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Mais do mix de política e cultura pop

2014-04-09 08.09.06

Essa capa da semana passada do jornal Zero Hora é mais um item pra minha coleção de mashup de política e cultura pop (embora não seja política formal diretamente). Escrevi sobre isso no mês passado no post As Eleições Deste Ano Vão Ser Pura Cultura Pop.  E complementei em seguida com outro post sobre as versões de Happy do Pharrell falando de Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Dias depois do meu primeiro post, me avisaram que tinha recém saído do forno o mapa da política brasileiro inspirado em Game of Thrones. Eu ia linkar o site original onde o mapa foi publicado, mas ele está fora do ar.

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Aliás, não são apenas os nerds de fazem conexões entre cultura pop e vida cotidiana. O Jean Wyllys escreveu há poucas horas um post no seu Facebook fazendo uma análise da situação eleitoral e citando Game of Thrones. Segundo a Veja, tanto a Dilma como o  Vice-Presidente Michel Temer são fãs confessos do seriado mágico-medieval. Se bem que… a Dilma é meio nerd, né?

Mais adiante, vou sentar de novo pra continuar a escrever sobre a tendência. Stay tuned!

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Carta aberta ao fantasma de Kurt Cobain

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Caro Kurt

Hoje faz 20 anos e 10 dias que você morreu. A data normal pra escrever algo seria 10 dias atrás, mas como você era um cara alternativo, eu pensei “que coisa mais corporativa essa história de 20 anos! Eu vou chutar o pau da barraca e esperar 10 dias”. Sim, foi por isso que demorei, não foi porque me esqueci da data.

Achei por bem fornecer um pouco de contexto pra falar desses 20 anos. Caso não tenha internet onde você está, é bom avisar que o mundo pop mudou consideravelmente. A primeira coisa digna de nota é que a geração de vocês foi a última que deu a impressão de que poderia fazer alguma diferença através do rock. E, com isso, não estou querendo dizer que não surgiram bandas interessantes, criativas e relevantes nesse meio tempo. Surgiram sim. Mas, que eu me lembre, da parte da audiência ninguém mais espera que elas causem algum tipo de rutpura cultural. Todo mundo procura isso em outros lugares, não mais nos palcos ou nos discos. O rock se tornou apenas rock. Tu vê só, se isso acontecesse naquela época, talvez menos peso recaísse sobre seus ombros. Vai saber.

Lembra quando você apareceu na capa da Rolling Stone com uma camiseta dizendo “Corporate magazine still suck”? Pois é, eu sei que na época isso meio que causou, dividindo o pessoal entre os que aplaudiam a sua rebeldia e os que chamavam isso de rebeldia de butique, afinal que rebeldia havia em aparecer na capa da Rolling Stone? Hoje essa camiseta seria desnecessária porque não há mais praticamente resistência alguma. Rock e corporações convivem bem e servem um ao outro quando preciso. Pouca gente faz drama quanto a isso e parece que o sonho de uma boa parte da juventude não é contrapor, mas sim construir a sua própria corporação. Em vez de bandas, o pessoal está montando startups. Loucura, né?

Outra coisa curiosa é o que aconteceu com as roupas que vocês usavam. Cara, definitivamente aquela história de se vestir de qualquer jeito, com umas roupas meio detonadas e tal, aquilo não vingou MESMO. Hoje o pessoal mais alternativo se veste direito, como se estivesse indo sempre a uma reunião de negócios, e se você quer NOMES pra saber quem começou com essa moda, procure pelo pessoal do Strokes. Eles até tiravam uma certa onda de sujinhos, mas não eram não, foi ali que começou isso de se vestir decentemente. Bom, goste-se ou não, a moda pegou. Alguns grandes estilistas até vem tentando reeditar uma suposta moda grunge, mas na verdade é só roupa dos Strokes com estampas xadrez.

A mesma coisa aconteceu com o som. O arquétipo da sua turma era o vocal gritado e as guitarras bem distorcidas. Embora sempre apareçam umas bandas mais pesadas aqui e ali, o arquétipo do momento são vocais com gritinhos e guitarras com pouca distorção. O que, de novo, não é um problema em si. Mas quando vocês apareceram tinha aquela ideia de resgate de um rock mais sujo depois do som mais processado dos anos 80. Agora, riffs de rock e gritos são assunto de super DJs de pop e filmes infantis. Tá anotando?

Juro que não tô querendo fazer fofoca. Isso tudo é só contextualização. O ambiente muda externamente, mas lá no fundo o que é importante permanece importante. E eu resgatei essas mudanças porque me lembrei que o legado que você e sua turma nos deixaram não tem a ver com rebeldia anti-corporativa, com roupas detonadas e um som mais sujo. Não. Isso era só o invólucro, a embalagem. Tinha uma coisa maior, mais forte e que eu levo comigo até hoje.

Era uma certa conexão com a energia primal e desorganizada que a gente carrega dentro, lá no fundo. O lado escuro da lua. A nossa caixa de gordura. De tempos em tempos, surgem artistas que conseguem construir uma ponte entre esse subterrâneo e o mundo da superfície. Todo mundo sai ganhando quando aparecem artistas assim que, em vez de abafar o que vem dos subterrâneos do ser humano, conseguem processá-lo e trazê-lo à superfície de um jeito que as pessoas intuem que é subterrâneo mas não viram a cara nem tampam o nariz, e sim CURTEM. Entende? Ganhar as pessoas com florzinhas e pôneis é barbada. Mas com o esgoto? Cara… isso já é um talento de se fazer num pequeno segmento, reconhecido por alguns fãs e especialistas. E vocês fizeram vendendo milhões de discos no mundo inteiro, influenciando milhões de outros artistas, servindo de catalisadores pra toda uma mudança que estava acontecendo no mundo.

É realmente triste que você, como pessoa, não tenha sobrevivido a esse processo. Porque acho que o mundo volta e meia precisa de uma chacoalhada através dessa conexão direta entre subterrâneo e superfície. Não que as coisas estejam muito tranquilas e precisem de esgoto extra. Mas é que coletivamente a gente tem uma tendência de ficar passando Bom Ar em vez de abraçar o subterrâneo e processá-lo. Por mais bagunçado que você estivesse, era bom ter a sua contribuição artística de corpo presente nesse assunto.

Abraços aê
Gustavo Mini

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Desenho: Thomas Mikael / WikiCommons

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Crianças e tecnologia: é preciso mostrar quem é que manda

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“Quando nos deslumbramos ou nos apavoramos com uma criança que mexe com desenvoltura em um iPad, perdemos uma perspectiva de liberdade e conferimos uma certa aura mágica e misteriosa à tecnologia digital. Não há dúvidas de que essas cenas sejam cativantes, mas a verdade é que precisamos mostrar para as crianças de uma vez por todas quem é que manda. Não quem é que manda nelas, e sim nos aparelhos, sites e aplicativos que usamos diariamente. A maior parte deles é bem mais carente do que nossos filhos pois foram desenvolvidos de forma que precisamos lhes dar uma atenção tão constante que nem o mais indefeso dos bebês consegue rivalizar.

É muito fácil nos deixarmos levar pelo mar de notificações e conteúdos que chegam sem parar via email, mensagens de texto, chats e feeds de redes sociais porque esses sistemas são construídos assim, para gerar fluxos e engajar nossa atenção 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano até o fim dos tempos. Mas, apesar de parecer que sim, eles não tem vida própria e é uma decisão particular de cada um de nós aprender a regular a entrada de notificações e conteúdos em nosso campo de interesse. Está literalmente nas nossas mãos decidir quando vamos ler ou assistir o que está chegando.”

Trecho de um artigo meu sobre a relação de crianças, adultos e tecnologias digitais que saiu na Estilo Zaffari #66. A revista está à venda na rede Zaffari/Bourbon de supermercados, mas também dá pra ler online aqui no Issuu. Ou no embed abaixo. As ilustrações do artigo ficaram a cargo do meu parceiro Guilherme Dable.

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Hanna Arendt: um bom filme pra ver nessa semana de reflexões sobre o Golpe de 64

Com a reação quase histérica dos nossos bizarros conservadores diante de tantas manifestações condenando o Golpe Civil-Militar de 64, é impossível não lembrar de Hanna Arendt, a filósofa alemã que cunhou a expressão “banalidade do mal”, e principalmente de Hannah Atendt, o filme de 2012 que resume tão bem um dos pilares de sua filosofia. Dirigido pela alemã Margarethe Von Trotta, a biopic de Arendt é considerada por Roger Berkowitz, diretor do Hannah Arendt Center, um belo veículo para a divulgação das ideias de sua protagonista. Inclusive, escreveu ele na Paris Review, “o filme deveria se chamar ‘A Mais Sofisticada Leitura de Hannah Arendt A Alcançar uma Audiência Mainstream Até Hoje’.”

A noção de “banalidade do mal” nasceu da famosa cobertura que Arendt fez do julgamento do oficial da Gestapo Adolf Eichmann para a revista The New Yorker em 1961. Nela, a filósofa desafiou a opinião pública e todo um circuito intelectual ao propôr que o mal causado por Eichmann não vinha do fato dele ser um monstro e sim uma pessoa medíocre e burocrática. O artigo se transformou em um livro seminal e detonou o que Berkowitz chamou de “guerra civil intelectual”.

Não me sinto em posição de escrever sobre o Golpe (ou sobre Hannah), mas trago a lembrança do filme mais como um complemento de reflexão em relação às pessoas que hoje defendem na internet a ditadura e toda a cultura autoritária e violenta que ela suscita. Falo por mim: acho difícil processar adequadamente a indignação com quem relativiza os atos do regime militar e sua herança nefasta, mas sinto que vale o esforço de não distribuir indiscriminadamente rótulos de monstros a quem simplesmente é impulsivo, impensado e irresponsável com seu teclado. Por que vale isso? Porque me parede que é melhor responder a essas atitudes sempre baseado em uma reflexão mais aguda, embasada em lucidez, do que também agir impulsivamente e projetar todo um cenário de “monstros do lado de lá” que inflama ainda mais o ambiente. Esse espaço de reflexão radical, de resistência à resposta automática e rotuladora é uma das grandes lições que tirei do filme.

Preste atenção quando você for assistir: uma boa percentagem da narrativa é preenchida com cenas de Arendtsimplesmente PENSANDO em seu escritório, em casa, ou em uma de suas viagens. O tempo todo, Arendt é retratada pensando, pensando, pensando. O que é muito significativo e, no texto da Paris Review, Berkowitz explica:

“Paralisada pelo perigo da falta do pensar, Arendt passou sua vida pensando sobre o pensar. Poderia o pensar, ela pergunta, nos salvar da disposição de muitos, senão da maioria, de participar de maldades burocraticamente regulamentadas como foi o extermínio administrativo de seis milhões de judeus? Pensar, como Arendt considera levanta obstáculos a supersimplificações, clichês e convenções. Apenas pensar, argumenta ela, tem o potencial de nos lembrar da nossa dignidade humana e nos libertar para resistirmos a nosso próprio servilismo. Esse tipo de pensar, do ponto de vista de Arendt, não pode ser ensinado, apenas exemplificado. Não podemos aprender o pensar através de catecismo ou estudo. Aprendemos o pensar apenas através da experiência, quando somos inspirados por aqueles cujo pensar se introjeta em nós – quando encontramos alguém que se destaca da multidão.”

Nesses tempos confusos, assistir Hannah Arendt, se não lê-la, é ser lembrado por sua própria figura de que precisamos parar e pensar, pensar, pensar, pensar, pensar, antes de distribuirmos máscaras de monstros. Desumanizar aqueles que defendem ideias autoritárias e anti-humanistas rende bons memes mas tem pouca serventia prática a longo prazo numa democracia. Não acho nada confortável considerar que os filhotes digitais do Bolsonaros sejam mesmo meus parceiros de espécie, mas colocá-los do “outro lado” pode ser também muito perigoso. Primeiro, porque denota pouco penso. Segundo, consequentemente, porque essa atitude de escolher lados tão bem definidos é o ingrediente básico na formação dos regimes totalitários e ditatoriais mesmo (ou especialmente) quando estamos “do lado certo”.

***

O filme Hanna Arendt mexeu comigo em diversos níveis. Um deles foi o estético. Além das frequentes sequências com a personagem principal pensando, chama a atenção também o ritmo sóbrio e o ar cool da produção – tanto em figurino, direção de arte e elenco quando nas escolhas narrativas, com uma ênfase em mostrar a mescla de vida social com intelectual de Arendt num clima BEM anos 60 como gostamos de imaginar os anos 60. Ou seja, pensadores fumando, bebendo e tirando conclusões em encontros informais e relações amorosas dúbias. Acredito que para um certo público (meio intelectual, meio de esquerda, diria Antônio Prata), dá vontade de estar no meio daquelas reuniões. Eu fiquei com essa vontade, pelo menos.

Ponto pra diretora, porque é aquela coisa: assuntos grotescos como o holocausto precisam às vezes do fator organizador da arte para terem algumas de suas questões melhor compreendidas e digeridas.

Ps: vale ler a crônica do Contardo Calligaris sobre o filme Hanna Arendt. A tese de mestrado dele foi desdobrando algumas ideias dela.

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O que eu aprendi no Treinamento Nesta/British Council para Empreendedores Criativos

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A palavra “criativo” é um grande problema. Em geral, as pessoas associam “criativo” a coisa “loucas”, “diferentes”, “irreverentes”, “fora da casinha”. Instalações de arte contemporânea, games bizarros, utensílios de cozinha inusitados, filmes experimentais, todos são considerados “criativos” enquanto que o planejamento dos produtores culturais, o fluxo de caixa da empresa de games, os relatórios do contador do estúdio de design e a planilha orçamentária da produtora de cinema são “uma encheção de saco”, “um mal necessário”, alienígenas incompreendidos em um planeta no qual todos praticam bullying com a burocracia.

Combinar na prática esses dois mundos, o pragmático com o imaginativo, foi a lição de fundo que eu aprendi no Treinamento Nesta para Empreendedores Criativos que freqüentei semana retrasada aqui em Porto Alegre. Durante 4 dias, eu e outras 19 almas perdidas fomos recebidos gratuitamente na Escola de Design da Unisinos para um excelente workshop promovido pela Secretaria da Cultura do Governo do RS numa parceria com o British Council e o NESTA, este último o responsável pela metodologia e pelo conteúdo do evento.

Assim como eu, todos os outros integrantes do treinamento estão trabalhando em projetos profissionais ligados à economia criativa. Entre as ideias sendo gestadas ou aperfeiçoadas estavam uma iniciativa de microcrédito para artesãos, uma ocupação cultural de um prédio histórico semi-abandonado, uma produtora de vídeos comerciais com abordagem documental, estúdios de animação, um app para o universo da cerveja artesanal, uma marca de moda, uma entidade associativa para marcas de moda, enfim, empreendimentos que são baseados muito mais em capital intelectual do que financeiro ou físico.

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Criado na Inglaterra como parte de um vasto programa de inovação com foco na economia criativa, o objetivo do Treinamento Nesta é submeter os projetos (ou ideias seminais) a uma bateria de exercícios e dinâmicas que permitem construir, revelar ou refinar seus pilares conceituais e operacionais com a ajuda dos companheiros de workshop. Essa metodologia não é novidade para os empreendedores seriais, para os que já vivem imersos na roda viva das aceleradoras, da busca por investidores, dos livros de negócio. Mas se eu fosse me basear na pequena amostragem desse Treinamento, daria pra dizer que 80% dos empreendedores criativos não tem seus projetos totalmente estruturados de maneira que sobrevivam a suas próprias contradições e lacunas – que dirá a fatores externos. A verdade é que mesmo com a disseminação da cultura e do vocabulário médio das startups no Brasil, a noção de modelar um negócio criativo de maneira formal ainda causa calafrios em muitas pessoas que gostam simplesmente de sentar e criar o que quer que seja. Aliás, eu sou uma dessas pessoas.

O que pra mim fez a diferença no caso do Treinamento Nesta foi o Creative Enterprise Tookit, um apanhado de ferramentas para modelagem de negócios que mistura elementos clássicos (como a matriz de análise SWOT) com contemporâneos (como alguns frameworks do criador do Business Model Generation, Alexander Osterwalder) de uma maneira que que não afugenta que não tem grande apreço por planos de negócios tradicionais. O Tookit é disponibilizado gratuitamente para download (em inglês no site do Nesta ou em português diretamente no meu Dropbox) e ele próprio é um passo-a-passo par ser utilizado independente do workshop. Mas trabalhar com o Tookit em grupo, com um orientador treinado, num ambiente sincero de troca e colaboração como foi o treinamento que participei, não tem preço: a interação com o grupo, bem conduzida, forma um caldo grosso de dúvidas e insights que enriquecem todos os projetos, por mais diferentes que sejam seus objetivos ou seus segmentos. Parabéns à treinadora Phily Page, que conseguiu manter a coesão e a energia do grupo em uma curva ascendente ao longo dos 4 cansativos dias de trabalho.

Fica, então, a esperança (e a reivindicação) que a Secretaria da Cultura dê proseguimento a seu programa RS Mais Criativo e promova mais workshops como esse. Dinheiro para projetos não é a única forma de incentivar empreendimentos criativos. Eu arriscaria a dizer que a maior parte deles se beneficiaria mais de um treinamento assim, seguido de um sistema de apoio de gestão, do que exclusivamente de dinheiro. Embora a grana seja sempre bem-vinda (e ajuda financeira é fundamental para a cultura de um país ainda emergente) um processo de  treinamento contínuo desse calibre é mais estruturante – além de estimulante e viral: aqui estou eu falando da metodologia para minha audiência e tenho certeza que meus colegas também se tornaram mutiplicadores dos saberes que adquiriram.

Aliás, antropologicamente falando, não é assim que as culturas evoluem?

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Em abril, o Treinamento Nesta vai acontecer em Recife. As inscrições já estão encerradas.

De qualquer forma, vale explorar o site do Transform, o programa do British Council que trouxe o Treinamento para o Brasil e que está envolvido em uma série de outros projetos de intercâmbio cultural UK-BR.

O site do próprio Nesta é uma fonte de consulta bastante interessante. Eles tem, por exemplo, dezenas de relatórios e pesquisas nas áreas de inovação e economia criativa. Tudo pra download gratuito. Em inglês.

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As eleições deste ano vão ser pura cultura pop

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A combinação de eleições com internet é indiscutivelmente explosiva. Por mais que as campanhas eleitorais no Brasil tenham um pé no pitoresco desde sempre, foi só com o avanço da cultura digital dos últimos dois anos que o marketing político começou a experimentar um outro tipo de relação com o ambiente de comunicação nacional, tendo que levar em consideração um refluxo gigantesco de conteúdos que estão além do controle de políticos e marqueteiros. Esses não são conteúdos que necessariamente mudam os rumos de uma eleição, mas, no mínimo, tornam o diálogo com o eleitor mais complexo e, veja só, mais pop.

Em 2012, tivemos um gostinho do futuro: foi o ano em que o acesso à banda larga fixa e o acesso à internet por celular cresceram substancialmente no país. Além disso, também foi quando o Facebook teve seu verdadeiro boom local, crescendo quase 300% em número de usuários em relação a 2011 e chegando à marca de 35 milhões de brasileiro curtindo e compartilhando tudo que se mexia. Essa nova infra-estrutura fez com que 2012 nos trouxesse: as primeiras guerras de memes políticos, com o Serra liderando o ranking nacional de “memíveis”; um fórmula de sucesso para o jornalismo alternativo na combinação de leitores-ativistas com um ecossistema de disseminação em redes sociais; uma guerra (muitas vezes clandestina) de contra-informação entre partidos; e o fenômenos dos amigos chatos que poluem a sua timeline com campanha para seus candidatos.

Apesar de terem se passado apenas dois anos, as eleições de 2014 vão acontecer em um terreno bastante diferente. Não se trata só de novas estatísticas de telecomunicações, de mais acessos à internet, mais celulares conectados e um Facebook que dobrou de alcance. O que importa, na verdade, é o número maior de pessoas que entrelaçou seu jeito de conversar com colegas de trabalho, familiares e amigos usando os códigos da cultura pop A manipulação de imagens, a edição sarcástica de vídeos, o poder de repassar conteúdos para sua rede, o uso de personagens/bordões/roupas/logotipos de filmes, séries e músicos na comunicação do cotidiano, tudo isso que era uma forma de comunicação dominada e utilizada apenas por nerds e indies está se universalizando. O papa não é mais pop. O papa é meme.

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Agora em março, três eventos em sequência estabeleceram, a meu ver, a abertura oficial das Eleições 2014 no que diz respeito a esse uso de linguagem. Primeiro, o deputado federal Beto Albuquerque discutiu pelo Twitter ao vivo com o real-fake Dilma Bolada, protagonizando um momento fascinante de cruzamento da vida digital com a política dita real. Onde começa uma e termina outra? Em segundo lugar, a queda de braço de Eduardo Cunha com o Planalto lhe deu, na capa da Istoé e em uma reportagem da Carta Capital, o direito de ser comparado (justissimamente) com o congressista sem escrúpulos Frank Underwood, do seriado House of Cards (veiculado exclusivamente em streaming, vale lembrar). Em terceiro lugar, a Piauí de março abriu um pequeno artigo sobre o candidato presidencial do PSOL, Randolfe Rodrigues, lembrando que seu apelido no Senado é Harry Potter. Se Dilma Bolada, Frank Underwood e Harry Potter são a comissão de frente desse carnaval, o que nos espera nas alas seguintes?

Não há dúvida que o ambiente de comunicação política esse ano vai incluir ecos do complexo ativismo digital que se formou durante as Jornadas de Junho do ano passado. Mas minha aposta para 2014 é no crescimento da participação mainstream nesse processo, com um acento mais pop, ancorada na disseminação orgânica de conteúdos não-oficiais por parte dos milhões de usuários que vem exercitando no seu dia-a-dia a auto-expressão por referências. Quem vai ser o candidato incluído digitalmente em vídeos de funk ostentação? Ou que vai ter sua foto manipulada pra incluir aparelhos com borrachinhas coloridas nos dentes? Quem será o Voldemort de Randolfe Rodrigues? As complexas coligações partidárias serão comparadas às casas do Game of Thrones? Qual é o estado que vai ter um vídeo com seus candidatos a governador passando pelo crivo dos jurados do The Voice Brasil?

Essas perguntas serão respondidas ao vivo, online, durante a festa da democracia. Uma festa que agora tem evento marcado no Facebook, convite-spam enviado pra todo mundo e grupinho no What’s App. Pode se preparar.

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O pós-hype da Economia Criativa

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“Economia criativa” é uma dessas expressões, como “co-criação”, “crowdfunding” e “big data”, que recebem uma atenção tão concentrada no seu surgimento que acabam correndo dois riscos: serem esquecidas rapidamente em benefício de novas ondas ou se tornarem caricaturas que temperam palestras duvidosas. Mas, felizmente, em uma esfera que fica além dos títulos de posts e dos keynotes descolados, forças com intenções mais perenes se articulam para aprofundar as bases do que vale a pena manter de pé. É o caso da Economia Criativa, ao menos pelo que vi no lançamento da Escola da Indústria Criativa da Unisinos no sábado passado. O evento colocou no mesmo palco a Edna dos Santos-Duisenberg, Chefe do Programa de Economia Criativa da United Nations Conference on Trade &  Development, e a Lala Deheinzelin, especialista em Economia Criativa e Desenvolvimento Sustentável. E a fala das duas (assim como o lançamento da Escola) contrapõe a ideia de que a Economia Criativa possa ser apenas um modismo ou um termo bacanudo.

A Edna começou o papo trazendo uma visão panorâmica bem estruturada sobre os caminhos da Economia Criativa no mundo, destacando a importância desse tipo de negócio na recuperação de crises econômicas (é pra EC que alguns desempregados se voltam pelo baixo investimento inicial que exige) e o DNA do Brasil nesse segmento. Segundo ela, a gente tem uma inclinação à Economia Criativa por conta da nossa riqueza cultural e da nossa habilidade natural de misturar e improvisar. O que falta é aprendermos a transformar essa energia em um ecossistema organizado que permita aos criadores evoluir artísitica e economicamente.

Os casos nacionais bem sucedidos em grande escala são poucos mas exemplares (ao menos em termos financeiros): ela citou o Carnaval, as telenovelas e a música popular como indústrias criativas tipicamente brasileiras, calcadas em uma infraestrutura própria e geradoras de divisas e empregos. Além disso, essas três indústrias ainda colaboram na constituição da identidade do país. Edna chama isso de “soft power”, o poder de gerar riqueza e influência sem ativos tangíveis – algo que, crítica social à parte, os Estados Unidos utilizam muito bem na propagação de seu estilo de vida pelo mundo. Particularmente, senti falta, na fala da Edna, de uma ênfase na “cauda longa” da Economia Criativa – as centenas de nichos culturais que não são tão grandiosos ou populares mas que, combinados, se tornam uma força importante. Mas também entendo que ela tinha pouco tempo no palco e seu trabalho ocorre mesmo num nível mais macro. Segue o baile.

Lala Deheinzelin_por RodrigoBlum

A Lala Deheinzelin, na sua vez, fez outra comparação valiosa para esclarecer por que é tão necessário olhar para a Economia Criativa de forma estruturada e não apenas com as lentes em aros grossos do hype: “Precisamos de uma Petrobrás para a Economia Criativa brasileira”. Não que a Petrobrás precise ampliar seu programa de patrocínios… o que a Lalá quis dizer é que temos também uma espécie de pré-sal cultural que pede mais do que a capacidade de ser alcançado, tem a necessidade de ser processado para se colocar de pé num sentido econômico, para dar sustentabilidade ao circuito criativo. No Brasil, toda atividade criativa ainda sofre um certo preconceito, como se estivesse em um patamar inferior, menos sério, menos importante. O que é uma tremenda injustiça econômica. A Lala lembrou que o potencial da Economia Criativa é gigantesco por funcionar dentro de uma lógica exponencial: a soma de 2 produto físicos gera a renda de 2 produtos físicos; mas a soma de 2 ideias pode dar origem a uma terceira que gera um valor dez ou cem vezes maior do que a das unidades. O potencial para gerar riqueza dentro da Economia Criativa é nuclear.

Tanto a Edna como a Lala enfatizaram ainda o quanto a Economia Criativa tem um aspecto inerente de diversidade e inclusão. Um ecossistema saudável para o crescimento de Indústrias Criativas oferece outros formatos de vida para pessoas que não se adaptam à lógica econômica linear da indústria pesada ou dos serviços convencionais. Fora isso, se trabalhadas de forma anti-hegemônica, as Indústrias Criativas tem o poder de revelar e amplificar diferentes ângulos da nossa cultura, influindo inclusive sobre a auto-estima de segmentos inteiros da população. Pode ser uma visão otimista da minha parte, mas acho que vale a pena olhar assim.

Em resumo, a Economia Criativa precisa mais do que deslumbre que jogaram sobre ela há alguns anos. Voltando à fala da Edna, ela lembrou que a atuação governamental, por exemplo, não pode ficar restrita ao Ministério da Cultura. Economia Criativa é assunto transversal, que une ministérios diferentes como os ligados à indústria, ao comércio, à tecnologia, à educação e ao turismo. Um papo nesse nível talvez não pegue tão bem numa roda cool, mas pode fazer maravilhas pelo desenvolvimento do Brasil.

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Foto 1: New Old Stock

Foto 2: Rodrigo Blum, divulgação Unisinos

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Internet das coisas: coisas não se comunicam

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Em tempos de entusiasmo com a internet das coisas, aquela que promete fazer a sua geladeira se comunicar com seu smartphone, vale trazer à tona um trecho de “As Teorias da Comunição” de Francisco Rudiger, que defende (ao menos em seus estudos) evitar o uso da palavra comunicação a não ser que estejamos falando de humanos. Segundo ele, o pessoal está aprontando a maior confusão ao usar “comunicação” sem qualquer critério epistemológico/semântico.

“Em geral, a palavra (comunicação) tende a ser definida pelos meios, pelos usos e pelas aplicações: remete a uma multiplicidade de territórios raramente explicitada ou coerente entre si, servindo de passarela para diversas disciplinas que tratam-na com enfoques na maioria das vezes divergentes, acentuados quando passamos das ciências humanas para as ciências naturais. No limite, a expressão não designa mais nada, transformando-se em simples rótulo, posto em um campo de estudos multidisciplinar, para o qual convergem ou se confrontam os mais diversos projetos de pesquisa, mas do qual não se tem o conceito.”

Enfim:

“A comunicação constitui, em essência, um fenômeno cultural; representa um processo de relacionamento primário, ou não, que ocorre entre os seres humanos.”

Logo, falar de objetos que se comunicam é uma espécie de waltdisneyzação da indústria da tecnologia, que cultiva, por motivos óbvios, a mania irritante de sugerir que coisas tem vida. Esqueça: sua geladeira não vai se comunicar com o seu smartphone. O máximo que pode acontecer é você se comunicar com quem divide o apartamento alterando a temperatura da geladeira via smartphone pra se vingar do banheiro sujo. Bom, aí sim temos, de fato, comunicação.

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Foto: Picjumbo.

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Como mudar o mundo lavando a louça

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Um dos efeitos mais interessantes do avanço da cultura digital é a globalização definitiva da ideia de que tem muita coisa pra se consertar no mundo. Antes da internet, nosso contato com os problemas ao redor do planeta não apenas dependiam da edição das agências de notícia e dos grandes veículos como tinham interferência limitada no nosso cotidiano, ficando restritos aos horários de noticiários de rádio e tv ou ao momento da leitura do jornal. Com a internet, a coisa é bem diferente: a qualquer momento podemos ser (e frequentemente somos) impactados via rede social ou email por fotos, vídeos, reportagens, abaixo-assinados e todo o tipo de registro de mazelas, tragédias e falcatruas. Como se não bastasse, esses impactos vem dos lugares mais variados. Pode ser um desabamento no estado vizinho ou um assalto no prédio vizinho, um atentado terrorista do outro lado do oceano ou crianças passando fome do outro lado da rua. A avalanche de informação típica da era digital não é feita apenas de frivolidades e o contato constante com certas realidades toca a todos por alguns segundos, deixando sempre uma pergunta no ar: o que é que eu posso fazer?

Segundo o jornalista inglês John-Paul Flintoff, autor do pequeno e simpático manual “Como mudar o mundo”, você pode fazer muita coisa. E, o mais importante: fazer algo não significa exclusivamente se lançar em missões dramáticas como largar tudo e se juntar aos Médico Sem Fronteiras ou entregar sopa quente aos sem-teto nas noites frias de inverno. Para Flintoff, a ideia de que só ajudamos no mundo através de um determinado tipo de ação e com uma alta carga de intensidade é o que impede muitas pessoas de empreenderem pequenos atos dentro de seus desejos e possibilidades, o que poderia fazer uma grande diferença. Em se tratando de ativismo social, não existe ação pequena ou desperdiçada. Você não precisa se tornar um messias para ajudar a melhorar as coisas.

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Essa é a principal beleza de “Como mudar o mundo”. Não queremos mais alguém nos dizendo populisticamente que deveríamos levantar a bunda do sofá e revolucionar as coisas. Esse tipo de chamado acaba distanciando as pessoas do ativismo social por deixar pesado um campo que já não é fácil de digerir. Embora bilhões de pessoas se comovam com as dificuldades de seus pares, poucos se consideram à altura de Gandhi ou de Nelson Mandela na hora de botar a mão na massa. As histórias de figuras como essas são repletas de lances grandiosos e momentos históricos, o que pode nos ensimesmar diante do desafios cada vez maiores que se apresentam do ponto de vista da coletividade. Diz no capítulo 2 de “Como mudar o mundo”: “Concentrar-se demais em batalhas monumentais – como aquela do estudante chinês solitário que, na Praça da Paz Celestial, em 1989, foi com suas sacolas de compras bloquear uma fileira de tanques – pode ser desnorteador. A ética surge em nossas vidas de formas muito mais comuns, corriqueiras. John Ruskin indagou por que damos medalhas a pessoas que, no calor do momento e sem muita ponderação, salvam a vida de alguém mas não damos medalha a pessoas que dedicam anos à criação de uma criança”. Aí se entende o famoso ditado “Todos querem mudar o mundo e ninguém quer lavar a louça”: é porque não se tem notícias de um mártir que tenha sido condecorado por apresentar uma pia tinindo de limpa.

Para Flintoff, depois de superar o derrotismo e aceitar que é possível fazer alguma coisa pelo mundo, o mais importante é que a pessoa disposta a mudar o mundo encontre dentro de si uma motivação genuína para agir. Ajudar uma entidade ou um vizinho desamparado podem se tornar fardos problemáticos se não estão conectados com atividades ou vontades que façam sentido para quem se coloca à disposição. “Não nos sentiremos motivados a mudar o mundo sob a ameaça de que isso se torne uma obrigação chata – mas se encontrarmos maneiras que coincidam com as coisas de que mais gostamos na vida, maiores as chances de que as levemos adiante.” Em outras palavras, seria um desperdício ter você mal humorado tentando colaborar com refugiados no Oriente Médio quando sua paixão por direito tributário pode solucionar um problemão fiscal e evitar o fechamento de uma creche do seu bairro. Isso talvez não renda um Nobel, mas é uma contribuição inestimável para algumas famílias. E você o fez trabalhando no computador com a bunda grudada na cadeira.

Outra palavra central em “Como mudar o mundo” é  estratégia, ou seja, o princípio de raciocinar antes de agir. Além de questionar-se sobre suas motivações, Flintoff também instiga o leitor a organizar o que considera suas próprias prioridades para mudar o mundo. “Se você não souber o que quer consertar, será impossível fazê-lo.” Listar questões genéricas como “guerra, fome e pobreza” não são de muita utilidade e o autor sugere ao longo de pelo menos dez páginas que precisamos refinar nossos impulsos, traduzindo-os em linhas de ação factíveis. Depois disso, lembra que existem níveis diferentes de atuação: você pode querer trabalhar para reduzir a fome entregando quentinhas a sem-teto no inverno, criando campanhas publicitárias para uma ONG, filmando um documentário sobre o assunto ou candidatando-se a vereador para influenciar nas políticas públicas. Todas as vias são válidas e a eficiência de cada uma tem menos a ver com a atividade em si do que com a combinação de vocação, oportunidades e condições do momento.

Ok, mas digamos que você tem esse sentimento contraditório de querer mesmo fazer alguma coisa mas não sentir a menor inclinação pra se envolver diretamente no universo do ativismo social. Não tem problema. Ainda assim “Como mudar o mundo” traz duas sugestões de como você pode contribuir para… mudar o mundo: dar testemunho e acrescentar beleza ao mundo. Dar testemunho é a quintessência da ajuda na era digital. “Somos capazes de mudar o mundo tanto ao passar adiante notícias sobre coisa que precisam ser corrigidas como ao ajudar a promover as tentativas dos outros de consertar essas coisas.” Qualquer um que trabalhe com ativismo social sabe o quanto é penoso jogar luz sobre sua causa, ainda mais se ela não está na agenda da hora da grande mídia. Literalmente milhões de pequenas causas e batalhas estão nas sombras contando com colaboradores que repassem suas mensagens de uma maneira positiva e produtiva. Ou, como diz o filósofo Raymond Willias citado no livro, “a questão não é tornar o desespero convincente, mas sim a esperança possível.” Não deixe, então, que o acusem de slacktivist, de ativista de sofá: a multidão de pessoas que repassam mensagens e vídeos por email ou por redes sociais tem um papel fundamental na mudança do mundo.

Por outro lado, quem simplesmente quer deixar as coisas mais leves ou criativas também está fazendo a sua parte. “Talvez o que nos seduza seja o lado estético da vida.” argumenta Flintoff, abrindo mais uma porta para quem quer mudar o mundo. E ele não está falando de estudar belas arte, se tornar pintor ou escultor, mas considerando válidas mesmo as inclinações mais prosaicas como bordar roupas de segunda mão, criar artesanato em sua própria oficina, abrir um café aconchegante. E segue: “A princípio esses desejos podem parecer totalmente egoístas. Mas não precisamos nos aborrecer com isso, pois quando nos engajamos criativamente no mundo, estamos provocando um impacto. (…) A história mostra que assim que as necessidades mais básicas das pessoas são supridas, o impulso estético entra em atividade. (…) Essas necessidades estão no âmago do que somos e jamais devem ser sacrificadas em nome de um conceito errôneo de seriedade. (…) Para mudar o mundo, também devemos considerar nossos próprios interesses e habilidades – seremos mais eficazes se fizermos coisas que nos vêem naturalmente.”

Em resumo, o grande mérito de “Como mudar o mundo” é abrir dezenas de portas para todo tipo de possibilidade. Mudar o mundo, desse ponto de vista, não é um campo de ação no qual apenas certas pessoas com habilidades e energias específicas podem atuar, mas sim um terreno fértil no qual qualquer um pode brotar como protagonista. Como diz a escritora e ativista Rebeca Solnit, citada no livro, “a menos que tenhamos a sensação de que nós podemos fazer alguma coisa, não temos esperança”. O que John -Paul Flintoff nos oferece é justamente isso: incentivo, estratégia, relatos e exercícios que podem fornecer a literalmente qualquer um a poderosa sensação de que pode fazer alguma coisa.

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“Como mudar o mundo” faz parte de uma coleção bem bacana que inclui outros rápidos manuais de reflexão e ação para a vida contemporânea. Além do livro de Flintoff, eu já li outros dois: Como viver na era digital e Como encontrar o trabalho da sua vida. Todos são altamente recomendáveis e encontráveis em português.

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Há alguns meses, escrevi um post sobre o trabalho do Gene Sharp que lista 198 formas não-violentas de fazer uma revolução e que o Flintoff cita extensivamente em seu livro.

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Foto de abertura do post: New Old Stock.

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Harold Ramis: o perfil da Shambala Sun

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Eu fico dividido entre decidir se a grande contribuição do recém ido Harold Ramis pro mundo foi mesmo a comédia existencialista Feitiço do Tempo ou se foram filmes ainda mais despretensiosos como Caça-Fantasmas ou o Clube dos Cafajestes. De qualquer maneira, o longo perfil que a revista budista americana Shambala Sun fez dele (que não era budista) em 2009 mostra um pouco como se formou a cabeça de uma pessoa que conseguiu se enfiar por dentro das camadas superficiais da vida e ainda fazer graça com isso. Vale a leitura (em inglês).

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O problema do excesso de auto-mensuração

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Os dispositivos digitais de auto-mensuração individual, como o conhecidíssimo Nike Plus, que mostram em gráficos bacanas os quilômetros que a gente corre, as calorias que a gente gasta, os minutos que a gente dorme e coisas do tipo, trouxeram um aspecto científico e lúdico pras atividades cotidianas. Hoje, já existe aplicativos e dispositivos pra quase tudo. Embora a maior parte deles lidem com estatísticas de atividades físicas, também há espaço para coisas como medir sua felicidade, sua capacidade de atingir metas e seu estado cognitivo. Claro: em se tratando de negócios e cultura digital, não há limites para o que possa surgir.

Eu mesmo já usei o Strava por alguns meses e ele foi bastante útil pra descobrir que as minhas voltas de bicicleta estavam dando conta da atividade física que eu precisava semanalmente. Também, claro, me diverti olhando meus trajetos no mapa e conferindo os tempos de outras pessoas em determinadas áreas da cidade. Mas chegou um ponto que eu já tinha a informação que precisava e resolvi deixar o app de lado pra simplesmente andar de bicicleta.

Não há dúvida que esses apps e dispositivos carregam, além de um forte poder de sedução, uma mistura de utilidade com diversão. Mas também é razoável pensar que eles podem deseducar uma pessoa que tem boa consciência corporal ou impedir alguém de aprendê-la. A consciência corporal seria a capacidade de monitoramento próprio, sem a ajuda de dispositivos: saber ouvir o corpo, ler as sensações, calcular não-matematicamente a resposta que precisamos dar a situações físicas que aparecem, como fadiga ou uma reserva extra de energia que ressurge. Estamos falando de uma capacidade que atrofia se não for utilizada constantemente, se for relegada ao segundo plano, colocada atrás da telinha com os gráficos coloridos. Além do mais, quando afiada, ela transcende visualizações matemáticas.

Esse é um dos aspectos complicados da cultura digital, que costuma ser muito comentado pelo americano Douglas Rushkoff: o contato constante com interfaces digitais reduz nossas expressões a formulários e dados. Queiramos ou não, acabamos tendo que espremer o nosso jeito de ser e de viver em campos pré-formatados e em resultados contados numericamente. Nesse sentido, a linha entre a praticidade e o simples materialismo é quase transparente. Claro que tudo pode ser quantificado e calculado, inclusive o afeto que hoje vem na forma de likes e visualizações – mas o que perdemos com isso?

Não chegamos a perder uns aos outros, o que seria drástico e irreal de se declarar. Antes, podemos perder algo mais sutil, perder uma capacidade interna de avaliação que não é visual, numérica ou mesmo exata. Antes, podemos perder a confiança no que não é visual, numérico ou exato. Ou seja, em boa parte do que consideramos ser a experiência humana de primeira mão.

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Foto: Little Visuals.

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Ela: a pegadinha de Spike Jonze sobre cultura digital.

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Jovem adulto ainda curando as feridas de uma separação e que vive de escrever cartas emocionantes em nome de terceiros em uma sociedade hiper-conectada resolve, um dia, atualizar o sistema operacional do seu celular para uma versão baseada em inteligência artificial. E acaba se apaixonado por ele – ou melhor, por Ela. Adicione a essa trama central o diretor de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros e você terá um filme melancólico e reflexivo sobre a solidão contemporânea baseada no uso exagerado de mídias digitais. Mas, se você lembrar que esse mesmo diretor é um dos criadores da série sem noção Jackass e que dirigiu clips sarcásticos memoráveis como Sabotage, Praise You e Buddy Holly, vai pensar duas vezes sobre o que Ela diz de verdade. E se perguntar: será que o Spike Jonze não está tirando uma com a nossa cara?

Entendido em algum nível como um filme ludita, que questiona a relação de certas pessoas com as mídias digitais e da infantilização que vem a reboque, eu prefiro enxergar Ela do ponto de vista dos bugs do amor romântico. Spoiler alert: embora envolto em todo o aparato digital que caracteriza o filme, o romance de Theodore (o homem) e Samantha (o sistema operacional) começa como todos os romances começam (com a promessa de conforto, compreensão e reconhecimento mútuo total) e uma hora termina – simplesmente termina, por causa disso ou daquilo, mas em última análise porque tudo uma hora termina. Descoberta, desejo, paixão, desejo, ciúmes, confusão, fim: a história do casal formado por um humano e um sistema operacional é tão fascinante quanto ordinária.

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O tabuleiro de Ela é armado por Jonze para que desprezemos as habilidades sociais de Theodore, mas em geral ele é gente como a gente e a meu ver foi simplesmente sacaneado pelo diretor. Retratado na primeira meia hora de filme como esquivo e anti-social, descobrimos aos poucos que ele tem motivos para isso porque, dentro de suas particularidades, ainda está vivendo o luto de uma separação. É acusado pela ex de ser auto-centrado e de ter problemas com intimidade, mas seus relatos (e as cenas em flashback) sobre os dois mostram que ele a conhecia muito bem, a entendia e a ouvia talvez muito mais do que deixasse transparecer. Os amigos e colegas de Theodore servem de pano de fundo para que a sua solidão contraste – outra sacanagem, como se eles não estivessem vivendo suas próprias dificuldades (e o filme mostra depois que estão). Na verdade, algumas poucas pistas contextuais mostram que muitas das idiossincrasias que servem para caracterizar o protagonista parecem ser traços sociais da época que o filme retrata. Talvez essa seja uma sociedade doente. Ou talvez seja apenas outra cultura. Não sabemos. A confusão é cortesia do Jonze galhofeiro de Jackass, conscientemente ou não.

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É difícil saber o que é o que em Ela. Sistemas operacionais se comportam como humanos e humanos se comportam como sistemas operacionais (preste atenção na atitude de Charles, marido de Amy, que tenta programar o comportamento da esposa). A felicidade de Theodore com Samantha soa ambígua, entre o absurdo e o convencional. A evolução d’Ela parece coisa de ficção científica tanto quanto o crescimento pessoal de um parceiro de relacionamento, quando este resolver quebrar a imagem cristalizada que tínhamos e guardávamos com tanto zelo. Mesmo o título do filme em inglês estampado no cartaz é dúbio: Her, com a carinha triste de Joaquim Phoenix, pode estar se referindo tanto à Ela, Samantha, como ser lido como o pronome posessivo Dela, o que deixa a história ainda mais interessante – Theodore foi Dela por um tempo? Essas ambiguidades são todas, a meu ver, um traço de generosidade – de novo, consciente ou não – de Spike Jonze. Há muito que nós, espectadores, podemos jogar ali dentro. Tem gancho para todo mundo fazer sua própria reflexão.

Aí está, então, a rasteira que Ela passa no espectador: você vai no cinema para assistir a uma crítica e o filme se trata de uma crônica. Como os melhores cronistas, Spike Jonze põe uma lupa no cotidiano e tenta, através de um comentário muito particular, determinar algumas moléculas básicas da cultura contemporânea universal. Como as melhores crônicas, ele (ou Ela) não fecha totalmente suas questões. E é aí que o filme funciona tão bem, porque não me consta nenhuma maneira melhor de sair de um cinema na era digital do que com as mãos cheias de dúvidas e de assunto para regar um bom bate papo nas horas e nos dias que vem a seguir.

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Algumas notas extras:

* A popularidade da interface de voz talvez seja o aspecto mais fantasioso do filme. Não apenas os softwares parecem bem resolvidos como os códigos sociais surgem adaptados para essa interface – todo mundo no filme acha normal andar por aí com um fone no ouvido falando sozinho. Taí um acerto do filme: não há inovação que se popularize sem aceitação social dos códigos de comportamento que a circundam.

* Curiosamente, Ela é o filme mais Sofia Coppola de Spike Jonze. O ritmo lentão, o figurino fashion no último, aquele monte de cenas de flashbacks a la ensaio fotográfico e a arquitetura moderninha da L.A. futura  lembram muito mais Encontros & Desencontros, As Virgens Suicidas e Um Lugar Qualquer do que John Malkovich & Adaptação. Há quem diga que Ela é a resposta da Jonze a Encontros & Desencontros, mas acho que são apenas as más línguas.

 

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Links bacanas:

- Algumas fotos no set de Ela.

- Entrevista com Jonze no Guardian.

- Uma dupla de roteiristas acusa Jonze de ter roubado a ideia deles.

- Entrevista com Spike Jonze na Interview.

- Spike Jonze compara Theodore com Lana Watchowski.

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Black block contra o consumismo

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Não jogue esse bloco preto na vitrine de um banco! A ideia do holandês Pim De Graaff é que ele sirva de lembrete sólido e presencial do consumismo contemporâneo no meio da sua sala.  Pelo menos, foi isso que ele disse à Fast Company sobre a escultura Nothing, que ele faz à mão e vende diretamente aqui por 29 euros. Sem dúvida a intenção de De Graaff é nobre, mas hoje em dia iniciativas como o Nothing nascem com o perigo embutido de se tornarem o que combatem. Na fanpage do Nothing, já começa a rolar o certo fetichismo pelo bloco. Se Nothing se tornar Something, significa que ele não está funcionando, que ele vem quebrado.

Via Alessandro Carlucci.

 

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Castelo de Cartas – o House of Cards brasileiro

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Como muitos já sabem, estreou na última sexta no Netflix a segunda temporada de House of Cards. Já (quase) toda assistida aqui em casa, ela deixou, como os primeiros 13 episódios, um forte gostinho residual de quero mais e uma série de pensamentos obsessivos. Por exemplo, responder à provocação do meu amigo Renan: como seria um House of Cards brasileiro?

A ideia é tão deliciosa que duvido que já não tenha passado pela cabeça de algum produtor nacional. Não há dúvida que um House of Cards bazuca não seria tão sexy e elegante quanto sua contrapartida americana (ou inglesa), mas com certeza poderia ser muito mais pitoresco, sujo e instigante.

Abaixo vai, então, minha proposta de trama e elenco para o House of Cards brasileiro. Ou, melhor falando…. Castelo de Cartas.

Elenco Central

Francisco Madeira (Frank Underwood/Kevin Spacey): Antônio Fagundes

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Clara Madeira (Claire Underwood/Robin Wright): Glória Pires

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Douglas Santos (Doug Stamper/Michael Kelly): Wagner Moura

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Lilian Vasquez (Linda Vazques/Sakina Jaffrey): Lília Cabral

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Pedro Haussman (Peter Russo/Correy Stoll): Selton Mello

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Gilmar Caminha (Garret Walker/Michael Gill): Tony Ramos

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Julia Barroso (Zoe Barnes/Kate Mara): Alice Braga

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Trama da Primeira Temporada

Francisco Madeira é deputado federal e líder de bancada no Congresso Brasileiro. Com um histórico sólido na política de Minas Gerais e trânsito nos altos e médios escalões do poder, ele teve um papel fundamental na eleição do Presidente Gilmar Caminha, especialmente na negociação com a ambientalista Marília Souza para que ela assumisse a Vice-Presidência, arranjo que se provou vencedor nas urnas e na mídia. Pelo sucesso de sua articulação na eleição e por sua conhecida influência sobre uma numerosa bancada no Congresso, Madeira espera ser indicado como Chefe da Casa Civil em troca de seus serviços. No entanto, ele acaba sendo passado pra trás por Lilian Vasquez, antiga chefe de gabinete do Presidente no Governo do Rio de Janeiro e coordenadora de campo da campanha presidencial. Injuriado, Madeira decide armar um intrincado plano para chega à Casa Civil o que acaba gerando um espetáculo dantesco de troca de favores, verbas e tramóias com políticos fisiologistas do Congresso e do Senado.

Parte do plano de Francisco Madeira para chegar à Casa Civil envolve sua mulher, Clara Madeira, presidente de um instituto de estudos de desenvolvimento social patrocinado por grandes empreiteiras e mineradoras. Clara tem seus próprios objetivos, mas não hesita em jogar coordenadamente com o marido quando isso faz seus planos também andarem pra frente. Clara foi quem conseguiu iniciar a aproximação com Marília Souza graças a um histórico de doações para seus projetos ambientais no Norte do país e a promessa de que Francisco interviria junto ao Congresso na revisão dos projetos de construção de mega-hidrelétricas na Amazônia.

A outra parte do plano de Madeira para tomar o lugar de Lilian inclui a criação de um testa de ferro, o jovem deputado federal Pedro Haussman, que entra num acordo de favores com o novo mentor para garantir o avanço de algumas de suas propostas progressistas para o Transporte Público no Congresso, sendo a mais notória a ideia do Passe Livre Nacional via incentivos do Governo Federal. Com Madeira por trás, Haussman se torna uma figura proeminente na política brasileira, mas acaba sendo usado para um ataque à Chefe da Casa Civil numa disputa por emendas relacionadas ao Transporte Público. Madeira coloca Haussman sob pressão obrigando-o a tomar a frente da briga com a Casa Civil, que acaba sendo vista pelo Presidente como uma rusga pessoal.

Enquanto isso, o projeto esfria na pauta dos deputados e os movimentos sociais iniciam uma série de protestos coordenados nas grandes capitais do país. O Presidente acusa Haussman e Lilian de semearem o caos político com suas desavenças. Jovem e inexperiente, Haussman é instigado por Madeira a viajar o país e dialogar com os líderes dos movimentos sociais fazendo promessas que não poderá cumprir. Estressado, à beira de um colapso nervoso, acaba sendo pego pela imprensa fumando maconha em um churrasco com antigos amigos da universidade de direito em Porto Alegre – encontro arranjado secretamente pelo braço direito de Madeira, Douglas Santos. Pedro é fritado politicamente e acaba no ostracismo.

Em meio a isso tudo, Madeira começa a ser assediado por Julia Barroso, jovem repórter investigativa, ex-jornalista do Correio Braziliense e integrante do coletivo midialivrista Mídia Samurai. Obcecada por abrir uma nova frente em busca de furos, ela acaba desenvolvendo um relacionamento de troca de informações com Madeira, o que rapidamente evolui para uma relação sexual intensa e ambígua na qual ela começa a levar a pior quando sua consciência e sua ligação com o coletivo começam a falar mais alto do que as tramóias de Madeira. É aí que as coisas começa a ficar realmente perigosas e potencialmente homicidas. E também quando Madeira começa a ser cogitado pelo Presidente para ser alçado a Chefe da Casa Civil.

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Obviamente, eu gostaria de saber as suas sugestões de elenco e tramas.  :-)

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Imagem de Abertura: Renan Schmidt.

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A ressaca do “faça o que você ama”

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Ao que tudo indica, a era do “Faça o que você ama. Ame o que você faz.” ou “Encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe.” está ganhando sua própria ressaca – ao menos como discurso clichê. Parte inegável de um pedaço da cultura contemporânea, esses mantras nasceram em nichos mais elitistas, cresceram ao ponto de se espalharem por matérias de grandes veículos e ganharam sua encarnação mais pop na figura de Steve Jobs. Mas… todo carnaval tem seu fim.

Recentemente, tenho visto circular uma série de textos que parecem querer denunciar a fragilidade da aplicação generalizada desse raciocínio. A Slate publicou um artigo de Miya Tokumitsu (traduzido pelo Papo de Homem)  dizendo: “A elite abraça o mantra Faça o que Você Ama. Mas isso desvaloriza o trabalho e machuca os trabalhadores.” O Pedro Burgos no OENE comentou o novo livro do Dave Eggers que, segundo ele, “imagina o que o futuro nos reserva se confiarmos nas utopias que nos vendem hoje.” Fê Neute, no Feliz com a Vida, diz que “Siga Sua Paixão Pode Ser um Conselho Furado.”, além de lembrar de “5 Motivos pelos Quais Você Não Deve Largar Seu Emprego para Viajar pelo Mundo.” Até a Fast Company, que vive incitando as pessoas a serem mais amalucadamente produtivas publicou um post com o título “6 motivos pelos quais você deve abraçar a procrastinação” (mas é meio falcatrua, porque é pra você ser mais produtivo, logo, não é procrastinação de verdade).

Toda onda cultural é refém de seus exageros e seguida de uma espécie de versão sua em negativo. Vai ver é isso o que o estudo Youth Mode identificou como sendo o tal do NORMCORE. Por essa lógica, é bem provável que em breve seja cool ter um trabalho comum, com carteira assinada, horário fixo e que você não goste tanto. O que, claro, nunca deixou de ser uma opção para a maior parte das pessoas, seja por inclinação ou porque é o que suas condições permitem.

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Leitura complementar.

Escrevi sobre esse assunto e suas redondezas nos seguintes posts.

- Softer, Worser, Slower, Weaker: Steve Jobs e os clichês da liderança para inovação.

- A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

- Frances Ha e a obsessão contemporânea por dar certo.

- Por uma vida mais ordinária

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Foto: New Old Stock

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CONAR: não desmereça os chatos.

Foi ao ar na TV semana passada a nova campanha do CONAR, o Conselho Nacional de Auto Regulamentação Publicitária. Dois comerciais mostram um garçom e um palhaço sendo questionados de maneira hiper-exagerada por clientes chatíssimos daqueles dedicados a achar cabelo em ovo: o palhaço Peteleco é acusado de ter um nome que incita a violência e a feijoada do restaurante é rotulada de machista porque quase todos os ingredientes são masculinos. São roteiros ótimos, engraçados, bem filmados e que cumprem a função de fazer uma pergunta necessária: será que estamos ficando muito chatos e politicamente corretos? Será que a publicidade está pagando o pato de um excesso de zelo por parte da sociedade?

Apesar de curtir a campanha, minha resposta para essas perguntas é não. O CONAR é um órgão respeitado, que em geral funciona muito bem e tira campanhas do ar o tempo todo a partir de denúncias de autoridades, entidades e pessoas físicas. Ok. Mas por que diabos o CONAR quer coibir os chatos? Os brasileiros estão aprendendo, nos últimos anos, a se valorizar mais e a exigir seus direitos. Associa-se a isso a popularização da internet e a consciência de que as redes sociais funcionam muito bem como trombone para se botar a boca. É claro que essa combinação gera exageros, mas daí a lançar uma campanha institucional pedindo “confie em quem entende” é algo não apenas desnecessário como vai contra o espírito do nosso tempo, que clama por mais horizontalidade na relações sociais. Mal comparando, é mais ou menos como os médicos que dizem aos pacientes que não acessem o Google para pegar informações de suas doenças em vez de ensiná-los a tirar o melhor da ferramenta. Uma coisa não exclui a outra.

A publicidade é parte integrante do quarto poder e, assim como os outros três, é totalmente passível de supervisão e cobrança pelo povo. Esse é um dos pilares da democracia. As marcas que mais anunciam são donas de uma artilharia financeira e política gigantesca e todo gigante financeiro e político precisa ser vigiado de perto pela sociedade civil, mesmo que isso custe algumas boas piadas e dificulte a vida dos publicitários no dia-a-dia. Alguns vem se queixando há pelo menos 10 anos do endurecimento das regras contra a publicidade e da ameaça de projetos de lei no Congresso que se assemelham à censura (evitá-la é a origem do CONAR, lá em 78). Mas, se essa é a questão, o debate é muito mais amplo do que simplesmente “não seja chato, deixe para os especialistas”.

Em qualquer âmbito, não é justo tentar desmerecer os chatos. Graças a eles, fizemos evoluções importantes. Por exemplo, se não fosse pelos ecochatos, nenhuma empresa hoje poderia falar em sustentabilidade, um dos assuntos preferidos das campanhas institucionais de grandes marcas. Antes de andar de terno, a sustentabilidade se chamava ecologia e era coisa de chato. Hoje é coisa de bacana. Na verdade, acho até que os ecochatos não foram chatos o suficiente pois se tivessem realmente pegado pesado, a situação ambiental não estaria do jeito que está. E o CONAR ainda quer desestimular os chatos?

Certamente, um dos alvos principais da campanha do CONAR são as entidades que ficam de olho na publicidade infantil. Eles tem sido tão chatos que estimularam o CONAR a produzir um estudo comparativo sobre as regras de publicidade infantil no mundo todo, chegando à conclusão que a auto-regulamentação promovida pelo CONAR é uma das mais rigorosas do mundo. Tu vê só: sem os chatos, talvez não teríamos nem o rigor e nem o estudo.

Há pouco, li no Cypherpunks uma frase de um ativista de software livre que resume bem o que estou querendo dizer. Não achei a frase certinha a tempo de postar, mas ela diz mais ou menos o seguinte: é fácil saber quando algo é benéfico pra sociedade. É só ver se está querendo aumentar ou reduzir as opções das pessoas. “Confie em quem entende”, infelizmente, parece cair na categoria de tentar, por convencimento, reduzir. Ou estou sendo muito chato?

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Cultura sem rótulos

Esse incrível comercial do suplemento de cultura do Sunday Times, que mistura cenas de arte clássica com Cães de Aluguel, Forrest Gump e Daft punk é o resumo do que venho conversando com alguns colegas do OEsquema: cinema, música, artes visuais, games, essas barreiras ajudam a organizar alguns veículos de mídia e seções de lojas, mas as pessoas em geral consomem tudo junto e bagunçado, ainda mais em tempos de plataformas digitais cruzadas e de mashups. Claro que existem os gamers e os cinéfilos, mas a maior parte do público agrupa o que consome mais pelo seu gosto do que pelos formatos de entrega do conteúdo. O filme do Sunday Times retratou isso com perfeição.

Vi no Ad of The Day.

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Nossas historinhas safadas

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“O mundo hoje consome filmes, romances, teatro e televisão em tanta quantidade e com uma fome tão voraz que as artes da estória viraram a principal fonte de inspiração da humanidade, enquanto ela tenta organizar o caos e ter um panorama da vida. (…) Se nós pararmos para pensar nos padrões e nos significados, a vida, como uma Gestalt, dá reviravoltas: primeiro fica séria, depois cômica; estática, frenética; significativa, sem sentido. Os mais importantes acontecimentos mundiais estão além do nosso controle enquanto os acontecimentos pessoais, apesar do nossos esforço para manter nossas mãos na direção, geralmente nos controlam.”

Essas citações foram extraídas da introdução de Story, o best-seller sobre roteiro que resume um dos respeitados seminários do Robert McKee para roteiristas e escritores no mundo todo. Elas dão uma boa ideia do que significa a arte da narrativa para o ser humano há muitos séculos: narrar diverte, instrui, questiona. Mas, antes de mais nada, narrar organiza. O evento mais deprimente e horripilante pelo qual alguém tenha passado, quando contado, tem a vantagem básica de estar, ao menos, organizado no espaço e no tempo. As coisas estavam assim, então aconteceu isso, daí tudo desmoronou, ficamos desse jeito, então aconteceu uma outra coisa que afetou mais umas quantas pessoas e agora está todo mundo assim. Quando aconteceu, foi desorientador, caleidoscópico, mas ainda bem que agora, contado, tem algo parecido com início, meio e fim.

Aprendemos a narrar uns com os outros, sejam os outros nossos pais, a turma com quem crescemos ou os autores de filmes, romances e canções. Em cada cultura, em cada era, um tipo de narrativa se impõe e influencia o nosso jeito de narrar não apenas no nível profissional mas principalmente no nível pessoal – a maneira como contamos a nossa vida para nós mesmos e para os outros. Olhando para o passado distante, vamos encontrar tradições orais e pictóricas. Mais recentemente, a palavra escrita na forma de folhetins e romances teve um impacto substancial na maneira como o ocidental urbano constituiu suas histórias particulares. Hoje, vivemos sob o regime da imagem em movimento e estamos construindo um novo tipo de narrativa moldado por dois fenômenos: a fragmentação da linearidade e a quantidade de pequenas narrativas amadoras à nossa disposição.

É bastante fácil observar a linearidade fragmentada das narrativas profissionais atuais. Os games, com suas tramas abertas, e a música, com sua mistura cada vez mais desconectada do que seria um arquétipo do tempo presente, são o exemplo mais gritante. Mesmo obras que tem uma primeira camada linear, como os filmes de cinema, os seriados de TV e os romances juvenis de aventura, hoje surgem como um ponto em um ecossistema maior, que precisa de um esforço contínuo para ser acompanhado e apreendido em sua totalidade. Até aqui, pouca novidade. Esse aspecto da modernidade tem sido citado, analisado e criticado à exaustão.

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Já a multiplicação de pequenas narrativas amadoras é algo que me parece mais sutil, similar ao efeito da Lua nas marés. Não estou falando de curta-metragens de baixo orçamento que vão direto para o YouTube, mas de outra coisa ainda mais simples. Vamos chamá-las de narrativas sub-amadoras. São nossos SMS’s, emails, curtidas, compartilhamentos, vídeos, fotos, posts, notificações e status, um conjunto que gera campo gravitacional tão gigantesco que estamos, talvez, influenciando uns aos outros bem mais do que os profissionais de narrativas nos influenciam. Em outras palavras, a maneira como os dramas e comédias da sua amiga aparecem na timeline dela ou na sequência de mensagens piscando no seu celular estão mexendo mais com a sua noção de narrativa do que o roteirsta de Breaking Bad ou o autor da última novela das nove.

Isso é algo visível a olho nu. Há pouco, escrevi um post sobre o que presenciei no Dia dos Namorados de 2012 no Facebook: pessoas prestes a se separar fazendo declarações apaixonadas publicamente nas suas timelines, inundando os feeds dos amigos com sentimentos inflacionados. Como disse no post, não acho que essas pessoas estivessem sendo cínicas, apenas se inserindo na narrativa geral do “Dia dos Namorados no Facebook”. Elas não estavam imitando nada do Manoel Carlos ou do Woody Allen – mas as narrativas sub-amadoras de suas turmas de amigos, que também estavam fazendo declarações parecidas, num processo curioso de retroalimentação industrial. Já que passamos muito mais tempo recebendo sinais das narrativas sub-amadoras de amigos do que das narrativas profissionais de filmes, seriados e livros, é natural que as primeiras exerçam uma influência maior no jeito como construímos as nossas próprias narrativas sub-amadoras.

Pesa também, nesse sentido, o fato de que as narrativas sub-amadoras estão cada vez mais parecidas com as narrativas amadoras ou profissionais. Mesmo que nossos roteirozinhos safados do dia-a-dia não sejam páreo para um “Sopranos”, um “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, as fotos de férias e os pedidos de casamento em vídeo sempre tentam emular um pouco de Hollywood e os filtros de fotografia tem ajudado nessa aproximação. Também não deixemos de notar que a tela que usamos para construir e consumir nossas narrativas sub-amadoras é a mesma onde assistimos seriados e filmes, ouvimos música ou lemos livros.

O que ganhamos ou perdemos com isso tudo, ainda é cedo para dizer. Assim como as pessoas influenciam-se umas às outras na adoção de ondas de comportamento digitais, elas também se cansam com maior rapidez e pulam de uma mania à próxima com a agilidade de uma notificação de instant messenger. Embora as estejamos usando como linguagem interpessoal, não acho que as narrativas sub-amadoras vão substituir integralmente as narrativas profissionais, pelo contrário. A explosão dos roteirozinhos safados que espalhamos via redes sociais no fim só destaca as histórias contadas profissionalmente em qualquer que seja o meio. Bem, essa ao menos é minha forma de enxergar o copo meio cheio. Porque, como diz outro trecho do McKee, agora para fechar: “Estórias falsas e defeituosas substituem substância por espetáculo, verdade por artifícios. (…) Quando uma sociedade experimenta repetitivamente pseudoestórias ocas e envernizadas, ela se degenera. Precisamos de sátiras e tragédias verdadeiras, dramas e comédias que iluminem os cantos mais sombrios da psique humana e da sociedade. Senão, como Yeats avisou, ‘o centro não pode suportar’.”

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Leia também: Nossas Narrativas.

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Imagens: Gratisography & Picjumbo.

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Carta Aberta a Ben Stiller

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Caro Ben Stiller

Todos nós achamos muito bacana A Vida Secreta de Walter Mitty. A temática pertinente e conectada com nossos tempos; o roteiro engenhoso; a cinematografia exuberante (especialmente nas sequências da região nórdica e do Afeganistão); a trilha em sintonia com a cinematografia; a sua atuação milimétrica; a sensibilidade romântica…. tudo colabora para introduzi-lo na nobre e recente linhagem do “indie-realismo romântico da mente” de Michel Gondry, Spike Jonze, Charlie Kaufman e Wes Anderson.

Parabéns.

Mas, bem, agora que você já resolveu essa questão, esperamos que tenha limpado sua lista de tarefas e esteja totalmente focado no que realmente interessa – Zoolander 2.

Estamos no aguardo.

Atenciosamente,
Gustavo Berwanger Bittencourt

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7 notas para 2014

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1. A questão que vem se impondo anualmente em relação à cultura digital – qual é a próxima rede social da hora? – já foi respondida em 8 de dezembro de 2013 pelo Tiago Doria: é o smartphone. No post “Não espere pelo próximo Facebook” (em inglês), ele faz eco à visão do consultor inglês Ben Evans, o qual considera que o hardware que carregamos no bolso interessa muito mais do que esse ou aquele app. “Talvez seus contatos do smartphone seja sua nova lista de amigos, o WhatsApp é sua nova timeline, o Vine é seu novo player de vídeo. A maneira como você se move entre esses apps cria um novo fluxo e uma instância de uso fluído.” Há um ditado no Vale do Silício – “o hardware é o novo software” – que provavelmente não é usado nesse contexto. Mas deveria ser.

2. Simbolicamente, a ideia do smartphone como rede social se conecta com o fato de que a avalanche de conteúdo à disposição coloca nas nossas mãos a decisão do que e como consumir. Na prática, isso é complicado e deve se complicar ainda mais em 2014. No Brasil, teremos essa combinação que se tornou potencialmente explosiva com as jornadas de junho: Copa, Eleições e um uso mais mainstream de internet. O ano será inevitavelmente cacofônico e a habilidade de consolidar por nós próprios o que está acontecendo ao redor será essencial.

3. Se fosse pra fazer um exercício de síntese, eu diria que a palavra mais importante para 2014 é, justamente, narrativa. No âmbito pessoal e coletivo, narrar significa mais ou menos dar sentido, colocar em sequência os acontecimentos caóticos da vida. Boa sorte pra nós ao tentarmos fazer sentido do que vem por aí esse ano. São grandes as chances de que vivamos situações novas em diversos aspectos culturais, o que é sempre, ao mesmo tempo, curioso e assustador.

4. É por isso que, a ideia de que estamos vivendo uma transição de uma era de conteúdo que se consome em hora e lugar certos para uma era de escolha livre é um pouco capcciosa. Um potente filtro continua (e continuará) sendo feito de um jeito ou de outro, seja pelos grandes portais de notícias, seja pelas primeiras telas de interfaces como o Netflix e o Now da NET. A imensa maioria das pessoas ainda busca alguma bússola para saber o que ler-assistir-ouvir. Não é questão de paternalismo, é uma questão absolutamente prática: com tanto estímulo, pra onde eu olho? Eu diria “pra dentro”, mas isso é assunto pra outro post.

5. Sendo otimista: em um ano cacofônico, há mais espaço para navegação aleatória e na busca por segurança pode prosperar a possibilidade de que as pessoas adotem outros curadores nos quais confiam além dos usuais. Não é preciso que o potencial de pluralidade de mídia se realize de maneira radical: algumas dezenas de veículos digitais independentes que reúnam vozes dissonantes e ofereçam perspectivas contextualizadas já são o suficiente, se não desejável. Meus votos são para que essas dezenas tenham a capacidade de alcançar, mesmo que temporária e controversamente, os milhares ou os milhões.

6. Falando em vozes dissonantes, vale perceber que um ícone importante da cultura digital parece que entra 2014 mais apagadinho: o empreendedor digital como messias. A história da computação e da internet nasceram mescladas com uma mitologia revolucionária. Mas, como escreveu Adrian Wooldrige no The Economist, “os geeks acabaram por se mostrar alguns dos capitalistas mais implacáveis do pedaço”. Tudo bem que os gigantes da cultura digital queiram formar e manter seus oligopólios, mas está mais do que na hora de abrirem mão de uma vez por todas da conversa pra boi dormir do tipo “queremos um mundo melhor para todos”.

7. Aliás, a retórica messiânica da cultura contemporânea como um todo está repetitiva e cansativa, gerando um derrame suspeito de gurus e metodologias com promessas tão interessantes quanto pretensiosas. Um dos grandes representantes dessa vertente, o TED Talks, sofreu uma crítica interessantíssima do professor de Artes Visuais Benjamin Bratton. No artigo “We need to talk about TED“, baseado num “talk” dele mesmo em um TEDx, diz: “Eu proponho que operar astrofísica dentro do modelo do American Idol é uma receita nacional para o desastre.” Eu arremedaria: não apenas a astrofísica, mas todos os segmentos da vida, né?

Feliz Ano Novo!

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Foto: Gratisography.

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Diários de Bicicleta: a cidade ainda mais cidade.

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Novos hábitos culturais costumam progredir à base de imaginários exagerados. Assim como o vegetarianismo, a espiritualidade new age e a sustentabilidade, a bicicleta como meio de transporte urbano costuma levar na garupa uma carga de ideias progressistas disformes que são úteis para inspirar as pessoas mas que também são reféns de associações distorcidas. Uma conexão comum que se faz é entre a pedalada na cidade e uma suposta experiência mais natural e humana, uma coisa assim, “trocar o carro pela bicicleta de vez em quando me coloca mais em contato com as pessoas e com o meio ambiente”. Mas o que ocorre, muitas vezes, é exatamente o contrário: de bicicleta, a cidade se torna radicalmente cidade, intensamente metropolitana. Humana, sim, mas de um jeito um pouco enviesado.

Tudo aquilo que hoje usamos para caracterizar uma metrópole – engarrafamento, expansão imobiliária desfigurante, poluição do ar e da água, decadência de equipamentos públicos, impaciência crônica, insegurança pública – em cima de uma bicicleta é experimentado de maneira amplificada. Embora o pedestre convicto e o usuário do transporte público também enfrentem essas dificuldades, quando estamos em estado de ciclista elas se tornam mais proeminentes pela peculiaridade dos trajetos e da velocidade do deslocamento, como já comentei em outro post dessa série.

Semana passada, peguei a ciclovia da Avenida Ipiranga numa sexta-feira às sete da noite. Era um final de dia agradável do ponto de vista dos elementos. O céu estava claro, sem nuvens e a temperatura estava amena. Essa avenida, uma das mais importantes de Porto Alegre, margeia um arroio que corta uma dúzia de bairros no sentido nascente-poente. Portanto, eu pedalava sem suar em direção a um aprazível pôr-do-sol, ladeado aqui e ali por algumas árvores respeitáveis, cruzando com outros ciclistas e com pedestres que faziam seu exerciciozinho vespertino. O cenário descrito beira o bucólico, mas a faixa de prazer dessa configuração era estreita. À minha direita, o trânsito conflagrado da Ipiranga rugia furiosamente à base de motores, buzinas, marcha lenta e freadas bruscas. À minha esquerda, o arroio Dilúvio corria entediado, levando para o Guaíba a água marrom, malcheirosa e cheia de lixo flutuante. Embaixo das pontes, os sem teto conversavam, fumavam, faziam seus arranjos. Nas guardas do arroio, as pixações convocavam a revolução. A cidade se manifestava em sua totalidade transbordante, com cheiros, sons e visuais eminentemente urbanos, cinzentos, rudes.

Ali, a bicicleta me colocou, sim, em contato com a natureza. Mas com a natureza humana na sua forma mais inteira, com a poesia e o concreto, com o pacote completo. Mais especificamente, respirei um pouco mais de perto o resultado desajeitado da nossa busca por conforto e proteção, uma ação que sempre produz efeitos contraditórios em relação ao objetivo inicial, seja na escala mais íntima do indivíduo, seja no projeto hiper-coletivo da cidade.

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Leia todos os posts da série Diários de Bicicleta aqui.

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2 filmes pra entender a maluquice de hoje em dia

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A ficção científica é a tropa de elite, a força especial, os SEALS, o último recurso narrativo para os paradoxos da humanidade. Quando histórias realistas não dão conta de processar as maluquices de uma determinada época, cabe à ficção científica traduzi-las com um pouco mais de liberdade e imaginação. Bem, isso não é lá muito novidade e os bons exemplos para essa tese abundam, mas resolvi resgatar essa ideia e reforçá-la a partir de dois filmes que vi recentemente.

O primeiro, sem trocadilhos, é Primer (inteiro para assistir aí em cima, com legendas em português). Ele conta a história de um grupo de quatro engenheiros que se reúne em uma garagem nas horas vagas para colaborar na criação de qualquer coisa que possa interessar a investidores e torná-los milionários. A uma certa altura da parceria, dois da turma, Aaron e Abe, resolvem separar um tempo para um projeto paralelo que parece relacionado à busca de uma nova fonte de energia renovável. No processo, alguma coisa dá errado e eles desenvolvem – por acidente – uma máquina do tempo.

A partir daí, Primer vira um bagunça: a cada uso da máquina, Abe e Aaron geram duplicatas suas e uma nova linha do tempo na história. Para evitar problemas, eles tentam regrar o uso da invenção, mas claro que começam burlar as próprias regras, criando um emaranhado de situações que nem eles e nem nós entendemos direito. O diretor e roteirista Shane Carruth nunca deixa claro qual das linhas temporais está seguindo e vai levando o filme pulando de uma pra outra, totalmente à revelia da nossa sofrida atenção. O que é justamente um dos charmes de Primer. Como disse o crítico americano Roger Egbert, “o filme me delicia com a sua confiança pretensiosa de que a audiência consegue acompanhá-lo.” De alguma maneira, Carruth carrega todo o pacote intricado que criou até o fim de uma maneira humana e interessante (ainda que só possa ser compreendida inteiramente a partir do esquema desenhado abaixo).

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Eu vi Primer em 2005 e revi agora, em 2013. Esse intervalo me ajudou a perceber o quanto ele antecipou algumas ondas que estamos vivendo. O clima “startup de garagem”, por exemplo, ainda era algo restrito a uma parcela específica da cultura americana em 2005. Hoje, o o aparato simbólico que envolve o mundo das startups é quase papo de boteco. A confusão causada pelas viagens no tempo também lembra um pouco o estado atual da cultura pop, com os códigos de décadas passadas e os revivals se entrelaçando de tal maneira que definir o que é contemporâneo se tornou uma tarefa tão complexa quanto inútil. Abe e Aaron pulando de uma linha do tempo para outra em 2004 somos nós num dia comum em 2013.

Outro bom exemplo é a web-série de 2012 patrocinada pela Intel/Toshiba. The Beauty Inside conta como vive um homem, Alex, que é sempre o mesmo por dentro mas que acorda a cada dia em um corpo diferente. Na segunda, um jovem negro, na terça uma senhora asiática obesa, na quarta um inglês branco de meia idade, na quinta uma morena alta e assim por diante. De alguma maneira, Alex nasceu e cresceu com essa questão, deu um jeito de chegar na idade adulta e quando o conhecemos está vivendo da venda de antiguidades pela internet e de casos amorosos de uma noite.

Não vou contar mais para não estragar o final (meio morno), mas não precisa ir muito longe pra fazer o paralelo entre o personagem principal de The Beauty Inside e o célebre conceito de modernidade líquida. As dificuldades de Alex são uma versão amplificada dos obstáculos que muitos tem com a noção de identidade em um tempo de códigos e costumes cada vez mais voláteis. Acordar cada dia como se fosse outro – quem nunca? Como escreveu Jonathan Franzen há pouco no Guardian (tem na última Piauí também), “A experiência de cada uma das gerações que se sucedem é tão diferente da anterior que sempre haverá quem julgue ter perdido em definitivo qualquer conexão com os valores essenciais do passado. Enquanto durar a modernidade, todos os dias parecerão a alguém os últimos dias da humanidade.”

Pois é: quem acompanha o universo da ficção científica sabe há muito tempo que, seja por conta de invasões alienígenas, erros genéticos ou inteligência artificial disfuncional, é da natureza do mundo viver em permanente estado de confusão e ameaça.

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O episódio 1 de The Beauty Inside está ali em cima.
O dois está aqui.
O três está aqui.
O quatro aqui.
O cinco aqui.
E o seis aqui.

Cada um tem seis minutos de duração.

De nada.

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A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas

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Um assunto relativamente novo entrou na agenda no brasileiro médio nos últimos um ou dois anos: botar um pouco mais de sentido no trabalho diário, ir além do emprego que apenas paga as contas e questionar a jornada e os métodos corporativos que não combinam com aspirações pessoais. Até bem pouco tempo atrás, esse papo era considerado um luxo, coisa para quem podia parar, pensar e escolher. Mas hoje, com uma certo nível de estabilidade econômica e mudanças sociais no país, mais gente está podendo se perguntar até que ponto vale a pena “vestir a camiseta da empresa” quando a contrapartida parece não preencher certas necessidades mais subjetivas.

De início, é contraintuitivo dizer que o tema interessa às massas, mas alguns indícios confrontam o senso comum. Uma pesquisa da Editora Abril com mulheres da comentadíssima “nova classe C” revela que, embora 70% das jovens entrevistadas queiram perseguir  uma carreira, 56% não sacrificam tempo da  família pelo  trabalho. Em outra pesquisa mais abrangente, com jovens de todo o país, o assunto realização pessoal no trabalho ganhou um destaque inédito que atravessa classes sociais. Semana passada, conversando com uma executiva de uma grande rede de varejo, ouvi dela diretamente que “está difícil contratar vendedor porque ninguém mais quer trabalhar no fim de semana. A pessoa prefere ganhar menos e ter mais qualidade de vida”. No início desse ano, como comentei em outro post, conversei com um taxista que reduziu sua carga horária porque não via sentido em ganhar mais dinheiro. Podem não ser os dados mais científicos do mundo, mas é difícil negar que algo está acontecendo nessa área.

Na classe média alta e na classe alta, a busca pelo “trabalho com significado” é mais estabelecida. Tanto que está amplamente documentada  em texto e vídeo através de matérias jornalísticas e relatos pessoais em redes sociais e  em blogs sobre o assunto. Muitas das  pessoas que fizeram transições de carreira escreveram sobre sua experiência, às vezes até mesmo construindo mapas e regras para o processo. Tal produção pode enriquecer as reflexões correntes,  mas também corre o risco de criar um nicho de auto-ajuda de quinta categoria.

Assim, se por um lado temos a interessantíssima abordagem de gente como o escritor Roman Krznaric, por outro temos os textos e vídeos que dão ares épicos e generalizantes a circunstâncias particulares, transformando depoimentos em fórmulas e dando uma dourada na pílula de um jeito que não contribui para uma discussão mais profunda. Vou um pouco mais adiante: relatos épicos que douram a pílula podem inclusive intensificar a angústia de quem está perdidão tentando se encontrar nessa nova aventura social. Tá certo, é possível que as pessoas que fazem vídeos e textos desse tipo sejam bem mais positivas do que eu, ou talvez o plano delas tenha simplesmente dado muito certo (as pessoas cujos planos não dão certo não fazem vídeos e blogs sobre o fracasso). Mas, às vezes, o que seria bom mesmo é encontrar por aí as videocassetadas da busca pela felicidade profissional.

Esse mês faz um ano que eu deixei meu “emprego-fixo-tradicional” e a minha vida se parece bem mais com os vídeos que aparecem no Faustão aos domingos do que com esses vídeos inspiradores de mudança de vida. Eu fiz tudo mais ou menos do jeito certo, até porque tenho família pra sustentar e não posso simplesmente me jogar numa aventura maluca. Planejei grana e atividades, pensei em caminhos, conversei com pessoas que já tinham vivido essa experiência, segui os conselhos do Roman Krznaric, mas não teve jeito: um ano depois, por mais que eu saiba que tomei a decisão certa, sinto como se tivesse tropeçado no topo de um barranco e rolado morro abaixo.

Não que as coisas estejam ruins ou dando tão errado. Pelo contrário. Nesse ano eu consegui fazer um monte de coisas que não conseguia quando estava no “emprego-fixo-tradicional”: ficar uns meses sem trabalhar, ir no cinema de tarde (essa demorou quase um ano), me envolver em uma variedade maior de projetos, experimentar algumas áreas novas, ajudar em um ou dois projetos sociais, tirar um dia só pra resolver as pendências domésticas, participar mais do dia-a-dia do meu filho pequeno, voltar a ler romances, fazer um curso de roteiro, trabalhar com empresas menores e mais jovens, cuidar de projetos do OEsquema, tomar cerveja ou café com amigos às 3 da tarde, gravar com os Walverdes o dia inteiro durante a semana, essas coisas que rendem power points edificantes e palestras entusiasmadas.

Mas, além disso, eu também tive ataques de ansiedade, perdi o sono muitas noites pensando no futuro da minha carreira errática, me senti um peixe fora d’água ao me perguntarem “o que você está fazendo?”, engoli alguns princípios quando precisei pegar alguns trabalhos só para fechar o orçamento do mês, encolhi os dedos dos pés quando percebi a ingenuidade de algumas ideias que eu tinha um ano atrás e aprendi na prática o quão diferente é fazer 3 meses de ano sabático perto dos 40 anos e tendo filhos em relação a fazer tendo 25 anos e sendo solteiro.

Descobri também que é muito bom não ter horários fixos, mas que tem semanas que dá um desespero olhar pra agenda de compromissos como se fosse uma caixa de legos soltos. Que é impagável passar mais tempo com o seu bebê, mas que muito tempo é entediante, ainda mais na fase que eles não interagem e só ficam lá deitados querendo atenção. Que vagabundear sendo autônomo é uma delícia, mas que enrolar num trabalho fixo tem um sabor todo especial. Que é energizante algumas pessoas olharem pra você com admiração por você ter “pedido demissão e perseguido seu sonho”, mas que você pode se sentir um trapaceiro porque suas fragilidades e inseguranças brotam com tanta intensidade quanto seu entusiasmo de ter feito uma opção ainda pouco usual entre seus pares.

Acima de tudo, descobri que é preciso cuidado e humildade pra tocar nesse assunto. Assim como existem pessoas que realmente arriscam e relatos que realmente inspiram, existe muita fantasia e um certo exagero em torno desse discurso, que virou praticamente uma moda. Como disse lá em cima, sinto que a multiplicação desse discurso em determinados círculos pode amplificar nas pessoas uma sensação inflacionada de que há algo errado com elas porque não conseguem fazer movimentos radicais que se alinhem com uma tendência que pode estar sendo propagada de forma diluída, sem tanta substância. Sim, Steve Jobs, um dos prediletos da auto-ajuda hipster, dizia “stay hungry, stay foolish”. Mas é sempre bom lembrar que ele vivia bem alimentado e era muito, muito esperto.

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Leitura complementar: Rumo à Estação Frilândia, do Ronaldo Bressane.

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Se alguém por acaso ficou curioso ou interessado no que estou fazendo: em maio, os sócios da DZ Estudio abraçaram a ideia de um modelo diferente de trabalho e desde então eu sou Head de Criação lá em determinados turnos da semana. Nos turnos livres, além de fazer todas as coisas que citei lá em cima (como cuidar desse blog, ajudar a tocar OEsquema, etc), estou disponível para projetos de criação e conteúdo que não colidam com o negócio da  DZ. Contatos no gustavomini@gmail.com.

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Agradecimentos à Lucia, ao Daniel e ao Firpo, que leram a primeira versão desse texto e devolveram pitacos valiosos.

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Imagem do post: trabalho do pessoal da Buro North comentado no NotCot.

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A sedução dos limites

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Em coluna na Folha no final do mês passado, o Michel Laub fez um contraponto interessante à onda de elogios ao momento fértil da televisão americana. “O Ponto Final do Cinema” lembra que não é justo comparar as boas séries dramáticas de TV com a pobreza dos blockbusters atuais do cinema principalmente porque “o mundo não é só Hollywood e a arte narrativa não é feita só de enredo.” Do ponto de vista de Laub, o cinema persistirá como arte relevante por uma liberdade que ele induz, “liberdade que começa com uma limitação: o tempo que dura um longa-metragem. Numa série, o que está em jogo é a eficiência. As coisas precisam andar para a frente, jogando iscas para que o espectador mantenha o interesse por várias temporadas ou maratonas de episódios.” É um ponto importante que quero explorar de outro ângulo.

O sucesso das boas séries dramáticas americanas não acontece no vácuo, elas não prosperam só devido a suas próprias qualidades. Além de contar com a indigência narrativa dos blockbusters atuais do cinema, elas fazem parte do espírito do nosso tempo porque tem a marca do maximalismo. Tudo é grandiloquente na narrativa pop contemporânea: os heróis infanto-juvenis já nascem com sagas inteiras construídas, os games (até por sua própria natureza) surgem com vastos universos atachados e rapidamente dão origem a franquias e extensões, os apps e sistemas operacionais se multiplicam em updates e versões, os hits musicais são lançados na internet junto com seus remixes e mesmo filmes que se esperaria serem individuais chegam aos cinemas com ganchos prontos para triologias – quando elas já não são pré-filmadas. O fã de narrativas pop de 2013 é ávido e seu apetite vem sendo sistematicamente cultivado para se acostumar a uma cultura de buffet. Em muitos casos, um excelente buffet, mas ainda assim um buffet, aberto 24h, o que permite inclusive que o fã coma tudo que quiser das 8 da noite às 6 da manhã num tiro só.

Como a história da narrativa pop vai pra frente em movimento dialéticos, quem quer que se incomode com a onipresença da narrativa seriada e expansiva não precisa se preocupar por muito tempo. A coluna do Michel Laub talvez indique um ponto de inflexão: é provável que já tenha gente por aí cansada desse maximalismo e com uma certa sede por um pouco menos de tentáculos na hora de assistir ou ler uma história. Como toda onda, essa vai marcar uma geração inteira, que deve levar para sua maturidade a lembrança de que bom mesmo é uma saga, um seriadão, um game gigantesco. Mas a ideia de limites é interna à natureza e uma voz persistente na cultura humana. Mesmo que em livros de 600 páginas, em filmes de duas partes de duas horas e meia e seriados de 8 temporadas, toda saga tem seu fim – inclusive a saga das próprias sagas.

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Imagem: Ai Kijima. Todos os direitos reservados.

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Por que você é impactado por tanta publicidade

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Você já deve ter esbarrado por aí algumas vezes em estudos ou matérias que falam na quantidade de impactos publicitários a que o cidadão médio é exposto todos os dias. Não existem, que eu saiba, números exatos confiáveis (na internet se acha pesquisas que vão de 200 a 3.000 impactos diários), mas empiricamente qualquer pessoa mais ligada percebe que a multiplicação de canais de distribuição de conteúdo, como a internet e a TV a cabo, acabaram despejando cada vez mais propaganda na nossa vida.

Quem não trabalha com publicidade e tem uma visão mais crítica tende a achar que esse investimento maciço em marketing é um desejo dos anunciantes, mas na verdade ocorre o contrário. O sonho de qualquer empresa é cortar custos para maximizar lucros e frequentemente o dinheiro gasto em comerciais de tv, ações em redes sociais, outdoors e outras atividades é visto como um fardo, como um mal necessário. Melhor seria se o produto fosse tão desejado e interessante que não precisasse desse aporte, que fosse direto da esteira de produção para a prateleira e em seguida para o carrinho do consumidor. Mas, na maior parte das vezes, o produto precisa fazer uma parada estratégica entre dois programas de TV, no meio de um blog ou num cartaz de rua. Mesmo empresas com produtos consagrados, como a Coca-Cola, Nike e Microsoft ainda investem milhões e milhões de dólares no mundo inteiro para reafirmar e manter suas posições – e eu não estou falando de dinheiro para o desenvolvimento de produtos melhores, e sim de de propaganda, de fixar um produto na mente do consumidor para ele ser preferido ou ao menos considerado.

Existem diversas teorias econômicas e de marketing para explicar essas dinâmicas, mas uma forma interessante de abordar o tema é do ponto de vista da filosofia de Thomas Hobbes. Em um artigo publicado na Piauí de março, o escritor de ciências Steve Pinker examina as razões que levam o homem a se tornar violento e, a certa altura, cita um trecho do Leviatã de Hobbes:

“Assim, na natureza do homem, encontramos três causas principais de contenda. Primeiro, a competição; segundo, a difidência; terceiro, a glória. A primeira leva o homem a invadir pelo ganho; a segunda, pela segurança; a terceira, pela reputação. O primeiro usa a violência para se assenhorear da pessoa de outros homens, de esposas, filhos e rebanhos; o segundo, para defendê-los; o terceiro, por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente e qualquer outro sinal de desapreço, ou à sua pessoa diretamente, ou, por reflexo, a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.”

Não é preciso discorrer sobre competição, palavra de ordem no mercado capitalista. Como diz Pinker, “Hobbes considerava a competição uma consequência inevitável do empenho do agente em perseguir seus interesses.” Já a difidência, que é entendida pelo escritor nesse contexto como “medo”, merece um pouco mais da nossa atenção. Segue agora Pinker:

“Competição gera medo. Se você tem motivo para suspeitar que seu vizinho está propenso a eliminá-lo da competição, digamos, matando-o, então estará propenso a se proteger eliminando-o primeiro, num ataque preventivo. (…) A tragédia é que seu competidor tem todos os motivos para maquinar o mesmo cálculo, ainda que ele próprio seja o tipo de pessoa que não mataria uma mosca. De fato, mesmo se souber que você não partiria para cima dele com intenções agressivas, ele pode legitimamente recear que você esteja tentado a neutralizá-lo por medo de que ele o neutralize primeiro, o que dará a você o incentivo para neutralizá-lo antes, ad infinitum. (…) Esse paradoxo às vezes é chamado de armadilha hobbesiana, ou, na arena das relações internacionais, de dilema da segurança. (…) De que maneira os agentes inteligentes podem se desvencilhar da armadilha hobbesiana? A forma mais óbvia é uma política de dissuasão: não ataque primeiro, seja forte o bastante para sobreviver a um primeiro ataque e retalie na mesma moeda qualquer agressão.”

É aqui que reside a característica única do marketing: enquanto os países mais poderosos do mundo mantém um equilíbrio militar mínimo evitando a “destruição mútua assegurada” com a ideia de que qualquer ataque pode levar a uma retaliação que causará grandes estragos gerais, as empresas mais poderosas do mundo não precisam se preocupar com isso. Aliás, de fato, a terceira guerra mundial do marketing começou na década de 90 com a tal da globalização e se aprofundou nos anos 00 com o amadurecimento comercial dos mercados emergentes. A competição hoje é global e as massas de novos consumidores são submetidas a uma quantidade de opções de compra consideravelmente maiores do que há 20 anos. Não deveria se estranhar, portanto, que a artilharia da publicidade seja tão intensa e que suas ações estejam se sofisticando tanto a ponto de jogarem um homem do céu só para divulgar a marca de um energético.

Mas a questão primordial em relação a esse assunto é outra: onde é que isso tudo vai parar? O mercado de publicidade anda se perguntando isso formalmente em seminários e eventos há pelo menos dez anos e aviso a quem não é do meio que poucas respostas satisfatórias foram encontradas. Durante um certo tempo, acreditou-se que a publicidade tradicional, chamada de “interruptiva”, que interrompe o conteúdo jornalístico ou de entretenimento, daria lugar a uma publicidade misturada ao conteúdo, enxertada não apenas no formato de product placement (chamado por aqui de merchandising) mas em especial em novos modelos híbridos nos quais o anunciante financia integralmente conteúdos ligados aos valores de sua marca. Voltando ao exemplo citado anteriormente, jogar um homem do céu foi uma ação que gerou conteúdo (inegavelmente interessante) que não necessitou da compra de espaço interruptivo para se disseminar (ao menos não na quantidade convencional que se compra).

Porém, ao que parece, mesmo essas novas estratégias funcionam apenas em casos muito específicos e sua eficiência inclui uma conjunção bastante difícil de marca e agência comprometidas em entregar mais do que um comercial tradicional disfarçado de modernidade. Uma vez que o consumidor começa a ser também impactado mais fortemente com alternativas à publicidade interruptiva, podemos intuir que esse novo padrão poderá se tornar parte da paisagem, o que levaria a um novo ciclo de valorização da publicidade interruptiva, aquela colocada em locais claramente delimitados, que precisam ser disputados pelas empresas e comprados a peso de outro. Uma vez que esses espaços interruptivos raramente são ocupados com conteúdo realmente interessante, seu sucesso acaba dependendo da repetição, do martelar constante de mensagens à exaustão.

Assim, pode parecer que a publicidade tender a viver em um eterno loop de busca de relevância e posterior nivelamento – e é isso mesmo. Em cada novo ciclo, alguns talentos criativos se destacam, pessoas e empresas que prezam a inteligência do público puxam o segmento para um nível mais interessante. Mas, como em todas as áreas, eles são a minoria e a grande massa de anunciantes age baseada no conceito de difidência estabelecido por Hobbes e citado por Pinker. Eles estão imersos em um ambiente competitivo, lutam por sua sobrevivência e, apesar de existirem regiões de moderação entre os extremos da morte de mercado e do capitalismo mais selvagem, atingi-las, isso sim, é uma arte. E uma arte que depende bem menos de indivíduos e mais da revisão de todo um sistema que vem depredando o planeta e o aparelho cognitivo das pessoas há muitas décadas.

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Crédito da imagem: veio da wikimedia.

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