… já a Liu Chuang, diferente do Sang Dong (sonoro esse início de post, não?) escolheu uma abordagem diferente pra questionar noções de identidade e falar da relação das pessoas com seus objetos e sentimentos. Ela simplesmente chegou em algumas pessoas aleatoriamente na rua e comprou TUDO que a pessoa estava usando e portando no momento, INCLUINDO chicletes, cuecas e documentos. TUDO. Depois, ajeitou as coisas numa bancada do New Museum e chamou a parada de “Buying Everything On You”. Eu olhei e comprei a idéia na hora. Foi mal aí o trocadilho, mas eu realmente me conectei com o trabalho da Liu Cheung por mais óbvio e direto que ele seja. Se um grande pintor pode, em pleno museu, despir uma pessoa com um quadro intenso, por que negar a outro artista a oportunidade de fazer isso literalmente e no meio da rua? E depois trazer pra dentro do museu não a pessoa prestes a ser despida mas tudo aquilo do que ela foi despida? Você vai negar? Hein? Hein? Eu não.
E se outro chinês, o Chu Yun, quiser criar uma escultura usando uma pessoa? E se a única forma de convencer essa pessoa a fazer parte de uma escultura viva for emboletar a querida com Dormonid (ou outra dessas substâncias que as pessoas usam pra se anestesiar) e colocá-la pra dormir dentro do museu (quem nunca “dormiu” dentro de um museu?), em uma cama branca, com lençóis brancos, como são as paredes da maior parte dos museus? Quem vai dizer que talvez ela seja a pessoa mais concentrada que está lá dentro? Não me meto nessas coisas. Cada um com seus problemas.
E o que você me diria se aparecesse mais um desse hoje ubíquo país pra botar alguns pingos nos is e outros embaixo do ponto de interrogação quando falamo da cultura cosplay, congelando imagens de cosplayers em situações absolutamente cotidianas, dando a real não apenas para eles, mas também para quem não entende qualé, borrando os limites e mostrando que está tudo certo como está, não há qualquer dissonância de realidade no cosplay? O que você me diria?
E, quando, cansado de chineses, você se deparasse com desenhos aparentemente infantis de objetos domésticos? E descobrisse que são desenhos da vó da Katerina Seda, a qual, nos seus últimos anos de vida, foi convencida a desenhar o que a rodeava, fazendo você pensar na degradação do corpo e da mente ao mesmo tempo em que tenta lhe convencer do valor do mundo cotidiano? E se isso tudo lembrasse a pequena distância que existe entre a infância e a velhice, lembrando que quando crianças desenhamos para conhecer um mundo que vamos explorar e que a senhora ali está desenhando infantilmente um mundo do qual está prestes a se despedir? Você ia sacanear a senhora e dizer que os desenhos dela não prestam?
E se você chegasse ao fim de um post cheio de pontos de interrogação e descobrisse que isso foi só uma gambiarra pra encobrir o fato de que o blogueiro amigo não sabia direito por onde começar o seu texto, estava com preguiça de consolidar um raciocínio decente então tacou-lhe o conteúdo fazendo pergunta atrás de pergunta para um leitor aleatório, puro fruto da imaginação hiperativa de alguém que queria, de alguma forma, por mais estúpida que fosse, dividir um pouco da fascinação que lhe causou a exposição Younger Than Jesus que estava rolando no New Museum?
Hein? Hein?
A senhora Zhao Xiangyuan nasceu em 1938, algum tempo antes da revolução de Mao. Ela tinha 11 anos quando o caldo entornou, o que a colocou automaticamente dentro de uma geração marcada pra sempre pelas dificuldades de uma guerra civil, de medidas econômicas duras e de uma intensa revolução cultural. Não bastasse essa bagunça, o pai da senhora Xiangyuan ainda foi acusado de ser um espião anti-comunista e perdeu todo seu patrimônio. Mais tarde, já casada, a senhora Xiangyuan teve seu marido também acusado de atividades contra-revolucionárias, sendo obrigado a cumprir sete anos de trabalhos forçados.
E eu acho que tenho problemas.
Um dos legados mais fortes desse período, que a senhora Xiangyaun levou para toda sua vida, foi a filosofia do “Wu jin qi young”, traduzido pro inglês como “waste not” ou, em português razoável, “não gaste”. Diante da escassez de bens e recursos, o hábito de guardar embalagens e objetos velhos na garagem para um possível uso posterior se entranhou nela (e em seus amiguinhos) de tal forma que, mesmo quando em melhores condições, o hábito de juntar tralha permaneceu na cultura depois do período de dureza.
(Quem leu Maus do Art Spiegelman? O mesmo acontece com o pai do autor depois de passar por Aschwitz e acho que todo mundo tem em seus pais algo assim em menor escala.)
Em 2002, a senhora Xiangyaun estava lá, ainda juntando suas valiosas quinquilharias de forma agora extravagante e desnecessária diante de certas melhorias econômicas quando o senhor Xiangyaun… morreu. Seguiram-se, então, três anos de depressão e desespero, até que seu filho resolveu propôr uma forma interessante de trabalhar o luto. O filho da senhora Xiangyaun não é psicólgoco, mas um respeitado artista conceitual chinês. O nome dele é Sang Dong.
Bom nome. Sonoro.
Desistindo de convencer a senhora Xiangyaun a se mudar e se livrar do lixo seco, Sang Dong pediu à mãe que trabalhasse com ele em um novo projeto: expôr tudo aquilo que ela acumulou em décadas de “Wu jin qi young” ou “waste not”. Dessa forma, argumentou, ela conseguiria ir em frente e abrir mão do peso daqueles pertences acumulados mas dando um significado e um uso para tudo aquilo que, por tanto tempo, estava esperando… um uso.
Vai dizer: o cara é bom hein?
Waste not é uma das instalações mais lindas e emocionantes que eu já vi. É uma piada pronta em termos de arte contemporânea, porque basicamente é composta de lixo seco. Coisas que, pelo senso comum, deveriam ir pra reciclagem. Surpresa: elas foram pra reciclagem.
Como disse uma vez o Jorge Furtado, lixo é só uma coisa fora do lugar. Me desculpe se eu explico demais e tiro a poesia da situação, mas o que era inútil na casa da senhora Xiangyaun se tornou útil em uma série de âmbitos: ao se tranformar em obra de arte (embora muita gente não coloque isso na categoria de utilidade), ao ocupar espaço em um museu, ao servir de plataforma pra reflexões do público.
Quer mais ironia? Toma-lhe: a China é hoje, provavelmente, o maior produtor de quinquilharias da história da humanidade. Mais uma? Esse lixo todo deve ter viajado em containers e depositado sem dó nem piedade no meio do MoMA (o nosso lixo de container não é tão sofisticados conceitualmente). Outra? Os objetos estão todos dispostos de forma organizada, classificados e agrupados de acordo com suas antigas utilidades. Raramente os sentimentos dentro de nós têm esse privilégio. Raramente podemos olhar para nossa quinquilharia interna disposta de maneira tão clara e objetiva.
Ok, menos. A útima então.
Depois de esvaziar a garagem, a senhora Xiangyaun concordou finalmente em deixar sua velha casa e se mudar para um apartamento mais aprazível em Pequim, próximo a um parque. Lá ela morreu em janeiro último ao cair de uma escada depois de tentar salvar um passarinho.
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Aos links.
Roubei essas boas fotos da instalação desse blog. As minhas não tavam lá essas coisas.
E tem um texto interessante, de onde tirei mais dados da história, aqui.
Foi difícil pra mim começar a escrever sobre esse show. O Sonic Youth é uma banda fundamental na minha formação, tanto de fã quanto de tocador de música, então toda e qualquer informação traz junto a marca da emoção mais desbragada. Também é complicado porque já faz alguns anos que eu não escuto regularmente os discos da banda. Acho que o último que eu efetivamente ouvi de cabo a rabo foi A Thousand Leaves (muito embora eu tenha me apaixonado por The Emtpy Page do Murray Street) e depois, como acontece com qualquer namoro, acabamos indo cada um pra um lado por divergência de interesses. O problema não é você, Sonic Youth, eu é que mudei…
Na minha época de desinteresse pela banda, cheguei ao ponto de desprezar as duas vindas deles para o Brasil. Na primeira (um show incrível no Free Jazz em 2000 que vi pela TV) me arrependi. Mas consertei pegando um excelente show dos caras depois no T In The Park em 2001 ou 2002 na Escócia. Na segunda vez, não me arrependi: várias almas declararam o show do Claro Q É Rock simplesmente chato.
O show da semana passada em Nova Iorque, a meu distante ver, cai na segunda vala. Eu passei quase todo o show entediado, à medida em que a banda ia enfileirando músicas do novo The Eternal (que eu deixara pra conhecer ao vivo) misturadas com composições bem antigas (coisas incríveis e perenes como Death Valley 69, Pacific Coast Highway e Tom Violence), uma parte delas concentrada no bis. Este, por sinal, um show à parte. Na primeira volta ensaiada da banda, o vocalista e ainda intenso frontman Thurston Moore incitou a platéia a sair das cadeiras (aquele velho clichê de show na gringa, quase todo mundo fica sentado) e tomar a frente do palco. Todo mundo obedeceu, menos nós da platéia superior que apenas pudemos nos levantar. A pequena quebra de decoro parlamentar e o repertório contraditoriamente refrescado por canções antigas, deu um pouco mais de vida a um show difuso.
Pensei que essa seria apenas uma impressão minha derivada de um período de afastamento, mas encontrei por aí algumas resenhas que também falam sobre esse sentimento. Uma, em especial, levanta inclusive a problemática acústica do United Palace, que não privilegiou muito quem estava na platéia alta. Longe de estar inaudível, o mix que subia vinha com um reverber adicional que dificulta o entrelaçamento das três guitarras empunhadas por Moore, Ranaldo e Gordon (o baixo ficou a cargo do ex-Pavement Mark Ibold na grande maioria das músicas).
Não é uma questão de falta de entrega ou de energia. Pelo contrário, a banda que tem quase 30 anos de atividade se apresenta como se seus integrantes tivessem 20 anos de idade. Moore, em especial, se balança e chacoalha como um adolescente e é bem recebido pela platéia, inclusive quando resgata mais um hábito para o revival dos anos 90: o mosh. Sim, Thurston Moore teve a petulância de se jogar em cima do público a essa altura do campeonato. Há de se tirar o chapéu pro cara por conta dessa… quanta disposição.
Mas então, qual é o problema? Já disse lá em cima. Quase certo que não há nada de errado com a banda, eu é que estava a fim de ouvir a) Os hits mais palatáveis de Goo, Dirty, Experimental Jet Set e Daydream Nation ou b) o trabalho mais lustrado e lírico a la The Empty Page. Não rolou a química, tudo bem. É a vida. Me contentei com a cerveja, a pipoca (sim!) e o bis (a melhor parte do show, muito embora eu não consiga entender por que uma banda sai e volta três vezes pra dar três bis de duas músicas cada… por que não fazer um bis de seis? ou dois de três? Whatever…) Eu só não conseguia parar de pensar que minha mulher e minha enteada estavam se divertindo mais vendo The Blue Man Group.
Uma última nota. O United Palace, onde aconteceu o show, foi um espetáculo à parte, com sua arquitetura bizarra e opulenta que mistura estilos bizantino, hindu, romano, entre outros delineados na Wikipedia. Inaugurado em 1930, ao longo de 4 décadas abrigou espetáculos de vaudeville e projeções cinematográficas, foi comprado em 1969 por um reverendo de uma igreja cristã. Desde então, o teatro tem sido utilizado mais para fins religiosos (todo mundo tem a sua Igreja Universal) até que a partir de 2007 começou a ser alugado novamente para shows. Bjork, Stooges e Arcade Fire são alguns dos nomes que passaram pelo United antes do Sonic Youth.
A localização do Palace também não é muito óbvia. Ele fica numa área bem ao norte da ilha de Manhattan que muito provavelmente não recebe com frequência o tipo de público que vai a esses shows. O cara que estava sentado ao meu lado veio do Brooklyn (bem ao sul) e comentou que o Sonic Youth poderia tocar em qualquer lugar da cidade, mas escolheu este como uma forma de ajudar a comunidade. Eu adicionaria ainda o fator estético/inusitado do local e talvez um aluguel mais barato como motivos complementares.
Minhas fotos foram feitas com o celular e são meio podres. Então não deixe de ir aqui pra ver fotos massa do shows, do lugar e do setlist.
É engraçado. A série Gotham na verdade começou há um anos e pouco, quando passei dez dias com minha mulher em Nova Iorque. Como você pode ler aqui, eu fiquei bastante impressionado com minha primeira vez nos Estados Unidos. Da mesma foma que a maior parte das pessoas de classe média no Brasil, cerca de 70% da minha formação cultural se deu por intermédio de produtos americanos (de todas as qualidades). Fora isso, tenho algumas ligações sentimentais com a língua e o jeito como os americanos organizam sua sociedade.
Essa segunda viagem a Nova Iorque só veio confirmar as sensações misturadas da primeira: adoro o lado cosmopolita e cultural da cidade, mas aquela correria e aquela ansiedade no ar definitivamente não me fazem tão bem. De modo que meus dois lugares prediletos são o Central Park (como achei no ano passado) e a recém inaugurada High Line. O Central Park você conhece bem de todos aqueles filmes que já viu. Mas a High Line é uma jóia fresca, foi inaugurada há algumas semanas, uma alternativa de passeio poética e inteligente em uma cidade cravada de pequenos prédios e arranha céus que parece ter se tornado o novo orgulho dos novaiorquinos (ou ao menos os representados pela mídia…).
A idéia tem mais de dez anos e foi declinada pelo prefeito da tolerância zero, Rudolph Giuliani. Basicamente, o que se pretendia era pegar uma linha de trem “aérea” e transformá-la em um… parque. Parte da linha original foi derrubada muito antes, mas o que sobrou recebeu um redesenho completo, com passeio, uma vegetação que simula o verde selvagem que cresce em torno de ferrovias e facilidades como bancos, telefones de emergência, escadas de acesso e um curiosíssimo anfiteatro com uma enorme vitrine que dá para a rua.
Passear na High Line foi certamente uma das coisas mais especiais que fizemos. Ela literalmente eleva o seu passeio, o coloca em um outro nível numa cidade onde a maior parte das caminhadas do circuitomais turístico (a não ser aquelas na orla da ilha de Manhattan) são sufocadas por prédios por todos os lados. Ok, os prédios ainda estão lá, mas o pedestre parece ganhar um outro status, ao menos ao conseguir enxergar a rua de cima e o segundo ou terceiro andares dos prédios ao redor olho no olho. Pra completar, a High Line fica a poucos quarteirões da orla do Rio Hudson, o que oferece algumas vistas incríveis quando a prediarada (coletivo para prédios) dá um tempo.
Aqui em Porto Alegre temos um projeto chamado Aeromóvel que chegou a ser construído mas nunca foi utilizado comercialmente. O projeto piloto foi instalado próximo ao centro da cidade e até hoje está lá, jogado às moscas. Daria uma boa High Line para nós.
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Curiosidade: fui pesquisar sobre o Aeromóvel e descobri que ele é uma tecnologia brasileira. Existe apenas uma outra linha operando no mundo em Jakarta.
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A série sobre Nova Iorque continua nos próximos dias.
As escadas de incêndio me impressionaram. Não apenas pelo desenho geométrico e hipnotizante ou pela aparência de armaduras vestindo os prédios. Mas principalmente pelas lembranças de dezenas de histórias do Demolidor, Batman e Homem Aranha lidas nas primeiras duas décadas da minha vida. Vi muita coisa acontecer nessas escadas e quando me deparei com elas de verdade, confesso que fiquei meio sentimental.
O Matias fez uma bela análise a respeito da Mallu Magalhães. O gancho foi o último show dela com 15 anos, mas a questão não é essa e sim que ainda está por ser entendido o que é ser artista, o que é ser celebridade e o que é ser indie (existe ainda?) hojimdia. Bom ponto do Matias: o que interessa é olhar a Mallu fenômeno e não a Mallu pessoa. A segunda realmente não é problema meu (é seu?), já a primeira é uma das coisas mais interessantes que já surgiu nos últimos tempos por derrubar tantas paredes feitas de vento - mas que alguns insistem em dizer que são de concreto.
Ensaio sobre a Cegueira, Fernando Meirelles pra cá, Saramago pra lá e o Arnaldo me veio com esse cartum… muito bom, muito bom…
O Bruno vem fazendo uma série de posts dividindo com a gente sua saudade de Londres. Aí eu me lembrei uma coisa que me deixou saudoso nas vezes que voltei de lá: o design das placas de sinalização em tudo que é lugar. Pode parecer uma bobagem, mas eu continuo achando que em alguns casos isso contribui pra qualidade de vida, senão pela real eficiência de sinalização, então ao menos pela mera organização visual em um mundo cada vez mais caótico nesse sentido. Virginiano é virginiano né…
Na busca por imagens pra ilustrar esse comentário, esbarrei nesse site de um professor de design, que comenta “public letterings” em uma caminhada no centro de Londres. Vai lá.
Bom fim de semana, só sento na frente da tela na segunda agora…
Eis que ao pesquisar pra repassar umas dicas de Nova Iorque pra um amigo, descubro que eu e minha mulher pegamos os últimos suspiros do Florent: o restaurante idiossincrático do aventureiro Florent Morellet fechou suas portas cerca de um mês depos de passarmos por lá.
Olha o que foi a despedida do bistrô: uma série de eventos tresloucados ao longo de cinco semanas, cada uma delas correspondendo ao estágio de luto do modelo Kubler-Ross: uma semana de Negação, outra de Raiva, mais uma de Negociação, a seguinte de Depressão e a final de Aceitação.
Por aí dá pra ter uma idéia do motivo (nada gastronômico) pelo qual eu quis ir ao Florent: descobri ele no livro Perverse Optimist, que reúne os principais trabalhos do designer Tibor Kalman, fundador da M&CO, influência direta do Stefan Segmeister e co-criador da Colors junto com o Oliviero Toscani. A M&CO foi responsável não só pela identidade gráfica do Florent como também pela divulgação através de pôsteres, anúncios e brindes carregados de ironia e crítica política/cultural. O trecho do livro dedicado ao trabalho de Kalman ao Florent é tão interessante (uma aula de conceituação e de atenção consistente aos detalhes) que quando decidimos ir pra Nova Iorque, incluí o pequeno bistrô no roteiro.
O Florent foi um dos primeiros (senão o primeiro) empreendimento não ligado ao comércio atacadista de carne (seja gado ou travestis) a se instalar no Meatpacking District, vizinhança totalmente degradada lá em 1986. O aventureiro Molleret resolveu colocar ali seu bistrozinho que passou a receber sequelados quase uma década antes de boutiques, restaurantes chiques e clubs iniciarem uma espécie de revalorização da área, uma revalorização tão tão eficiente que o aluguel do Florent ficou impraticável, acarretando o fechamento do lugar.
Fomos lá duas vezes durante nossa estadia e na primeira desistimos por causa da fila enorme. O público, claro, já não era mais aquela coisa underground que deve ter sido nos anos 80, mas ainda assim fazia jus ao que eu li no Perverse Optimist: “Eu queria abrir um restaurante que, se possível, não precisasse de design nenhum. Um lugar que já existisse, que parecesse que sempre existiu e que parecesse ficar lá pra sempre.” Com certeza parte da ironia de ocupar um american dining e colocar um espelhão em frente ao balcão (característica de bistrôs franceses), bem como a localização inicialmente obscura se perderam no tempo. Mas esse clima meio indefinível de irreverência com nostalgia me pareceu estar lá ainda.
foto daqui
Mas o que que isso interessa? Eu não queria deixar esse post como uma dica duplamente inútil (primeiro porque o lugar fechou, segundo porque não é bem assim pra ir ali em Nova Iorque comer num restaurante…).
O que me atraiu no Florent foi o fato de ser um lugar com raiz, com alma, com uma história interessante que sustenta opções estéticas e não o contrário. Toda vez que essa equação é invertida e se colocam as opções meramente estéticas (ou sensoriais, etc, etc, etc) como base para um conceito surgido sabe-se lá de onde, o resultado é menos criativo, menos instigante e, em última análise, menos humano.
Retomando as coisas que eu ainda tenho a dizer sobre Nova Iorque, me lembrei hoje da visita às lojas do Marc Jacobs. Jacobs é daqueles estilistas que, se você tem um problema com gostar de moda, pode evocar o Sonic Youth pra te dar credibilidade. Afinal o clip de Sugar Kane foi filmado em meio a um desfile de uma coleção do figura, que deu seus primeiros passos de ícone contemporâneo ao desenhar uma coleção “grunge” pra Perry Ellis em 93. Jacobs tem por hábito acompanhar sua vida e sua, por que não dizer, arte, de outros símbolos da cultura pop da hora tipo Michael Stipe, M.IA., o fotógrafo Jurgen Teller, a Chloé Sevigne, entre outros tantos.
Dito isto, eu tinha uma grande curiosidade de conhecer as lojas. Minha mulher me levou primeiro na loja “cara”, no Soho, a Marc Jacobs. Assim que eu botei os olhos nas roupas, fiquei realmente impressionado com o desenho de tudo e por força do hábito acabei tendo que explicar pra mim mesmo sob a forma de uma comparação com certas músics do Sonic Youth: uma mistura de dissonância com elegância como poucos podem fazer. Ali na minha frente estava uma combinação do que existe de melhor na moda com um universo de referências de certa forma próximo aos meus… gostos. Simples assim. No fim tudo se resume à montanha de técnica, talento e dedicação que consigam passar pelo estreito funil das suas referências, não é mesmo?
Bom, o fato é que um blusãozinho gola V custava tipo 600 dólares então tudo muito bonito de se olhar. Nisso, minha mulher me levou até as outras duas lojas “Marc by Marc Jacobs”, onde ele vende coleções mais simples, mais baratas, mas nem um pouco piores do que as que estão nas lojas Marc Jacobs em termos de qualidade e design. Comprei um blaser de reunião (fundamental pra eu sentir que sei do que estou falando no meio de engravatados - ainda não atingi o estágio Carlos Eduardo Miranda) pela metade do preço de um blaser sem graça no Brasil (mesmo pagando em dólar) e na loja feminina havia roupas e acessórios de tudo quanto é preço a partir de 3 dólares.
O que me fez pensar em como é interessante esse sistema de democracia pelo consumo: você pode ser um pé rapado e ter apenas 25 dólares na carteira, mas você vai sair da loja do cara com qualquer treco dele, com o design e a qualidadedele. Duas coisas me chamam a atenção nisso. A primeira, que eu acho muito legal, é um certo tom anti-exclusivista (todo mundo pode ter algo do Marc Jacobs, ainda que seja da segunda marca, algo pouco dissemindo no Brasil ainda). A segunda, menos benéfica, é que isso em grande escala ajuda bastante a construir um país consumista e poluente.
Por outro lado, minha fascinação pela obra do Marc Jacobs esbarrou um pouco no documentário que eu vi sobre o trabalho do cara à frente da Louis Vuitton. Não há nada de errado no filme, é fascinante porque mostra o trabalho de alguém realmente excepcional, um cara que parece simplesmente trabalhar muito e, se tem chiliques, deixaram de fora da edição. Mas ao mesmo tempo, um clima meio triste permeia a história. Uma espécie de nuvem densa que eu não sei explicar muito bem. É muito comum eu ficar entusiasmado quando vejo esse tipo de documentário e me sentir compelido a seguir o exemplo desse tipo de artista (embora nem sempre eu considere esse um caminho válido pra minha vida). Mas dessa vez foi diferente, havia um tom de solidão e melancolia. O cara não parava de comer umas barras de proteína meio sinistras… aquela magreza meio cadavérica… pode ser total viagem minha, pode ser o momento em que eu assisti, não conheço a biografia dele a fundo. Mas fiquei com um pé atrás.
De todo modo, se você tiver a oportunidade, vale a pena ver um grande designer trabalhando. Sempre se tira alguma coisa, nénão?
Acho que a coisa que você mais faz em Nova Iorque é perder atrações e barbadas. Por exemplo, nós perdemos o Hypnotic Brass Ensemble pra ir no Fred Wesley tocando com um clarinetista e um rapper judeus. Também perdi de ir na loja de instrumentos freqüentada pela galera do Sonic Youth. Pra não falar de uns dois ou três museus que perdemos de propósito porque não havia mais perna e cérebro disponível na casa.
Mas uma coisa eu fiz questão de não perder: qualquer show de stand up comedy que aparecesse pela frente.
Não sei como a coisa anda no seu mundo, mas no meu universo de amizade o stand up comedy anda em franca ascensão. Dois amigos meus se pilharam pra começar a escrever textos e ensaiar uma carreira underground de comediantes. Links de you tube voam de um lado para o outro. E, algo que merece um post à parte, o Brasil começa a ser invadido por esse hábito americano de fazer comédia em bar escudado apenas por um microfone e uma platéia alcoolizada.
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Bom, o fato é que calhou de estarmos parando a uma quadra de um dos principais clubes de comédia de Nova Iorque, o Stand Up NY (o link até dias atrás tava funcionando, hoje não está, vamos ver se vc dá sorte quando ler esse post). O Seinfeld e o Chris Rock já passaram por lá, só pra elencar alguns poucos nomes. Trechos de apresentação da volta do Seinfeld aos palcos no documentário Comedian, por sinal, se passam no Stand Up NY. Ou seja, um lugar cheio da mística.
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Fomos num sábado, dia de sessão tripla: os 7 comediantes da noite se apresentavam às 20h, às 22h e à meia-noite. Assim que uma sessão terminava, a platéia era enxotada gentilmente pra fora, o bar era limpo e a fila que esperava era acomodada rapidamente.
Fomos colocados em uma mesa junto com um casal mais novo de Long Island (uma ilha ao lado de Manhattan que contém alguns bairros de Nova Iorque e também uma região praiana). Ali já começou a comédia, porque, apesar de muito simpático, o casalzinho não era muito versado em geografia e pediu confirmação a respeito de suas suspeitas sobre o Brasil ser na América do Sul e do francês ser nossa língua oficial.
Antes de tudo começar, rolou um certo nervosismo de nossa parte. Será que vamos entender o inglês? Será que vamos entender as piadas? Será que vai valer a fortuna que custa a brindadeira toda?
(20 dólares de entrada + 20 dólares de consumação + taxas + gorjetas = 100 dólares o casal)
No início, ainda tivemos nossas dúvidas. O mestre de cerimônias era bem engraçado. Mas os primeiros humoristas não muito. Cada set durava em média 20 minutos e uma mulher usou praticamente todo o seu tempo detonando seu filho recém nascido, falando das dificuldades da maternidade de um jeito meio mórbido. Outros dois caras eram tão rápidos que a gente não entendia nada. Ríamos de nervosos ou junto com as outras pessoas, só por rir.
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Na verdade, a platéia inteira ria de qualquer coisa que os caras falassem, o tempo todo. No início ainda pensamos que o problema era nosso entendimento do inglês, mas à medida em que o show foi indo adiante, percebemos que eles riem de tudo mesmo! De qualquer coisa! Talvez seja uma espécie de atitude de consumidor de primeiro mundo tipo “estou pagando por esse troço, então eu vou rir, ah eu vou rir muito!!”.
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Felizmente lá pela metade da sessão a coisa começou a melhorar, especialmente quando um australiano radicado em NYC chamado James Smith começou seu set desancando a cultura americana - o que fez as pessoas rirem ainda mais.
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Outra surpresa incrível foi um tal de Mitch Fatel. Foi o meu preferido da noite, não só pelo texto do cara, mas pelo personagem que ele encarna. Diferente de todos os outros comediantes, que baseiam suas apresentações em uma aura cool de esperteza e desprezo (por outros ou auto-desprezo), o Mitch Fatel constrói todo seu ato em cima de um personagem tímido, com movimentos discretos, um fiapo de voz mongol, sussurros bizarros e orgulho disso tudo.
O site do cara merece uma visita, especialmente por um texto que dá dicas de como se tornar um comediante…
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Outro cara muito bom, mas que aí eu peguei na tv, num especial do Comedy Central, foi o George Lopez. Como o Russel Peters faz tudo em cima da sua ascendência indiana, grande parte do material do George Lopez é baseado nas peculiaridades da cultura mexicana dentro dos Estados Unidos. Em quarenta minutos de show que eu assisti, eu aprendi mais a respeito da America e dos mexicanos lá instalados do que talvez aprendesse em qualquer enciclopédia…
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Não tenho nada engraçado pra dizer no fim do post.
Talvez eu só devesse citar o Mitch Fatel: “oh my god…”
Um dos programas mais legais que fizemos em Nova Iorque foi pegar o metrô até o Brooklyn e procurar um restaurante chamado Habana Outpost. A primeira pequena atração do passeio foi meio que estar perdido logo que descemos do metrô e caminhar algumas quadras a esmo em um lugar bem diferente de Manhattan, berço de uma série de expressões multiculturais, tema de música do Beastie Boys, cenário de filmes do Spike Lee, ponto central de uma recente efervescência musical indie, especialmente na área de Williamsburgh.
Mas, enfim, o que interessa é que paramos numa esquina pra pedir informação a um policial e enquanto a Lucia fazia as perguntas eu me entretia em espiar o carro do officer, fascinado com o fato de que os caras tem um laptop dentro do carro. Minhas fantasias mais infantis foram ativadas e fiquei imaginando que eles devem usar o Google pra pegar ladrão. Por exemplo, eles recebem um chamado de assalto em uma rua e colocam: “Assalto na esquintal tal com tal” no Google Images e vem uma foto do cara. A partir da foto pegam o nome, buscam na agenda do Google o próximo compromisso do cara (”Levar gato pra tomar banho na pet shop do Silveira”), colocam “Pet Shop do Silveira” no Google Maps e vão lá prender o cara. Polícia de primeiro mundo é outra coisa.
(Epa, agora lembrei de uma: quando estava lá, li num jornal gratuito a notícia de um bombeiro que havia sido pego roubando um banco tinha um perfil no MySpace com comentários e piadinhas detonando a polícia e os bombeiros de nova iorque… e isso é especialmente grave porque os bombeiros parecem ser meio heróis por lá… agora os cadetes tem suas vidas online devidamente vasculhadas por olheiros digitais da polícia…)
Bom, o guardinha nos deu a indicação e caminhamos meia dúzia de quarteirões naquele bairro com mais cara de bairro do que de cenário de filme (muito embora tudo lá pareça um cenário de filme, depende do filme…) até chegar no Habana Outpost.
E por que diabos fomos atrás desse lugar? Porque um mês antes eu havia vasculhado um site de shows e passado um pente fino em quem estaria tocando na cidade naquela semana. No meio de incontáveis bandas de folk indie, encontrei uma deliciosa novidade (novidade pra mim, ao menos): The Hungry March Band.
Mais do que uma banda, é praticamente uma comunidade multicultural, um squat ambulante cuja população pode variar de 5 a 50 artistas entre músicos e performers. A parada dos caras é aquela coisa de parada: uma espécie mutante de fanfarra, com o som baseado em bumbos, taróis e metais tocando uma música de banda marcial, jazz, funk, música cigana, essas coisas. Com a cabeça cansada de tudo que eu andei ouvindo até hoje, foi um convite para mergulhar em uma coisa nova e divertida.
A cereja do bolo é que o show não só era gratuito como fazia parte de uma “block party”, uma festa daquele quarteirão específico celebrada no simpático pátio do Habana Outpost. Como a festa, o restaurante foi uma atração à parte. Com uma decoração colorida e elaborada de forma a parecer não elaborada, o Habana Outpost mistura comida cubana/mexicana com experiências ecológicas.
Uma banda de música cubana, três margueritas, um prato de nachos e alguns milhos assados com queijo e pimenta depois da nossa chegada, a Hungry March Band apareceu no pátio. Todos vestidos a caráter, com aquela pompa de banda marcial, mas um detalhe: a única uniformização eram as cores vermelho e preto. Fora isso, cada um com seu próprio conceito de pompa e circunstância, misturando tênis, casacos de almirante completamente detonados, quepes aleatórios, saias caóticas e inclusive uma fantasia de gorila.
Foi uma função: todo mundo teve que sair do pátio porque a banda começava a tocar na rua. Levantamos, fomos lá pra fora e acompanhamos a Hungry March Band entrar de volta no pátio. Fez todo o sentido do mundo, porque banda marcial que se preze não pode entrar no palco e tocar, precisa entrar marchando!
À frente da trupe de metais e percussão vinham duas animadoras. Uma delas segurava e girava um bastão de um jeito que me fez pensar no conceito de “punk baliza”, um tipo de versão Ramones das coreografias abre-alas. Ela estava mais interessada em fazer grau e provocar a platéia do que propriamente acertar os movimentos, o que deixava tudo mais interessante. Ao lado, seguindo de perto, vinha a segunda “baliza”, vestindo uma fantasia podre de gorila, assustando as crianças e temperando a cena com breakdance tosca, espasmos primatas e alguns golpes de karatê.
Ao fundo, a banda seguia tocando impávida. Foi um dos shows mais legais que eu vi nos últimos anos e juro que as margueritas não tem nada a ver com isso. A verdade é que um bom naipe de metais, um bumbo e um tarol bem ajuntados têm total condição de dar conta de um bando de neurônios que não eram chacoalhados decentemente há algum tempo.
Onde eu andei todo esse tempo? Eu estava em Nova Iorque. The Big Apple. Gotham. Nova Iorque Contra o Crime. Lar do Demolidor.
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Foram 8 dias da melhor forma possível: com a minha mulher, que além de ser minha amada, já foi meia dúzia de vezes pra cidade. Ou seja, em nenhum momento precisei me preocupar com aquela coisa de mapas ou direções. Tudo que eu precisava fazer era ficar boquiaberto com a quantidade absurda de informação que meu cérebro tentava absorver. O principal efeito de Nova Iorque sobre mim: fazer eu me sentir com oito anos de idade.
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Por muitos motivos me senti dessa forma. Primeiro por isso, por estar sendo levado de um lado para o outro feito sem precisar nem olhar nome de rua. Segundo porque estar na cidade ativou um sem número de lembranças sentimentais ligadas a filmes e quadrinhos que entraram pelos meus olhos e ouvidos especialmente na infância. Terceiro porque tudo na cidade parece ser tão farto e estar tão à mão em uma variedade tão grande que me senti uma criança numa loja de brinquedos.
Durante os primeiros três dias parecia que eu tinha fumado haxixe. Não consegui entrar na vibe aceleradíssima da cidade, como uma espécie de distanciamento, mas ao mesmo tempo me sentia meio em casa com tantas esquinas e prédios já visitados através das história do Demolidor ou dos filmes do Woody Allen. É uma sensação muito esquisita e várias outras pessoas que já foram pra lá me confirmaram esse efeito.
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Mas isso foi uma espécie de proteção. Porque, na real, a impressão que eu tive é que o ar da cidade cheirou cocaína. Em todo lugar tem gente andando rápido, indo de um lugar para outro. Muita gente. O tempo todo. “The city that never sleeps”, diz um slogan local. Não sei se isso deveria ser motivo de orgulho.
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A grande questão é: pra onde essas pessoas todas estavam indo? Pra outro lugar não é porque, até onde sei, a população da cidade está crescendo e não diminuindo. Então temos mais de oito milhões de pessoas trabalhando duro, trabalhando muito mesmo (parece que mesmo os ricos trabalham bastante lá, vai entender), correndo o tempo todo e não indo a lugar algum. A cidade nunca dorme mas também está sempre lá, parada no mesmo lugar. Não há notícias de que as ilhas que formam Nova Iorque tenham se movido em alguma direção que seja. De alguma forma, não parece fazer sentido toda essa velocidade. É um verdadeiro paradoxo de física moderna.
(continua…)
Eu nunca me imaginei em plena Olinda no meio do Carnaval. Mas foi isso que aconteceu. E com uma criança de seis anos junto!
Não sou daqueles que DETESTA caranaval. Pelo contrário, sou muito facilmente seduzido por tambores. Mas é que eu realmente prefiro a beira de praias tranqüilas do que o fuzuê. Independente disso, o fato é que às dez da manhã estávamos lá, subindo e descendo ladeiras, acompanhando os primeiros blocos, curtindo os naipes de metais e o aquecimento dos foliões de idades, proveniências, raças e classes absolutamente variadas. Nunca me senti tão Francisco José na vida. Na maior tranquilidade, percorremos a Rua do Amparo (sede de vários blocos) e subimos até o Alto da Sé pra ver a cidade lá de cima. Depois, um pouco de praia (um trecho insuportavelmente lotado da deliciosa Boa Viagem) e na sequência nos tocamos para o Recife Antigo curtir os blocos infantis de frevo e os de maracatu (que vimos em duas versões, popular e classe média, ambas excelentes).
Para quem tem o carnaval da Bahia em mente, saiba (eu não sabia direito) que estamos falando aqui de outro departamento. O carnaval no Recife é muito baseado no frevo e no maracatu, o que é um alívio porque eu acho axé muito acelerado demais. Mesmo o frevo mais frenético é um pouco mais na boa do que o hardcore que virou o axé. Toda música de carnaval vai acelerando ao longo dos anos… olha o que aconteceu com as escolas de samba, foi tudo acelerado ao longo dos anos. Mais um pouco e vamos ter speed samba na avenida, como tem o speed metal…
Enfim, fiquei olhando os blocos de maracatu e pensando: putz, esses caras da Nação Zumbi tiveram muito a manha de meter um Beastie Boys e um Hendrix no meio disso daqui. Não é difícil de imaginar, mas botar pra funcionar são outros quinhentos.
Uma nota: que história é essa de urso? Nunca eu tinha ouvido falar da importância do urso na mitologia dos frevos. Quando que eu imaginaria que o URSO é algo importante no carnaval de Recife? Pois vimos dois ou três blocos com histórias de urso, algo francamente relacionado ao adultério de forma alegórica, burlesca, um mashup de Ary Toledo com Irmãos Grimm.
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Embora me tenha sido dito que o carnaval descentralizado do governo era uma forma de tentar que o pessoal da periferia deixassem os turistas em paz, o jornal do dia seguinte afirmava que não rolou e não teve jeito de barrar a mistureba. O que não foi problema algum, pois mesmo com alguns pequenos arrastões isolados, outra manchete no mesmo jornal declarava o carnaval 2008 como o menos violento dos últimos anos. Eu, particularmente, me senti totalmente seguro por lá, o que pode ser, claro, o astral de estar de férias caminhando por locais turísticos a maior parte do tempo.
(Por outro lado, dois dias depois 3 travestis foram mortos em Boa Viagem, dois numa emboscada e um terceiro dentro de um salão de beleza. Não sei se as mortes estão relacionadas.)
Estive uma noite no RecBeat a convite do parceiro Fabrício Nobre. Me descolou pulseirinha e tudo mais. Encontrei leitores do Conector, o que é uma grande alegria. Os fãs dos Walverdes eu já conheço pela socialização indie nos shows e festivais. Mas o blog é diferente, é tudo por email dificilmente as pessoas têm rosto além de thumbnails em redes sociais. Fico feliz de ver que por trás do Google Stats (eu sou meio obcecado pela audiência do blog, confesso) tem pessoas interessadas e interessantes dos mais diversos lugares. Enfim, até entrevista pra uma rádio comunitária de Recife eu dei, no camarim do Lucy and The Popsonics, contando novidades dos Walverdes.
Vi o show do Orquestra Típica Fernandez Fierro ali no fosso dos fotógrafos, que já tinha me sido recomendada pelo Takeda (a banda, não o fosso). Um show que não sei explicar, não entendo tango, é tudo tão intenso, dramático e levemente caótico. Mesmo com o som baixo, foi um ótimo show, fiquei com vontade de ver mais e me dei conta como sempre escuto as mesmas coisas. O vocalista era uma figura, meio Plato Divorak, entrou de gravata, sunga verde limão, um só pé do tênis Adidas vintage, e saiu cantando a la Gardel… uma peça rara. Não sei se no CD tem a mesma graça. Quando fui comprar, tinha acabado.
Depois vi o Lucy and The Popsonics (que começa tour cósmica em breve) da platéia e um pedacinho do Pato Fu de volta ao fosso. Não gosto de Pato Fu, mas não tem como não ser simpático à alegria que a banda trouxe às pessoas. Fiquei feliz.
Praia dos Carneiros. E ponto final.
Depois da rapidíssima temporada em Recife, nosso power trio familiar se dirigiu à Porto de Galinhas: passeios de bugue, piscina de hotel família, reconhecimento de praias semi-desertas, desfrute de pontos absolutamente turísticos. Essa parte eu prefiro nem escrever… como escrever sobre a Praia dos Carneiros? As fotos falam mais do que qualquer linha escrita… e a essa altura do campeonato, já imerso no calor de Porto Alegre (infelizmente sem o horário de verão) e no trabalho… fico por aqui esperando a próxima vez que meu bom carma vai me mandar a Pernambuco.
Pernambuco sempre teve um enorme fascínio sobre mim. Principalmente, óbvio, por causa do mangue beat. Desde a primeira reportagem na Bizz, eu fui automaticamente cooptado pela forma como esses caras juntaram tanta coisa de forma tão harmônica em uma linguagem, oferecendo ao Brasil um código aberto que hoje permeia grande parte da cultura pop nacional.
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A grande pergunta é: por que eu nunca fui pra Pernambuco antes? Porque eu sou meio tanso. É óbvio que eu deveria já ter ido. Mas sei lá. O Paulo André nunca nos chamou pro Abril Pro Rock. Nem a Ana Garcia pro No Ar do Coquetel Molotov. Nem a gente insistiu. E a gente não teve tempo de esticar um show dos Walverdes lá quando tocamos em Natal e João Pessoa (eu já estava estourado nos meus dias de férias depois de uns 10 dias de turnê e mais 10 de retiro). É caríssimo pra nós marcar turnê no nordeste. Porque da última vez que eu fui pro Nordeste (há uns 4 anos) escolhi conhecer o sul da Bahia primeiro. Desculpas, desculpas e mais desculpas… não me agüento…
Uma vez o André Frank dos Astronautas deu a barbada: é tudo culpa do Maurício de Nassau, um mancebo alemão, dito celibatário (será? no meio das índias ocidentais?), humanista, amigo das letras e das artes, calvinista de alto grau de tolerância religiosa (na Maurisstad, a Recife dos holandeses, foi construída a primeira sinagoga da américa e era permitida a prática de diversas religiões, algo raro na época)… pois este rapaz é que foi mandado pela Companhia das Índias Ocidentais cuidar do Pernambuco tomado dos lusos e ele trouxe na armada arquitetos, naturalistas, engenheiros, pintores, entre outros responsáveis por uma espécie de renascença concentrada no que foi considerada uma das cidades mais avançadas da colônia.
A real é que em Pontal do Maracaípe, num passeio de jangada com a família, coloquei os olhos no mangue e entendi todo o resto que não tinha entendido: as raízes à mostra (como é incomum na cultura dos centros urbanos do sul e mais comum no nordeste), o solo fertilizado pelo fato de ser pura transição (entre a terra e a água, entre o rio e o mar), tudo ao mesmo tempo agora, de forma extremamente complexa, porém simples - afinal, complexidade e complicação são coisas completamente diferentes).

“Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, disse Chico Science em 96. “Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar”, canta Siba. Mais de dez anos separam as duas frases, a primeira tirada de uma música do Afrociberdelia e o último entitulando o disco novo do Siba, ex-Mestre Ambrósio, hoje à frente da Fuloresta, uma agremiação de músicos tradicionais de Nazaré da Mata, interiorzão do estado, se não me engano.
A sutil diferença de foco entre as frase é emblemática: na primeira é o cara que precisa se mover, na segunda o cara é referência e o mundo é que se move em relação a ele. Pois o mesmo vem acontecendo com Recife. Se nos anos 90 uma galera antenada precisou dar um passo à frente para sair do lugar, hoje a cada passo que esse povo dá é o mundo que se ajeita à nova posição. Nénão? Diz q não pra tu ver…
Como disse o ex-publicitário (criador do “Não é nenhuma Brastemp”) e hoje viajante profissional Ricardo Freire: “Pode ser que você não tenha ido ultimamente ao Recife – mas é certo que ultimamente o Recife tem ido bastante até você.” Ele segue, no seu guia de praias, citando os programas de Guel Arraes na TV, os dramaturgos João e Adriana Falcão, Lenine e o mangue beat em um texto de 2002 cujos desdobramentos comprovam que a cultura do Recife vem sendo injetada (e bem recebida) na cultura pop nacional com uma regularidade e uma competência que só encontram paralelo na Bahia (e, de forma mais underground mas numericamente espetacular na cultura dos rodeios do interior de SP). Recife era cult, já está quase pop.
Recife também foi responsável, ao longo dos últimos dez anos, por reautorizar hordas inteiras de universitários em todo o país a curtir um “som Brasil” sem a pecha riponga que isso carregava durante os anos 80 e 90. De repente, os tecidos crus e a percussão voltaram à tona com credenciais all-access e o mangue beat é um dos grandes responsáveis - não pela concessão de autorização (isso não existe mais), mas fornecendo pontes (que ligam os rios aos overdrives). Se o axé permitiu o exercício da brasilidade nordestina que existe dentro de todo cidadão, foi o mangue beat que trouxe a classe média para a festa.
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… continua….
Esse blog passa a ser atualizado meio que erraticamente nos próximos 25 dias. Parto pra uma turnezinha amiga com os Walverdes pelo sudeste (serviço abaixo). Vamos fazer alguma coisa de imprensa também, entrevistas em TV e rádio. Fiquem ligado no blog dos Walverdes que devo fazer algum tipo de acompanhamento lá.
Vou aproveitar a viagem e visitar amigos, dar uma banda por SP (Milo Garage, Vida Fodona, talvez o Cidadão Instigado na segunda à noite, etc) e ver qualé esse lance de africanismo no São Paulo Fashion Week. Depois eu conto alguma coisa aqui.
Na sequência, eu vou passar um tempinho nos Himalaias e volto pra mais duas datas com os Walverdes, uma em Natal e outra em João Pessoa, nossa primeira incursão ao Nordeste. Em Natal é o Festival DoSol e em João Pessoa o “Aumenta Que é Rock”. Mais informações na página dos Walverdes ou eu falo aqui também adelante.
Os drops diários na Ipanema continuam, eu deixei gravdo. De segunda a sexta tem Ligado, Plugado, Amplificado às 7h30 e às 18h30. Os podcasts também: vai ter um novo a cada quinta-feira. Aqui você baixa a criança.
Até mais. Informações no decorrer do período.
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WALVERDES NO SUDESTE
Outs - São Paulo
Quando: 14 de julho, sexta
Onde: R. Augusta, 486 - Consolação
Quando: a partir das 23h
Quanto: R$ 10
Telefone: (11) 3237-4940
Satori - São Carlos - SP
Quando: 15 de julho, sábado
Onde: R. Episcopal, 1773 - Centro
Quando: a partir das 22h30
Quanto: R$ 10 a R$ 15
Zug Bar - Sorocaba - SP
Quando: 16 de julho, domingo
Onde: R. Leopoldo Machado, 523
Quando: a partir das 17h
Quanto: R$ 8
A Obra - Belo Horizonte - MG
Quando: 20 de julho, quinta
Onde: R. Rio Grande do Norte, 1168 - Savassi
Quando: a partir das 22h
Quanto: R$ 7
Telefone: (31) 3215-8077
Teatro Odisséia - Rio de Janeiro - RJ
Quando: 21 de julho, sexta
Onde: Av. Mem de Sá, 66 - Lapa
Quando: a partir das 21h
Quanto: R$ 18 / R$ 16 (flyer até 1h) / R$ 15 (antecipado)
Laranja Mecânica Music Club - Piracicaba - SP
Quando: 22 de julho, sábado
Onde: Av. Independência, 1418
Quando: a partir das 22h
Quanto: R$ 8
Telefones: 19 9267-4304/ 9184-3637
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