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O MSN viverá pra sempre em canções como essa

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E pouco a pouco as culturas de nicho vão consolidando a memória da cultura digital. No caso, é a visão gaudéria dos relacionamentos pela internet, lançado no ano passado. Não perca essa pérola:

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Emma Coats deu um presente aos planejadores

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Há algumas semanas, a ex-story artist da Pixar, Emma Stone, resolveu tuitar o que considera 22 regras importantes para uma boa história. O mundo sem dúvida está cansado de fórmulas, mas quando algo vem com o selo da Pixar é bom prestar muita atenção e logo centenas (ou milhares) de sites publicaram as tuitadas em formato de lista.

O item de número 4, que reproduzi na imagem acima, é especialmente valioso para quem trabalha com comunicação ou com qualquer outro tipo de segmento que precise de um planejamento, em que se precise vizualizar um cenário e descobrir caminhos pra resolver um problema. Faça o teste: as lacunas ali em cima não precisam ser necessariamente preenchidas com personagens e fatos de uma história de ficção. Eu já testei e posso dizer que funciona perfeitamente pra planejamento de comunicação. É o seguinte:

- Na primeira lacuna, você coloca a empresa ou a marca com a qual está trabalhando.

- Na segunda, a estratégia atual, que precisa ser avaliada.

- Na terceira, o que ameaça a estratégia atual

- Na quarta, o que aconteceu por conta dessa ameaça.

- Na quinta, o que deve ser feito para contrapôr a ameaça.

- Na sexta, o resultado esperado.

Simples, como todo planejamento deveria ser.

(Uma sugestão: imagino que isso também sirva para avaliações pessoais do tipo “o que eu faço agora que me ofereceram esse emprego?”)

É ou não é uma boa? Não agradeça a mim. Agradeça à Emma Coats.

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Shelved – O Balconista encontra Wall-e

É mais ou menos nessa batida que vai o curta lindoso com efeitos produzidos por alunos da Auckland’s Media Design School. Esse Shelved nos lembra: tá faltando mesmo um longa adulto com robôs mais ácidos e menos sonsos. Em geral, os robôs no cinema são apenas escadas dramáticas ou caricatas.

(Só é chatinho de acompanhar o enrolado sotaque neozelandês processado em voz de robôs. Mas mesmo pegando uma parte do texto, dá pra sacar a malemolência da história…)

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Trama Virtual & The Deleted City

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Lendo o texto do Matias sobre o fim da Trama Virutal, me lembrei desse projeto, The Deleted City do designer de informação Richard Vijgen. O Deleted é nada mais nada menos do que todo o backup do finado Geocities (digamos assim, o antigo Blogger/Wordpress) formatado visualmente como o mapa arqueológico de uma cidade:

Três rápidos pensamentos a respeito.

Um: como é rápida a sensação de antiguidade no âmbito da cultura digital. O auge da relevância do Geocities se deu no fim dos anos 90 e sua extinção em 2009. Portanto, seria relativamente cedo para arqueologia, mas acontece que as ondas digitais são tão meteóricas que uma década é o suficiente para gerar nostalgia na maior parte dos envolvidos.

Dois: não é por acaso que comparo a Trama Virtual ao Geocities. Ambos eram baseados em uma ideia geográfica. O Geocities intencionalmente. A Trama Virtual por adoção da cena independente. Sim, o site da Trama, a meu ver, era um ponto geográfico ao qual as pessoas iam e se reuniam. Foi o primeiro grande endereço nacional do indie, o correspondente na internet de esquinas malditas espalhadas pelo Brasil físico. Aliás, equipes da Trama estiveram muitas vezes nessas esquinas fazendo a costura. O que a Trama Virtual deixa pra trás (já tinha deixado…) não é a falta de um lugar pra armazenamento, mas um lugar central, um eixo. Mas, enfim, não estamos na era do Fora do Eixo? Sem trocadilhos, o eixo se dissolveu, está mais disperso. Talvez daí o fim da Trama Virtual.

Três: como músico, desde já (já??) bate com uma certa nostalgia. A Trama Virtual é parte da história dos Walverdes. Mas também já faz tempo que estamos conversando sobre a portabilidade do nosso arquivo digital, sobre como ele não pode ficar refém da Trama ou do MySpace ou do SoundCloud ou do Facebook ou do que quer que seja. Nisso, vale o ensinamento do velho mestre Wander Wildner em On The Road (que tocamos em alguns shows): “minha mochila está sempre à mão / e eu tô sempre pronto pra partir.”

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Minha Personal Song por Nenung

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A poeira da implosão da indústria tradicional da música, ao que parece, está baixando e agora o volume de alternativas que surgem começa a suplantar o volume de reclamações. É velha história: enquanto uns reclamam, outros constróem o seu caminho. É o caso do Nenung, cantor, violeiro e compositor com uma trajetória que atravessa algumas décadas embalada nos mais diferentes formatos: já se lançou em vinil com a Barata Oriental no fim dos anos 80, em 5 CDs com Os The Darma Lóvers desde o fim dos anos 90 e no esquema streaming/mp3/show ao vivo com o solo Projeto Dragão. Agora, Nenung vai mais além dos formatos de distribuição clássicos e explora também uma nova relação entre artistas e público, que é a da criação e venda direta da ideia da canção ao interessado.

Pois é, Nenung está vendendo seu talento de compositor diretamente ao público final no site Minha Personal Song. A ideia é muito simples: o pretendente entra em contato, passa um briefing, conta qual é o clima que quer e Nenung compõe a música. Aprovado o primeiro rascunho em voz e violão, parte-se para a produção final, que pode ser mais elaborada ou manter o espírito simples que caracteriza muitos dos seus trabalhos. É uma espécie de mecenato democratizado.

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A intenção de Nenung com isso não é apenas buscar uma fonte alternativa de renda em meio a um cenário musical e cultural sedento por soluções inovadoras. Compositor prolífico, ele também pretende dar vazão ao seu incansável exercício de criação. Mesmo colaborando com diversos artistas e tendo duas bandas pra desaguar sua energia, Nenung se sente mais útil oferecendo diretamente ao público final uma participação nesse processo. Afinal, não estamos vivendo o tempo da interatividade?

Nenung não é o único e música por encomenda não é exatamente uma ideia nova, mas geralmente os serviços disponíveis são de produtoras ou músicos mais impessoais e menos autorais. O que Nenung está oferecendo de diferente é o acesso à mesma fonte que já deu um grande sucesso à Paula Toller (Meu Amor Foi Pra Lua) e engordou os repertórios de Dado Villa Lobos (Lucidez) e Marian Aydar (Peixes). Ou seja, o comprador de Nenung estará sempre muito bem de companhia.

Acompanho o trabalho do Nenung desde o Barata Oriental, tenho admiração pelo seu senso de composição, então posso dizer com segurança: música boa nunca faltou pra ele. Além de fecundo, é comprometido com o coração, tem música boa pros Dharma Lóvers, tem pro Projeto Dragão, tem pro Dado Villa Lobos, tem pra Paula Toller e agora tem pra você também.

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Outlet? Adoro?

O comercial acima apareceu algumas semanas atrás nos inserts do YouTube e teve uma rápida vida de subcelebridade de internet. Não tenho dados preciso, mas nas minhas timelines muita gente tirou onda com a ideia exagerada de comparar a venda de imóveis com venda de roupas. Enfim, é um daqueles trabalhos caricatos do varejo, quando é preciso forçar a barra pra provocar um sentido de urgência. Conheço bem esse tipo de demanda pois já estive do outro lado do balcão e sei que às vezes, por uma série de fatores, a gente força a barra além da conta. Este é justamente o caso.

Essa “série de fatores” que comentei em geral tem a ver com o clima que cerca um determinado segmento econômico. Pra ir mais longe, eu poderia dizer que todo comercial de varejo traz em si um pouco do espírito do seu tempo e do seu entorno. Comparar outlet de roupa com outlet de imóveis reflete a euforia do mercado imobiliário nacional, aparentemente intoxicado com a própria capacidade de botar na rua uma quantidade tão grande de imóveis (comparado ao passado recente) que chega a parecer o fluxo do varejo têxtil, produzindo sempre a ponto de “sobrar” para um outlet.

Outro ponto importante tem a ver com o post de ontem (Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras): essa banalização do ato de comprar um imóvel é parte de toda uma cultura imobiliária amparada em planos diretores que não parecem estar defendendo os interesses mais humanos dos cidadãos. Não que falte planejamento urbano, o que falta é um planejamento urbano voltado para as pessoas e suas relações. A cidade está de braços abertos para carros e prédios, não para aqueles que estão dentro dos carros e prédios.

Ou seja, sob todos os ângulos que você examina, este é um comercial que coloca um ponto num gráfico imaginário: ok, aqui chegamos num nível absurdo, foi tudo muito divertido, mas é preciso voltar pra Terra. Claro que não é um blogueiro que faz esse aterramento. Na maior parte das vezes, é algum abalo de mercado que mostra como a humildade é parente direta da euforia.

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Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

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Atenção povo que se preocupa com os rumos da sua cidade: a escritora Carol Bensimon produziu recentemente uma pequena pérola que serve de manifesto pra quem acha que a especulação imobiliária está deixando nossas ruas menos humanas, menos agradáveis e menos interessante. Na verdade, são dois textos que saíram no Caderno de Cultura da Zero Hora (parabéns ao editor) mas que deveriam estar nas primeiras páginas do jornal – de preferência antes dos anúncios de construtoras.

Em “Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto” e em Pelas ruas da cidade, a Carol reuniu alguns dos principais argumentos de urbanistas e filósofos para contrapôr a lógica da atual expansão imobiliária, que na verdade não tem realmente uma lógica. Ao menos uma lógica aceitável. Na esteira de um plano diretor aparentemente comprometido mais com o negócio das construtoras do que com quem quer viver bem, centenas de terrenos arborizados e pontuados com casas antigas em Porto Alegre vem dando lugar a condomínios anódinos de prédios altíssimos que transformam bairros inteiros em zonas exclusivamente residenciais. Com pouco comércio de rua, com os moradores empoleirados em apartamentos de janelas minúsculas, totalmente distantes de qualquer atividade na calçada, esses bairros acabam parecendo mais perspectivas em 3D do que lugares realmente confortáveis pra se viver – é o que levantam os artigos.

Nesse cenário, uma das ironias mais tristes sublinhadas pela Carol é o nome desses condomínios. Geralmente eles são inspirados em bairros charmosos e interessantes da Europa, locais de arquitetura clássica preservada, de edificações mais baixas, de jardins mais convidativos e de intensa movimentação na rua. Importa-se apenas o nome e, talvez a programação visual para o logotipo e para o folder de vendas. Raramente o estilo de vida.

São complexas as causas desse fenômeno e dificilmente dá pra apontar um único responsável. Tem as construtoras, tem a Prefeitura, tem o momento econômico, tem o momento cultural. Mas essa teia de relações não nos exime de pensar e questionar. Frequentemente flutua a ideia de que certos caminhos são inevitáveis, mas isso não é verdade. Se é possível pensar diferente e escrever diferente, como a Carol fez, tenho certeza que é possível fazer diferente. Não é fácil, não é rápido, mas é possível e começa bem assim, por proclamar e passar adiante uma outra mentalidade que não a dos vetores acelerados do imediatismo.

***

A foto lá em cima é da quadra em frente ao meu apartamento, cheia de casas. Metade dela (talvez mais) será botada abaixo pra receber um condomínio novo. Além de um pouco de vista, vamos perder todas essas árvores dos quintais e os cachorros que latiam quando a gente passava em frente.

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A estrada do streaming

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Estava dando uma olhada nas reportagens sobre streaming de música que saíram nas últimas semanas, no Globoe no Link do Estadão. É um assunto rico, bem coberto por essas reportagens e ainda vai render muita saliva. Em geral, sou um otimista no que diz respeito ao comportamento ligado a novas tecnologias – as pessoas adotam mais rápido do que qualquer estudo possa imaginar e de um jeito que nenhum empreendedor imaginou. Mas, no caso do streaming, eu deixo meu lado cético aflorar e por um motivo muito simples.

O Brasil, por vocação, é um país que sabe gerar produtos sem gerar a infra-estrutura para utilizá-los. O melhor exemplo de todos é a indústria automobilística. Nosso país tem uma frota numerosa, uma variedade de modelos para todos os gostos e caminhos de compra para todos os bolsos. A rigor, o carro que você quiser, você dá um jeito de comprar. Agora, sai da concessionária com ele: trânsito urbano caótico, ruas esburacadas, furtos e roubos esperando na esquina, estradas municipais, estaduais e federais em estado miserável. O produto está aí, a infra não colabora

Com o streaming, é a mesma coisa. Se por um lado os serviços de streaming pago vão aportando no Brasil e oferecendo boas opções, por outro as conexões wireless com um mínimo de qualidade pra suportar uma vida em streaming ainda são uma raridade relegada a certas áreas de certos centros urbanos. Streaming pra uso em casa ou no escritório das capitais e grandes cidades parece um carro feito só pra circular em condomínio fechado.

Meu ceticismo diz que o streaming só vai deslanchar mesmo quando, entre outros fatores, contar com a colaboração das operadoras de celular na oferta de conexões confiáveis quer você esteja em casa, no ônibus indo trampar ou na BR rumo à praia – qual é a graça de contratar um serviço de streaming que você não pode ouvir decentemente indo pra praia ou pro trabalho? Se não for assim, o streaming vai acabar como mais um item que, pra funcionar, precisa ser acomodado e composto com tantos outros na sua já lotada vida digital.

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Retiro de Rua no Brasil

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Retiros de rua são uma tradição espiritual recente, uma espécie de revisão dos antigos retiros em florestas ou montanhas criada por Bernie Glassman, sobre quem já escrevi algumas vezes aqui. Essa modalidade de retiros é muito simples: vive-se e medita-se nas ruas por alguns dias. Dorme-se ao relento (para evitar ocupar um lugar de um sem teto nos abrigos) e come-se onde os sem teto indicarem. Em 2011 e 2012 aconteceram os primeiros retiros de rua no Brasil e resgatei aqui embaixo o relato de um participante que foi publicado numa Vida Simples no ano passado. Leitura altamente indicada para quem se interessa pelas novas relações que estão se formando com os espaços urbanos.

Ps: originalmente eu tinha colocado imagens pequenas aqui, que não dava pra ler. É melhor ir direto no blog do Monge Koho, participante dos retiros e agora autorizado a liderá-los no Brasil.

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Doc: Al Polonio Dejalo Ser

Não sei se muita gente sabe, mas o litoral do Urugaui virou, na última década, na nova Santa Catarina de uma fatia dos gaúchos. Empurrados para o Sul pelos paulistas, que tomaram conta de Santa, tem um povo dqui que tem escolhido descer em vez de subir no verão. E à medida em que mais gente aporta no Forte de Santa Tereza, em Punta del Diablo, em La Paloma, em Maldonado e em Punta del Este, os que gostam de sossego fogem pra Cabo Polônio.

Sem luz elétrica, Cabo Polônio atrai pela total rusticidade e por uma aura inexplicável em palavras, mas que parece ter sido muito bem captada por esse documentário média metragem do portoalegrense Paulinho Azevedo e a mexicana Katia Morales Gaitan (tem entrevista com o Paulinho no site da Trip)

Polônio também é célebre por ter inspirado o Jorge Drexler não apenas a compor uma música (vídeo acima), mas também ter servido de refúgio para a criação de um disco inteiro, o ótimo e introspectivo 12 Segundos de Oscuridad. O título diz respeito ao tempo que a luz do farol está dando a volta em relação ao observador, deixando-o no escuro.

Nunca fui a Cabo Polônio, apenas a Punta del Diablo e ao Forte de Santa Tereza, que ficam perto. Mas pelo doc. ali em cima e pelo disco do Drexler (que já ouvi um milhão de vezes), fica fácil imaginar qual é a de Polônio. Também dá uma certa vontade de não escrever sobre ele e não contar pra ninguém pra não estragar o lugar. Por outro lado, já que escrevi, segue a ressalva: espero que a especulação imobiliária e a obsessão desenvolvimentista que andam regendo nossos tempos não estraguem o lugr.

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Diários de Bicicleta: o olhar que precede a mudança

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Ao incorporar a bicicleta de volta na minha vida, eu sabia que seria inevitável incorrer em alguns clichês. Soar um pouco militante de vez em quando é um deles. Resmungar com o trânsito dos carros é outro. Descobrir que Porto Alegre, além de morros, tem aclives leves e traiçoeiros seria um terceiro. Mas o quarto é o mais contrangedor: me surpreender com o contato direto com a vida na rua depois de anos andando apenas de carro.

A soma de quatro anos vivendo em cima do morro Santo Antônio com mais dois numa subida de Petrópolis, estes combinados com as demandas da vida em família (supermercado, colégio, médico), mais a vida de banda (ensaios e shows com equipamento pra lá e pra cá) e condições financeiras pra manter um carro próprio acabaram relegando as caminhadas (que adoro) apenas ao status de eventual exercício aeróbico (que não gosto). Dessa forma, nos últimos anos acabei caindo na armadilha de viver Porto Alegre pela janela do motorista ou pelos retrovisores. Às vezes, por mais que você se esforce, a configuração prática da vida discorda de algumas aspirações urbanas e o que deveria ser natural – o curtir sua cidade com um pouco mais de contato direto – exige uma mudança de paradigma ou um aporte de energia extra. Duas soluções que nem sempre estão disponíveis para todos, algo que muitos militantes da bicicleta teimam em não entender.

Pra minha felicidade, algumas novidades no meu esquema profissional nos últimos seis meses permitiram que eu voltasse a andar de bicicleta com muito mais frequência, inclusive para trajetos que antes eu só fazia de carro. E o inevitável aconteceu: descobri que existia um mundo inteiro que andava me escapando. Como eu disse, é um clichê constrangedor e revestido de algum conteúdo social (sei que muita gente não tem opção a não ser viver radicalmente a rua e o transporte coletivo). Mas aconteceu, fazer o quê.

A Protásio Alves é uma das ruas que acabou se tornando parte da minha rotina, uma vez que ela é o escoamento natural pra quem desce Petrópolis de bicicleta. Via de ligação do centro com a área leste da cidade, a Protásio mantém o status combinado de avenida-que-deveria-ser-expressa com rua-de-comércio-local. Ao longo de praticamente toda a Protásio, amontoam-se padarias, resaurantes, lojinhas de material escolar, lavanderias, lojas de decoração, bancas de revista, mercadinhos, lojas de 1,99, lojas de calçado, mecânicas automotivas, farmácias, tudo isso praticamente sem estacionamento em frente aos estabelecimentos e com calçadas estreitas, ou seja, não tem muito clima pra passeio. Ainda que isso tudo caracterize uma espécie de anomalia, é também uma configuração de resistência: o comércio de rua na Protásio, de um jeito ou de outro, empresta um pouco de humanidade para uma avenida massacrada pelo trânsito intenso. Ao menos, ela fica bem menos fantasmagórica do que a Terceira Perimetral, com suas sessões repetidas de condomínios de escritório.

Descer a Protásio de bicicleta não é uma experiência muito agradável, especialmente devido ao trânsito pesado, truncado e ao pouco espaço na rua e nas calçadas. Mas ao menos rende uma olhada nas vitrines, o cruzar com moradores e passantes e, especialmente, um lanche no Priscilla’s (um pequeno café de inspiração americana escondido na Domingos José de Almeida, que de carro eu nunca tinha tempo pra chegar). Cruzando por baixo o viaduto da Silva Só, se trava contato com uma comunidade de sem-teto, uma visão sempre triste, mas menos triste do que constatar que de alguma forma essas pessoas conhecem as fronteiras sociais dos bairros e não costumam ser vistas com muita frequência na parte mais privilegiada de Petrópolis, nos arredores da pracinha da Encol.

E por acaso eu não via tudo isso da janela do carro? Claro que via (e continuo vendo quando saio motorizado na maior parte dos dias). Mas é diferente. De bicicleta, dá pra parar e de qualquer forma, você está mais exposto, menos recoberto por camadas de armadura, está numa velocidade mais lenta, que permite um outro tipo de olhar. Como diz David Byrne, no livro que dá título a essa seção, “Esse ponto de vista – mais rápido que uma caminhada, mais lento que um trem e muitas vezes ligeiramente mais elevador que o de uma pessoa – passou a ser minha janela panorâmica (…). Uma janela enorme e geralmente com vista para um cenário urbano. Através dela, eu acompanho fragmentos de como são as mentes das outras pessoas, que se expressam em meio às cidades onde elas vivem.”

Acho que Porto Alegre está num momento em que há pessoas querendo resgatar esse olhar. A cidade merece isso, sempre mereceu. Há a ideia de que ela precisa ser limpa e arrumada antes de merecer esse olhar, mas isso é sacanagem com Porto Alegre: o novo olhar, ou o resgate de um certo olhar, precede a renovação. Se não enxergarmos a cidade que queremos antes de reconstruí-la, como essa nova face vai se manifestar? Vai brotar de onde? Não é de planos e planejamentos, é antes de um olhar mais aberto, compassivo e que enxergue o que a cidade tem a oferecer mesmo por baixo de suas mazelas, mesmo por trás das filas intermináveis de carros que abarrotam as nossas ruas e avenidas.

É: andar de bicicleta dá o que pensar.

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Jazz that nobody asked for

Jazz that nobody asked for from Benny Box on Vimeo.

Sabe quando um som não sai da sua cabeça?

Animação bacanuda, dica do Saul.

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Sorry for Fighting Like a Brave

Vai dizer que esse vídeos não são parentes um do outro? Tipo Fight Like a Brave é meio avô ou tio maluco de Sorry for Party Rocking…

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Acumuladores Digitais

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Uma das minhas séries preferidas de “ver de passagem” na TV é aquela do Discovery Home and Health, “Acumuladores”. Pra quem não sabe, esse programa documenta a vida de pessoas com tendências patológicas a acumular objetos em casa em um nível assustador. Todos os episódios seguem um esquema básico: mostram o horror que é a casa do acumulador, cobrem os conflitos familiares resultantes e acompanham as tentativas de recuperação. Na verdade, acho que não preciso explicar porque sinto que, mesmo sem ser muito comentado por aí, o Acumuladores parece ter uma gigantesca audiência silenciosa. Eu, pelo menos, sempre encontro meia dúzia de entusiastas não-declarados em rodas de conversa.

Mas o meu ponto é o seguinte: assistindo esses dias a um dos Acumuladores, me lembrei de um programa que escrevi pro extinto Minimalismo da Oi Fm onde eu comentava sobre os acumuladores digitais que estamos nos tornando. É um fenômeno que não aparece por estar escondido nos HDs internos e externos, mas que existe, existe. Hoje em dia é fácil e basicamente natural tornar-se um acumulador digital. Se um de nossos filhos no futuro tentar entrar dentro do nossos HDs externos, vai se sentir como os filhos daqueles acumuladores de quinquilharias físicas do programa: um repórter de guerra visitando um front bizarro.

Aliás, não é difícil de imaginar um programa desses daqui a alguns anos – ou décadas. O Discovery Home and Health teria que descobrir algum tipo de conexão no estilo Tron pra mandar o acumulador, seus familiares e uma pequena equipe pra dentro de alguns HDs – e aí explorar a história.

“Estamos aqui no HD da Dona Marcela. A Dona Marcela junta há 35 anos todas as fotos e vídeos dos netos, mesmo as que ficaram fora de foco ou que foram tiradas sem querer. Ela também não elimina as poses parecidas. No HD da Dona Marcela é muito complicado de caminhar pois a gente tropeça em emails antigos em formatos que nem podem mais ser abertos. Mas o mais chocante são as contas antigas de papel, escaneadas, que não tem mais nenhuma utilidade legal e continuam a ocupar gigas e mais gigas de espaço.”

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O Acumuladores Digitais também exploraria o HD de aficcionados por games, música ou seriados.

“São mais de dois milhões de episódios de séries de todos os estilos. A esposa de Humberto está desesperada, pois ele está deletando as fotos de viagem da família para acumular mais séries, sendo que a maior parte delas nunca foi…. e nunca será assistida.”

O programa obviamente teria participação de especialistas que ajudariam o Acumulador Digital a dar uma limpada nos HDs.

“Seu Geraldo, o que o senhor pretende fazer com todos esses livros didáticos da década de 70 em PDF? O senhor sabe que o PDF não é mais utilizado desde 2032?”

“Papai, essa loucura precisa parar.”

“Eu preciso realmente deletar? Eu posso compactar os arquivos mais um pouco. Eles não ocupam muito espaço, além disso eu tenho um HD novinho se precisar. Acho inclusive que você está sentado em cima dele.”

O grande truque do acúmulo digital é que ele não ocupa espaço e se o armazenamento na nuvem se domesticar de fato, ele será ainda mais sutil. Acumular arquivos digitais causa, em geral, bem menos transtornos que acumular objetos físicos. É menos visível, menos gritante e provavelmente menos raro do que o acúmulo físico. Na verdade, é bem provável que estamos todos em vias de nos tornarmos acumuladores digitais.

Alguém no Discovery Home and Health já deve estar esfregando as mãozinhas de satisfação.

***

Imagem daqui e daqui.

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Skate, Matrix & Star Wars

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Um skatista no centro, Morpheus à esquerda e Darth Vader à direita. Tirei essa foto num campeonato de skate em que toquei com os Walverdes uns anos atrás.

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Chorão não se fez ouvir

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Escrevo esse texto com alguma apreensão: ainda são nebulosas as circunstâncias da morte do Chorão e uma pesquisa rápida no Google não traz esclarecimentos muito além do que a grande mídia está divulgando. Juntando os cacos até agora, o resumo diz que Chorão não estava bem por conta de uma separação de seis meses atrás, que andava deprimido e reclamava de solidão. Mais recentemente, segundo apuração preliminar da polícia, se hospedou em quatro hotéis diferentes em uma semana, demonstrava “mania de perseguição” ou alguma perturbação parecida. Fotos do quarto onde ele foi encontrado morto mostram um ambiente sujo e destruído, sinais de degradação. Descarta-se a princípio as teses de suicídio e homicídio. Trabalha-se com a hipótese de overdose de drogas ou remédios. O tempo logo esclarecerá.

O que me interessa nesse caso todo são os sinais do brutal desamparo de um ser humano. Lembro de uma conversa com meu terapeuta na época da morte de Amy Winehouse. Ele comentou comigo num papo pós-sessão: “será que não tinha ninguém pra escutar ela?” Nem sempre casos mais agudos de desamparo são resolvidos exclusivamente pela escuta atenta e amorosa, mas essa é sempre uma porta importante. Lembro também de uma palestra do Lama Padma Samtem onde ele dizia: “o problema não é quando a pessoa não tem dinheiro, mas quando ela não tem rede”. Dizer que Chorão não tinha rede ou que não tinha escuta pode soar como uma agressão aos familiares e amigos. Não sei. Pode ser também que ele não tenha se feito ouvir, não tenha utilizado uma rede disponível. Tem gente que, por absoluta confusão, pula do trapézio pro chão, ignora sua valiosa rede. Talvez Chorão tivesse rede, mas não pode se utilizar dela. Talvez, especulo, pelo tipo de cultura em que estava inserido.

Como a muitos outros fãs de música e críticos culturais, Chorão não me interessava como artista, mas como fenômeno pop. Ele personificou um estilo que caracterizou a passagem dos anos 90 para os 00 no Brasil. Antecipou a tão falada ascensão da classe C ao cantar o orgulho de um certo jeito de viver urbano, malandro, calcado na mistura de uma musicalidade pop americana com a cultura das ruas brasileiras – não exatamente a periferia, mas aquela zona cinzenta em que circulam e se misturam personagens marginais com filhos razoavelmente bem nascidos da antiga classe média. Era um recorte vertical e não horizontal da juventude nacional, algo que foi identificado apenas alguns anos depois do surgimento do Charlie Brown Jr. por alguns institutos de pesquisa mais antenados.

Infelizmente, a autenticidade dessa cultura não era acompanhada de muita sofisticação no comportamento. A face mais triste disso era uma certa truculência, um peito empinado, uma empáfia de rua talvez necessária para a sobrevivência em certos ambientes conturbado, mas perniciosa quando transplantada para o mundo dos códigos pop. Um dos pontos significativos nessa estrada foi o soco que Chorão deu em Marcelo Camelo alguns anos atrás em um aeroporto. Para alguns, o gesto era envernizado com um certo ar de molecagem e de macheza diante de um artista chato e sensível. O que é uma total bobagem. O ato foi apenas o desequilíbrio de uma pessoa que não tinha outro meio de se relacionar com uma crítica a não ser batendo em quem o criticou. Triste que tenha acontecido, mais triste que tenha sido revestido de qualquer tipo de justificativa. O jornalista Ricardo Alexandre identificou muito bem esse aspecto mais arisco do Charlie Brown Jr. em uma resenha para a exinta Bizz. Se bem me lembro, ele associava essa truculência com os resquícios da cultura de violência e do autoritarismo do regime militar. Achei brilhante, mas falhei em encontrar esse texto na internet.

Então, por trás de letras cheias de bravatas comportamentais e sociais, provavelmente estava escondido o lamento de uma mente conturbada. Não que Chorão fosse muito diferente de mim ou de você, pelo contrário. O que me move a escrever esse texto é justamente encontrar um ponto comum com um artista pelo qual nunca nutri qualquer simpatia. Como Chorão, tenho – todos temos – angústias, contradições, momentos de desolamento e solidão, épocas de confusão e turbulência emocional. Diferente de Chorão, tive acesso a uma boa quantidade de ferramentas pra lidar com isso tudo, algumas delas ainda cercadas de desconhecimento. Mais importante do que isso, sempre me senti autorizado a usar essas ferramentas sem preconceito.

Apenas um dos vários exemplos são as psicoterapias, sejam elas as mais estabelecidas e socialmente aceitas – psicanálise, psicoterapia, terapia cognitiva-comportamental – ou as que ainda enfrentam o estigma de “alternativas”, como as terapias corporais (derivadas do trabalho de Willhem Reich), as terapias com uso de medicamentos naturais e assim por diante. Mesmo no caso das terapias mais aceitas, o binômio preconceito-desconhecimento ainda parecer manter afastadas pessoas que poderiam se beneficiar imensamente de uma abordagem e um ambiente que proporcione um olhar panorâmico sobre as próprias angústias. Chorão pode ter sido paciente de qualquer uma dessas terapias e pode não ter aderido por um motivo ou por outro, pode não ter encontrado o tratamento certo, pode ter sido mal atendido. Ou pode também não ter sido atendido, não ter buscado, não ter ouvido as orientações. Não sei.

Estou usando o gancho do Chorão pra levantar essa lebre. Espaços de escuta e abordagem terapêutica como essas que eu comentei acima ainda são muito estigmatizados. Não se tem informação suficiente, seja para chegar num profissional, seja para compreender quais são as ofertas e quais são as possibilidades. Uma pessoa pode ter uma experiência ruim com um terapeuta e abandonar para sempre as tentativas de tratar suas questões subjetivas por meio do contato direto com elas. Muita gente acaba retornando ao que a sociedade estabeleceu como o método mais rápido e correto, que é o afogamento das angústias em drogas autorizadas (álcool, remédios pra depressão e ansiedade) ou o amortecimento dos sentidos com consumo de música, filme, revistas, aplicativos e assim por diante. Caminhos que só abafam, e por vezes fermentam, problemas difíceis de entender e verbalizar. Mas que são em geral comuns todos nós e não exclusivos de “pessoas problemáticas”.

Uma das coisas que mais está se repetindo sobre Chorão nesse momento é como ele falava muito bem com um certo público. Suas letras, de fato, encontravam uma poderosa ressonância com um segmento do público consumidor de música pop. Durante os meses em que treinei numa academia de escalada indoor, o professor colocava um dos discos do Charlie Brown Jr. pra tocar TODOS os dias. Ouvi repetidamente e sempre me impressionava a falta de sofisticação das letras, mas também a clara conexão delas com o momento que o país estava vivendo. Chorão, pelo jeito, sabia muito bem falar com as multidões, sabia muito bem traduzir o ar cultural que o cercava. Mas talvez não soubesse SE traduzir. Infelizmente, especulo de novo, parece que ele não encontrou uma forma de se fazer ouvir no que mais precisava botar pra fora.

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4 Placas

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1) Este elevador acessa Facebook, Twitter, Instagram, Orkut e G+.

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2) Viu, é só pedir com educação que funciona.

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3) A pipa do vovô não sobe mais.

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4) A outra ideia de nome era Lek & Associados

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Todas as fotos por: meu celular.

Mais fotos tosca em Minhas Fotos Toscas, que é o meu Instagram.

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Educação e budismo

Colégios e trabalhos sociais de orientação católica são comuns no Brasil. Acho que a maioria de nós passou por um deles ou conhece alguém que passou. Já colégios e ações baseados em ideias de outras religiões são obviamente mais raros. Pra quem quiser conhecer, o vídeo acima (transcrição aqui) mostra o Lama Padma Samtem falando sobre a experiência de uma escola baseada em metodologias budistas que surgiu há alguns anos aqui na região metropolitana de Porto Alegre. Não conheço iniciativa semelhante no Brasil (deve haver, se alguém conhece e quiser iluminar minha ignorância, avise).

A Escola Caminho do Meio atende crianças do entorno do Centro de Estudos Budistas Bodisatva em Viamão/RS, especialmente de uma comunidade chamada Jardim Castelo. Por enquanto, cobre apenas Educação Infantil, mas ela está sendo expandida pra cobrir também Educação Fundamental. Tudo com base em valores humanos universais, que no fim não são exclusivamente budistas, claro.

O Lama Samtem inclusive brinca com a imaginação das pessoas quando o assunto é unir budismo com educação.


“Então a gente imagina que a escola tem crianças de 07 ou 12 anos e vão passar por uma prova final de levitação, medindo o brilho da aura com câmera e se ele não obtiver a iluminação significa que a escola falhou em alguma coisa.”

A Escola tem uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco através do Núcleo de Pesquisas em Educação e Espiritualidade, o que gera material de trabalho não apenas para as partes envolvidas, mas também pra nós. No link do blog da Escola, tem um PDF com os diálogos entre o Lama Samtem e o pesquisador-professor-doutor Alexandre Freitas.

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Outra iniciativa interessante é no interior de Minas, em Lambari. O Sítio Esperança (fotos acima) nasceu da aspiração do lama tibetano Chagdud Tulku Rinpoche de também disseminar valores humanos universais através da educação. Não é pra menos que a iniciativa é parecida com a descrita acima: o Lama Samtem foi ordenado Lama por Chagdud Rinpoche há mais ou menos 20 anos.

Em Minas, o enfoque passa muito pela ensino agroecológico, uma vez que as crianças atendidas são de uma região eminentemente rural. Além da Escola Infantil, o Sítio também oferece uma colônia de férias e workshops baseados na metodologia da Escola. O eixo da história é um dos ensinamentos do budismo que eu mais gosto, chamado As Quatro Qualidades Incomensuráveis: a equanimidade, o amor, a compaixão e o regozijo, que é a alegria com a alegria dos outros.

Tanto a Escola do Caminho do Meio quanto o Sítio Esperança atendem gratuitamente os alunos. As duas instituições sobrevivem praticamente de doações e estão habilidadas a oferecer a possibilidade de dedução do imposto de renda para doadores.

Numa época em que se discute tanto a educação, mas muito do ponto de vista numérico, estatístico e ferramental, é bom também dar uma olhada em visões alternativas que, mesmo que não sejam formatadas para experiências em grande escala, servem de laboratório pra repensar os paradigmas atuais – claramente precisando de revisão.

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Shoot The Shit na insistência

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O vídeo abaixo (que fala sobre a imagem acima) é um microdocumentário de cinco minutinhos sobre uma das iniciativas do pessoal aqui de Porto Alegre que largou a publicidade pra se dedicar ao empreendedorismo social.

O Shoot The Shit vem fazendo um trabalho interessante de questionar e dialogar com a cidade de Porto Alegre com um método bastante prático e interessante: mesmo que os seus projetos não sejam totalmente abraçados ou implantados, a mera movimentação já cutuca gestores públicos, jornalistas e a população em geral.

Por exemplo: achei bacana que o projeto escolhido pra aparecer no Imagina na Copa foi esse do Que Ônibus Passa Aqui. O projeto não vingou totalmente nos moldes em que foi criado, mas ainda assim os caras divulgam, insistem e batem numa tecla muito interessante.

De minha parte, o projeto que me pegou como “público” e que eu mais gosto são os stencils indicando lixeiras próximas, co-criados com alunos de uma escola local. Uma ideia simples, eficiente e facilmente repicável.

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Gabeira, política e corpo

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São muitos os serviços que Fernando Gabeira já prestou e ainda presta ao país, mas talvez o mais valioso esteja embebido na mensagem deste livro, que a meu ver diz mais ou menos o seguinte: é preciso entender e exercer a política como um atividade viva, que abarque todos os aspectos do indivíduo, especialmente suas inclinações particulares e suas contradições ao invés de usar idelogias e teorias para aplainar o espírito humano – ou, claro, para ganhar poder e dinheiro. “Onde está tudo aquilo agora?” pergunta Gabeira em suas memórias políticas, lançadas em livro no fim do ano passado. A pergunta induz a uma visão superficial, e acho que é meio sacanagem do Gabeira. “Aquilo tudo” não diz respeito apenas a questionar antigas crenças (um belo gancho pra capturar leitores de outras vibrações…), mas mais sobre olhar com uma outra perspectiva tudo aquilo que compõe uma história pessoal – esteja dentro ou fora da pessoa, seja público ou privado.

Os predicados de Gabeira para empreender essa reflexão e proclamar uma política viva e pulsante, conectada com a essência da sociedade e do ser humano, são conhecidos mesmo por quem não acompanha de perto sua trajetória. A saber: nascido em Minas Gerais, Gabeira se apaixonou cedo pelo jornalismo e a partir da investigação e narração do mundo é que saltou para a vida política. Diferente de muitas figuras históricas na área, não teve uma atuação militante durante a primeira parte da juventude. Sua paixão era mesmo o jornalismo e foi a convivência com os colegas e os assuntos das matérias que o inclinaram em direção ao existencialismo e, em seguida, ao socialismo.

A opção pela luta armada e os excessos das ideologias à esquerda no combate à ditadura já foram exaustivamente processados por Gabeira em alguns de seus outros livros, mas ao que parece reflexão nunca é demais. Mais uma vez, ele repassa aqui as contradições da própria militância, em especial as dúvidas existenciais que o acompanharam o tempo todo, surgidas mesmo antes de abandonar alguns conceitos e práticas. Entre todas as questões, a que mais me tocou foi uma pouco discutida, sempre obliterada pela discussão polarizada do tipo capitalismo x socialismo. Falo da noção de alienação do corpo no envolvimento com a política.

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A certa altura, Gabeia conta, do exílio na Suécia:

“Olhando-me no espelho, vi que eu parecia um viúvo que tinha perdido a esposa de muitos anos e, inconscientemente, parara no tempo. Usava cabelo comprido, bigodes, fumava cigarros de fumo negro, Gauloises, e ainda vestia roupas que ganhara de presente pelo caminho A decisão de correr diariamente e parar de fumar foi o primeiro grande passo. Comia melhor, respirava melhor, e ao contrário do que previam alguns, não engordei. Não bastaria correr e deixar de fumar. Um movimento por alimentos saudáveis brotava com força na Suécia e em outras partes do mundo, tocadas pelas primeiras denúncias sobre o papel dos agrotóxicos no meio ambiente e em nossos corpos.”

Isso era meados dos ano 70 e, embora Gabeira admita que não é possível demarcar com exatidão suas mudanças de rumo, é mais ou menos por aqui que se inicia uma nova fase de sua vida, a que iria definir sua identidade pública pelas décadas seguintes. Assim como a ligação com a luta armada partiu de inclinações pessoais, o contato com o então nascente movimento ecológico brasileiro aconteceu devido a uma necessidade particular de dar uma sacudida na poeira, mexer e trabalhar o corpo, enrijecido e abandonado em anos de dedicação à militância.

No retorno do exílio, a questão se manifestou no âmbito público nacional com as peculiaridades do nosso país:

“A primeira polêmica que enfrentei foi por ter ido de sunga à praia. Não tinha a mínima intenção de provocá-la. Já usara a sunga na Suécia e, em algumas praias da Grécia, andava nu. Se a polêmica precisar de um rótulo, eu diria que ela girou em torno da política do corpo, um tema vasto que, no fundo, preunciava uma nova época, eficazmente aproveitada pelo capitalismo, que multiplicou academias, artigos de beleza, cirurgias plásticas, produtos dietéticos. Enfim, o capitalismo achou um novo modo de se aprofundar.”

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O corpo é objeto pouco discutido mas muito utilizado em todos os campos políticos. Em uma análise rápida, é o corpo que faz a mediação entre o mundo e a mente do indivíduo. Portanto, é natural que ele seja objeto de violência e regulação em ambientes conturbados. E também de protesto (o que obstruiu a passagem daquele tanque chinês? Uma ideia ou um corpo?). Em contextos democráticos, diz-se que que o encontro entre candidatos e eleitores se chama “corpo a corpo.” Em ambas as situações, o corpo acaba no arcabouço da alienação, esquecido, como se não fosse conectado à mente do indivíduo mas sim apenas uma peça de um sistema maior. Mesmo numa sociedade de mercado, supostamente livre, o corpo é submetido a todo tipo de regras comerciais e sociais, em geral disfarçadas de costumes ou de escolhas estéticas.

A relação com o corpo, aparentemente, foi a base particular sobre a qual Gabeira construiu suas andanças no movimento ecológico. Estudou dança, pegou a estrada de jipe pra conhecer comunidades alternativas no Brasil inteiro. Para ganhar a vida, escreveu livros também sobre isso tudo. Chegou num ponto, nos anos 80, em que essas opções se esgotaram e o ciclo se fechou sobre si mesmo: Gabeira voltou ao jornalismo e, em seguida, à vida pública. Mas nunca deixou de incluir o corpo – o seu e o do outro – na sua visão de política. Durante o caso de uso indevido de cotas de passagem do Congresso Nacional, no qual Gabeira estava envolvido, conta:

“Confesso que apanhei muito. Crônicas, reportagens, comentários, piadas. Olhando pra trás, creio ter aprendido uma lição na crise. Quando tive a impressão de que todos estava contra mim, percebi que eu mesmo tinha que estar ao meu lado. Música, meditação, silêncio, tudo isso ajudou. Tenho a natação como hábito diário. Ela já tinha me ensinado alguma coisa. Sempre que havia um aborrecimento, alguma insinuação nos jornais, eu notava que nadar me ajudava a superar ressentimentos. Nos primeiros cem metros, você começa a achar que os críticos não são tão agressivos como parecem. Nos quatrocentos, mesmo achando que eles não tem razão, você começa a procurar algo na crítica que possa te ajudar. E no final termina quase agradecido. Talvez a produção de endorfina nos trone mais tolerantes.”

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A política centrada no corpo, ainda que não diretamente, foi sempre um tema para Gabeira após sua volta ao Brasil. Ao fundar o PV e entrar na vida pública, passou a abraçar, além da ecologia (antigo nome da sustentabilidade) causas como a profissionalização da prostituição, o casamento homossexual e a descriminalização da maconha. São temas próximos ao que Gabeira viveu, pois sentiu na carne a violência e os pré-julgamentos não apenas na época da ditadura, mas também no retorno do exílio. É coerente, portanto, que tenha abandonado um tipo de radicalismo para abraçar uma visão mais ampla, mais centrada nas possibilidades do indivíduo do que em grandes ideologias.

E aí chegamos no que de mais bonito o livro tem – além de uma linda escrita: capítulo após capítulo, Gabeira deixa claro que suas opções e ações nasceram entrelaçadas com questões absolutamente pessoais. Salvar o mundo? Claro. Mas baseado no quê? Na vontade de ser pleno e feliz. Parece ser assim: Gabeira se torna respeitoso e combatente pela necessidade do outro devido à batalha pessoal do reconhecimento das próprias necessidades. Na construção do respeito ao outro, não tem estrada mais firme. Melhor a honestidade de admitir essas necessidades do que mergulhar numa vazia retórica altruísta, pois é essa que liga a fisiologia política da velha guarda com a grandiloquência perigosa de novos setores do ativismo.

Em resumo, é mais ou menos como diz uma frase que volta e meia circula por aí: todo mundo quer mudar o mundo, ninguém quer lavar a louça. A história de Gabeira é a história de alguém que lavou muita louça, começando pela pia de casa, passando por cozinhas da Europa, da África, do Chile e terminando décadas depois no Congresso Nacional. Há de se respeitar as memórias políticas de alguém com tamanha experiência doméstica.

***

Um último adendo.

É curioso também como a trajetória de Gabeira serve de exemplo para a política do futuro. Lá atrás ele já enxergou o que vivemos hoje e o que temos pela frente. Muito antes da informalidade e da conectividade do ativismo atual, ele já vivia conectado ao mundo e exercendo sua política de forma pessal e em rede. Muito antes de todos sermos mídia, ele sempre foi um pequeno conglomerado de mídia ambulante. Muito antes de se falar em marketing de guerrilha, ele usou táticas inovadoras e inusitadas para promover suas candidaturas. Muito antes de se falar em meme, ele criou um bordão auditivo viciante pra fazer render os poucos segundos da propaganda gratuita na eleição de 89. Olhe pra trás e veja quão poucos fizeram algo parecido tanto tempo atrás.

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Pirataria Mental

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Só um pensamento.

Digamos que uma hora realmente liguem o cérebro computadores (a tal da singularidade). Aí, digamos que isso realmente conecte também a mente a computadores e que seja possível mapear nossos pensamentos. Claro que estamos falando de algo bastante complexo, pois, afinal, o que de fato são os pensamentos? Quais deles será possível detectar? Em que nível? Os pensamentos da camada discursiva? As sensações? As percepções? Mas tudo bem. Digamos que seja possível e que isso aconteça e que seja relativamente fácil definir “pensamentos”. Certamente, a essa altura, teremos empresas tentando patentear algumas linhas de pensamento, algumas ideias, como se faz com projetos concretos hoje em dia, só que, no caso, na forma de pensamentos. A questão é: se isso tudo estiver ligado em uma só rede – ainda uma ideia de ficção científica – o que aconteceria se uma pessoa pensasse algo que é propriedade de uma empresa? Como bloquear o impulso de pensamentos patenteados?

Como eu disse, é só um pensamento.

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Abaixo Assinado: Mulheres no Fifa Soccer

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O tema é interessante e surpreende que não tenha surgido antes. Uma das jogadoras da seleção espanhola de futebol criou uma petição no Change.Org pra pressionar a Electronic Arts a incluir mulheres no Fifa Soccer. Ela se inspirou em outra petição, de uma menina americana que pede a mesma coisa – mas certamente sem a mesma influência da espanhola.

Um detalhe curioso: a jogadora da seleção da Espanha se chama Verônica Boquete, o que não deve ser problema para a campanha em lugar nenhum do mundo, exceto no Brasil.

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Faça seu próprio Ted Talk de sucesso

Que tal essa metapalestra do TED de 2010? Depois de analisar as primeiros 525 falas de cientistas, políticos, designers, artistas e faladores em geral, o especialista em bioinformática e dados Sebastian Wernicke montou a matriz do que seria a melhor e a pior palestra para o TED. Não só isso, você mesmo pode montá-la com o tedPAD generator…

Pois é, tudo na vida acaba uma hora virando McDonalds.

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A contribuição pouco comentada de Yoani

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Falar sobre Yoani Sánchez por esses dias é incomodação na certa diante do carnaval bizarro que certos setores políticos de todas as cores estão protagonizando ao redor da moça. De minha parte, tenho grandes dificuldades de entrar no jogo “endeusa ou demoniza”. Na verdade, antes que decidam por mim, já dou meu julgamento da situação: regimes com ameaças à liberdade individual são errados e blogueiras com atitudes ambíguas e obscuras também. Não acho que defender Yoani seja atacar Cuba ou vice-versa. Também não acho que criticar o regime cubano seja abraçar a visão liberal como um todo.

De qualquer forma, acho que o mais interessante nessa história toda é como uma blogueira clássica está causando tamanha comoção e tomando de assalto a mídia política brasileira. Por blogueira clássica me refiro a uma pessoa cujo principal (único?) meio de expressão é um blog no seu sentido de ferramenta e de estilo.E um blog a princípio desconectado de um grande conglomerado de mídia que possa lhe dar impulso. Pelo pouco que li no blog da Yoani, ele se encaixa com perfeição no conceito de blog como um meio de comunicação que mistura formalidade e informalidade, visões mais gerais com pequenos trechos do cotidiano, fotos toscas de celular com fotos de referência, vídeos embedados, enfim, é mais ou menos a colcha de retalhos tradicional do que se convencionou chamar de blog e que não encontra paralelo em outros formatos. Tanto é isso que é assim que ela vem sendo chamada sarcasticamente por alguns militantes contrários à sua presença: “a blogueira”.

E por que isso seria relevante? Porque ainda há muitas pessoas, algumas de grosso calibre, que desdenham o poder desses novos formatos de mídia. Recentemente, o marqueteiro do PT, João Santana, esteve no Rio Grande do Sul para aconselhar o governo Tarso e comentou que é preciso investir em publicidade de TV porque as redes sociais, vista por ele como ainda incipientes, não dão conta do trabalho de divulgar o Governo (isso saiu na coluna da Rosane de Oliveira, mas procurei rapidamente e não achei esse trecho específico no site). Sempre fico com um pé atrás com essas declarações, não por algum tipo de militância digital, não sou desses, mas pelo seguinte: será que esses caras não vêem o quanto a imprensa – especialmenter a política – também é pautada por posts em blogs, Twitter e Facebook? Aí está “a blogueira” pra provar a tese.

Claro, como já escrevi aqui: nem todo mundo é mídia. Algumas pessoas e instituições tem um poder de fogo maior no que diz respeito às mídias sociais. E também não dá pra negar a influência de outras formas de aparecer nos veículos de grande audiência numérica. Mas a novidade, já velha e repetida à exaustão, é essa: até mesmo uma blogueira controversa escrevendo de Cuba consegue conquistar uma centimetragem e minutagem dessa mídia que agências de publicidade, assessorias de imprensa e lobistas só conquistariam com aportes gigantescos de dinheiro.

Yoani escreve para o El País e disse no Globo que gostaria de usar o dinheiro de prêmios pra fundar um jornal e difundir suas ideias. Aqui no Brasil, ela não precisa ter um jornal, já aparece em todos. Independente de suas posições, esse é um recado importante que ela está deixando e que está ficando obscurecido por suas trapalhadas políticas.

***

Foto: o Globo.

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Preserve a antítese

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O Rio Grande do Sul é um estado que se declara solene e repetidamente polarizado. Qualquer um que passe mais do que dois ou três dias por aqui vai se deparar com alguma discussão ou alguma acusação de “grenalismo”, uma rivalidade de paixão comparável à do futebol, mas que permeia todos os âmbitos da vida gaúcha – política, econômica, cultural e social.

A lenga-lenga do oposicionismo congênito do gaúcho descende supostamente das diferenças entre chimangos e maragatos na controvertida Revolução Federalista de 1893 que, segundo dizem, nem revolução era. De um lado, estavam os maragatos, insatisfeitos com a política governamental da recém proclamada república. De outro, chimangos, que defendiam a unidade federativa e as medidas vigentes. Não existe uma única discussão sobre a polarização no Rio Grande do Sul que não traga essa historinha a reboque e isso é tão repetido que nem sabemos mais se tem a ver ou não tem a ver com o que acontece hoje.

No fundo não interessa mais saber a origem ou o DNA da polarização gaúcha, nem mesmo se ela existe de fato. Nas conversas, nas ideias, na cultura, no ar, ela existe. Foi adotada com gosto, especialmente por dois motivos em geral obscurecidos: a polarização é útil para justificar 1) a incompetência e 2) a falta de ideias alternativas. Todo empreendimento que não acontece ganha automaticamente a desculpa do radicalismo gaúcho pra encobrir qualquer falha que possa ter sido parte do projeto original. E em seguida, na pressa de discutir a tal polarização, morre a discussão sobre caminhos alternativos. Tem-se a impressão, sempre, que um projeto parado é sempre parado por algum radicalismo e não por algum problema do projeto em si.

Nessas, quem sempre acaba apanhando verbalmente são esses “radicais”. Grupo heterogêneo, subjetivo e, na prática, inexistente, os “radicais” são figuras mitológicas responsáveis por atrasar o Estado. Por exemplo, se não fossem os “radicais”, Porto Alegre seria uma cidade mais moderna, a indústria gaúcha mais pujante, a cultura regional mais expressiva e o nosso litoral bem melhor estruturado. Mas “radical”, a meu ver, talvez seja simplesmente um outro nome para a incompetência de muitos empreendedores, artistas e gestores públicos – por vezes incompetência técnica, por vezes política, por vezes comercial.

Por exemplo, será que a revitalização do Cais do Porto ainda não saiu porque “forças radicais” ou “chatos” querem discutir ou porque nenhuma força política ou comercial foi capaz de construir um projeto suficientemente bom que abarque todas as peças do jogo que precisam ser contempladas?

Eu já disse em outra ocasião: se existem radicais hoje, eles são muito pouco radicais. Ou pouco eficientes no seu radicalismo. Se fossem realmente radicais ou chatos, como também os chamam, eles perderam completamente a mão. Porto Alegre, que conheço mais pois é onde moro, está sendo coalhada de prédios gigantes com arquitetura sem graça, imóveis comerciais de aluguel também sem graça, empreendimentos comerciais com pouquíssimo retorno pra comunidade e não tenho notícias de planos para uma urbanização alternativa, que não privilegie espigões e a mobilidade individual em automóveis. Com radicais que deixam isso acontecer, quem precisa de moderados?

O Rio Grande do Sul não precisa extinguir sua cultura polarizada. Pelo contrário, precisa sim é consertar sua polarização manca e esquizofrênica. Na prática, isso significa parar de reclamar da polarização e do radicalismo, parar de colocar nisso a culpa das incompetências. O novo não acontece em situações isentas de fricção, pelo contrário. É histórico e conhecido que toda síntese nasce do embate de uma tese e de uma antítese. Por isso, bato de novo nessa tecla: pra evoluir, o Rio Grande do Sul precisa qualificar suas teses antes de aspirar eliminar supostas antíteses.

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