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Criatividade em Trens

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Recortes no Metrô é um projeto do Pablito Aguiar, desenhista e estudante de Comunicação Digital na Unisinos, aqui no sul. O projeto do Pablito começou simplesmente pra ele ocupar a viagem de metrô diária que ele faz de Porto Alegre à faculdade todos os dias (e que vem depois de uma perna de ônibus de Alvorada a Porto Alegre). São retratos à mão de passageiros que ele não conhece aplicados sobre fotos do metrô. Não preciso discorrer muito sobre o trabalho. O resultado, que consegue jogar um olhar humano sobre um dos processos urbanos mais conturbados hoje, a mobilidade, fala por si. O Pablito trata os passageiros como eles deveriam ser tratados por empresas e governantes.

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Conheci o Pablito quando fui participar de um programa da TV Unisinos chamado ComdigShare. Os episódios dessa série de talk shows, criada e produzida junto com os alunos da Comunicação Digital, vai ao ar no segundo semestre. Eu até ganhei um desenho do Pablito, que é tipo o Paulo Caruso do ComdigShare:

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Uma nota adjacente: a ideia do Pablito me lembrou do projeto da companhia de trens americana Amtrak, que ofereceu residência a 24 escritores em seus trens de longa distância. O projeto nasceu a partir de uma provocação do escritor Alexander Chee numa entrevista de rádio, que disse que seu lugar preferido para trabalhar eram os trens da Amtrak. A escritora Jessica Gross fez eco no Twitter, outros escritores se incluíram no coro e a Amtrak resolveu criar de fato essa residência. Parte da história está aqui num relato de Jessica.

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Outra nota: os desenhos do Pablito me lembraram essa ilustração do Adrian Tomine pra uma capa da New Yorker. Já falei do livro do Tomine sobre Nova Iorque nesse post.

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R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

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Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

Pampa Drawings & New York Drawings

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Nas últimas semanas, me debrucei sobre dois livros de ilustração tão bons quanto diferentes, dois universos opostos mas que convivem e se completam na minha cultura particular. Acredito que muitas outras pessoas tem essa combinação em sua formação: um pouco de metrópole, um pouco de campo (ou de praia ou de cidadezinha do interior). Primeiro vamos falar do campo, retratado no excelente Pago pra Ver, de um grande mestre nacional.

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Se a essência de um desenho é a capacidade de observação (interna ou externa), sem dúvida Renato Canini é um Thundercat com visão além do alcance. Caso você não ligue o nome à pessoa: Renato Canini foi o responsável pela fase brasileira-chanchada-urbano-tropical-desbunde do Zé Carioca, aquela série de histórias que antecipou em duas décadas toda a onda de valorização da estética brasileira que se seguiu a Cidade de Deus. Entre tantas outras coisas.

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Em Pago Pra Ver, Canini se voltou pro universo visual e afetivo do pampa gaúcho (“os pagos”, como se diz também) com suas duas principais características: o traço rasgado e o humor sutil, injetado a partir do traço. Como em todos os seus trabalhos, o poder de observação do Canini cobre tanto o que é visível (formas, paisagens, objetos) quanto o que não se vê (a cultura e seus comentários). Frequentemente, ele torna o invisível visível e esconde no clima do desenho o que geralmente a gente procura com os olhos.

 

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Como fazem poucos grandes artistas, o Canini consegue equilibrar observação, homenagem e crítica social. Na verdade ele mistura esses três elementos e você nunca sabe muito bem quando ele está simplesmente fotografando, homenageando ou tirando uma onda. Coisa de mestre mesmo, ainda mais levando-se em consideração o tradicionalismo gaúcho, sempre pronto pra puxar uma faca e discutir possíveis “faltas de respeito”.

Um detalhe importante: Pago Pra Ver saiu meio batalhado. Pelo que sei, foi difícil alguma editora se interessar pela obra. Quem acabou bancando a edição foi o Instituto Estadual do Livro, ligado à Secretaria de Cultura do Estado do RS. Pontíssimo pro IEL.

Se você quer dar uma olhada nos desenhos, vai no blog da associação gaúcha de cartunistas, a Grafar, que publicou uma série deles com o objetivo de incentivar o interesse pelo trabalho.

 

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Agora vamos de New York Drawings, do quadrinista e ilustrador americano Adrian Tomine. Eu já conhecia o trabalho de Tomine nos quadrinhos – e confesso que não sou grande fã. Mas quando vi que as ilustrações dele relativas ao universo de Nova Iorque (muitas das quais saíram na revista The New Yorker) foram reunidas em livro, não tive dúvidas pra comprar – meus bodes com Tomine como autor não se sustentam com seu ótimo lado desenhista. O motivo fica bem claro em New York Drawings.

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Mais do que uma simples coletânea, o livro serve de tributo de um observador à atividade de observação. A gente nota isso porque os desenhos mais bacanas são justamente os que parecem recortados de uma cena maior, que sugerem mais o cantinho de uma fotografia do que o centro.

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Claro que há muitos outros desenhos, vinhetas e retratos que ilustram matérias das mais diversas naturezas e ângulos. Mas os que escolhi pra ilustrar esse post e os que considero que se destacam no livro tem essa qualidade colateral, de fazer foco no que geralmente não é foco.

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Pampa e Nova Iorque, Tomine & Canini. Isso dá dupla sertaneja, dá um disco de vanguarda ou dá um poema, hein… no mínimo, uma letra do Engenheiros do Hawaii.

“A tentação de ser útil é forte demais”

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Em entrevista para o informativo Gentle Voice, o professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche (roteirista e diretor e A Copa e Viajantes e Mágicos) dá sua perspectiva sobre o papel do artista no mundo contemporâneo. Entre os conceitos defendidos por ele está a noção do artista como um fazedor de coisas inúteis, como o criador de harmonia, além da ideia de que seria bom ter mais artistas-políticos.

Papo completo, em inglês, aqui.

Sobre passar mais tempo

Não sei quanto a vocês, mas quando o assunto é cultura, nos últimos anos eu venho me portando como um solteirão festeiro. Meus dias tem sido repletos de rapidinhas de quinze minutos, de namoros furtivos em lugares públicos, de envolvimento superficial pelo celular, enfim, de uma infidelidade crônica que por um lado tem me enriquecido mas por outro tem me prescindido das benesses da intimidade. Eu poderia, de forma canalha, dizer que a culpa são dos tempos, do zeitgeist, das demandas profissionais. E apesar de, sim, haver sérias circunstâncias atenuantes, a verdade é que às vezes sinto que me desacostumei a lidar com conteúdos que precisem de períodos mais longos (ou mais profundos) de atenção, contínua ou não.

Se eu não tomo cuidado, não tem jeito: acabo sendo arrastado pelas demandas cotidianas de uma agenda habitualmente preenchida com fatias finas de conteúdo para absorver, digerir e produzir. E assim como um solteiro convicto enfrenta dificuldades de convivência ao casar, também tenho estranhado quando me vejo envolvido com um livro, um filme ou um artista por um tempo maior do que o habitual. Mas não serei dramático ou catastrófico como a maior parte das reportagens sobre isso, pois sei que nem tudo está perdido. Algumas oportunidades tem me proporcionado o prazer da convivência extensa, da descoberta paulatina, do longo noivado que precede alguns casamentos culturais de sucesso.

Um bom exemplo é a Fundação Iberê Camargo, aqui em Porto Alegre. Instalado em um prédio projetado pelo português Álvaro Siza, o museu da Fundação tem revestido suas entranhas com fortes exposições temporárias de artistas como De Chirico, Mira Schendel e Joaquim Torres-Garcia. Mas a grande atração, levando-se em consideração o assunto que estamos tratando, é o terceiro andar do museu, dedicado permanentemente à obra do próprio Iberê Camargo. Pra quem mora na cidade, é a primeira vez que se tem a oportunidade de passar vários anos visitando e revisitando o acervo de um artista com facilidade e regularidade, conhecendo seus óleos, suas gravuras e seus desenhos aos poucos, com uma constância que o contato com os artistas das temporárias naturalmente não permite. O acervo, mesmo com uma certa rotatividade, está sempre lá e pode-se explorar o trabalho do artista numa velocidade mais parecida com a que ele produziu.

Conteúdos expostos de forma mais extensa, sejam as fases de um artista, um longo romance ou um filme de duração não-holywoodiana, tem então esse predicado: eles nos convidam a compartilhar o tempo da criação. E uma coisa fica clara: esse tempo quase nunca é o tempo dos mercados e dos calendários. Convertido em contemplação, livre do ritmo frenético da hipermodernidade, o tempo da criação cumpre com sua finalidade mais elevada, que talvez seja a difícil e nobre tarefa de arrancar o público do andar ordinário dos dias.

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Coluna publicada na revista Soma número 27.
Desenho em download de linha telefônica: Guilherme Dable

Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

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Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.

La Editorial Comun

Uma descoberta recente de minha parte –> a editora do Liniers anda lançando coisas bem bacanas além das coisas bacanas dele. Aí em cima estão três exemplos que conheço. De baixo pra cima, vemos: 1) a versão argentina de Umbigo sem Fundo (cuja edição brasileira resenhei aqui) 2) o Liniers em carne e osso mostrando no scanner o Vírus Tropical da equatoriana/colombiana Power Paola (resenha assim que eu tiver tempo!) e 3) uma aventura meio urbana meio fantástica do argentino Federico Pazos que está na fila de leitura aguardando também o bom e velho TEMPINHO LIVRE (hahahaha).

Aguardem sentados.

Diferentes iguais

Não sei quanto a vocês, mas de minha parte não adianta: é difícil entender a extensão da encrenca dos outros a menos que eu esteja na mesma situação. Não que me falte capacidade de abstração ou criatividade para imaginar os cenários. Mas é que o poder da experiência direta, sem dúvida, continua sendo o professor mais eficiente.

Escrevo sobre isso porque há algumas semanas estive em Buenos Aires e minha mulher me proporcionou viver um desses momentos em que você, queira ou não, se coloca no lugar do outro. Ganhei de presente uma visita à… exposição? Instalação? Experiência?… enfim, ao Dialogos en La Escuridad, um… passeio? Caminho?… onde você passa pouco mais de sessenta minutos experimentando como é ser cego.

Funciona da seguinte forma: você chega, paga o ingresso, ganha uma bengala e se junta a um pequeno grupo de visitantes. É instruído a deixar mochilas e óculos num armariozinho e entra por um corredor absolutamente – ABSOLUTAMENTE – escuro. Mesmo. Não dá pra enxergar NADA. ZERO. BREU. E assim vai ser pela próxima hora.

Lá dentro, uma voz se identifica como seu guia. É um cego, um especialista em um contexto no qual somos todos, de repente, novatos. Isso já faz parte do aprendizado involuntário: de uma hora pra outra, o grupo passa a DEPENDER de alguém que costuma olhar como portador de uma deficiência em vez de portador de habilidades. Ao londo do trajeto, precisamos intensamente da orientação do nosso guia para nos locomovermos, nos entendermos, nos encontrarmos, darmos alguns passos que sejam. O guia, por outro lado, é justamente isso: um guia. Como ele não pode levar cada um pela mão – embora o faça em situações de maior dificuldade, procura orientar, acalmar e incentivar a exploração dos ambientes usando os sentidos que nos sobram.

São quatro situações pelas quais passamos: um bosque, uma rua movimentada, um barco e um bar. Em todos precisamos nos localizar, nos movimentar e tentar aproveitar. No bosque, o desfrute é mais simples. O som, os cheiros e o entorno é agradável. Somos convidados a cheirar, tocar, ouvir e sentir. Na cidade, o bicho pega com buzinas, carros e o onipresente ruído da construção civil. Nesse momento, todo meu entusiasmo com anos de leitura de Demolidor (o herói cego da Marvel que me fez pensar que eu sabia como fazer isso tudo) foram por água abaixo. A situação é opressora e estressante, mas – outra lição – o grupo se ajuda e também servimos de guia entre nós. No barco, não há grandes dificuldades. E no bar já chegamos um pouco mais “experientes”. Compramos café, água, refrigerante e alfajor com as notas de dois pesos que fomos orientados a trazer. Sentados, a última aula. Trocamos impressões, contamos o que sentimos, ainda sem podermos enxergar uns aos outros.

Lembre-se: mal nos vimos lá fora, não nos conhecemos. No entanto, a intensidade da experiência e o escuro estimulam todos a revelarem não apenas o lado agradável da experiência, mas também a angústia, as dificuldades e o medo de ficar uma hora – apenas uma hora! – desprovidos de informações visuais.

Eu pensei que experimentar um pouco da dificuldade de viver sem enxergar seria o mais tocante, o mais chocante, o mais incrível. Mas o que REALMENTE me impressionou foi ver tão claramente (desculpe o trocadilho barato) as minhas dificuldades e os meus limites no que diz respeito a entender as dificuldades e os limites dos outros, sejam eles cegos ou não.

É muito bonito saber da importância e do valor de colocar-se no lugar do outro. Mas também é muito útil saber o quanto isso é difícil e contraintuitivo.

Ainda nesse departamento.

Esses dias assistimos Yo También, cujo trailer está aqui. É também uma experiência interessante no que diz respeito a entrar um pouco no universo de uma pessoa portadora de deficiência. No caso, a história começa apresentando um rapaz sevillano com síndrome de Down que, aos 34 anos, se forma na universidade e começa a trabalhar.

O que se segue, definitivamente, NÃO é o desenrolar de um dramalhão no estilo “rapaz com dificuldades vence as adversidades, luta contra tudo e contra todos e mostra que quem vai atrás dos seus sonhos pode tudo.” Sim, as questões do preconceito, da inserção social, da família, da sexualidade dos portadores de Down, tudo isso é abordado. Mas se você quer se rasgar com choro fácil, esqueça. Os sentimentos que o filme sucita são bem mais amplos (e às vezes constrangedores) do que a clássica “pena”.

O que torna Yo También especial, na verdade, é justamente a capacidade de encontrar áreas comuns que pessoas portadoras e não portadoras de síndrome de Down compartilham, como amor não correspondido, isolamento e a dificuldade de encontrar o seu lugar no mundo. No fim das contas, quem não porta ou já não portou essas deficiências?

Resumo: o bom de Yo También não é o que nos faz diferentes, mas sim iguais ao protagonista.

The Quitter, Harvey Pekar

Nos últimos dois anos tenho escrito com frequência sobre quadrinhos de jeitão autobiografico, sejam relatos de viagem, sejam simples fatias do cotidiano servidas individualmente ou em narrativas mais complexas. Esta cepa, cada vez mais rica em opções para quem quer variar um pouco do universo de heróis uniformizados ou de historias fantásticas, não nasceu ontem e nem vem do nada. Na verdade, ela tem uma linhagem clara de autores e, na base deste cânone, um dos pilares leva o nome de Harvey Pekar.

Verdadeiro muso do underground, Pekar ficou conhecido fora do seu círculo natural em 2003* devido à passagem de American Splendor pelo circuito alternativo de cinema. Premiado em Cannes e Sundance, o filme é um primor da metalinguagem, mesclando um pouco de filmagem documental com a escultura narrativa que todos nós fazemos (verbalmente ou mentamente) com a nossa vida. A única diferença é que Harvey transformava o material em (bons) roteiros de quadrinhos.

Boa parte da vida de Pekar poderia ser a vida de qualquer um. Mesmo numa cultura específica, sendo um jovem judeu americano num bairro pobre de Cleveland nos anos 50, a maioria dos dilemas que brotam das páginas dessa excelente Graphic Novel são de fácil identificação. The Quitter (que poderia ser traduzido como “O Desistente”) relata as repetidas e fracassadas tentativas do protagonista de criar um eixo para sua vida em torno dos esportes, da universidade e da carreira profissional. Vez após vez, ele desiste de caminhos relativamente retos quando encontra obstáculos universais (pais distantes, vizinhança inóspita, solidão adolescente, trabalhos tediosos). Atormentado por inseguranças e construindo involuntariamente a crença em sua displicência, Pekar vai se descobrindo bom em uma coisa: desistir das coisas.

Ao menos o que se convenciona de chamar de “coisas” na competitiva sociedade americana. Enquanto ia enfileirando empregos burocráticos, Harvey semeava uma vida paralela à base de boemia cultural leve, reviews não pagos para revistas de jazz e, mais adiante, roteiros inovadores para quadrinhos underground. Contemporâneo e parceiro de Robert Crumb (outro mestre da mesma linhagem), a descoberta da vocação não trouxe fama e fortuna, mas ao menos contradisse a “maldição do desistente”.

Não dá pra desprezar a dor e o drama de Harvey Pekar, mas de certa forma ele enganou a todos nós. Em primeiro lugar, pintou sua imagem como “desistente”, quando no fim das contas se engajou em algo realmente significativo. Em segundo, parecia escrever quadrinhos de não-ficção, mas contar a própria história é sempre um exercício ficcional. Por fim, costumava desprezar revistas de homens em uniformes coloridos combatendo gênios do mal. Mas, ao lutar contra seus demônios e fantasmas, ao encerrar uma graphic novel pedindo aprovação geral e dinheiro para pagar as contas, o que ele faz em “The Quitter” é mostrar um outro significado – talvez mais verdadeiro – para a palavra super-herói.

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Mais algumas notas.

1. De primeira, eu torci o nariz para a arte do Dean Haspiel. Não sou muito fã desse traço estilizado e anguloso. Mas, aos poucos, fui percebendo o MEU olhar superficial e percebendo a profundidade dos quadros, os enquadramentos, a estética e o ritmo que o cara imprime: é coisa finíssima.

2. Antes do lançamento do American Splendor em filme, o Harvey Pekar teve um período curto de celebridade televisiva ao participar de oito programas do David Letterman. Como ele era muito ácido e falou mal da proprietária do canal NBC, acabou cortado do programa, conforme ele mesmo contou ao Douglas Rushkoff. A história aparece nessa série de quadrinhos online da Smith.

De todos os tamanhos

O vídeo acima é o trabalho mais recente do Kutiman, figura conhecida por mashups de YouTube. Dessa vez, ele juntou dezenas de cenas de pessoas tocando Black Dog do Led Zeppelin em um único clip. É um desses trabalhos simbólicos do nosso tempo. É um tipo de manifestação que já se prepara pra virar clássico: a edição de vídeo virtuosa que revela habilidades forjadas em milhões de garagens e quartos.

Mas não é isso que mais me chamou a atenção. Na verdade, esse vídeo me lembrou uma outra história, que é a ESCALABILIDADE INVERSA DO ROCK.

É assim.

Escalabilidade, em comércio, é a propriedade de uma empresa de ir crescendo organizadamente à medida em que sua produção, suas vendas ou a demanda por seu atendimento também cresça. Em telecomunicações, por exemplo, a escalabilidade de um sistema é a capacidade dele crescer de acordo com a entrada de novos usuários. Uma operadora de celular precisa ter um esquema “escalonável”, que possa ser replicado e aumentado de acordo com a entrada de novos clientes, de preferência sempre com a mesma ou com melhor qualidade.

É mais ou menos isso.

No caso do rock (e do futebol), a escalabilidade acontece de forma inversa. É propriedade do rock que três pessoas em um quarto possam experimentar o gostinho que três pessoas em um estádio sentem quando estão tocando para vinte mil pessoas. Na verdade, a Escalabilidade Inversa do Rock é tão intensa que UMA ÚNICA PESSOA num quarto, em frente ao espelho, com uma guitarra tosca e um amplificador meia boca, pode experimentar a sensação (proporcional) de seus ídolos quando eles estão levando uma turba à loucura.

(Na verdade, como o Air Guitar prova, não é nem preciso guitarra, amplificador ou espelho.)

Pois então. Em se tratando de Escalabilidade Inversa do Rock, numa ponta do espectro, está o Led Zeppelin no Madison Square Garden escrevendo uma parte da história do rock. Na outra, está um garoto qualquer, tocando Black Dog no quarto, fazendo as notas de rodapé.

Daí vem a beleza do vídeo acima. Daí vem a beleza do rock.

Deprê

Tenho pra mim que toda arte (mesmo a mais maluca, proscrita e depravada) é uma forma de organização da verdadeira bagunça que é a vida.

Alguns artistas se dedicam a avacalhar (no bom sentido…) a média dos signos da sua época/aldeia. E, na avacalhação, acabam criando uma certa ordem visível no que até então era invisível, perturbador, desorganizado. Outros artistas trabalham diretamente com o material mais bruto e desesperador do invisível e o moldam não só para torná-lo visível, mas também palatável.

Acho que esse texto da escritora americana Daphne Merkin numa Piauí de 2009, contando sua saída de um histórico punk de depressão, pertence ao segundo grupo. É um texto bem escrito, redondo, interessante, sobre um assunto desagradável, triste e desesperador.

Me lembrou, de certa forma, o Nick Drake.