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Harold Ramis: o perfil da Shambala Sun

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Eu fico dividido entre decidir se a grande contribuição do recém ido Harold Ramis pro mundo foi mesmo a comédia existencialista Feitiço do Tempo ou se foram filmes ainda mais despretensiosos como Caça-Fantasmas ou o Clube dos Cafajestes. De qualquer maneira, o longo perfil que a revista budista americana Shambala Sun fez dele (que não era budista) em 2009 mostra um pouco como se formou a cabeça de uma pessoa que conseguiu se enfiar por dentro das camadas superficiais da vida e ainda fazer graça com isso. Vale a leitura (em inglês).

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2013 em 13 posts

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1. Espero que 2013 seja o último ano da ascensão da “auto-ajuda de startup” também conhecida como “auto-ajuda hipster”. A aposta na proliferação de iniciativas empreendedoras pequenas, ágeis e extremamente inovadoras como salvação do universo sem dúvida tem seus méritos e dividendos sociais. Mas, como toda onda, também gera uma excedente cultural superficial, uma massa de conteúdos narrativos que pregam comportamentos específicos como se fossem valores. Sobre isso, escrevi em janeiro no post Softer, Worser, Slower, Weaker – que acabou publicado também no Estadão.

2. Tragédias acontecem todos os anos. Mas, por uma série de motivos culturais, o horrível incêndio da boate Kiss mexeu com o Brasil de um jeito novo. Esses motivos tem a ver em parte com as especificidades do incidente e em parte com uma mistura de novos traços culturais brasileiros: como nação, estamos mais indignados, mais alertas, mais reativos, mais energéticos. As redes sociais reverberaram a tristeza e a confusão como nunca. Escrevi sobre isso no post Santa Maria: tentando entender e tentando comunicar.

3. Parece que foi há mais tempo, mas foi ainda em 2013 que a blogueira cubana Yoani Sánchez esteve no Brasil cercada de polêmica por todos os lados, especialmente o direito e o esquerdo. Todo mundo quis tirar uma casquinha de Yoani, literal ou figurativamente. Mas, a meu ver, o que importou da sua vinda e da celeuma que ela causou foi a maneira como todo mundo martelou a alcunha de “blogueira”. Yoani é um fenômeno da cultura digital e sobre isso escrevi no post A contribuição pouco comentada de Yoani.

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4. A morte do Chorão não me dizia respeito musicalmente, mas culturalmente sim. Chorão simbolizou todo um segmento da juventude brasileira, quando a “nova classe média” ainda estava subindo a rampa – e isso diz respeito a todos nós. Mas o que mais pegou pra mim, como sempre pega nesses casos, foi ver tamanho desamparo de uma figura humana. Escrevi sobre isso no post Chorão não se fez ouvir e hoje me pergunto o que a morte dele diz sobre todos os que ele representou. Algum recado está sendo dado e não foi decodificado ainda.

5. Uma das primeiras datas da nova turnê de Ney Matogrosso foi aqui em Porto Alegre. Apesar de saber, eu ainda não tinha visto ao vivo o poder de um artista que consegue se manter relevante e marcante por tanto tempo. A relevância do Ney é em muitos níveis: em termos de música, plasticidade e atitude, ele ainda tem o que dizer no Brasil de 2013. Escrevi sobre isso no post Minha primeira vez com Ney.

6. Embora alguns setores religiosos insistam em falar e fazer besteira em nome de seus deuses e santos, continuo achando que as religiões tem uma contribuição interessante para dar ao mundo, especialmente no que diz respeito a uma prática auto-reflexiva estruturada – uma demanda constante da contemporaneidade, ainda não totalmente resolvida por outros tipos de organização. Escrevi sobre isso no post Razões para seguir uma religião.

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7. Muito já foi dito e há muito ainda o que se dizer e explicar sobre as Jornadas de Junho. De minha parte, repito o que escrevi num post no dia 17 de junho: precisamos de uma revolução cool.

8. Uma semente perigosa foi plantada em 2013: escrevi no post Consulta Popular e Linguagem que todo e qualquer zé mané iria se apropriar de forma dantesca dos conteúdos dos protestos na propaganda política de 2014. Na verdade, nem demorou tanto, pois os horários gratuitos dos partidos nesse final de ano já começaram com a palhaçada.

9. Relacionado ao item 1: Frances Ha, filme mais recente do Noah Baumbach, talvez esteja muito mais ligado a um momento looser da cultura americana do que brasileira. Mas as desventuras da garota que derrapa nas esquinas de nova iorque tentando dar certo trazem um recado importante ao tratar o erro como poesia. Escrevi sobre isso no post Frances Ha e a obsessão contemporânea por dar certo. Outro traço importante num 2013 que viu a derrocada do mito Eike Batista.

10. O Daniel Galera levantou a bola em coluna do Globo: a linguagem publicitária anda muito infantil. Resolvi expandir o assunto no post Sobre a infantilização da comunicação, conectando o insight do Galera com alguns aspectos da cultura digital. A criancice é mais ampla do que se imagina. Fico imaginando o que a Copa nos traz em 2014 nessa linha.

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11. Relacionado aos itens 1 e 9: questionar o sentido do trabalho é um exercício que parece estar crescendo culturalmente – a até atravessando classes sociais. Em novembro, completei um ano de vida de frila depois de 19 de carteira assinada. Lendo muitos depoimentos semelhantes em 2013, senti falta de um que falasse um pouco mais dos perrengues e menos das epifanias. Escrevi sobre isso no post A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

12. Em setembro, o ator argentino Ricardo Darín deu uma entrevista num late show local contando sobre seus motivos para não aceitar um convite de Hollywood. Postei uma transcrição errada de uma fonte confiável e me dei mal: o texto teve quase dois mil compartilhamentos no Facebook e foi visto cerca de 200.000 vezes no meu blog. Mesmo depois de corrigir o post, fui intensamente corrigido e xingado solenemente pelo meu erro. Sendo o Conector um blog de nicho, fui pego de surpresa. Nunca um post meu tinha repercutido tanto. Foi minha entrada no maravilhoso mundo da internet mainstream pela porta dos fundos.

13. Um mês depois, escrevi o post Ter filhos é uma droga, que me deu outro gostinho do efeito das grandes audiências. O texto até agora atingiu 68 mil compartilhamentos no Facebook e ultrapassou os 200.000 views no blog, o que, de novo, atraiu para os comentários do Conector um tipo que não aparece muito – o comentarista raivoso. Outra experiência interessante que me fez sentir na carne o que se passa na internet mainstream.

Nos vemos em 2014!

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Imagem 1: Gratisography
Imagem 4: Buro North

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A desconquista do espaço pelos Darma Lóvers

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Conquistar o espaço é uma antiquíssima obsessão humana que se manifestou na história primeiro misticamente, a seguir filosoficamente e, por último, literalmente. A ideia de trilhar o vácuo entre as estrelas chegou ao ápice possível no século passado com a ida & volta do homem à Lua, mas ganhou contornos inteiramente novos no século corrente. Hoje, os espaços que se busca ocupar são mentais, internos, e estes, de fato, estão se transformando em verdadeiros “territórios ocupados” com o derrame sistemático e paramilitar de informação, de demandas cognitivas e de estímulos sensoriais que caracteriza a vida do cidadão médio. O que parece é que, como percebemos que umas navezinhas e algumas estações espaciais não fazem frente à imensidão sideral, resolvemos colonizar o nosso espaço interno – também desconhecido e assustador.

Espaço, o novo disco do Os The Dárma Lóvers, soa como se compreendesse e se alinhasse com a direção coletiva que tomamos, essa pra dentro, mas resgatando um espírito mais exploratório do que colonizador – o único espírito que realmente traz recompensas. Suas 11 músicas convidam e acompanham o ouvinte em uma viagem aos confins do espaço interno tendo por combustível a mistura de folk & rock anglo-americano com os sabores da música urbana porto-alegrense que lhes caracteriza. A cada disco, os Lóvers incluem um novo elemento que colore a sua química básica, como os produtores Frank Jorge e Kassim ou a bateria de Moreno Veloso em esforços anteriores. Agora foi a vez de um jovem gaiteiro responsável pelos acordeons & pianos que injetaram espaço no Espaço, resultando numa sonoridade própria ao disco, também cortesia do parceiro de longa data 4Nazo (o Marcelo Fornazier (do De Falla e do Astaroth).

As pistas da expedição proposta pelos Lóvers são oferecidas pelas letras. Nenung admite que “Nem em um milhão de anos eu daria conta da confusão em que fui me meter, mas tenho a oportunidade de unir as pontas achando o ponto mais aberto pra sentir”. Sabendo que o importante é “olhar tudo de frente” e aceitar que “nada fica dois instantes”, a dupla canta a “frágil felicidade que ninguém sabe onde vai parar” e “a conquista do espaço que ainda insisto tanto tanto em desejar”. Descobre que a chave é “saber saltar e não ser jogado”, “amar mais do que / só por querer possuir” e reconhece que, no fundo, estamos falando apenas de “outro dia e eu aqui, novo, vasto e infinito”. O espaço, enfim, é o que sustenta o contraditório necessário para a sanidade: não fechar os olhos para as dificuldades gigantescas da vida, mas perceber que “para a terra somos faíscas, o tempo todo a brilhar”.

É bonito demais de ver como, ao longo de sua carreira, os DL conseguiram estabelecer as bases de uma psicodelia pé no chão, de um deslumbre lúcido, que absorve o mundo de hoje mas não sucumbe ao espetáculo pirotécnico que somos induzidos a engolir como sendo a cultura pop contemporânea. A verdadeira resistência artística e poética do momento parece estar em não enxergar espaços vazios como inimigos. Nem todas as folham precisam ser desenhadas, nem todas as telas precisam de imagens em movimento, nem todos os silêncios precisam ser preenchidos. E isso inclui as folhas, as telas e os silêncios internos de cada um. Nesse contexto, Espaço como um manifesto em favor do espaço é um recado mais do que bem-vindo, é um pouco necessário.

Você pode ouvir o Espaço inteiro na Rádio Uol. E tem pra vender os downloads no OneRPM.

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2 anos olhando a própria mente

O praticante de meditação Henrique Lemes ficou em retiro entre 2010 e 2012 em um centro budista em Pernambuco. Nesse valioso vídeo de 30 minutos, editado pelo pessoal do Olugar, ele revela como foi a experiência de conviver (e conhecer) intensamente a própria mente e o que isso implica.

Além de satisfazer a curiosidade sobre questões práticas, ele brinca com a ideia de que, saindo do retiro, teria direito a um posto mais alto no “funcionalismo budista”; conta como é ficar em retiro com a companheira/esposa/namorada; e oferece uma outra perspectiva sobre as motivações de muitos movimentos sociais.

Vale o play – mas não esqueça de, antes, fechar todas as outras abas do browser.

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Um lugar especial em construção

É tanto estrupício que constroem nas nossas cidades que um lugar desses, que se pretenda refúgio e alternativa, precisa ser conhecido e celebrado. O vídeo acima mostra cenas do Vila Zen, um complexo Zen Budista em construção na zona rural de Viamão, aqui ao lado de Porto Alegre. Um grupo de praticantes do zen vem se virando para erguer um templo, banheiros, cozinha, acomodações e uma grande estátua do Buda.

A paz que Vila induz é flagrante no vídeo. Já a energia, o esforço incansável e os obstáculos enfrentados pelos praticantes que estão colocando tudo isso de pé (muitas vezes com as próprias mãos) ficam só nos bastidores – mas merece menção. E tem gente que ainda acha que budista só fica sentado meditando…

Se você se sentir inspirado em ajudar, participe da Campanha das Portas e Janelas do Vila Zen. Toda contribuição é bem-vinda.

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Depoimento sobre Retiro de Rua em SP

No vídeo acima, Adriana Muniz, designer e praticante zen budista de Minas, conta como foi sua experiência no Retiro de Rua de São Paulo no ano passado. Nessa modalidade de retiro, o retirar-se espiritualmente não acontece em algum vale distante, em meio às árvores, mas no meio da cidade mesmo, vivendo mais ou menos como um sem teto ou como um “Playboy de Papelão” como ouviu Adriana na rua.

Os Retiros de Rua são uma tradição de uma linhagem zen chamada Zen Peacemakers, do mestre americano Bernie Glassman, sobre o qual já escrevi algumas vezes aqui no blog.

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Neuromarketing e Comunicação

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Mês passado, estive no Festival de Publicidade de Gramado participando como debatedor no painel “Como a Mente Humana Toma Decisões”. A fala principal nesse segmento foi do Dr. André Palmini, professor adjunto de neurologia da Faculdade de Medicina da PUC e chefe do serviço de neurologia do hospital da PUC. Junto comigo, também debatedores, estavam o André Foresti, Diretor de Planejamento da F/Nazca Saatchi & Saatchi e o Mauro Dorfman, Presidente do Festival e da Dez Comunicação. Antes de mais nada, preciso agradecer o convite do Mauro: como eu postei que ia estar nesse painel no Facebook e depois coloquei na minha Timeline a foto do evento, tem gente achando que eu entendo de neuromarketing. Mas eu sou, no máximo, um curioso furungador (escrevi muito rapidamente sobre uma palestra do Martin Lindstrom que vi em 2011 em Cannes). Ou um reprodutor de informações, como farei abaixo.

O Dr. Palmini abriu o painel dando uma geral no funcionamento básico do cérebro. Explicou as funções das diferentes partes, falou sobre as etapas de amadurecimento, sobre o que acontece quando perdemos determinado naco do cérebro ou se a formação dele se dá de forma inadequada. Na maior parte do tempo, ressaltou a importância do lobo frontal, mais especificamente do córtex pré-frontal: sabe-se hoje que é a área que organiza nossas ações. Ali ocorrem, do ponto de vista da neurologia, as tomadas de decisões, a modulação do comportamento social, os planejamentos e assim por diante. Um córtex pré-frontal problemático significa uma pessoa com dificuldades de tomar decisões ou de funcionar socialmente.

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Mais para o final, Palmini reverberou o trabalho do cientista Antônio Damasio, em especial o que foi publicado em O Erro de Descartes. Resumindo bem resumido, o que Damásio defende nesse livro é que fomos induzidos a acreditar, por muito tempo, que razão e emoção são faculdades distintas e isoladas. Entretanto, as suas linhas de pesquisa podem estar transformando o dualismo do filósofo francês René Descartes em uma espécie de mito retroativo. A hipótese de Damasio diz que o que chamamos de emoções e razão são, na verdade, construções arbitrárias, marcas em um espectro cheio de nuances. Sua linha de pesquisa vem buscando comprovar cientificamente que uma decisão “racional” é sempre moldada por marcações emocionais prévias as quais condicionam a suposta racionalidade do processo. O budismo tem uma forma bem simples de colocar isso em um dito clássico: “as pessoas acham que controlam suas emoções, mas isso é mais ou menos como achar que é o rabo que abana o cachorro”. Mesmo quem é considerado mais frio e racional tem, provavelmente, marcadores emocionais que condicionam esse modo de funcionamento.

E o marketing nisso tudo?

Em primeiro lugar, essa visão desmonta qualquer tipo de comunicação que se pretenda 100% racional e justifica décadas de reclamações de publicitários intuitivos contra as famigeradas pesquisas e pré-testes frios que servem de base para grandes empresas tomarem certas decisões. O entrelaçamento dos conceitos de razão e emoção como pressuposto para a tomada de decisão de escolha valoriza o passe dos publicitários (ou comunicadores em geral) de perfil mais intuitivo em uma era de adoração irrestrita aos dados.

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Em segundo lugar, a intersecção entre neurologia e comunicação traz uma perspectiva social assustadora, pois o chamado neuromarketing é a onda do momento em certos círculos. Por neuromarketing entenda-se usar o escaneamento de imagens para olhar as reações do cérebro de pesquisados enquanto lhes são mostrados comerciais ou embalagens de produtos, por exemplo. As reações cerebrais, acredita-se, ofereceriam caminhos mais confiáveis para pesar razão e emoção nos resultados de pesquisa do que a fala pura e simples dos pesquisados, em geral recheada de contradições e respostas prontas.

Particularmente, acho difícil olhar para essa ideia com simpatia. A imagem de pessoas assistindo a comerciais ou analisando protótipos de produtos com eletrodos na cabeça é muito parecida com certos pesadelos culturais propagados em filmes de ficção científica (assista a esse vídeo de uma pesquisa da sopa americana Campbell’s) e veja se não dá um certo arrepio). Esse é um background que tenho e que não posso ignorar. Agora vão espionar o nosso cérebro para vender mais e melhor? Será possível que não há limites? Os desdobramentos disso parecem apavorantes, mas um comentário do André Foresti no momento do debate me acalmou: como acontece com todas as ferramentas de pesquisa, chega uma hora em que ela se dissemina de tal forma que se torna parte do jogo e não faz mais muita diferença. O neuromarketing é uma onda e, como toda onda, cresce quando chega perto da praia, mas quebra e retorna ao mar. Como todas as outras ferramentas de pesquisa, ele provavelmente vai se agigantar, brilhar, impressionar, assustar e encontrar o seu lugar. Cabe ficar de olho, fiscalizar, mas eu não me preocuparia tanto depois de ouvir outro comentário, no caso do Dr. Palmini: “isso é assunto de vocês, publicitários. Nós neurologistas temos ainda muita coisa importante para estudar antes com esses recursos.”

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Em terceiro lugar, fecho com uma fala que fiz na minha parte do debate. Não diz respeito ao neuromarketing diretamente, mas a um paralelo entre o cérebro e a toda e qualquer empresa de mídia: o ideal seria que elas funcionassem como o córtex pré-frontal, uma área de civilidade e organização do pensamento. Diante da avassaladora quantidade de mensagens a que o cérebro humano urbano é submetido hoje, caberia aos produtores de parte dessas mensagens uma certa filtragem e um cuidado com o que se chama ecologia da informação. Se uma indústria de metais pesados é obrigada a tratar com o que despeja no meio ambiente, caberia à indústria da comunicação agir de forma semelhante e redobrar os cuidados com o que despeja nas mídias – uma antiga utopia de alguns teóricos da comunicação que merece ser atualizada.

Aprendi com o Dr. Palmini que um córtex pré-frontal danificado ou mal formado implica em um problema de filtragem nos impulsos e nas relações sociais. Sem dúvida é o que acontece hoje na maior parte das mídias. Desde grandes empresas até indivíduos, hoje classificados como pequenas centrais de mídia, quase todos agem impulsivamente, despejando nos canais disponíveis a primeira coisa que lhes vem à cabeça, que lhes parece necessária, ignorando que suas ações e emissões compõem um ecossistema muito mais amplo, complexo e que está indiscutivelmente poluído. A imagem dos nossos cérebros, hoje impactados massivamente com tudo isso, não deve ser muito agradável de se ver numa experiência de neuromarketing.

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Precisamos de uma Revolução Cool

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Muito está sendo dito nesses últimos dias a respeito dos protestos que vem tomando conta de todo o Brasil. Existem evidências, números, fotos, vídeos e textos que vem abordando uma série de ângulos e permitem defender diferentes pontos de vista. Cada pessoa ou cada pequeno grupo parece estar fazendo a sua leitura, tentando construir um sentido mais consistente para algo que, nos momentos mais calorosos, baseia seu sentido nos atos de urgência: marchar, brandir, gritar.

Mas esse tipo de convulsão, se funciona maravilhosamente bem como sinalização ou como sintoma, tem o perigo inerente de cristalizar a ideia de que atitudes violentas são indispensáveis e eficientes num processo de mudança. Nas ruas, em plena batalha campal, com uma PM mandando bala, essa reflexão pode ser mais complicada. Mas não há desculpas para não exercermos um pouco mais de ponderação no âmbito digital, por mais adrenalinante e sedutor que seja acompanhar os protestos via redes sociais (e eu acho que é). Ceder à tentação de incentivar a violência contra as polícias que estão sendo violentas é mais do que entregar de bandeja uma boa oportunidade a comandantes e policiais sem noção – é, de certa forma, obedecer ao comando deles.

Nas redes sociais e nos blogs, fazemos isso não apenas diretamente, com palavras de ordem ou bravatas contra a polícia, mas também compartilhando conceitos que construam esse cenário. Músicas anti-polícia, por exemplo, fartamente disponíveis no imaginário do rock, são excelentes como catarse mas talvez contraproducentes para o distensionamento de um cenário de guerra (que, repito, serve mais ao militares que são sem noção). Eu sei que é praticamente irresistível, em certas situações, compartilhar “Polícia” dos Titãs, mas não sei se esse ato vale na construção de uma nova ideia de viabilidade social. Me soa um pouco como um requentamento que nos puxa para trás.

Talvez precisemos o que o pensador e atvista americano Robert Thurman chama de Revolução Cool, sendo que cool aqui é utilizado no sentido de “frio”, de ter a cabeça fria para decidir, momento a momento, qual é de fato a melhor atitude a se tomar. E, embora exista toda uma cultura constituída a respeito dos supostos benefícios de “explodir” (a cultura pop, inclusive, é pródiga nisso), em geral dificilmente se toma boas atitudes de cabeça quente. No livro “Inner Revolution” (Revolução Interna), Thurman defende que “Explodir de ódio não é sinal de resistência justa à opressão – é a capitulação final à opressão, a rendição da consciência livre e da força de vontade ao impulso cego.” Também diz que “Nós não percebemos que podemos ser muito mais assertivos sem ódio (…). Essa é primeira lição de qualquer arte marcial autêntica. Você se desidentifica do papel de vítima e não identifica o outro como propositalmente atacando. Você percebe o ataque contra você como uma força cega e impessoal que saiu de controle. Você pode, então, intervir friamente (…).”

Como eu disse ali em cima, é claro que pensar dessa forma sendo ameaçado em batalha campal é algo muito difícil, um visão reservada a pessoas extremamente treinadas. Mas eu, que não tenho ido às ruas, me sinto na obrigação de participar da onda sem me deixar levar pelo calor da situação. Aqui, sentado em frente ao computador, tenho certos privilégios que pretendo usar a favor do que acredito que seja o melhor caminho – e o mais importante desses privilégios é ter tempo e espaço mental para poder refletir e não insuflar um clima de agressão mútua.

Meu principal cuidado nesse sentido tem sido não compartilhar imagens, músicas ou filmes que possam corroborar a ideia de retaliação violenta. Isso não é fácil, pois a maior parte das manifestações culturais revolucionárias estão dentro desse escopo e são esteticamente bacanas, sedutoras e interessantes. No entanto, sigo pensando que uma construir uma revolução cool – no sentido de “fria” – ainda é o melhor caminho para uma revolução cool – no sentido de “interessante”, de “condizente com uma linguagem nova e contemporânea”. E precisamos, mais do que nunca, do novo.

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Experiências com a Vida

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A Síndrome de Prader-Willi é uma condição genética rara que se caracteriza por uma série bastante variada de sintomas que você pode conhecer melhor nessa apresentação rápida. Mas o mais marcante, e o que traz alguns dos maiores desafios para os portadores e seus próximos, é a chamada hiperfagia: quem tem Prader-Willi não recebe, quando come, a informação de saciedade mo cérebro. Logo, a pessoa tende a comer sem parar se não for controlada por alguém ou por um ambiente previamente regulado.

Como maio é o Mês da Consciência sobre Prader-Willi nos Estados Unidos, a Fundação para Pesquisa em Prader-Willi propôs a seus associados e simpatizantes uma lista de tarefas para ajudar a espalhar informações sobre a síndrome, ainda desconhecida e muitas vezes tratada de forma caricatural em uma cultura que não precisa de predisposição genética para ser obcecada por comida. As “missões” de conscientização foram divididas por semana e por público-alvo. Uma semana era dedicada à ação nas redes sociais, a outra aos vizinhos,a terceira ao ambiente de trabalho e assim por diante.

De todas as missões, a que mais me chamou a atenção pela criatividade e pela efetividade foi uma proposta para a terceira semana, que dizia “Pule seu almoço”, e que tinha dois objetivos: doar o dinheiro do almoço para a pesquisa sobre Prader-Willi e colocar a pessoa na pele de quem tem a Síndrome. Acho que todo mundo já passou por alguma situação que precisou pular uma refeição e, em geral poucos lidam razoavelmente bem com isso. Quase todo mundo fica mais nervoso, ansioso ou, no mínimo, com um certo mau humor. “Pule seu almoço”, então, é um convite a entrar no universo de quem tem Prader-Willi e convive com essa sensação todos os dias, o tempo todo.

(Uma campanha americana do chocolate Snickers inclusive resumiu muito bem isso no conceito “Você não é você quando está com fome.)

A questão deste post, na verdadem não é nem entrar muito nos detalhes da Síndrome de Prader-Willi, mas de sublinhar a inteligência dessa pequena proposta de ação de consciência. Uma das coisas mais difíceis que existem é se colocar MESMO no lugar dos outros e no caso de ativismo social este é um objetivo fundamental para sacudir as pessoas quando se precisa de fundos ou de disseminação de informação. Tive um bom exemplo disso alguns anos atrás, quando participei de uma exposição-instalação com minha mulher em Buenos Aires que colocava os visitante na situação de cegos. A experiência foi muito marcante. Além de ter escrito e publicado meu relato aqui, nunca mais passei por um cego sem deixar de prestar atenção se ele precisa de ajuda.

Outra anotação que achei importante: o conceito de fazer pequenas (ou médias ou grandes) experiências com a vida parece estar se entranhando no espírito do nosso tempo com um certo verniz pop. São iniciativas como a do jornalista Paul Miller, que ficou um ano sem usar internet para recalibrar sua relação com a tecnologia, com a cultura e com as pessoas. Tem também o blog Um Ano Sem Zara, criado pela publicitária Joanna Moura numa tentativa de refazer seus laços com a moda. O blogueiro David Cain, que recentemente teve uma postagem bastante comentada no Brasil (O seu estilo de vida já foi projetado), coloca os experimentos de vida como centrais no seu blog Raptitude. Até agora, ele já publicou o relatório de 15 deles, que cobrem premissas do tipo “21 dias sem reclamar”, “Vegan por 30 dias”, “Trabalhar 8 horas por dia em casa” e “Abandonar a máquina de lavar louça”. Todos esses casos me vieram à mente quando vi a proposta do “Pule Seu Almoço”.

É claro que esse tipo de atitude não é nova. Muita gente já experimentou com a sua vida de maneira parecida. Uma vez, escrevi rapidamente sobre as performances do artista taiwanês Tehchin Hsieh e não faltam exemplos semelhantes no mundo das artes e da filosofia (assim, de cabeça, penso em escritores como Henry David Thoreau em seus retiros naturais). As religiões e práticas espirituais também são férteis em métodos de treinamento semelhante, geralmente baseada em votos que se tomam e se observam durante um período de tempo – ou, em alguns casos, por toda a vida.

O que é novo, nos casos que cito acima, é o engajamento de pessoas “comuns” nessa modalidade, pessoas que não necessariamente são artistas ou cientistas, e que se valem das ferramentas digiais contemporâneas para criar um registro ao vivo de suas experiências, gerando automaticamente tutoriais de alternativas de comportamento, de campos temporários de vivência em outros padrões. Esse registro e sua posterior disseminação em redes sociais amplifica a ideia da experimentação e parece imprimi-la no panorama contemporâneo de forma bastante particular.

A meu ver, esse é um traço importante e positivo que vem se instalando na cultura pop. Com o tempo, é possível que se agrege esse tipo de experimento como algo de valor que a pessoa carrega consigo. Daria pra dizer, inclusive, que algumas pessoas já olham para quem faz “experiências com a vida” da mesma forma como se olhava um tempo atrás uma pessoa “com experiência na vida”. A diferença é sutil, mas diz bastante sobre para onde podemos estar caminhando – com sorte, para um olhar mais flexível, menos sólido do que seria uma trajetória de vida.

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Andei atrás de outros exemplos de experiências com a vida que foram documentadas digitalmente, mas não muito. Toda contribuição é bem-vinda nos comentários.

Infelizmente, não achei o crédito da imagem do Dr. Emmet Brown lá em cima.

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Documentário sobre mais um pedacinho do Tibet no Brasil

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Acabou de sair um pequeno documentário em DVD com as cerimônias de 2008 que consagraram a Terra Pura de Padmasambava, o primeiro templo budista desse tipo no Ocidente construído de maneira totalmente tradicional. Pra resumir, é um pedacinho do Tibet aqui do lado, em Três Coroas, na serra gaúcha.

Além de cobrir as tais cerimônias, que duraram cinco dias, o filme também traz o depoimento de lamas budistas sobre o significado desse templo e entrevistas com artistas nepaleses e butaneses que trabalharam nas estátuas, nas pinturas e nos adornos. Só essa residência artística, na verdde, já mereceria um documentário em si, pois esses escultores, marceneiros e pintores deixaram um legado inusitao entre seus pares locais. Na verdade, alguns deles inclusive se casaram e hoje moram no Brasil. Estão por aí, espalhando técnicas e sensibilidades milenares que não costumam ser passadas adiante com facilidade por aqui.

No vídeo acima, tem uma palhinha, com o lama (e talentoso diretor de cinema) Dzongsar Khyentse Rinpoche explicando como funciona a noção de bem e mal, céu e inferno. Enfim, esse DVD é um documento único de uma feliz conjunção de fatores um tanto quanto inusitados.

Mais informações sobre o DVD e sobre como comprar aqui no site da Fundação Chagdud Gonpa.

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Razões para seguir uma religião

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Estava com esse post encrencado há muitas semanas, mas a vinda de Karen Armstrong a Porto Alegre me deu um impulso final pra terminá-lo de uma vez. Armstrong é uma das poucas vozes que tem aparecido nos veículos culturais pra defender a ideia de que as religiões institucionalizadas não são exatamente uma coisa indesejável. Do ponto de vista mainstream, não parece que as religiões precisem de advogado: o número de praticantes das grandes disciplinas espirituais mundiais ainda é gigantesco e sua influência, maior ainda. Mas, ao menos nos círculos (físicos e digitais) que eu frequento, a palavra “religião” vem sendo proferida com uma mistura de desdém e desconfiança, o que me causa um certo desconforto já que eu sou o que se poderia classificar como uma pessoa religiosa. Sei que a maior parte das pessoas que me conhecem provavelmente não me colocaria na mesma turma daquela tia carola, mas vamos ver: eu rezo diariamente, eu vou a templos regularmente, participo de cerimônias, leio livros considerados sagrados, sigo preceitos, tomo votos e respeito autoridades religiosas. Desse ponto de vista (e apenas desse…), eu acabo mais perto da tia carola dos meus amigos do que dos meus amigos.

Para muita gente, ser uma pessoa religiosa hoje significa que você compactua com uma forma de manipulação, uma estrutura de poder, um sistema de pilhagem em grande escala, uma visão arcaica do mundo ou, na melhor das hipóteses, uma instituição caduca. Na base dessas acepções, geralmente estão experiências particulares com a Igreja Católica, o contato midiático com as Evangélicas, a ideia de que o Budismo no Ocidente é um hype e a péssima propaganda gerada por radicais tresloucados que se consideram representantes do Islã (quando, em geral, representam projetos de poder geopolítico). Outros vetores importantes na construção desse conceito de religião são a cruzada de certos intelectuais pelo ateísmo (Richard Dawkins e Christolher Hitchens sendo os mais pop deles), a recente adoção do ateísmo e da ciência como uma espécie de religião laica por muita gente, a disseminação de documentários amparando essa ideia (Zetgeist) e os infindáveis memes anti-clericais que tomaram conta das redes sociais.

A religião e a linhagem que eu sigo não tem qualquer apreço por proselitismo e evangelização mas, justamente por conta das minhas experiências positivas, me sinto compelido a defender a ideia de que a prática espiritual sistematizada traz imensos benefícios. Infelizmente, não tenho muito para oferecer em termos de argumentos a não ser essas experiências que citei, com certeza bastante subjetivas. Que me desculpem, então, os discípulos de Dawkins e Hitchens: esse texto é construído unicamente a partir das minhas observações e reflexões. Suponho que não há muito método científico aqui que não seja o empirismo.

Mas, enfim, diante dos conhecidos perigos da burocratização do caminho espiritual, qual é a grande vantagem que eu vejo em seguir um método organizado? Eu elegi quatro pontos que são importantes na minha prática espiritual pessoal: 1) O método 2) Ter aonde ir 3) Parceria 4) Referenciais vivos.

Em primeiro lugar, é justamente o fato de se existir um método. Para quem compreende o caminho espiritual como um processo de investigação a respeito de si, do mundo, do universo, da sociedade e do que regeria tudo isso, ter um método à mão coloca questões existenciais, por definição bagunçadas, dentro de uma moldura. O papel dessa moldura, a meu ver, não é (ou não deveria ser) congelar as dúvidas para pregá-las na parede e venerá-las emolduradas, mas sim confrontar o que nos é internamente nebuloso com uma estrutura de pensamento, o que costuma jogar alguma luz sobre a nebulosidade. O método, quando legítimo, também fornece fundamentais ferramentas de navegação interna. Como ferramenta, aliás, a moldura não tem uma utilidade final, ela não é o objetivo. Todos os mestres budistas que ouvi disseram que, resolvido o que o caminho se propõe, a ferramenta deveria ser abandonada, se torna desnecessária.

Uma curiosidade adicional: a convivência com um caminho espiritual que tem métodos muito bem delineados me fez perceber que, na maior parte das vezes, as pessoas que criticam os métodos religiosos vivem cercadas de outros tipos de métodos. E, frequentemente, submetem-se a esses métodos de forma absolutamente dogmática. O ambiente das artes e o mundo corporativo, dois exemplos que eu conheço bem, são pródigos nesse tipo de comportamento.

Bom, vamos adiante.

Em segundo lugar, um caminho espiritual formal traz o benefício de ter aonde ir. A criação de templos e centros de prática oferece um destino geográfico, um lugar de reunião e também um intervalo dos lugares que frequentamos cotidianamente. Os locais urbanos para prática espiritual são, via de regra, pequenos oásis de tranquilidade em meio ao caos. Os centros que ficam fora das cidades costumam oferecer contato com a natureza e com uma vida mais simplificada, dois elementos por si só catalisadores de reflexão e de cura psíquica. É claro que não é preciso vincular-se a uma religião para ter esse tipo de experiência. Mas é diferente quanto ela vem acompanhada do item anterior, o método, e de todo um contexto que induz à contemplação e não apenas a mais alienação sensorial.

Em terceiro lugar, um caminho espiritual formal provê parceria na busca. No momento em que você encontra a estrutura que lhe serve, automaticamente tem contato com outras pessoas que tiveram a mesma necessidade e o mesmo encontro. O contato com um grupo de praticantes do mesmo método permite que você contemple as questões cruciais que o levaram até ali sendo examinadas por outras pessoas, à luz de suas próprias dificuldades e de todo seu cardápio próprio de condicionamentos. É claro que emoldurar a diversidade com o método gera o risco de aplainar as inclinações e manifestações pessoais. Mas, por outro lado, se estamos falando de um método e de um local genuínos, a diversidade do grupo surge ainda mais flagrante, colorida e interessante. Não existe grupo de busca espiritual isento de diferenças, embates e dissidências. Pelo contrário, muitas vezes o método tende a exacerbar as diferenças de forma que as pessoas se obriguem a se flexibilizarem e a trabalhar com elas. Em duas ou três palestras, já vi a Monja Coen, da tradição zen budista, colocar da seguinte forma sua experiência de treinamento intenso em um mosteiro no Japão: as monjas são como bolinhas de ferro cheias de pontas colocadas em um mesmo recipiente fechado. Aquele recipiente, então, é sacudido. As bolinhas se chocam umas com as outras freneticamente até que, pelo atrito, as pontas sejam aparadas e fiquem lisinhas, lisinhas… Claro: para que o atrito não termine em guerra, é preciso método, objetivos comuns e muito manejo.

Em último lugar, o que talvez seja o mais importante, uma religião formal de tradição confiável costuma oferecer pessoas que são a referência viva do caminho. Em entrevista para a Zero Hora no último sábado, Karen Armstrong faz essa observação importante: “Devo falar sobre a natureza do conhecimento religioso, lembrando que é um conhecimento derivado da prática – especialmente a prática da compaixão – e não da correção doutrinária. É como nadar ou dirigir, algo que só é possível aprender através da prática diligente e não pela leitura de livros e textos.” Ou seja, uma referência é alguém que colocou em prática os ensinamentos da religião de forma tão íntegra que se tornou os ensinamentos. Se levarmos em consideração os aspectos mais essenciais de todo método espiritual que possa se dizer humano, que são o amor e a compaixão*, qualquer pessoa que queira ser uma referência desse método deveria necessariamente ser a corporificação do amor e da compaixão, não de forma particular e apenas servindo ao seu método, mas de maneira verdadeiramente ampla e universal.

Pra fechar, então.

Não é preciso chover no molhado: vivemos numa época em que as principais questões sociais perderam seu esquema de regulagem. As religiões institucionalizadas, em muitos casos, eram a baliza principal desse esquema. Talvez essa desconexão entre certas instituições religiosas e a sociedade tenha alguns frutos interessantes. Um deles é a necessidade de reformas e adequações na relação com as pessoas em geral. Outro, mais importante, seria o resgate do papel essencial das religiões de promover caminhos universais de amor e compaixão por meio do trabalho interno.

***

* Uma vez que amor e compaixão são palavras de significados amplos, ressalto que usei aqui as definições que aparecem em textos do budismo tibetano. Nesse caso, amor seria “o desejo de que o outro encontre a felicidade e as causas da felicidade” e compaixão, “o desejo de que o outro se livre do sofrimento e das causas do sofrimento.”

Imagem: daqui.

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Retiro de Rua no Brasil

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Retiros de rua são uma tradição espiritual recente, uma espécie de revisão dos antigos retiros em florestas ou montanhas criada por Bernie Glassman, sobre quem já escrevi algumas vezes aqui. Essa modalidade de retiros é muito simples: vive-se e medita-se nas ruas por alguns dias. Dorme-se ao relento (para evitar ocupar um lugar de um sem teto nos abrigos) e come-se onde os sem teto indicarem. Em 2011 e 2012 aconteceram os primeiros retiros de rua no Brasil e resgatei aqui embaixo o relato de um participante que foi publicado numa Vida Simples no ano passado. Leitura altamente indicada para quem se interessa pelas novas relações que estão se formando com os espaços urbanos.

Ps: originalmente eu tinha colocado imagens pequenas aqui, que não dava pra ler. É melhor ir direto no blog do Monge Koho, participante dos retiros e agora autorizado a liderá-los no Brasil.

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Educação e budismo

Colégios e trabalhos sociais de orientação católica são comuns no Brasil. Acho que a maioria de nós passou por um deles ou conhece alguém que passou. Já colégios e ações baseados em ideias de outras religiões são obviamente mais raros. Pra quem quiser conhecer, o vídeo acima (transcrição aqui) mostra o Lama Padma Samtem falando sobre a experiência de uma escola baseada em metodologias budistas que surgiu há alguns anos aqui na região metropolitana de Porto Alegre. Não conheço iniciativa semelhante no Brasil (deve haver, se alguém conhece e quiser iluminar minha ignorância, avise).

A Escola Caminho do Meio atende crianças do entorno do Centro de Estudos Budistas Bodisatva em Viamão/RS, especialmente de uma comunidade chamada Jardim Castelo. Por enquanto, cobre apenas Educação Infantil, mas ela está sendo expandida pra cobrir também Educação Fundamental. Tudo com base em valores humanos universais, que no fim não são exclusivamente budistas, claro.

O Lama Samtem inclusive brinca com a imaginação das pessoas quando o assunto é unir budismo com educação.


“Então a gente imagina que a escola tem crianças de 07 ou 12 anos e vão passar por uma prova final de levitação, medindo o brilho da aura com câmera e se ele não obtiver a iluminação significa que a escola falhou em alguma coisa.”

A Escola tem uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco através do Núcleo de Pesquisas em Educação e Espiritualidade, o que gera material de trabalho não apenas para as partes envolvidas, mas também pra nós. No link do blog da Escola, tem um PDF com os diálogos entre o Lama Samtem e o pesquisador-professor-doutor Alexandre Freitas.

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Outra iniciativa interessante é no interior de Minas, em Lambari. O Sítio Esperança (fotos acima) nasceu da aspiração do lama tibetano Chagdud Tulku Rinpoche de também disseminar valores humanos universais através da educação. Não é pra menos que a iniciativa é parecida com a descrita acima: o Lama Samtem foi ordenado Lama por Chagdud Rinpoche há mais ou menos 20 anos.

Em Minas, o enfoque passa muito pela ensino agroecológico, uma vez que as crianças atendidas são de uma região eminentemente rural. Além da Escola Infantil, o Sítio também oferece uma colônia de férias e workshops baseados na metodologia da Escola. O eixo da história é um dos ensinamentos do budismo que eu mais gosto, chamado As Quatro Qualidades Incomensuráveis: a equanimidade, o amor, a compaixão e o regozijo, que é a alegria com a alegria dos outros.

Tanto a Escola do Caminho do Meio quanto o Sítio Esperança atendem gratuitamente os alunos. As duas instituições sobrevivem praticamente de doações e estão habilidadas a oferecer a possibilidade de dedução do imposto de renda para doadores.

Numa época em que se discute tanto a educação, mas muito do ponto de vista numérico, estatístico e ferramental, é bom também dar uma olhada em visões alternativas que, mesmo que não sejam formatadas para experiências em grande escala, servem de laboratório pra repensar os paradigmas atuais – claramente precisando de revisão.

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Artistas

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“Nós pensamos que os artistas estão à frente do seu tempo, mas na verdade eles expressam onde estamos agora. Nós é que não reconhecemos onde estamos agora, então sua arte parece estranha.”

Nancy Wilson Ross

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“A tentação de ser útil é forte demais”

DKR

Em entrevista para o informativo Gentle Voice, o professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche (roteirista e diretor e A Copa e Viajantes e Mágicos) dá sua perspectiva sobre o papel do artista no mundo contemporâneo. Entre os conceitos defendidos por ele está a noção do artista como um fazedor de coisas inúteis, como o criador de harmonia, além da ideia de que seria bom ter mais artistas-políticos.

Papo completo, em inglês, aqui.

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Valioso legado

Tava pensando esses dias: uma das contribuições mais valiosas que a contracultura nos deixou foi uma linguagem amigável, jovem e atraente para falar de assuntos que em geral são tratados com desdém por quem não está ligado formalmente a uma religião ou a estudos filosóficos e morais. Navegação interior, busca por transcendência, amor universal, paz na terra, compaixão, interdependência, tudo isso raramente interessa ao público em geral a menos que venha embalado em cultura popular – e a contracultura permitiu isso.

Por contracultura entenda-se um caldeirão vago e gigantesco onde estou colocando os beats, suas influências (as filosofias orientais adaptadas ao ocidente, os poetas americanos ligados à natureza, o bebop) e seus sucessores (em especial a música pop das décadas de 50 e 60). Esse povo digeriu e embalou o que até então era considerado maluquice e/ou chatice, colocando papos do coração e da mente na mesa de uma cultura ocidental eminentemente materialista. Muitas vezes profunda e inteligente, claro, mas em geral materialista.

Nos anos 90, acho que vimos a decadência dessa linguagem e aí veio a cultura digital pra substituir o papo riponga no papel de manter de pé os assuntos do coração. Vida virtual, conexão mundial, colaboração, co-criação, revoluções articuladas pela rede, questionamento de regras vigentes: tudo isso começou com os escritores de cyberpunk, ganhou o mainstream com o Matrix e se tornou cotidiano com o fenômeno das redes sociais. De novo são assuntos universais e profundos envernizados com questões novas. Não fosse esse verniz, muito assunto não seria tratado.

Fica a questão: quando o papo maluco beleza da vida digital esfriar, qual será a próxima onda que vai nos permitir conversar, cantar e vestir a ideia de paz & amor?

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Bernie Glassman no Brasil em setembro

Está vindo aí um dos caras mais interessantes do mundo da espiritualidade e do ativismo social. Mestre zen budista, aluno de Maezumi Roshi (mesmo mestre que iniciou a Monja Coen no Zen), Bernie Glassman se destacou por migrar, ao longo da sua trajetória, de uma abordagem mais tradicional do zen budismo para uma visão de intersecção da prática contemplativa clássica com ação social explícita. Em seus 40 anos de trabalho, começou trocando a localização do primeiro centro que fundou, indo de uma região mais rica para outra mais pobre; depois, se tornou empreendedor social ao criar iniciativas de ajuda a sem-teto e inventar retiros de rua em grandes cidades; também instituiu retiros em Auschwitz (ambas as idéias como uma forma de travar contato direto com sofrimentos humanos que preferimos evitar); e, nos últimos anos, tem viajado o mundo para atuar em situações de conflito e propagar a sua visão de ativismo social – trazendo para esse universo a idéia de interdependência e as práticas contemplativas.

Já escrevi mais sobre Glassman no post The Zen Dude e The Zen Dude 2 (onde tem até um documentário sobre ele). Uma oportunidade única pra quem se interessa por ação social.

Programação

3 de setembro – São Paulo
Ativismo Social como Prática Espiritual
Transformando Moradores de Rua em Cidadãos Produtivos
Meditar para Transformar
Programação completa aqui no site da Palas Athenas.

4 de setembro – Porto Alegre
Ativismo Social como Prática Espiritual (com Monja Coen e Lama Padma Samtem)
Informações aqui no site do Via Zen.

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Snyder’s

Primeiro, ele recontextualiza a palavra ‘conservadorismo’.

“O conservadorismo tem alguns significados válidos. Claro, a maior parte das pessoas que se denominam conservadoras não o são porque elas estão aí extraindo e usando, criando lucro. Curiosamente, artistas e pessoas ligadas à ecologia e à prática do dharma são os conservadores no melhor sentido da palavra, porque nós estamos tentando salvar alguma coisa!”

Depois, bota em perspectiva a atitude dos beats.

“Era uma época diferente na economia americana. Costumava ser assim: você chegava numa cidade estranha, arrumava um emprego, achava um apartamento, ficava por um tempo e então ia adiante. Sem esforço. Tudo que você precisava ter era algumas habilidades básicas e disposição pra trabalhar. Esse é o tipo de mobilidade que você vê celebrada por Kerouac em On The Road. Pra muitos americanos, era algo garantido. Isso dava uma qualidade despreocupada aos jovens trabalhadores norte-americanos que não tinham que frequentar uma faculdade se quisessem um emprego.”

(…)

Imagine tentar viver em São Francisco ou Nova Iorque com salário mínimo hoje. Você não consegue. Além do mais, não é mais tão fácil conseguir emprego.

O repórter segue:

“A liberdade e a abertura da economia pós-guerra permitiu a pessoas como Snyder, Kerouac, Allen Ginsberg, Lew Welch e outros se desfiliarem dos sonhos de respeitabilidade da América mainstream.”

São trechos de uma entrevista de 1996 que o poeta beat Gary Snyder concedeu pra revista Shambala Sun que me fizeram pensar muito no Brasil atual.

Primeiro, essa onda de conservadorismo. Que, como mostra a questão do Código Florestal, não quer conservar muita coisa apesar de vir de uma bancada “conservadora”. Eu sei que é um jogo semântico meio barato, mas não deixa de ser instigante, né?

Em segundo lugar, fico curioso pra ver que tipo de legado cultural essas primeiras décadas de estabilidade econômica vão imprimir no país. Porque, como os Estados Unidos nos provam há pelo menos 70 anos, a pujança de uma nação é paradoxalmente um dos melhores combustíveis para o surgimento de uma cultura pop, hmmm, bem… alternativa.

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The Zen Dude 2

Olha que bacana: está online, inteirinho pra assistir de graça, o documentário Instructions To The Cook, sobre o professor americano de zen budismo Bernie Glassman. “Tá e daí?”, diria você que não é budista. E daí que Glassman é uma figura (ou figuraça) que transcende o âmbito religioso, como escrevi aqui há algum tempo ao comentar a relação dele com o Jeff Bridges (e com a cultura Lebowski) e o trabalho  como consultor no filme Tron: Legay. É justamente isso que esse documentário cobre: o fator engajamento social, de intersecção entre a espiritualidade mais roots e as necessidades prementes do mundo contemporâneo, uma mistura que Bernie Glassman parece dominar.

O título “Instructions to The Cook” (Instruções ao Cozinheiro) é derivado de uma derivação. Originalmente, remete a uma obra do monge fundador da linhagem Soto do zen japonês, Dogen, que viveu no século 13 e que tem entre seus escritos o volume Tenzo-Kyōkun (Instruções ao Cozinheiro). No texto, Dogen desenvolveu um manual de conduta para o cozinheiro dos mosteiros, considerado uma figura central não só no andamento logístico mas também no desenvolvimento espiritual dos monges. Claro: não são apenas instruções diretas, relacionadas à comida, à cozinha e afins. Aqui, o ato de cozinhar é naturalmente associado à vida e o cozinheiro a nós mesmos.

 

 

É aí que entra o Instructions to The Cook contemporâneo, escrito por Bernie Glassman e lançado em 1996. Sem dúvida ou entusiasmo precoce (já faz um tempinho que li), posso dizer é um dos livros mais profundos, motivadores e interessantes em que já botei os olhos. Inspirado  nos pensamentos de Dogen, Glassman Roshi apresenta os cinco pratos principais que ele considera necessários para construir “uma vida que importa” hoje: o prato da espiritualidade, o do aprendizado, o do sustento, o da mudança social e o da comunidade. Mas antes que você queira me dar uns tapas por tentar lhe empurrar um livreto barato de auto-ajuda, já aviso que não estamos falando de algo como uma “receita-da-felicidade-cozinhe-estes-ingredientes-e-seja-feliz”. Me dê um crédito e vá um pouco mais adiante no post.

Vamos lá: o mais bacana em Instructions to The Cook é que tudo é contado a partir  da experiência do Bernie Glassman com projetos de reinserção de sem-tetos na sociedade.  Quando desistiu de ser engenheiro aeroespacial e iniciou o treinamento tradicional no zen budismo com o mestre japonês Maezumi Roshi, Glassman já tinha em mente que em algum ponto de sua trajetória iria unir a sabedoria zen com sua necessidade interna de atuar socialmente. Foi assim, encurtando a história, que nasceu o Zen Peacemakers, uma entidade social que acolhe sem-teto e fornece ferramentas práticas pra que essas pessoas possam reconstruir suas vidas integralmente – e não apenas recebendo teto ou comida.

 

Dentre várias ações do Zenpeacemakers, a mais célebre foi a fundação da Gresystone Bakery, uma padaria/confeitaria que iniciou suas atividades como um local de aprendizagem dos sem teto mas que sempre teve como norte tornar-se um negócio de verdade (com produtos de qualidade, faturamento e clientes de grande porte) mas sem perder o viés social e espiritual (lucros voltados para a qualificação do projeto, o crescimento das pessoas envolvidas como foco principal, etc). A Grestone Bakery de fato cumpre até hoje com esses dois objetivos ao atender empresas como a gigante do sorvete americano Ben & Jerry e continuar formando profissionais que estavam perdidos pela rua. Como diz no site da Greystone, “nós não contratamos pessoas pra fazer brownies. Nós fazemos brownies pra construir pessoas.”

 

 Glassman tirando uma soneca num retiro de rua.

Outra criação interessantíssima do Zen Peacemakers que aparece no livro são os retiros de rua. Resgatando uma antiga tradição espiritual indiana e atualizando-a, Glassman instituiu períodos de treinamento de meditação e compaixão onde seus alunos passam um determinado período vivendo na rua junto com os sem teto, reunindo-se periodicamente ao longo do dia para meditar e trocar experiências. A idéia não é constituir um mero safári. Aos participantes é pedido que não tomem banho e não façam a barba cerca de quatro dias antes do projeto; que participem apenas com a roupa do corpo, a carteira de identidade e uma sacolinha de plástico; que durmam na rua para não ocupar o leito de um abrigo noturno; e que mendiguem o que precisam comer. Esse projeto marca um ponto fundamental da linhagem do Zen Peacemakers: a prática espiritual inserida na vida urbana, a vida urbana como matéria prima para a prática espiritual. Ano passado, em outubro, aconteceu pela primeira vez no Brasil um retiro de rua nesses moldes. Foi em São Paulo e logo mais eu publico o relato de um participante por aqui.

 

 Glassman em Auschwitz.

Os retiros de rua e a Greystone Bakery são apenas uma parte da história. O Zen Peacemakers tem muito mais: tem os retiros de meditação em Auschwitz, tem os cafés Let All Eat… deixo abaixo uma lista de vídeos e leituras interessantes pra quem quiser se profundar. Não conheço muito do trabalho do Bernie Glassman na prática, mas meu contato com ele por meio desse documentário, do livro e de uma série de reportagens em revistas budistas me inspirou fortemente a enxergar a prática espiritual de uma forma mais pragmática e ligada ao dia-a-dia. O que é justamente a parte mais difícil da história, já que a cultura e o imaginário visual tradicionais do budismo (seja tibetano, japonês, indiano, tailandês) frequentemente se tornam um prato cheio pra criação de cenários escapistas. Gente como Glassman Roshi, me parece, tem a grande qualidade de gerar outros cenários, também atraentes e vibrantes, mas aparentemente com raízes bem mais fincadas no chão.

***

Ok, vamos lá.

* Não há livros de Bernie Glassman publicados no Brasil. O jeito é dar um pulo na Amazon. Há edições para o Kindle.

* Talvez o ponto de partida pra quem quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Glassman Roshi seja o site do Zen Peacemakers, não? Para os mais ligados em cultura pop, vale uma especial atenção à seção Lebowskiniana DUDE KOANS.

*  Caso você não tenha conseguido chegar ao documentário inteiro pelo vídeo lá em cima, entre por aqui.

* Vasculhando o Google, se acha muita matéria bacana. Duas bem pra começar: Is That Me Bleeding? na EnlightenNext Magazine e uma sobre os 70 anos do Roshi (em PDF, dá pra fazer o download clicando no botão direito aqui no link).

* Os Zen Peacakers são representados no Brasil pelo médico psiquiatra José Ovidio Waldemar. Mais informações no site do Via Zen.

 

* Em um número recente da revista brasileira Bodisatva, tem uma entrevista com Paco Genkoji do Zen Peacemakers.

* O professor de Bernie Glassman, Maezumi Roshi, também foi professor da Monja Coen, que mantém centros e atividades no Brasil.

 

 

 

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Monja Coen dia 25 em Porto Alegre

O flyer é bastante auto-explicativo, então só deixo aqui um convite de minha parte. Eu estarei lá. Já ouvi a Monja Coen falar sobre esse assunto e garanto que sua presença e sua fala não tocam somente corações e mentes budistas. Muito antes pelo contrário, ela costuma se posicionar de forma bastante abrangente e abarcar situações universais.

Divulguem o evento a amigos e colegas que possam se interessar pelo assunto. Qualquer pessoa que lida com gestão, liderança ou essas coisas aí certamente terá uma ótima experiência.

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The Zen Dude

Olha só que pérola: a revista Tricycle promoveu um bate papo de 40 minutos, dividido em duas partes, entre Jeff Bridges e Bernie Glassman. Bridges, você conhece. Provavelmente pelo sua icônica atuação em O Grande Lebowski, obra dos Irmãos Coen que passou de cult movie a culto de fato. Ou então de aparições recentes em filmes de diferentes intenções como Homem de Ferro, Homens que Encaravam Cabras e Coração Louco, que deu o Oscar ao já famoso “Dude”.

Bernie Glassman, por sua vez, é um personagem, digamos assim, mais de nicho. Aluno de um dos mais importantes mestres zen budistas do Ocidente, Maezumi Roshi, Glassman é considerado uma figura importante na construção do conceito de budismo socialmente engajado nos Estados Unidos. Sua organização, o ZenPeacemakers, desenvolveu modalidades de prática totalmente integradas à vida urbana contemporânea, o que incluiu a criação de negócios socialmente engajados e os inusitados retiros de rua (onde os praticantes passam alguns dias vivendo como e entre moradores de rua).

A conversa, em um tom de descontração que lembra muito o climão Lebowski, começa com a história de como os dois se conheceram, passa pelos projetos sociais de cada um e envereda por interessantes reflexões sobre a semelhança entre práticas meditativas e o processo de atuação. Bridges comenta, inclusive, seus sentimentos ambíguos em relação ao trabalho do ator em filmes que são construídos em sua maior parte na pós-produção, como é o caso de Tron Legacy. Se isso, por um lado, tira o romantismo de vestir a roupa do personagem, substituída por vestes especiais que marcam os pontos da computação gráfica posterior, por outro ele declara calmamente: “é como voltar à infância, quando você brinca e tem que inventar tudo na sua cabeça”. E ainda compara a situação com uma expressão clássica de outro grande mestre zen, Suzuki Roshi: “É a mente de principiante.”

***

Uma nota curiosa: interessado em trazer mais substância para a história de Tron Legacy, Bridges convidou Glassman pra participar de algumas reuniões de produção e discutir alguns temas existenciais do ponto de vista do zen budismo. Mas a influência é em duas mãos. Segundo uma outra matéria da Trycicle, do ano passado, Glassman tem na sala dele os três pilares espirituais do ZenPeacemakers com uma tradução em Lebowkês abaixo de cada um:

“Not Knowing, thereby giving up fixed ideas about myself and the universe.
(The Dude is not in)
Bearing Witness to the joy and suffering in the world
(The Dude abides. . .)
Loving Action
Healing myself and others
(Enjoyin’ my coffee)”

***

Outra coisa: vale um passeio no site do centro zen budista gaúcho Via Zen. Ali tem o relato de um monge zen gaúcho que está vivendo na Suíça e que participou de um retiro de rua. Também há uma sessão dedicada a uma série de textos e entrevistas em português sobre a conexão Porto Alegre/Brasil-Zenpeacemakers pilotada pelo psiquiatra José Ovídio Waldermar, coordenador do Instituto da Família.

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Crooked Cucumber

Shunryu Suzuki foi um mestre budista da tradição Soto Zen enviado de uma área rural do Japão pra San Francisco, nos EUA, em 1959. Sua missão: ministrar alguns poucos rituais semanais e tomar conta dos funerais e casamentos de uma congregação de imigrantes japoneses . Ou seja, o cardápio básico da atividade na maior parte dos templos e congregações da época.

Mas, veja bem, estamos falando de 1959 e da cidade de San Francisco. Nessa época, o budismo começava a extrapolar as tradições imigrantes nos Estados Unidos, especialmente através de intelectuais universitários e escritores beat. Um ano antes, Jack Kerouac publicou seu segundo romance, Os Vagabundos do Dharma, no qual o poeta (e em seguida mestre zen budista) Gary Snyder aparecia como figura central da história, com uma retórica marcada pela filosofia oriental. O também poeta beat Allen Ginsberg aproximava seu texto e sua vida do budismo tibetano. E isso era apenas a ponta do tal do iceberg. Ali, a cidade já cozinhava a mudança cultural que viria marcar sua história, efetivando a transição da geração beat, acelerada, urbana, insone e ácida, para os hippies e sua batida lisérgica, mágica e transcedental.

A busca pela quebra de hierarquias conceituais e sociais, bem como a luta pelas liberdades civis, davam o tom da juventude daquela era. Pra uma audiência esfomeada por ideais, os ensinamentos do Buda sobre liberdade formavam um exótico e atraente banquete. Mas a congregação de imigrantes que Suzuki Roshi deveria liderar não compartilhava dessa efusividade. Sendo assim, um ponto de tensão instalou-se rapidamente no Soko-ji. Até então o único templo zen budista da região, o Soko-ji também mostrou-se pequeno demais pra acomodar a) uma comunidade sinceramente mais interessada em tradições do que na luta contra elas b) uma turma de jovens americanos de classe média buscando liberdade de padrões.

Essa tensão é o ponto central de Crooked Cucumber (47 moedas na Cultura!), biografia de Suzuki Roshi escrita com um bom humor e uma riqueza de relatos impressionantes pelo seu aluno David Chadwick. Nem de perto essa tensão é o único atrativo do livro, muito embora eu, garoto ingênuo, achasse que sim. Confesso, como vou mentir sobre isso?, que abri o livro em busca da história rocambolesca de um velhinho oriental e sua trajetória em meio à efervescência da cena beat. Mas encontrei muito, muito mais. A vida de Suzuki Roshi, como a dos grandes mestres e praticantes espirituais, desafia o conceito hollywoodiano de aventura que está encrustrado na minha mente.

Na verdade, pelo menos metade do livro explora a infância, a adolescência e parte da vida adulta do Suzuki Roshi no Japão, contando seu treinamento monástico, seu histórico familar e as imensas dificuldades de ser um líder religioso em um país conturbado. O mito do mestre zen que vive isolado em um cotidiano tranquilo e sem sobressaltos é sumariamente desfeito, página após página. Pra deixar mais claro: o cara comeu o pão que o diabo amassou, enfrentando a burocracia e o conservadorismo do sistema religioso da época no Japão, as dificuldades inerentes de um país em guerra, os desafios de ser chefe de família e líder religioso simultaneamente e, o mais impressionante, encarou uma série de eventos trágicos na sua família ou entre seus alunos alunos que transformaria a maior parte de nós em pessoas amargas e desesperançosas, duas palavras que não passam nem perto de refletir o espírito de Crooked Cucumber.

A partir da chegada nos Estados Unidos, o livro fica mais familiar – surge o contexto cultural americano e californiano da época – mas não menos surpreendente. No início, são poucos alunos ocidentais dividindo espaço com a congregação de imigrantes. As diferenças culturais são claras, mas as atividades não são tão intensas a ponto de causar uma cisão. Com o passar de algum tempo, entretanto, a disposição crescente de alguns dedicados jovens americanos para sentar e meditar contrasta de forma desconfortável com os rituais mais tradicionais dos imigrantes. Assim, as diferenças se acirram, Suzuki Roshi é chamado a fazer uma escolha e a preferência pela meditação como caminho escolhe por ele: sua nova casa é um grupo de jovens praticantes ocidentais leigos dispostos a entregar-se a uma exigente prática que no Japão era exclusiva de monges.

A partir daí, é tudo como um recomeço. Um eterno recomeço. Uma nova comunidade em uma nova cultura com novos desafios. O fato de ter encontrado alunos dedicados à sua visão de prática espiritual não quer dizer que o caminho tenha sido menos pedregoso para Suzuki Roshi.

O mais incrível, nessa biografia cheia de histórias curiosas e pitorescas, não é o que nos faz diferentes do seu protagonista, mas tudo aquilo que nos liga a ele, que nos faz parecido com ele. E isso é uma coisa bonita, porque justamente uma das crenças básicas do budismo é que todos – todos mesmo, budistas ou não budistas, amáveis ou violentos- temos a capacidade inata de despertar, de alcançar a liberdade de identidades e visões estreitas. Como nós, Suzuki Roshi veio, nasceu, cresceu, passou por dores comuns à raça humana, errou e acertou, foi criticado, foi elogiado, enfrentou obstáculos que vão de guerras a problemas domésticos. Por isso, o livro é rico. É uma biografia, mas também são ensinamentos vivos. Mostra o lado misterioso e insondável do mestre bem como seus aspectos mais humanos – os detalhes em dourado e as rachaduras.

Como é comum na tradição do zen budismo, Crooked Cucumber traz mais de 400 páginas que poderiam tranquilamente ser traduzidas em uma frase:

“Nem sempre assim”.

***

Alguns toques finais ao post.

A tradição Soto Zen, de Suzuki Roshi, tem centros de prática, templos e professores reconhecidos no Brasi. Mesmo não-budistas devem ser familiares com a figura da Monja Coen. O site da comunidade Soto Zen no Brasil é o Zendo Brasil.

Aqui na região de Porto Alegre, conheço bem o trabalho do Via Zen e um pouco do Zen Vale dos Sinos.

***

Ano passado, publiquei meia dúzia de posts sobre biografias de praticantes budistas, um tipo de leitura que tem me feito muito bem no sentido de aprender com o exemplo, com a sabedoria viva de quem confronta os ensinamentos do Buda com questões eminentemente práticas e cotidianas. Já escrevi aqui sobre os relatos de vida de Issan Dorsey (ordenado na linhagem de Suzuki Roshi), sobre as idéias do Fleet Maull, sobre o livro do Jack Kornfeld que conta o lado b da espiritualidade, sobre as histórias de um ex-monge na India, de um chef-mestre-zen (outro da linhagem de Roshi) e também comentei a biografia e o documentário sobre a monja Tenzin Palmo.

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Inteligência Artificial

A maior parte das mudanças culturais que a gente está vivendo hoje são, de certa forma, parentes da revolução industrial do século 19. No livro o Zen e a Psicanálise, de 1960, o professor zen budista DT Suzuki comenta que uma das diferenças fundamentais entre homens e máquinas surgidas no século XIX é o objetivo ao executar tarefas.

A finalidade de uma máquina é sempre terminar uma tarefa enquanto nós, humanos, frequentemente encontramos significado no próprio processo, não só no resultado. Isso é um bom parâmetro pra evolução da inteligência artificial. Um computador (ou um software) só terá atitudes humanas no dia em que ele conseguir executar uma tarefa com o mero objetivo de executar – e não de terminar.

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Texto inspirado num dos programetes “Minimalismo” que eu faço pra Oi FM.

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Ah: um bom pedaço do livro citado acima está disponível em inglês no Google Books. Parece simples de ler, mas ele é profundo. Eu li umas dez páginas e estou há quase um mês pensando nelas.

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Mischa Island

“Nossa consciência não é nada mais do que um pedaço de ilha insignificante flutuando em um vasto oceano circundante. Mas é desse insignificante pedaço de terra que nós podemos olhar para a imensa expansão do inconsciente.”

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Livremente traduzido daqui.

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Gaivotando

Estava ouvindo um podcast com a professora budista Elizabeth Mattis Namgyel e, no meio de 50 minutos de insights bonitos e práticos, ela me saiu com uma metáfora que eu achei bem bacana e queria dividir com vocês.

O assunto geral da palestra era, na verdade, sobre a relação entre a mente e o corpo. Não vou entrar em detalhes e estragar a explanação clara da Elizabeth, mas no geral ela coloca a necessidade de manter-se sempre entre os extremos do apego (sensualismo) e da rejeição (austeridade excessiva) pra com toda e qualquer experiência corporal. E, exemplificando a flexibilidade de mente necessária nessa abordagem, ela trouxe a imagem dessas gaivotas que ficam paradinhas em cima de bóias no mar.

Bom, a real é que as tais gaivotas nunca ficam paradinhas em cima de uma bóia. Elas estão o tempo todo se movendo de acordo com o balançar da bóia e do mar, ajustando-se milimetricamente à maré, sem exageros pra qualquer um dos lados. O ficar “paradinho numa bóia” ou “numa boa” é uma fantasia dos olhos que enxergam gaivotas à distância.

Pois é, eu sei que é mais fácil falar (ou escrever) do que fazer. Eu sei, ah como eu sei. Mas fica aí registrado um substituto à já bastante usada metáfora do bambu que se dobra à força do vento. Se tem coisa que faz bem pro cérebro é uma nova imagem dizendo coisas que ele já sabia.

Suerte para nosostros, amigo.

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