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R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

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Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

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Pampa Drawings & New York Drawings

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Nas últimas semanas, me debrucei sobre dois livros de ilustração tão bons quanto diferentes, dois universos opostos mas que convivem e se completam na minha cultura particular. Acredito que muitas outras pessoas tem essa combinação em sua formação: um pouco de metrópole, um pouco de campo (ou de praia ou de cidadezinha do interior). Primeiro vamos falar do campo, retratado no excelente Pago pra Ver, de um grande mestre nacional.

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Se a essência de um desenho é a capacidade de observação (interna ou externa), sem dúvida Renato Canini é um Thundercat com visão além do alcance. Caso você não ligue o nome à pessoa: Renato Canini foi o responsável pela fase brasileira-chanchada-urbano-tropical-desbunde do Zé Carioca, aquela série de histórias que antecipou em duas décadas toda a onda de valorização da estética brasileira que se seguiu a Cidade de Deus. Entre tantas outras coisas.

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Em Pago Pra Ver, Canini se voltou pro universo visual e afetivo do pampa gaúcho (“os pagos”, como se diz também) com suas duas principais características: o traço rasgado e o humor sutil, injetado a partir do traço. Como em todos os seus trabalhos, o poder de observação do Canini cobre tanto o que é visível (formas, paisagens, objetos) quanto o que não se vê (a cultura e seus comentários). Frequentemente, ele torna o invisível visível e esconde no clima do desenho o que geralmente a gente procura com os olhos.

 

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Como fazem poucos grandes artistas, o Canini consegue equilibrar observação, homenagem e crítica social. Na verdade ele mistura esses três elementos e você nunca sabe muito bem quando ele está simplesmente fotografando, homenageando ou tirando uma onda. Coisa de mestre mesmo, ainda mais levando-se em consideração o tradicionalismo gaúcho, sempre pronto pra puxar uma faca e discutir possíveis “faltas de respeito”.

Um detalhe importante: Pago Pra Ver saiu meio batalhado. Pelo que sei, foi difícil alguma editora se interessar pela obra. Quem acabou bancando a edição foi o Instituto Estadual do Livro, ligado à Secretaria de Cultura do Estado do RS. Pontíssimo pro IEL.

Se você quer dar uma olhada nos desenhos, vai no blog da associação gaúcha de cartunistas, a Grafar, que publicou uma série deles com o objetivo de incentivar o interesse pelo trabalho.

 

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Agora vamos de New York Drawings, do quadrinista e ilustrador americano Adrian Tomine. Eu já conhecia o trabalho de Tomine nos quadrinhos – e confesso que não sou grande fã. Mas quando vi que as ilustrações dele relativas ao universo de Nova Iorque (muitas das quais saíram na revista The New Yorker) foram reunidas em livro, não tive dúvidas pra comprar – meus bodes com Tomine como autor não se sustentam com seu ótimo lado desenhista. O motivo fica bem claro em New York Drawings.

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Mais do que uma simples coletânea, o livro serve de tributo de um observador à atividade de observação. A gente nota isso porque os desenhos mais bacanas são justamente os que parecem recortados de uma cena maior, que sugerem mais o cantinho de uma fotografia do que o centro.

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Claro que há muitos outros desenhos, vinhetas e retratos que ilustram matérias das mais diversas naturezas e ângulos. Mas os que escolhi pra ilustrar esse post e os que considero que se destacam no livro tem essa qualidade colateral, de fazer foco no que geralmente não é foco.

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Pampa e Nova Iorque, Tomine & Canini. Isso dá dupla sertaneja, dá um disco de vanguarda ou dá um poema, hein… no mínimo, uma letra do Engenheiros do Hawaii.

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Artistas

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“Nós pensamos que os artistas estão à frente do seu tempo, mas na verdade eles expressam onde estamos agora. Nós é que não reconhecemos onde estamos agora, então sua arte parece estranha.”

Nancy Wilson Ross

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“A tentação de ser útil é forte demais”

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Em entrevista para o informativo Gentle Voice, o professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche (roteirista e diretor e A Copa e Viajantes e Mágicos) dá sua perspectiva sobre o papel do artista no mundo contemporâneo. Entre os conceitos defendidos por ele está a noção do artista como um fazedor de coisas inúteis, como o criador de harmonia, além da ideia de que seria bom ter mais artistas-políticos.

Papo completo, em inglês, aqui.

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A brief history of John Baldessari

A vida do supracitado artista americano na voz do Tom Waits. Via Guilherme Dable.

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O poder da arte

A fala do Agnaldo Farias (um dos curadores da última Bienal de SP) me lembrou, em certos aspectos, a fala do Alan Moore. O artista como mágico, como conjurador de aparições e feitiços no âmbito da linguagem – existe outro?

Grande dica do Guilherme Dable.

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Sobre passar mais tempo

Não sei quanto a vocês, mas quando o assunto é cultura, nos últimos anos eu venho me portando como um solteirão festeiro. Meus dias tem sido repletos de rapidinhas de quinze minutos, de namoros furtivos em lugares públicos, de envolvimento superficial pelo celular, enfim, de uma infidelidade crônica que por um lado tem me enriquecido mas por outro tem me prescindido das benesses da intimidade. Eu poderia, de forma canalha, dizer que a culpa são dos tempos, do zeitgeist, das demandas profissionais. E apesar de, sim, haver sérias circunstâncias atenuantes, a verdade é que às vezes sinto que me desacostumei a lidar com conteúdos que precisem de períodos mais longos (ou mais profundos) de atenção, contínua ou não.

Se eu não tomo cuidado, não tem jeito: acabo sendo arrastado pelas demandas cotidianas de uma agenda habitualmente preenchida com fatias finas de conteúdo para absorver, digerir e produzir. E assim como um solteiro convicto enfrenta dificuldades de convivência ao casar, também tenho estranhado quando me vejo envolvido com um livro, um filme ou um artista por um tempo maior do que o habitual. Mas não serei dramático ou catastrófico como a maior parte das reportagens sobre isso, pois sei que nem tudo está perdido. Algumas oportunidades tem me proporcionado o prazer da convivência extensa, da descoberta paulatina, do longo noivado que precede alguns casamentos culturais de sucesso.

Um bom exemplo é a Fundação Iberê Camargo, aqui em Porto Alegre. Instalado em um prédio projetado pelo português Álvaro Siza, o museu da Fundação tem revestido suas entranhas com fortes exposições temporárias de artistas como De Chirico, Mira Schendel e Joaquim Torres-Garcia. Mas a grande atração, levando-se em consideração o assunto que estamos tratando, é o terceiro andar do museu, dedicado permanentemente à obra do próprio Iberê Camargo. Pra quem mora na cidade, é a primeira vez que se tem a oportunidade de passar vários anos visitando e revisitando o acervo de um artista com facilidade e regularidade, conhecendo seus óleos, suas gravuras e seus desenhos aos poucos, com uma constância que o contato com os artistas das temporárias naturalmente não permite. O acervo, mesmo com uma certa rotatividade, está sempre lá e pode-se explorar o trabalho do artista numa velocidade mais parecida com a que ele produziu.

Conteúdos expostos de forma mais extensa, sejam as fases de um artista, um longo romance ou um filme de duração não-holywoodiana, tem então esse predicado: eles nos convidam a compartilhar o tempo da criação. E uma coisa fica clara: esse tempo quase nunca é o tempo dos mercados e dos calendários. Convertido em contemplação, livre do ritmo frenético da hipermodernidade, o tempo da criação cumpre com sua finalidade mais elevada, que talvez seja a difícil e nobre tarefa de arrancar o público do andar ordinário dos dias.

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Coluna publicada na revista Soma número 27.
Desenho em download de linha telefônica: Guilherme Dable

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El empleo

O que me chamou a atenção nesse premiadíssimo curta não foi nem a estética e nem o conteúdo, mas o ritmo. Qualquer obra que dê uma freada nesse mundo acelerado e hiperativo é sempre digno de nota.

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Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

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Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.

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La Editorial Comun

Uma descoberta recente de minha parte –> a editora do Liniers anda lançando coisas bem bacanas além das coisas bacanas dele. Aí em cima estão três exemplos que conheço. De baixo pra cima, vemos: 1) a versão argentina de Umbigo sem Fundo (cuja edição brasileira resenhei aqui) 2) o Liniers em carne e osso mostrando no scanner o Vírus Tropical da equatoriana/colombiana Power Paola (resenha assim que eu tiver tempo!) e 3) uma aventura meio urbana meio fantástica do argentino Federico Pazos que está na fila de leitura aguardando também o bom e velho TEMPINHO LIVRE (hahahaha).

Aguardem sentados.

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Diferentes iguais

Não sei quanto a vocês, mas de minha parte não adianta: é difícil entender a extensão da encrenca dos outros a menos que eu esteja na mesma situação. Não que me falte capacidade de abstração ou criatividade para imaginar os cenários. Mas é que o poder da experiência direta, sem dúvida, continua sendo o professor mais eficiente.

Escrevo sobre isso porque há algumas semanas estive em Buenos Aires e minha mulher me proporcionou viver um desses momentos em que você, queira ou não, se coloca no lugar do outro. Ganhei de presente uma visita à… exposição? Instalação? Experiência?… enfim, ao Dialogos en La Escuridad, um… passeio? Caminho?… onde você passa pouco mais de sessenta minutos experimentando como é ser cego.

Funciona da seguinte forma: você chega, paga o ingresso, ganha uma bengala e se junta a um pequeno grupo de visitantes. É instruído a deixar mochilas e óculos num armariozinho e entra por um corredor absolutamente – ABSOLUTAMENTE – escuro. Mesmo. Não dá pra enxergar NADA. ZERO. BREU. E assim vai ser pela próxima hora.

Lá dentro, uma voz se identifica como seu guia. É um cego, um especialista em um contexto no qual somos todos, de repente, novatos. Isso já faz parte do aprendizado involuntário: de uma hora pra outra, o grupo passa a DEPENDER de alguém que costuma olhar como portador de uma deficiência em vez de portador de habilidades. Ao londo do trajeto, precisamos intensamente da orientação do nosso guia para nos locomovermos, nos entendermos, nos encontrarmos, darmos alguns passos que sejam. O guia, por outro lado, é justamente isso: um guia. Como ele não pode levar cada um pela mão – embora o faça em situações de maior dificuldade, procura orientar, acalmar e incentivar a exploração dos ambientes usando os sentidos que nos sobram.

São quatro situações pelas quais passamos: um bosque, uma rua movimentada, um barco e um bar. Em todos precisamos nos localizar, nos movimentar e tentar aproveitar. No bosque, o desfrute é mais simples. O som, os cheiros e o entorno é agradável. Somos convidados a cheirar, tocar, ouvir e sentir. Na cidade, o bicho pega com buzinas, carros e o onipresente ruído da construção civil. Nesse momento, todo meu entusiasmo com anos de leitura de Demolidor (o herói cego da Marvel que me fez pensar que eu sabia como fazer isso tudo) foram por água abaixo. A situação é opressora e estressante, mas – outra lição – o grupo se ajuda e também servimos de guia entre nós. No barco, não há grandes dificuldades. E no bar já chegamos um pouco mais “experientes”. Compramos café, água, refrigerante e alfajor com as notas de dois pesos que fomos orientados a trazer. Sentados, a última aula. Trocamos impressões, contamos o que sentimos, ainda sem podermos enxergar uns aos outros.

Lembre-se: mal nos vimos lá fora, não nos conhecemos. No entanto, a intensidade da experiência e o escuro estimulam todos a revelarem não apenas o lado agradável da experiência, mas também a angústia, as dificuldades e o medo de ficar uma hora – apenas uma hora! – desprovidos de informações visuais.

Eu pensei que experimentar um pouco da dificuldade de viver sem enxergar seria o mais tocante, o mais chocante, o mais incrível. Mas o que REALMENTE me impressionou foi ver tão claramente (desculpe o trocadilho barato) as minhas dificuldades e os meus limites no que diz respeito a entender as dificuldades e os limites dos outros, sejam eles cegos ou não.

É muito bonito saber da importância e do valor de colocar-se no lugar do outro. Mas também é muito útil saber o quanto isso é difícil e contraintuitivo.

Ainda nesse departamento.

Esses dias assistimos Yo También, cujo trailer está aqui. É também uma experiência interessante no que diz respeito a entrar um pouco no universo de uma pessoa portadora de deficiência. No caso, a história começa apresentando um rapaz sevillano com síndrome de Down que, aos 34 anos, se forma na universidade e começa a trabalhar.

O que se segue, definitivamente, NÃO é o desenrolar de um dramalhão no estilo “rapaz com dificuldades vence as adversidades, luta contra tudo e contra todos e mostra que quem vai atrás dos seus sonhos pode tudo.” Sim, as questões do preconceito, da inserção social, da família, da sexualidade dos portadores de Down, tudo isso é abordado. Mas se você quer se rasgar com choro fácil, esqueça. Os sentimentos que o filme sucita são bem mais amplos (e às vezes constrangedores) do que a clássica “pena”.

O que torna Yo También especial, na verdade, é justamente a capacidade de encontrar áreas comuns que pessoas portadoras e não portadoras de síndrome de Down compartilham, como amor não correspondido, isolamento e a dificuldade de encontrar o seu lugar no mundo. No fim das contas, quem não porta ou já não portou essas deficiências?

Resumo: o bom de Yo También não é o que nos faz diferentes, mas sim iguais ao protagonista.

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The Quitter, Harvey Pekar

Nos últimos dois anos tenho escrito com frequência sobre quadrinhos de jeitão autobiografico, sejam relatos de viagem, sejam simples fatias do cotidiano servidas individualmente ou em narrativas mais complexas. Esta cepa, cada vez mais rica em opções para quem quer variar um pouco do universo de heróis uniformizados ou de historias fantásticas, não nasceu ontem e nem vem do nada. Na verdade, ela tem uma linhagem clara de autores e, na base deste cânone, um dos pilares leva o nome de Harvey Pekar.

Verdadeiro muso do underground, Pekar ficou conhecido fora do seu círculo natural em 2003* devido à passagem de American Splendor pelo circuito alternativo de cinema. Premiado em Cannes e Sundance, o filme é um primor da metalinguagem, mesclando um pouco de filmagem documental com a escultura narrativa que todos nós fazemos (verbalmente ou mentamente) com a nossa vida. A única diferença é que Harvey transformava o material em (bons) roteiros de quadrinhos.

Boa parte da vida de Pekar poderia ser a vida de qualquer um. Mesmo numa cultura específica, sendo um jovem judeu americano num bairro pobre de Cleveland nos anos 50, a maioria dos dilemas que brotam das páginas dessa excelente Graphic Novel são de fácil identificação. The Quitter (que poderia ser traduzido como “O Desistente”) relata as repetidas e fracassadas tentativas do protagonista de criar um eixo para sua vida em torno dos esportes, da universidade e da carreira profissional. Vez após vez, ele desiste de caminhos relativamente retos quando encontra obstáculos universais (pais distantes, vizinhança inóspita, solidão adolescente, trabalhos tediosos). Atormentado por inseguranças e construindo involuntariamente a crença em sua displicência, Pekar vai se descobrindo bom em uma coisa: desistir das coisas.

Ao menos o que se convenciona de chamar de “coisas” na competitiva sociedade americana. Enquanto ia enfileirando empregos burocráticos, Harvey semeava uma vida paralela à base de boemia cultural leve, reviews não pagos para revistas de jazz e, mais adiante, roteiros inovadores para quadrinhos underground. Contemporâneo e parceiro de Robert Crumb (outro mestre da mesma linhagem), a descoberta da vocação não trouxe fama e fortuna, mas ao menos contradisse a “maldição do desistente”.

Não dá pra desprezar a dor e o drama de Harvey Pekar, mas de certa forma ele enganou a todos nós. Em primeiro lugar, pintou sua imagem como “desistente”, quando no fim das contas se engajou em algo realmente significativo. Em segundo, parecia escrever quadrinhos de não-ficção, mas contar a própria história é sempre um exercício ficcional. Por fim, costumava desprezar revistas de homens em uniformes coloridos combatendo gênios do mal. Mas, ao lutar contra seus demônios e fantasmas, ao encerrar uma graphic novel pedindo aprovação geral e dinheiro para pagar as contas, o que ele faz em “The Quitter” é mostrar um outro significado – talvez mais verdadeiro – para a palavra super-herói.

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Mais algumas notas.

1. De primeira, eu torci o nariz para a arte do Dean Haspiel. Não sou muito fã desse traço estilizado e anguloso. Mas, aos poucos, fui percebendo o MEU olhar superficial e percebendo a profundidade dos quadros, os enquadramentos, a estética e o ritmo que o cara imprime: é coisa finíssima.

2. Antes do lançamento do American Splendor em filme, o Harvey Pekar teve um período curto de celebridade televisiva ao participar de oito programas do David Letterman. Como ele era muito ácido e falou mal da proprietária do canal NBC, acabou cortado do programa, conforme ele mesmo contou ao Douglas Rushkoff. A história aparece nessa série de quadrinhos online da Smith.

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De todos os tamanhos

O vídeo acima é o trabalho mais recente do Kutiman, figura conhecida por mashups de YouTube. Dessa vez, ele juntou dezenas de cenas de pessoas tocando Black Dog do Led Zeppelin em um único clip. É um desses trabalhos simbólicos do nosso tempo. É um tipo de manifestação que já se prepara pra virar clássico: a edição de vídeo virtuosa que revela habilidades forjadas em milhões de garagens e quartos.

Mas não é isso que mais me chamou a atenção. Na verdade, esse vídeo me lembrou uma outra história, que é a ESCALABILIDADE INVERSA DO ROCK.

É assim.

Escalabilidade, em comércio, é a propriedade de uma empresa de ir crescendo organizadamente à medida em que sua produção, suas vendas ou a demanda por seu atendimento também cresça. Em telecomunicações, por exemplo, a escalabilidade de um sistema é a capacidade dele crescer de acordo com a entrada de novos usuários. Uma operadora de celular precisa ter um esquema “escalonável”, que possa ser replicado e aumentado de acordo com a entrada de novos clientes, de preferência sempre com a mesma ou com melhor qualidade.

É mais ou menos isso.

No caso do rock (e do futebol), a escalabilidade acontece de forma inversa. É propriedade do rock que três pessoas em um quarto possam experimentar o gostinho que três pessoas em um estádio sentem quando estão tocando para vinte mil pessoas. Na verdade, a Escalabilidade Inversa do Rock é tão intensa que UMA ÚNICA PESSOA num quarto, em frente ao espelho, com uma guitarra tosca e um amplificador meia boca, pode experimentar a sensação (proporcional) de seus ídolos quando eles estão levando uma turba à loucura.

(Na verdade, como o Air Guitar prova, não é nem preciso guitarra, amplificador ou espelho.)

Pois então. Em se tratando de Escalabilidade Inversa do Rock, numa ponta do espectro, está o Led Zeppelin no Madison Square Garden escrevendo uma parte da história do rock. Na outra, está um garoto qualquer, tocando Black Dog no quarto, fazendo as notas de rodapé.

Daí vem a beleza do vídeo acima. Daí vem a beleza do rock.

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Deprê

Tenho pra mim que toda arte (mesmo a mais maluca, proscrita e depravada) é uma forma de organização da verdadeira bagunça que é a vida.

Alguns artistas se dedicam a avacalhar (no bom sentido…) a média dos signos da sua época/aldeia. E, na avacalhação, acabam criando uma certa ordem visível no que até então era invisível, perturbador, desorganizado. Outros artistas trabalham diretamente com o material mais bruto e desesperador do invisível e o moldam não só para torná-lo visível, mas também palatável.

Acho que esse texto da escritora americana Daphne Merkin numa Piauí de 2009, contando sua saída de um histórico punk de depressão, pertence ao segundo grupo. É um texto bem escrito, redondo, interessante, sobre um assunto desagradável, triste e desesperador.

Me lembrou, de certa forma, o Nick Drake.

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Television em Porto Alegre

Um Beco lotadíssimo, com uma idade média mais alta do que o comum, preparou o clima para que o Television fizesse bonito no segundo dia do Gig Rock. E, diga-se de passagem, os caras pelo jeito fizeram mais bonito do que em São Paulo. Segundo relatos de amigos confiáveis, o show de SP foi morno e sem tesão. Mas, em Porto Alegre, alguma química esquisita da cidade permitiu que a turma de Tom Verlaine vivesse um momentinho especial no sul da América do Sul. Essa foi minha sensação do show: a banda mandou bem, mas o público é que fez a cama para que o quarteto novaiorquino deitasse e rolasse.

Quem foi sabia o que queria ver e ouvir. E todo mundo teve o que pediu. Ou quase tudo. See no Evil foi pedida insistentemente, mas não levamos. Seria bacana, mas diante de Venus, Marquee Moon, Prove it e até Psychotic Reaction (do excelente Count Five) não houve muito do que reclamar. As execuções não foram sempre perfeitas (punk, anyone?), mas na maior parte do tempo as guitarras floreadas de Verlaine e Ripp dialogaram com precisão e poesia. Ah, as guitarras do Television: suas lindas!

No meio do show me caiu uma ficha: como o Wilco rescende a Television desde a entrada de Nels Cline! E essa conexão Wilco-Television é só a pontinha do fio da meada. Um dos grandes trunfos da banda é justamente o emaranhado de referências em que ela se baseou e gerou. Se você começa a puxar uma pontinha, logo novelos de lãs inteiros das cores mais diversas caem na sua cabeça. Sendo que o novelo do Strokes é a base de muitos figurinos em Porto Alegre, fez total sentido que o Television se desse bem por aqui, melhor que em São Paulo ao menos.

Enfim…

Pra terminar.

De tão cheio que estava o Beco, fiquei lá atrás, perto do bar. Fora a primeira música, que consegui assistir clandestinamente no palquinho do operador de som até ser convidado a me retirar, de resto o visual do show pra mim foi só nucas e escápulas.

Mas tudo bem. Television em Porto Alegre. Não vi e adorei.

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O Mundo Percebido

“O mundo não passa do meu próprio corpo afetado pelo mundo.”

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Patti Smith @ Cannes

O vídeo aí de cima é a Patti Smith cantando My Blakean Year depois de dar uma entrevista no seminário da agência Grey no Cannes Lions na sexta passada. Todos os anos a Grey traz um artista pra entrevistar e falar de seu processo criativo, contar histórias, etc. Em 2009 foi o Roger Daltrey, que falou dos anos de ouro do The Who e de como a adoção do jeitinho mod pela banda foi uma jogada de marketing.

Voltando à Patti Smith, o dela foi o único seminário no qual eu larguei de mão meu caderno e minha caneta. Como no vôo até Cannes fui lendo um bom pedaço do Just Kids (o livro de memórias sobre a relação dela com o Robert Mapplethorpe), sentia que não era o caso de ouvir e anotar, mas sim de simplesmente estar por lá e sentir qualé a da moça. E realmente, ela tem uma coisa meio xamânica que não tem como ser “anotada”.

Diferente do que eu pensava, ela entrou no palco toda sorrisos, de tranças. Estava certamente em outra batida, mas não distante nem separada da audiência. Foi extremamente atenciosa, realmente dividiu sua presença com todo mundo no lugar. Essa, eu acho, é a única frase exata que lembro dela dizer: “Sempre senti que não há divisão entre eu e meu público. Eu dou alguma coisa e ele me devolve algo”. Ou seja, o sentido mais profundo da palavra comunicação foi ensinado ali, com uma simples presença, sem qualquer outro recurso.

A não ser quando ela pegou o Just Kids pra ler uma carta que escreveu enquanto Mapplethorpe estava morrendo, um texto lindo que ganhou vida MESMO com um dos recursos mais poderosos da Patti Smith: a voz. Durante a leitura, ninguém comentava, ninguém falava nada. E olha que manter um auditório cheio de publicitários quietos não é pra qualquer um.

A leitura foi tão bonita que eu nem me dei ao trabalho de ligar a câmera, o que fiz só quando ela pegou o violão e tacou-lhe My Blakean Year. Antes disso, não parecia fazer sentido gravar…

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Ginsberg

Assim como comentei sobre Gay Talese, não sou leitor da obra do Allen Ginsberg. Tenho lá em casa dois volumes de poesia das antigas edições da L&PM (Uivo e A Queda da América), ambos fruto dos apetitosos balaios da Feira do Livro do final da década de 80. Mas eles foram apenas semi-lidos, ou lidos mais no folhear descompromissado. O que realmente li, com gosto, nessa mesma época, foi o Cartas do Yage, a desbocada e interessantíssima troca de missivas entre Ginsberg e William Burroughs contando das experiências deste último com ayahuasca e garotos latinos na Amazônia colombiana e peruana.

De forma que: não sou exatamente um especialista. Não tenho muito contexto literário para oferecer ao comentar I Celebrate Myself, o obeso compêndio do arquivista e bibliógrafo particular de Ginsberg, Bill Morgan, que acabei de ler. Mas posso – e quero – dividir impressões bem particulares sobre o empreendimento de passar 700 páginas acompanhado as anotações e lembranças pessoais do homem que deu liga à geração beat.

Na verdade, o grande barato de qualquer biografia do Ginsberg (e há várias por aí) é que a história dele se mistura com uma série de conceitos recentes da história americana – e, claro, mundial. A saber: o surgimento e consolidação da contracultura, o nascer da juventude como segmento social (e comercial…), a luta pelos direitos civis, o encontro da cultura oriental com a ocidental e, finalmente, a idéia do indivíduo como um ser cosmopolita, em permanente trânsito físico e conceitual.

Para usar um termo bem contemporâneo, dá pra dizer que Ginsberg era o “conector” descrito no Tipping Point do Malcom Gladwell: o sujeito realmente móvel, que tem como superpoder a capacidade de viajar por diferentes estratos da sociedade e assim ir polinizando pensamentos avançados, que ainda não contam não com as condições ideais de se estabelecerem no comportamento médio. Essa ausência de CNTP para a disseminação de causas nunca foi problema para ele. Em cicunstâncias adversas, sua melhor ferramenta era simplesmente atravessar – cantando mantras, destilando poesia inovadora e tocando pratinhos hare krishna – fronteiras políticas, culturais e sociais.

Peter Orlosvky e Ginsberg: amigos, amantes, co-dependentes até o fim.

Ainda assim, para quem tem – ou tinha, como eu – a idéia de um homem cônscio do seu lugar no mundo, certo de suas convicções e livre de quaisquer amarras, o livro é surpreendente. Das suas notas particulares, organizadas ano a ano por Morgan, brota uma pessoa cronicamente insegura e egocêntrica, muitas vezes atormentada a um nível que chega a provocar compaixão. Allen, com o perdão do trocadilho, passou metade da vida sentindo-se um alien e a outra metade tentando convencer o mundo – e a si mesmo – que talvez essa seja a condição humana. Um bando de aliens convivendo no mesmo planeta – que bela imagem.

A batalha por liberdade foi sempre em mão dupla. O vetor que emanava para fora de sua personalidade apontava para políticos, governantes, leis, regras sociais, figuras conservadoras.O vetor que apontava para dentro revolvia suas próprias barreiras internas e seus intermináveis dilemas, que o acompanharam até a morte. É curioso, além de instrutivo, que um dos grandes porta-vozes da liberdade tenha sido, durante toda sua existência, refém da vaidade, do sexo, da carência afetiva, enfim, da necessidade de afirmação que todo ser humano carrega consigo em alguma medida.

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Turminha que se meteu em tremendas confusões em Tangier, Africa, 1961: Peter Orlovsky, Burroughs, Ginsberg, Corso, Paul Bowles e outros serelepes.

Essa conturbada bagagem psíquica serviu também de combustível para realizar não só sua potencialidade criativa, mas também a dos amigos ou daqueles que ele considerava dignos de reconhecimento. Com frequência, Ginsberg abdicou de dinheiro, energia e tempo próprios pra financiar outros poetas e escritores que orbitavam em seu entorno. “Na verdade, todo o fenômeno da Geração Beat poderia ser visto como um grupo de escritores que tinham pouco em comum estilisticamente mas que eram unidos pela amizade com Allen Ginsberg.” diz o autor da biografia. Foi assim até o fim de uma vida marcada pela falta de recursos financeiros, geralmente consequência de inúmeros investimentos em subvenções culturais, aluguéis, drogas, comida e até mesmo propriedades imobiliárias utilizadas por artistas dos mais diversos calibres. Muitos foram os que viveram, mesmo que por um pequeno período, sustentados por Ginsberg.

Ao fim da longa leitura, fica clara a complexidade da história e da personalidade de uma das mais marcantes figuras do século XX. Ginsberg foi um humanista, mas tinha tendências misóginas. Foi ativista social de tons individualistas e dono de uma espiritualidade que andava de mãos dadas com o hedonismo. Abraçou as contradições do regime cubano e do governo sandinista na Nicarágua enquanto combatia o conservadorismo americano. Enfim, ele personificou com maestria todas as incoerências da sociedade do século passado.


Snyder & Ginsberg & 1 flecha vermelha (o antigo TAG) apontando pra alguém que não conheço

A melhor forma de passar a régua na história de Allen Ginsberg talvez seja um pensamento do companheiro Gary Snyder quando viajaram juntos pela India em 1962. Segundo Bill Morgan, “Gary foi esperto o suficiente pra perceber que o mais importante na India era o fato de que mesmo os falsos homens sagrados eram, de fato, sagrados, e havia algo a aprender de cada um deles.”

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Corrida-dô

Do Que Estou Falo Quando Eu Falo de Corrida é aquela coletânea de elegantes ensaios em que o escritor japonês Haruki Murakami divaga sobre os meandros do hábito que mantém há mais de 25 anos: correr. O livro tem diversos predicados, mas talvez o mais impressionante seja criar um nexo popularmente acessível para a associação entre exercícios físicos e tarefas intelectuais.

A surpresa começa assim: em pleno 2011, quando se discute largamente preconceitos de raça, vontades sexuais e opção religiosa, o clichê do escritor de vida insalubre reina sólido entre nós. Não sou eu que digo, é o próprio autor num dos ensaios, corroborado pelo fato do livro surgir como exceção, como objeto de curiosidade. Que autoridade tem um romancista para escrever sobre corrida?

Murakami dá suas credenciais: além de correr quase que diariamente, ele costuma participar de uma maratona por ano e ainda inclui alguns triatlos no currículo. Não é, certamente, daquele pelotão de elite e nem quer ser. Embora não despreze os companheiros de esporte nem os eventos de que participa, não é tanto a corrida que o interessa e sim o caminho. Típico de um japonês.

Aprendi com uma shiatsuterapeuta e monja zen que caminho em japonês é DÔ. Daí os termos Judô (caminho suave) e Aikidô (caminho da harmonização da energia), por exemplo. Vem da cultura oriental, acho, a noção de que toda e qualquer atividade pode ser tomada como “caminho”, como um meio de autoconhecimento, de consciência e domínio das sua própria capacidade. Desde tomar chá até jogar flechas em um alvo (e fica aqui a recomendação do excelente A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen), tudo pode ser utilizado como método de investigação da própria mente e da realidade que ela tricota. É aquela história: um caminho que tem por objetivo ser percorrido mais do que levar a algum lugar.

Mas o livro vai bem além da filosofia barata que estou engendrando aqui. Ele é, na verdade, o relato sóbrio e racional de um homem experiente que já escreveu mais de 12 romances (fora os contos, ensaios e traduções) e correu perto de 30 maratonas, uma lista de feitos que o colocaram tempo suficiente em contato consigo mesmo para conhecer seus limites e suas potencialidades, bem como reentrâncias da consciência que a maior parte de nós não costuma visitar.

É aqui que reside o argumento que abre o post: pouco se vê escrito por aí, ainda mais composto de forma tão poética, sobre a sutil conexão entre mente e corpo. O segredo da Murakami é o seguinte: estamos lendo sobre uma experiência de primeira mão cujo resultado é a investigação. A corrida é parte do seu processo de trabalho, uma forma, segundo ele, de lidar com as toxinas da mente que um romancista acessa quando se vale da introspecção profunda como ferramenta de mineração.

Esse, a meu ver, é o aspecto mais bonito do livro. Embora ele fale de mente e fale de corpo, à medida em que avançamos na leitura vai ficando mais difícil dissociar um do outro – assim como a linha de chegada se mescla ao percurso de quem transforma tudo em caminho.

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No preguiça

VIDEOGIOCO by Donato Sansone from Enrico Ascoli – Sound Design on Vimeo.

Já que falei de preguiça no post ante-anterior, vai aqui um vídeo de alguém com muita disposição…

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Malditos Cartunistas

Vamos tirar o óbvio da frente 1: Malditos Cartunistas supre uma lacuna histórica ao documentar, de forma direta, com uma simples e bem sacada edição de entrevistas, um pedaço fundamental porém pouco valorizado na cultura brasileira. É uma hora e meia de papo pra câmera que poderia ser duas ou três horas, em parte porque os entrevistados (cartunistas, desenhistas, quadrinistas, editores ) são todos figuraças, em parte porque existe uma demanda reprimida por reflexão e referências nessa área.

Vamos tirar o óbvio da frente 2: Não estamos falando de gente que simplesmente desenha, mas de uma categoria que ajuda a moldar a forma como o país se diverte, se pensa e se enxerga. Quando não é pelas invisíveis cordas das publicações underground, que colocam os malditos cartunistas na posição de influenciadores indiretos da cultura (como a finada revista Animal que pautou editores, diretores de arte, designers, escritores, jornalistas durante sua vida), temos a atuação direta no mainstrem, como Angeli e suas 100 mil edições de Chiclete com Banana vendidas em banca, o pequeno império de Mauricio de Sousa, as tiras diárias de Caco Galhardo, Ota, Arnaldo Branco e outros espalhados por jornais brasileiros, o Reinaldo com o Casseta e Planeta na Globo (por sua vez filhotes do Pasquim de Jaguar e Ziraldo) e, claro, não podemos esquecer, da época em que o Laerte e o Adão Iturrusgarai faziam parte da equipe de roteiristas do TV Colosso. Os malditos cartunistas, na verdade, não são tão malditos assim.

Agora, além desses pontos óbvios, há um mérito extra no Malditos Cartunistas, que é juntar essa turma para que possamos ouvi-los e vê-los em sequência, comparando sua fala, sua atitude e, talvez o mais bacana, o seu visual. Sim, pode parecer futilidade, mas dentro todas as coisas bacanas do filme, o que eu mais gostei foi poder enxergar a cara, as roupas e principalmente o CENÁRIO DE FUNDO das entrevistas: a nesga da cozinha do Ota com o lixo transbordando, a pilha de livros do Angeli, a prancheta do Adão Iturrugarai, a janela de apartamento de classe média portoalegrense da Chiquinha (veja os comentários), o escritório do Ziraldo e por aí vai.

Quando você tiver a oportunidade de assistir Malditos Cartunistas (fique ligado nos festivais de cinema e nas internétes), não deixe, então, de prestar atenção nos cenários. Esse tipo de informação nem sempre entra pelo nosso canal mais racional de compreensão, mas vai ajudando a sedimentar inconscientemente uma cultura visual mais própria do brasileiro. Que aqui não é exclusividade dos entrevistados: o formato do documentário, bem punk, à base de edição de conversas com a câmera, dá o tom perfeito para contar um pedaço importante da nossa história.

O Brasil estava se devendo um trabalho como este.

BRAZIU-ZIU-ZIU-ZIUUUU…

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Update: o Fabio postou nos comentários o link de um Documento Especial (o Globo Repórter punk) sobre os quadrinhos brasileiros nos anos 80. Ainda não tive tempo de ver (talvez eu tenha visto na época!) mas de qualquer forma, puxo aqui pro post o link.

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Calças Cáqui

Por acaso, continuo escrevendo sobre roupas. O assunto está me perseguindo. Ou eu a ele, certamente. Freud explica. Ou Jung. Ou Lacan. Ou Perls. Ou eu.

Enfim.

Neste fim de semana, entrei na reta final da biografia do Allen Ginsberg – cuja leitura vem se estendendo desde outubro passado – e me deparei com mais uma passagem que merece uma escrevinhadinha aqui.

O trecho conta um episódio de 1994 quando a Gap, clássico magazine da classe média americana, botou na rua uma campanha com nomes proeminentes da cultura e da contracultura que haviam… usado calças cáqui. As chamadas “khakis” são um dos ícones mais perenes da história da moda, tendo origem na vestimenta militar e chegando ao uso civil como parte do uniforme “business casual”.

Segundo o blog Listology…

“Arthur Miller wore kakhis.
Kerouac wore khakis.
Andy Warhol wore khakis.
James Dean wore khakis.
Isamu Noguchi wore khakis.
Miles Davis wore khakis.
Howlin’ Wolf wore khakis.
Marlene Dietrich wore khakis.
Amelia Earhart wore khakis.
Allen Ginsberg wore khakis.
Pablo Picasso wore khakis.
Marilyn Monroe wore khakis.
Jean Cocteau wore khakis.
Chet Baker wore khakis.
Hemingway wore khakis.
Steve McQueen wore khakis.
Frank Lloyd Wright wore khakis.
Zsa Zsa wore khakis.”

A idéia da Gap com a campanha não é difícil de decodificar: apimentar um pouco o status das calças cáqui, que haviam se transformado (e ainda são, de certa forma) em sinônimo de caretice e yuppismo. No voraz mercado consumidor americano, forjado à base de consumo como forma de rebeldia, não tinha como dar errado. Deve ter vendido horrores.

Mas, ao mesmo tempo, claro que um monte de gente caiu matando em cima do Allen Ginsberg. Como um dos pais da contracultura aceitou 20 mil dólares pra pousar pra anúncios da Gap? É mais ou menos como se o Lourenço Mutarelli daqui a pouco aparecesse num comercial da Renner.

Mas no livro do Bill Morgan, esse que tô lendo, conta-se que a motivação do velho beat era nobre: o dinheiro seria – e foi – todo doado à Escola Jack Kerouac para Poetas Desencarnados, parte da universidade budista de Naropa no Colorado. Não adiantou muito. Mesmo com a doação integral do cachê citada no anúncio, Ginsberg foi alvo de uma onda de críticas por “ter se vendido”. Qualquer defesa diante de turbas contraculturais enfurecidas é sempre inútil e o poeta se limitou a lamentar (e talvez aproveitar o fuzuê, pois era conhecido tanto por sua generosidade quanto por seu ego tamanho família). O curioso é que Ginsberg sempre viveu de forma materialmente muito mais simples do que nomes como o amigo Bob Dylan ou Mick Jagger, também ícones da contracultura mas que raramente foram criticados por seus luxos.

Coisas do mundo pop, que obedece a uma lógica, mas não necessariamente serve a algum tipo de justiça. Ou seria o contrário?

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Nos anos 90, a Levi’s também fez anúncio usando trechos de livros (e grandes fotos) de Kerouac, Ken Kesey e Hunter Thompson onde eles citavam a marca no meio da história. Não achei numa busca rápida do Google Images, mas lembro claramente de ver isso em algum anuário de publicidade. Se eu achar um dia desses, escaneio as peças.

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O Crushable fez uma brincadeira – não tão brincadeira – com a primeira imagem do On The Road do Walter Salles Jr. De fato, como coloca o blog, é uma foto que se presta perfeitamente para anúncios.

A foto original:

Versão Levi’s:

Versão Converse:

Mais uma prova da bagunça que se tornou a iconografia contemporânea. Ninguém é mais de ninguém – e isso, ainda que assustador, tem aí um componente de liberdade.

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Entrevistas

“Ele tratava entrevistas como um forma de arte para transmitir conhecimento de uma geração a outra, como fazem os roshis japoneses. De fato, a habilidade de conversação de Ginsberg, além de seu talento literário, talvez fosse sua mais marcante qualidade. (I Celebrate Myself – The Life and Times of Allen Ginsberg)

No post sobre a questão do George R.R. Martin, comentei sobre a tendência da comunicação dos artistas com seu público se tornarem obras em si. Claro, não é algo recente e nem exclusivo da cultura digital, como mostra a citação acima. A persona dos artistas, em muitos casos, sempre foi também um trabalho de criação, às vezes narrativa, às vezes verbal, às vezes visual, às vezes uma criação por ausência de sinais (no caso de reclusos como Salinger e Rubem Fonseca). O que acontece, atualmente, é que se intensifica a instantaneidade dessa criação, prescidindo muitas vezes da mediação da imprensa estabelecida, que geralmente impõe um atraso nessa comunicação.

Mais uma vez, isso tudo me lembra o Twitter do Emicida, que manteve-se em constante tuitagem durante sua viagem pelos Estados Unidos de uma forma tão espontânea (ou aparentemente espontânea). De alguma forma, o fluxo de twitts guarda parentesco próximo com suas rimas, cada um no seu meio, claro. Próximo passo: batalha de MC’s no Twitter. Acho que já andou rolando informalmente, mas alguém já ouviu falar de uma organizada? Talvez sim, não frequento com frequencia a tuitosfera rappeira.

Como diz não me lembro quem: que tempo para viver, senhores!

PS1: É com imenso prazer que coloco George R.R. Martin, Emicida e Allen Ginsberg no mesmo texto!
PS 2: Tá com tempo? Interessado? Complemente sua leitura com , um texto sobre batalha Emicida x Cabal do mestrando em antropologia social Ricardo Indig Teperman – que o Matias postou na íntegra no Sujo.

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Jeffrey Brown

Numa rápida folheada, o que mais chama a atenção em um livro do Jeffrey Brown são aspectos que provavelmente vão afastar a maior parte das pessoas. Afinal, estamos falando de 1) quadrinhos 2) autobiográficos 3) desenhados toscamente, uma combinação que não fica em pé na sua estante ou na sua memória a menos que 1) o cara seja muito bom contador de histórias e 2) os desenhos toscos sejam mera fachada.

Esse é o golpe ao contrário de Jeffrey Brown que, de fato, me enganou direitinho. Não fosse minha mulher, que nem é fã de quadrinhos mas que teve a sensibilidade de comprar dois livretos dele, eu não teria ultrapassado esse esquisito pedágio estético e não teria tido 3 das leituras mais bacanas dos últimos tempos.

Vamos começar por Clumsy, primeiro livro publicado por Brown e também o primeiro que eu li dele. Curiosamente, também é o tipo de livro do qual eu fujo: cansei de quadrinhos sobre caras desajeitados (uma das traduções pra clumsy) e suas desventuras sentimentais. Mas, por algum motivo, Clumsy me prendeu do início ao fim e nem tanto porque eu queria saber o fim da história (o rompimento da relação de Brown com uma namorada à distância, anunciado logo de cara) nem tampouco porque eu precisasse ir até o fim para terminar a narrativa (Clumsy é uma coleção de pequenas cenas cotidianas).

O grande atrativo do Clumsy (e, na verdade, também dos outros dois livros dele que eu li) é a sensibilidade de Brown pra escolher a dedo que momentos da vida privada rendem uma cena interessante. Em uma época em que o escangalhamento da privacidade é regra, se torna ainda mais difícil criar narrativas a partir de momentos privados, já que muita gente passou a acreditar que todo momento privado fosse naturalmente uma narrativa. É aí que entra o treinamento exaustivo a que o autor se submeteu.

Em Funny Misshapen Body, Brown deixa de focar apenas sua vida sentimental pra nos entregar fartas e bem servidas sequências de sua formação. Lá descobrimos que ele se alimentou durante anos de uma dieta consistente de quadrinhos, começando com os super heróis mas passando, mais adiante, para a seara das graphic novels independentes. Nomes como Chris Ware e Daniel Clowes são frequentemente citados e, no caso de Ware, ele mesmo é personagem de algumas historietas deste volume: o respeitado autor de Jimmy Corrigan é quem dá o primeiro empurrão na carreira de quadrinista de Brown, orientando o rapaz a investir na autopublicação de Clumsy depois de repetidas rejeições editoriais.

Isso é bacana: após acompanharmos o autor em momentos de sua infância, da vida na escola, da escolha pela educação formal em arte (tô dizendo que esses desenhos toscos são só pra nos enganar…), pelos seus clássicos subempregos de Geração X e até por alguns relacionamentos, o livro termina com a história da concepção e publicação de Clumsy, o primeiro livro. Algum ciclo certamente se fecha aí.

O título Funny Misshapen Body é inspirado em grande parte na doença crônica de intestinos que acompanha Brown num bom pedaço da sua vida até então. Essa passagem é ao mesmo tempo exercício e prova do talento do cartunista: transformar um episódio médico de intestinos em algo a ser acompanhado exige mais do que meia dúzia de câmeras escondidas e uma audiência adestrada no mundo dos reality shows. É preciso, de fato, ter o olhar detalhista que revela (ou induz) as nuances escondidas no cotidiano mais intragável. Não estamos falando de um mero relato, mas quase de um trabalho de escultura, de retirar os excessos e deixar o essencial, tanto em termos verbais quanto visuais.

Little Things pende mais para Body do que para Clumsy. Continuam, aqui e ali, as aventuras sentimentais, mas está mais para uma coleção de fatias (como diz o subtítulo) da vida cotidiana. Apesar de ser mais do mesmo, é um pouco como Ramones: se você curte o jeito como ele resolve as coisas no papel (que não deixa de ser meio Ramones, à base do 1-2-3-4), não é enjoativo.

A história que fecha Little Things, assim como em Body, também é simbólica. Deixando pra trás os rolos de relacionamento, as doenças crônicas, as viagens de acampamento e a vida de gerente de loja de CD pra dar as primeiras pinceladas da paternidade. De novo, o tema de concepção fecha um volume do autor. Não sei dizer se esse padrão se repete no resto da obra, mas assim que eu for voltando aos livros de Brown, o que pretendo fazer aos poucos, vou contando pra vocês.

Deixo aqui, então, mais essa indicação dessa tecla que tenho insistido em bater: quadrinhos de não-ficção. Em temos de investigação endêmica da vida alheia, como já disse, por meio de reality shows e redes sociais, é bacana ver uma abordagem que se insere nesse traço forte da cultura contemporânea conseguindo fugir da vulgaridade. Ou seja, não precisamos negar nossa inserção no zetgeist, no espírito do tempo, e nem precisamos chafurdar na superficialidade.

***

Algumas notas finais.

A produção de Brown é relativamente grande. Não deixe de dar uma olhada na página dedicada a ele na Amazon ou, se preferir, compre direto nas editoras. O site do autor tem os links.

Ele inclusive já publicou material de ficção e humor, fora do escopo das próprias memórias. Mas esses, confesso, ainda não conheço.

***

Cheguei no trabalho do Jeffrey Brown de um jeito muito bacana e meio do avesso. Em outubro, eu e minha mulher estávamos em Montreal (ainda sai um post sobre a cidade) quando encontramos por acaso (juro) a loja da Drawn & Quaterly, uma das mais importantes editoras de quadrinhos independentes do mundo, uma espécie de Fantagraphics menorzinha e canadense. Lamentavelmente, me esqueci de tirar uma foto na frente da loja.

Bem, na primeira esbarrada com a D&Q, fizemos uma visita rápida pois nossa caminhada tinha outros objetivos e também tinha tanta coisa pra comprar que fiquei meio tonto e não gosto de comprar nada logo de cara. Alguns dias depois, voltamos lá dedicados a explorar a loja de fato e saímos com duas sacolas de material muito bom. Foi lá que comprei, por exemplo, o French Milk e o New Orleans After the Deluge, já comentados aqui.

Minha mulher, que não é tão fã de quadrinhos, também fez seu pequeno rancho e levou dois pequenos livros do Jeffrey Brown, além de um outro álbum bacana que ainda não li e que certamente será comentado aqui em breve. Devo a ela a descoberta. É como se eu, inapto para o mundo gourmet, tivesse apresentado um bom restaurante a ela, que domina os prazeres da mesa.

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Se você também curte quadrinhos, explore a categoria LIVROS do blog. Eu não faço distinção entre livros “escritos” e livros “desenhados”. Pra mim é tudo LIVROS.

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Cisne Negro

Muito já foi, muito está sendo e muito será dito sobre este filme. Portanto, serei breve. É preciso ter visto o filme pra que meus comentários façam sentido. Logo, contém spoilers.

1.  Me chamou a atenção o quanto o Darron Aronofsky foi comedido e segurou bem a onda de não enfiar o pé no dramalhão. Cisne Negro, daqui a alguns anos, vai cair bem no Tela Quente ou no Supercine. Ou seja, é pop mas se exime, por exemplo, de flashbacks lacrimosos sobre a história da mãe da Natalie Portman ou então explorar à exaustão a tensão entre ela e o macho-alfa Vicent Cassel, ou entre ela e a Mila Kunis.

2. O lado mais mágico do filme também não faz muito alarde. A suposta transformação física da bailarina humana em um animal é tocada de leve, aqui e ali. Mais uma vez, Aronofsky poderia ter metido o pé com cenas bizarras e chocantes de Natalie se tornando de fato o cisne negro. Mas o cara manteve a compostura e limitou-se a pinceladas do bizarro.

3. Cisne Negro é o In Utero do Aronofsky.

4. No fundo, Cisne Negro é mais um dessa linhagem recente de filmes de Hollywood que se passa em grande parte dentro da mente de protagonistas, como A Origem ou Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança. Aliás, a meu ver, esse é justamente o seu mérito: é uma excelente história no sentido de mostrar a capacidade humana pra causar confusão dentro da sua própria mente e achar que ela está acontecendo fora.

Como diria John Lennon, mind games…

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