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Arquivo: 2009

Carta Aberta a 2009

Caro 2009

Não podemos dizer que não fomos avisados. 2008 foi bem claro quanto a termos de abrir o olho com você. Até pensei que ele estava exagerando um pouco, mas a verdade é que eu só não tinha captado bem a sutileza do seu dedo nas coisas nos primeiros meses. E eu só não fui totalmente coagido pela posse do Obama porque tenho um providencial pé atrás com essas coisas. Mas sei que ali você estava começando a aprontar.

Pra falar a verdade, como 2009 você foi extremamente… 2009. Mas de um jeito que não esperávamos totalmente, e é daí que vem esse olhar desconfiado de nossa parte com você nesses últimos dias. Não me leve a mal, mas você não deixou uma boa impressão na sua passagem. E como você foi bastante direto conosco, o mínimo que posso fazer é retribuir a sinceridade.

Em alguns aspectos, você foi parecido com seu primo 1999. Confuso. Barulhento. Com jeitão de ressaca. Remexendo em coisas profundas e fazendo algumas limpezas. Como que num processo violento de gestação, preparando a cama para 2011 deitar, como 99 fez com 2001. Na música você foi bem assim: indefinido, atirando para todos os lados e deixando para 2010 mais uma tarefa, a de consolidar os caminhos da década que vem por aí. Foi assim também com os rumores sobre o Woody Allen filmar no Brasil, não é mesmo? Todo esse zunzunzun, criando a maior expectativa, mas de novo ficou pros seus sucessores a tarefa de transmutar o boato em realização.

Até um filme sobre seu irmão mais novo, 2012, você arrumou pra tentar disfarçar seu jeitão folgado. Só eu percebi que o filme não era sobre seu irmão, mas sobre você? O resultado das negociações em Copenhague foi o epílogo desse filme e eu sei que você planejou isso direitinho. Transmedia storytelling. A história se espalhando por jornais, televisão, cinema e flashmobs inúteis.

Não me venha com Dirty Projectors e Emicida. Não me venha com Jupiter Apple e Black Drawing Chalks. Não me venha com Se Beber Não Case, Watchmen, District 9, Umbigo sem Fundo, Moon e Meu Querido Mês de Agosto. Não me venha com as baladas do Wado ou aquele showzinho do Little Joy no Opinião. Seus pequenos acertos a mim me parecem mais desvios de conduta. O Rio foi escolhido como sede da Copa do Mundo, tudo bem, mas de novo isso soa como alguma sacanagem sua com os caçulas 2010, 2011, 2012, 2013 e, especialmente, o pobre coitado de 2014.

No âmbito pessoal, posso dizer que você não pegou lá muito leve comigo. Tá certo, eu não vou me abster das minhas responsabilidades, principalmente no que diz respeito ao meu orgulho e minha mania de autosuficiência. Mas, na boa, você não precisava ser tão… drástico. Embora eu ache que em muitos pontos você estava certo, não gostei nada do seu tom. Tá bom, eu entendi o recado. Mas nem tudo eu digeri ainda e, gostando ou não, 2010 vai ter que terminar de descascar alguns abacaxis com que você me presenteou. Cada um com seus problemas, né 2009?

Bom, desculpe meu amargor. É mais um desabafo do que propriamente uma opinião sólida. Claro que você não é de todo mal e, agora mais calmo, também preciso admitir que você teve que lidar com o espólio da sua década, tudo que foi mal resolvido por 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e seu irmão mais próximo, o 2008 (que muito espertamente deixou pra você administrar, por exemplo, toda a euforia em torno do Obama). Então, não me entenda mal, eu sei que seu ano também não foi fácil e vejo o por quê de você ter jogado tudo pra cima em novembro e dezembro: chuvaradas homéricas detonando várias regiões do Brasil, Mano Brown todo serelepe na capa da Rolling Stone, uns malucos enfiando agulhas em crianças. Até mesmo terrorista tentando explodir avião me apareceu e o controvertido Fábio Barreto se acidentou feio. Bizarro, 2009, bizarro. Você não é muito certo das idéias, na boa.

Mas, bem, eu estava tentando olhar para suas qualidades e sei que você tem algumas: você foi honesto, direto. O que aconteceu com o Michael Jackson na sua administração deixou todo o resto da biografia dele no chinelo. Assim é você. Vai metendo o dedo na ferida. Você não foi nada político e fez o que tinha que ser feito em muitos casos. Deu um Nobel sarcástico para o Obama e revelou o puritanismo/tesão reprimido dos brasileiros com a mina da Uniban. Prendeu o Polanski. Não precisava ter levado o Clodovil, mas em compensação, você expôs o Sarney de uma forma que não tínhamos visto ainda. Arrumou um namorado pra Madonna chamado Jesus (cara, você é definitivamente uma figura).

Por essas e por outras é que eu meio que admiro você e até perdôo alguns excessos. De novo, levando pro lado pessoal, confesso que eu andava precisando de umas chacoalhadas e nisso você foi mestre. No fundo, tenho uma certa gratidão por alguns de seus esparros. Embora o seu trabalho não seja de todo confortável, você é bom no que faz.

Resumindo, 2009, tudo de bom pra você, segue teu rumo, descansa, abraço na família.

Mas é o seguinte: não me aparece aqui de novo!

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Primeiro prognóstico de 2009: back to the basics

Frank Stella

É meio óbvio: depois da euforia, vem o coador. A crise que teve início com aquelas linhas de crédito falcatrua dos americanos não derrubou apenas gigantes do mercado financeiro, mas também abalou a idéia de gigantismo, abundância e festerê desenfreado. A sensação de “tudo pode” oferecida por ciclos de crescimento e alavancagem de capital no mercado internacional em uma escala nunca antes vista tiraram conceitos valiosos como “vamos com calma” e “não é bem assim” da pauta diária de muita gente.

Enquanto isso, na fronteira da França com a Suíça, neguinho ligou o Large Hadron Collider em busca de uma suposta partícula que explicaria como partículas sem massa podem ter massa. Pois é. Eu também não sei. Como a economia global e a paz no Oriente Médio, o LHC deu pau e só volta a funcionar lá no meio de 2009. Enquanto  isso, volta à luz, segundo o The Economist, a idéia de uma ciência mais baixo-guitarra-bateria, com menos recursos e mais esperteza, como a exercida por um pequeno laboratório de física de Yorkshire, que vai tentar provar sem tantas firulas o que o LHC não conseguiu. Não muito longe desse mesmo artigo, a revista também aposta toda pimpona no chamado microcrédito. A edição de “The World in 2009″ é colorida com essas tintas “minimalistas”. Tem nas bancas em português, edição em parceria com a Carta Capital.

Nada que não se descubra num papo com os parceiros. Fazer mais com menos é a saída óbvia para um planeta à beira do colapso que vem agindo como um adolescente. O Eduf elegeu 2009 como o ano da faxina. O Information Architects está começando seu web trend map do zero em vez de fazer em cima do de 2008. O Eduardo Paes vem de retroescavadeira pra cima da informalidade (que soa mais como espetáculo, não assino embaixo, mas não deixa de ser um sinal dos tempos). O Matias já apostou suas primeiras fichas do ano no The Pains of Being Pure of Heart, cuja audição lembra muito uma fita demo gravada em 92, praticamente uma faxina ao contrário: saem de cena as guitarras limpas e a grandiosidade, volta o “pisa no pedal e manda ver”. Sujar com menos também vale.

Vamos combinar: todo esse maximalismo vigente uma hora ia estourar. Ainda bem. Que venha por aí o ano Ramones.

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Como começar um ano?

foto: John Swearingen

Não tenho muito bem certeza, então em vez de começar, eu continuo. Da última vez que sentei aqui para escrever eu desejei lucidez para todos, então expando um pouco mais o assunto pra deixar claro do que estou falando. Porque, afinal de contas, lucidez é como bom senso: tanto os políticos israelenses como os palestinos do Hamas acham que a sua é que é a real.

A lucidez de que eu estou falando não é a do senso comum, é outra. A lucidez em que eu acredito, de que eu tenho ouvido falar e estudado nos últimos anos diz (entre outras coisas, vou simplificar) que a nossa mente é responsável pela forma como experimentamos os ditos “fatos da vida”, seja uma gripe, uma festa, um pé na bunda ou uma guerra. Então, basicamente, essa é a lucidez que eu estou desejando: compreender como a mente experimenta o mundo, logo compreender como construímos a vida que levamos e como nos libertarmos de situações aprisionantes. Temos responsabilidade sobre o que nos acontece individual e coletivamente. Sei que essa é uma frase esquisita pra se proferir no Brasil, o país no qual a culpa é sempre DELES (sejam ELES quem forem).

A noção de que não existe uma realidade objetiva “lá fora” separada do que pensamos “aqui dentro” não é difícil de compreender e até rende boas conversas de mesa de bar. Mas se a coisa ficar nesse nível, nada muda, tudo fica na mesma. Meu desejo para dois mile nove não é, então, que a lucidez caia do céu na cabeça de todos,  mas que cada um encontre exemplos vivos de lucidez (não livros ou tutoriais) que sirvam de referência (muito cuidado ao escolher as suas) para que a lucidez possa ser treinada e praticada (e não apenas lida, comentada, citada ou reclamada).

O que é lucidez pra você? Quem serve de referência? Como você a coloca em prática? Tem os comentários mas a pergunta é puramente retórica porque eu já estou quase me sentindo um escritor de auto-ajuda… não sei se é uma boa forma de começar o ano, mas enfim… vamolá…

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