• O espaço de trabalho ideal segundo a R/GA (e Steve Johnson)

    Alguns anos atrás, passei por uma das experiências mais ricas da minha carreira ao vivenciar a mudança de endereço de uma agência em que trabalhava. Fomos, mais de 100 funcionários, de um espaço térreo, escuro, antigo, com móveis velhos, paredes desgastadas e num bairro residencial para um gigantesco conjunto comercial com tudo tinindo de novo e localizado numa das avenidas mais valorizadas da cidade. Apesar de inegavelmente bem planejado e executado, o novo espaço decepcionou uma parte da equipe, que com o tempo passou a sentir falta do velho escritório. Pouca gente articulou sua saudade e eu só fui entender mesmo o que havia acontecido quando li De Onde Vem as Boas Ideias.

    No livro, o escritor Steve Johnson explica o que caracteriza um ambiente criativo, buscando referências em recifes de corais, metrópoles e no sopão de proteínas que deu origem à vida na Terra. E defende que ambientes criativos precisam de uma mistura muito bem equilibrada de estruturação e caos. A maior parte das empresas pende para um lado ou para outro. Encontrar o ponto certo é um feito para poucos. No caso da agência que citei, vínhamos de um espaço deteriorado porém extremamente permeável à colaboração, cheio de recantos informais nos quais pessoas de diferentes áreas faziam reuniões improvisadas. A informação interna circulava de maneira muito mais livre. O que era um pouco mais difícil no espaço novo.

    O relatório Creativity for the Connected Age, da agência digital R/GA (mais conhecida pela criação do Nike Plus), tem um capítulo dedicado a espaços criativos de trabalho e traz no gráfico acima um resumo visual abertamente derivado da abordagem de Steve Johnson. Um dos trechos de “Letting the Creative Culture Flourishes” explica:

    “O Escritório Ideal combina aspectos de cafés, cidades e da Internet. Inspiradas nos cafés, as empresas devem criar um ambiente acessivo e inclusivo para que seus funcionários compartilhem ideias. Inspirados nas cidades, o Escritório Ideal deve ser projetado para combinar diferentes pontos de vista de maneira que se produza a fricção necessária para gerar melhores ideias. E da Internet, as empresas devem copiar as oportunidades que permitem aos funcionários colaborar transcendendo cargos e departamentos.”

    Claro, mais fácil falar (ou escrever) do que fazer. Mas, no caso da respeitada R/GA, trata-se de uma empresa que está desenhando um mapa a partir de um caminho que já percorreu. Dá pra confiar.

    O relatório Creativity for the Connected Age pode ser acessado a partir de inscrição gratuita na plataforma de informação Future Vision da R/GA.

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    Leia também:

    - Suas ideias não são só suas: entrevista de Steve Johnson à Época Negócios.

  • O papel do design estratégico na construção de uma cidade mais humana – e vice-versa

      A ideia de que os próprios cidadãos podem se organizar em grupos autônomos e não depender de Governos e empresas para melhorar as cidades onde vivem parece estar passando por uma segunda onda de evolução no Brasil. Após os protestos de junho de 2013, que estabeleceram um marco histórico e político junto a todo […] >
  • O app Humin quer revolucionar minha agenda? Não, muito obrigado.

    Vi semana passada no Brainstorm 9 que tem um novo app (por enquanto apenas para iPhone) que pretende, nas palavras de seus criadores, terminar o trabalho de Steve Jobs no que diz respeito aos contatos do celular. A intenção parece valorosa. Segundo o site do Humin, eles querem “tornar a tecnologia mais humana, começando pelos nossos contatos”, fazendo com que nosso telefone “lembre de todo mundo que já encontramos de um jeito que nós naturalmente já pensamos”. Na prática, o Humin usa “informação contextual do seu calendário, contatos, redes sociais e email para oferecer uma experiência preditiva no telefone”, para que “ele pense exatamente como você”. O vídeo mostra melhor:

    Sem dúvida, o Humin parece estar sendo desenvolvido por gente bem intencionada e positivamente ambiciosa. Porém, mais uma vez, fico sempre com a impressão de que esse tipo de aplicativo incorre em dois problemas de base. O primeiro é equiparar erroneamente eficiência tecnológica com experiência humana. O material de apresentação do Humin propõe um produto que reúne, lembra e processa um tipo de informação para o qual damos um outro tipo de atenção. Nossa mente é muito mais bagunçada individualmente e diversa coletivamente – cada pessoa tem suas próprias virtudes e vícios no processamento de informações e memórias. Além do mais, como nos lembra Viktor Mayer-Schönberger, esquecer é uma parte importante da sanidade mental. Um app que se propõe a lembrar de tudo e a fazer conexões de forma tão eficiente pode ser um feito tecnológico, mas não é necessariamente mais humano.

    O segundo ponto problemático é o quanto um app desses vai exigir de tempo de gerenciamento por parte de seus usuários. Todo novo app que surge prometendo organizar nossa vida acaba, rapidamente, dando mais trabalho pra programar e controlar à medida em que seus tentáculos se estendem. Cada serviço digital que é criado considera que será o hub central da nossa atividade, mas no fim das contas acabamos com meia dúzia de hubs centrais que raramente se comunicam bem e que pedem, cada um, sua cota de atenção diária ou semanal.

    Seja bem-vindo, Humin. Mas não vai me arrumar mais trabalho e confusão, por favor.

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    Leitura complementar – o pessoal do B9 linkou em seu post uma entrevista de um dos criadores do Humin para o The Verge. Ponto importante do texto levantado por seu autor: é provável que com o tempo a proposta do Humin não seja exclusiva e que os smartphones acabem abraçando esse tipo de abordagem em seus sistemas nativos. A ver.

  • Cinco conteúdos sobre Robin Williams que valem a pena (em inglês)

    A essa altura do campeonato, já sabemos: mortes de figuras públicas são seguidas de intenso ruído nas mídias sociais, de forma que é preciso paciência e muito critério para escolher onde vale realmente a pena clicar e ler. Entre dezenas de links que passaram pela minha timeline na semana passada, aqui vai uma seleção do que mais me interessou em algum nível.

    1) Abaixo, o comediante inglês Russel Brand (mais para o final do vídeo) comenta que, se há alguma conclusão ou sentido a fazer do suicídio de alguém talentoso e engraçado como Robin Williams é que não devemos nos isolar uns dos outros, nos fechar para a coletividade.

    2) Maria Popova, no seu Brainpickings, ressalta a conexão entre Robin Williams, David Foster Wallace e Walth Withman. E sem deixar que o ângulo cultural faça sombra sobre o fato de que o suicídio é um problema social.

    3) Lodro Rinzler, colunista de budismo e meditação no Huffington Post, lembra: meditação não é o suficiente.

    4) O escritor Stephen Marceh ressalta: existe uma crise de suicídios nos Estados Unidos.

    5) A psicoterapeuta Katie Hurley, que escreve também no Huffington Post, destaca: não existe nada de egoísta no suicídio.

    Boa leitura.

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    PS: se alguém sentiu falta de textos em português, não é necessariamente porque esteja em falta. É que eu fiz a seleção a partir do que apareceu de mais significativo na minha própria timeline. E meus contatos de Facebook publicaram ou colunas em inglês ou muita nota de informação em português.

    ***

    Foto: Wikipedia.

  • E se as doações de campanha fossem graficamente visíveis no site dos candidatos?

    A questão da transparência no trato com as doações para campanhas eleitorais é um assunto que vem sendo repetidamente tratado pela imprensa mas que ainda tem um longo caminho a percorrer no que diz respeito à sua tradução para a cultura digital. A rigor, pela lei, os dados são públicos e estão disponíveis no site do TRE, mas na prática ainda dependem de jornalistas e ativistas para serem traduzidos em informação relevante e qualificada. Se ninguém mergulha nos dados e não traz à tona algumas conexões, eles são efetivamente um “bando de dados” e não um banco de dados como diz um ditado do mundo da pesquisa.

    Utopicamente (e talvez ingenuamente), seria interessante pensar em um caminho no qual os dados de doação de campanha se apresentassem diretamente ao eleitor com sua relevância e conexões com o candidato, sem depender exclusivamente de jornalistas e ativistas. Há algumas semanas, o Plinio Zalewski deu uma ideia interessante: deveria ser obrigatório que as doações estivessem facilmente acessíveis na primeira página do site do candidato. Você entra no site, clica numa seção e vê quem doou quanto.

    Se levarmos em consideração o avanço das tecnologias de big data, não seria maluco pensar numa evolução pra essa ideia. Por exemplo, uma barra no topo do site de cada candidato com o logotipo dos principais doadores privados. Essa barra poderia não ser apenas conectada ao sistema do TRE, mas também ao vasto mar de informações dos buscadores da internet e, a partir daí, determinar o tamanho do logotipo na barra de acordo com o volume doado e com as conexões políticas e econômicas entre empresa e políticos. Quanto maior o aporte do doador e sua intimidade com o candidato, maior o logotipo no site. Tudo muito simples e visual.

    Claro que estou aqui especulando livremente tanto do ponto de vista tecnológico quanto político. São tantas forças e estruturas precisando ser revistas (inclusive a doação privada para campanhas) que ferramentas digitais podem parecer brinquedos perto da complexidade e opacidade do sistema político atual. Mas não vamos subestimar os brinquedos. Tanto a política quanto a vida em geral hoje são fortemente influenciadas por aparelhos e sistemas criados por nerds cujo trabalho era considerado até bem pouco tempo atrás brincadeira de criança ou ideia de ficção científica.

    ***

    Leitura Complementar

    Estamos vivendo uma crise de interface com o usuário.

    - Doações de campanha e a cultura do segredo do site Repórter Brasil.

    - As quatro irmãs: a relação das grandes empreiteiras brasileiras com as campanhas eleitorais.

    ***

    Foto: Picjumbo.

  • Quatro posts com dicas sobre financiamento do jornalismo na era digital

    Eis um assunto quente, que une diferentes hierarquias e organizações: das salas caras e bem decoradas dos executivos da grande mídia às reuniões improvisadas dos coletivos de midialivrismo, todos os que trabalham com isso ou que estão interessados em uma nova perspectiva de jornalismo ainda buscam respostas satisfatórias sobre qual o modelo comercial (ou não-comercial) […] >
  • Brands as publishers: como estruturar a publicação de conteúdo digital para marcas

    Se, por um lado, a internet bagunçou o mundo do marketing e da publicidade com a multiplicação dos canais para os quais se precisa criar conteúdo (sem o mesmo tempo e a mesma grana de antigamente), por outro quem trabalha com isso não pode reclamar da quantidade de estudos, relatórios, sistemas, frameworks e pitacos sobre como fazer um bom projeto dessa natureza no ambiente digital.

    Um ótimo exemplo é o relatório gratuito Brands as Publisher da agência digital Huge, que traz um apanhado organizadíssimo dos principais desafios de criadores de conteúdo digital para marcas bem como uma série de linhas de ação práticas para o desenvolvimento e o, mais importante, a manutenção no dia-a-dia de um projeto de qualidade.

    Dentre todos os achados, o que eu considero fundamental é a noção de que, nas palavras do relatório, “projetos de conteúdo eficientes requerem múltiplos fluxos de trabalhos com staff dedicado com sistemas e tecnologias dando suporte a cada um dos fluxos. Essa abordagem permite às organizações produzir diversos tipos de conteúdo que sustentam diferentes objetivos, como informações fresquinhas sobre produtos, ofertas promocionais e tópicos em tempo real sem precisar gerenciar conflitos de prioridade o tempo todo.”

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    Em outras palavras: quem trabalha com conteúdo de marca para ambiente digital não pode viver se virando nos 30, como ainda é a regra em muitas empresas e agências digitais. O aspecto mais lúdico, horizontal e caótico da internet faz parecer que as operações relacionadas a ela também podem ou devem ser informais e soltas, quando é justamente o contrário. O único jeito de navegar de maneira mais tranquila pelas águas turbulentas da interatividade entre marcas e consumidores é sendo metódico, sistematizado e hierárquico.

    Além disso, o relatório ainda responde a cinco questões cruciais para quem opera no ramo:

    - Por que as marcas deveriam gerar conteúdo?
    - O que significa isso?
    - Quais são os drivers fundamentais de sucesso dos projetos de conteúdo?
    - Como uma marca pode gerenciar bem operações de conteúdo?
    - Quais são os investimentos chave necessários para a empreitada?

    Está tudo lá explicadinho, tim-tim por tim-tim, inclusive com fluxogramas. É só ler e aplicar. Depois, não vem reclamar.

    ***

    Aproveitando o assunto, vale a pena ler também o post de Tom Goodwin no Digigay onde ele lista os 5 grandes mitos da publicidade moderna. Em relação ao tema acima, Goodwin defende que os consumidores NÃO querem conversar com as marcas e que marcas NÃO precisam gerar conteúdo. A argumentação é curta e rápida, mas o contraponto é interessante e super válido.

    ***

    Leia também:

    - 7 Pesquisas que Vale a Pena Você Conhecer

    - Por que você é impactado por tanta publicidade

/ Conector
Cultura digital, cultura pop e comunicação com um olhar humano. Por Gustavo Mini.
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