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Por que você é impactado por tanta publicidade

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Você já deve ter esbarrado por aí algumas vezes em estudos ou matérias que falam na quantidade de impactos publicitários a que o cidadão médio é exposto todos os dias. Não existem, que eu saiba, números exatos confiáveis (na internet se acha pesquisas que vão de 200 a 3.000 impactos diários), mas empiricamente qualquer pessoa mais ligada percebe que a multiplicação de canais de distribuição de conteúdo, como a internet e a TV a cabo, acabaram despejando cada vez mais propaganda na nossa vida.

Quem não trabalha com publicidade e tem uma visão mais crítica tende a achar que esse investimento maciço em marketing é um desejo dos anunciantes, mas na verdade ocorre o contrário. O sonho de qualquer empresa é cortar custos para maximizar lucros e frequentemente o dinheiro gasto em comerciais de tv, ações em redes sociais, outdoors e outras atividades é visto como um fardo, como um mal necessário. Melhor seria se o produto fosse tão desejado e interessante que não precisasse desse aporte, que fosse direto da esteira de produção para a prateleira e em seguida para o carrinho do consumidor. Mas, na maior parte das vezes, o produto precisa fazer uma parada estratégica entre dois programas de TV, no meio de um blog ou num cartaz de rua. Mesmo empresas com produtos consagrados, como a Coca-Cola, Nike e Microsoft ainda investem milhões e milhões de dólares no mundo inteiro para reafirmar e manter suas posições – e eu não estou falando de dinheiro para o desenvolvimento de produtos melhores, e sim de de propaganda, de fixar um produto na mente do consumidor para ele ser preferido ou ao menos considerado.

Existem diversas teorias econômicas e de marketing para explicar essas dinâmicas, mas uma forma interessante de abordar o tema é do ponto de vista da filosofia de Thomas Hobbes. Em um artigo publicado na Piauí de março, o escritor de ciências Steve Pinker examina as razões que levam o homem a se tornar violento e, a certa altura, cita um trecho do Leviatã de Hobbes:

“Assim, na natureza do homem, encontramos três causas principais de contenda. Primeiro, a competição; segundo, a difidência; terceiro, a glória. A primeira leva o homem a invadir pelo ganho; a segunda, pela segurança; a terceira, pela reputação. O primeiro usa a violência para se assenhorear da pessoa de outros homens, de esposas, filhos e rebanhos; o segundo, para defendê-los; o terceiro, por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente e qualquer outro sinal de desapreço, ou à sua pessoa diretamente, ou, por reflexo, a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.”

Não é preciso discorrer sobre competição, palavra de ordem no mercado capitalista. Como diz Pinker, “Hobbes considerava a competição uma consequência inevitável do empenho do agente em perseguir seus interesses.” Já a difidência, que é entendida pelo escritor nesse contexto como “medo”, merece um pouco mais da nossa atenção. Segue agora Pinker:

“Competição gera medo. Se você tem motivo para suspeitar que seu vizinho está propenso a eliminá-lo da competição, digamos, matando-o, então estará propenso a se proteger eliminando-o primeiro, num ataque preventivo. (…) A tragédia é que seu competidor tem todos os motivos para maquinar o mesmo cálculo, ainda que ele próprio seja o tipo de pessoa que não mataria uma mosca. De fato, mesmo se souber que você não partiria para cima dele com intenções agressivas, ele pode legitimamente recear que você esteja tentado a neutralizá-lo por medo de que ele o neutralize primeiro, o que dará a você o incentivo para neutralizá-lo antes, ad infinitum. (…) Esse paradoxo às vezes é chamado de armadilha hobbesiana, ou, na arena das relações internacionais, de dilema da segurança. (…) De que maneira os agentes inteligentes podem se desvencilhar da armadilha hobbesiana? A forma mais óbvia é uma política de dissuasão: não ataque primeiro, seja forte o bastante para sobreviver a um primeiro ataque e retalie na mesma moeda qualquer agressão.”

É aqui que reside a característica única do marketing: enquanto os países mais poderosos do mundo mantém um equilíbrio militar mínimo evitando a “destruição mútua assegurada” com a ideia de que qualquer ataque pode levar a uma retaliação que causará grandes estragos gerais, as empresas mais poderosas do mundo não precisam se preocupar com isso. Aliás, de fato, a terceira guerra mundial do marketing começou na década de 90 com a tal da globalização e se aprofundou nos anos 00 com o amadurecimento comercial dos mercados emergentes. A competição hoje é global e as massas de novos consumidores são submetidas a uma quantidade de opções de compra consideravelmente maiores do que há 20 anos. Não deveria se estranhar, portanto, que a artilharia da publicidade seja tão intensa e que suas ações estejam se sofisticando tanto a ponto de jogarem um homem do céu só para divulgar a marca de um energético.

Mas a questão primordial em relação a esse assunto é outra: onde é que isso tudo vai parar? O mercado de publicidade anda se perguntando isso formalmente em seminários e eventos há pelo menos dez anos e aviso a quem não é do meio que poucas respostas satisfatórias foram encontradas. Durante um certo tempo, acreditou-se que a publicidade tradicional, chamada de “interruptiva”, que interrompe o conteúdo jornalístico ou de entretenimento, daria lugar a uma publicidade misturada ao conteúdo, enxertada não apenas no formato de product placement (chamado por aqui de merchandising) mas em especial em novos modelos híbridos nos quais o anunciante financia integralmente conteúdos ligados aos valores de sua marca. Voltando ao exemplo citado anteriormente, jogar um homem do céu foi uma ação que gerou conteúdo (inegavelmente interessante) que não necessitou da compra de espaço interruptivo para se disseminar (ao menos não na quantidade convencional que se compra).

Porém, ao que parece, mesmo essas novas estratégias funcionam apenas em casos muito específicos e sua eficiência inclui uma conjunção bastante difícil de marca e agência comprometidas em entregar mais do que um comercial tradicional disfarçado de modernidade. Uma vez que o consumidor começa a ser também impactado mais fortemente com alternativas à publicidade interruptiva, podemos intuir que esse novo padrão poderá se tornar parte da paisagem, o que levaria a um novo ciclo de valorização da publicidade interruptiva, aquela colocada em locais claramente delimitados, que precisam ser disputados pelas empresas e comprados a peso de outro. Uma vez que esses espaços interruptivos raramente são ocupados com conteúdo realmente interessante, seu sucesso acaba dependendo da repetição, do martelar constante de mensagens à exaustão.

Assim, pode parecer que a publicidade tender a viver em um eterno loop de busca de relevância e posterior nivelamento – e é isso mesmo. Em cada novo ciclo, alguns talentos criativos se destacam, pessoas e empresas que prezam a inteligência do público puxam o segmento para um nível mais interessante. Mas, como em todas as áreas, eles são a minoria e a grande massa de anunciantes age baseada no conceito de difidência estabelecido por Hobbes e citado por Pinker. Eles estão imersos em um ambiente competitivo, lutam por sua sobrevivência e, apesar de existirem regiões de moderação entre os extremos da morte de mercado e do capitalismo mais selvagem, atingi-las, isso sim, é uma arte. E uma arte que depende bem menos de indivíduos e mais da revisão de todo um sistema que vem depredando o planeta e o aparelho cognitivo das pessoas há muitas décadas.

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Crédito da imagem: veio da wikimedia.

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Documentário sobre o jornal Boca de Rua

O Boca de Rua, aqui de Porto Alegre, é o único jornal do Brasil escrito e fotografado inteiramente por moradores de rua. Ultimamente não tenho esbarrado nos vendedores, mas costumava comprar com frequência – mesmo quando eu suspeitava da procedência de um exemplar específico – e não só por filantropia: o conteúdo é bem feito e assustadoramente revelador de uma realidade invisível, como eles mesmos dizem.

O vídeo acima é um documentário de 10 minutos escrito e dirigido pelo caxiense Marcelo Andrighetti que dá um gostinho da vida por trás do Boca. A história é mais rica do que 10 minutos podem conter, mas já vale pelo registro e por dar mais um pouco de voz a um grupo que vem lutando com uma arma tão bacana para ser ouvido.

Quem for de São Paulo e quiser conferir em tela grande, o documentário vai passar no Mostra Rumos Cinema e Vídeo neste sábado.

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Duas entrevistas didáticas sobre mídia & cultura

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De onde viemos, para onde vamos, por que estamos aqui? Essas são perguntas comuns a todo tipo de pessoa, de toda e qualquer demografia e intenção, mas o povo da área de mídia & cultura vem se escabelando de uma forma muito particular. A tecnologia digital mexeu com os formatos de produção, consumo e comercialização, já sabemos disso, mas são poucos os que tem descoberto respostas razoáveis e práticas pra colocar seu trabalho na rua e manter algum tipo de relevância econômica e cultural. Dois bons exemplos do mainstream ocidental, que trago aqui, são o Louie CK e o Shane Smith.

O Louie CK, acredito que os meus leitores saibam, é o humorista americano que tem conseguido levar alguns aspectos alternativos da linguagem e da história do stand-up para o mainstream. Mais do que isso, nos últimos anos ele vem fazendo experiências comerciais com seu trabalho, vendendo downloads de audio e vídeo de seus shows direto no próprio site e bancando turnês próprias sem depender de redes de casas noturnas ou de venda de ingressos. Nessa entrevista, longa e muito bacana, a gente fica sabendo um pouco mais do que está por trás dessa atitude e tem algumas pistas sobre por que o esquema do Louie CK está funcionando. Basicamente, parece que é a combinação dele ter sido sempre um cara furungador (no início da carreira trabalhou como diretor técnico de uma TV a cabo) com uma ética artística bastante singular (quem editou a terceira temporada do seu seriado Louie foi Susan Morse, que trabalhou com Woody Allen e fez a edição de Warriors, Selvagens da Noite). De brinde, a entrevista ainda tem uma historinha sobre como ele pegou o papel no filme mais recente do Woody Allen.

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Já o Shane Smith é um dos fundadores da revista Vice, publicação originalmente canadense que começou surfando nas primeiras marolas do que viria a ser o tsunami de ironia hipster e hoje ambiciona “construir a próxima CNN”, segundo palavras do próprio em uma reveladora entrevista para o Guardian. Reveladora não porque ele ou a estratégia do conglomerado Vice (que inclui até uma agência de propaganda) seja misteriosa ou muito underground, mas porque, de novo, temos uma visão interessante sobre COMO alguém fez uma mudança de rumos acertada em um mercado que tropeça cegamente nas próprias pernas. Segundo Shane, “20 anos atrás nós éramos a bíblia hipster e toda essa bobagem, então nós nos tornamos online e nos reinventamos. (…) Nós deixamos nossos melhores editores irem embora e entregamos tudo pra garotos que recém tinham saído do colégio. Isso nos permitiu ser a plataforma da geração Y. Levou 10 anos pra vender um milhão de cópias da revista e demorou apenas um ano pra chegarmos a 10 milhões de usuários únicos do site por mês.” Claro que nem tudo são números na vida, mas a trajetória da Vice também tem algumas lições interessantes sobre o estabelecimento de novas maneiras como a mídia “semi-mainstream” está se organizando. Leitura, digamos, obrigatória.

As duas entrevistas são um pouco extensas, então salve os links e reserve um tempo pra ler que vale a pena.

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Foto do Louie Ck: David Shankbone.

Foto do Shame Smith: Bjarne Jonasson.

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R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

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Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

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O dna dos sites mais acessados do mundo

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Segundo o portal de medição Alexa, Google, Facebook e YouTube foram os 3 sites mais visitados do mundo no último mês. Por mais que essa informação tenha cara de óbvia e possa despertar bocejos, acho irresistível dar um passo adiante e perguntar: não é fascinante que os 3 sites mais visitados do mundo sejam também manifestações claras da cultura americana, do seu projeto de poder e do seu apelo sedutor sobre o planeta?

O Google é um ótimo exemplo. Ele é a versão digital do arquétipo do explorador americano. Como o caubói e o astronauta, seu campo de ação é um tipo de oeste selvagem ou de espaço sideral. O buraco negro dos links da internet é o horizonte infinito no qual ele mergulha em missão civilizatória munido de coragem, sagacidade e tecnologia. E, como bom herói, nunca volta de mãos abanando. Vem pra casa em segurança, trazendo algo que faça sentido da imensidão e nos contando da aventura perigosa com um sorrisinho no canto da boca e uma tirada bem humorada. Pensando bem, é impressionante que o Google não tenha sido fundado pelo Clint Eastwood.

O Facebook é a mesma coisa. A rede social mais famosa do sistema solar corporifica a obsessão americana por construir e investigar celebridades de forma sistemática e escalonável. Aplicando conceitos da física quântica ao universo das revistas de fofoca, o Facebook permite que a gente seja celebridade e paparazzi simultaneamente, inclusive que a gente se torne celebridade sendo auto-paparazzi ou se torne paparazzi porque nossas próprias fotos ficaram célebres. As combinações dessa equação são infinitas, enlouquecedoras e tão americanas quanto a ideia de que você pode – e deve – aquecer a economia de um país criando um estilo de vida baseado na vida de celebridades.

O YouTube segue um padrão parecido. A influência dele corresponde à influência do cinema dos Estados Unidos sobre a cultura mundial. Apesar de ter sido os franceses que criaram o cinema, foram os americanos que criaram uma cultura popular de cinema: a paixão pela imersão em uma tela, pela ação cadenciada, pela história contada em uma estrutura previsível de três atos, pela iconografia que transborda das telas para as lojas. Com o YouTube, aconteceu algo parecido, em direção contrária – foi a vida que passou a transbordar de volta para as telas. Mas a contaminação já havia acontecido, pois o incauto que empunha a câmera do celular há décadas já vem com horas de linguagem de cinema & TV embarcada na própria mente.

Se todos nós levamos para o resto da vida as impressões mais fortes da infância, não ia ser diferente com a internet. Ela nasceu americana e, mesmo que tenha já saído da casa dos pais há horas, carrega por aí os genes e os maneirismos que absorveu nos primeiros anos de vida. Claro que esperamos que ela se beneficie do que está aprendendo com seus giros pelo mundo, se torne realmente mais democrática culturalmente. Mas nunca se sabe. Há quem diga que, na medida em que envelhecemos, vamos ficando ainda mais parecido com nossos progenitores. Só falta mesmo é a gente, daqui uns anos, ter que conviver com uma internet americana velha, republicana, ranzinza e conservadora.

Tomara que a internet faça terapia.

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Imagem: San Jose Library

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Alfonso Cuarón, Neil Blomkamp e seus comerciais

Passeando por um artigo da Advertising Age sobre diretores de cinema e comerciais dirigidos por eles, encontrei essas pérolas de dois nomes que estão no cinema hoje revitalizando o sci-fi. Acima, comercial da rede de TV americana PBS pelo Alfonso Cuarón (Gravidade) em 2002. Abaixo, Nike por Neil Blomkamp (Elysium).

O artigo ainda traz exemplos do Spike Jonze, Wes Anderson e outros a serviço da publicidade.

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Sobre a infantilização da comunicação

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Algumas semanas atrás, Daniel Galera fez, em sua coluna semanal do Globo, uma oportuna crônica da relação do consumidor com os insistentes apelos da publicidade contemporânea. Ecoando um post de Eduardo Pinheiro no Portal Homem, Galera defendeu que as pessoas deveriam ter uma postura crítica mais ativa, no formato de um filtro intencional que despreze as mensagens que lhes chegam em tom infantilizador – aquelas que declaram um produto ser feito especialmente “para você” ou que evocam do imaginário conceitos de proteção e satisfação remetendo à nossa infância. Neste último caso, trouxe como exemplo alguns comerciais de produtos financeiros que travestem os bancos com o arquétipo do avô protetor e compreensivo.

Inteligentemente, o escritor admite que nem toda publicidade é indesejada ou inútil e nem tira totalmente dos consumidores a responsabilidade do seu engajamento. Embora seja impossível negar o poder atômico dos grandes anunciantes de marcar território na nossa vida, é menos infantilizador também considerar que há uma parcela de participação do receptor no consumo de mensagens publicitárias, seja como informação, distração ou, propriedade presente em diversos outros produtos da indústria cultural, anestesia.

Mas o ponto que eu acho importante expandir a partir da coluna de Galera é o quanto essa infantilzação da linguagem se tornou um traço da cultura atual graças à forte presença da tecnologia no nosso cotidiano. A digitalização das atividades mais prosaicas e diversas, de ouvir rádio e falar com a namorada a votar e declarar o imposto de renda, transformou o passar do tempo em um processo que necessita atualização constante – porque a tecnologia permite e exige isso. A cada cinco anos, mais ou menos, atos simples como telefonar, trocar mensagens e ir ao banco pode mudar de forma radical, o que nos coloca num estado de ignorância permanente e, muito embora haja certas habilidades cumulativas, demanda um esforço de comunicação tão intenso quanto didático por parte de empresas, governos e veículos de comunicação para passar adiante certas instruções e conteúdos. O símbolo mais claro disso é a campanha de lançamento do iPhone, de 2007, praticamente um manual para crianças, com instruções claras, musiquinha de ninar e imagens à prova de ambiguidade:

É fácil entender por que a Apple e sua agência, a TBWA Chiat/Day, escolheram esse caminho. Na comunicação de uma categoria realmente nova de produto de massa, durante um período histórico de tamanha poluição informacional, evitar a ambiguidade e acertar o timing são fatores fundamentais. Quanto mais rápido se comunica a essência funcional do produto e quanto menos atrito oferece a comunicação, maior a eficiência da mensagem. Nesse caso bastante específico, cabe ao produto ser criativo e rocambolesco, e não ao comercial. Comerciais de raciocínio exuberante ou sofisticado se mostram bem mais úteis para produtos comoditizados que precisam de alguma piruetas para disfarçar o fato de que não são muito mais do que aquilo que efetivamente são.

O universo digital é pródigo nesses exemplos de tutorialismo infantil, algumas vezes por necessidade de explicar uma real novidade, como no caso do iPhone, outras porque essa acabou sendo um pouco a linguagem da cultura jovem ocidental do momento. Quase todos os novos aplicativos e sites vem acompanhados de vídeos que não fariam feio na programação de canais infantis:

Há exceções que confirmam a regra: os comerciais do Motorola Lazy Phone (cuja lógica demente já comentei aqui) abusam de uma ironia aparentada de uma linhagem bastante especial de comédia, mas isso é só pra disfarçar o quão sutil é o diferencial do produto. Embora extremamente inteligente do ponto de vista do marketing, não deixa de ser uma cortina de fumaça com ares infantis, essa de ressaltar alguma fragilidade segmentadíssima de seu concorrente chamando-o de cara de pastel.

Outro caso interessante são as ofertas de serviços financeiros em um cenário econômico novo no Brasil. Aqui, nem sempre existe uma inovação surpreendente por trás de uma comunicação didática e sim uma novidade complexa para um setor particular, que necessita ser explicada sem grandes revoluções criativas. O resultado, não deixa de ser um pouco infantilizador.

Meu palpite quanto a isso tudo é que, embora sempre tenha tido um pé na infantilização do consumidor, a publicidade está apostando ainda mais nesse vetor por ser cada vez mais influenciada pela interface dos aparelhos digitais. O diálogo entre você e um site ou aplicativo é – deve ser – didático, infantil e sem o menor traço de ironia. Deseja salvar? Deseja mesmo salvar? Ligando dispositivo. Desligando dispositivo. Você está deletando todas suas fotos. Deseja mesmo fazer isso? Você quis dizer… As interfaces nos guiam o tempo inteiro, desconfiam de nossas decisões e nos corrigem sem cerimônia. Elas nos tratam como as crianças que somos diante de gadgets que atualizam sistemas semanalmente à nossa revelia e que estão entre nós há muito pouco tempo. Ser paternal é o papel de uma interface. E a publicidade é uma espécie de interface da indústria e do mercado de serviços com o público.

Exemplos como o do “banco vovô”, levantados por Galera, mostram que a comunicação publicitária está bebendo dessa fonte. Talvez intencionalmente, por apostar em soluções simplistas e familiares diante de um mercado cada vez mais complexo, talvez por osmose, na convivência cada vez mais estreita entre profissionais de publicidade e o mundo da tecnologia. O quanto isso é bom para a sociedade é algo a se discutir. Por um lado, a publicidade mais simplista e ingênua tende a emburrecer a cultura popular. Por outro, a publicidade sofisticada, criativa e interessante pode obscurecer com pendores artísticos as intenções de indústrias e produtos danosos.

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Outra pista a se explorar vem do livro Cute, Quaint, Hungry and Romantic, no qual o ensaísta americano Daniel Harris investiga o apelo das diferentes estéticas do consumo ao nosso inconsciente. No capítulo dedicado ao Cute, ou “Fofinho”, Harris revela que o magnetismo por trás de bonecas fofinhas, em 100% dos casos com feições e proporções distorcidas, um “desastre anatômico”, está no poder que elas conferem a seus donos: “A fofurice (…) é intimamente ligada ao grotesco e à malformação. (…) Algo se torna fofo não necessariamente por conta de uma qualidade que possui, mas pelas qualidades que lhe faltam, uma certa necessidade e inabilidade de se manter por si, como se fosse um indigente faminto, solitário e rejeitado devido a uma hediondez que consideramos mais tocante do que desagradável ao olhar.” Ele ainda diz que “o grotesco é fofo porque dá pena e a pena é a emoção primária dessa estética sedutora e manipuladora que evoca nossa empatia criando párias anatômicos. (…) Coisas adoráveis são frequentemente adoráveis em meio a tombos e desconcertos: Winnie The Pooh com seu focinho preso na colmeia; os 101 Dálmatas tropeçando e escorregando de pernas abertas no gelo (…).” Poderíamos acrescentar, mais recentemente: Buzz Lightyear e sua ingenuidade a respeito de ser um boneco; Gru, de Meu Malvado Favorito, tentando desgraçadamente ser mau; Bolt, o cachorro-ator que passa a maior parte de uma aventura real achando que está dentro de um filme.

Muitas marcas, hoje, se comunicam com uma certa simpatia desajeitada, como no exemplo do tweet da Kaiser que Galera citou. Uma vez que a maior parte da publicidade é consumida de maneira colateral e desatenta, é preciso de fato um filtro ativo para identificar os pequenos absurdos, que abundam. De outra forma, a reação que despertam é algo parecido com ver os dálmatas escorregando no gelo, uma piedade simpática – e, no fundo, o pequeno desastre acaba funcionando como sedução, mesmo que de um jeito meio torto. Certamente os comerciais do refrigerante Dolly prosperam em um esquema semelhante.

Bem e qual é a saída diante disso tudo? Esta foi bem sinalizada por Galera e Pinheiro e só me cabe ressaltar: um consumidor bem informado por motivação própria e a capacidade de pensadores culturais de olharem para o tema criticamente (ao mesmo tempo em que dialogam com esses consumidores) são dois elementos que formariam uma combinação interessante. A publicidade ainda é um assunto considerado de segunda categoria por muitos intelectuais, que preferem empunhar uma metralhadora contra ela em vez de um microscópio. Seria mais útil a todo mundo que certas campanhas publicitárias fosse meticulosamente desmontadas e expostas em praça pública em vez de metralhadas indistintamente, pois no segundo caso, além do espetáculo ser forte demais para o estômago, geralmente não sobra muito para se examinar.

Que eu me lembre de cabeça, não há no Brasil uma tradição de crítica pop à publicidade (e mesmo no fora do país há poucos exemplos, como o escritor americano Douglas Rushkoff, a revista canadense Adbusters e eventualmente algum ensaio em periódicos culturais). Por isso, é bom que gente como Galera e a Pinheiro levantem essa lebre enquanto não vemos perspectiva de ensinarem algum tipo de teoria da comunicação de tradição crítica em escolas de Ensino Médio. Na medida das minhas possibilidades, pretendo ampliar a conversa por aqui.

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A esse respeito, como um todo, também vale ler a coluna “Para (ou contra) o Dia das Crianças” de Contardo Calligaris. Há alguns anos ele vem “denunciando” a mitificação excessiva da criança, o que deve estar relacionado a esse processo de infantilização da comunicação na era digital.

Imagem de Abertura: Kulimpapat.
Licenciada via Creative Commons.

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2 anos olhando a própria mente

O praticante de meditação Henrique Lemes ficou em retiro entre 2010 e 2012 em um centro budista em Pernambuco. Nesse valioso vídeo de 30 minutos, editado pelo pessoal do Olugar, ele revela como foi a experiência de conviver (e conhecer) intensamente a própria mente e o que isso implica.

Além de satisfazer a curiosidade sobre questões práticas, ele brinca com a ideia de que, saindo do retiro, teria direito a um posto mais alto no “funcionalismo budista”; conta como é ficar em retiro com a companheira/esposa/namorada; e oferece uma outra perspectiva sobre as motivações de muitos movimentos sociais.

Vale o play – mas não esqueça de, antes, fechar todas as outras abas do browser.

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O lado mágico de crescer

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Esse final de semana terminei de ler o volume encadernado dos quatro números que deram origem ao universo Livros da Magia, criado por Neil Gaiman. Aos não-iniciados, um rápido resumo: é uma mini-série que trata da introdução de um garoto de 12 anos, Timothy Hunter, ao vasto mundo da magia através de uma tour guiada por quatro outros personagens de quadrinhos ligados ao misticismo. Aos quatro, que compõem um grupo, cabe não apenas a missão de informar Tim de que ele é algo como um predestinado à magia, como também descortinar as maravilhas e os perigos mortais que o espreitam ao escolher viver como um mago contemporâneo. A mini-série termina sem Tim decidir. Os episódios se fecham, mas não a história. Gaiman é um escritor notório e devidamente reconhecido por sua habilidade na criação de universos ricos, de uma generosidade narrativa sem tamanho. Qualquer um que pegue a trama a partir do final da mini-série tem caminhos de sobra para explorar por toda uma vida.

Livros da Magia, na verdade, é uma história  sobre  ritos de  passagem e sua riqueza está também na forma como inverte a lógica popular que acompanha esse conceito. Em geral, diz-se que a saída da infância e a entrada na vida adulta é um período de desencantamento, de fixar os pés no chão, de abraçar o que é concreto e sólido, de deixar de besteira. Em Livros da Magia, o recado subjacente é virado do avesso. A suposta inocência infantil de Tim é convidada a se retirar não para dar lugar a um mundo compreensível e dominável, muito antes pelo contrário: o crescer é apresentado como uma miríade de reinos que beiram o insano. Entendo que não há nada  de fantasioso nessa  proposição. Pelo que tem me constado, crescer é bem mais parecido com isso do que com a ideia de  desencantamento. Crescer é mágico – não no sentido de um deslumbramento colorido, de fadas madrinhas, poções mágicas e varinhas de condão, mas no sentido de que você se mete em situações mais bizarras do que poderia imaginar quando mais jovem, lida com demônios  assustadores (os seus próprios), se mete em lugares mal assombrados, dá de cara  com ogros por aí – aliás, frequentemente se torna um.

Há seis anos sou padrasto e ano passado me tornei pai. Essas também são experiências mágicas e de uma forma que contraria o clichê que a cultura popular vende de magia. A rotina com um bebê, por exemplo, não é mágica por ser cheia de momentos coloridos e inebriantes e sim porque mexe com energias intensas: quase todos os dias parece  que passou um poltergeist pela casa, volta e meia você se vê coberto por substâncias esquisitas (mais ou menos como retratado em Caça-Fantasmas), objetos somem e se  quebram  sem explicação, pra não falar de todos os deuses e religiões que você invoca quando não quer que a criança acorde. Também é mágico ser praticamente obrigado a desconstruir verdades que você construiu tão dedicadamente, e fazer isso mês após mês, sentindo-se nauseado e meio pirado com a sucessão caleidoscópica de pequenos universos que vão se abrindo – alguns curiosos e cativantes, outros francamente desesperadores.

Enfim, eu sempre penso como é que meus pais criaram três filhos em uma época e em condições bem mais adversas, ou então nos milhões de famílias brasileiras que dão um jeito, a duras penas, de alimentar, educar e cuidar dos seus. Aí, só posso concluir: pra realizar a tarefa mais comum e ordinária nessa terra, que é simplesmente tocar o barco da vida em família, o cara tem realmente que ser mágico.

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Por que dar atenção à não-violência

Bem bacana o ponto da documentarista brasileira Julia Bacha: é preciso dar mais divulgação aos líderes e às ações de não-violência como vetores eficientes de mudança. Em geral, há uma cultura da guerra no ar que continuamente vende a idea de que situações extremas se resolvem na porrada. Será que sempre precisa ser assim? Essa é uma pergunta que se costuma responder em poucos segundos, sem um tempo de investigação, tanto em âmbito institucional quanto em âmbito pessoal.

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Frances Ha contra a obsessão contemporânea por dar certo

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Garota de vinte e poucos anos, recém formada em dança, dividindo apartamento com a melhor amiga, tenta se firmar como dançarina profissional em Nova Iorque enquanto vive tremendas confusões financeiras e amorosas. Nas mãos de outra pessoa, essa poderia ser a sinopse de uma comédia romântica de quinta categoria, pronta para ser dublada e passar na Tela Quente. Mas, como estamos falando do diretor e roteirista Noah Baumbach, Frances Ha é simplesmente… outra coisa. Não se deixe enganar pelo trailer sacana: Frances Ha é outra coisa!

Não que seja um filme difícil ou 100% experimental. A história é pop, a fotografia P&B é linda e os códigos culturais são totalmente alinhados com os de uma certa parcela da juventude global/americana (lembra pouco o seriado Girls e a edição de alguns episódios da terceira temporada de Louie). Ainda assim, como dois dos filmes anteriores de Baumbach (Margot e o Casamento e Greenberg) Frances Ha tem algo de profundamente incômodo, de impertinente, quando poderia ser bem mais amigável. E esse algo, nesse filme, está claramente localizado em pelo menos dois elementos: uma edição menos convencional, mais fragmentada, e, o mais bacana, uma personagem principal que vai contra todos os discursos prontos e clichês da cultura ocidental branca de classe média do momento.

Como bem escreveu Martha Medeiros em sua coluna de Zero Hora algumas semanas atrás, Frances Ha é uma homenagem aos errantes numa época marcada pela busca obsessiva pelo sucesso – não o sucesso yuppie dos anos 80, mas sua versão modernizada ao longo dos anos 00, que diz respeito a “aproveitar a vida ao máximo”, “trabalhar com o que se ama”, “curtir cada momento como se fosse único”, “ligar-se em rede para mudar o mundo”, enfim, todos esses clichês que saltaram dos livros de auto-ajuda para os comerciais de banco e o universo das palestras de inovação.

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Ou seja, Frances, que nos deixa nervosos na plateia enquanto apronta das suas na tela, não teria a menor condição de protagonizar um comercial de final de ano do Itaú e nunca seria convidada a subir no palco de um TED pra contar sua história. Esse sim é um feito respeitável hoje em dia. Eu iria mais longe e diria que talvez ela pudesse fazer pela década atual o que Jeffrey Lebowski fez pelo fim dos anos 90, que é condensar em um personagem icônico todas as contra-aspirações de uma geração. Mas é bem possível ela se atrapalhe e acabe não conseguindo.

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Ah: não deixe de ler a bastante completa matéria da New Yorker sobre Noah Baumbach e sua parceira de vida e de roteiro, Greta Gerwig (que faz a Frances). Tem um bom apanhado da carreira de Baumbach e comentários sobre ele de gente como Bem Stiller, Peter Bogdanovich e seus pais – retratados parcialmente em A Lula e a Baleia.

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Phonebloks: em poucos dias desmontado pela Fast Company

Phonebloks

Semana passada, um dos conteúdos que mais circulou na internet (ao menos nas redes em que participo) foi vídeo do designer holandês Dave Hakkens apresentando sua ideia para um celular comprável e montável em módulos, como um Lego – o Phonebloks. O objetivo do celular nesse formato seria reduzir o desperdício de componentes eletrônicos contrapondo a mentalidade dos aparelhos digitais como objetos praticamente descartáveis. Muita gente aplaudiu, muita gente compartilhou. Não demorou muito tempo para a revista Fast Company estragar a festinha. Em um artigo publicado na sexta, o jornalista John Brown Lee passou ponto por ponto por que o Phonebloks não é viável para o que se propõe: basicamente porque aparelhos em módulos podem se quebrar mais facilmente (gerando mais lixo eletrônico) e porque a comunicação entre os módulos exige componentes mais caros (dificultando a popularidade). Ou seja, como diz Lee no final do artigo, o Phonebloks é mais uma meta que precisa ser duramente perseguida do que uma previsão do futuro da mobilidade. (A Tested disse  mais ou menos as mesmas coisas, mas de modo  mais gentil.)

Embora eu tenha achado muito bem-vinda a análise pé no chão da Fast Company, especialmente para contrapor o compartilhamento automático de muitas pessoas nas redes sociais, também pensei que é com essa acidez que são sepultadas as ideias alternativas. O vídeo de Hakken deixa bem claro que, sim, o Phoneblok é mais uma meta do que uma previsão e claramente pede às pessoas que divulguem o vídeo como uma forma de influenciar a indústria a tomar uma direção diferente da atual. Ideias desse tipo, mesmo que inviáveis, apontam caminhos e promovem vontades adormecidas. Desse ponto de vista, o olhar cético da Fast Company fica melhor como um componente extra do Phoneblok do que como o seu algoz.

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198 formas não-violentas de fazer uma revolução

2013-09-12 20.57.23

Assisti ontem “Como Começar uma Revolução”, documentário inglês sobre o trabalho do especialista em ação não-violenta Gene Sharp. Americano e militante pacifista, ele se recusou a participar da Guerra da Coréia nos anos 50, foi preso por isso e a partir daí dedicou a vida a pesquisar formas de derrubar governos sem a necessidade do uso de violência. Em 1993, ele publicou “Da Ditadura à Democracia – Uma Estrutura Conceitual para a Liberação”, que compila métodos pacíficos de resistência e ação para grupos oprimidos. O livro já foi traduzido para mais de 40 línguas e é considerado uma peça intelectual importante em diversas insurgências ao redor do mundo.

O filme está disponível gratuitamente no NOW (vá na sessão NOW TV e procure pelos documentários do GNT). Alguma boa alma também gravou da NET essa versão com legendas em português e botou inteiro no YouTube:

Embora eu não conheça profundamente o trabalho de Sharp, achei extremamente inspiradora a disposição dele não apenas de estudar e disseminar essas técnicas, mas principalmente de ORGANIZÁ-LAS. Opressão, em toda e qualquer escala, de relações institucionais até pessoais, é uma situação que nos deixa frequentemente paralisados. Oferecer um caminho estruturado com tantas opções de linhas de ação quando se sente que não se pode fazer nada – e que a violência é a única saída – é realmente uma contribuição inestimável. Mais interessante ainda, Sharp não defende que os atos revolucionários pacíficos sejam uma simples alternativa à luta armada, mas sim a alternativa mais eficiente.

Alguém que postula isso nesse momento tenso em que estamos vivendo no mínimo merece uma hora da sua atenção, né? O Brasil  não está em  situação tão limítrofe quanto está a Síria ou quanto estavam o Egito e a  Tunísia  recentemente, mas ainda assim a compilação e a reflexão de Sharp se mantém válidas especialmente para ampliar o acesso à ideia de que existem alternativas  para ações violentas. Pelo que acompanho nas redes sociais, muita gente ainda acha que a melhor maneira de lidar com os  políticos  corruptos ou com a polícia violenta ou com os black blocs ou com os  comunistas  ou com os baderneiros ou com os  reacionários é  descer o cacete. Poucas  dessas pessoas efetivamente bateriam ou machucariam alguém, mas uma  quantidade  ainda assustadora  dissemina na internet  (e em papos de boteco) a ideia da violência como solução  plausível e eficiente.

 

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Algumas notas complementares:

* O pessoal do Hypeness recentemente escreveu um post falando um pouco mais sobre Sharp e o documentário. Dê um pulo aqui pra ler.
* O post inclusive indicam um link pra fazer download do livro dele em português gratuitamente.
* Eu já tinha lido por aí sobre Sharp, mas foi “Como Mudar o Mundo” do John Paul Flintoff que me fez ir atrás de mais material. Esse livreto faz parte de uma série da School of Life e saiu em português no Brasil pela Objetiva, que colocou um bom trecho pra baixar em PDF. Basta clicar aqui com o botão direito e baixar.

***

Curioso pra saber quais são os 198 métodos? Peguei a lista no MerdTV.

OS MÉTODOS DE PROTESTO NÃO VIOLENTOS E PERSUASÃO

Declarações formais

1. Discursos públicos
2. Cartas de oposição ou de apoio
3. Declarações de organizações e instituições
4. Declarações públicas assinadas
5. Declarações da acusação e de intenção
6. Comunicações de petições em Grupo ou em massa

Comunicação com uma audiência mais ampla

7. Slogans, caricaturas e símbolos
8. Banners, cartazes e comunicações exibidas
9. Folhetos, panfletos e livros
10. Jornais e revistas
11. Discos, rádio e televisão
12. Escritas com fumaça no céu ou na terra

Representações em grupo

13. Delegações
14. Prêmios satíricos
15. Grupos de lobby
16. Piquetes
17. Simulacros de eleições

Atos públicos simbólicos

18. Exibição de bandeiras e cores simbólicas
19. Uso de símbolos
20. Oração e culto
21. Entrega de objetos simbólicos
22. Nudez em protesto
23. Destruição de propriedade própria
24. Luzes simbólicas
25. Mostra de retratos
26. Pintura como forma de protesto
27. Novos sinais e nomes
28. Sons simbólicos
29. Reclamações simbólicas
30. Gestos rudes

Pressões sobre os indivíduos

31. “Atormentar” funcionários
32. “Insultar” funcionários
33. confraternização
34. Vigílias

Teatro e música

35. Sketches cômicos e brincadeiras
36. Desempenho de jogos e música
37. Canto

Procissões

38. Marchas
39. Desfiles
40. Procissões religiosas
41. Peregrinações
42. Cortejos

Homenagem aos mortos

43. Luto Político
44. Simulacros de funerais
45. Funerais demonstrativos
46. Peregrinação a locais de sepultamento

Assembleias públicas

47. Assembleias de protesto ou de apoio
48. Reuniões de protesto
49. Reuniões camufladas de protesto
50. Invasões de aulas

Retirada e renúncia

51. Abandono de recinto
52. Silêncio
53. Renúncias a homenagens 55
54. Virar as costas

MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO SOCIAL

Ostracismo de pessoas

55. boicote Social
56. Boicote social seletivo
57. greve de sexo
58. Excomunhão
59. Interdições

Não cooperação com os eventos sociais, costumes e instituições

60. Suspensão de atividades sociais e esportivas
61. Boicote a assuntos sociais
62. Greve estudantil
63. Desobediência Social
64. Retirada de instituições sociais

Retirada do sistema social

65. Permanência em casa
66. Não-cooperação pessoal total
67. Fuga de trabalhadores
68. Santuário
69. Desaparecimento coletivo
70. Emigração em protesto (hegira)

OS MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO ECONÔMICA:

(1) BOICOTES ECONÔMICOS

Ação por parte de consumidores

71. boicote de consumidores
72. Não-consumo de mercadorias boicotadas
73. Política de austeridade
74. Retenção de aluguel
75. Recusa de alugar
76. boicote nacional de consumidores
77. Boicote internacional de consumidores

Ação por parte dos trabalhadores e produtores

78. Boicote de Trabalhadores
79. Boicote de produtores 56

Ações por intermediários

80. Boicote de Fornecedores e manipuladores

Ação de proprietários e gerentes

81. Boicote de negociadores
82. Recusa a alugar ou vender imóveis
83. Locaute
84. Recusa de assistência industrial
85. “Greve geral” de comerciantes

Ação por parte dos titulares de recursos financeiros

86. Retirada de depósitos bancários
87. Recusa de pagamento de taxas, encargos e multas
88. Recusa de pagamento de dívidas ou de juros
89. Corte de fundos e de crédito
90. Recusa da receita
91. Recusa de dinheiro de um governo

Ação de governos

92. Embargo Doméstico
93. “Lista negra” de comerciantes
94. Embargo de vendedores internacionais
95. Embargo de compradores internacionais
96. Embargo de comércio internacional

OS MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO ECONÔMICA:

(2) GREVE

Greves simbólicas

97. greve de protesto
98. Paralização rápida (greve relâmpago)

Greves agrícolas

99. Greve de camponeses
100. Greve de trabalhadores agrícolas

Greves de grupos especiais

101. Recusa de trabalho impresso
102. Greve de prisioneiros
103. Greve de Artesãos
104. Greve Profissional

Greves industriais comuns

105. Greve de Estabelecimento
106. Greve de Indústria
107. Greve de Simpatia

Greves restritas

108. Greve detalhada
109. Greve de recusa
110. Operação tartaruga
111. Operação padrão
112. Informe de “doença”
113. Greve por demissão
114. Greve limitada
115. Greve seletiva

Greves multi-industriais

116. Greve generalizada
117. Greve geral

Combinações de greves e fechamentos econômicos

118. Hartal (fechamento geral)
119. Desligamento Econômico

MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO POLÍTICA

Rejeição da autoridade

120. Retirada ou contingenciamento de fidelidade
121. Recusa de apoio público
122. Literatura e discursos defendendo a resistência

Não-cooperação dos cidadãos com o governo

123. Boicote de corpos legislativos
124. Boicote às eleições
125. Boicote de emprego e cargos no governo
126. Boicote aos departamentos governamentais, agências e outros órgãos
127. Retirada de instituições de ensino governamentais
128. Boicote de organizações apoiadas pelo governo
129. Recusa de assistência aos agentes da lei
130. Remoção de sinais próprios e marcadores
131. Recusa em aceitar funcionários nomeados 58
132. Recusa a dissolver as instituições existentes

Alternativas dos cidadãos à obediência

133. Respeito relutante e lento
134. Não-obediência na ausência de supervisão direta
135. Não-obediência Popular
136. Desobediência disfarçada
137. Recusa de uma assembleia ou reunião dispersar-se
138. Ocupação sentada
139. Não-cooperação com o serviço militar obrigatório e deportação
140. Ocultação, fuga e identidades falsas
141. Desobediência civil a leis “ilegítimas”

Ação de funcionários do governo

142. Recusa seletiva de assistência por assessores do governo
143. Bloqueio de linhas de comando e informações
144. Retardamento e obstrução
145. não-cooperação administrativa geral
146. Não-cooperação judiciária
147. Ineficiência deliberada e não-cooperação seletiva de agentes da lei
148. Motim

Ação governamental doméstica

149. Evasões semilegais e atrasos
150. Não-cooperação por unidades governamentais

Ação governamental internacional

151. Mudanças na representação diplomática e outras representações
152. Atraso e cancelamento de eventos diplomáticos
153. Retenção do reconhecimento diplomático
154. Rompimento das relações diplomáticas
155. Retirada de organizações internacionais
156. Recusa de participação em organismos internacionais
157. Expulsão de organizações internacionais

OS MÉTODOS DE INTERVENÇAO NÃO VIOLENTA

Intervenção psicológica

158. Auto exposição aos elementos
159. Jejum:
(a) Jejum de pressão moral
(b) Greve de fome
(c) Jejum Satyagrahica
160. Julgamento reverso
161. Assédio não violento

Intervenção física

162. Ocupação sentada
163. Ocupação de pé
164. Ocupação de meios de transporte
165. Ocupação de rios
166. Ocupação de usinas
167. Ocupação rezando
168. Ataques Não violentos
169. Bombardeios aéreos não violentos
170. Invasão não violenta
171. interjeição não violenta
172. Obstrução não violenta
173. Ocupação não violenta

Intervenção social

174. Estabelecimento de novos padrões sociais
175. Sobrecarga de instalações
176. Interferência retardatoria
177. Intervenção com discursos
178. Teatro de guerrilha
179. Instituições sociais alternativas
180. Sistema alternativo de comunicação

Intervenção econômica

181. Greve reversa
182. Greve com permanência
183. Ocupação de terra não violenta
184. Desafio a bloqueios
185. Falsificação politicamente motivada
186. Compra preventiva
187. Apreensão de bens
188. Dumping
189. Patrocínio Seletivo 60
190. Mercados alternativos
191. Sistemas de transporte alternativo
192. Instituições econômicas alternativas

Intervenção Política

193. Sobrecarga dos sistemas administrativos
194. Revelação da identidades de agentes secretos
195. Busca de prisão
196. Desobediência civil de leis “neutras”
197. Trabalho sem colaboração
198. Dupla soberania e governo paralelo

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A lógica demente dos comerciais Lazy Phone

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A publicidade continua sendo uma das melhores fontes para entender o comportamento do nosso tempo. Os comerciais do Moto X, o celular da Motorola-Google, lançados essa semana, são ao mesmo tempo um bom indicativo de para onde vai andar o mundo dos smartphones (mesmo que seja por profecia auto-realizável…) e um gancho para ver a que ponto chega o descolamento entre a proposta concreta do produto e o jeito como ele é conceituado para vender. Se você não viu, veja os comerciais aí embaixo que a gente segue conversando.

Não sei se você percebeu, mas tem dois pontos interessantes nesses 3 comerciais:

1) A Motorola-Google acusa o iPhone de ser preguiçoso quando na verdade o preguiçoso é o usuário, que precisa cada vez mais de um aparelho que faça tudo por ele – procurar música, automatizar o modo vibratório, encontrar a câmera para fotografar. Essa é a lógica demente.

2) Isso se deve a uma questão muito simples: o smartphone virou um dispositivo lotado de aplicativos e funcionalidades. O Moto X está se vangloriando de resolver um problema criado pela própria cultura dos smartphones, que foi em grande parte turbinada pelo sucesso do Android. É a versão mobile da teoria do bode: os moradores de uma caverna nojenta reclamam do estado da caverna, o dono coloca um bode fedorento que deixa o lugar ainda pior, depois retira o bode e todo mundo fica feliz. Com a escalada da tecnologia é a mesma coisa. Frequentemente, aparelhos vendidos como milagrosos resolvem problemas “criados” pela geração anterior.

3) Vale perceber também como a cultura slacker está em baixa: o personagem Lazy Phone é um simulacro de Lebowski, uma coisa meio Zach Galifianakis em Se Beber Não Case, um Wilfred. No fundo, é um fanfarrão vestido confortavelmente que fica sofrendo bullying de usuários preocupados com eficiência no cotidiano. Isso não tá certo. Ele é bem mais interessante e divertido do que os chatos usuários do Moto X retratados nos comerciais.

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As belas capas vintage da L&PM para Ginsberg

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Estou lendo A Blue Hand, relato de Deborah Baker sobre a jornada de Allen Ginsberg e seus colegas beats pela India em 61. Inspirado pelo livro, resolvi dar uma folheada nos livros do Ginsberg que tenho aqui em casa e me lembrei como são bacanas essas capas das primeiras edições publicadas pela L&PM (a despeito das péssimas fotos do iPad). A capa de Uivo, acima, é creditada à “L&PM sobre ilustração de Gerson Scherer”.

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Já “A Queda da América” é creditada inteiramente ao Caulos (que me lembro de ter feito muitas capas de livros do Luis Fernando Verissimo nos anos 80). O interessante é que não apenas as capas são legais, mas também as contracapas são de uma elegância particular..

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Outro que tinha uma capa massa, mas perdi o livro e não achei uma imagem boa na internet é o Cartas do Yage:

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É, eu sei que ficou ridículo desse tamanho, mas foi o que deu pra encontrar.

***

Todos os posts sobre Allen Ginsberg.

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Outro ponto de vista sobre a tese do Kevin Spacey

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Para quem não tem acompanhado, um resumo: semana passada, o Kevin Spacey fez um discurso bastante provocativo no Festival Internacional de Televisão de Edimburgo dizendo que o modelo criativo e de negócios de House of Cards seria um norte para a indústria audiovisual, supostamente perdida no que diz respeito a entender os novos hábitos de consumo dos espectadores. A fala de Spacey foi amplamente compartilhada e elogiada, se tornando o que o colunista da Advertising Age Rob Norman chamou de “o Gagnam Style da comunidade de mídia”.

Apesar de ler, compartilhar e me entusiasmar com a linha de raciocínio do ator americano, achei interessante também a argumentação contrária de Norman. A coluna de ontem dele na Advertising Age sublinha que, embora House of Cards seja um inegável sucesso, talvez seu modelo não funcione para uma indústria complexa que precisa de um alto volume de produção e que atenda amplo espectro de tipos de audiências e anunciantes. Vale ler.

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O novo Instapaper

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Se eu fosse levar um site pra uma ilha deserta, sem dúvida nenhuma seria o Instapaper. Há anos sou fã incondicional e agradeço periodicamente pela criação de Marco Arment por me ajudar a organizar tudo que recebo ou que colho por aí para ler na internet. De primeira, parece que o principal atrativo do Instapaper é armazenar e organizar links para ler mais tarde. Mas, ao menos para mim, o grande efeito dele é funcionar como um filtro de inutilidades: guardando as coisas para olhar mais tarde, posso escolher um momento de leitura onde faço uma seleção mais criteriosa do que realmente vale a pena ler. Não foram poucas vezes que eu abri um link guardado horas ou dias antes e logo apaguei, pensando “ainda bem que não perdi meu tempo lendo isso no calor do momento”.

Mas, bem, o fato é que o Instapaper foi vendido no início do ano (entrevista bem instrutiva com Arment sobre o assunto aqui nesse podcast, dica do Eduf) e, mesmo com as promessas do ex-dono, sempre há um medo que a ideia original (baseada em simplicidade) seja desfigurada. Semana passada, os novos donos lançaram o novo layout da versão web do Instapaper, inspirada, veja você, no própiro app mobile. Eles explicam tudo aqui. Longa vida ao Instapaper e a qualquer ideia que coloque um freio na velocidade acelerada da internet.

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Diários de Bicicleta: pedalando em Montreal

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Este é um post atrasadíssimo: eu e minha mulher estivemos em Montreal em 2010 e, como não sou blogueiro de viagem, sempre empurrei com a barriga um possível texto sobre a cidade (que adorei). Mas agora, como entrei numas de escrever sobre minhas voltas de bicicleta, me lembrei que poderia começar por uma das melhores experiências que tivemos lá – andar nas bicicletas públicas do sistema Bixi.

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Montreal tem hoje cerca de 600 Km entre ciclovias e ciclofaixas em toda a região metropolitana, o que faz da cidade um dos destinos mais procurados por quem gosta de cicloturismo. Não era o nosso caso, não somos cicloturistas, mas o sistemas de vias/faixas, o aluguel de bicicleta na rua e o trânsito relativamente tranquilo da cidade (comparado com a nossa realidade em Porto Alegre) são fatores que acaba formando um conjunto extremamente convidativo para ciclistas casuais. O que leva ao primeiro ponto desse post: uma cultura de transporte urbano alternativo pode ter sua base de início nos grupos ativistas, nos hard-users, mas é quando a cidade oferece um contexto que transcende o nicho que pessoas não totalmente envolvidas na alternativa se sentem confortáveis em entrar para o time.

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Usamos a Bixi em três oportunidades, duas delas para fazer longas tours e chegar a bairros mais distantes do nosso hotel, sem pressa, e uma noite para ir a um show. Em todas as vezes, não tivemos problema algum para pegar e devolver as bicicletas nas estações e muito menos no trânsito. A pedalada mais bacana que fizemos é uma bastante recomendada: descemos da estação Bixi do parque Mont Royal até o centro histórico da cidade, depois rumamos de táxi até o lindo Atwater Market, onde pegamos novamente as bicicletas e voltamos ao centro margeando o Lachine Canal numa ciclovia que passa por bairros residenciais e armazéns abandonados até chegar novamente na área central.

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De qualquer maneira, reforçando o que falei ali em cima, o que me marcou nas pedaladas em Montreal não foram condições técnicas específicas, que são melhores que aqui mas não isentas de problemas, e sim a impressão de que se está numa metrópole com um astral que dá suporte à cultura da bicicleta. Se eu fosse resumir Montreal numa palavra, seria RIPONGA e não tenha dúvidas de que passear de bicicleta numa metrópole RIPONGA é bem mais amigável do que numa metrópole YUPPIE. Eu sei que muita gente que confunde riponguice com provincianismo e atraso, mas neste caso é o contrário. Até onde sei, a famosa “escala humana”, que vem a ser planejar a cidade levando-se em consideração a circulação a pé ou de bicicleta, tem sido a tônica do que se considera um planejamento urbano mais avançado. Cidades como Montreal mostram que andando a pé ou de bicicleta se vai mais lento – mas também se vai mais longe.

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Todos os posts da série Diários de Bicicleta aqui.

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Sobre John Maeda em Porto Alegre

2012-02-08-JohnMaeda

Estive ontem na palestra do designer, artista e cientista americano John Maeda aqui na cidade. Também Presidente da Rhode Island School of Design (popularmente conhecida como “o lugar onde os Talking Heads se conheceram”), ele veio falar nas comemorações de 40 anos da agência de publicidade Escala, que resgatou uma tradição sua bacana de trazer nomes relevantes para despejar bom conteúdo no mercado local. Durante os anos em que trabalhei na Escala, entre 2003 e 2010, assisti a apresentações ou participei de workshops de gente como Gilles Lipovetski, Carl Rhodes, Charles Watson, Jailton Moreira, Ronaldo Fraga, Heitor Dhalia, Arnaldo Antunes, entre outros.

O papo do John Maeda girou em torno de uma busca íntima dele: descobrir ou redefinir “o que é design” em relação a um cenário tomado pela tecnologia – uma questão que considera ainda aberta e que diz enfrentar desde os primeiros anos de estudante, quando seu pai ouviu seu professor dizer que ele era bom em matemática e artes e ignorou o “artes” da frase, dando um computador de presente para o menino quando o computador ainda não tinha nada de artístico. Mas o lado “artes” do cientista perdurou, traduzido em interesse por design gráfico durante seus estudos no MIT Media Lab. Por isso, ontem, na apresentação, Maeda estabeleceu seu raciocínio a partir da definição do lendário designer Paul Rand, que dizia ser o design “um método para colocar forma e conteúdo juntos”, um conceito a princípio agnóstico. Contou também seu encontro pessoal com Rand e sua tentativa de transformá-lo em professor do Media Lab, intervindo junto a Nicholas Negroponte no sentido de aproximar um designer gráfico clássico do mundo da computação experimental acadêmica. A parceria com Rand não foi pra frente devido à sua morte logo em seguida, mas o conceito obviamente vingou. Uma das linhas de força do trabalho de Rand era criar identidades que pudessem sobreviver à desfiguração, função essencial em qualquer trabalho contemporâneo de design devido à multiplicação de plataformas onde ele precisa se manifestar.

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Ao longo da palestra, Maeda abriu diversas frentes de pensamento, como se fossem novas abas de um browser. Falou sobre os aspectos fundamentais de uma liderança de empresas mais eficiente num momento em que os funcionários desconhecem a hierarquia por muitas vezes estarem de posse de tanta informação quanto seu chefe; nesse sentido, sugeriu que a informação essencial aos líderes corporativos é aquela que coleta dados sobre as relações sociais de suas equipes. Em outra aba, explorou o conceito de empresas “end-ups”, mais estáveis e sólidas, em contraste às start-ups; sobre isso, argumentou que não deveria ser objetivo das end-ups manter sua posição, mas sim se lançarem no vazio, darem um passo suicida à frente no topo da montanha, rolar morro abaixo, morrer e aprender a renascer. Um tanto quanto oriental, um tanto quanto gamer, ou seja, uma abordagem que cai bem hoje em dia.

A terceira aba, e a mais bacana, que amarrou esses dois outros caminhos com a proposição inicial da palestra, confrontou os conceitos de “velho” e “novo”. No telão, Maeda ilustrou o “velho” com um montinho de terra e o “novo” com uma nuvem – sim, “a” nuvem do “cloud computing”. Unidas em uma animação, a nuvem “choveu” sobre a “terra” e fez crescer um broto que ilustrava a palavra “bom”. Ou seja, para Maeda, o que vale é algo ser bom, e o bom transcende temporalidades.

Falando assim, eu sei que soa óbvio e simplista, mas preciso ressaltar: foi um enorme prazer assistir a uma palestra que privilegia a convivência de conceitos simples, em geral considerados antípodas, em um meio no qual o “novo” é alavanca para a criação de cenários apocalípticos resolvidos por ideias milagrosas (geralmente vendidas pelo palestrante). Bem longe da retórica da maioria das palestras hoje em dia, Maeda ofereceu uma combinação rara e aberta de conceitos e aplicações de design com uso de tecnologia e uma abordagem humanista nada ingênua porque leva em consideração o contexto econômico em que vivemos.

***

PS: Sobre Maeda, já escrevi algumas vezes por aqui. Os posts com a tag dele estão aqui. Alguns são antigos, revisitei e não gostei da redação, mas foi o que pude fazer na época :-)

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O email está vivinho da silva

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O noticiário de tecnologia e comportamento adora uma manchete sangrenta e o email tem sido uma vítima recorrente nos últimos dois ou três anos (embora você encontre por aí matérias dando o email como ultrapassado já em 2004). A Fast Company, a Slate, a PC Magazine e o Independent são apenas alguns exemplos de dezenas ou talvez centenas de veículos que se apressaram a abraçar as pesquisas que vinham indicando a migração de usuários jovens para outras formas de mensagem, mas alguns indícios mostram que, no meio de tanta mensagem instantânea, de tanta caixa de mensagem de redes sociais, o bom e (nem tão) velho email está resgatando seu valor. Por que acho isso? Vamos aos tais indícios.

1.A vontade de escrever esse post veio se construindo ao longo de alguns links com os quais esbarrei nas últimas semanas, sendo o mais recente o serviço de “higienização de inbox” Unroll.me. Através do Unroll.me, lançado em beta no ano passado, você pode organizar todos aqueles serviços e newsletter que assinou e condensá-los em um único email diário, o que abre espaço na sua caixa de entrada para os emails realmente relevantes, de amigos, família ou contatos profissionais. Não assinei o Unroll e nem sei se vou. Mas acho que ele está apontando algo interessante.

2. Some-se a isso a nova classificação por tabs do Gmail e você tem mais um movimento curioso que parece querer “arrumar a casa” do email para que ele seja mais e melhor utilizado diante da bagunça que se tornaram outras formas de comunicação. Afinal, particularmente nunca me caiu bem essa história de tentar colocar todos os serviços em um único messenger, como o Facebook tentou emplacar.

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3. Outro link curioso que chegou até mim foi o do Email Design Conference, um evento de uma empresa de teste e tracking de email em três cidade cujo texto de apresentação diz: “Nós amamos emails e amamos design”. Há quanto tempo você não via as palavras “email” e “design” juntas com um certo respeito, dessa forma? Para um meio dado como morto, é interessante a atenção que ele está recebendo.

4. O site de crowdsourcing de ideias Crowdspring recentemente publicou um artigo sobre a relevância do email marketing em relação aos consumidores captados via redes sociais. Mas a questão não é apenas comercial. Muitos sites e blogs de notícias, que estão turbinando suas newsletter já que o algoritmo do Facebook faz com que suas postagens de fanpage não estejam mais atingindo tanta gente quanto há um ou dois anos. O email, bem feito e adequado, acaba sendo mais eficiente e mais interessante para essa finalidade. Assine a newsletter do Red Bull Music Academy ou da Vice e você vai saber do que estou falando.

Em resumo: como sempre acontece, as mortes anunciadas de tecnologias e ferramentas costumam ser mais dramáticas e voltadas à geração de factóides do que propriamente realidades cristalizadas. A ideia de revalorização do email pode estar se apoiando numa certa saturação das mídias sociais, que nos últimos anos vem tentando intensamente encampar tudo que é serviço que lhes é possível, desde a mensagem instantânea até o conteúdo em vídeo. Ao que parece, a troca de mensagens mais longas e relevantes é mesmo do email e, estando vivinho da silva, ninguém tasca dele.

Mas e daí, qual a relevância disso? Bom, eu suponho que o email, bem organizado e bem utilizado, pode induzir a uma redução de poluição online, especialmente nas mídias sociais. Lembra há dois anos quando muita gente usava o Twitter como messenger? Lembra que saco era? Pois então, pode ser que um resgate do uso do email limpe um pouco os newsfeed e as timelines de expressões pessoais e promoções que seriam mais adequadas (ou ficariam mais escondidas…) se empreendidas via email.

A ver.

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Cidade Elétrica – um podcast raro

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Não sei o quanto o pessoal de fora de Porto Alegre sabe, mas a Kátia Suman é uma radialista com imensos serviços prestados à cultura e ainda assim parece que pra ela nunca é demais. Dentro da sua rádio digital, a excelente Rádio Elétrica, a Kátia abriu, recentemente, espaço para um programa/podcast chamado Cidade Elétrica, apresentado por ela e pela escritora Carol Bensimon. O foco do Cidade Elétrica é abordar as questões da cidade de um ângulo diferente. Sim, as duas recebem arquitetos, engenheiros, biólogos, especialistas em mobilidade urbana, autoridades, mas tudo dentro de uma perspectiva mais humana, mais pedestre, mais pé no chão, longe do formalismo enfadonho dos programas de rádio ou tv que tradicionalmente cobrem essa pauta – geralmente espremida no meio do noticiário e refém de factóides do momento.

No Cidade Elétrica, o que impera é a visão de uma cidade construída a partir da conversa de seus habitantes mais prosaicos e não da troca de favores entre políticos e grandes empresas. Sugestão: comece pelo Cidade Elétrica número 7, que se pergunta por que os apartamentos estão tão pequenos mesmo com tanto espaço aberto para novas obras e conta sobre projetos que ousaram ir contra esse padrão.

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Jonathan Harris: os dados não vão nos salvar

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Já faz um bom tempo que o artista/designer americano Jonathan Harris vem desenvolvendo trabalhos que mostram a necessidade de sermos menos pragmáticos no trato com os dados. Inclusive, sobre isso, o entrevistei em 2007 para o primeiro número da revista Soma (você pode ler aqui a primeira parte, aqui a segunda e aqui um apêndice). Em geral, os projetos de Harris são projetos lúdicos e de forte estrutura digital como o aclamado We Feel Fine ou o I Want You to Want Me. Mas, diante do furor que se criou em torno da expressão Big Data, é curioso e emblemático que ele tenha escolhido se expressar, recentemente, em um texto simples e diagramado em um simples jpg (link original aqui, no New York Times). O jeito vintage não é apenas na forma: o conteúdo também lembra aquelas correntes por email muito frequentes alguns anos atrás, mas no bom sentido. De vez em quando precisamos de uma dose disso para quebrar o cinismo.

Não encontrei o texto em formato texto e nem em português. Portanto, resolvi traduzi-lo aqui embaixo. Correções serão bem-vindas.

“Dados vão nos ajudar a lembrar, mas vão nos ajudar a esquecer? Vão ajudar políticos a serem eleitos, mas vão ajudá-los a liderar? Vão ajudar empresas a criar produtos viciantes, mas vão ajudar a nos libertar? Vão ajudar os publicitários a ver as pessoas como estatísticas, mas vão ajudar a nos lembrar que aquelas estatísticas são pessoas? Vão ajudar os bancos a prevenir fraudes de cartão de crédito, mas vão nos ajudar a não quebrar? Vão ajudar empresas de cartão de crédito a prever o problemático fim de casamentos, mas vão impedir nossos casamentos de se dissolverem?

Vão ajudar os pais a gerarem filhos geneticamente perfeitos, mas vão ajudar a amá-los independente de qualquer coisa? Vão permitir que corretores de alta frequência vendam ações em nanossegundos, mas vão proteger nossos mercados dos feedback loops em seus programas? Vão permitir que meteorologistas prevejam furacões e tornados, mas ajudarão a reconstruir a casa dos desabrigados? Vão ajudar biólogos a mapear a migração dos peixes, mas irá impedir que pesquemos até extingui-los? Vão ajudar os físicos a encontrarem a Partícula Deus em um super acelerador de partículas, mas vai nos ajudar a concordar sobre Deus? Vão ajudar os astrônomos a buscar por sinais de vida alienígena, mas vão nos ajudar a descobrir se eles são amigos ou inimigos? Vão ajudar cardiologistas a monitorar marcapassos com WI-FI, mas vão impedir hackers de acessarem nosso coração?

Vão ajudar epidemiologistas a publicarem o genoma das grandes doenças, mas vão impedir terroristas de desenvolverem armas biológicas? Vão ajudar soldados a matar inimigos remotamente com drones, mas vão nos ajudar a ver a guerra como mais que um jogo? Vão ajudar urbanistas a construir grandes cidades inteligentes, mas o que será das pequenas cidades? Vão ajudar os governantes a mapearem o consumo nas metrópoles, mas vão ajudar a nos tornarmos menos dependentes de consumo? Vão ajudar hackers a vazarem evidências de vigilância governamental, mas vamos tratar esses hackers como heróis ou vilões? Vão ajudar a polícia a triangular a localização de armas de fogo, mas vão ajudar a abordar as causas mais profundas da violência? Vão ajudar educadores a criarem testes padronizados com excelência, mas vão nos ajudar a abraçar diferentes conceitos de excelência? Vão ajudar fazendeiros a desenvolverem lavouras para colher maiores safras, mas vão impedir as corporações de patentearem a nossa comida?

Vão ajudar mecanismos de buscas a descobrirem quantas vezes as pessoas procuram por “amor”, mas vão ajuda essas pessoas a encontrá-lo? Vão ajudar solteiros a marcar centenas de primeiros encontros, mas vão ajudá-las a encontrar a pessoa certa? Vão ajudar donos de bichos de estimação a clonar seus gatos e cachorros, mas vão nos ajudar a amar os clones tanto quanto os clonados? Vão ajudar os neurologistas a implantar chips em nossos cérebros, mas vão ajudar-nos a desligar o blablablá? Vão ajudar geneticistas a sequenciar nosso genoma, mas vão nos ajudar a entendermos quem somos? Vão nos ajudar a nos sentirmos conectados, mas vão nos ajudar a nos sentirmos amados? Vão nos ajudar a descortinar os fatos, mas vão nos deixar mais espertos?

Vão nos ajudar a viver pra sempre, mas vão nos ajudar a perceber que o sentido da vida brota do fato de que ela termina? Vão nos ajudar a contar tudo na vida, mas vão nos ajudar a perceber que nem tudo que conta na vida pode ser contado? Vão nos ajudar a ver o mundo como ele é, mas vão nos ajudar a ver o mundo como ele poderia ser?”

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Diários de Bicicleta: Protestos

No alto do elevado

Um pensamento que me ocorreu com algum delay, mas vamos lá.

Acho curioso que, mesmo com todos os protestos, tão intensos e sucessivos, o papo da bicicleta não tenha emergido com força para o mainstream a partir dos nichos onde ele costuma se desenvolver. Parece que a bicicleta ainda é assunto ou de militantes do setor ou dos escaninhos da mobilidade urbana e da sustentabilidade. No máximo, chega naquele círculo um pouco mais amplo formado por pessoas que tem o costume de adotar causas contemporâneas e, superficialmente, à audiência das revistas semanais. Mesmo com tantos temas obscuros de política e sociedade se tornando populares nas mesas de bar ao longo de junho e julho, a riqueza da cultura do pedal não deu um jeito de ser iluminada nesses holofotes quando se falava de transporte urbano.

Claro, não é por nada. O que vinha se pedindo nos protestos em termos de mobilidade eram algumas soluções bastante objetivas (passe livre, redução no preço da passagem) e eventualmente tópicos estruturais (quando podia, o MPL lembrava a todos que sua luta era por uma outra política de transportes). Mas tudo dentro do âmbito do transporte coletivo de massa, um contexto dentro do qual a bicicleta ainda tem pouco a dizer na linguagem popular. Sim, eu sei que em alguns lugares a bicicleta sempre serviu de transporte individual de trabalhadores, mas lembremos que a maioria dos brasileiros ainda parece sonhar com ônibus e trens minimamente decentes ou com o carro próprio para vencer longas distâncias em ambientes urbanos conturbadíssimos. Para se fazer sedutora nesse contexto, a bicicleta, como veículo e como proposta política de alto alcance, vai ter que rebolar.

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Leia todos os posts da série Diários de Bicicleta.

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Imagem daqui.

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Ligue os pontos

DALT

Em janeiro do ano passado, percebi que estava acompanhando as discussões sobre a reformatação da cena cultural independente brasileira de forma muito fragmentada: lia um artigo aqui, outro ali, tudo muito espalhado. Achei que seria bom reunir os textos que eu considerava mais interessantes em uma espécie de linha do tempo, porque muita coisa ficava melhor e mais útil quando combinada e/ou confrontada.

O resultado está aqui no tumblr Discurso Alternativo e com o reaquecimento da discussão sobre o Fora do Eixo a partir do Roda Viva da Mídia Ninja, voltei a alimentar a biblioteca, que já conta com os textos de Beatriz Seigner, Rafael Vilela e Bruno Torturra.

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Mídia Ninja no Roda Viva: só não entende quem não quer

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Ontem à noite, o Pablo Capilé e o Bruno Torturra Nogueira, os dois articuladores mais visíveis da Mídia Ninja, ocuparam as cadeiras centrais do Roda Viva na TV Cultura (programa na íntegra logo abaixo). Sabatinados por uma bancada formada integralmente pelo que poderíamos chamar de jornalistas da velha guarda, eles tiveram a oportunidade de explicar, afinal de contas, o que é a Mídia Ninja e pra que ela serve. E, a seu modo e com suas limitações, explicaram. Não entendeu quem não quis – ou porque não vai com a cara deles ou porque não quer ir.

Bastou ouvir Pablo e Bruno (ou antes dar uma googleada básica…) pra saber: a Mídia Ninja é uma iniciativa de mídia alternativa buscando novas perspectivas de ação e cobertura jornalística. Ela é ligada à rede de produção cultural e de ativismo Fora do Eixo, nasceu das experiências do canal de streaming Pós-TV e é bancada por essa rede não apenas financeiramente mas também em termos de entrega pessoal. Ponto final.

A partir disso, poderia-se explorar dois caminhos: como a Mídia Ninja faz o que faz do ponto de vista jornalístico e como ela faz o que faz do ponto de vista político. Para prejuízo da análise das possibilidades de mídia, a bancada do Roda Viva ficou obcecada com o segundo caminho, que deveria, sim, ser explorado. Mas talvez não de forma tão pragmática, tentando com um desespero constrangedor encaixar a dupla de entrevistados dentro de conceitos que não dão mais conta de explicar a complexidade do que está acontecendo. A impressão que se tinha era que estavam tentando cavar uma declaração formal mais ou menos assim: “ok, admitimos, somos parte da asssessoria de imprensa do PT financiados pela Dilma”. Uma ideia que, apesar de sedutora e fácil de comprar, não faz muito sentido.

A Mídia Ninja é, acima de tudo e claramente, uma nova experiência com todas as indefinições que isso tem, sendo a principal um futuro nebuloso: como ela vai se manter relevante? Como vai se financiar? Que contribuições tem a dar no longo prazo? Mas… Ei, peraí… Não são as mesmas perguntas que estão fazendo à mídia tradicional? Bruno e Pablo responderam com clareza e segurança a perguntas que as grandes empresas de mídia não conseguem: vão se manter relevantes se mantendo conectados às ruas; estão buscando quatro diferentes modelos de financiamento (que podem ou não funcionar); pretendem refletir no seu modus operandi a complexidade das demandas e funcionamentos da sociedade brasileira contemporânea, fugindo do reducionismo maniqueísta da reportagem tradicional. Mais claro do que isso, impossível. Só faltou desenhar.

Mas, antes que me acusem de pelego da Mídia Ninja, também coloco aqui minhas ressalvas.

Primeiro, é notória a dificuldade do Pablo e do Fora do Eixo de produzir falas que atinjam pessoas fora de sua rede e de expansões próximas (o Bruno, ao que parece, é mais flexível). Eu entendo perfeitamente o que ele quer dizer com guerra memética (vimos isso o tempo todo nos protestos, de como máscaras do Anonymous e meia dúzia de slogans construíram o imaginário desse momento) ou com mosaico de parcialidades (vamos parar de fingir imparcialidades e compor a partir de nossos posicionamentos). Mas foi preciso me esforçar e aprender um pouco do seu alfabeto, uma disposição que pouca gente tem. Segundo Pablo, o Fora do Eixo tem um vasto sistema de produção que inclui centenas comunicadores e designers, então já está mais do que na hora de rolar um videozinho visual, simples e didático que explique de uma vez por todas como o Fora do Eixo se financia e se o tal dinheiro dos editais é ou não espalhado nominalmente na rede (e não sob a forma de desdobramentos em cards). Um único videozinho – e muita gente vai parar de encher o saco quanto a esse ponto, que, para quem é de fora, é realmente nebuloso.

Segundo, tenho a impressão às vezes que o Fora do Eixo doura sua pílula pois, apesar de estar circulando pouco com a minha banda nos últimos anos, não estou conseguindo enxergar essa rede de oportunidades citada no Roda Viva e que supostamente vem mantendo a sustentabilidade de muitos artistas. Minhas três experiências com eventos do Fora do Eixo foram todas positivas (numa delas, recebi das mãos do próprio Pablo o cachê de um show ANTES de entrar no palco, algo raro em qualquer circuito). Mas não tem faltado gente para criticar a atuação do Fora do Eixo nesse meio – assunto, quem sabe, para mais um videozinho explicativo.

Em terceiro: não concordo com o pensamento dos Ninjas de que todo mundo é mídia. Acho que, na verdade, todo mundo que sabe articular alguma linguagem é que é mídia. Isso não quer dizer que apenas profissionais de comunicação estejam autorizados para “ser mídia”, mas a pessoa precisa ter algum nível de intimidade com algum tipo de linguagem e disseminação. Escrevi sobre isso no post Nem Todo Mundo é Mídia no ano passado justamente depois de participar de um debate na Pós-TV.

Fora isso, longa vida à Mídia Ninja e a suas iniciativas. Eles não são os únicos que estão fazendo alguma coisa, mas souberam embalar sua experiência e relevância (como escrevi aqui) de forma a abrir espaços mais mainstream de divulgação e discussão de novas ideias. E isso não é pouco em um cenário de mídia confuso e em crise.

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Para ler mais:

Matéria da Camila Hessel no Estadão que conta um pouco trabalhos da Mídia Ninja anteriores aos protestos. (peguei no Matias).

Imagem: Revista Fórum.

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