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Arquivo: Bienal do Mercosul

Videosábado: William Kentridge

Kentridge é um artista sul africano sobre o qual pouco sei. Mas fui fortemente impactado pelos vídeos dele na última Bienal do Mercosul. Esse aí de cima é um deles. Revisita a viagem à Lua de George Meliès, brinca com as origens ilusionistas do cinema, flerta com o surrealismo e transfere para a película a atmosfera forte e quase sufocante dos seus costumeiros desenhos a carvão. O respiro vem por conta do delírio.

Embaixo, pra completar a sessão, o trailer de um documentário brasileiro sobre Kentridge.

Qualquer coisa, o YouTube tá cheio de vídeos do cara. Fome você não vai passar.

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Edificantes Imagens da Vida (10)

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Complementando o preguiçoso post anterior

paradox of praxis: alÿs empurra um cubo de gelo até derreter – é a vida…

A duna do Francis Alÿs não sai da minha cabeça. E eu esqueci de falar do trabalho do Dario Robleto. Eu pensei, inicialmente, que o cara fosse brasileiro. Pelo nome. Dario. Mas não é, é do Texas.

A sala dele na Bienal consistia só em textos escritos na parede. Textos que descreviam ações que ele pôs em prática nos últimos dez ou mais anos. Coisas como pegar todas as lâmpadas dos alpendres de casas da vizinhança onde ele nasceu e trocar por lâmpadas bem mais fortes. Tudo feito durante a noite. Sem as pessoas perceberem, ele trouxe mais brilho para o neigbourúd. Isso era uma obra. Resgate da magia no cotidiano. Tão necessário…

Outra. Ele vem se dedicando há anos a mudar as datas do fim do mundo em livros de bibliotecas. O objetivo, com isso, é fazer com que todos nós ganhemos mais tempo de vida. Outra obra. Vontade de permanência. Inocência. Ingenuidade. Melhor que o sarcasmo e a frieza. Coração puro.

Quatrocentos estudantes da Universidade de Lima são convidados a mudar uma duna de lugar. Isso é uma obra? É uma mão-de-obra, sem dúvida. Ha ha ha. Eu achei isso maravilhoso. É tão inútil, mas também diz tanto. Na falta de opiniões melhores de minha autoria, eu copio. No desespero para encaixar meus sentimentos em relação ao que vi, fui pra internet procurar artigos e entrevistas. Achei uma frase num artigo do Artforum a respeito do lance da duna: “O trabalho de Alÿs nunca conta nenhuma história em particular mas, antes de mais nada, cristaliza uma imagem que dá origem a uma história a ser contada como um processo ativo de interpretação. Um dia, uma montanha se moveu 4 polegadas. E então começa a história que nós, a audiência, temos que contar.

A duna continua se movendo, você vê?

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Bienal


Chiho Aoshima. City Glow. Tentei ir atrás do vídeo, mas no You Tube não tem nenhum muito bom.


Então olha pra essas imagens e imagina que isso é um grande aquário. É mais ou menos isso. Mas quem é o peixe? Eu sou o peixe.


O Francis Alÿs, que já andou empurrando um cubo de gelo por aí, juntou 400 estudantes de engenharia da Universidade de Lima para mudar uma duna de lugar com pás. Chama “Quando a fé move montanhas” e pode parecer a bobagem do mundo.


Mas eu acho que não é. E o brilho nos olhos das pessoas que participaram é um argumento que eu usaria para defender o meu ponto de vista.


E tem a sala do William Kentridge. Tudo escuro. Muito escuro. Projeções em todas as paredes. Ele desenhando. Ele desenhando ao contrário. Re-encenação do Viagem à Lua dos Irmãos Lumière… opa… quer dizer, como corrigiu o Sapo, Geroge Meliès. Formigas em negativo vivendo na tela. Tinta, uma mulher nua, um homem desenhando. É tipo um quebra-molas de percepção. Ou você freia, sobe e desce, tendo que olhar tudo ao seu redor com mais atenção, ou vem o baque – e a atenção à força.


E nem os mapas da Rivane Neunschwander. Pintados em cima de restos de papel destruídos pela chuva. Com uma espécie de nuvem sobre as nossa cabeças. Literalmente.


Steve Roden. Sai som desse troço. Sons cujas notas musicais estão ordenadas de acordo com uma codificação que relaciona o desenho ao nome das constelações estelares. Tu vê só.

***

O cara sai depois de ver tudo isso – e muito mais – com vontade de compartilhar. E de fazer coisas.

E eu saí pensando muito na variedade de explicações e perguntas e visões sobre o problema básico humano, que é a instabilidade das coisas.

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Notas para uma pedagogia visual bem-humorada

1. é natural que utilizemos obras de arte para o exercício de nossa
desconfiança. cultivar suspeitas pode nos salvar das verdades.

2. não se deixe enganar por tentativas de explicação de obras de
arte; na maioria dos casos elas são desmentidas pelas obras mesmas.

3. não confie na autonomia “soberana” das obras de arte, pois elas
dependem do desconhecido que as tornou possíveis.

4. acredite nas dúvidas, especialmente naquelas sugeridas pelas
obras; algumas delas são necessárias para a superação de nosssas
limitações.

5. procure ver somente o necessário. a quantidade indiscriminada das
coisas visíveis pode reduzir em muito a qualidade das experiências.

6. não espere ver o que esperava antes de conhecer. só as obras de
arte de qualidade duvidosa atendem a esta expectativa.

7. não confie em artistas que parecem querer chamar a atenção com
artimanhas e “técnicas mirabolantes”. estes bajuladores de público
estão interessados apenas em mídia.

8. se um objeto artístico não parece ser arte, não o discrimine
automaticamente. só falsificadores estão preocupados em fazer algo
que se “pareça com arte”. artistas, por outro lado, se preocupam em
fazer apenas o que deve ser feito.

9. considere sobretudo o “teor de evidência” de um objeto. por mais
completa que uma obra de arte possa parecer, elas será sempre
insuficiente em relação àquilo que desconhecemos. se for uma obra-
prima, superará até mesmo o desconhecido.

10. a espontaneidade não é um valor. é uma partida ou uma chegada. a
simplicidade ou a complexidade ocorrerão apesar dela.

11. não pergunte o que os artistas querem dizer com suas obras.
pergunte às obras. ou encontre a satisfação nos riscos que estimulam
sua curiosidade.

12. a transcendência e o sorriso são invenções humanas. um outro lado
do ar é a contribuição dos artistas.

- waltercio caldas. 6ª bienal do mercosul.

***

Meu amigo Sapo me mandou. Tá num painel da Bienal do Mercosul. Domingo dei um pulo lá. Não vi esse texto, mas vi coisas. Coisas legais. Ainda falarei aqui do William Kenthridge e do Francys Ally. Aguardai.

As imagens do post são da obra do tal Waltercio cuja obra, confesso, nunca vi mais gorda.

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