3 de junho de 2009 às 11h03
Vôo 447
A queda de um avião sempre mexe com todo mundo das mais variadas formas. Alguns ficam com medo de voar. Outros relembram histórias de pessoas próximas que viveram um drama similar. Uma outra turma se dedica à criar ou repassar piadas relacionadas ao evento. Também tem os que, silenciosos, refletem sobre o significado mais profundo da vida. Uns abrem o coração à distância, se solidarizando da forma como podem com os familiares das vítimas. Outros tem o ímpeto de empreender alguma ação, procurar um responsável. Cada um ao seu jeito, estamos todos, penso eu, procurando absorver o fato absolutamente ordináro de que a morte pode chegar a qualquer momento e de qualquer forma.
Como existe uma distância enorme entre saber racionalmente e integrar isso à compreensão direta, são esses acontecimentos cheios de simbolismos que fazem o trabalho sujo de colocar um tema desconfortável em nossa pauta diária. Quando morrem pessoas em um deslizamento de uma favela, em um ataque da polícia, em um acidente rodoviário, em uma epidemia de dengue, é mais fácil aceitar pois as causas são visíveis e a indignação encontra rapidamente uma via para fluir. Temos explicações, culpados, medidas a serem tomadas.
O Vôo 447, no entanto, parece pertencer mais ao universo do Lost do que do Jornal Nacional: estamos sendo obrigados a engolir uma quantidade incrível de hipóteses sem nenhuma conclusão por tempo demais do que estamos acostumados. E não está sendo divertido. Não é JJ Abrams que está no comando. Não tem ninguém no comando.
Enquanto isso, vamos sendo soterrados com gráficos e explicações para lidar com uma questão mais complicada: não importa o quanto tentemos, o quanto nos tornemos bons em engenharia, um avião de uma companhia respeitável pode sumir de uma hora pra outra e levar consigo uma galera.
A instantaneidade da comunicação digital, nesse caso, vem sendo inútil. Não há novidades na velocidade em que podemos nos atualizar. Ficamos sabendo que um destroço foi encontrado. Que o navio da marinha chegou ao local. Assistimos a representações gráficas do possível local do acidente. Ficamos andando em círculos, fingindo que estamos sabendo de alguma coisa pela crescente incapacidade de suportar o não saber de coisa nenhuma.



Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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