Adorei o conceito de brand hijacking que o Will trouxe pra cá. Ele já havia me falado em conversar informais, mas nada como ter as coisas mais esquematizadas. Eu lembrei alguns outros exemplos, derivados do Video Show, como a Dança dos Famosos, mas daria pra fazer uma lista na Globo, que tem uma série de atrações autofágicas - ou melhor dizendo, autoreferenciais. É o padrão Globo sendo reafirmado em uma espécie de vórtice sem fim na esperança de evitar o inevitável (s aber: impermanência).
No fundo no fundo, estamos falando de um comportamento contemporâneo totalmente generalizado: o já tão comentado fato de que as pessoas vão poder (estão podendo) consumir conteúdo da forma como quiserem e quando quiserem. O brand hijacking emula esse comportamento ao promover a salada antes que o consumidor o faça (nem todo mundo faz por si). Quem fizer salada e distribuir, vencerá. Tem um post do Tiago Dória que resvala nesse assunto - o NYT está linkando conteúdos da concorrência.
O post do Guilherme Dable (cujos desenhos eu tentei comprar) me lembra o título de um curso promovido pela galeria dele (e de uns sócios): Desenhar é Traçar o Pensamento. Algo assim. Depois de muitos muitos anos, esse ano eu voltei a desenhar. Não estou falando do Autopista, mais observações domésticas mesmo. Que é onde essas questões que o Guilherme colocou mais aparecem.
Quando faço desenho de observação, se eu me descuido, caio brutalmente em um estado de ansiedade por não estar conseguindo ver no papel o que estou vendo à minha frente. O que é, sob um certo ponto de vista, risível: como se houvesse à minha frente algo objetivo que possa ser transferido intacto de forma fidedigna ao papel. Rarará. É muito difícil pra mim desistir da idéia de como as coisas se parecem visualmente, como diz o incrível Antony Gormley (cujos desenhos ilustram esse post aqui) citado pelo meu interino. Fazer o quê. Vamos em frente.
Isso, de certa forma, está relacionado com o tocante post do Ronaldo Evangelista. Ele cita o poder de coisas (pequenas, grandes, óbvias ou escondidas) que nos inspiram. E o consequente impulso que brota em nós para tentar reproduzir essa inspiração sob a forma novas coisas (pequenas, grandes, óbvias ou escondidas).
Não há o que discordar do post dele, eu só acrescento um detalhe: essa quebra de percepção promovida por certos produtos culturais depende não apenas de um autor brilhante, mas de observadores com o coração aberto e sintonizados em uma frequência similar (ainda que não aparente). Vou mais longe: corações realmente abertos são extremamente habilidosos em enxergar inspiração nas situações/objetos menos desenhadas para tanto, inclusive as que prescindem de um autor e de uma intenção.
Um dos paralelos que estou fazendo automaticamente a cada parágrafo de Convergence Culture é com a forma de funcionamento das agências de publicidade. Nos últimos seis meses, tenho feito parte de um grupo ligado ao planejamento estratégico da Escala que está definindo os rumos da agência em termos de escopo. Aquela coisa: quais disciplinas serão incorporadas ao pensamento estratégico ou operação? Que tipos de serviços vamos entregar e que tipo vamos terceirizar, gerenciando o conteúdo de marca?
Em meio a essas discussões, obviamente surgiram muitas questões a respeito do perfil dos profissionais e da forma de trabalho dentro da agência quando as disciplinas atendidas vão além da tradicional campanha de TV/Jornal/Rádio/Outdoor. Enquanto os veículos que cobrem o setor se debruçam sobre a necessidade de se compreender as tecnologias, remuneração e linguagem de disciplinas correlatas à publicidade “convencional” (mobile marketing, guerrilha, ativação etc), eu não paro de pensar que esse é o menor dos problemas.
Venho insistindo que existem certas habilidades interpessoais tão importantes quanto conhecimento técnico ou habilidade criativa. Pessoas chave, detentoras de conhecimentos específicos que precisam ser espalhados por toda a agência, por exemplo, não podem fazer o gênero “gênio isolado”. Porque grande parte do trabalho delas é justamente espalhar conhecimento. Portanto elas precisam fazer mais o tipo “gênio pimpão”.
Mas antes de tudo, em geral os profissionais de agência hoje precisam de paciência. Paciência para suportar a ambiguidade dos papéis de empresas e pessoas ao seu redor; paciência de precisar desmontar e remontar briefings de acordo com o surgimento de novos pontos de contato periodicamente; paciência em trabalhar com um número maior de pessoas do que antes era possível para criar uma campanha; paciência em buscar consenso entre esse número maior de pessoas; paciência de ver pessoas que não entendem nada do seu campinho tendo idéias melhores que a sua; enfim, paciência.
A segunda habilidade é a capacidade de misturar mentalidade de criador e estrategista com mentalidade de produtor. Hoje, saber o “como” se faz qualquer coisa é parte fundamental do processo criativo. Não é mais possível montar um projeto complexo, que envolve novas tecnologias ou pontos de contato sem saber como essas tecnologias ou pontos de contato funcionam. Isso é uma mudança brutal de paradigma especialmente para a área de criação, que durante décadas não precisou se preocupar demais com o COMO, mas mais com O QUÊ. Hoje, se o criativo (e os planners, diga-se de passagem) não sabe o COMO, não tem muito como fazer um novo O QUÊ. Além disso, existem muitos novos COMO para serem explorados e descobertos. O que exige uma nova capacidade generalista, que inclui a habilidade de flutuar sobre áreas ainda mais vastas do que o costume e captar a essência do COMO de cada uma, bem como saber trabalhar em total parceria com quem sabe mais COMO de ALGUMA COISA do que você.
Não entendeu nada? Paciência…
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Imagens: esculturas do Antony Gormley
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