OEsquema

Arquivo: Texto

Drone Journalism

Eu venho comentando desde o ano passado no Minimalismo sobre a onda dos drones, que são esses pequenos veículos aéreos não tripulados, já utilizados com uma certa frequência por alguns exércitos em guerras e começando também a serem usados por forças policiais.

De olho nisso, a Universidade de Nebraska-Lincoln criou há poucos meses um laboratório de Drone Journalism voltado a investigar as aplicações do uso de drones em coberturas jornalísticas. O papel do laboratório não é simplesmente pesquisar tecnologias, porque essa questão não é tão complexa: os drones estão ficando mais baratos e as câmeras de alta definição cada vez mais leves. A grande discussão diz respeito às questões éticas que essa nova ferramenta certamente vai levantar não só no uso pelas polícias, mas também por empresas privadas. Inclusive da área de comunicação de massa.

Uma empresa de comunicação pode usar drones em reportagens investigativas em áreas particulares? E firmas de segurança privada podem fazer sobrevôos em áreas públicas? Dá uma passada no Tumblr Drone Journalism pra acompanhar algumas dessas discussões. O site DroneJournalism.org é outra fonte interessante.

Comente

A reinvenção da matemática

A cada novidade que a cultura digital traz pras nossas vidas vem junto uma conta nova pra pagar. Hoje, pelo menos metade dos brasileiros parece ter colocado a conta da internet no mesmo patamar de importância que a conta de água, luz e telefone, e algumas pessoas inclusive tem conta de internet e não tem conta fixa de telefone.

O orçamento doméstico do novos tempos inclui uma série de cálculos e cuidados que não existiam há dez anos. Por exemplo, 80% dos celulares no Brasil são pré-pagos e exigiram de todo um segmento da população uma habilidade pra lidar com toda essa função dos créditos e também com os diferentes chips combinados pra aproveitar melhor as ofertas de cada operadora. Computadores, celulares, câmeras digitais, consoles de games, tudo que era considerado supérfluo há bem pouco tempo começa a se tornar item de necessidade básica, parte da estrutura familiar de educação, entretenimento e empregabilidade. Mesmo a população de baixa renda está integrada com uma parte dessa história e tudo isso demanda uma reorganização prática e mental das contas em casa.

Em resumo, a alfabetização digital passa por uma nova matemática doméstica – que a maior parte dos brasileiros não está aprendendo e sim inventando.

***

Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

Comente

Redes Sociais

Segundo um relatório recente da empresa de monitoramento e inteligência digital Comscore (esse acima), usar redes sociais é a atividade online mais popular do mundo. 80% das pessoas que acessam a internet no planeta Terra estão em redes sociais, um crescimento de 174% nos últimos 4 anos. Um terço desses usuários está na Ásia, mas é na América Latina que as pessoas passam mais tempo em sites como Orkut, Facebook e Twitter.
Um fenômeno interessante (porém lógico) é o crescimento acelerado dos usuários com mais de 55 anos. Aos poucos, as redes sociais estão deixando de ser um privilégio de jovens de classe média alta de países ricos pra se tornar de fato uma rede global de comunicação. Quem está chegando na internet rapidinho entra numa rede social porque, claro: não faz o menor sentido estar conectado numa rede de computadores e não estar conectado numa rede de pessoas.

***

Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

1 Comentário

Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

***

Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.

18 Comentários

Hapiness is a warm cam

Não sei se chamou a atenção de vocês, mas no domingo passado, as imagens mais interessantes do Fantástico sobre o desabamento do edifício Liberdade no Rio foram feitas pelo telefone de um morador de rua. Caso você não tenha visto nada de curioso aí, eu vou repetir: as imagens mais interessantes de uma reportagem da maior emissora de televisão do país, dona de um poder sem precedentes na história, foram produzidas por um mo-ra-dor-de-ru-a. Ok, eu sei que esse comentário pode parecer estranho vindo de alguém que diz acompanhar o cenário da cultura digital, mas mesmo que a tecnologia esteja cada vez mais popularizada por conta da “ascenção da classe C baseada na estabilidade econômica”, é preciso ser muito blasé pra não achar esse tipo de situação digna de negrito.

Na verdade, acho fundamental sublinhar casos assim pra que a gente não perca de perspectiva o tamanho da mudança que estamos vivendo. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso já percebeu o quanto os vídeo amadores são fundamentais na composição dos notíciários. E, mais do que isso, como eles têm sido peças-chave na construção do imaginário visual de momentos históricos – de um jeito que não aconteceria se dependêssemos apenas da mídia estabelecida. Não é nem uma questão ideológica, é uma questão prática e logística: um grande veículo, por mais poderoso que seja, não pode estar em tantos lugares quanto o povo, não tem nem mesmo legitimidade pra tanto em alguns casos. Exemplo recente: as imagens sobre a ação policial no Pinheirinho que correram a rede não vieram das câmeras da imprensa pois os repórteres tiveram acesso restrito. Já quem estava tomando porrada podia gravar “à vontade”.

Dentro disso, me chamou a atenção uma reportagem da The Economist contando sobre a preocupação de algumas instituições de ativismo social em ensinar às pessoas noções básicas de gravação e tecnologia para que os vídeos amadores sejam mais eficientes e mais seguros. Por exemplo, no vídeo, um ativista da Witness conta que capturar um acontecimento inteiro com closes, mostrando uma sequência de eventos, pode ser bem mais eficaz do que panorâmicas tremidas e desconexas. Por outro lado, planos fechados podem induzir a produção de provas contra participantes de protestos, problema abordado por um desenvolvedor do The Guardian Project que criou um aplicativo para borrar o rosto de quem aparece inadvertidamente em imagens de mobilizações.

Ou seja: usar ferramentas digitais pra deixar o mundo melhor exige também que a gente aprenda a usar melhor as ferramentas digitais.

***

Falando em câmera…

***

Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

1 Comentário

As conexões humanas

Seguindo o espírito do texto de ontem sobre o Conexões Globais, escrevo rápida e livremente sobre o segundo dia do evento (hoje dando mais nomes aos bois). A base dessas anotações foi o debate com sobre o Occupy Wall Street com a Vanessa Zteler, Wilhemina Trout, Renato Rovai e Emiliano Bos e também o debate da Pós-TV com um povo ligado ao cinema que eu não sei quem são.

1. O que mais me chamou a atenção ontem, sendo mais específico, foi a apresentação do Emiliano Bos, esse jornalista italiano que cobriu conflitos no Oriente Médio, na África e nos Balcãs. Em um evento cujo principal foco de discussão é a conexão digital como forma de mobilização, o Emiliano falou sobre os 43 milhões de pessoas que hoje estão em fuga de países em conflito ou em condições sociais e econômicas degradadas. Na foto lá em cima, ele apresentou as rotas de fuga e imigração da África e Oriente Médio. A vida dessas pessoas depois de fugir, segundo ele, é basicamente esperar (frequentemente em um campo de refugiados) por um pedaço de papel  que lhes devolva a cidadania. Supostamente, eles não tem influência política, não se mobilizam, não tomam partido de decisões, não votam. Ao menos não formalmente, porque informalmente Bos diz que eles são “foot voters”, que suas rotas são uma forma de voto, uma forma de escolha política.

2. A Vanessa Zetler participou ativamente do Occupy Wall Street. Segundo o folder do Conexões, ela foi a 19ª a acampar no Zucchotti Park. Ainda assim, abriu sua fala dizendo que não podia falar pelo movimento por ele ser descentralizado. Todos podem falar pelo movimento e ninguém pode falar pelo movimento. Ela se posicionou dizendo que estava ali falando da experiência dela durante a ocupação. É uma distinção importante em tempos de horizontalização.

3. O Renato Rovai trouxe uma questão interessante: a convivência entre as velhas estruturas de esquerda e os novos movimentos sociais. Do ponto de vista dele, é preciso haver um encontro, uma convergência, um aprendizado mútuo. As velhas estruturas precisam se apropriar das novas ferramentas (tecnológicas e sociais) e os novos movimentos precisam entender que estão operando em cima de uma história, eles fazem parte de uma trajetória.

4. O tema da sustentabilidade financeira na cultura é complexo. Algumas pessoas dizem que os empreendimentos  culturais precisam aprender a andar economicamente com suas próprias pernas, a não depender do flutuante apoio do Estado. Mas um senhor ontem disse em alto e bom som: “sustentabilidade financeira é o caralho. A indústria automobilística compra aço subsidiado desde a década de 50. Quando o mercado esfria, ganha redução de IPI ou crédito facilitado pro setor. Cultura precisa sim ser subsidiada. É política pública. É o nosso dinheiro.”

5. Vi agora há pouco duas coisas no debate ao vivo do Fórum de Mídia Livre pela Pós-TV:  1) “A gente precisa parar de pregar pra convertido!”. 2) “Os debates em torno da mídia livre precisam acontecer na rua.”

2 Comentários

Um outro mundo é impossível

Na corrida, colo aqui algumas anotações que fiz ontem durante o primeiro dia do Fórum Social Temático e do Conexões Globais em Porto Alegre. São notas esparsas tecladas no celular durante o debate de abertura do Conexões (com o Gilberto Gil, o Antônio Martins, o Vinícius Wu e a Olga Rodriguez) e o papo na Pós-TV (com o Sérgio Amadeu, Cláudio Prado e a Ivana Bentes). Considerem esses parágrafos uma saladinha de fruta do que vi e ouvi lá, misturado com alguma coisa que eu mesmo pensei.

1. A mudança vem aos poucos. Não se pode trocar um sistema estabelecido por outro, isso não acontece. O que se faz é ir mexendo em áreas do sistema, irrigando com novas idéias, novos conceitos, novos pensamento, substituindo as peças. Por isso, a mobilização nunca pára, a mobilização é permanente.

2. Da mesma forma, por isso a política não pode ser algo que se faz de 2 em 2 anos com um voto numa urna eletrônica. Política é a ação do dia-a-dia, escolhas e caminhos que se faz, em casa, no trabalho, na rua, na rede.

3. Depois de grandes mobilizações populares, como o Occupy, é preciso ter mecanismos de “governança pós-revolta”. Porque é muito comum, na hora de resolver a crise, voltar às estruturas políticas formais tradicionais.

4. A troca assimétrica é um novo parâmetro. A troca simétrica é a lógica do mercado: você me diz que esse produto vale 5 patacas, eu lhe dou 5 patacas. Mas num mundo conectado em rede, as trocas começam a se tornar mais assimétricas e mais dependentes dos afetos: eu gosto desse conteúdo, então eu pago mais. Eu não gosto desse, então não pago, baixo de graça. Os laços de amizade e os laços familiares são exemplos de trocas assimétricas: você não consegue botar as relações na ponta do lápis, as contas raramente fecham. Esse tipo de conceito está migrando para o mercado e para as estruturas formais políticas e econômicas. As contas não vão mais fechar do jeito clássico.

Uma digressão: o mundo corporativo é falsamente baseado em trocas simétricas. Politicagem, maracutaia e joguetes emocionais são um belo exemplo de como nem sempre 5 reais vale 5 reais. Existem outros jogos envolvidos.

5. Não é apenas a ação que tem poder. O discurso também tem poder. A mobilização mundial em torno da questão SOPA/PIPA não envolveu tanta gente indo pra rua. Foi uma mobilização de discurso, de expor para o mundo as entranhas do projeto e suas consequências. Como todas as pessoas são hoje retransmissoras de mídia, seu discurso pode ganhar status de ação quando coordenado com o espírito do tempo.

6. Um outro mundo é impossível. Temos que dar um jeito nesse mesmo.

2 Comentários

Don’t believe the hype

Comprar um aparelho digital é hoje uma das tarefas mais ingratas que existem. Se você não tem um amigo ou alguém na família que seja especialista vai ter que confiar em vendedores, na propaganda do fabricante ou em reportagens da mídia. Mas nem sempre essas fontes dão a dica mais essencial, que é a seguinte: a melhor saída é sempre escolher o aparelho de acordo com a sua necessidade e não pelo que ele ou o mercado oferecem.

Muitas vezes acabamos comprando aparelhos cheios de penduricalhos só porque é o padrão do momento. Mas, diferente da retórica anti-consumista, isso não acontece por sermos todos zumbis consumistas e sim porque, no geral, não sabemos bem o que queremos e o que precisamos diante da oferta acelerada e crescente de tecnologia. Uma forma de se relacionar com isso é olhar com atenção para a situação, reduzindo a velocidade entre o impulso e a ação, e reunindo o máximo de informações antes de efetivar a compra. Pra facilitar, vale fazer uma lista escrita em papel com itens que se pretende usar, cruzar com as reais necessidades do cotidiano e definir a compra a partir disso.


Repito: o que você precisa nem sempre corresponde ao que o mercado está oferecendo como sendo o melhor. A melhor TV com o melhor home-theather é pra quem aprecia qualidade de som e imagem, não pra quem só gosta de se jogar no sofá pra ver uma tvzinha. O computador mais rápido e mais moderno é pra quem gosta de jogos complexos ou pretende produzir conteúdo, não pra quem só quer acessar emails e redes sociais. O celular mais avançado é pra quem vive de conexão constante. A câmera mais poderosa é pra quem tem aspirações fotográficas, ainda que amadoras. E assim por diante.

Outra coisa: nem sempre você precisa do modelo mais moderno. Existem versões antigas de câmeras, mp3 players ou de computadores que podem dar conta da sua necessidade. Eu vivi anos com um Creative Zen Mini de 5GB (acima) que pra mim serviu melhor do que os iPods da época. Hoje, abri mão de ter mp3 player, uma vez que meu celular pode armazenar e tocar música. Nesse caso, pra que a sobreposição? Exemplos de sobreposição hoje podem ser encontrado em todas as áreas.

Em resumo, a história é bastante simples: tomar nas próprias mãos a decisão sobre o que se precisa ou não. Pode ser um pouco mais complicado, exigir um pouco mais de pesquisa. Mas vale a pena. Resistir ao hype fácil da cultura digital é ecológico e econômico.

***

Leitura Complementar

In Praise of Crap Technology – artigo no Boing Boing sobre o valor de tecnologia não tão de ponta.

Preparado para Morrer – artigo sobre obsolescência programada no Estadão.

The Unconsumption Project – outra do Boing Boing, dessa vez sobre uma marca sem dono pra revitalizar antigos objetos.

***

Post inspirado num dos programetes Minimalismo que faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: logo do unconsumption.

Comente

Google em botecos: um estrago

O Google sem dúvida é um das invenções mais incríveis e úteis das últimas décadas. Mas ele também tem seu lado estraga-prazeres. Principalmente quando você junta o Google com o acesso à internet pelo celular e uma mesa de bar. Isso porque geralmente uma boa parte do tempo que se passa com os amigos no boteco é investido em discussões sem sentido e sem objetivo. E, pra jogar conversa fora, é fundamental que a mesa seja ignorante em determinados assuntos.

Com o acesso ao Google no celular, discussões que ocupariam a noite inteira de especulação criativas podem acabar em poucos minutos quando alguém acha uma resposta lógica e exata na internet. Pior ainda: além de acabar com a criatividade na mesa, ainda tem gente que fica com a ilusão de que sabe alguma coisa só porque achou um site no Google.

***

Texto de um dos programentes Minimalismo que eu faço pra Rádio Oficial do Verão.

Imagem: daqui.

2 Comentários

Galgando a hierarquia

O comercial acima (que eu peguei no Matias) é mais um exemplo daquilo que conversamos aqui e aqui a respeito da saga do Harry Potter (também pesquei uma evidência aqui). Um comercial desses sendo criado, aprovado e veiculado é fruto do envelhecimento de toda uma geração, que agora tem alguns representantes em posição de poder (no mínimo, aqui, no marketing da indústria automobilística e, claro, em agências de propaganda). No futuro, Star Wars certamente será esquecido e conviveremos com esquetes desse tipo relacionados a novos personagens, sendo Harry Potter o mais provável e em seguida, quem sabe?

Ah: não sei se você tem notado, mas Senhor dos Anéis também teve um poder de gerar memes no mainstream. Agora me deu preguiça de procurar no YouTube, mas tenho visto o bordão “my precious” em diversos seriados, inclusive alguns programas de TV aberta…

***

Lembrando: não é a primeira vez que a VW fuça no baú de Star Wars. No ano passado rolou o premiado e comentado comercial The Force também.

Nerd power…

Comente

O estado das coisas

“Já é Guerra pela Água. Já é. Há alguns meses, comecei a escrever uma longa matéria sobre as futuras guerras pela água. Mas vi que já não são “futuras guerras”: já estão aí, já são presentes. Se se examina bem, a guerra da Líbia foi a primeira grande guerra pela água. Haverá muitas outras no Oriente Médio, no sul da Turquia, Israel-Palestina. Mas a guerra da Líbia foi a primeira. E é terrível, por causa do Projeto Great Man Made River – mais de 20 bilhões de dólares, financiados integralmente pelo estado líbio de Gaddafi, com muita tecnologia canadense.”

O Pepe Escobar (que há muito tempo atrás escrevia pra Bizz, lembra?) explica o jogo de poder no mundo hoje. Eu não sabia: há anos ele é articulista de geopolítica do Asian Times e colabora com a Al Jazeera, um canal de TV russo e um de Washington. A entrevista, pra uma publicação alemã, é longa e complexo (e eu teria que ler mais duas vezes pra captar toda a extensão da rede de referências). Mas o investimento de tempo e atenção, garanto, compensa.

3 Comentários

Ligue os pontos

É como diz aí em cima: simplesmente reuni os textos (que considerei) mais interessantes da discussão recente sobre cultura independente num só lugar. Não tem análise, no máximo um viés de escolha e um discurso que acaba se montando com os trechos que escolhi pra servirem de guia para cada link. A conclusão é de cada um.

Está aqui no tumblr Discurso Alternativo.

1 Comentário

Relação

A essa altura do campeonato, já não é mais novidade pra ninguém esse papo do quanto nós estamos sendo inundados de informação hoje em dia. Na verdade, e felizmente, já estamos chegando no ponto em que muitas vozes estão propondo reflexões e comportamentos alternativos. O problema é que a questão é quase sempre tratada do ponto de vista da nossa relação com outras pessoas.

Por exemplo, a crítica que se faz contra quem fica muito tempo grudado no celular ou no computador geralmente vem acompanhada da sugestão que a pessoa saia da frente da tela e vá se encontrar com outras cara a cara. Mas antes disso, a pessoa talvez devesse se preocupar com sua relação consigo mesma.

Ficar grudado em qualquer tela nos rouba de nós mesmos, nos desacostumamos a ficar conosco. Antes de aprender a abrir mão da mediação de uma tela com o mundo, quem fica muito tempo conectado precisa aprender a abrir mão da mediação de uma tela consigo mesmo.

***

Texto de um dos programentes Minimalismo.

Imagem: MarciaMonica Cook, daqui.

1 Comentário

Um brinde ao líquido

A linguagem humana é uma coisa engraçada. A gente tem mania de construir alfabetos inteiros usando conceitos que se mantém cristalizados e inquestionados por décadas e que acabam se transformando em dogmas laicos. Por exemplo, você consideraria a ação de alugar um apartamento um ato revolucionário? Certamente não. Quando se fala em alugar um apartamento, é provável que a sua mente abra gavetas e escaninhos ligados a ideias como burocracia, complicação e pequeno aburguesamento. Muito raramente, senão nunca, alguém diz “vou alugar um apartamento” e você lembra, digamos, da geração beat e de tudo que ela significou para a cultura dos últimos 60 anos.

***

Acontece, curiosamente, que o fato de Joan Vollner ter alugado um apartamento no número 412 da W118 Street em Nova Iorque foi fundamental para a explosão beat na década 50. Esse foi o endereço que Joan dividiu com Edie Parker, mulher de Jack Kerouac, e cujas portas estavam sempre abertas pra receber gente fina como William Burroughs, Lucien Carr e Allen Gisnberg – além do proprio Kerouac, claro. Nesse pequeno apartamento alugado, madrugadas agitadas por anfetaminas e jazz bebop funcionaram como uma espécie de líquido amniótico para o feto da turma que logo depois colocaria o pé na estrada e aprontaria tremendas confusões. Talvez o contrato de locação desse imóvel tenha sido, de fato, a obra escrita que inaugurou o legado beat.

***

Em seu livro mais recente, De Onde Vem as Boas Ideias, o escritor de “ciências pop” Steve Johnson fala sobre a importância desse tipo de lugar, que ele define como tendo propriedades líquidas. Johnson lembra que a maior parte das teorias relacionadas à criação de vida na terra são baseadas em água. E não só porque hidrogênio e oxigênio sejam elementos fundamentais em muitos compostos orgânicos, mas também porque H2O em estado líquido é simplesmente um excelente apartamento para interações químicas. O carbono, a base da vida terráquea, é um excelente conector (como era Allen Gisnberg), ou seja, tem a capacidade de se ligar a uma grande variedade de outros elementos. Mas sem um meio que permitisse numerosas colisões randômicas desse conector com outros parceiros, não haveria a exploração – e a posterior efetivação – dessas possibilidades. Ou seja: líquido é o estado da criação. No gasoso, há muita distância entre as partículas, nada vai a lugar algum. Congelado é paradão demais.

Acredito que muitos que lêem essa revista já estiveram, mesmo que por algumas poucas horas, em um lugar assim. Puxe da memória e certamente você vai se lembrar da atmosfera: uma noite movimentada, com gente entrando e saindo, os copos e cigarros passando de mão em mão, os grupos se fazendo e se desfazendo, os assuntos pulando de pessoa em pessoa, a informação fluindo e as ideias, mesmo que disparatadas e desestruturadas, sendo exploradas, retorcidas – moeda intelectual trocando de carteira e tendo sabe-se lá que destino.

***

Nem sempre são apartamentos. Às vezes são ruas que concentram bares ou centros culturais. Uma esquina, uma quebrada. Não precisa ser à noite. Pode ser um campinho de futebol com goleiras nuas e, no lugar da grama, areião. Ou uma feijoada semanal num bairro longe do centro. Pode ser um escritório de portas abertas para a peregrinação de talentos complementares. Ou um ateliê que sirva de imã pra gente que compartilha curiosidades – mas não necessariamente o mesmo segmento artístico ou filosofia de vida. Pode ser qualquer lugar, desde que seja líquido. E, claro, desde que tenha uma Joan Vollner e uma Edie Parker pra bancar a parada e abrir as portas pras moléculas colidirem e se experimentatem como pares.

***

Na história da cultura, muitos são lembrados, comemorados e seguidos por revolucionarem modelos e condutas. Mas poucos levam o devido crédito por criar, fomentar e manter ativo o ambiente onde essas viradas acontecem com toda a carga de energia e interação que necessitam. Essa gente pode até se manter anônima. Só não pode deixar de existir.

***

Essa foi minha coluna pra revista Soma#26. Não deixe de dar uma boa olhada em toda a revista aqui.

1 Comentário

Julgamentos

A telinha acima é o documentário “Judgment Day: Intelligent Design on Trial”, que tem inteirinho pra assistir no YouTube (em inglês). Ele cobre, com entrevistas e dramatizações, o conflito que se instalou em uma pequena cidade da Pensilvânia ali por 2004 por conta de uma ação polêmica: a tentativa de embutir o ensino do criacionismo nas aulas de ciência da escola local. O caso, como toda boa história americana, foi parar na justiça.

Ensinar criacionismo como ciência é proibido pela constituição dos Estados Unidos, mas há anos movimentos criacionistas tentam empurrar a sua visão da origem das espécies disfarçando-a de uma suposta teoria científica chamada “Design Inteligente”. O que o filme conta é justamente os detalhes de como se desmontou, peça por peça, a noção de que “Design Inteligente” é algo próximo de uma teoria científica.

Fora de discussões de mesa de bar, não é um assunto fácil. Não dá pra tomar uma decisão judicial com base no “dãã, nada a ver, isso aí não existe, é ÓBVIO que não existe.” Mas o documentário encaminha o raciocínio pra nós, que estamos assistindo, dando rápidas noções de evolucionismo, criacionismo e americanismos. Embora claramente defensor do pensamento científico clássico (o que gerou reclamação dos criacionistas sobre a falta de isenção) , o filme tem umavisão razoável da situação como um todo.

Aproveite enquanto está facinho no YouTube: “Judgment Day” é imperdível e talvez obrigatório numa época de avanço assustador de bancadas ditas “religiosas” no nosso Congresso.

***

Diga-se de passagem: apesar de me envolver com o filme e o sugerir como peça importante de reflexão para um fenômeno cultural que estamos vivendo no Brasil, não sou um desses fundamentalistas do pensamento científico. Costumo acompanhar as entrevistas de dois grandes advogados do ateísmo ativo, o Christopher Hitchens e o Richard Dawkins, mas não tenho nenhuma vontade se ser colocado no mesmo balaio deles.

Nesse ponto, tendo a concordar mais com a entrevista do Alain de Botton para o Caderno Cultura da Zero Hora (que, por sinal, anda bem bacana): existe uma multidão silenciosa que não se alinha com os extremos – sejam teístas ou ateístas. É uma imensa área cinzenta que reúne, acredito, algum pessoal disposto a compor diferentes visões, abrindo mão da abordagem mais agressiva e buscando promover uma cultura de paz e compaixão sem necessariamente vincular o Estado a tradições específicas.

***

 

Na verdade, cheguei a esse filme por indicação do professor Charles Watson no terceiro módulo do seu falado Workshop de Processo Criativo. Ele costuma usar, no curso, um trecho do “Judgement Day” em que um cientista explica o funcionamento do mecanismo evolucionário pra derrubar um argumento dos criacionistas. É mais ou menos o seguinte.

Uma das defesas do “design inteligente” se baseia no estudo de uma bactéria que tem uma organela de propulsão tão complexa que, segundo eles, “não poderia ter evoluído de algo mais simples”. Logo, só pode ter sido desenhado por um “designer inteligente”. Esse conceito é chamado de “complexidade irredutível”. Um dos exemplos clássicos pra defender a complexidade irredutível é a ratoeira – aquela que o rato pega o queijo e fica preso num araminho. Para os partidários do design inteligente, a ratoeira não tem função se privada de alguma de suas partes.

A contraexplicação da acusação no Jugdement Day caminha simultaneamente por um lado biológico e outro simbólico. Na biologia, vem à tona uma versão anterior da bactéria citada na qual a organela/motor de propulsão, sem algumas partes, não está totalmente evoluída. Mas, apesar de não servir como propulsor, funciona muito bem como… injetora de veneno.

Pra ilustrar melhor o argumento, o cientista dá seu depoimento usando uma ratoeira como prendedor de gravata. Sem três de suas cinco partes, a ratoeira não serve pra pegar rato. Mas isso não a inutiliza como acessório de vestuário.  Em outras palavras, do ponto de vista da evolução, é possível, sim, que existam etapas intermediárias nas quais os mecanismos biológicos tem funções totalmente diferentes de suas versões evoluídas.

Não sei se ficou claro. Tem que ver o filme mesmo.

***

O Charles Watson usa isso como paralelo para o processo criativo: é muito comum que, quando estamos criando, se tenha centenas de idéias aparentemente inúteis ou bestas mas que geralmente servem de escada – ou de etapas intermediárias – para a construção do que se consideraria a solução final. Ou seja: aqueles papéis rascunhados no lixo não são lixo, são só a idéia final ainda na pré-escola.

Comente

The Hipster Cycle

Eu tenho uma tese de 1,99 que é o seguinte: se você mantiver seus gostos (pra roupa, cinema, comida, qualquer coisa estética) por toda a vida, a cada 18 anos você tem um ciclo de 3 nos quais está totalmente sintonizado na moda.

Portanto, é só comprar roupas (e apetrechos) de boa qualidade, ficar parado e esperar que o tempo passe por você e encaixe de novo.

***

O sketch aí de cima eu tirei do Portlandia, aquele seriado baseado em sarcasmo anos 90 aplicado aos tempos de hoje disfarçados de anos 90. O Portlandia em si é um “hipster cycle” porque pra achar engraçado você tem que estar pelo menos com um pé bem enfiado dentro da cultura que eles usam como base pra fazer graça.

***

Mas a verdadeira maravilha do Portlandia (além dos roteiros e atores afinadíssimos) é esse formato de sketchzinhos: dá pra achar quase tudo no YouTube, sem essa nóia de TORRENT. Procura lá, bota PORTLANDIA na busca, vai…

Aproveita que foram só seis episódios na primeira temporada e a segunda é só ano que vem. Sem aquela outra nóia de temporadas gigantescas cheias de episódios e histórias…

***

Ah, mais uma coisa.

Um amigo meu (não sei se ele quer o nome envolvido com esse post) conhece um cara de Portland que lhe contou o seguinte. A indústria do cimento é central pra economia de Portland. Inclusive agora me lembrei que há 15 anos fiz alguns anúncios pra uma marca de cimento e havia um tipo de cimento chamado CIMENTO PORTLAND.

Bom, enfim.

O fato é que, ao que parece, a cidade é orgulhosa dessa parada do cimento (como Detroit era da indústria automobilística) e isso acabou gerando um efeito colateral interessante que são as PISTAS DE SKATE de Portland: diz que tem muitas pistas experimentais e malucas pra demonstrar a versatilidade do cimento.

Cimento pride. Algo assim. Tive preguiça de pesquisar mais.

Comente

O bom e velho menos é mais

Essa idéia não é nova, mas sempre vale o remix. O curioso, nesse caso, o que chama a atenção nessa fala, é aquele olhar americano: os caras tem o talento de pegar qualquer coisa e transformar no pacote método + slogan. Chega a parecer um dos números do McDonalds. Ainda assim, vale o recado.

Outra nota: para quem já ganha pouco, não tem muito e mora apertado por conjunção econômica, esse papo deve soar estranho. No fundo, claro, é uma reação urbana de países desenvolvidos. Mas alguma coisa podemos aprender com o colapso econômico/psicológico dos EUA.

Tinha aquela frase, né, do William Blake: “O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”. Mas, pelo jeito, não é bem assim. Com frequência, o caminho do excesso simplesmente alimenta os excessos do palácio.

***

Aproveito o gancho pra resgatar um post de 2008, Menos é menos e tudo bem! Eu sou meio incomodado com essa frase “Menos é mais”, porque no fim das contas ela valoriza o “mais”, né?

Comente

Linha da vida

As moças devem saber, mas eu descobri há pouco: a Vivara lançou esse ano uma linha chamada LIFE. Que, na verdade, é mais do que uma simples linha, é uma espécie de editor/agregador de significados de vida muito mais eficiente do que algumas ferramentas digitais. Viajei demais? Acho que não. Vejamos.

A idéia é bem simples (e comercialmente inteligente): você compra uma pulseira ou colar e vai acumulando berloques que, sugere-se, tenham a ver com a sua história de vida. Arrumou um namorado novo? Bota um coração. Casou e foi passar a lua de mel em Paris? Bota uma Torre Eiffel. Ficou grávida? Bota um bebezinho. E por aí vai. Claro que dá pra usar como mero enfeite, mas a graça está justamente em compor a pulseira pra contar uma história. E com um brinde semiótico: é a linha da vida, em um círculo.

No fundo, é o que o Facebook gostaria que a gente fizesse na sua Timeline. Só que o Facebook, apesar de dar sua ferramenta de graça, é muito mais arrogante e pretensioso. Uma timeline em forma de pulseira (em que pesem aí questões monetárias e sociais) é infinitamente mais lúdica e fiel a uma história de vida do que uma timeline da forma como o Facebook sugere.

Porque a edição, no caso da pulseira, está muito mais na sua mão (sem trocadilhos) e é muito mais simbólica, não é tão estatística e forçada como a timeline digital no estilo Facebook (ou dos fracassados lifeblogs). Nesse último caso, além de partir do antipático pressuposto (ou, pior, da aspiração comercial) de que o que vale da sua vida passa pelo Feice, uma Timeline bacana e fiel dependeria de um usuário que domina perfeitamente as complexas configurações de privacidade. É comum, também, que usuários menos aplicados acabem deixando que configurações padrão façam as escolhas por eles.

Claro, pode-se considerar que uma Timeline do Feice fragmentada, produzida por enganos e baixa intimidade com as configurações técnicas, acabe dando um resultado tão legítimo quanto um diário escrito à mão, cheio de rasuras, imperfeições e lacunas. Mas, de alguma forma, me parece que os lapsos derivados do não entendimento completo de uma ferramenta digital resultam em um produto final menos autêntico. Rasuras aparecem, gritam, enquanto que configurações erradas frequentemente se misturam às postagens corretas, tornam-se postagens corretas.

Outro problema é que, por mais dados que uma pessoa gere ao interagir com os diversos aplicativos que atravessam seu cotidiano, mesmo que isso seja coletado e classificado de forma matematicamente perfeita, ainda estamos falando de fragmentos reunidos dentro de um condomínio fechado – enquanto a vida segue mais rica lá fora (não só fora da internet, mas, antes disso, fora do Facebook, no resto da internet).

Viver e dar sentido à vida, alguns defendem, é narrar e editar a própria história o tempo todo. Sempre fomos, de certa forma, sujeitos às (e impulsionados pelas) limitações das ferramentas da nossa época. Pode ser que no futuro dominemos as configurações de uma timeline digital da mesma forma como dominamos já a fala, a escrita, o recorte, a colagem e a confeção de pulseiras. Mas enquanto isso não acontece, não custa nada investir um pouco de atenção e reflexão no que tentam nos empurrar como sendo a linha da nossa vida.

1 Comentário

Minimalismo

Como sempre, eu lembro: clicando aqui ou no banner ali do lado, você vai para a tag do meu programete no site da Oi FM sobre cultura digital. Lá tem o Minimalismo em áudio e texto pra re-ouvir ou ler.

Nos últimos tempos, eu venho falando sobre o quanto nós somos mais do que a soma de nossas conexões digitais, sobre a noção de buffet na hora de comprar aparelhos digitais, sobre o futuro da blogagem por voz, sobre a origem da hashtag, sobre Pittsburgh disputando atenção com o Vale do Silício, entre muitas outras coisas.

Aparece lá…

Comente

El Jardin Armado, David B.

O David B. já tinha dado a dica. Na sua já clássica graphic novel autobiográfica, Epilético, as batalhas medievais apareciam como fertilizantes pra imaginação e impulso artístico desde a infância do autor. Tamanha foi essa influência que a história da família Beauchard acabou retratada, de fato, como uma longa cruzada em busca da cura e redenção da epilepsia do irmão de David.

Desta vez, em El Jardim Armado y Otras Historias, as batalhas são o mote principal dos três contos criados e ilustrados pelo cartunista francês. Flutuando com elegância entre história e mito, David B. nos leva a lugares como a Pérsia no século VIII, em pleno califado de Harun Al Rashid (de Mil e Uma Noites) e Praga no século XVI. Em cenários de disputas territoriais, políticas e, sobretudo, religiosas, se desdobram episódios que promovem o encontro de três forças: os governantes e seu poderio militar, o homem comum em busca do paraíso e seres místicos que encaminham ou desencaminham conforme alguma lógica não-aparente.

Não se engane com meu palavreado ou com a minha descrição barroca: as páginas de David B. fluem como uma mãe lendo um conto de fadas na beira da cama à noite. Não há compromisso excessivo com o rigor histórico. A arte é primorosa e agradável. Tudo que temos que fazer é sentar confortavelmente, abrir o livro e deixar símbolos universais fazerem o seu habitual trabalho.

O livro saiu em espanhol pela Editoral Sin Sentido. E tem também em inglês na Amazon.

Ah: quem curtiu Persépolis vai certamente encontrar alguma afinidade com El Jardim Armado. Embora o trabalho do David B. não seja, neste caso, autobiográfico, o sabor do oriente médio está presente. Vai sem medo.

Comente

Começou

Em 2009, escrevi um post ressaltando um texto do jornalista Chuck Klosterman sobre Harry Potter. A tese do Klosterman era lógica e bem bacana: assim como quem não assistiu Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas perde uma parte das piadas dos seriados e filmes atuais, quem não acompanhou minimamente a série do Harry Potter vai encontrar buracos nas narrativas pop dos próximos 20 anos.

Pois bem, a imagem acima (que, acredito, não deve impactar todo mundo) é o sinal de que isso já começou.

3 Comentários

Leitura Sugerida

Essa semana, peguei dois textos pra ler em sequência e, serendipitosamente, eles faziam muito sentido juntos. Vejamos: primeiro, o artigo do Douglas Rushkoff sobre o #occupywallstreet e toda a questão da crise americana, perguntando: “Desde quando o desemprego é um problema?”. Bem, obviamente a pergunta é retórica e não se dirige às pessoas que estão desempregadas (o que seria perverso).

Rushkoff, isso sim, aproveita o gancho do desemprego pra lembrar que “o que nos falta não é emprego, mas uma maneira de distribuir justamente a abundância que geramos com nossas tecnologias, e uma maneira de criar significado num mundo que produz coisas demais.” Antes disso, vai mais longe: “como podemos organizar uma sociedade em torno de outra coisa que não o emprego?”

O ponto de Rushkoff é que a tecnologia permite que as pessoas, entre outras coisas, divirtam umas às outras, ajudem umas às outras a criar sentido (como sempre, o empreendimento mais difícil). Se o dinheiro circular nesse sentido horizontal, a economia seria um tantinho mais saudável.

Infelizmente, o argumento ainda soa mais filosófico do que prático (o que não deveria nos desanimar). No texto seguinte que entrou na minha fila de leitura, o escritor e ensaísta Sam Harris comenta sobre sua experiência com os Kindle Singles, os “livretos” digitais da Amazon de menor extensão e menor preço, criados justamente pra atender uma nova demenda de leitores que não querem gastar tempo para absorver 600 páginas de argumentação em torno de um assunto.

Diz Harris > “Os editores não conseguem cobrar dinheiro suficiente por livros de 60 páginas. Logo, os autores não conseguem se remunerar com eles. Mas os leitores estão começando a perceber que isso não é problema deles. Pior, a maior parte das pessoas acredita que pode dar um pulo no YouTube e assistir a uma conferência com o autor, ou então dar uma espiada no blog dele e, assim, absorver muito do que ele tem a dizer sobre determinado assunto.”

Ou seja: diminuindo-se os intermediários, é preciso contornar a questão da gratuitade para que as relações horizontais (quando nós consumimos conteúdos que nós criamos) sejam viabilizadas também economicamente. Sem excessos, mas economicamente.

***
Imagem: daqui.

Comente

O futuro de Mad Men

Se você não assiste Mad Men, aqui vai um resumo: o seriado é um novelão (bem bacana) que gira em torno da equipe de uma agência de publicidade nos anos 60. Maaaaas, a história da agência é apenas um recurso (bem pensado) pra falar dos problemas existenciais da classe média americana da época. Não é apenas a gênese da publicidade moderna que se vê, é também a gênese da maior parte dos males psíquicos que emplacaram nas últimas décadas (depressão, falta de pertencimento, ansiedades, desestruuração de um sistema vigente de status etc).

Uma das coisas mais interessantes do seriado (e que eles enfatizam claramente! são os pequenos hábitos cotidianos da época que caíram em desuso, como uma certa misoginia e, especialmente a tendência de beber e fumar a qualquer hora, o tempo todo. Não só publicitários estressados, mas donas de casas (inclusive grávidas) e médicos (que atendem grávidas) fumam e bebem numa quantidade impensável para os padrões médios atuais.

Não dá pra saber o quanto é verdade, mas dá pra ter uma idéia: eu trabalhei com algumas pessoas que viveram os anos 70 da publicidade brasileira e também lembro do status do álcool e do cigarro durante a minha infância. Eles eram, de fato, mais presentes fora de eventos sociais. O que antes era um comportamento comum hoje é algo quase alienígena, considerado fora da curva. Você olha alguns episódios e pensa (ao menos eu penso): “meu, o que é essa gente tosca?”

Pois o escritor de ficção científica William Gibson, em entrevista para o Boing Boing (que eu vi no Caos Ordenado), disse uma coisa que me lembrou justamente esse aspecto de Mad Men:

“Ao longo da minha vida, eu pude observar emergirem narrativas da história completamente diferentes. A história do que hoje é a Segunda Guerra e de como ela aconteceu é radicalmente diferente da história que me foi ensinada no colégio. Se você lê lê os Vitorianos escreverem sobre si mesmos, eles descrevem algo que nunca existiu. Os Vitorianos não pensavam sobre si mesmos como sexualmente reprimidos ou racistas. Eles não se viam como colonialistas. Eles se consideravam a jóia da coroa da criação.

Obviamente, nós poderíamos ser Vitorianos também.”

A partir dessa perspectiva, é curioso imaginar como seria a 55a temporada de Mad Men lá por 2051. Que comportamentos nossos hoje soarão toscos, retrógrados e excessivos? Que armadilhas sociais não conseguimos enxergar por estarem tão próximas de nossos olhos?

Não tenho muita certeza, mas acho que os episódios da 55a temporada de Mad Men:

- Se passariam em uma agência digital.
- Teriam como protagonista central um Diretor de Planejamento.
- Documentariam a chegada do Twitter e do Facebook.
- Mostrariam a decadência do atual modelo de agência digital.
- E também a frustração dos profissionais, que na verdade queriam todos ter sua própria startup de tecnologia.
- Deixariam claro como “era” exagerada a necessidade das pessoas de estarem conectadas 100% do tempo.
- Daria vergonha de ver como as pessoas “costumavam” ficar acessando emails durante reuniões
- Renderiam cenas hilárias sobre nosso entusiasmo com tablets e smarphones.
- Exporiam a nossa empáfia ao falarmos sobre comunicação digital como se realmente tivéssemos noção do que está acontecendo e o que estamos fazendo.

E por aí vai.

Não adianta: os sofisticados de hoje sempre serão os toscos de amanhã.

***
Mas e você? O que acha que hoje é levado na boa mas será tosco no futuro?

8 Comentários

Desire Lines

Recebi do Marcelo Peresin o artigo acima. É sobre um projeto do fotógrafo holandês Jan-dirk van der Burg dedicado totalmente às desire lines – que são esses caminhos alternativos que as pessoas fazem quando o caminho calçado não dá conta do desejo coletivo.

Escrevi sobre o assunto, inicialmente num post rápido e ingênuo (sem saber que o assunto era, sim, estudado, e tinha nome). Depois, achei um pool no Flickr só de desire lines. Por fim, acabei dedicando uma coluna na Mais Soma pro tema.

Mas o tema ainda me interessa. As desire lines são, de certa forma, uma expressão física de um monte de gambiarras a gente faz hoje pro ambiente digital funcionar.

3 Comentários

Leitura Sugerida

“Há um perigo: não se apaixonem por si mesmos. Nós temos um momento lindo aqui. Mas se lembrem: carnavais vêm facilmente. O que importa é o dia seguinte, quando nós temos que retornar à vida normal.”

Foi o que disse o filósofo Slavov Jizek num discurso no Occupy Wall Street (e traduzido quase que integralmente num arranjo do Matias).

Me lembrei do Slavov lendo uma matéria na Zero Hora sobre alguns dos mineiros chilenos: ele foram tão comemorados ano passado, mas agora uma boa parte deles está abandonado pela mídia e pelo governo. Sei que é o estado das coisas, mas não deixa de ser melancólico o quanto a relevância e a lembrança (inclusive governamental) andam dependendo de relações públicas.

Comente
Página 1 de 212