9 de fevereiro de 2012 às 22h40
Blog em recesso até 15 de fevereiro por causa de uma questão legal
Não é que alguém esteja me processando, é que aconteceu uma coisa LEGAL comigo e estou muito envolvido com isso.
Não é que alguém esteja me processando, é que aconteceu uma coisa LEGAL comigo e estou muito envolvido com isso.
Já voltei de férias, mas ainda não comecei a postagem oficial. Escrevo só pra avisar aos que ainda não sabem: a Oi FM deixou de existir no dial no dia 31 de dezembro e no seu lugar está agora a Rádio Oficial do Verão.
Eu continuo fazendo meus comentários sobre cultura digital no Minimalismo que vai ao ar todos os dias às 9h30 e 14h30 em Belo Horizonte, São Paulo, Ribeirão Preto e Campinas pela 91,4FM; no Rio de Janeiro, é a 102,9 FM, em Recife 97,1 FM e Porto Alegre é 90,3FM.
Ou, claro, na rádio online.
Diálogos Coletivos – Teaser from Colmeia on Vimeo.
Esta segunda, estarei em SP para o lançamento dessa série de mini-documentários da Colméia. Os três episódios são dedicados a ajuntamentos de gentes de diferentes naturezas: tem um episódio sobre nós, d’Oesquema, outro sobre a revista +Soma (com a qual colaboro desde o primeiro número também) e um terceiro sobre o coletivo Fora do Eixo (ao qual não sou ligado, mas já participei de eventos ligados a eles). Assim que os docs forem liberados, eu posto aqui.
Ontem ensaiamos algumas músicas muito antigas de nossas primeiras demos pra dar uma temperada no set list. Não perdam!
***
Esse comercial da Vostu com a Ivete é o mindfuck definitivo do marketing digital brasileiro. Há anos que artigos em revistas e sites especializados, bem como palestras evangélicas, vem detonando a televisão como um meio válido de publicidade. Anunciar na TV, para fundamentalistas digitais, é símbolo de incompetência. É tiro de canhão, desperdício, furto qualificado, diz-se. Não é preciso verba de mídia nem celebridades, o consumidor é a mídia, o que é bom viraliza-se naturalmente, declama-se.
Mas, tu vê só, o mundo dá voltas. Não defendo este ou aquele meio, vivo e trabalho em cima do muro (é de onde se tem a visão geral das coisas). Mas não deixa de ser engraçado ver empresas ícone do mundo digital experimentando um pouco com o mais (nos últimos tempos) mal falado dos meios. Dito isto, reforço: faz absoluto sentido a Ivete vendendo Megacity na TV (ainda que fechada, não vi na aberta). Ivete, TV e jogos sociais, é tudo mainstream. E brasileiro, pelo que sei, gosta de coisa mainstream. Cauda longa é consequência de mercados estabilizados e economicamente maduros, penso.
Mas o Ivete/Megacity não é a única. Desde o ano passado que a TV fechada vem sendo invadida por comerciais de empresas “da web”. Começamos pela mais recente, do Mercado Livre, que por sinal tem comerciais muito bacanas e um posicionamento espertíssimo:
E a Netshoes? Diz em alto e bom tom que “Você nasceu digital” e ela também.
O comercial do Chrome, sim, passou na Globo ano passado. Nada como um comercial da maior empresa digital do mundo passando no canal (ainda) mais visto do Brasil. Junção de canhões.
(Diga-se de passagem, em outubro de 2010 eu estava nos Estados Unidos e vi o Google anunciando a sua rede de conteúdo, seus banners, em página quádrupla no The New York Times – o autêntico cross-media.)
Um dos meus prediletos é o do Groupon (também do ano passado), porque ele explica o conceito de compras coletivas e define como “a nova febre da internet”:
O do SaveMe também é bem didático:
O do Buscapé vai um pouquinho mais longe:
No setor dos “regionais” e dos comerciais mais baratinhos, tem o Vaquinha Vip:
Esse do Peixe Urbano, por sua vez, é um deleite de subtexto e metalinguagem: a TV usada no fim do comercial é uma bem antiga, ainda por cima chamada pelo peixe de “aquário”.
Por último, um merchandising do Club Penguin no Disney Channel com direito ao apresentador vestido a caráter para uma festa medieval que iria acontecer dentro da rede social infantil da Disney, o popular e incrível Club Penguin.
Conclusão da história 1: se você trabalha com mídia, não precisa mais ter medo. TV está deixando de ser palavrão (como comentei aqui, gostar de TV é/já foi usado em alguns círculos pra ofender alguém).
Conclusão da história 2: em termos de cultura digital, é melhor sentar e ver a bagunça acontecer (e assentar de tempos em tempos) do que ficar bravateando por aí.
Cortesia do parceiro Andye Iore. No blog dele tem inclusive algumas fotos.
Ah: o casal dançando no palco é o Prefeito Beto Vizzotto e sua primeira dama.
Não? Tudo bem. Mas a gente tem shows assim mesmo.
DOMINGO 10.07
PORTO ALEGRE – RS
No Gig Rock com Diego Lopes & Bepop, Redheads Outdoors e Identidade.
O Festival começa na quinta-feira e tem Television na sexta!
SEXTA 15.07
PARAÍSO – PR
No Paraíso do Rock com Brian Oblivion e seus Raios Catódicos, Daniel Belleza e Corações em Fúria e Giovani Caruso e o Escambau. O Festival vai até o domingo e tem Matanza, Nevilton & mucho más.
SABADO 16.07
LONDRINA – PR
Na Semana do Rock com Tênis Sujo e um Scarpin, Locodillos e The Brown Vampire Catz.
Não esqueça de frequentar nosso canal do YouTube. E de baixar nossos sons na Trama Virtual.
Isso aí em cima é um medley (há quanto tempo eu não via essa palavra!) comemorando os 20 anos da influente dupla de techno alemã. Embora nem todo mundo acredite, o Hardfloor me influenciou muito no jeito de tocar guitarra nos Walverdes. Além disso, claro, a banda também foi uma das grandes influências dos Carregados, o power trio de acid house que o Renan, o Pedro Damásio e eu montamos há uns 10 anos (e que rendeu um álbum próprio e um de remixes nunca promovidos decentemente).
Então aproveito os 20 anos pra dar parabéns e pra sugerir quem não conhece dar uma espiada no trampo dos caras. Lá no Soundcloud deles tem uma série de faixas que pegam desde os technos mais retões e batidões até os sons mais viajantes e grooveados, mas sempre na mesma pilha: começa simples, com uma batidinha inofensiva, e vai crescendo a coisa até… bem… veja você…
A onda não é nova, mas agora parece estar chegando a algum tipo de tipping point: bandas fazendo shows (e turnês) para tocar discos inteiros, geralmente clássicos da sua própria discografia. O que o De Falla (de forma relevante e bem sucedida) fez aqui em Porto Alegre duas semanas atrás vem de uma linhagem interessante que atravessa diversas estirpes do rock. Basta dar uma googleada pra descobrir que já tivemos o Pixies tocando o Dolittle (inclusive no SWU aqui no Brasil), o Weezer tocando o Pinkerton, o Queens fazendo shows especiais do álbum de estréia, o Motley Crüe tocando o Dr. Feelgood, o Nine Inch Nails tocando o Downward Spiral, o Cracker fazendo o Kerosene Heat, o Melvins mandando o Houdini, o Primal Scream viajando com o Scremadelica e o Sonic Youth desenferrujando o Daydream Nation (que, na verdade, nunca enferrujou). Isso é só um aperitivo, claro. Continuando a pesquisa, a lista não termina.
O ponto é: pra que isso? O caminho mais raso pra responder à questão é culpar uma indústria da música perdida, que está experimentando todas as opções de venda e conexão com os fãs. Isso nos levaria, então, às famosas turnês caça-níqueis. Mas… se não nos contentarmos com a explicação mais simplista e militante, precisamos cavar um pouco mais. E descobrimos que, na cultura pop, a física quântica venceu: hoje, é possível você viver simultaneamente em duas, três, quatro épocas diferentes ao mesmo tempo sem que isso seja mal visto como era nos anos 90. Logo, se hoje tudo pode e tudo é de hoje, seria natural resgatar álbuns clássicos em sua totalidade.
Mas aí também a resposta está incompleta. O resgate de um clássico recente não é o mais importante (apesar de ser curioso). O ÂMAGO da história é o formato álbum, AQUELA COISA COM INÍCIO, MEIO E FIM que foi despedaçada e jogadas em pastinhas com o advento do mp3. Início, meio e fim são três elementos absolutamente estranhos à cultura digital, cujo fluxo de conteúdo sempre tende a um indigesto infinito.
Pois bem. Esses dias, comentei na Oi FM que uma das grandes vantagens dos livros e revistas tradicionais em relação às suas versões interativas (e experimentais) em tablets e e-readers é o fato dos meios impressos terem INÍCIO, MEIO E FIM. Preste atenção: mesmo os recordes de venda de e-books da Amazon são baseados em obras digitais que emulam o conceito clássico de livro, com INÍCIO, MEIO E FIM. O Flipboard, aplicativo popular entre os usuários de iPad, também tenta formatar a enxurrada de conteúdo das redes sociais como uma revista com… INÍCIO, MEIO E FIM.
(Não adianta: o ser humano, todos sabemos, adora limites. Até pra poder ficar tirando onda de que quer vencê-los, transcendê-los.)
O conceito de álbum guarda essa semelhança com os livros e revistas impressos: ele seduz pela finitude. Mas ok. Mas então por que precisa ser tocado presencialmente? Por que o álbum ganha tanta exposição mais na sua forma ao vivo do que no seu formato em vinil, CD ou até mesmo digital? Ora: o que é mais finito (e, hoje, atraente) do que assistir a um SHOW de um álbum inteiro, com as músicas tocadas na ordem? O que é mais excitante do que um evento físico – porém intangível – que poderá não acontecer de novo e que não está sujeito nem a 1) ser despedaçado num shuffle qualquer 2) ser relegado ao limbo de uma pasta de MP3 que é poucas vezes visitada com tanta solenidade?
Tem algo que muita gente não entende - especialmente os envolvidos no lado mais comercial da tecnologia: a finitude, o estático, a desconexão, tudo isso são elementos fundamentais para a cultura digital – e para nossa sanidade coletiva.
É como quando passa aquele cara na rua carregando uma placa que diz O FIM ESTÁ PRÓXIMO. Se você pensa que o pessoal se apavora, você não está entendendo. O pessoal, hoje, grita OBA!
Minha coluna na Oi FM sobre Cultura Digital – chamada MINIMALISMO – agora está sendo postada diariamente no blog da rádio. Toda sexta eu vou compilar aqui os links pra você escutar.
Segunda, eu falei a respeito do significado da palavra PUBLICAR nos dias de hoje.
Terça, o assunto foi a carga de estímulos visuais que precisamos filtrar todos os dias.
Quarta, comentei o lançamento da sede do Center for Post Natural History (vídeo acima).
O assunto de quinta foi: containers.
E sexta foi o dia de falar de sujeira.
***
Minimalismo vai ao ar todos os dias às 9h30 e às 13h45 no seu rádio ou na webradio.
Dessa vez, chega de velharia. Tem coisas do disco novo, como Basalto e Diagonal…
… e tem também uma versão cortada de Anticontrole abaixo. Eu me atravessei total e saí solando onde era pra cantar a segunda estrofe.
Também tem esse Mudhoney esperto com o Andrio da Superguidis fazendo o vocal.
Aos poucos, vamos engordando nosso canal lá no Youtubinho.
Também estamos com uma música numa enorme coletânea muito bacana que a revista Aplauso fez, revisitando toda a história do rock gaúcho. Tem raridades do Jupiter, só pra tu ter uma idéia… vai lá e vasculha a matéria e baixa a coletânea.
Lembra do comercial do gorila da Cadbury, que causou furor no meio publicitário há pouco tempo? Mais do que tudo, ele corporifica valores e estética da cultura da pop do nosso tempo…
… assim como esse comercial de 1970, da Tourist, também o faz com os valores e a estética dos anos 70.
É tipo Michel Gondry em relação a Don Siegel.
Enquanto se comenta a compra do Huffington Post pela AOL, vamos voltar alguns séculos no tempo e espanar o pó de uma edição de dezembro de 2010 da The New Yorker. Está lá um texto do jornalista James Surowiecki sobre a rejeição da oferta de compra do Groupon (principal site de descontos americano) pelo Google. A uma certa altura, depois de radiografar rapidamente a relação Google/Groupon e contextualizá-la na históra da internet, Surowiecki parte para defender um ponto de vista bastante interessante e que merece atenção: um dos trunfos do Groupon é ser um negócio old school em uma época na qual as virtudes dos novos modelos são cantadas como épicos.
Diferente de empresas que fizeram e fazem fortuna com estruturas enxutas e tecnologias que funcionam praticamente sozinhas (o sistema de buscas do Google, por exemplo, é em parte aprimorado pelas próprias buscas que empreendemos), o Groupon está pavimentando seu caminho à base de uma equipe bem mais vultosa (são 3.000 funcionários pra atender 40 milhões de usuários contra os 2.000 do Facebook que atende 600 milhões) e que precisa botar a mão na massa especialmente na área de vendas. O site do Groupon por sua vez, é relativamente simples, não dá grandes contribuições à história das ferramentas como fez o YouTube ou o Twitter, diz o jornalista da New Yorker.
Essa matéria – e esses fatos – soam familiares no momento em que a AOL, um dos players mais old school da internet, compra o Huffington Post, símbolo de uma era mais contemporânea. Ou será que essas categorias começam a não se aplicar mais? Talvez a bagunça do mundo pop tenha chegado ao mundo dos negócios e em breve o cenário das empresas de tecnologia vai parecer mais um set do 2ManyDjs ou do Girl Talk, com uma mistura esquizofrênica e pujante de décadas, estéticas, modelos e conceitos.
Tem gente que vem nos vendendo, nos últimos anos, a idéia de que só os grandes inovadores tecnológicos ficarão milionários e farão história. A história parece que está querendo rever essa idéia.
Isso é um release:
“Finalmente a banda gaúcha Walverdes reuniu suas capacidades para colocar na rua uma pequena coleção de canções chamada BREAKDANCE. O disco inclui 8 músicas inéditas e uma regravação de uma antiga música da banda que até então só havia sido lançada em fita cassete na DEMO AMARELA em 1994.
BREAKDANCE será lançado em quatro formatos:
- CD oficial pela Monstro Discos
- músicas tocadas ao vivo pela banda nos shows
- alguns mp3 disponibilizados gratuitamente na Trama Virtual e MySpace.
- mp3 disponibilizados pelos fãs por aí na internet
- Todas as músicas no canal da banda do YouTube com uma foto estática da capa.
O nome do disco (BREAKDANCE) é inspirado nos filmes de breakdance lançados nos anos 90. As fotos da capa também. Mas o som não. As músicas de BREAKDANCE levam o som dos Walverdes um passo além dos discos anteriores (90 Graus, Anticontrole e Playback), refinando o rock empreendido pelo trio desde 1993. Os sons são derivados de tudo que se fez de legal no rock (e no roll) desde os anos 60, especialmente o garage rock dos anos 60, o punk dos anos 70, o hardcore dos anos 80 e grunge dos anos 90. Alguma coisa dos anos 00 entra também, mas não muito na verdade. Apesar de não aparecer claramente nas músicas, o funk, o hip hop e o reggae também são influências da banda.
Dessa vez, a produção ficou nas mãos de Julio Porto, ex-guitarrista da banda Ultramen e um connoisseur de reggae e funk, além de colecionador de instrumentos e equipamentos vintage, alguns deles utilizados nas gravações. Julio é um dos grandes responsáveis pelo som coeso porém diverso de BREAKDANCE: cada música recebeu uma atenção especial do produtor no que diz respeito a timbres e equipamentos. Além disso, ele ainda salpicou BREAKDANCE com discretos porém poderosos solos de guitarra, teclados e sintetizadores. Em Cérebro, por exemplo, a influência confessa da inclusão de um Moog vem diretamente dos filmes dos Trapalhões.
Se você não conhece a Walverdes, aqui vai um resumo: a banda surgiu durante uma borbulhante fase do rock brasileiro, no início dos anos 90, e rapidamente derrubou as fronteiras geográficas e estéticas do chamado rock gaúcho pra tocar em todo país ao lado de bandas importantes como Nebula, Breeders, Supergrass, Nada Surf, MQN, Forgotten Boys, Autoramas, Nação Zumbi e por aí vai. Já teve gente que achou que os Walverdes eram goianos devido à ligações contratuais e estéticas com a gravadora Monstro Discos.
No total, a banda já lançou 5 fitas cassete e quatro CDs recheados de rock baseado no que já se fez de melhor no gênero: The Who, Stooges, Rocket From The Crypt, Nirvana, Mudhoney, Deep Purple e Bob Marley servem pra resumir as influências. Desde a sua fundação os Walverdes se mantém em constante atividade, já tendo atravessado com consistência e sagacidade diversas fases do rock brasileiro ao longo dos últimos 17 anos.
Walverdes é:
Gustavo “Mini” Bittencourt: voz e guitarra
Marcos Rübenich: bateria
Patrick Magalhães: baixo e voz
Walverdes na Trama Virtual.
Walverdes no MySpace.
Walverdes no Fotolog.
Walverdes na Wikipedia.
Walverdes no site da Monstro.
O Hunch não é exatamente novidade, mas vale aqui um comentário sobre ele.
Pra começar, do que se trata: o Hunch é um site de buscas que aprende o que você gosta a partir do seu perfil no Twitter, do Facebook e de perguntas inusitadas mas reveladoras. Por exemplo, ele pergunta se você gosta de sanduiche cortado na diagonal ou reto, se você costuma se sentir um alienígena ese você é uma pessoa Mac ou PC.
A partir desses dados, o Hunch dá sugestões personalizadas que vão desde livros, filmes e músicas e até cidades pra visitar, animais de estimação e dicas de finança. Isso faz parte das amplas possibilidades da chamada web semântica, a internet que entende não só as palavras que digitamos nas buscas mas também o contexto.
E é aqui que chegamos ao ponto que eu quero ressaltar: até pouco tempo atrás, era a gente que precisava aprender tudo sobre a internet. Hoje a tendência é o contrário. Cada vez mais, a internet vai se especializando em aprender sobre a gente.
(Boa sorte, dona Internet… muitos já tentaram!)
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Post inspirado num dos programas Minimalismo, que eu faço pra Oi FM.
O Minimalismo vai ao ar todos os dias às 9h30 e às 13h45 nas cidades onde tem Oi FM ou na webradio.
Meus sogros moram numa fazenda no interior do interior do Rio Grande do Sul. E de todas as ricas experiências que já vivi lá, a que mais me marcou foi assistir (e sentir) uma tempestade chegando, se instalando e indo embora.
Em Porto Alegre, enfurnado no trabalho ou mesmo em casa, a passagem de uma tempestade se manifesta mediada pela estrutura da cidade: alguém liga dizendo que vai se atrasar por causa de um alagamento numa avenida, a luz fluorescente dos escritórios parece se tornar mais clara, as buzinas se acumulam, motoboys chegam ensopados e participantes de reuniões se atrasam mais do que o normal. Mesmo os sinais diretos da tempestade são alterados. O vento é encanado por entre os prédios e assobia diferente. A água se acumula sobre o concreto e faz caminhos inesperados. As descargas de eletricidade, como não conseguem alcançar o chão, chegam pelos pára-raios.
Eu obviamente já tinha vivido a experiência de tempestades na praia ou na montanha (e já uni os dois fazendo rappel sob uma chuva torrencial no Morro da Guarita em Torres). Mas na fazenda é outro papo. O vento não tem onde encanar e são poucas árvores, reunidas em capões distantes, que ele pode balançar. O destino da eletricidade é o solo ou alguma árvore (ou algum incauto…). A noite fora de hora não se anuncia através das luzes da rua que se acendem repentinamente, ela se impõe de uma hora pra outra cobrindo o céu. E em vez da sinfonia urbana de buzinas, vento encanado e água transbordando dos bueiros, o som resultante é bem mais minimalista.
É a água surrando a terra – sem intermediários.
Eu ainda ia escrever essa semana, mas resolvi dar uma parada. Nos vemos no ano que vem. Deixo vocês com mais uma do Charles Burchfield.
Que todos vocês tenham um Natal bacana, do jeito que der, do jeito que for. Eu paro por aqui essa semana mas volto a escrever na segunda-feira.
(A árvore de Natal do Conector é do grande Charles Burchfield.)
Pra quem não é do Rio Grande do Sul ou não lembra: a Gangue da Matriz é uma turma que atacou e matou um jovem em 1986 no litoral gaúcho, num caso que foi acompanhado amplamente pela mídia local num clima meio Warriors. O “Matriz” do nome vem da Praça da Matriz, local central em Porto Alegre em cuja órbita estão o Theatro São Pedro, a Catedral Metropolitana, o Palácio do Governo e a Assembléia Legislativa.
Pois a nova Gangue da Matriz, segundo o vocalista e guitarreiro Tonho Crocco, vem justamente de dentro da Assembléia. O som acima é uma “homenagem” do Tonho ao aumento de 70% que os deputados gaúchos se deram como presente de Natal.
Hit perfeito pro final do ano, a canção natalina que merecemos.
O ano de 1994 foi emblemático para o pop global. Apesar de podermos considerá-lo teoricamente como parte da fase inicial dos anos 90, na prática ele representou uma espécie de morte prematura da cultura dessa época: se você não se lembra, foi o ano em que Kurt Cobain tirou a própria vida e terminou de assassinar qualquer possibilidade de inocência que havia orbitando em torno do grunge ou do tal “rock alternativo”.
Kurt não fez o trabalho sozinho. Nos meses em torno do seu suicídio, também picaram a mula o Charles Bukowski, o Mussum, o Mário Quintana e o Henry Mancini, pra não falar do silencioso e pouco comentado nascimento de Justin Bieber (1º de março de 1994). Mas, enfim, o fato é que pra quem curtia cinema, literatura, televisão e música, 1994 foi um ano de perda e ruptura. E não podemos nem dizer que não fomos avisados pra nos preparar, porque fomos. De um jeito bizarro, mas fomos, ao menos no Rio Grande do Sul.
Fomos avisados com um festival. Em janeiro ou fevereiro de 1994, aportou na Praia do Barco, entre Capão da Canoa e Capão Novo, o M2000 Summer Concerts, que também passou por Santos e Florianópolis. Se gaúcho acha esquisito quando alguém de outros estados vem passar férias no nosso bizarro e único litoral, o que dizer de um festival inteiro que tinha como headliner o Helmet em fase áurea de sua carreira? E mais, um festival gratuito, ao ar livre, cujo único preço pra assistir uma banda bacanuda como Helmet era passar antes pela Deborah Blando e pelo Fito Paes?
Sim. Há pouquíssimos registros no Google sobre isso (vale ler o do Eduardo Egs), mas a real é que no verão de 94 os indies gaudérios puderam assistir pertinho de casa, comendo crepe e tomando cachaça em garrafa pet, uma das bandas mais legais da época com sua formação quase clássica. Eu e outros dois membros fundadores dos Walverdes estávamos lá. Não só estávamos lá como batemos um papo (algumas pessoas descreveriam a interação de outra forma) com alguns caras do Helmet, entregamos nossa primeira demo (podríssima) e tivemos uma música dedicada a nós durante o show. Uma noite inacreditável para os frequentadores da Barros Cassal (a rua “alternativa” de Porto Alegre na época) e fãs de Lado B e Gás Total.
Depois disso, nunca mais tivemos nada do tipo no litoral gaúcho. Aquilo foi um erro de percurso da história, um desvio quase místico, e os Planeta Atlântida não contam porque nunca trouxeram uma banda fora do eixo tradicional no seu auge, como foi com o Helmet. Essa falha de San Andreas indie-mitológica está prestes a ser novamente suturada, 17 anos depois, por uma idéia aparentemente insana dos caras da Slash/Slash. A empresa é fundadora da revista/site/filosofiadevida Void e há anos trabalha com eventos e ações de experiência e conteúdo pra marcas como Claro, Adidas, Pepsi e Converse. Agora, deu na telha de fazer um festival meio indie num ponto nobre do litoral gaúcho, o M/E/C/A, que tem o Vampire Weekend e Two Door Cinema Club de headliners. Diante de tamanha esquisitice, eu quis entender qual era a dos caras e pra esclarecer qualé a disso tudo, trocamos alguns emails. O papo está reproduzido abaixo.
Conector: De onde saiu essa idéia de fazer o Meca?
Marco/Rodrigo: Decidimos criar alguns projetos próprios na Slash/Slash, onde a gente pudesse ter total autonomia e fizesse tudo como a gente realmente acredita, sem restrições. O que mais vem nos chamando a atenção é o crescimento dos festivais de música e como as pessoas estão cada vez mais abertas a escutar novas bandas e curtir diferentes estilos. Pra entender melhor isso e buscar mais referências, a gente participou de diversos festivais nesse ano, como o Coachella (EUA), o Sonar (ESP), o CMJ (EUA), e também o Planeta Terra, SWU, UMF e a maioria dos shows que rolaram aqui no Brasil. Também acompanhamos mais de 30 outros eventos que rolaram pelo mundo. Estudando mais sobre tudo isso, chegamos a conclusão de que o Rio Grande do Sul tem potencial para receber um evento num formato mais moderno, um festival inspirado no que rola de mais interessante no mundo. Mas surgiu uma questão: onde fazer o evento? Em Porto Alegre? Todo mundo sabe que fazer eventos em locais abertos em POA, hoje em dia, é muito complicado, teríamos que ir pra locais distantes com acesso difícil, como as fazendas onde rolam as raves. Então pensamos no litoral… Por que não no verão? Em Atlântida? A gente resolveria boa parte dos problemas que teríamos que enfrentar pra realizar o evento em POA. Além disso, nós já temos, desde 2004, um evento de beira de praia muito legal, o Surf & Music Festival, que rola no principal local de concentração do público jovem do litoral, a Plataforma de Atlântida. No verão passado, demos o primeiro passo para construção do novo projeto, trocando o nome para M/E/C/A/Land e transformando a programação do evento num mini festival com música, esportes e outras atividades rolando simultâneas. E nesse verão, vamos apresentar o projeto completo, o M/E/C/A/Festival.
Conector: Mas o litoral gaucho nunca foi indie ou hipster. Por que fazer um festival com esse por aqui em vez de um festival mais mainstream?
Marco/Rodrigo: A gente nunca faria um festival muito mainstream, não é o nosso perfil. O que a gente gosta é fazer projetos diferentes, experimentar coisas novas. Além isso, acreditamos que existe um movimento global que está se manifestando em diversos perfis de público, independente de localização geográfica, e que vai acontecer no sul também. Pra você ter uma ideia, fizemos uma pesquisa esse ano, com duas galeras bem distintas: um perfil mais moderninho e outro mais pop/mainstream. Identificamos que boa parte desse público mais pop, que frequenta clubs badalados, também escuta as bandinhas mais modernas quando está em casa ou no carro com os amigos. Algumas das músicas que mais bombam nas baladas de house hoje em dia são remixes das principais bandas que fazem a cabeça dessa turma mais moderna.
Conector: Que público vocês esperam atrair? Só sulistas?
Marco/Rodrigo: Acreditamos que existe potencial de realizar em Atlântida um evento “regional” que traga gente de SC, PR e até mesmo do Rio e São Paulo. Por ser na praia, numa região famosa, super bem frequentada, e num formato com festas e atividades rolando durante todo o final de semana, a gente acha que o evento ficou muito atrativo pra qualquer pessoa que esteja a fim de se divertir e curtir um finde com poucas horas de sono. Estamos monitorando a venda online e tem muita gente de outros estados que já compraram os ingressos do primeiro lote do M/E/C/A, que se esgotou em apenas 6 dias! A gente também tem recebido muito feedback de pessoas de outros estados se organizando para participar do festival e pedindo mais infos sobre transporte, hospedagem, etc. E isso é muito legal!
Conector: Vocês estão tendo algum apoio da cidade? A prefeitura está entendendo a importância do evento?
Marco/Rodrigo: Já temos, há sete anos, o apoio da Prefeitura pra realizar o evento na beira da praia. Em 2011, mais uma vez, vamos contar com o apoio do Secretário de Cultura e Meio Ambiente, Paulo Santana, e do Prefeito de Xangri-lá, Celso Barbosa, para viabilizar o M/E/C/A/Festival. Mas claro, em 2012, quando o festival crescer de verdade, vamos precisar de um apoio muito maior.
Conector: Quem foi responsável pela curadoria das bandas?
Marco/Rodrigo: Essa foi uma das partes mais difíceis. Teve vários fatores que influenciaram a escolha, como: aceitação do público, valor de cachê, disponibilidade, etc. Descobrimos que esse período é a época mais complicada do ano para realizar um festival no hemisfério sul. Muitas bandas aproveitam esses meses para gravar discos e tirar férias. Além disso, as principais produtoras de shows não tem o costume de investir em grandes atrações no verão. Isso fez com que a gente tivesse que “bancar” a tour das duas principais atrações que a gente queria pro M/E/C/A: a Vampire Weekend e a Two Door Cinema Club. Por exemplo, não “pegamos carona” com nenhuma tour que já estava vindo para outras datas aqui na América Latina, diminuindo muito nossas opções e aumentando muito o nosso custo.
Conector: O que vocês não querem que aconteça de jeito nenhum?
Marco/Rodrigo: A nossa maior preocupação, nessa primeira edição do festival, é mudar a percepção que as pessoas têm de que grandes eventos no Brasil são uma roubada. O que a gente não quer que aconteça de jeito nenhum é que o público saia do festival com a impressão de desorganização e insegurança.
Conector: E como vocês estão se preparando para evitar problemas históricos de festivais como filas, problemas em banheiros e falta de opção em alimentação?
Marco/Rodrigo: Temos uma super preocupação com esse ponto e a estrutura vai ser um dos nossos principais focos nessa edição. Estudamos muito, em todos esses eventos que estivemos esse ano, essa questão de estrutura. Desde posicionamento de palco, área vip, qualidade do som, entrada e saída, até a quantidade de bares e banheiros. Além disso, já temos um local que está preparado pra receber uma quantidade significativa de pessoas. Mas claro que vamos ter limitações e que, inevitavelmente, não sairá tudo como a gente gostaria. Estamos bem cientes do desafio e prontos pra entregar uma experiência super legal, em todos os sentidos, pra quem for no M/E/C/A.
Conector: Tem alguma vantagem que podemos ter sobre os festivais gringos?
Marco/Rodrigo: Ainda temos muito o que aprender com os festivais gringos. Mas tem dois pontos que achamos que o M/E/C/A/Festival em Atlântida vai ser imbatível: gente bonita e animação.
Conector: Dos festivais que vocês visitaram, como seria a mistura perfeita?
Marco/Rodrigo: O clima californiano do Coachella, o desprendimento do público e o line up interminável do Glastonbury, e a vibe “loucurinha” do Sonar.
***
Toda e qualquer informação sobre M/E/C/A. O primeiro lote de ingressos já esgotou. Mais adiante eu vou sortear alguns por aqui. Você também pode seguir o @MECAFESTIVAL no Twitter.
Luz ao redor do espelho: um símbolo dos 16 anos do Noise?
Tudo bem que todo mundo só quer falar do Terra e do Paul. Mas quem não estava em São Paulo no fim de semana passado (na verdade, na semana toda passada), e por acaso estava no centro-oeste, deve ter se envolvido de alguma forma com o Goiânia Noise 2010.
Foi a décima sexta edição do festival (sim, décima sexta) e a chegada à idade de votar aumentou a responsabilidade do Noise, que fez jus à, hmmm, maturidade compondo um mega-evento que se estendeu por praticamente uma semana de shows e conferências espalhadas pela cidade e fechando a maratona com o encontro de Gilberto Gil e Macaco Bong. Eu não vi tudo isso, na verdade estive só na sexta-feira lá pra tocar com os Walverdes. Mas era flagrante no ar e na cara dos participantes (inclua aí público, jornalistas, produtores e músicos) a satisfação de fazer parte de algo hoje fundamental para a cultura brasileira.
Há problemas? Sim, e eles foram discutidos exaustivamente na internet ao longo de todo esse ano, quando, depois de mais ou menos uma década, começaram a ser questionados certos padrões de produção dos festivais independentes brasileiros. Mas acontece que se a discussão surge é justamente porque há algo a ser discutido – e algo relevante. Dez anos atrás não se discutia nada disso porque nada disso existia.
De nossa parte, tocar no Noise tem sempre um sabor especial. Em exatos dez anos (nossa primeira participação foi em 2000, no DCE da UFG), já estivemos sete vezes na cidade e seis vezes no festival. Dividimos noite com o Nebula, Los Nata, Guitar Wolf, Wander Wildner e até já dividimos o palco com o MQN no ano passado. Já tocamos na Já fizemos um show seguido de um rápido banho no banheiro improvisado (agora reformado!) do Martim Cererê pra segundos depois entrar num ônibus com meia dúzia de bandas goianas pra 13 horas de viagem até o Calango (isso foi em 2007? num lembro).
Sexta passada, não consegui ver muitos shows, já que nossa passagem por Goiânia dessa vez foi meio no esquema bate e volta. Mas só de ver os quatro sócios da Monstro reunidos na beira do palco pra nos assistir, gente cantando Acordando Sequelado (música do Anticontrole que quase nunca tocamos ao vivo) e depois assistir o Black Drawing Chalks de trás do palco jogando em casa, esbarrar no Pete Shelley dos Buzzcocks e no Graham Massey do 808 State, ouvir o Grampá contando dos planos dele pra um certo personagens da Marvel, bom, já valeu super a pena.
Foi uma correria, porque chegamos no início da noite na cidade e na madrugada já estávamos embarcando de volta pra Porto Alegre, o que obviamente nos subtraiu não só a after-party com o Graham Massey discotecando como também necessárias horas de sono, que só serão recuperadas ao longo dos próximos dias.
Mas o que é que vai se fazer né?
21 OUTUBRO – QUINTA – SÃO PAULO/SP – OUTS – COM ZEFIRINA BOMBA
22 OUTUBRO – BELO HORIZONTE/MG – FLAMING NIGHTS – com Móveis Coloniais de Acaju e outras.
23 OUTUBRO – SOROCABA/SP – ASTEROID BAR
19 NOVEMBRO – GOIÂNIA/GO – GOIÂNIA NOISE FESTIVAL
E vem mais datas por aí.
Esse blog sobrevive da ambição suicida de tentar entender o contexto em que vivemos hoje através dos códigos da cultura digital, cinema, música, quadrinhos, entre outras prateleiras.
Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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