Lembra que eu comentei aqui que customizei um Converse lá no Goiânia Noise? Pois então. Não era tinta direto no tênis, e sim na matriz que vai pra fábrica. Essa semana recebi o pacote com o tênis propriamente dito. O primeiro e único Converse dos Walverdes. Já que nenhuma empresa quer fazer, eu mesmo fiz!
Também na semana passada saiu a Mais Soma 16, com capa do Gary Baseman e uma entrevista que o Mateus fez comigo e com o Nobre sobre as conexões Walverdes + MQN ao longos dos últimos dez ou quinze anos. Além de falar das nossas bandas, eu e o Fabrício damos uma geral sobre o cenário independente brasileiro e como a gente vem participando disso desde o meio dos anos 90.
Tu pode baixar a revista inteira (tem entrevista também com nosso conterrâneo Otto Guerra) aqui.
E, por fim, o recorte aí de cima é de uma pequena entrevista que o Marcelo Costa fez comigo pra Billboard desse mês. Com o The Who na capa. Nós e Who na Billboard, que beleza, hein? Pra completar, na mesma seção temos o Wado acima, as meninas do T.A.T.U. à direita e o Filipe Catto à esquerda. Excelente companhia.
Olha…
… bonitos.
Essas fotos são do Marco Chaparro pra Noize 31 que já tá online também com as imagens e uma rápida entrevista comigo e com o Patrick. Essa semana ainda sai a de papel, distribuição gratuita.
O que seria do Superguidis se não fosse o bom humor? A expressão que dá nome ao primeiro single/videodeyoutube do novo disco do grupo guaibense é, sem dúvida, um dos pilares da sua consistência. Nascida junto com uma leva bacana de bandas do Rio Grande do Sul, como a Publica e a Stratopumas, os Superguidis se destacaram pela opção de atuar em fronteiras lodosas: a flutuação (muito bem executada) entre o som sujo e as melodias pop; e também entre as letras simpáticas, amigáveis e os temas esquisitos, que muitas vezes só eles e alguns parceiros entendem profundamente. Não fosse o bom humor (e um inegável talento para melodias), os Superguidis seriam chatos como tantas outras bandas.
A cidade dos Guidis, Guaíba, oferece uma metáfora poderosa pra singularidade do seu som. Ela fica a 40 minutos de ônibus de Porto Alegre, mas poderia ser muito mais perto caso alguma empresa de transporte fluvial conseguiu vencer o lobby rodoviário e oferecer uma barca que simplesmente atravessasse o Rio Guaíba numa linha reta. Esse distanciamento específico, geografica e socialmente falando, oferece um ângulo de visão da capital ignorado pela maior parte dos portoalegrenses, a menos que eles sejam ricos proprietários de lancha, apaixonados por vela ou pescadores pobres, estratos sociais em que 100% dos indies locais não se encaixam.
Pra completar o lado nonsense da parada toda, até hoje ninguém sabe direito se esse tal de Rio Guaíba é de fato um Rio, um Lago ou um Estuário. Volta e meia especialistas trazem a discussão aos jornais, mas a população já se acostumou com a definição de Rio e no fundo (ou na beira), tanto faz. Afinal, essa esquizofrenia combina perfeitamente com o espírito da região e, em especial, com o jeitão de ser e tocar do Superguidis.
No papo abaixo, que tive por email com o vocalista e guitarrista Andrio, você confere um pouco mais do “pensamento superguidisiano” e dos planos para o terceiro disco, já gravado e em vias de ser lançado.
Conector: Me diz uma coisa, o que é que vocês fazem entre um disco e outro? Vocês tem um esquema tradicional tipo “Ensaios-Composição-GRavação-Lançamento-Turnê”? Ou vão tocando, compondo e gravando tudo ao mesmo tempo?
Andrio: Para esse disco a gente foi ensaiando as canções e gravando demos na garagem do Marco à medida em que elas iam surgindo, testando arranjos e timbres para chegar na hora e não patinar muito. Entre um disco e outro, rola exatamente isso: shows de lançamento, turnezinha e tal. Esse ano queremos inovar, lançando singles periódicos, de repente até em versão física pras rádios. Sabe como é, os caras ainda vivem nessa de ter o CD na mão, não catam coisa nova na internet…
Conector: Em que pé está o disco novo? O que está faltando? Alguma previsão de lançamento?
Andrio: Só falta finalizar a parte gráfica. Tá uma tijolada, o som. O nascimento do filhote tá previsto pra meados de março.
Conector: Onde foram as gravações? Em quantas sessões vocês fizeram?
Andrio: Foi novamente na casa do Philippe Seabra, no Daybreak Studio. O cara deu uma mão na produça também, mais ou menos como foi o segundo. Ficamos lá todo o janeiro de 2009, matamos o disco em poucos dias. O mais demorado se deu por conta de uma troca de válvulas do Mesa Boogie do
Seabra, aí foi engraçado porque passamos a gravar o disco de trás pra frente, adicionando voz valendo e violões, por exemplo. Tive que imaginar a dinâmica das músicas para adicionar punch nos vocais… essas coisas.
(Nota do editor: a maior parte das gravações de vozes acontecem depois que toda a base - guitarras, baixos, baterias, já está gravada)
Conector: Tem alguma coisa nova nesse disco que vocês trouxeram em termos de som?
Andrio: Sim, sessões de cordas (cello, violino) em algumas músicas. Tem coisa com o violão mais na cara, também, ao mesmo tempo que há coisas bem mais pesadas (no nosso parâmetro, obviamente), com muita pressão.
Conector: O som de vocês está indo pra algum lado específico? Ou vocês não tem a menor idéia de onde vai dar?
Andrio: Sei lá, cara… ainda surge aquela vontade de fazer canções sujas com pegadas pop. Mas acho que está se expandindo, agora. Até o áudio de um show inteiro de releituras acústicas vai sair junto com o terceiro disco. Ou seja: galera aqui tá ampliando os horizontes. Talvez daqui uns anos lancemos um disco de polka.
Conector: Qual é a vantagem de ver Porto Alegre do outro lado do rio? Mesmo que alguns de vocês morem aqui, viveram muitos anos em Guaíba, então imagino que vocês tenham uma outra visão da capital, que quem vive aqui não tem. Como isso influencia as músicas?
Andrio: Acho que influencia mais na atitude. A capital hoje está muito careta, conservadora demais. O que rola de mais bacana de shows está nos arredores, na região metropolitana. E disso eu tenho um certo orgulho, dá uma cara meio outsider. O Wander Wildner falou um dia que a parte guaibense da banda é o que a salva, se referindo a essas marras portoalegrenses… hehehe…
Conector: Pois é, eu tenho a clara impressão que o Superguidis mantém há muitos anos um ar forte de gangue, de clube fechado, com piadas e uma linguagem muito própria. Sem dúvida isso contribui pra personalidade e força do som. Vocês tem noção disso? Ou só vendo de fora pra notar?
Andrio: Sim, a gente é um tanto fora da casa. eu percebo que o nível de autismo por aqui é bem elevado, e engraçado que o ápice disso é justamente quando estão os quatro reunidos. Às vezes cansa de tanta maluquice que sai do repertório de baboseiras. Também, nos conhecemos há muito tempo, temos quase a mesma visão de mundo e fazemos questão de rir da nossa própria cara, de não nos levarmos muito a sério.
Conector: Ok, voltando à questões mais práticas: vocês têm uma política econômica pra banda? Tipo, limites mínimos de cachê, de estrutura pra tocar? Ou vocês analisam caso a caso?
Andrio: Analisamos os casos. Um exemplo é uma tour de dez dias no norte que estamos fechando pra abril,
onde é possível que não haja lucro. Mas como a gente ainda não explorou horrores esta região, vale muito a pena só o fato de o cara empatar e não ter prejuízo financeiro. Vai ser divertido: guidis desbravando a floresta amazônica e arredores! Queremos fazer isso nos outros cantos do país… e com disco novo embaixo do braço este ano, vai ser supimpa.
Conector: Quem marca os shows e faz a correria da banda?
Andrio: Agora estamos trampando com um brother de longa data (Ernando Daitx, também guitarrista da ProzaK). Ele que está cuidando de marcar shows desde o ano passado. Ele também viaja junto com a gente e ataca de roadie. A gente procura articular junto com o Fernando Rosa, mas a coisa tende a se espalhar mais esse ano, fechando parcerias com gente de fora do estado para agendar coisas lá pra cima.
Conector: Como funciona a parceria com o Senhor F?
Andrio: A gente é gratíssimo em fazer parte desse cast, que nos trouxe uma grande visibilidade ao longo da metade da década passada para cá. Temos a plena certeza de que estamos no caminho certo, crescendo junto com o selo rumo a algo maior, sem abrir mão da integridade artística rumo a afobações, sabe? não queremos essa coisa de hype, de fenômeno descartável e sem consistência, sem conteúdo, e sim consolidar uma carreira construída em cima de três discos (até agora). Para o alto e avante, sem atropelos.
***
Não deixe de conferir as outras entrevistas que fiz com gente bacana como Jonathan Harris (do We Feel Fine), a artista americana Joana Sohn, o pessoal da finada Mono (hoje Sound and Vision e Needles and Pins), o André Takeda e o Léo Lage.
“No fim dos anos 90, quando a internet surgiu no nosso cotidiano, ela era vista por muitos pensadores como um ambiente livre, com uma circulação de informação que iria naturalmente libertar o mundo de uma série de amarras sociais. Quinze anos depois, a força da internet é inegável, mas as preocupações em torno dela mudaram um pouco.
Hoje também é preciso sustentar a ideologia libertária da internet no plano teórico mas, junto com isso, também temos que buscar formas práticas de acesso universal, como computadores, cabos, satélites, linguagens e preços que promovam a inclusão de grandes fatias da população mundial na rede para garantir que ela cumpra sua profecia democrática.”
Escrevi esse texto em janeiro e ele foi ao ar essa semana no Minimalismo da Oi. De lá pra cá, esbarrei em dois textos bastante interessantes que tangenciam o mesmo assunto: as limitações da mobilização no ambiente online. Esse é um tópico perigoso porque se presta rapidamente a ser transformado em uma cantilena baixa do estilo “vida digital vs vida real” - como se hoje as atividades em dispositivos e mídias digitais já não fossem parte do que costumamos chamar de “vida real”.
Mas eu parto do pressuposto que eu e você vamos conseguir evitar cair em visões extremadas, tanto para um lado quanto para o outro. Também acredito que já exista uma base sólida o suficiente pra começarmos a questionar a validade das mobilizações sociais e culturais na internet como se fossem um fim e não um meio. Não precisamos demonizar a internet ou os computadores para admitir, sem medo de ser feliz, de que muitas vezes é mais fácil interagir com uma interface digital do que botar a mão na massa quando se trata de resolver certas questões cabeludas, seja em nossas relações pessoais ou coletivas.
Na Época da semana passada, o Evgeny Morozov (pesquisador, editor da Foreign Policies e do blog Net Effect) questionou fortemente o ativismo online, admitindo que o uso da internet “reduziu muito os custos de publicação e tornou mais fácil encontrar apoio” mas também perguntando “quem garante que esses apoiadores serão realmente úteis ou estarão dispostos a ir às ruas?” Classificando grande parte das ações sociais na internet como “slacktivism” (ativismo preguiçoso), Morozov não negou o uso da web, mas trouxe à tona a necessidade dos ativistas de conhecer melhor estratégias tradicionais.
Com um discurso mais informal, a Renata Lemos também levantou uma bola parecida no seu blog com um post que traz um título mais alarmista. Em “Alô, os bandidos estão lá fora!”, ela cita Umair Haque e Derrick Jansen pra dar basicamente o mesmo recado do Morozov: é preciso mais do que indiginação digital pra resolver questões econômicas, climáticas e sociais.
Concordo totalmente com o Morozov e com a Renata, mas aproveito pra levantar mais uma sobrancelha e tentar indicar uma distorção na mensagem deles que pode vir a surgir.
Grande parte do que conhecemos como ativismo social hoje tem a ver com ações de grande impacto na mídia. É um subterfúgio criado por grupos como o Greenpeace. Quer queiram ou não, podemos considerar esses grupos avôs do hoje tão comentado marketing de guerrilha, que nasceu da necessidade de dar o máximo de exposição a causas que tinham pouca verba para compra de espaço formal em veículos de massa. Já vi chamarem isso de “media hijacking”, sequestro de mídia.
O problema é achar que todo e qualquer ato que traga mudança social precise ter cara de espetáculo. Invadir as ruas (ou a rede) com slogans inteligentes, imagens bem sacadas e ações inusitadas que gerem factóides dissemináveis não pode ser confundido com a essência da mobilização social. Afinal, quantas pessoas não estão por aí, sem nenhuma conexão com mídia, fazendo trabalhos incríveis enquanto metidas em verdadeiras reentrâncias sociais? Será que todas elas precisam mesmo de uma grande exposição pra fazer o seu trabalho? Acho que não. A necessidade de exposição exacerbada é uma invenção da nossa era e não precisa ser seguida cegamente.
Tenho conhecido, nos últimos anos, incríveis pensadores e articuladores sociais fazendo uma grande diferença, utilizando as ferramentas que tiverem à mão pra trabalhar (inclusive a internet) e gerando pequenos pontos de distensão no tecido social sem precisarem serem conhecidos, sem precisar de muito espaço na mídia, sem precisar de números fabulosos (seja em dinheiro, audiência de TV, views ou membros de comunidade). São terapeutas, assistentes sociais, praticantes espirituais, empresários, médicos, educadores, publicitários, contadores, jornalistas, programadores, gente “comum”, sem um grande número de followers mas que, com seu trabalho bem feito no dia-a-dia (e até tentando resolver suas questões pessoais) me dão uma visão bastante diferente do que pode significar mobilização e mudança social.
Não tenho muita certeza sobre o futuro. Mas já faz alguns anos que acredito que o trabalho de formiguinha (e não as ações espetaculares) é que vai sustentar a possibilidade de uma convivência melhor nesse planeta em todos os âmbitos. Na verdade, a vontade individual de gerar mudanças grandiosas, pode acabar se revelando, em vez de um sentimento altruísta, uma neurose, um complexo de grandiosidade que nem sempre traz frutos genuínos e duradouros.
Nesse sentido, mais do que nunca, menos pode ser bem mais.
Bom, na verdade essa entrada na Biblioteca não é bem um livro, mas um artigo que saiu na Folha no ano passado no qual o historiador inglês Peter Burke fala sobre processos de criação em invenções como a prensa de Guttenberg e as classificações da linguística. O ponto dele é simples: quase toda nova tecnologia se nutriu de caminhos previamente trilhados em disciplinas alheias.
Ou seja: advogar pureza de métodos e mundos na busca por uma nova solução em qualquer área é como entrar no carro e sair dirigindo com o freio de mão puxado. Os argumentos de Burke não são difíceis de serem abraçados. Seja por observação empírica, seja pelos inúmeros exemplos históricos, é bastante claro que desenvolver soluções novas e eficientes passa obrigatoriamente pela colisão de mundos e de formações.
Em publicidade, mantras como “você precisa sair da agência”, “você não pode viver só de referências de publicidade”, que no passado precisavam ser repetidos à exaustão, hoje são parte do vocabulário de qualquer estagiário. Embora ainda exista uma nefasta cultura de pessoas praticamente morando dentro de agências, todo mundo ao menos sabe que é preciso evitar a retroalimentação. Então a arte da hora é fazer a conexão entre suas experiências particulares extra-agência (praticamente todo criativo que eu conheço hoje as tem) e o trabalho dentro da agência. É muito fácil encontrar grandes obstáculos pra fazer a síntese dos dois universos e a diversidade de experiências se transformar em frustração. Digo por experiência própria.
De qualquer forma, é fundamental aprender a valorizar essas vivência extra-dayjob não como uma atividade marginal ou como hobby, mas como parte integral da formação de quem trabalha com publicidade e marketing. Por exemplo, tudo que aprendi sobre narrativa e construção de personagem eu devo à leitura massiva de quadrinhos durante anos e anos. Tudo que eu aprendi sobre as tais novas mídias e sobre comportamento em mercados de nicho eu devo a tocar e ajudar a produzir os Walverdes há 17 anos. E por aí vai.
Bom, eu falando é uma coisa. O Peter Burke falando é outra. Por isso incluí a leitura desse artigo na Biblioteca Conector. Ele provê uma plataforma bastante interessante e bem mais embasada pra reflexões nesse âmbito. Bom proveito.
Como o conteúdo do artigo na internet é restrito a assinantes da Folha, eu subi aí um scan que me mandaram aqui na agência. É só clicar em cima da imagem que abre o post que ela aumenta e dá pra ler na buena. Ou tem uma transcrição aqui.
Bom proveito.
***
A Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis reúne livros e artigos pra quem se interessa por estudas novas manifestações e usos de meios de comunicação. Em outras palavras, pra entender essa baguncinha aí. Pra saber mais, leia a introdução.
Pra ver todos as entradas, clique aqui.
Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.
Estou indo viajar por uns dias. Enquanto isso, você tem os parceiros d’Oesquema aí em cima para se informar e se divertir. Também sugiro que você dê uma olhada no site do Dharma/Arte, de onde eu tirei essa ilustração do Allen Ginsberg. Lá tem uma série de textos sobre criatividade sob um outro ponto de vista, e entrevistas com o próprio Ginsberg, Philip Glass, entre outros figuras.
Até.
Freqüentar palestras de publicidade, nos últimos, digamos, quatro ou cinco anos, têm sido desafiador para a paciência. Mesmo em eventos de porte, como o Festival de Cannes, é comum a sobreposição de assuntos e exemplos, de forma que no terceiro dia você já começa a ter intensas experiências de déjà vu, para não falar de desagradáveis flashbacks nas semanas seguintes.
Ok, os mais radicais vão me lembrar que festivais de publicidade não são lugar de novidade, novidade MESMO. Ainda assim, acho que a coisa está um pouco demais. O que posso fazer, além de tentar evitar esses assuntos e exemplos nas minha eventuais palestras, é compartilhar uma singela e sincera listinha com os temas que, sugiro, deveriam ser sumariamente DELETADOS desses encontros.
Vamos lá.
1. O consumidor está no poder.
Caso ninguém tenha percebido, o consumidor sempre esteve no poder. Agora ele só tem um megafone na mão. Megafone esse que será usado para gritar bem pertinho no ouvido dos palestrantes de publicidade: NÃO-PRECISA-MAIS-REPETIR-ISSO.
2. A internet veio para ficar*
Sério? Há controvérsias. O senhor de 112 anos que mora num casebre atrás do sítio do primo do meu amigo sem luz, telefone e água encanada acha que a internet é um modismo. Então talvez ainda vejamos alguns palestrantes por aí pregando desnecessariamente que “a internet é uma revolução sem volta”.
3. A criatividade pode vir de qualquer lugar
Frase muitas vezes dita com gosto por executivos que não sabem como coordenar suas equipes e pra quem entregar determinados trabalhos. Tira a responsabilidade das costas de muita gente e por isso espero que em 2010 ela suma das palestras de publicidade e quem sabe vire assunto de gestão no HSM Expo Management.
4. Quem não inovar, está morto.
A frase mais dita por gente sem imaginação nos últimos 200 anos. E ainda é mentira: muita gente que não inova está vivo, bem como muitas marcas e empresas. A quem duvidar, recomendo que leia a matéria sobre os Biscoitos Globo na revista Piauí número 32. E tem mais, mesmo que fosse verdade, a frase já cansou. É antiga, retrógrada e exclusivista.
5. A força do boca-a-boca
Outra incrível descoberta dos últimos tempos: o consumidor acredita mais no seu amigo de infância do que num comercial de televisão com um ator que mal chegaria perto dele dizendo frases elogiosas porque foi muito bem pago por uma multinacional com doze milhões de funcionários que investe um bilhão de dólares em publicidade pra tentar convencê-lo de que aquele amontoado de produtos químicos perigosos são um sabonete que faz bem pra pele. E você ainda se surpreende que as pessoas confiam mais na indicação de amigos? Chega né?
6. Não existe diferença entre o mundo online e offline
Existe sim. Ninguém na vida real (fora o Roberto Carlos) tem tantos amigos e vê tantas fotos deles quanto no Orkut. O mundo online e o mundo offline tem diferenças importantes e essa frase não só vem sendo repetida à exaustão como não foi pensada direito pela maior parte das pessoas que a repetem. O que não foi bem pensado, é melhor que caia fora do PPT.
7. A verdadeira agência de publicidade é on e off.
Primeiro você monta uma agência assim. Daí você constrói um bom número de cases sólidos dentro desse escopo com clientes de porte. Em seguida, você mantém essa filosofia por no mínimo 3 anos. Não, 5. Aí, só aí, você coloca essa frase na palestra.
Obrigado.
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Ah: aceito colaborações para uma segunda lista.
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Créditos dos desenhos na ordem: Robert Crumb, Allan Siber,Will Eisner, Rafael Sicca, David Mazzuchelli, Jano, Fábio Zimbres.
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* “A internet veio para ficar” is a trademark registered by Joviano Quatrin.
Eu não sei bem qual é a reputação do Francis Alÿs no mundo das artes - e minha pesquisa no Google não foi muito longe. Mas no meu mundo o trabalho do Alÿs se equilibra realmente no limiar entre a reflexão consistente e o mero factóide, a mera construção de uma imagem ou uma história pra gerar bochicho. Uns poucos centímetros mais pro lado e o cara já passaria por uma coisa assim meio pra gerar excitação em vez de gerar significado.
Felizmente, tenho a impressão de que seu trampo tem um pouco dos dois: quase sempre ele gera imagens icônicas, bacanas, atraentes, que servem de gancho para um mergulho mais profundo. Por exemplo, esse adorável cãozinho de material magnetizado que ele puxou atrás de si, como quem passeia com um cachorro de verdade, pelas ruas da cidade do México.
Como era de se esperar, o cão de metal atraiu uma série de detritos metálicos, gerando uma espécie de carapaça. Assim, sem mais nem menos, “The Collector” é uma metáfora tão simples da interação das pessoas com o espaço urbano que chega a ser comovente: todo mundo que caminha por uma cidade leva consigo resquícios da caminhada, seja um pouco da poluição sonora, visual ou atmosférica; sons, cheiros, imagens que preenchem o espaço físico e mental do sujeito, criando também uma espécie de carapaça cuja presença fica bem clara quando ela some depois de um puta ducha no fim do dia - você sabe do que eu estou falando, não?
Bem, o fato é que na tal exposição do Macba que eu vi, o cãozinho de metal recoberto de trecos estava lá, exposto, junto com mapas detonados e marcados com os trajetos de Alÿs na construção da sua “obra”. Se como idéia e como processo o “The Collector” (não vamos esquecer que uma das primeiras atividades do ser humano para sua sobrevivência foi justamente a coleta) é interessantinho, com a presença daquele objeto meio “cão do robocop de terceiro mundo” dava um outro colorido à obra. Ele era mais do que o objeto central da ação, mas, ali no museu, se transformava num gancho muito mais simpático do que os mapas ou qualquer outro material de apoio pro espectador se apoiar em busca de entender o que havia acontecido.
***
Nenhum artista deveria negar uma muletinha que seja ao público. Não precisa ser grande, pode ser uma muletinha do tamanho de um palito de dentes. Já ajuda.
***
O caso de Paradox of Praxis é covardia. Nele, o Francis Alÿs empurrou uma barra de gelo pela cidade até ela se derreter completamente. Mais uma vez, embora a ação em si seja poderosa, o que conta, o que pega o espectador pelo cangote é a imagem gerada. Uma coisa é você ler ou alguém lhe contar sobre um artista empurrando uma barra de gelo das 9h15min às 18h47min. Outra bem diferente é ver a foto acima.
Esse é bem o tipo de obra que despera desconfiança em muita gente quanto ao objetivo da arte contemporânea. É muito fácil fazer piada com The Paradox of Praxis (veja o vídeo aqui), mas eu acredito que seja mais difícil de rir quando se percebe que ela espelha grande parte das ações humanas face a conceitos como morte e impermanência. Tipo… HOHEUAHAOPEUAHEEHEOEUAHEUAHEUHOUHA…. HAHAOPEUEHASUHAHOPUIEHAH…. HAUEHOHAUA… HAHAHA… HA… HA HA….. HA…. ahn…. bem…
Quem aqui, de certa forma, não está empurrando uma barra de gelo?
(continua)
É hoje…
… no Goiânia Noise.
Juntos no palco mesmo. Tipo Paralamas + Titã…
3 do MQN + 3 do Walverdes + 2 covers.
Já estamos em Goiânia desde quarta à noite pros preparativos.
E logo depois tem Supersuckers.
Depois eu conto.
***
A foto dos Walverdes é lá em Cuiabá. Saiu daqui.
Vale
Una vida lo que un sol
Una vida lo que un sol
Vale
Se aprende en la cuna,
se aprende en la cama,
se aprende en la puerta de un hospital.
Se aprende de golpe,
se aprende de a poco y a veces se aprende recién al final
Toda la gloria es nada
Toda vida es sagrada
Una estrellita de nada
en la periferia
de una galaxia menor.
Una, entre tantos millones
y un grano de polvo girando a su alrededor
No dejaremos huella,
sólo polvo de estrellas.
Vale
Una vida lo que un sol
Una vida lo que un sol
Vale
Se aprende en la escuela,
se olvida en la guerra,
un hijo te vuelve a enseñar.
Está en el espejo,
está en las trincheras, parece que nadie parece notar
Toda victoria es nada
Toda vida es sagrada
Un enjambre de moléculas
puestas de acuerdo
de forma provisional.
Un animal prodigioso
con la delirante obsesión de querer perdurar
No dejaremos huella,
sólo polvo de estrellas.
Você já deve ter visto por aí em algum lugar: o rockstar da reportagem pop Malcom Gladwell publicou esse ano Outliers, Fora de Série. O livro, da mesma forma que Blink e o Tipping Point, é como uma grande reportagem que, no caso, investiga os fatores que fazem dos gênios pessoas tão especiais e com habilidades tão incríveis.
Diferente do que muita gente acha, advoga Gladwell, essas pessoas não dependem unicamente do talento, mas também de ambiente e trabalho duro, intenso, por um longo tempo. Segundo a tese de Outliers, gente como os Beatles e Bill Gates tem em comum o fato de terem praticado no mínimo dez mil horas da sua atividade antes de começarem a produzir material relevante. Já postei aqui um vídeo em que o próprio autor exercita esse raciocínio em cima da carreira do Fleetwood Mac.
Mas o ponto aqui não é falar pela milésima vez do Gladwell. O que eu queria pedir aqui é que você tenha paciência. Eu dedico cerca de quatro horas por semana ao blog. Às vezes bem mais, às vezes bem menos. Mas em média dá isso. E comecei o blog no final de 2005. Trabalhando nele quatro horas por semana, significa que vou demorar uns 48 anos pra atingir a maestria nos posts.
Ou seja, se você não tiver pressa, lá por 2054 vai começar a ler coisas absolutamente geniais por aqui. Espere que provavelmente vai valer a pena.
***
Imagem: roubada da Heather Horton.
Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
Já nessa quinta à noite embarcamos pro glorioso Festival Calango pra redimir nossa ausência em cima da hora no ano passado. Em 2008 tive que cancelar nossa ida por conta de uma pneumonia, mas sexta-feira estaremos lá e MUITO BEM ACOMPANHADOS. Logo depois da gente toca o Emicida, de quem o Bruno vem falando bastante e que quero muito ver ao vivo.
Um pouco mais cedo toca o Fuzzly, que já vi no Goiânia Noise há alguns anos e estou a fim de ver como anda, pra não falar do conterrâneo Wander e dos locais Macaco Bong. E isso é só uma palhinha. Tem muito mais aqui.
***
Caminho espiritual é um assunto complicado. Pra começar, é um pouco como a noção de “bom senso”: cada um tem o seu. Em segundo lugar, muita gente tem aversão a termos como “caminho espiritual” ou “espiritualidade” porque lembram de péssimas experiências religiosas de infância, geralmente mais ligadas a protocolos sociais do que propriamente a uma busca sua, genuína e de coração. E, por último, falar de caminho espiritual também traz junto conceitos difusos e errôneos como passividade lacônica (”hoje não fiz nada o dia todo, fiquei bem zen”), idealismo ingênuo ou relações bastante superficiais com coisas como maconha e ácidos meia boca.
Pra efeito de você ir adiante nesse post, vamos tentar fazer um acordo que vale ao menos aqui no Conector: caminho espiritual não é aquela missa de domingo que você ia quando criança e nem tampouco as lajotas se liquefazendo depois que você tomou aquele AC no carnaval. Também não vale aquela discussão sobre Matrix ou aquela super ficha que caiu quando você resolveu TODOS seu problemas depois de ficar olhando o mar de cima do Morro da Guarita em Torres por duas horas.
O caminho espiritual de que vou falar aqui, combinemos, tá mais pra 1) quando a gente procura resolver nossas questões mais profundas olhando pra dentro e não pra fora, e 2) faz isso de forma mais ou menos constante, como parte do dia-a-dia e não apenas como uma experiência de fim de semana ou como um tipo de férias da vida comum.
Bom, se você mais ou menos concorda com esse postulado e o acha simpático, vamos lá: é sobre isso que fala Jack Kornfield em “Depois do Êxstase, Lave a Roupa Suja”. Reconhecido professor de meditação nos Estados Unidos, Kornfield entrevistou dezenas de outros mestres e contemplativos do budismo, hinduísmo, judaísmo, sufismo e outros ismos pra falar dos descaminhos, acostamentos, desvios, obstáculos, enfim, do “Lado B” da busca pelo fio da meada da mente e do coração humanos.
São cerca de 250 páginas com centenas de depoimentos costurados pelo texto simples e direto de Kornfield. Grande parte das histórias traz revelações íntimas, algumas pesadas, como problemas com a família, períodos de vida depressivos, cisões em comunidades espirituais, desprezo ao corpo, entre tantos quebra-molas que aparecem e que, como os relatos insistem em ratificar, devem ser trazidos para o caminho em vez de serem tratados como anomalias. Parágrafo após parágrafo, essa parece brotar como a grande mensagem de “Depois do Êxtase…”: o caminho espiritual é um caminho de inclusão dos obstáculos, de desenvolver a habilidade de lidar, dançar com eles e não de eliminá-los. Como diz Kornfield a certa altura, “não existe aposentadoria iluminada”.
A busca por respostas internas, segundo vários depoimentos, pode até passar por experiências de êxtase ou de transcendência (seja lá o que isso significa). Mas ficar preso a uma dessas experiências, sublinha-se repetidamente, pode trazer mais apego e mais dificuldades em vez da tão almejada liberdade. Na essência dos caminhos espirituais genuínos está uma mente aberta e inclusiva. Diz um mestre entrevistado:
“Sob vários aspectos, a transformação espiritual das décadas passadas é diferente do que eu havia imaginado. Sou ainda a mesma pessoa esquisita, com o mesmo estilo e maneira de ser. Por fora, não sou aquela pessoa incrivelmente transformada e iluminada que eu queria ser. Mas por dentro a transformação é grande. (…) Minha vida era como uma garagem entulhada, onde eu ficava trombando com os móveis e me julgando. E agora parece que eu mudei para um hangar que está sempre com as portas abertas. Tenho as mesmas coisas, mas elas não me limitam mais como antes.”
Essas não são apenas idéias de religiosos. Além de pessoas ligadas a caminhos espirituais formais, Konrfield se vale de constantes citações de outros buscadores, como escritores (Walt Withman, Alice Walker, Rainer Maria Rilke, TS Elliot), ativistas (Martin Luther King, As Mães da Praça de Maio) e outras referências célebres (Anne Frank, Carl Sagan, Joseh Campbell). O mosaico pode parecer indigesto e um tanto quanto new age, mas funciona para abrir um pouco o escopo de experiências e mostrar que, por mais diferentes que sejam as trilhas, os calos nos pés são comuns a todos os caminhantes. Não existe ninguém especial. Todos são especiais.
Conclusão da história: o mundano e o espiritual não são excludentes. E, provavelmente, talvez não sejam nem mesmo duas coisas separadas. Ou, como diz o poeta beat, pai e professor zen Gary Snider:
“Todos nós aprendemos com o mesmo professor - a realidade… pôr as crianças na perua escolar todas as manhãs é tão difícil quanto cantar os sutras no salão do Buda nas manhãs frias. Uma coisa não é melhor que a outra, as duas podem ser aborrecidas e ambas têm a virtuosa qualidade da repetição. A repetição e seus bons resultados transformam as atividades da vida no caminho.”
***
Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey, da biografia da monja inglesa Tenzin Palmo e das memórias do ex-monge búlgaro Nikolai Grozni.
Nikolas Grozni era um simples jovem búlgaro, estudante prodigioso de jazz, treinado desde os 4 anos em piano clássico e mais tarde aceito na famosa faculdade de música de Berkeley. Como qualquer jovem, búlgaro, estudante e prodigioso, Grozni passava seus dias às voltas com os bundalelês da faculdade, tocando a vida à base de bebida, maconha, sexo, Coltrane e muito questionamento existencial.
Porém, enquanto as buscas existenciais de muitos eram sufocadas com os anestésicos comuns à idade, Grozni acordou um dia com seu bichinho da curiosidade atiçado e foi atrás de respostas mais decentes. Foi assim que se aproximou do budismo e foi assim que começou a ler filosofia budista e praticar meditação por conta própria. A certa altura do campeonato, entretanto, algumas fichas mais pesadas caíram e ele acabou abandonando o dia-a-dia de universitário pra pedir ajuda aos universitários, abraçando a vida monástica na India.
Turtle Feet é o livro de memórias do período indiano de Grozni e cobre seus três anos de estudo de tibetano e dialética budista, bem como sua ordenação de monge do Budismo Tibetano e suas tremendas confusões ao lado de habitantes do underground de Dharamsala. À primeira vista, a contracapa de Turtle Feet engana pois promete uma visão ácida do autor a respeito das instituições monásticas. Mas, mesmo com opiniões contundentes e fatos curiosos pra sustentar seu ponto de vista, no fim o que Grozni faz é reforçar a necessidade de uma mente crítica e aberta para quem quiser ir além de um olhar superficial da vida, seja dentro de uma estrutura religiosa ou não.
Grande parte do livro, na verdade, é calcada nas muitas desventuras vividas por Grozni ao lado das figuraças que formavam seu círculo social em Dharamsala. A principal delas é Tsar, um refugiado da guerra da Iugoslávia sem documentos e nem dinheiro que também se ordenou monge mas que largou os mantos pra viver da ajuda de eventuais namoradas ou de negócios bizarros. O melhor de todos, sem dúvida, é a padaria que improvisa no seu barraco, instalando resistências elétricas direto no assoalho para usar o cômodo principal como forno.
Tsar é a grande estrela de Turtle Feet e, como personagem, serve de porta-voz das idéias mais dissonantes de Grozni. Durante toda a segunda metade da narrativa, Tsar discursa incansavalmente sobre o absurdo da existência humana enquanto procura por sexo e se mete em problema atrás de problema no que parece ser o roteiro perfeito para uma Sessão da Tarde. Sem passaporte, por ter jogado fora o seu durante uma crise de identidade, Tsar é um cara flutuando entre definições, sem nacionalidade, sem destino, sem plano de vida concreto, sem futuro. Ou seja, no fundo é como qualquer um de nós.
Ou seja, o que faz de Turtle Feet um livro interessante e cômico não são as dificuldades particulares que um ocidental enfrentou para se tornar um monge budista, mas sim as dificuldades universais de quem tenta se encontrar. Por mais bizarras e únicas que sejam as situações que Grozni viveu na India, a impressão que se tem é que por baixo de todas as cascas culturais e circunstanciais de cada capítulo, temos contato direto com o dramático e hilário recheio que se encontra dentro de qualquer pessoa em qualquer coordenada deste estranho planetinha.
Pois então. Alguém me mandou esse texto do Russel Davies na Wired.
Na primeira metade do artigo, ele compara a internet com a visão do espelho do hotel (hotel bom, né) quando você se posta em frente a ele cansado de uma longa viagem: a soma daquela luzarada toda e daquele espelho enorme resultam em uma ridícula cara de pastel murcho que apanhou consideravelmente de algumas conexões, horas em aeroportos ou turnos na poltrona apertada. O espelho do hotel (hotel bom, né) depois de uma longa viagem, em suma, não mente de forma alguma.
Igualmente, diz Davies, a internet. E, no artigo, envereda por uma argumentação interessante que envolve algumas descobertas constrangedoras que podem nos acontecer na relação com meios digitais. Por exemplo: você toma todo o cuidado do mundo pra selecionar fotos e ângulos pro seu perfil no Orkut ou Facebook e um dia aparece uma foto sua todo troncho às duas da manhã no churrasco da firma no perfil de outra pessoa. E você é tagueado e foi-se por água abaixo sua inconsciente tentativa de branding pessoal lá no seu perfil. Outra. Você constrói seu Mii (seu avatar no Wii) tendo o poder de colocar o tamanho da barriga que quiser, mas então compra um Wii Fit, que calcula sua massa corporal e, sem o menor pudor, CORRIGE a sua circunferência de acordo com os cálculos do Fit. É a transparência das mídias digitais ultrapassando a furada cultura do Photoshop mental.
Apesar de não conhecer profundamente essa história, sei que a visualização mais ou menos decente de uma auto-imagem em larga escala é um fato recente para a humanidade. O protótipo do espelho moderno, feito com vidro, é do século 16, criado em Veneza, cidade famosa por sua expertise nessa área. É dessa época, portanto, o surgimento de uma visão mais acurada que uma pessoa poderia ter dela mesma, sem as tantas distorções que os espelhos anteriores promoviam, já que eram feitos de metais polidos. Ainda devemos considerar que demorou mais um bocado para que um simples espelho não fosse um artigo de luxo e não ficasse restrito à elite fedorenta (literalmente) do momento.
Talvez o passo seguinte na auto-visualização tenha sido a fotografia, que deu as caras na sua forma moderna no século 19, mas que só se popularizou de fato no século 20. Se formos falar de imagem em movimento, gravação em filme ou vídeo, também vamos falar de fenômenos recentes e extremamente restritos. Nem todo mundo teve grana para adquirir uma 16 milímetros ou mesmo uma câmera de VHS, equipamentos custosos, de manuseio peculiar, dedicada aos apaixonados por cinema, vídeo ou pais de família altamente interessados nesse tipo de registro, do tipo que faz coleção de fitas das férias.
Em outras palavras: como espécie, o ser humano não tem uma vasta experiência em se enxergar. Não somos exatamente especialistas nisso, certo?
Ok, vamos adiante.
De repente, vem o computador pessoal, as câmeras digitais em dez vezes de 35 pitombas e os celulares com câmera de grátez. E, na esteira, o Orkut e o YouTube. Pronto. Surge a hiper-auto-visualização. Não só nos enxergamos mais, como nos enxergamos em diversos ângulos, em movimento, com correção de cor, efeitos ou não, em diversos tamanhos de tela e as mais variadas resoluções (numa ironia cíclica, estamos nos vendo muitas vezes em pixels, como talvez as primeiras pessoas se viram em espelhos de metais polidos).
Quer queiramos ou não, na última década começamos a nos enxergar bem mais, ao menos quantitativamente falando. Como consequência, a intimidade com as câmeras (um termo até recentemente reservado às celebridades) e com a auto-visualização se espalharam de forma endêmica, sendo imposta aos que nasceram antes dos anos 80 e acolhida como protocolo do momento por quem nasceu depois.
À profusão de meios de produção de imagem (câmeras) somamos a multiplicação de meios de difusão (internet, celular, canais de televisão etc). E assim estamos exercendo uma das matemáticas mais interessantes dos últimos séculos ao multiplicar brutalmente o olhar do outro sobre nós.
Sim, porque se olhar no espelho (ou na vitrine ou na telinha) nada mais é do que simular o olhar de outrém, primeiro sobre nossa forma (corpo, roupas, trejeitos) e mais profundamente sobre nossos pensamentos, opiniões e crenças. Não tenho muito a contribuir para falar desse tema (o olhar do outro), porque realmente não pensei muito no assunto.
Só queria levar o texto até aqui e passar uma marca-texto sobre o fato de que estamos multiplicando o olhar do outro sobre nós, queiramos ou não, seja isso parte da nossa contemporaneidade ou não, achemos isso excessivo ou não. E ressaltar, também, que dessa forma talvez todas aquelas fantasias ou metáforas a respeito de estados políticos ou empresas com complexo de Big Brother, que tudo observam e tudo controlam, passam a se dissolver nos bilhões de “brothers” que habitam o planeta junto com a gente. Sem querer, somos nossos próprios big brothers. E aí dá pra relaxar. Não é preciso mais achar um único, onipotente e grande irmão culpado de nos observar. Talvez ele esteja deitado na cama ao nosso lado, talvez seja nosso vizinho de porta ou talvez ele seja aquele rosto levemente familiar no espelho.
É algo que todo mundo pensa mas ninguém fala abertamente. É uma espécie de tabu conceitual. Um assunto pairando, um vespeiro que é melhor não mexer. O preço absoluto das coisas é como, já falei aqui, o bom senso: cada um tem o seu. É o seu preço do coração, que não obedece a qualquer lei de mercado ou lógica cartesiana. Na minha opinião, por exemplo, é ridículo que muitos carros custem mais do que apartamentos.
Portanto, eu, Gustavo Bittencourt, declaro que acho que as seguintes coisas deveriam custar os seguintes preços.
CD - 5 reais.
Ipod - 50 reais.
Laptop - 800 reais
Computador de mesa - 500 reais.
Camiseta básica da Hering - 10 reais.
Um Palio completo (ar, direção hidráulica, trio elétrico) - 10.000 reais
Um blackberry - 50 reais
Um iPhone - 80 reais
Mp3 Player de camelô - 15 reais
Pen Drive 2GB - 15 reais
Pen Drive 4GB - 18 reais
Apartamentos de três quartos em geral - 50.000 reais
Apartamentos de um quarto em geral (com cozinha americana) - 10.000 reais
Carrão importado - preço máximo de 40 mil reais.
Uma consulta médica particular (qualquer) - 50 reais
Um bom jantar num restaurante fino - 30 reais por pessoa
Um jantar razoável num restaurante qualquer - 10 reais
Uma pizza BOA grande - 18 reais
Uma pizza RUIM grande - 5 reais
Uma água sem gás (500ml) - 50 centavos
Uma água com gás (500ml) - 45 centavos (tem menos água devido ao gás)
Um ingresso de cinema - 10 reais (todos os horários, todas as idades)
Um ingresso pra filmes como Transformers - 2 reais
Um ingresso pra show do Queens of The Stone Age em Porto Alegre - 25 reais
Um pacote com seis pares de meias das BOAS - 12 reais
Um pacote com seis pares de meias que estragam rápido - 3 reais
Um saco de pipoca BOA - um real
Uma revista Veja - dois reais
Uma revista Época - quatro e cinquenta
Uma graphic novel - 12 reais
Um casacão pro inverno gaúcho - 80 reais
Um amplificador Fender valvulado (que dê pra tocar no Jeckyll): 1.200 reais
Assinatura do Net Combo - 45 reais
Assinatura do Net Combo com HBO - 55 reais
Passagem aérea Porto Alegre - São Paulo (Congonhas) - 100 reais ida e volta
Passagem aérea Porto Alegre - São Paulo (Guarulhos) - 80 reais ida e volta
Passagem aérea Porto Alegre - Florianópolis - 20 reais ida e volta
Cerveja 600 ml - 1 real
Latinha - 50 centavos
Uma calça Levi’s - 75 reais
Um livro bom e grosso do Phillip Roth - 25 reais
Um livro bom e fino do Phillip Roth - 15 reais
Um livro meia boca qualquer - 5 reais
Cachecol preto básico de lã - 15 reais
Tênis Adidas Originals - 30 reais
Havaianas basicona - 2 reais
Havaianas de estilista - 10 reais
Havaianas de cartunista - 10 reais
Havaianas com desenho fashion - 8 reais
Havaianas da Coca Cola - você recebe 100 reais pra usar um verão
Chá Twinnings - 5 reais uma caixa grande
Uma cola bastão Pritt - 1 real
Um pacote com mil canetas bic - 12 reais
Pedágio pra praia - 1 real
Pedágio pro interior - 50 centavos
Diária no Formule 1 da Consolação - 12 reais
Download de 1 mp3 - 75 centavos
Dowload de 10 mp3 - 5 reais
Um HD externo de 500GB - 30 reais
Ingresso pra qualquer museu do país - 10 centavos
Meio quilo de damasco seco - 5 reais
Uma cartela de Tylenon 750 - 50 centavos
Pãozinho com manteiga no couvert do restaurante - 1 real (em todo Brasil)
Água de Côco - 50 centavos em todo Brasil
Biquínis legais - 35 reais
Bermuda de entrar no mar - 30 reais
Bermuda cargo boa - 25 reais
E por aí vai.
Toda segunda tem Autopista. Clica na imagem pra ver esse lindo desenho maior.
Black Francis em 1989 tocando Wave of Mutilation (aquela versão mais calminha). E é no Other Side of Midnight, programa de TV que foi só uma das várias empreitadas do Tony Wilson que se tornaram uma espécie de eixo da cena musical de Manchester na virada dos 80 pros 90. Fora apresentador e produtor de TV, o cara ainda foi dono da Factory (gravadora também do New Order, que também lançou o Happy Mondays entre outros feitos) e do Haçienda (club ícone da mesma fatia de acontecimentos na história do pop). Enfim, essa parte da vida do cara está muito bem contada no divertido “A Festa Nunca Termina” (que volta e meia passa no Telecine).
Falando mais do “Other Side”, ele foi uma das primeira experiências na TV britânica no formato “late show”, misturando bandas locais ao vivo e jornalismo cultural.
Talvez o momento mais importante do programa seja a histórica apresentação do Stone Roses, antes mesmo de lançarem seu álbum de estréia. Dessa performance saíram as fotos que foram para o encarte do primeiro registro da banda e ela mostra bem o frescor e a coesão que infelizmente não acompanharam os Roses pelo resto da carreira - ao menos ao vivo.
Falar sobre longos retiros geralmente causa uns calafrios não é mesmo? Imagina deixar o conforto da sua casa, desfazer os laços (físicos) familiares, abrir mão de todo o vasto leque de distrações disponíveis e de todo o sistema social e psicológico em que crescemos em troca de ficar consigo mesmo, convivendo, conhecendo e se aprofundando na própria mente e seu vasto potencial durante mais de uma década em uma caverna pedregosa na India. Não é pra qualquer um, né? E não é mesmo.
Existem muitas boas lições na biografia da monja budista Tenzin Palmo, mas o fato de ser especificamente ela a protagonista de sua história é uma das mais importantes. Calma que eu já explico. Palmo nasceu Diane Perry no East London em 1943 e cresceu em uma família humilde, porém feliz, que se estruturou ao redor da figura materna após a morte do pai. Até os 20 anos, viveu uma vida “normal”. Brincou, estudou, namorou, dançou na swinging london, mas o bichinho da curiosidade espiritual a corroeu desde pequena. Buscou alimento para o bichinho em diversas religiões, mas a ficha caiu mesmo quando ela encontrou os primeiros e escassos ensinamentos budistas disponíveis no Ocidente através de alguns livros e conexões com intelectuais interessados no Tibet. A partir daí, uma peça começou lentamente a encaixar na outra: Diane conheceu os primeiros lamas budistas a aportarem na Inglaterra, se mandou pra India, quase casou na viagem de barco, se instalou em uma escola fundada por uma inglesa, deu aulas de inglês para lamas e finalmente encontrou o professor que a guiaria uma boa parte da vida.
A sede por realizar o potencial mais perfeito de sua mente a lançou numa busca constante por conhecimento e espaço para praticar o conhecimento adquirido. Para unir os dois, pediu ordenação de monja e, depois de alguns anos de estudo e serviços para a comunidade monástica local, partiu para meditar em uma caverna nos himalaias indianos. Desencorajada por muitos colegas (que julgavam uma mulher ocidental incapaz da empreitada) porém apoiada por seu professor, a agora monja Tenzin Palmo concentrou sua energia em uma série de retiros fechados nos quais ficava até oito meses sem ver ninguém (nem mesmo o sol no duríssimo inverno dos Himalaias). Na etapa final de sua trajetória de retirante, Palmo completou três anos em total isolamento até ser despejada da India por problemas legais com seu visto.
A volta à vida em sociedade, entretanto, não foi um fardo. Pelo contrário, a monja abraçou o novo capítulo em sua vida, colocando sua experiência a serviço de causas interessantes. Por um lado, Palmo passou a militar ativamente no meio religioso pelo reconhecimento dos direitos e das nuances femininas dentro das comunidades espirituais, geralmente organizações mais masculinas e de contornos patriarcais. Em outro âmbito, menos político e mais prático, viajou o mundo levantando fundos para a construção de um mosteiro para monjas tivessem condições de receber os ensinamentos completos, algo negado a muitas mulheres em determinadas tradições budistas.
Contada assim, rapidamente, a história de Tenzin Palmo tem sementes de fantasia. Tipo…. mulher-ocidental-larga-tudo-e-vai-viver-o-misticismo-oriental-na-caverna. Porém, Cave in The Snow dificilmente passa como conto da carochinha. A ida de Tenzin Palmo para a India não foi uma fuga repentina de alguém estressado com seu cotidiano ou a tentativa de realização de uma idéia juvenil. Foi, isso sim, uma peça no lego particular de uma menina desde cedo bastante encucada com os mistérios não exatos do universo. Quando ela falou para sua mãe que estava pensando em ir à India buscar ensinamentos, não recebeu olhares de espanto ou reprimendas, mas uma simples pergunta: “Quando você vai?”. A dona de casa de Bethnal Green conhecia bem a filha e sempre apoiou sua busca.
Esses e muitos outros detalhes tornam Cave In The Snow uma leitura interessante mesmo pra quem não sente nenhuma vontadezinha de ter um envolvimento tão intenso com a prática espiritual. Ao contrário do que poderia ser, o livro é dedicado a desmistificar os anos na caverna. Eles recheiam o livro mas não são de forma alguma o único fator de reflexão. Página após página, um paradoxo se constrói: por mais particular que seja a história de Tenzin Palmo, ela também é temperada fortemente com o viés das questões humanas universais: insegurança acerca de nossa identidade, medo da morte, a necessidade de recursos financeiros pra viver, amores não correspondidos, relações complicadas, as diferenças entre o mundo masculino e feminino, e a velha pergunta… no que vale a pena investir tempo da sua vida?
Para Tenzin Palmo, encontrar a resposta passava por ficar um bom tempo em retiro. Ela nunca teve dúvidas disso. Não sofreu com o isolamento. Encontrou sua vocação. Mas depois, ao precisar fazer uma difícil escolha, se viu de volta ao mundo cotidiano, viajando em turnês mundiais, dando ensinamentos e buscando fundos para a construção de um mosteiro. Dividindo o que descobriu na caverna.
Talvez cada um de nós tenha uma caverna nos esperando. Para alguns ela pode até estar nos Himalaias. Para outros, ela pode significar simplesmente algumas horas sem banda larga. Ainda há os que vão encontrar sua caverna ao se retirar de situações de isolamento e ao engajar-se em uma atividade. Quem sabe? A autora do livro e jornalista Vicky Mackenzie delega ao leitor, com a ajuda de livros inspiradores como esse, encontrar os paralelos e descobrir o seu caminho.
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Mais três coisas.
1. A Elka, que morava aqui no templo de Três Coroas, se mandou há alguns meses pra India com sua filha pequena. Ela vem escrevendo em um blog pra TPM sobre as experiências que está vivendo lá e também falou da Tenzin Palmo em um post de junho, que também traz algumas palavras sobre a situação das monjas e das mulheres na India.
2. O Guardian também fez uma matéria sobre ela (a monja) recentemente.
3. Existe um documentário bem simples mas bem bom sobre a trajetória de Tenzin Palmo. Se chama Cave in The Snow. Me foi copiado por um amigo. Não sei se você vai encontrar um torrent. Mas se encontrar, faça com eu: depois doe o valor de um DVD nacional pra causa da Tenzin Palmo.
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Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey.
Toda segunda tem Autopista. Clica na imagem pra ver maior.
Ficou pequeno no flyer aqui, mas é o seguinte: a parada é em São Leopoldo na Embaixada do Rock, custa dez patacas ou oito com nome na lista do Orkut.
Toda segunda tem Autopista. Clica na imagem pra ver maior.
Quem foi no blog da Escala vai perceber que este é um post requentado. Mas acho que nem todo mundo se deu ao trabalho de ir lá enquanto eu estava postando do Festival de Cannes, então me deu vontade de replicar aqui.
O New Director’s Showcase é uma mostra que a rede de agências mundial Saatchi & Saatchi faz após uma intensa pescaria atrás de novos talentos na área audiovisual. Todos os anos, eles passam a seleção no Festival de Cannes e a partir desse ano estão colocando tudo também no seu canal do YouTube.
Nomes como Jonathan Glazer, Spike Lee e Michel Gondry já frequentaram essa mostra. Portanto, vale prestar atenção nos vídeos.
Eu acho até que alguns brasileiros tem esse hábito, mas percebo que calça com chinelo é basicamente coisa de gringo. Eu tenho um problema conceitual com calça com chinelo porque o chinelo indica que o tempo está quente, mas a calça indica que o tempo está frio. Calça com chinelo indica que está frio e quente ao mesmo tempo, o que me deixa meio tonto e maluco da cabeça então:
a) Se está quente, por que a pessoa não está de bermuda ou saia?
b) Se está frio, por que não usar tênis em vez do chinelo?
Mas eu realmente não vou me aprofundar no assunto porque meu conhecimento de física quântica é limitado.
Essa foto de uma muda de hidrante em crescimento, por sua vez, demonstra o grau de seriedade com que os americanos estão levando a questão ambiental. Provavelmente, os hidrantes estão também sendo plantados pra entrar na conta da compensação de carbono. Um hidrante, por fornecer água, deve valer por dez ou mais árvores nessa matemática.
Por outro lado, a questão do preconceito com alienígenas ainda é problemática, como você pode ver acima. Os americanos continuam com essa paranóia a respeito da agressividade da vida em outros planetas, mesmo que os extraterrestres, em 98% dos casos, falem inglês e conheçam perfeitamente o mapa e o presidente dos Estados Unidos. O Obama deve dar atenção a esse item nos próximos meses.
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Leia toda a série sobre Nova Iorque aqui.
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