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Arquivo: TV

Expandindo algumas colaborações

Adorei o conceito de brand hijacking que o Will trouxe pra cá. Ele já havia me falado em conversar informais, mas nada como ter as coisas mais esquematizadas. Eu lembrei alguns outros exemplos, derivados do Video Show, como a Dança dos Famosos, mas daria pra fazer uma lista na Globo, que tem uma série de atrações autofágicas – ou melhor dizendo, autoreferenciais. É o padrão Globo sendo reafirmado em uma espécie de vórtice sem fim na esperança de evitar o inevitável (s aber: impermanência).

No fundo no fundo, estamos falando de um comportamento contemporâneo totalmente generalizado: o já tão comentado fato de que as pessoas vão poder (estão podendo) consumir conteúdo da forma como quiserem e quando quiserem. O brand hijacking emula esse comportamento ao promover a salada antes que o consumidor o faça (nem todo mundo faz por si). Quem fizer salada e distribuir, vencerá. Tem um post do Tiago Dória que resvala nesse assunto – o NYT está linkando conteúdos da concorrência.

O post do Guilherme Dable (cujos desenhos eu tentei comprar) me lembra o título de um curso promovido pela galeria dele (e de uns sócios): Desenhar é Traçar o Pensamento. Algo assim. Depois de muitos muitos anos, esse ano eu voltei a desenhar. Não estou falando do Autopista, mais observações domésticas mesmo. Que é onde essas questões que o Guilherme colocou mais aparecem.

Quando faço desenho de observação, se eu me descuido, caio brutalmente em um estado de ansiedade por não estar conseguindo ver no papel o que estou vendo à minha frente. O que é, sob um certo ponto de vista, risível: como se houvesse à minha frente algo objetivo que possa ser transferido intacto de forma fidedigna ao papel. Rarará. É muito difícil pra mim desistir da idéia de como as coisas se parecem visualmente, como diz o incrível Antony Gormley (cujos desenhos ilustram esse post aqui) citado pelo meu interino. Fazer o quê. Vamos em frente.

Isso, de certa forma, está relacionado com o tocante post do Ronaldo Evangelista. Ele cita o poder de coisas (pequenas, grandes, óbvias ou escondidas) que nos inspiram. E o consequente impulso que brota em nós para tentar reproduzir essa inspiração sob a forma novas coisas (pequenas, grandes, óbvias ou escondidas).

Não há o que discordar do post dele, eu só acrescento um detalhe: essa quebra de percepção promovida por certos produtos culturais depende não apenas de um autor brilhante, mas de observadores com o coração aberto e sintonizados em uma frequência similar (ainda que não aparente). Vou mais longe: corações realmente abertos são extremamente habilidosos em enxergar inspiração nas situações/objetos menos desenhadas para tanto, inclusive as que prescindem de um autor e de uma intenção.

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Mad Men, Café da Manhã da BBC, a Dança do Siri e TV Branding

O Mini saiu de férias e me pediu pra regar as plantas nesta quinta-feira aqui no Conector.

Eu tenho um blog que fala sobre marcas de televisão na era digital, ou TV III, e tenho observado alguns fenômenos que acho que valem a pena comentar aqui (ainda mais que o Mini tem dissecado o livro do Henry Jenkins em diversos posts). Me refiro aos seqüestros, apropriações e intrusões de marcas de TV.

1. O Seqüestro de Don Draper

No dia 13 de Agosto de 2008, às 7:56 da manhã, o Twitter publica a primeira mensagem de um usuário que paradoxalmente vive nos anos 60.

“Tomando um whisky com Roger, para que ele não se sinta um alcoólatra”.

O tweet é assinado por Don Draper, o publicitário de vida dupla, personagem principal da premiada série americana Mad Men, produzida pelo canal premium AMC e transmitida no Brasil pela HBO. Vale acompanhar a série somente pela encenação da época, muito álcool, cigarro, ausência de consciência ecológica e ética, machismo e princípios de revolução feminista. A caracterização da agência de publicidade nos anos 60 é tão perfeita que é praticamente um personagem em si.


Veja também a paródia de Mad Men nos Simpsons.

Como sou fã da série, imediatamente segui os tweets de Don, e logo em seguida começo a receber convites para seguir outros personagens da série no Twitter: Roger Sterling (um dos donos da agência de publicidade fictícia Sterling Cooper), Peggy Olson (a secretária ambiciosa que vira redatora), Betty Draper (a mulher de Don) e até mesmo de Joan Holloway (a office manager voluptuosa).

Pensei eu: “que ação de marketing sensacional da AMC. Expandir a marca da série através da personificação dos personagens, permitindo que fãs dialoguem diretamente com eles, imergindo no mundo fictício de Mad Men. Bela maneira de engajar a audiência.”

No dia 25 de Agosto, menos de duas semanas depois, o Twitter bloqueia as contas de todos os personagens de Mad Men devido a uma intimação do DMCA (Digital Millennium Copyright Act) em relação aos direitos autorais de propriedade da rede AMC.

No dia seguinte, a empresa Deep Focus, responsável pelo marketing da AMC, persuasivamente convence seu cliente de que personagens do Mad Men engajando audiência via Twitter é boa publicidade, e assim as contas dos personagens são restauradas.

Depois de toda a ação, uma dúvida permanece: quem está por trás dos tweets de Don Draper e dos outros Mad Men?

O mistério vem à tona somente meses depois. Dia 16 de Novembro de 2008, Paul Isakson, estrategista e planejamento de marcas para a agência de marcas digitais Space 150 escreve um manifesto em seu blog, sob o título de Confessions of a (fake) Mad Man assumindo a paternidade dos tweets de Don Draper.

Paul confessa que tudo começou como uma um projeto pessoal de pesquisa ao pensar que seria possível estender realisticamente um personagem de um programa de TV para dentro de uma rede de relacionamentos.

A iniciativa de Paul Isakson, e dos outros fãs da série que assumiram identidades dos personagens no Twitter, é um exemplo perfeito de brand hijack (seqüestro de marca), onde usuários e fãs tomam para si uma marca e promovem sua evolução.

Paul liberou Don Draper de seu cárcere digital e o entregou para a AMC este mês, e pediu desculpas por não ter alimentado o personagem tão bem devida à falta de tempo para se dedicar a tarefa.

2. Apropriação no Café da Manhã

A apropriação de uma marca acontece quando um canal ou programa de TV refere-se ao conteúdo relacionado a outro canal ou programa com o intuito de promover sua própria marca, apropriando-se dos valores de marca alheios através dessa associação. Henry Jenkins fala brevemente disso no Convergence Culture, contando o caso dos outros canais de TV que entrevistavam os candidatos do Big Brother que haviam sido eliminados da casa.

Aqui no Reino Unido, isso acontece descaradamente todos os dias de manhã, quando a grande rede pública BBC exibe seu show matutino de notícias, o BBC Breakfast. Boa parte do show consiste em entrevistas com celebridades de programas de sucesso de outros canais de TV da Inglaterra. A desculpa é que é rede pública, sem fins lucrativos, com foco em fomentar a diversidade. Enquanto isso, o BBC Breakfast aumenta sua audiência às custa de valores de marcas de terceiros.

No Brasil, o Vídeo Show é um bom exemplo de apropriação de marca dentro do domínio de marca de um conglomerado de mídia. O formato do show é basicamente uma ferramenta de promoção dos outros conteúdos da Globo, e ao mesmo tempo, enriquece sua própria marca através dos atributos dos programas que documenta.

Mas não há nada como a sacripantice do Pânico na TV, que descaradamente ridiculariza contratados da Globo em entrevistas desconcertantes. Neste caso, a marca da Globo (ou Glóbulo, nas palavras do Sílvio) é apropriada e “torturada”. Aqui, existe uma simbiose bizarra de marcas, numa dinâmica onde a Rede TV promove brand awareness da Globo através da constante menção ao seu nome e atores, enquanto a RedeTV ganha audiência via seu freakshow de desconstrução da marca Global.

3. A Intrusão do Siri na toca da Globo

O fenômeno mais curioso é do Pânico da TV, com a Dança do Siri promovida pelos personagens Vesgo & Sílvio. A dança em si virou um forte veículo da identidade do show, e é relacionado com o programa seja onde estiver.

O mais engraçado é a intrusão da dança (e conseqüentemente da associação à marca) durante as transmissões ao vivo da Globo, feita por fãs do programa.

A Globo tem um histórico de rigidez no controle de sua marca. Mesmo assim, é difícil impedir a intrusão, ainda mais num ambiente digital, como aconteceu na sua festa da novela Sete Pecados no Second Life. O vídeo abaixo é um tanto quanto parcial, mas ilustra bem mais uma intrusão de uma marca da RedeTV no domínio da Globo.

Estaria o Conector a apropriar-se de marcas ao publicar posts de convidados neste blog?

Espertinho esse Mini, hein? Bem feliz lá curtindo umas férias.

Post escrito por Will Prestes enquanto o Mini está de férias.

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Pensando ConCulture#9

Toss up – John Winslow

Pra quem chegou hoje aqui, estou lendo Convergence Culture, do americano Henry Jenkins e fazendo um post a cada capítulo reunindo algumas reflexões/anotações/palpites (você pode resgatar os outros posts clicando aqui).

O livro é uma referência importante pra quem se interessa com os movimentos atuais quando falamos em entrelaçamento de mídias. E, o mais importante: Convergence Culture não é focado nos veículos/ferramentas de mídia, mas enfatiza o conjunto de comportamentos que brota ao redor deles. Logo na introdução, Jenkins definiu o conceito de convergência como sendo o que fazemos dentro da mente e não o que acontece fora, nas diversas mídias em que os conteúdos hoje se desenrolam. Pois o capítulo 3, Searching For the Origami Unicorn, leva essa premissa às últimas consequências ao estudar um dos cases mais interessantes e intensos de transmedia storytelling: The Matrix.

My Little Dead Dick

Pra muitos, a trilogia não passou de uma sequência de 3 blockbusters cujos criadores deveriam ser presos por formação de quadrilha ao construir uma mitologia pilhando tantas referências da cultura pop, da filosia e da religião como quem vai ao supermercado (sem dinheiro e sem cartão de crédito). Entretanto, ao olhar atento e investigativo de Jenkins (e eu concordo), a questão é muito mais rica. The Matrix é uma das mais bem sucedidas tentativas de transmedia storytelling em escala global e industrial, um esforço que misturou motivações comerciais com a paixão nerd pela construção de universos desenhados especialmente para a submersão recreativa e/ou escapista.

E aqui vai a minha primeira anotação à Bic no canto de página no livro: por estarmos ainda dando os primeiros passos nesse novo tipo de narrativa, ainda cabe aos apaixonados fazer os primeiros movimentos. O processo de dissecação que Jenkins faz do universo Matrix deixa bastante claro que, apesar de haver dinheiro grosso envolvido, é o gosto pela coisa (e não pelo dinheiro que a coisa gera) que fez os Irmãos Wachowaski fazer o que fizeram do jeito que fizeram. Em outras palavras: consultor não recomenda esse tipo de encrenca antes dela estar completamente assegurada de sua eficiência.

Por outro lado, devido à sua proximidade com os recônditos da cultura pop, os produtores de Matrix sabiam o que fazer e basearam a extensão do seu trabalho em um time de produção quadrinistas, desenvolvedores de games, animadores, coreógrafos de luta  e outros profissionais que tinham em alta conta como fãs e não como produtores. Nomes como Geof Darrow, Yoshiaki Kawajiri e Woo-ping Yuen podem não dizer nada à maior parte de nós. Mas são artistas com uma carreira consistente em suas áreas e, inclusive, uma base de audiência prontinha. Os Irmãos Wachowski faziam parte dela.

Segundo ponto: isso é bem diferente do sistema tradicional, no qual você simplesmente repete o logotipo da franquia em um sem número de apetrechos e bonecos dispostos em prateleiras de grandes magazines, adicionando praticamente zero informação nova ao universo original e desprezando nichos. Segue Jenkins dizendo que “Matrix é entretenimento para a era da convergência de mídias, integrando múltiplos textos para criar uma narrativa tão grande que não cabe em um só meio.”

Ou seja, não se trata de reproduzir logotipos ou personagens ad infinitum em todo o material que for possível vender, mas espalhar verdadeiramente pedaços da história ao longo de uma cadeia complexa capaz de atingir múltiplos níveis de engajamento. O nerdus maximus fica feliz e o tiozinho que caiu na sessão de cinema do multiplex por acaso também.

Ron Mueck

Quarto ponto: isso afeta a própria visão de licenciamento comercial, porque exige mais das partes envolvidas. É preciso uma colaboração maior, envolvimento dos licensiadores em processos de co-criaçao nos quais eles compreendam o universo e colaborem para sua expansão e não para sua redundância. Geralmente, produtos de franquia seguem uma lógica comercial, mas cada vez mais é necessária a adição de uma visão artística.

Quinto ponto: botar esse esquema pra funcionar em um produto de nicho, que busca se conectar a uma audiência bastante específica, não deve ser tão difícil. Mas arquitetar isso em escala global, atendendo aos desejos de uma Warner Brothers, são outros quinhentos. Os Irmãos Wachowski souberam brincar com os milhões que colocaram nas suas mãos, oferecendo material suficiente para uma diversidade de platéia como nunca se viu antes na história da cultura pop. Se você quisesse, podia simplesmente assistir aos filmes. Mas caso fisgasse a isca e resolvesse se engajar mais, descobriria um buraco quase sem fim com material de mineração distribuído em uma série de animação, games, graphic novels e por aí vai.

Experências de universos transmedia dessa forma não são totalmente novas. Jenkins cita o exemplo da vastidão de possibilidades que o universo Pokemón apresenta há anos. Mas Matrix transcendeu a audiência interessada em desenhos animados ou mangás, chegando no nível “Temperatura Máxima” de cultura popular. Não é pra qualquer um.

Apesar disso, Jenkins sublinha: “Relativamente poucas franquias, se é que alguma conseguiu, atingiu o completo potencial do transmedia storytelling. Os produtores de conteúdo ainda estão encontrando o seu caminho nesse sentido.”

Sexto ponto: assim como co-emerge uma nova audiência, essas mudanças também vão provocar o co-surgimento de uma nova crítica. Que sentido faz uma experiência de transmedia como The Matrix ou Heroes ser analisada ou criticada separadamente por críticos de cinema, quadrinhos, games e desenho animado? Os dois últimos segmentos de Matrix foram detonados por críticos de cinema (a meu ver, com razão). Mas talvez não o fossem por “críticos transmedia”, uma vez que a maior parte dos furos de narrativa dos filmes estavam contemplados nas outras mídias, em especial nos games. (Não posso deixar de lembrar a experiência fantástica que foi a revista Play, uma junção visionária e ainda inédita em mídia impressa de cobertura de música, games, cinema, literatura e tudo mais.)

***

Pra fechar, mais citação direta do Jenkins: “Existe um ponto além do qual as franquias não podem ser extendidas, subtramas não podem ser adicionadas, personagens secudários não podem ser identificados e referências não podem ser percebidas. Nós só ainda não sabemos qual é esse ponto.”

Aí está o cerne da questão em termos de cultura de convergência e transmedia storytelling: nessa longa fase de transição que estamos vivendo, qualquer tentativa de estabelecer um modelo é precipitada. Nesse momento de experimentação, qualquer um que diga que tem absoluta certeza de qualquer coisa ou é ingênuo ou é picareta.

Mas não tenho muito bem certeza disso.

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Leitura complementar: TV + rede sociais

É o que fala esse artigo do Wall Street Journal (em inglês, repassado pelo Marcello Pereira). No entanto, não é exatamente a TV de massa que a gente conhece no Brasil, aberta e tudo mais. Mas uma idéia mais ligada ao universo dos games online (onde os jogadores interagem através de seus consoles ligados à internet), expandindo essa interação social não apenas através dos consoles mas também utilizando a TV a cabo pra socializar informação (o que seus amigos estão assistindo, etc).

Só me deixou mais claro que o furo da interação na TV digital aberta brasileira é bem mais embaixo e vai depender (muito) da internet.

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TV Digital – pois é

Continuando o post anterior, eu dexei de citar um dispositivo que permite o consumo móvel da tv digital aberta: o pen drive-antena. É uma solução mais barata (cerca de 200 patacas) do que a TV portátil (entre 600 e 800 realitos por agora), que o celular (mais de um milhar de pitombas). Certo que vai fazer a felicidade de muito torcedor de futebol que precisa viajar com o notebook pra cima e pra baixo.

Mas, enfim.. vamos aos tópicos restantes…

4) Paciência

O Governo e a mídia televisiva em geral precisaram fazer esse auê inicial como forma de impulsionar a cultura da TV digital não só para a população, mas também para a indústria e o meio publicitário. Entretanto, como tudo no Brasil, o crescimento da penetração dessa nova tecnologia vai acontecer de uma maneira disforme e provavelmente contra a maior parte dos prognósticos.

O brasileiro é um tanto quanto imprevisível no consumo de tecnologia (perfis conservadores e inovadores não respeitam muito uma visão demográfica). Mas acho que dá pra dizer que teremos algo muito próximo do WAP no celular: uma super promessa espetacularizada no iníco que decepcionou ao longo dos primeiros anos. Lembra disso? O WAP foi vendido como a internet no celular, mas não passa de uma rede muito lenta, que exige uma paciência absurda pra acessar.

Da mesma forma, a TV digital vai demorar um bom tempo pra ter seu grande potencial (interatividade) explorado de forma interessante. Até lá, o maior trabalho será dos engenheiros das emissoras, dos maquiadores e cinegrafistas (que estão precisando se adaptar ao detalhismo da imagem em alta definição), das produtoras de comerciais e, especialmente, dos departamentos comerciais que vão ter que quebrar a cabeça com modelos de remuneração futuros…

5) Interatividade

Esse é o ponto de maior fraqueza da TV digital. Por motivos que não sei explicar bem, a faixa de frequência de transmissão da TV digital brasileira não permite interatividade de duas vias. Pra ser mais claro, vão ser precisos acordos com TVs a cabo ou redes de telefonia fixa ou móvel para que o telespectador interaja com o conteúdo de forma mais dinâmica. Coisas simples como acesso à informação básica na tela, seleção de ângulos ou de canais de som estarão, com o tempo, disponíveis no controle remoto. Mas operações mais complexas como compras de produto ou experiências de maior profundidade dependerão sempre de um pareceiro telecom.

Sobre isso, um outro aspecto fundamental foi levantado quarta por um cara da Globo: o quanto a interatividade compromete a noção convencional audiência. Digamos que você está assistindo a uma novela. Entra o intervalo e você dá de cara com um comercial interativo de carro. Interessado, você mergulha na interatividade que o comercial lhe permite: olha o carro de todos os ângulos, verifica as ofertas de parcelamento, investiga reviews da imprensa especializada e se perde naquele mergulho. Ótimo para o consumidor, péssimo para a emissora, que vê sua audiência se fragmentar e ir se perdendo ao longo do break, podendo até nem retornar para o programa que estava assistindo.

Emissoras de TV até hoje só souberam vender grandes fatias de audiência de programas. Lidar com mergulhos invididuais de profundidade e com telespectadores que criam seus próprios caminhos no conteúdo será um aprendizado demorado e duro para as emissoras.

Mas é isso aí, meu velho! Los que pariu que los crie!

6) Abundância, Editabilidade, Sociabilidade

A maior parte das reflexões que vi serem feitas nas palestras a respeito da da TV digital sempre trataram o telespectador como um ser estático, que não muda sua relação com a TV por conta do avanço da internet especialmente. Esse é um assunto muito delicado, geralmente tratado com um certo desdém, como se a televisão estivesse cercada por hábitos intocáveis. O celular, uma vez que vai poder receber o sinal da TV digital, é sempre lembrado. Mas a internet é totalmente ignorada. E eu entendo por quê.

O problema é que todas essas reflexões e objeções vem de pessoas que cresceram tendo uma relação umbilical com a TV. O que provavelmente não vai se repetir com essa intensidade nas pessoas que estão crescendo com um computador e uma banda larga dentro do quarto. Os chamados “nativos digitais” têm motivações e formas de interagir com conteúdo que fogem à compreensão absoluta de nós, “migrantes digitais”. É preciso admitir. Não acho que todos os “migrantes” não possam entender os “nativos”, mas é preciso um salto no escuro, um abandonar de crenças básicas, uma capacidade de abstração que não vejo na maior parte dos executivos da indústria da comunicação.

Não acho que a internet vá substituir a TV. São dois meios que tem a forma de consumo completamente diferente. A TV oferece sociabilidade analógica: quatro, cinco, oito, dez pessoas podem assistir juntas a um programa. A internet, por sua vez, é um meio de sociabilidade digital: você compartilha o que descobre e o que assiste com vinte, trinta, cinquenta, cem mil, um milhão de pessoas que não estão ao seu lado. São dois momentos de consumo de conteúdo completamente diferente, complementares e não excludentes. Ao que tudo indica, um não vai poder oferecer tudo que o outro oferece. Por isso eles terão que dialogar. E, desculpe Rede Globo, dividir sua audiência.

A TV digital aberta, por muitos e muitos anos, não vai poder oferecer três elementos básicos que os nativos digitais estão se acostumando: abundância, editabilidade e sociabilidade. O engorde na audiência da TV digital não depende apenas de pegar mais gente por conta da mobilidade e portabilidade, mas de oferecer ou conversar com esses três conceitos que estão se enraizando nas novas gerações.

Não é um assunto que mereça um fechamento. Na verdade ele precisa se manter aberto. Mas pra não deixar o post sem um finalzito interessante, teclo uma última anotação: as pessoas estão construindo novas formas de consumir conteúdo. Novas formas, no plural. Não acredito que vai existir UMA forma de se consumir TV digital, internet, revista ou o que quer que seja, mas no mínimo uma centena. Não acredito, como o Henry Jenkins, que vai existir um aparelho universal em todas as casas, mas sim um universo vasto de aparelhos que vão ser configurados e montados de acordo com a vontade e necessidade de cada indivíduo ou de cada família.

É pra isso, eu acredito, que precisamos nos preparar.

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TV Digital: e daí?

Chegou a TV Digital em Porto Alegre. Terça passada, estive na cerimônia oficial da RBS, que contou com a presença de figuraças tipo o Ministro da Linha Direta Helio Costa, a governadora Yeda Crusius e todos os grandões da RBS (a Globo do Sul). O convescote também contou com a presença do vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, o presidente da Câmara de Vereadores, o prefeito em exercício, o presidente da Assembléia Legistlativa, donos de agência, diretores e gerentes da área de mídia de agência (que é como eu fui parar lá), gente do jornalismo em geral, empresariado local de porte, champanhes caros, muito terno e gravata, água com gás e sem gás, coca-cola, guaraná, canapés incríveis com queijos excelentes, figo com cream cheese, garçons atenciosos e uma tv digital portátil de brinde no final (essa aí da foto).

O clima era ao mesmo tempo solene e de confraternização entre parceiros, com o Nelson Syrotski (presidente da RBS) e o João Roberto Marinho discursando no nível “turma de amigos”, relembrando em seus discursos os sonhos de seus pais no mundo da telecomunicação como quem lembra papo de churrasco. Até o Ministro Hélio Costa entrou na batida “meu querido diário” ao recordar a primeira vez que veio a Porto Alegre, convidado pelo fundador da RBS, Mauricio Syrotski Sobrinho, pra entrevistar o Sammy Davis Jr. na festa de 25 anos do grupo.

Para nós, gaúchos, sempre sedentos de atenção e de reconhecimento, ainda foi levantado um outro ponto emblemático em uma das falas: foi aqui a primeira transmissão pública da televisão colorida foi em 1972, em Caxias do Sul, durante a Festa da Uva, que anos depois viria a se tornar palco de um dos mais célebres vídeos virais, o do choque do Lasier. Você vê, então, como tudo está interligado e como o Rio Grande do Sul é importante na vida da TV brasileira!

Mas a grande questão é: e daí? O que nós vamos ganhar com isso? A TV Digital é mesmo essa maravilha? Era o que faltava pra virarmos os Jetsons? Depois de quatro palestras (ainda assisti mais uma ontem) e uma cerimônia oficial, fiz uma série de anotações a respeito do assunto. Não espere entender tudo de TV Digital com esse post pq eu não sou enciclopédia. Você pode encontrar informações mais técnicas aqui ou aqui.  Vamos à minha especialidade: palpitaria.

1) A TV Digital é irreversível

Embora seja tentador derramar sarcasmo em cima de toda essa onda, não estamos falando de uma modinha. A TV digital será o novo padrão de transmissão até 2016. A transição vai ser lenta e capenga, mas vai acontecer. Se fosse há alguns anos, eu não acreditaria que isso seria possível no Brasil. Mas lembre-se que existe toda uma indústria a fim de vender TVs e conversores. E que o DVD que custava 800 reais há alguns anos hoje chegou a 100. E que tem muita gente com Pentium em casa, um equipamento de ponta há 5 anos.

2) Gratuidade

Sim, os aparelhos de TV com conversor embutido ainda custam uma fortuna. Mas já tem conversores a 300 reais, o que custa cerca de 8 meses do pacote básico da NET, que oferece apenas TV aberta. Some-se a isso que a maior audiência da TV a cabo são os canais abertos, o fato de muita gente ainda assistir TV com fantasma ou depender de antena externa e pronto: temos aí um interessante mercado latente.

3) Mobilidade

Acredito que um dos primeiros grandes movimentos de penetração da TV digital vai ser a mobilidade comercial. Cuma? Empresas de mídia out-of-home instalando TVs com recepção digital em ônibus, por exemplo, com patrocínio acoplado ao redor do aparelho (não vão poder interferir na programação da TV colocando outros comerciais, provavelmente).

4) Portabilidade

Aqui temos duas possibilidades. Os telefones celulares com recepção digital e os aparelhos portáteis de TV como os que a RBS distribuir aos convidados da festa.

No primeiro caso, a massificação vai depender dos planos das operadoras. A fidelidade à operadora provavelmente vai ditar a possibilidade de ter um celular com TV digital a preços irrisórios, uma vez que a operadora não recebe por transmissão de dados como acontece na rede 3G – e na Inglaterra, por exemplo, onde a rede de telefonia móvel é utilizada para a transmissão. Ou seja, lá você sempre paga por volume de dados quando assiste TV no celular. A alternativa é criar o hábito de assistir tv no celular com a TV aberta gratuita e depois oferecer programação alternativa no 3G (seriados, filmes, etc).

No segundo caso, dos aparelhinhos portáteis, acredito que o grande fator de massificação será a pirataria. A menos que a indústria ofereça peças bem baratas, os vigias entediados nas suas casinhas vão correndo no camelô substituir seu radinho de pilha por uma TVzinha digital. E o número de assaltos a empresas e residências vai crescer, porque eles vão estar  mais distraídos.

(continua amanhã)

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Pensando ConCulture#8: a essência do transmedia storytelling

Tem um frase do Woody Allen que eu adoro “Fiz um curso de leitura rápida e li “Guerra e Paz” em vinte minutos. Fala sobre a Rússia.” Dito isto, Mr. Allen me libera pra eu tentar resumir o capítulo 3 do Convergence Culture em apenas uma frase pinçada do próprio livro:

“Devido ao fato dos personagens serem pessoas reais cujas vidas transcendem os limites da série, os espectadores ficam com a sensação de que existe mais pra ser descoberto a respeito deles, o que fornece um incentivo a buscar informação adicional em diversos canais de mídia”.

Este trecho é a essência do que me interessou no capítulo inteiro. “Buyin Into American Idol”, na verdade, tem a intenção de fornecer um mergulho em profundidade na estrutura do product placement (o que aqui chamamos de merchandising) do reality show americano. A série é considerada um divisor de águas nessa disciplina, com cases de integração de marcas e trama com tamanha sinergia a ponto de diversos consumidores mais críticos questionarem a ética de tais ações.

Porém, enquanto pesquisa a relação entre as conversas de cafezinho sobre American Idol e as marcas que o patrocinam, Jenkins vai dando na paralela informações valiosasas sobre outro assunto: como funciona uma boa história que quer transcender o seu meio de nascença ou seu principal meio de difusão – o hoje famoso (talvez amanhã não) transmedia storytelling.

American Idol foi um reality show esperto, que se utilizou de tudo que era necessário para alavancar a audiência. Não aboliu a importância da transmissão massiva em televisão aberta ao mesmo tempo em que passou a jogar com novos e fundamentais recursos, como a votação por mensagem de texto*, os fóruns online e os sites de compartilhamento de vídeo.

Apesar disso tudo, a verdadeira mídia do transmedia storytelling não é o celular, a web ou a TV, mas a fofoca. Vamos lembrar um trecho da introdução do livro, no qual o modelo de mídia da historiadora Lisa Gitelman é citada: “Em um primeiro nível, um meio é a tecnologia que permite a comunicação. Em um segundo nível, um meio é um apanhado de protocolos ou de práticas sociais que crescem em torno daquela tecnologia”. Nesse sentido, a conversa sobre a vida alheia é um dos protocolos mais fortes que surgiu em torno dos reality shows. E é também a verdadeira “cola” que mantém unidos os pedaços dos universos criados em diversas mídias. A fofoca, na verdade, não é conteúdo: é meio por onde o conteúdo viaja e se expande de forma exponencial. Não vai existir obra em transmedia que não tenha um forte componente de socialização.

Eu sempre gosto de pensar no exemplo das novelas brasileiras. Embora elas não sejam transmedia por excelência (cadê o perfil dos personagens no Orkut adicionando amigos no “mundo real”? por que os personagens de Malhação não entram no MSN? Quando o Agostinho Carrara vai ter um blog sobre suas histórias do táxi? Por que não recebo SMS da Donatela?), as novelas no Brasil alimentam todo um universo editorial fora da tela que movimenta uma quantidade incrível do que Douglas Rushkoff chama de “social currency”: moeda social, feita de “assuntos”, utilizada cotidianamente pelas pessoas para comprarem atenção umas das outras.

Bom, o capítulo 3 de Convergence Culture é muito maior e mais rico que essas minhas rápidas anotações. O que eu tentei aqui foi só sublinhar o que me parece ser o elemento das boas histórias nesses tempos de transmedia (desculpa de novo, mas é a palavra do momento, calma que passa): utilizar o conteúdo – e não só os meios – para oferecer material de diálogo às pessoas. Se funciona com as revistas de fofoca de novela e com toda a mitologia do jornalismo esportivo, vai funcionar também com outras formas de ficção como a publicidade.

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Pensando ConCulture#6: Heroes no Maximídia

Tudo que o Henry Jenkins teorizou na terça, o Mark Warshaw mostrou na prática ontem no segundo dia do Maximídia. Warshaw veio apresentado (e se apresentando) como ícone do transmedia storytelling e um consistente currículo que sustenta sem grandes problemas esse rótulo. Hoje, pela NBC, ele é justamente Diretor de Transmedia Storytelling do seriado Heroes e antes disso trabalhou seis anos nos fundamentos dessa mesma atividade experimentando possibilidades com Smallville.

Pra quem acompanha minimanente o assunto, Mark falou com extrema propriedade mas não trouxe grandes novidades. Citou Star Wars, Senhor dos Anéis, Matrix e Bruxa de Blair como referências básicas de transmedia storytelling e contou suas primeiras experiências de expansão de conteúdo em outras plataformas em Smallville, como páginas de internet de empresas do seriado publicadas no mundo real (anos antes do Lost Experience). Mostrou um completo vídeo da NBC que vende todo o universo transmedia de Heroes, contando toda a série de extensões em internet, midia impressa e mídias móveis. Um trabalho que é realmente incrível nos dois lados mais complexos da equação: fazer acontecer na prática e manter a consistência da história.

Enquanto Jenkins assumiu mais a postura de cientista, Warshaw veio claramente como evangelista do tal transmedia storytelling. E, ciente de estar em um evento de publicidade, não cansou de incitar os anunciantes a comprarem o paradigma como um todo e não apenas seu modismo. Mostrou cases de integração de marca nas múltiplas plataformas onde ela se desenvolve. Falou sobre como as marcas são importantes para expandir o orçamento dos seriados e permitir que histórias interessantes sejam contadas. Disse que só foi possível filmar uma participação de Christopher Reeve em Smallville graças a um product placement do New Beetle.

Achei um pouco demais esse lado vendedor do cara, porque o grande recado quase passou batido. Ele começou a palestra dizendo que acreditava estar assistindo a aurora de uma nova indústria. E esse é o ponto. São novas formas de criar, produzir e comercializar. Não estamos vendo, simplesmente, mídias e práticas serem acopladas a antigos sistemas, mas um jeito completamente novo de pensar que exige novas cabeças com menos muros dentro delas. Essa parte é a mais complexa e o moderaror Daniel Schaffon levantou a questão (não respondida pelo palestrante) de como os profissionais de transmedia storytelling deveriam ser formados.

Jenkins havia falado um pouco disso no dia anterior: é preciso todo uma nova alfabetização para se contar histórias no contexto atual de mídia. Não se eliminam, em hipótese alguma, as habilidades básicas de comunicação linear (ler, escrever, senso estético, saber lidar com imagem). Mas surge, cada vez mais forte, a necessidade dos contadores de histórias (seja em conteúdo não-comercial ou comercial) fazerem sentido de forma não-linear. Não é pra menos que o currículo do MIT está cheio de conteúdo a respeito do mundo dos games. Essa indústria, sem dúvida, é a que mais tem a contribuir na construção desse novo alfabeto.

Leitura complementar altamente recomendada: os últimos posts do TV Branding do Will Prestes. Tem ali bem explicadinho como as emissoras de TV vão ter que distribuir o seu conteúdo nas diferentes plataformas e ainda assim fazer sentido.  É uma incrível aula de TV no anos 00.

(continua)

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Pensando ConCulture#4

O prmeiro capítulo de Convergence Culture começa a dar uma idéia melhor do terreno em que estamos pisando. Jenkins é um fã confesso de cultura pop e assim que se livra da necessidade de estabelecer fundamentos para suas teses, muda o tom da escrita e conta o case de spoling do Survivor quase como uma aventura.

O reality show americano viveu em sua comunidade de fãs mais ferrenhos um dos mais interessantes fenômenos da cultura digital quando um membro de boards de discussão online virou celebridade ao mexer com as regras da comunidade “spoiler”.

O “spoling”, segundo Jenkins, surgiu de diferenças geográficas. Por uma questão de fuso horário, os telespectadores da Costa Leste americana assistiam aos seriados de grandes redes três horas antes do pessoal da Costa Oeste. Séries não vendidas a grandes redes mas a estações de TV individualmente  (syndicated series) iam ao ar em dias diferentes da semana em diferentes mercados. Séries americanas eram exibidas com um atraso de seis meses ou mais em outros países. Uma vez que esse povo todo não se comunicava em tempo real, cada grupo tinha uma experiência direta com cada episódio. Mas no momento em que os fãs se encontraram na internet, todo esse esquema foi por água abaixo.

Foi aí que os telespectadores que viam episódios em primeira mão começaram a postar o conteúdo dos episódios online. Outros desavisados acabavam lendo esses posts, e tendo sua experiência estragada (spoiled). A saída (uma vez que nem todo mundo queria estragar a diversão dos outros) é que esses posts com conteúdo de episódios futuros avisassem isso de antemão, trazendo a palavra SPOILER no título. Nascia aí uma nova subcultura. Um novo jogo que extendia a experiência do conteúdo na TV, que também transformava o prazer de ver uma trama se desenrolar em uma mistura de jogo de detetive com corrida armamentista.

Jenkins descreve os spoilers de Survivor como uma espécie de participantes hardcore da audiência, gente que formula teorias sobre o desenrolar da série a partir de investigações grupais envolvendo fotografias de satélite, garimpagem de informações com membros da produção, estudo quadro a quadro de cenas e por aí vai. Obviamente, a comunidade spoiler corresponde a uma fatia muito pequena da vultosa audiência do programa, mas sua força de influência é considerável. O produtor de Survivor precisou entrar em uma briga de gato e rato, semeando desinformação pra desfazer descobertas dos spoilers. E a grande mídia, assim que descobriu essa inesgotável fonte de assunto, passou a beber dela para alimentar os telespectadores mainstream com informações de primeira mão.

O thriller de Jenkins começa apresentando ChillOne, um membro anônimo de um dos discussion boards de Survivor que acidentalmente esbarrou na produção de uma das temporadas da série em um hotel no Amazonas. Circulando entre a equipe de Survivor, ChillOne se dedicou a postar uma série de dicas na comunidade online, “estragando” o serviço investigativo de outros participantes do board.

A comunidade, até então com regras e estratos sociais claros, teve seus funcionamento bagunçado. Havia gente feliz porque ChillOne quebrou a barreira que existia entre as castas de “spoilers insiders” e “spoilers espectadores”. E havia gente totalmente de cara porque ele estava revelando pistas sem oferecer o friozinho na barriga que a investigação coletiva permitia.

Jenkins usa a trajetória de ChillOne ao longo da temporada de Survivor: Amazon pra descobrir “como as comunidades reagem a uma mudança na forma convencional de processar e valorar o conhecimento. É nos momentos de crise, conflito e controvérsia que as comunidades são forçadas a articular os principios que as guiam.” E pede ajuda a Pierre Levy, um dos principais pensadores da rede, para levar o raciocínio adiante.

“O que não sabemos por nós mesmos podemos saber coletivamente” diz o intelectual francês. A necessidade de saber mais começou, através da web, a andar junto com a necessidade de associações voluntárias, temporárias e táticas. Esses três itens oferecem uma visão clara para qualquer pessoa que deseje saber como se portar no ambiente digital quando o assunto é extensão de conteúdo. ChillOne serviu de eixo para que a comunidade de spoilers de Survivor fizesse uma espécie de terapia, descobrindo que seus limites e seu funcionamento não respondiam mais às regras convencionais de relações sociais.

A mudança orgância trazida por ChillOne só corroboraram a idéias de que, em primeiro lugar, as aglutinações sempre se darão por vontade única e exclusiva dos recepctores da mensagem (que precisa ser seduzido com conteúdo interessante). Em segundo lugar, elas serão temporárias devido ao terceiro aspecto: o lado tático. Muitas comunidades surgem por necessidades objetivas e assim que essas necessidades são resolvidas, a comunidade se desfaz, migra ou, se permanecer existindo, muda completamente de composição. O modus operandi de ChillOne perverteu a organização prévia interna da comunidade bem como a sua relação com o mundo offline na interação com os produtores da série. Enfim, o cara mostrou que não havia um poder centralizado e absoluto, mas uma sofisticada inte-relação de forças. Quem não souber entendê-las, créu.

Ao investigar as motivações e funcionamento da inteligência coletiva dos spoiler, Jenkins parece delinar a nova forma de funcionamento da indústria do entretenimento. Nessa nova estrutura, uma pequena parcela da audiência se comporta de forma extremamente ativa, interagindo com o conteúdo e influenciando os produtores, obrigando-os a mexer em suas estratégias (e obviamente em orçamentos) para se adequar a essa realidade. Note que não estamos falando de uma desgastada utopia digital formada por uma audiência 100% participativa. O mito do consumidor pró-ativo esbarra na preguiça da maior parte da população, que prefere consumir passivamente (mesmo os spoilers são ativos em um âmbito mas provavelmente passivos em outro). No entanto, a pequena parcela que molda e produz novos conteúdos é influente a ponto de poder comprometer uma série de milhões de dólares de uma das maiores redes de TV dos Estados Unidos – e isso é algo novo (não pra mim e pra você, mas enfim…).

Dois outros mitos vão sendo corroídos linha após linha. O primeiro, achar que isso tudo é um problema para a indúsitra do entretenimento, quando é uma solução. O próximo capítulo, Buying Into American Idol, vai mostrar como uma outra série de TV se valeu da pró-atividade de seus fãs para incrementar a experiência do seu conteúdo.

E o outro mito será descontruído mais adiante: o de que esses novos paradigmas participativos se resringem à esfera do entretenimento. Segundo Jenkins (e eu concordo totalmente), mesmo sem sair dessa área, isso é uma nova forma de atuação política e social.

(continua, provavelmente na semana que vem, pq ainda tenho que ler o terceiro capítulo)

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Proximidade

O sócio Will, além de continuar compondo singles pra Wonkavision lá de Londres, encerrou o mestrado e resolveu fazer o que? Um blog. A idéia do Will é continuar no TV Branding as reflexões que ele começou por conta da sua tese. Mesmo que você não saiba e nem queira saber o que é TV Branding, eu recomendo a visita, porque ele começou explanando os conceitos bases da disciplina que estudou e estou achando muito útil pra qualquer um que se interesse pelo estado das coisas em termos de mídia. Vários posts do Conector foram inspirados em conversas (em pessoa ou por google talk) com o Will.

Já a colega e escritora Magali Moraes também virou aquela coisa que ninguém sabe muito bem definir o que é: blogueira. Há algumas semanas que ela vem postando textos já publicados em colunas e livros, bem como se exercitando na frente de todo mundo no Eu Leio Magali Moraes.

A outra colega, Gabriela Oliveira, ás da pesquisa de referência, costuma fazer a felicidade de um grupo seleto através de emails cheios de quitutes interessantes. Atendendo a pedidos (um deles foi meu), ela resolveu dividir seus achados comquem mais quiser no Gabe Refs.

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Foto: daqui.

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somsitneteS

“Quando criamos esse personagem, nos divertimos pensando em alguém que tivesse essa liberdade toda. Eu certamente adoraria beber tanto quanto ele e não me preocupar com o meu fígado. Seria legal acordar de manhã numa total ressaca, já pegar uma garrafa de Scotch, beber uns goles no gargalo, dizer ‘Ah, me sinto melhor agora’ e então começar meu dia. Mas eu nunca faria isso porque eu me preocuparia o dia todo se não estou me tornando um alcoólatra, se eu estou me destruindo, se meu casamento não vai sofrer com isso. Ele não pensa nessas coisas e há algo incrivelmente atraente a respeito disso.”

Trecho de uma matéria no caderno de mídia do Guardian que explora um fenômeno praticamente estabelecido no mainstream, mas ainda pouco comentado mais claramente: a cultura machoman setentista no jeito de ser e vestir, acho que até mais no vestir do que no ser. O texto do articulista John Harris é todo calcada em cima do seriado Life on Mars, que eu nunca vi mais gordo, mas que também não senti a necessidade de assistir pra escrever esse post. Porque, você vai ver, no fim das contas tudo que é comentado ali de certa forma é facilmente encontrável em outras referências que andam nos rodeando.

O ponto do Harris é que o clima de “sou durão e posso tudo” que emana dos antigos seriados de televisão e hoje permeia a cultura pop traz consigo uma certa inocência também derivada daquela época. E ele traz mais uma declaração do criador de Life on Mars a respeito de sua cria:

“Se ele soubesse o que sabemos hoje, provavelmente ele não se comportaria assim. (…) O fato é que na vida real Gene Hunt seria provavelmente feio e racista.”

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Memórias dos anos 70 trazem uma estranha nostalgia: ela pega de jeito as pessoas entre 27 e 35 anos e ok, normal. Mas o engraçado aqui é como esse refluxo estético e, por vezes, comportamental, está tão onipresente independente da pessoa ter vivido ou não aquela época – um traço fascinante da forma como as pessoas se instruem e se divertem hoje. Uma das explicações, caso você queira teorias: as pessoas entre 27 e 35 anos estão distribuídas estrategicamente em funções influentes da indústria do entretenimento, informação e tecnologia.

Se é difícil determinar pontos de mudança definitivos (uma vez que o caldo cultural se move de maneira fluída, numa espécie de degradê), com um mínimo esforço podemos pinçar obras de referência que sacramentaram o início do retro-setentismo em nossa era. Agora me vêm à cabeça apenas dois: o Boogie Nights do Paul Thomas Anderson (derivado de Os Bons Companheiros e Cassino) e o Soundgarden (as pessoas falam falam do Nirvana e esquecem a banda que de fato trouxe o Sabbath de volta). Se formos adiante, vamos chegamos no stoner rock, no Hermes & Renato (trazendo de volta toda uma subcultura de amor aos Trapalhões e às pornochanchadas brasileiras), o Canal Brasil e o culto ao Peréio. Em paralelo, o Cidade de Deus, queira ou não queira, cimentou a estética brasileira dos anos 70 que já vinha sendo embalada pela volta do samba rock e pelo prévio resgate underground do Tim Maia Racional.

Na raia ao lado, temos os shows da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A revivendo um certo riponguismo universitário que veio desaguar no Cordel do Fogo Encantado e, mais recentemente, no Teatro Mágico. O Cheiro do Ralo, do Heithor Dhalia, é um dos melhores e mais interessantes ícones dessa estética (felizmente acompanhado de algo que nem sempre está presente: conteúdo). Não vi O Dia em que meus Pais Saíram de Férias, mas sei que também está nessa pilha.

A lista é grande e grifada com marca texto eu certamente destacaria Zodíaco, filme mais recente do David Fincher que não só investiga a história real de um serial killer americano dos anos 70 como mergulha totalmente no clima e no visual da época. Tive uma sensação engraçadíssima com esse filme: me senti em casa, totalmente reconfortado com aquelas imagens todas, a fotografia, os objetos, as roupas, muito embora eu não tenha vivido tanto nos anos 70 (6 anos apenas), muito menos nos Estados Unidos e muito menos perto de serial killers (que eu saiba). Deve ser a exposição massiva aos seriados dos anos 70 ao longo dos anos 80. Enfim.

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O mercado publicitário abraçou totalmente esse sabor setentista, em parte pela influência do Hermes & Renato e tudo isso que viemos comentando, em parte porque é o jeito como os argentinos fazem publicidade – e eles estão pautando os comerciais brasileiros nos últimos 3 anos. Se bem me lembro, tudo começou com uns comerciais da Sprite meio que imitando Hermes & Renato, lembra disso? Tem esse daí de cima do Twix também, o melhor de todos.

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Ah.. como é que eu fui esquecer uma das PRINCIPAIS obras nesse lance de “neo-setentismo” (inventei agora, não existe, não passe adiante): o Âncora.

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Como é que se explica tudo isso? Que misteriosas forças na cultura fazem com que isso tudo aconteça? Me recuso a teorizar demais porque só pensei clichês: o conforto de voltar ao passado, especialmente aquele que não vivemos e que permite refilmagens mentais particulares, bem como o limbo temporal que as tecnologias digitais ajudaram a criar (tudo pode em qualquer tempo).

O fato é que esses dias eu olhei pra mim: casaco de abrigo Adidas azul marinho, calça de veludo meio boca de sino cor de vinho, tênis Adidas branco…. me dei conta, pô, que cheguei aos 33 anos de idade vestido de um jeito muito parecido com quando eu tinha seis…

Os psicanalistas podem ficar à vontade nos comentários, mas eu não vou pagar a consulta.

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Crispin vai de Seinfeld

O Matias trouxe a notícia de que o Seinfeld foi alistado pra defender a Microsoft e eu queria expandir um pouco o post dele trazendo o contexto publicitário da história.

Basicamente, a história é a seguinte: a Microsoft fez uma concorrência e entregou a ingrata missão de reposicionar alguns de seus produtos nas mãos de uma das agências mais relevantes nos últimos anos. A Crispin, Porter + Boguski, direto de Miami, periferia do mercado publicitário, abriu espaço no circuito mundial com trabalhos que atravessam disciplinas e trazem frescor e atenção para seus clientes: a galinha subserviente do Burger King e a campanha de advogados da Coca Cola querendo processar a Coca Zero são dois bons exemplos.

Mas, há pouco, a Fast Company publicou um extenso artigo sobre o assunto questionando, em outras palavras, o quanto realmente é possível de coolzice ser tranferido de uma agência como a CPB pra uma marca tão careta quanto a Microsoft. No artigo, o Alex Bogusky se porta como um maverick, um cowboy por excelência, destilado autoconfiança sobre a sua capacidade de desfazer um dos maiores mitos da cultura pop contemporânea – mac é melhor que pc.

O primeiro movimento nesse sentido foi o tímido Mojave Experiment, no qual pessoas são convidadas a experimentar um novo sistema operacional da Microsoft sem saber que era o Vista. Misto de pesquisa de consumidor com reality show, o Mojave Experiment é uma versão “oficial” do que o Alex Boguski declarou ter feito dentro da agência antes de começar o trabalho com a Microsoft – tem isso na matéria da Fast Company. Meio decepcionante.

Agora, com o Seinfeld, a CPB prepara um passo realmente mais ousado e com um componente mais a ver com os trabalhos que celebrizaram a agência: chamaram um especialista em dessacralizar qualquer coisa pra começar a corroer o mito do Mac. Realmente, só um cara como o Seinfeld pode pensar em fazer algo assim.

Imagem: daqui.

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Se vai funcionar? Vamos ver. A favor, temos, inquestionavelmente, a perspicácia e a sagacidade na desintegração de conceitos que o Seinfeld carrega consigo, bem como a empatia, a capacidade de dar voz a todo mundo que pensa “não aguento mais essa gente metida com seus macs”, que é algo que o Seinfeld já fez com muitos outros pensmentos não falados da cultura americana e ocidental.

Por outro lado, também vale pensar o quanto o fato dele ser um cara mais estabelecido, mainstream, meio careta já, com ares quase institucionais, conta pontos contra na descoolinização do Mac que a Microsoft vai tentar impôr. O Seinfeld é um tiro de canhão. E tiros de canhão são cada vez mais dispendiosos e menos eficientes porque tem um povo – cada vez mais numeroso – que descobriu como se esconder nas inúmeras casamatas que a cultura atual construiu contra as bombas da publicidade.

E ainda tem um perigo: que alguém espalhe que a Microsoft seria melhor representada pelo George. Sssshhh…

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Charlie e Lola

Uma das (muitas) melhores coisas de se ter alguém pequeninha de pijama descabelada andando pela casa de manhã cedo é ser apresentado à exuberância de desenhos animados como Charlie e Lola.

Os dois são irmãos. O Charlie é o mais velho e vive tentando, sutilmente, trazer um pouco de bom senso à imaginação desenfreada da Lola, que de vez em quando passa dos limites. É um diálogo constante, a Lola tentando tirar o Charlie do mundo mais racional e o Charlie ensinando à Lola um pouco do fator “pés no chão” necessário pra convivência em sociedade.

Há um episódio ótimo no qual a Lola quer manter seu cabelo comprido e bagunçado e o Charlie passa o desenho inteiro tentando convencer a Lola a cortar o cabelo. Os exemplos que ele dá pacientemente à maninha são lindos, os contra-argumentos da Lola são melhores ainda e no final das contas eles sempre chegam a um meio termo criativo.

Mas quem curte uma estéticazita pode desfrutar de Charlie e Lola até mesmo no mute: a série é toda baseada nos livros da ilustradora inglesa Lauren Child (que também temos lá em casa!), cuja identidade gráfica é baseada em recorte, colagem e uso constante de padronagens.

Nesse site, curiosamente ela conta que essa pilha meio à mão na verdade é toda feita de forma digital: tudo começa com rascunhos feitos à lápis que são escaneados e então vai tudo pro computador pra fazer a boa salada visual que caracteriza o estilo da mulher.

Ah, uma nota interessante: Lauren já foi pintora assistente do maluquete Damien Hirst.

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O Brasil é uma novela


Na época da Copa, estava na casa de um amigo (sempre ele) que me delineou sua teoria a respeito da troca de carinhos e mensagens domésticas entre a Fátima Bernardes e o William Bonner, ela lá e ele aqui: como brasileiro adora novela, a Globo tinha arrumado uma espécie de trama familiar no Jornal Nacional, onde todo mundo podia acompanha diariamente como andava a vida do Bonner e da Bernardes (B&B) como quem acompanha o casal da novela das oito, digo, das nove. Achei perfeito, fecho total na teoria. Só não acredito que seja totalmente proposital, que tenha roteiro e tudo mais… mas acredito total que tenha sido induzido para manter acesa a paixão do brasileiro por novela: ela já começava ali no Jornal Nacional e ainda tinha sua extensão no ambiente natural de continuidade das novelas, toda a imprensa de celebridades.

(O que me faz pensar outra coisa: a novela sempre foi multi-plataforma.)

Outro bom exemplo de novela foi o caso em torno da Mônica Velloso e o Renan Calheiros, que ainda estamos acompanhando, com seus desfechos patéticos: Mônica vendendo pouca Playboy, Renan se safando com a lei e com a mulher… depois a gente olha a novela das oito, digo, das nova e fala “ah, isso só acontece em novela”. De fato, na vida real acontece coisa bem pior.

A última e mais complexa novela em termos de multi-plataforma & metalinguagem é o blog do Aguinaldo Silva (não deixem de ler, não deixem de ler). Não sei se vocês sabem, mas o cara anda causando desde que virou blogueiro e começou a postar feito um emo. Xingamentos nos comentários, ameaças de morte, surtinho com direito a tentativa frustrada fuga pra outro país… está tudo lá….

Também há quem diga que é armação da Globo pra aumentar a audiência de uma novela que começou capenga (é sempre a mesma discussão no início das novelas…), mas eu sou meio poliana e continuo acreditando que isso não é conspiração e nem coincidência: no Brasil toda narrativa pública se estrutura naturalmente sob a forma de novela por uma “tendência natural das coisas”, vamos dizer assim. É o jeito como as coisas andam no nosso país.

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Para o crustáceo que existe em vc

O Brainstorm 9 partiu desse post do Conector sobre a dança do siri e aprofundou a discussão. Vale a pena não apenas ler o post do Merigo, mas especialmente visitar os comentários. Até a Rosana Hermann, redatora do Pânico, apareceu lá pra esclarecer algumas coisas.

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Só aí eu dei atenção ao email do Goldoni, que trabalha na Fox lá em Buenos Aires, mandando esse videozito deles… rê rê rê…

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Dança do Siri, o maior viral do Brasil?

É a minha tese do momento. Não tenho muitos dados pra provar, a não ser as 443.000 citações no Google. Só pra vc ter uma idéia, Cicarelli praia dá 263.000 citações. Em termos de You Tube, a dança do siri tem mais de 2000 vídeos postados, enquanto que, digamos, o Tapa na Pantera tem 973 e Cicarelli na praia tem 283. Faça seus testes, mas a questão aqui não são números: há quanto tempo você não via uma coisa dessas se espalhar dessa forma?

Duas perguntas rondam o meio publicitário ultimamente. Na cabeça do pessoal mais old school, a questão é “quando teremos de novo aquelas campanhas memoráveis como ‘o primeiro sutiã’”? Na cabeça da galera mais nova, a pergunta é “como fazer pra minha idéia pegou como pegou o tapa na pantera?”

As duas perguntas precisam enfrentar uma realidade complicada: hoje em dia tudo é mais difícil de se tornar memorável. O mundo está saturado de tudo. Existe mais filmes, mais música, mais formatos, mais canais de acesso, mais produtos, mais tecnologia disponível pra executar e distribuir. Meu, olha a quantidade absurda de fotos que as pessoas estão tirando porque não precisam mais se preocupar quando faltam 4 poses do filme da máquina… ok?

Num cenário desses, porque é que a Dança do Siri se destaca? Bom, primeiro porque ela é muito boa, quebra total qualquer lógica de dança que já tenha sido inventada, incluindo aí outras danças bizarras como a Dança dos Famosos.

Segundo porque ela tem estirpe: mesmo que não intencionalmente, acredito que a Dança do Siri descenda diretamente de uma linhagem que passou com força através do Silly Walk do Monthy Pyton. Num contexto histórico, tudo faz sentido.

Terceiro porque ela é democrática: excetuando-se alguma dificuldade física, qualquer um pode fazer a dança do siri, gravar seu vídeo sem grandes dificuldades. Pra efeito de comparação, pegue o pagode ou funk carioca. Por mais populares que sejam, ainda esbarram no apartheid rítmico que impede gente sem ritmo de dançar. A Dança do Siri não. Tudo que ela pede é uma certa falta de noção, o que está fartamente disponível em qualquer festa sob a forma de cerveja.

Quarto porque ela tem a essência do Brasil: é totalmente à prova de se tornar cool. O Tapa na Pantera tem um lado cool, uma estética meio anos 70 que é moda hoje. Mas não existe como uma pessoa posar de cool fazendo a Dança do Siri e essa total abertura e entrega é parte do zetgeist brasileiro – Didi Mocó que o diga.

Quinto, e talvez o mais importante: o Silvio e o Vesgo trabalham duro. Diferente do que muita gente pensa, uma mensagem não se viraliza apenas por si própria. Exige um impulso inicial muito específico e forte. Na falta de especificidade, que venha a força. O Silvio e o Vesgo são totalmente incansáveis. Olha agora a perseguição ao Galvão Bueno. Eles estão dispostos a apanhar ou a serem atropelados, processados, seja lá o que for, pra fazer o Galvão Bueno dançar a Dança do Siri. Quem é capaz desse nível de comprometimento?

Sexto. A Dança do Siri toma de assalto veículos de massa. Seja oficialmente, através do programa na TV ou na rede de rádios, a Dança do Siri ainda marca presença no noticiário de outros veículos com suas perseguições bizarras.

Enfim. A tese está colocada. Seguirei informando vocês de mais algum maravilhoso insight. Contribua nos comentários.

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Os perdidinhos

Tou meio de cara com Lost… é muita volta e até draminha médico colocaram agora no seriado. Mas, enfim… já estão no You Tube os promos da segunda parte da terceira temporada… fiquei curioso pra ver onde essa naba vai dar.

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MTV, Play TV, Ivete & Submarino

A MTV anunciou em coletiva ontem que está abrindo mão definitivamente dos clips como carro chefes. O motivo é óbvio: ninguém mais precisa perder tempo esperando na frente da TV pra passar o clip da sua banda predileta encontrando tudo com facilidade não só no You tube como googleando ou no próprio MTV Overdrive.

A mudança também tem a ver com a ameaça da Play TV, que tem a manha de fazer algo que a MTV está demorando pra fazer: cruzar as referências pop e tecnologia. O programa de maior audiência da Play TV é o Combo Fala + Joga, no qual o entrevistado bate papo enquanto joga games em vários consoles com a apresentadora Luísa.
Eu fui lá ser entrevistado em julho no Combo (representando os Walverdes) e me chamou muito a atenção todo o astral da Play TV, tinha no ar um certo lance de novidade que não sei explicar muito bem. Pode ser um detalhe, mas quando você chega numa empresa onde tem console de videogame na recepção, alguma coisa tem ali…

Gente como eu, “trintões alternativos” (e seus derivados), ainda vai choramingar mais por que “a velha MTV que era boa”. Mas a real é essa: se parar na frente da TV à espera de um clip legal da sua banda preferida ou de opinões relevantes é algo de outra era de mídia.

De qualquer maneira, voltando ao público entre 12 e 18, vale prestar atenção nisso tudo pq pelo jeito mais um paradigma clássico de consumo está caindo, aquele velho “público jovem assiste MTV”.

Um adendo, eu estava pensando agora: resta saber se mesmo o público entre 12 e 18 não vai sentir falta das atrações mais pop ligadas a clip, como o Disk MTV. Fiquei curioso pra saber a audiência do TVZ do Multishow…

***

Enquanto isso, a Rolling Stone anuncia Ivete Sangalo como sua próxima capa, com a chamada “Rainha do Verão”. Motivo de infarto para quem curtiu o Iggy Pop na capa da última, mas eu acho extremamente adequado: goste-se ou não do som, tá mais do que na hora de Ivete ser reconhecida como a diva pop brasileira por alguém que não seja a Rede Globo ou os milhões de fãs por todo o Brasil.

Também me parece que esse movimento determina bem a que a Rolling Stone veio, esse mapeamento mais cultura pop geral e menos música do que a Bizz (que continuo mantendo como minha revista preferida nesse sentido). Fico curioso pra saber que tipo de público a Rolling Stone vai pegar, ou se vai construir um público.

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Achei muito massa esse comercial, não só pela idéia em si (de uma simplicidade massa), mas também por ele terminar com uma proposição bem focada no que a empresa faz. É meio que uma indicação de um novo caminho talvez, uma vez que nos últimos 5 anos a TV esteve cheia de comerciais baseados na lógica estritamente emocional estilo “Filtro Solar“.

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Conector + André Takeda: Brand Television

Na real era pra ser uma entrevista com o Takeda. Mas antes que eu convidasse ele pra responder umas perguntas sobre o trabalho dele na Fox Argentina e sobre a vida em Buenos Aires, ele me mandou um texto sobre Brand Television, uma disciplina pouco praticada no Brasil mas levada bem a sério fora daqui. Sobre Buenos Aires, eu escrevo mais adiante.

Então nada mais a declarar, passo a palavra pro Takeda.

Brand Television – André Takeda

Por algum motivo que eu ainda não sei, no mercado de comunicação brasileiro existem poucos profissionais que se dedicam ao brand television. Na verdade, todos o canais de televisão do Brasil têm uma equipe dedicada à produção do que nós conhecemos como chamadas. Mas fora do país, o negócio é levado a sério. Os departamentos criativos dos grandes canais americanos e europeus são verdadeiros estúdios, com equipes especializadas no planejamento, criação e produção de vinhetas, chamadas e projetos especiais. Existem até agências que se dedicam exclusivamente a isso. Por que essa importância? Ora, porque os canais usam um espaço valioso no intervalo comercial e já está mais do que provado que cada segundo de chamada pode contar muito para a personalidade do canal. E em um mundo de TV por assinatura, ter personalidade significa rating.

Bom, no Brasil o negócio ainda não é como nos Estados Unidos e Europa. As exceções para mim, são os canais Globosat e a MTV, claro. Mas, nos outros países da América Latina, a história é um pouco diferente. A maioria dos departamentos criativos dos canais pagos estão baseados em Buenos Aires, por exemplo. Isso explica o fato de você às vezes ver algo escrito em espanhol no meio de um texto em português. Na Fox Latin American Channels, onde trabalho, nós somos quase 50 pessoas cuidando de toda a comunicação on air (chamadas, vinhetas, etc) e off air (propaganda, digamos assim, tradicional) dos canais Fox, National Geographic, Fox Life, FX e Speed. Claro que não fazemos tudo sozinhos. No caso de off air, trabalhamos sempre com agências. E, já que falei em agências, vou agora ao ponto onde queria chegar.

Os profissionais de agências talvez não saibam, mas o nosso maior esforço aqui na Fox também beneficia o mercado publicitário. Explico: a nossa obsessão é fazer com que o nosso intervalo seja tão divertido quanto os nossos programas. A gente sabe que todo mundo gosta de ver trailers. Então, a gente perde horas na ilha de edição cortando uma chamada para o 24 Horas que seja digna de cinema. A gente sabe que muitas pessoas adoram ver backstage de filmes. Por isso, a gente vai atrás de making ofs, edita tudo bonitinho e coloca no ar. E, quanto mais tempo o telespectador prestar atenção no nosso trabalho, mais tempo vai prestar atenção no trabalho das agências. Simples, não?

O nosso maior exemplo aqui na Fox é o bloco de animação para adultos Não Perturbe!, que vai ao ar nas noites de segunda e terça. Tudo que criamos para o NP! tem o objetivo de mostrar que não temos apenas programas e, sim, um bloco com identidade que, por si só, já é divertido. Um exemplo disso foi a criação dos personagens Coelhos de Birmânia. Estas animações absurdas são um sucesso e não vendem absolutamente nada, a não ser a idéia de que o NP! é este espaço doido para os adultos que não são tão adultos assim. Em seis meses, já produzimos 10 vinhetas com os coelhos, fora uma série especial para a Copa do Mundo. Outros projetos inovadores no NP! foram o NP! Deitado (quando veiculamos toda a programação, incluindo os comerciais, de forma “deitada”, para ver na cama) e o Anti-Carnaval (especialmente no Carnaval, o NP! foi veiculado de sexta a quarta, para ser uma alternativa aos desfiles das escolas de samba). Outra coisa que estamos experimentando com o NP! é a criação de keepers. Essas peças têm a função de manter o telespectador ligado no canal durante o intervalo. Na Argentina, no México e na Colômbia, acabamos de colocar no ar o projeto NP! Responde. O pessoal manda perguntas absurdas via SMS. E, assim que o bloco de um desenho termina, colocamos uma peça com a pergunta com a mensagem “NP! responde depois do intervalo”. Quando o intervalo termina, nós colocamos a nossa resposta absurda e idiota para perguntas absurdas e idiotas. Todos estes projetos vêm empacotados com peças divertidas e temáticas. Como disse antes, é a tal preocupação com o conteúdo que colocamos no ar. E se isso é bom para a Fox, é bom para os clientes das agências também.

A gente também está muito preocupado com a interação internet, TV, celular, além da criação de conteúdo para marcas. Mas isso é assunto para outro texto.

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Homens

“Em busca da audiência masculina, a TV americana apresenta caras durões

Ambigüidade moral molda caráter dos heróis da atualidade

Houve um momento de cortar o coração, no final do último episódio na temporada passada da série da ABC “Lost”, quando um personagem chamado Michael tenta encontrar o filho dele, que foi seqüestrado. Michael ama de verdade seu filho; como os outros personagens de “Lost”, os dois estão isolados numa ilha tropical, depois de sobreviverem a um acidente aéreo.Quando fica sabendo da missão desesperada de Michael, Sawyer –um narcisista durão e beberrão que no passado matou um inocente– tem uma reação que você não iria considerar simpática. “Aqui cada um luta por si”, rosna Sawyer.Se fosse há algum tempo não muito distante, a insensibilidade de Sawyer faria dele um vilão, mas em “Lost” ele é um personagem simpático, um homem cuja tendência a despejar verdades darwinianas sobre a gentileza não apenas faz a trama seguir adiante como ressalta a própria idéia presente na série, de que, no caos social do mundo moderno, o único reflexo sensível é o interesse em causa própria.A Spike TV descobriu que os homens reagem positivamente não apenas a protagonistas corajosos e competentes, mas também a um tipo de personagem que manifesta tendências anti-sociais marcantes –tipos como o dr. Gregory House, médico viciado em analgésicos Vicodin na série “House”, da Fox; como Michael Scofield em “Prison Break”, que vai à luta para ajudar o irmão a fugir da cadeia; e como Vic Mackey, interpretado por Michael Chiklis em “The Shield”, um policial durão que não hesita em espancar um suspeito sem piedade. Tony Soprano é o patrono dessa turma; e como Tony, considerados os limites de seus respectivos programas, todos eles são “os caras do bem”.O código implícito desses personagens, segundo Brent Hoff, 36 anos, um fã de “Lost”, é: “A vida é dura. Homem que é homem precisa fazer o que deve fazer, e se algumas pessoas vierem a morrer nesse processo, que seja assim.”"Nós podemos nos identificar com eles”, diz Hoff, um escritor de São Francisco. “Se em `Lost’ você prestar atenção no Sawyer, que é um cara basicamente do bem mesmo quando faz coisas ruins, haverá menos motivos para se sentir culpado sobre si mesmo.”
The New York Times – 15.12.2005″

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