto lá em cima, ele apresentou as rotas de fuga e imigração da África e Oriente Médio. A vida dessas pessoas depois de fugir, segundo ele, é basicamente esperar (frequentemente em um campo de refugiados) por um pedaço de papel  que lhes devolva a cidadania. Supostamente, eles não tem influência política, não se mobilizam, não tomam partido de decisões, não votam. Ao menos não formalmente, porque informalmente Bos diz que eles são “foot voters”, que suas rotas são uma forma de voto, uma forma de escolha política.

2. A Vanessa Zetler participou ativamente do Occupy Wall Street. Segundo o folder do Conexões, ela foi a 19ª a acampar no Zucchotti Park. Ainda assim, abriu sua fala dizendo que não podia falar pelo movimento por ele ser descentralizado. Todos podem falar pelo movimento e ninguém pode falar pelo movimento. Ela se posicionou dizendo que estava ali falando da experiência dela durante a ocupação. É uma distinção importante em tempos de horizontalização.

3. O Renato Rovai trouxe uma questão interessante: a convivência entre as velhas estruturas de esquerda e os novos movimentos sociais. Do ponto de vista dele, é preciso haver um encontro, uma convergência, um aprendizado mútuo. As velhas estruturas precisam se apropriar das novas ferramentas (tecnológicas e sociais) e os novos movimentos precisam entender que estão operando em cima de uma história, eles fazem parte de uma trajetória.

4. O tema da sustentabilidade financeira na cultura é complexo. Algumas pessoas dizem que os empreendimentos  culturais precisam aprender a andar economicamente com suas próprias pernas, a não depender do flutuante apoio do Estado. Mas um senhor ontem disse em alto e bom som: “sustentabilidade financeira é o caralho. A indústria automobilística compra aço subsidiado desde a década de 50. Quando o mercado esfria, ganha redução de IPI ou crédito facilitado pro setor. Cultura precisa sim ser subsidiada. É política pública. É o nosso dinheiro.”

5. Vi agora há pouco duas coisas no debate ao vivo do Fórum de Mídia Livre pela Pós-TV:  1) “A gente precisa parar de pregar pra convertido!”. 2) “Os debates em torno da mídia livre precisam acontecer na rua.”

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Um outro mundo é impossível

Na corrida, colo aqui algumas anotações que fiz ontem durante o primeiro dia do Fórum Social Temático e do Conexões Globais em Porto Alegre. São notas esparsas tecladas no celular durante o debate de abertura do Conexões (com o Gilberto Gil, o Antônio Martins, o Vinícius Wu e a Olga Rodriguez) e o papo na Pós-TV (com o Sérgio Amadeu, Cláudio Prado e a Ivana Bentes). Considerem esses parágrafos uma saladinha de fruta do que vi e ouvi lá, misturado com alguma coisa que eu mesmo pensei.

1. A mudança vem aos poucos. Não se pode trocar um sistema estabelecido por outro, isso não acontece. O que se faz é ir mexendo em áreas do sistema, irrigando com novas idéias, novos conceitos, novos pensamento, substituindo as peças. Por isso, a mobilização nunca pára, a mobilização é permanente.

2. Da mesma forma, por isso a política não pode ser algo que se faz de 2 em 2 anos com um voto numa urna eletrônica. Política é a ação do dia-a-dia, escolhas e caminhos que se faz, em casa, no trabalho, na rua, na rede.

3. Depois de grandes mobilizações populares, como o Occupy, é preciso ter mecanismos de “governança pós-revolta”. Porque é muito comum, na hora de resolver a crise, voltar às estruturas políticas formais tradicionais.

4. A troca assimétrica é um novo parâmetro. A troca simétrica é a lógica do mercado: você me diz que esse produto vale 5 patacas, eu lhe dou 5 patacas. Mas num mundo conectado em rede, as trocas começam a se tornar mais assimétricas e mais dependentes dos afetos: eu gosto desse conteúdo, então eu pago mais. Eu não gosto desse, então não pago, baixo de graça. Os laços de amizade e os laços familiares são exemplos de trocas assimétricas: você não consegue botar as relações na ponta do lápis, as contas raramente fecham. Esse tipo de conceito está migrando para o mercado e para as estruturas formais políticas e econômicas. As contas não vão mais fechar do jeito clássico.

Uma digressão: o mundo corporativo é falsamente baseado em trocas simétricas. Politicagem, maracutaia e joguetes emocionais são um belo exemplo de como nem sempre 5 reais vale 5 reais. Existem outros jogos envolvidos.

5. Não é apenas a ação que tem poder. O discurso também tem poder. A mobilização mundial em torno da questão SOPA/PIPA não envolveu tanta gente indo pra rua. Foi uma mobilização de discurso, de expor para o mundo as entranhas do projeto e suas consequências. Como todas as pessoas são hoje retransmissoras de mídia, seu discurso pode ganhar status de ação quando coordenado com o espírito do tempo.

6. Um outro mundo é impossível. Temos que dar um jeito nesse mesmo.

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Don’t believe the hype

Comprar um aparelho digital é hoje uma das tarefas mais ingratas que existem. Se você não tem um amigo ou alguém na família que seja especialista vai ter que confiar em vendedores, na propaganda do fabricante ou em reportagens da mídia. Mas nem sempre essas fontes dão a dica mais essencial, que é a seguinte: a melhor saída é sempre escolher o aparelho de acordo com a sua necessidade e não pelo que ele ou o mercado oferecem.

Muitas vezes acabamos comprando aparelhos cheios de penduricalhos só porque é o padrão do momento. Mas, diferente da retórica anti-consumista, isso não acontece por sermos todos zumbis consumistas e sim porque, no geral, não sabemos bem o que queremos e o que precisamos diante da oferta acelerada e crescente de tecnologia. Uma forma de se relacionar com isso é olhar com atenção para a situação, reduzindo a velocidade entre o impulso e a ação, e reunindo o máximo de informações antes de efetivar a compra. Pra facilitar, vale fazer uma lista escrita em papel com itens que se pretende usar, cruzar com as reais necessidades do cotidiano e definir a compra a partir disso.


Repito: o que você precisa nem sempre corresponde ao que o mercado está oferecendo como sendo o melhor. A melhor TV com o melhor home-theather é pra quem aprecia qualidade de som e imagem, não pra quem só gosta de se jogar no sofá pra ver uma tvzinha. O computador mais rápido e mais moderno é pra quem gosta de jogos complexos ou pretende produzir conteúdo, não pra quem só quer acessar emails e redes sociais. O celular mais avançado é pra quem vive de conexão constante. A câmera mais poderosa é pra quem tem aspirações fotográficas, ainda que amadoras. E assim por diante.

Outra coisa: nem sempre você precisa do modelo mais moderno. Existem versões antigas de câmeras, mp3 players ou de computadores que podem dar conta da sua necessidade. Eu vivi anos com um Creative Zen Mini de 5GB (acima) que pra mim serviu melhor do que os iPods da época. Hoje, abri mão de ter mp3 player, uma vez que meu celular pode armazenar e tocar música. Nesse caso, pra que a sobreposição? Exemplos de sobreposição hoje podem ser encontrado em todas as áreas.

Em resumo, a história é bastante simples: tomar nas próprias mãos a decisão sobre o que se precisa ou não. Pode ser um pouco mais complicado, exigir um pouco mais de pesquisa. Mas vale a pena. Resistir ao hype fácil da cultura digital é ecológico e econômico.

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Leitura Complementar

In Praise of Crap Technology – artigo no Boing Boing sobre o valor de tecnologia não tão de ponta.

Preparado para Morrer – artigo sobre obsolescência programada no Estadão.

The Unconsumption Project – outra do Boing Boing, dessa vez sobre uma marca sem dono pra revitalizar antigos objetos.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: logo do unconsumption.

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Google em botecos: um estrago

O Google sem dúvida é um das invenções mais incríveis e úteis das últimas décadas. Mas ele também tem seu lado estraga-prazeres. Principalmente quando você junta o Google com o acesso à internet pelo celular e uma mesa de bar. Isso porque geralmente uma boa parte do tempo que se passa com os amigos no boteco é investido em discussões sem sentido e sem objetivo. E, pra jogar conversa fora, é fundamental que a mesa seja ignorante em determinados assuntos.

Com o acesso ao Google no celular, discussões que ocupariam a noite inteira de especulação criativas podem acabar em poucos minutos quando alguém acha uma resposta lógica e exata na internet. Pior ainda: além de acabar com a criatividade na mesa, ainda tem gente que fica com a ilusão de que sabe alguma coisa só porque achou um site no Google.

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Texto de um dos programentes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: daqui.

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Galgando a hierarquia

O comercial acima (que eu peguei no Matias) é mais um exemplo daquilo que conversamos aqui e aqui a respeito da saga do Harry Potter (também pesquei uma evidência aqui). Um comercial desses sendo criado, aprovado e veiculado é fruto do envelhecimento de toda uma geração, que agora tem alguns representantes em posição de poder (no mínimo, aqui, no marketing da indústria automobilística e, claro, em agências de propaganda). No futuro, Star Wars certamente será esquecido e conviveremos com esquetes desse tipo relacionados a novos personagens, sendo Harry Potter o mais provável e em seguida, quem sabe?

Ah: não sei se você tem notado, mas Senhor dos Anéis também teve um poder de gerar memes no mainstream. Agora me deu preguiça de procurar no YouTube, mas tenho visto o bordão “my precious” em diversos seriados, inclusive alguns programas de TV aberta…

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Lembrando: não é a primeira vez que a VW fuça no baú de Star Wars. No ano passado rolou o premiado e comentado comercial The Force também.

Nerd power…

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O estado das coisas

“Já é Guerra pela Água. Já é. Há alguns meses, comecei a escrever uma longa matéria sobre as futuras guerras pela água. Mas vi que já não são “futuras guerras”: já estão aí, já são presentes. Se se examina bem, a guerra da Líbia foi a primeira grande guerra pela água. Haverá muitas outras no Oriente Médio, no sul da Turquia, Israel-Palestina. Mas a guerra da Líbia foi a primeira. E é terrível, por causa do Projeto Great Man Made River – mais de 20 bilhões de dólares, financiados integralmente pelo estado líbio de Gaddafi, com muita tecnologia canadense.”

O Pepe Escobar (que há muito tempo atrás escrevia pra Bizz, lembra?) explica o jogo de poder no mundo hoje. Eu não sabia: há anos ele é articulista de geopolítica do Asian Times e colabora com a Al Jazeera, um canal de TV russo e um de Washington. A entrevista, pra uma publicação alemã, é longa e complexo (e eu teria que ler mais duas vezes pra captar toda a extensão da rede de referências). Mas o investimento de tempo e atenção, garanto, compensa.

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Ligue os pontos

É como diz aí em cima: simplesmente reuni os textos (que considerei) mais interessantes da discussão recente sobre cultura independente num só lugar. Não tem análise, no máximo um viés de escolha e um discurso que acaba se montando com os trechos que escolhi pra servirem de guia para cada link. A conclusão é de cada um.

Está aqui no tumblr Discurso Alternativo.

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Relação

A essa altura do campeonato, já não é mais novidade pra ninguém esse papo do quanto nós estamos sendo inundados de informação hoje em dia. Na verdade, e felizmente, já estamos chegando no ponto em que muitas vozes estão propondo reflexões e comportamentos alternativos. O problema é que a questão é quase sempre tratada do ponto de vista da nossa relação com outras pessoas.

Por exemplo, a crítica que se faz contra quem fica muito tempo grudado no celular ou no computador geralmente vem acompanhada da sugestão que a pessoa saia da frente da tela e vá se encontrar com outras cara a cara. Mas antes disso, a pessoa talvez devesse se preocupar com sua relação consigo mesma.

Ficar grudado em qualquer tela nos rouba de nós mesmos, nos desacostumamos a ficar conosco. Antes de aprender a abrir mão da mediação de uma tela com o mundo, quem fica muito tempo conectado precisa aprender a abrir mão da mediação de uma tela consigo mesmo.

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Texto de um dos programentes Minimalismo.

Imagem: MarciaMonica Cook, daqui.

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Um brinde ao líquido

A linguagem humana é uma coisa engraçada. A gente tem mania de construir alfabetos inteiros usando conceitos que se mantém cristalizados e inquestionados por décadas e que acabam se transformando em dogmas laicos. Por exemplo, você consideraria a ação de alugar um apartamento um ato revolucionário? Certamente não. Quando se fala em alugar um apartamento, é provável que a sua mente abra gavetas e escaninhos ligados a ideias como burocracia, complicação e pequeno aburguesamento. Muito raramente, senão nunca, alguém diz “vou alugar um apartamento” e você lembra, digamos, da geração beat e de tudo que ela significou para a cultura dos últimos 60 anos.

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Acontece, curiosamente, que o fato de Joan Vollner ter alugado um apartamento no número 412 da W118 Street em Nova Iorque foi fundamental para a explosão beat na década 50. Esse foi o endereço que Joan dividiu com Edie Parker, mulher de Jack Kerouac, e cujas portas estavam sempre abertas pra receber gente fina como William Burroughs, Lucien Carr e Allen Gisnberg – além do proprio Kerouac, claro. Nesse pequeno apartamento alugado, madrugadas agitadas por anfetaminas e jazz bebop funcionaram como uma espécie de líquido amniótico para o feto da turma que logo depois colocaria o pé na estrada e aprontaria tremendas confusões. Talvez o contrato de locação desse imóvel tenha sido, de fato, a obra escrita que inaugurou o legado beat.

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Em seu livro mais recente, De Onde Vem as Boas Ideias, o escritor de “ciências pop” Steve Johnson fala sobre a importância desse tipo de lugar, que ele define como tendo propriedades líquidas. Johnson lembra que a maior parte das teorias relacionadas à criação de vida na terra são baseadas em água. E não só porque hidrogênio e oxigênio sejam elementos fundamentais em muitos compostos orgânicos, mas também porque H2O em estado líquido é simplesmente um excelente apartamento para interações químicas. O carbono, a base da vida terráquea, é um excelente conector (como era Allen Gisnberg), ou seja, tem a capacidade de se ligar a uma grande variedade de outros elementos. Mas sem um meio que permitisse numerosas colisões randômicas desse conector com outros parceiros, não haveria a exploração – e a posterior efetivação – dessas possibilidades. Ou seja: líquido é o estado da criação. No gasoso, há muita distância entre as partículas, nada vai a lugar algum. Congelado é paradão demais.

Acredito que muitos que lêem essa revista já estiveram, mesmo que por algumas poucas horas, em um lugar assim. Puxe da memória e certamente você vai se lembrar da atmosfera: uma noite movimentada, com gente entrando e saindo, os copos e cigarros passando de mão em mão, os grupos se fazendo e se desfazendo, os assuntos pulando de pessoa em pessoa, a informação fluindo e as ideias, mesmo que disparatadas e desestruturadas, sendo exploradas, retorcidas – moeda intelectual trocando de carteira e tendo sabe-se lá que destino.

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Nem sempre são apartamentos. Às vezes são ruas que concentram bares ou centros culturais. Uma esquina, uma quebrada. Não precisa ser à noite. Pode ser um campinho de futebol com goleiras nuas e, no lugar da grama, areião. Ou uma feijoada semanal num bairro longe do centro. Pode ser um escritório de portas abertas para a peregrinação de talentos complementares. Ou um ateliê que sirva de imã pra gente que compartilha curiosidades – mas não necessariamente o mesmo segmento artístico ou filosofia de vida. Pode ser qualquer lugar, desde que seja líquido. E, claro, desde que tenha uma Joan Vollner e uma Edie Parker pra bancar a parada e abrir as portas pras moléculas colidirem e se experimentatem como pares.

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Na história da cultura, muitos são lembrados, comemorados e seguidos por revolucionarem modelos e condutas. Mas poucos levam o devido crédito por criar, fomentar e manter ativo o ambiente onde essas viradas acontecem com toda a carga de energia e interação que necessitam. Essa gente pode até se manter anônima. Só não pode deixar de existir.

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Essa foi minha coluna pra revista Soma#26. Não deixe de dar uma boa olhada em toda a revista aqui.

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