“Nossa consciência não é nada mais do que um pedaço de ilha insignificante flutuando em um vasto oceano circundante. Mas é desse insignificante pedaço de terra que nós podemos olhar para a imensa expansão do inconsciente.”
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Livremente traduzido daqui.
Estava ouvindo um podcast com a professora budista Elizabeth Mattis Namgyel e, no meio de 50 minutos de insights bonitos e práticos, ela me saiu com uma metáfora que eu achei bem bacana e queria dividir com vocês.
O assunto geral da palestra era, na verdade, sobre a relação entre a mente e o corpo. Não vou entrar em detalhes e estragar a explanação clara da Elizabeth, mas no geral ela coloca a necessidade de manter-se sempre entre os extremos do apego (sensualismo) e da rejeição (austeridade excessiva) pra com toda e qualquer experiência corporal. E, exemplificando a flexibilidade de mente necessária nessa abordagem, ela trouxe a imagem dessas gaivotas que ficam paradinhas em cima de bóias no mar.
Bom, a real é que as tais gaivotas nunca ficam paradinhas em cima de uma bóia. Elas estão o tempo todo se movendo de acordo com o balançar da bóia e do mar, ajustando-se milimetricamente à maré, sem exageros pra qualquer um dos lados. O ficar “paradinho numa bóia” ou “numa boa” é uma fantasia dos olhos que enxergam gaivotas à distância.
Pois é, eu sei que é mais fácil falar (ou escrever) do que fazer. Eu sei, ah como eu sei. Mas fica aí registrado um substituto à já bastante usada metáfora do bambu que se dobra à força do vento. Se tem coisa que faz bem pro cérebro é uma nova imagem dizendo coisas que ele já sabia.
Suerte para nosostros, amigo.
Caminho espiritual é um assunto complicado. Pra começar, é um pouco como a noção de “bom senso”: cada um tem o seu. Em segundo lugar, muita gente tem aversão a termos como “caminho espiritual” ou “espiritualidade” porque lembram de péssimas experiências religiosas de infância, geralmente mais ligadas a protocolos sociais do que propriamente a uma busca sua, genuína e de coração. E, por último, falar de caminho espiritual também traz junto conceitos difusos e errôneos como passividade lacônica (”hoje não fiz nada o dia todo, fiquei bem zen”), idealismo ingênuo ou relações bastante superficiais com coisas como maconha e ácidos meia boca.
Pra efeito de você ir adiante nesse post, vamos tentar fazer um acordo que vale ao menos aqui no Conector: caminho espiritual não é aquela missa de domingo que você ia quando criança e nem tampouco as lajotas se liquefazendo depois que você tomou aquele AC no carnaval. Também não vale aquela discussão sobre Matrix ou aquela super ficha que caiu quando você resolveu TODOS seu problemas depois de ficar olhando o mar de cima do Morro da Guarita em Torres por duas horas.
O caminho espiritual de que vou falar aqui, combinemos, tá mais pra 1) quando a gente procura resolver nossas questões mais profundas olhando pra dentro e não pra fora, e 2) faz isso de forma mais ou menos constante, como parte do dia-a-dia e não apenas como uma experiência de fim de semana ou como um tipo de férias da vida comum.
Bom, se você mais ou menos concorda com esse postulado e o acha simpático, vamos lá: é sobre isso que fala Jack Kornfield em “Depois do Êxstase, Lave a Roupa Suja”. Reconhecido professor de meditação nos Estados Unidos, Kornfield entrevistou dezenas de outros mestres e contemplativos do budismo, hinduísmo, judaísmo, sufismo e outros ismos pra falar dos descaminhos, acostamentos, desvios, obstáculos, enfim, do “Lado B” da busca pelo fio da meada da mente e do coração humanos.
São cerca de 250 páginas com centenas de depoimentos costurados pelo texto simples e direto de Kornfield. Grande parte das histórias traz revelações íntimas, algumas pesadas, como problemas com a família, períodos de vida depressivos, cisões em comunidades espirituais, desprezo ao corpo, entre tantos quebra-molas que aparecem e que, como os relatos insistem em ratificar, devem ser trazidos para o caminho em vez de serem tratados como anomalias. Parágrafo após parágrafo, essa parece brotar como a grande mensagem de “Depois do Êxtase…”: o caminho espiritual é um caminho de inclusão dos obstáculos, de desenvolver a habilidade de lidar, dançar com eles e não de eliminá-los. Como diz Kornfield a certa altura, “não existe aposentadoria iluminada”.
A busca por respostas internas, segundo vários depoimentos, pode até passar por experiências de êxtase ou de transcendência (seja lá o que isso significa). Mas ficar preso a uma dessas experiências, sublinha-se repetidamente, pode trazer mais apego e mais dificuldades em vez da tão almejada liberdade. Na essência dos caminhos espirituais genuínos está uma mente aberta e inclusiva. Diz um mestre entrevistado:
“Sob vários aspectos, a transformação espiritual das décadas passadas é diferente do que eu havia imaginado. Sou ainda a mesma pessoa esquisita, com o mesmo estilo e maneira de ser. Por fora, não sou aquela pessoa incrivelmente transformada e iluminada que eu queria ser. Mas por dentro a transformação é grande. (…) Minha vida era como uma garagem entulhada, onde eu ficava trombando com os móveis e me julgando. E agora parece que eu mudei para um hangar que está sempre com as portas abertas. Tenho as mesmas coisas, mas elas não me limitam mais como antes.”
Essas não são apenas idéias de religiosos. Além de pessoas ligadas a caminhos espirituais formais, Konrfield se vale de constantes citações de outros buscadores, como escritores (Walt Withman, Alice Walker, Rainer Maria Rilke, TS Elliot), ativistas (Martin Luther King, As Mães da Praça de Maio) e outras referências célebres (Anne Frank, Carl Sagan, Joseh Campbell). O mosaico pode parecer indigesto e um tanto quanto new age, mas funciona para abrir um pouco o escopo de experiências e mostrar que, por mais diferentes que sejam as trilhas, os calos nos pés são comuns a todos os caminhantes. Não existe ninguém especial. Todos são especiais.
Conclusão da história: o mundano e o espiritual não são excludentes. E, provavelmente, talvez não sejam nem mesmo duas coisas separadas. Ou, como diz o poeta beat, pai e professor zen Gary Snider:
“Todos nós aprendemos com o mesmo professor - a realidade… pôr as crianças na perua escolar todas as manhãs é tão difícil quanto cantar os sutras no salão do Buda nas manhãs frias. Uma coisa não é melhor que a outra, as duas podem ser aborrecidas e ambas têm a virtuosa qualidade da repetição. A repetição e seus bons resultados transformam as atividades da vida no caminho.”
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Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey, da biografia da monja inglesa Tenzin Palmo e das memórias do ex-monge búlgaro Nikolai Grozni.
… fala sobre sua vida pré-monja, o casamento cedo, a gravidez, o trabalho de jornalista, o rock, o Buda…
Nikolas Grozni era um simples jovem búlgaro, estudante prodigioso de jazz, treinado desde os 4 anos em piano clássico e mais tarde aceito na famosa faculdade de música de Berkeley. Como qualquer jovem, búlgaro, estudante e prodigioso, Grozni passava seus dias às voltas com os bundalelês da faculdade, tocando a vida à base de bebida, maconha, sexo, Coltrane e muito questionamento existencial.
Porém, enquanto as buscas existenciais de muitos eram sufocadas com os anestésicos comuns à idade, Grozni acordou um dia com seu bichinho da curiosidade atiçado e foi atrás de respostas mais decentes. Foi assim que se aproximou do budismo e foi assim que começou a ler filosofia budista e praticar meditação por conta própria. A certa altura do campeonato, entretanto, algumas fichas mais pesadas caíram e ele acabou abandonando o dia-a-dia de universitário pra pedir ajuda aos universitários, abraçando a vida monástica na India.
Turtle Feet é o livro de memórias do período indiano de Grozni e cobre seus três anos de estudo de tibetano e dialética budista, bem como sua ordenação de monge do Budismo Tibetano e suas tremendas confusões ao lado de habitantes do underground de Dharamsala. À primeira vista, a contracapa de Turtle Feet engana pois promete uma visão ácida do autor a respeito das instituições monásticas. Mas, mesmo com opiniões contundentes e fatos curiosos pra sustentar seu ponto de vista, no fim o que Grozni faz é reforçar a necessidade de uma mente crítica e aberta para quem quiser ir além de um olhar superficial da vida, seja dentro de uma estrutura religiosa ou não.
Grande parte do livro, na verdade, é calcada nas muitas desventuras vividas por Grozni ao lado das figuraças que formavam seu círculo social em Dharamsala. A principal delas é Tsar, um refugiado da guerra da Iugoslávia sem documentos e nem dinheiro que também se ordenou monge mas que largou os mantos pra viver da ajuda de eventuais namoradas ou de negócios bizarros. O melhor de todos, sem dúvida, é a padaria que improvisa no seu barraco, instalando resistências elétricas direto no assoalho para usar o cômodo principal como forno.
Tsar é a grande estrela de Turtle Feet e, como personagem, serve de porta-voz das idéias mais dissonantes de Grozni. Durante toda a segunda metade da narrativa, Tsar discursa incansavalmente sobre o absurdo da existência humana enquanto procura por sexo e se mete em problema atrás de problema no que parece ser o roteiro perfeito para uma Sessão da Tarde. Sem passaporte, por ter jogado fora o seu durante uma crise de identidade, Tsar é um cara flutuando entre definições, sem nacionalidade, sem destino, sem plano de vida concreto, sem futuro. Ou seja, no fundo é como qualquer um de nós.
Ou seja, o que faz de Turtle Feet um livro interessante e cômico não são as dificuldades particulares que um ocidental enfrentou para se tornar um monge budista, mas sim as dificuldades universais de quem tenta se encontrar. Por mais bizarras e únicas que sejam as situações que Grozni viveu na India, a impressão que se tem é que por baixo de todas as cascas culturais e circunstanciais de cada capítulo, temos contato direto com o dramático e hilário recheio que se encontra dentro de qualquer pessoa em qualquer coordenada deste estranho planetinha.
Falar sobre longos retiros geralmente causa uns calafrios não é mesmo? Imagina deixar o conforto da sua casa, desfazer os laços (físicos) familiares, abrir mão de todo o vasto leque de distrações disponíveis e de todo o sistema social e psicológico em que crescemos em troca de ficar consigo mesmo, convivendo, conhecendo e se aprofundando na própria mente e seu vasto potencial durante mais de uma década em uma caverna pedregosa na India. Não é pra qualquer um, né? E não é mesmo.
Existem muitas boas lições na biografia da monja budista Tenzin Palmo, mas o fato de ser especificamente ela a protagonista de sua história é uma das mais importantes. Calma que eu já explico. Palmo nasceu Diane Perry no East London em 1943 e cresceu em uma família humilde, porém feliz, que se estruturou ao redor da figura materna após a morte do pai. Até os 20 anos, viveu uma vida “normal”. Brincou, estudou, namorou, dançou na swinging london, mas o bichinho da curiosidade espiritual a corroeu desde pequena. Buscou alimento para o bichinho em diversas religiões, mas a ficha caiu mesmo quando ela encontrou os primeiros e escassos ensinamentos budistas disponíveis no Ocidente através de alguns livros e conexões com intelectuais interessados no Tibet. A partir daí, uma peça começou lentamente a encaixar na outra: Diane conheceu os primeiros lamas budistas a aportarem na Inglaterra, se mandou pra India, quase casou na viagem de barco, se instalou em uma escola fundada por uma inglesa, deu aulas de inglês para lamas e finalmente encontrou o professor que a guiaria uma boa parte da vida.
A sede por realizar o potencial mais perfeito de sua mente a lançou numa busca constante por conhecimento e espaço para praticar o conhecimento adquirido. Para unir os dois, pediu ordenação de monja e, depois de alguns anos de estudo e serviços para a comunidade monástica local, partiu para meditar em uma caverna nos himalaias indianos. Desencorajada por muitos colegas (que julgavam uma mulher ocidental incapaz da empreitada) porém apoiada por seu professor, a agora monja Tenzin Palmo concentrou sua energia em uma série de retiros fechados nos quais ficava até oito meses sem ver ninguém (nem mesmo o sol no duríssimo inverno dos Himalaias). Na etapa final de sua trajetória de retirante, Palmo completou três anos em total isolamento até ser despejada da India por problemas legais com seu visto.
A volta à vida em sociedade, entretanto, não foi um fardo. Pelo contrário, a monja abraçou o novo capítulo em sua vida, colocando sua experiência a serviço de causas interessantes. Por um lado, Palmo passou a militar ativamente no meio religioso pelo reconhecimento dos direitos e das nuances femininas dentro das comunidades espirituais, geralmente organizações mais masculinas e de contornos patriarcais. Em outro âmbito, menos político e mais prático, viajou o mundo levantando fundos para a construção de um mosteiro para monjas tivessem condições de receber os ensinamentos completos, algo negado a muitas mulheres em determinadas tradições budistas.
Contada assim, rapidamente, a história de Tenzin Palmo tem sementes de fantasia. Tipo…. mulher-ocidental-larga-tudo-e-vai-viver-o-misticismo-oriental-na-caverna. Porém, Cave in The Snow dificilmente passa como conto da carochinha. A ida de Tenzin Palmo para a India não foi uma fuga repentina de alguém estressado com seu cotidiano ou a tentativa de realização de uma idéia juvenil. Foi, isso sim, uma peça no lego particular de uma menina desde cedo bastante encucada com os mistérios não exatos do universo. Quando ela falou para sua mãe que estava pensando em ir à India buscar ensinamentos, não recebeu olhares de espanto ou reprimendas, mas uma simples pergunta: “Quando você vai?”. A dona de casa de Bethnal Green conhecia bem a filha e sempre apoiou sua busca.
Esses e muitos outros detalhes tornam Cave In The Snow uma leitura interessante mesmo pra quem não sente nenhuma vontadezinha de ter um envolvimento tão intenso com a prática espiritual. Ao contrário do que poderia ser, o livro é dedicado a desmistificar os anos na caverna. Eles recheiam o livro mas não são de forma alguma o único fator de reflexão. Página após página, um paradoxo se constrói: por mais particular que seja a história de Tenzin Palmo, ela também é temperada fortemente com o viés das questões humanas universais: insegurança acerca de nossa identidade, medo da morte, a necessidade de recursos financeiros pra viver, amores não correspondidos, relações complicadas, as diferenças entre o mundo masculino e feminino, e a velha pergunta… no que vale a pena investir tempo da sua vida?
Para Tenzin Palmo, encontrar a resposta passava por ficar um bom tempo em retiro. Ela nunca teve dúvidas disso. Não sofreu com o isolamento. Encontrou sua vocação. Mas depois, ao precisar fazer uma difícil escolha, se viu de volta ao mundo cotidiano, viajando em turnês mundiais, dando ensinamentos e buscando fundos para a construção de um mosteiro. Dividindo o que descobriu na caverna.
Talvez cada um de nós tenha uma caverna nos esperando. Para alguns ela pode até estar nos Himalaias. Para outros, ela pode significar simplesmente algumas horas sem banda larga. Ainda há os que vão encontrar sua caverna ao se retirar de situações de isolamento e ao engajar-se em uma atividade. Quem sabe? A autora do livro e jornalista Vicky Mackenzie delega ao leitor, com a ajuda de livros inspiradores como esse, encontrar os paralelos e descobrir o seu caminho.
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Mais três coisas.
1. A Elka, que morava aqui no templo de Três Coroas, se mandou há alguns meses pra India com sua filha pequena. Ela vem escrevendo em um blog pra TPM sobre as experiências que está vivendo lá e também falou da Tenzin Palmo em um post de junho, que também traz algumas palavras sobre a situação das monjas e das mulheres na India.
2. O Guardian também fez uma matéria sobre ela (a monja) recentemente.
3. Existe um documentário bem simples mas bem bom sobre a trajetória de Tenzin Palmo. Se chama Cave in The Snow. Me foi copiado por um amigo. Não sei se você vai encontrar um torrent. Mas se encontrar, faça com eu: depois doe o valor de um DVD nacional pra causa da Tenzin Palmo.
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Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey.
Espiritualidade é um tema complicado de abordar num país como o Brasil. Vivemos uma espécie de paradoxo. Se temos uma população que se diz majoritariamente católica (83%), no dia-a-dia ela se ampara mais no sincretismo, na crença em santos particulares ou então na boa e velha reza aleatória na hora do desespero. Para deixar tudo ainda mais ambíguo, apesar de muitos não praticarem formalmente o cristianismo, a moral cristã meio que paira sobre a cultura do país. Ela não rege os desejos e não dá as cartas claramente, mas funciona como o eixo médio da nossa moral coletiva e qualquer duas horas de televisão aberta mostram isso. Mesmo os intelectuais do país costumam frequentemente se comportar como carolas: apontam, acusam, pedem punição.
No outro extremo do espectro, existe também, claro, uma adoração dos loucos desvairados como oposição à moral instituída, mas isso é apenas o outro lado da moeda. 99% das vezes que vejo alguém puxar o saco de algum “rebelde”, me parece mais birra do que qualquer outra coisa. A verdade é que raramente ambos conceitos, suposta perfeição e suposta imperfeição, convivem em harmonia.
Se na vida cotidiana eles são obrigados a conviver, o mesmo não acontece no imaginário popular. A ambiguidade no Brasil, acredito, é sutilmente bem vinda na prática, mas na teoria, no discurso ou na iconografia ela não pega bem. Somos um país de mulatos práticos que gosta do preto no branco teórico. Ainda que saibamos de todos os detalhes sórdidos sobre nossos santos/modelos/salvadores/representantes, preferimos os relegar a um papel secundário de seu caráter, recusando-nos a acreditar que o lado escuro da mente e do coração de alguém possa realmente fazer parte do seu todo.
Por isso, enquanto virginiano inverterado e maniqueísta eventual, achei tão inspiradora a leitura de Street Zen. O livro é a biografia do mestre zen budista Issan Dorsey escrito por um jornalista, colega praticante e amigo que escolheu abordar todos os aspectos da vida de Dorsey sem deixar nada de fora. Tudo é exposto, desde seu homossexualismo, seu trampo de drag queen e eventual garoto de programa, sua relação com anfetaminas, heroína e LSD, sua convivência com estratos baixos e considerados pervertidos da sociedade até sua trajetória como praticante zen, criador de um hospice pioneiro para pacientes de AIDS e reconhecido professor que… morreu de AIDS. Pra resumir, um outro mestre zen americano, Bernie Glassman, escreveu no prefácio que via Issan como “uma mistura de Lenny Bruce e S.S. Dalai Lama”.
O interessante da abordagem de Street Zen é que a primeira etapa da vida do biografado em momento algum é colocada como oposição à segunda. A jornada descrita no livro não segue o roteiro comum de “degradação, descida ao inferno, expiação dos pecados por meio do sacrifício e redenção”. É mais como se fosse tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. O lado outsider de Issan Dorsey, em vez de contraponto ao lado religioso, funcionou como base, como fundação, como fonte de incríveis ferramentas sociais e espirituais que ele utilizou mais tarde para ajudar os que habitavam as margens da conservadora sociedade americana dos anos 60, 70 e 80.
A trupe da qual Issan fazia parte como Tommy Dee.A mensagem aqui é uma só: por conta de nossas limitações, achamos que só os perfeitos alcançam a perfeição e Issan Dorsey vem para torcer completamente essa lógica injusta e inútil. A compaixão mais ampla não deixa nada nem ninguém de fora. Nem as pessoas que marginalizamos socialmente, nem nossos sentimentos e aspectos pessoais que marginalizamos mentalmente, escondendo no fundo do baú. Dorsey, segundo o livro, foi a personificação desse tipo de compaixão. Justamente por sua convivência com pessoas marginalizadas, por ter experimentado e visto de tudo, ele serviu de referência para os sem-referência. Ele abraçou tudo. O próprio autor da biografia diz que, se não fosse pelo amigo, talvez não se sentisse apto a praticar o budismo.
Como pano de fundo pra tudo isso, recebemos de brinde uma série de rápidas porém valiosas contextualizações: o surgimento da cena psicodélica em San Francisco; a chegada de Suzuki Roshi (um grande mestre zen budista) aos Estados Unidos e o desenvolvimento de sua comunidade, com direito a escândalos cabeludos protagonizados pelo seu sucessor; a intersecção do mundo gay de San Francisco com as comunidades espirituais; e os primeiros baques ali causados pela AIDS.
Street Zen é de escrita simples, fluída e direta. Uma boa parte das histórias vêm contada em primeira pessoa, por Issan ou por companheiros próximos. Dessa forma, em dois ou três capítulos você já se sente íntimo dele e lá pela página 200 bate uma certa melancolia porque os dois estão chegando ao fim: o livro e o protagonista. Issan morreu em 6 de setembro de 1990 de complicações ligadas à AIDS, no próprio hospice que criou, cercado de amigos e experimentando na prática lições básicas do budismo que vinha ensinando: compaixão e, principalmente, a impermanência.
Vertido das páginas do diário pessoal do autor, o relato dos últimos dias de Issan são crus e perturbadores. Sensacionalismo? Não. Uma narrativa que se pretendia tão aberta quanto seu personagem principal realmente não poderia se eximir e deixar de fora o momento de maior significado da história de Issan e que Suzuki Roshi chama de “O maior professor”: a morte.
Desesperador, desagradável e incômodo, muitas vezes é melhor nem tocar nesse assunto. Mas, se for pra tocar, melhor que seja assim, como Issan fez, de forma completa. Mesmo sofrendo e com dificuldades físicas, ele deixou sua última lição ao abraçar a morte da mesma forma que abraçou a vida.
Wallace à direita de S.S. Dalai Lama
Um dos mais importantes nomes mundiais do estudo da consciência vem de novo ao país no mês que vem pra conduzir um retiro e dar uma série de palestras promovidas pelo CEBB. De 4 a 15 de junho, o físico e ex-monge budista vai passar pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Viamão para falar sobre a convergência entre o método científico e o método contemplativo de investigação da consciência.
Wallace tem uma trajetória inspiradora, que reflete o tema de suas palestras: sua vida é, em si, a convergência de ciência e espiritualidade. Sua busca começou nos anos 70, década na qual foi ordenado monge por S.S. Dalai Lama. A seguir, passou a ensinar meditação e filosofia budista bem como servir de tradutor para diversos mestres budistas. Depois, iniciou uma vivência acadêmica que começou com o estudo de física e filosofia da ciência e um PhD em estudos religiosos em Stanford.
Hoje, ele é uma das principais interfaces no diálogo entre cientistas e contemplativos religiosos, atuando frequentemente em conferências, construindo produtivas pontes entre a filosofia budista, a psicologia, a filosofia e os conceitos da ciência moderna. Esse é um dos principais objetivos do Santa Barbara Institute for Consciousness Studies, que Alan Wallace dirige em parceria com profissionais como o psicólogo americano Paul Ekman, uma figura quase pop, célebre por seus estudos das emoções relacionadas às expressões faciais.
Alan Wallace no Google Tech TalksMas, afinal de contas, o método científico não dá conta sozinho disso? Bom esse encontro de diferentes visões é fundamental na busca por uma compreensão mais ampla e prática da consciência e de seus diferentes estados. Pelo pouco que li é assim: os estudos científicos são produzidos a partir de medições objetivas e externas à consciência. Não existem aparelhos que pentrem os pensamentos, as sensações, as percepções, os conceitos que uma pessoa experiencia. Só é possível medir a atividade cerebral.
Uma vez que a consciência é uma experiência fundamentalmente subjetiva, a contribuição de pessoas com um extenso treinamento contemplativo (como a meditação) traz complementos valiosos na descoberta de caminhos para a investigação científica dos aspectos mais profundos da mente. Alguém que navega bem pela sua própria mente, com clareza e disciplina, pode ajudar de forma mais eficiente a responder questões como: do que é feita a consciência? Como ela é? Que tipo de condições internas a satisfazem? Qual a fonte do bem estar e da sanidade mental? Como ter uma mente estável, saudável, sem depender intensamente de fatores externos? Como não ser chachaolhado ao sabor dos ventos sem criar uma fortaleza emocional intransponível que acaba sendo obstáculo a muitas experiências da vida?
Alan Wallace, Lama Padma Samtem e Chagdud Khadro em Viamão/RS.As respostas para essas perguntas são detalhadas em muitas tradições contemplativas, mas geralmente não tem respaldo científico e por isso são consideradas inválidas em muitos âmbitos sociais, médicos e acadêmicos. Pessoas como Alan Wallace, S.S. o Dalai Lama, o Lama Padma Samtem e Yongey Mingyur Rinpoche (entre tantos outros, inclusive de outras tradições) vem trabalhando pessoalmente no sentido de produzir encontros frutíferos que resulte em ações práticas e programas educacionais facilmente acessíveis por pessoas que não desejam se engajar em alguma prática religiosa.
Se você lê esse blog, certamente se interessa de alguma forma pelas novas relações que estamos formando com a tecnologia e através da tecnologia. A capacidade de prestar atenção, entre outros aspectos cognitivos, é um dos tópicos mais discutidos nesse sentido. Então, não perca a oportunidade de ouvir a eloquência e o conhecimento de uma pessoa que é TÃO referência quando o assunto é estudo de consciência. Poucas vezes temos acesso direto a fontes tão qualificadas.
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Leitura complementar:
- Entrevista com Dr. Wallace na Istoé.
- Li e recomendo. Como Lidar com as Emoções Destrutivas: pela capa, esse livro tem a maior cara de auto-ajuda, mas na verdade é um minucioso documento sobre um diálogo de cinco dias de cientistas com S.S. Dalai Lama sobre as emoções humanas. É um panorama rico, com visões da neurologia, biologia, psicologia e budismo. O Alan Wallace é um dos protagonistas desse encontro promovido periodicamente pelo instituto Mind and Life.
- Não li, mas recomendo. Livros em português do Alan Wallace: A Revolução da Atenção (sobre a importância da atenção e do foco sustentado como base pra uma mente saudável) e Budismo com Atitude (sobre a importância do ajuste de ações e atitudes como parte do caminho contemplativo).
E era isso!
Uma das questões que ainda quero tratar no blog é sobre o efeito fragmentador de trabalhar muitas horas na frente do computador, ainda mais quem lida com comunicação e publicidade, áreas dinâmicas nas quais há pouco prazo para tudo e os projetos acontecem em curtos espaços de tempo. Nossa mente, que já temos por costume manter agitada e ocupada mesmo quando não fazemos nada, adora esse monte de janelas abertas simultaneamente e o caminho quase infinito que os hyperlinks permitem. Tenho dificuldades com isso. É distração que não acaba mais, um buffet atraente. Só que não é a distração, ao contrário do que o senso comum prega, a base da satisfação e sim a atenção.
O vídeo acima traz informações mais exatas sobre a prática de meditação. No primeiro vídeo o repórter fala sobre “tentar não pensar” e eu, particularmente, não aprendi dessa forma. Tentar não pensar é lutar e treinar luta dentro da mente não dá certo.
Existem muitas técnicas de meditação dentro de muitas tradições. Existe até mesmo meditação caminhando, uma prática que parece coisa de bicho grilo mas que é muito interessante e eficiente, especialmente pra quem tem dificuldade de ficar sentado, parado.
Se alguém se interessar, o ideal é buscar orientação adequada de um professor confiável e não ficar só nas reportagens de TV e de revistas semanais, ou mesmo tomar um livro como mestre. Bom proveito.
Fleet Maull não é primo do Darth Maul. O cara, na verdade, parece mais um típico produto da contracultura americana dos anos 60. Adolescente, desafiou sua bem estruturada família se envolvendo com todos os tags do gênero: filosofia oriental, LSD, sexo livre, protestos antiguerra e por aí vai. A vida lôka de Maull o levou, em certa altura, até o Peru, onde abandonou a detonação em troca de um cotidiano pacífico lendo textos budistas e taoístas enquanto trabalhava em uma pequena fazenda junto do povo Quechua. Numa quebrada, entretanto, Fleet Maull pegou a contramão e começou a vender cocaína “inocentemente”, aqui e ali, de vez em quando, pra sustentar sua vida de vagabundo em busca da iluminação. Em 1974, ainda imerso na correria, leu na Rolling Stone um artigo sobre Naropa, a universidade budista do Colorado que teve como criador o tibetano Chogyan Trungpa Rinpoche e como professores alguns remanescentes da cena beatnik, sendo o mais conhecido o poeta Allen Ginsberg. Voltou na hora pros Estados Unidos com sua mulher peruana e o filho recém nascido. E se inscreveu em Naropa.
Mesmo estudando, praticando o budismo e em busca da sua graduação em psicoterapia contemplativa (que conquistou em 79), Maull não largou seu envolvimento pontual com o tráfico e uma hora acabou preso. A casa caiu e, pela primeira vez, seu professor, Chogyan Trungpa, e seus amigos da comunidade de praticantes budistas descobriram seu lado B. Ao se consultar com Trungpa Rinpoche sobre o que deveria fazer, se deveria fugir, o mestre foi categórico: disse que ele deveria encarar a situação de frente e que continuar suas práticas contemplativas encarcerado seria mais fácil do que em fuga. O aluno encarou, então, 14 anos de prisão nos quais aproveitou para chafurdar nos próprios demônios e transcendê-los através da meditação.
Embora palavras como “meditação” e “contemplação” levem a grande maioria das pessoas a pensar em algum tipo de letargia, inação, resignação ou ainda de um estado mental sublime, a prática em si é bem diferente. Na meditação, o praticante lida direta e cruamente com a agitação da sua mente, os pensamentos, os conceitos, os medos, as esperanças, enfim, o que é considerado o nascedouro de suas ações. Um dos predicados da meditação é eliminar as inúmeras distrações que criamos para evitarmos enxergar certos aspectos da nossa própria mente. Em um local tranqüilo e adequado, o contato nu com a essa massa turbulenta de pensamentos exige doses iguais e alternadas de firmeza e leveza. Em uma prisão, com seu cotidiano intenso, rude, amargo, o furo é bem mais embaixo.
Maull, contudo, não estava disposto a ceder e concentrou todas suas forças em familiarizar-se com o lado mais negro da sua mente e atravessá-lo com compaixão e amor em vez de multiplicar a mágoa e o ressentimento. Foi além e também não guardou suas descobertas para si, iniciando e conduzindo grupos de meditação dentro da prisão. De lá, também criou e administrou a Prison Dharma Network, uma rede de apoio a práticas contemplativas para presos.
Lendo uma entrevista de Maull à revista budista Trycicle, não pude deixar de pensar na matéria da última Rolling Stone a respeito dos eventos de violência espetacularizada na mídia brasileira em 2008. Nela, o jornalista investigativo Claudio Julio Tognolli esmiúça as implicações dos casos de Isabella Nardoni, Eloá Cristina e João Hélio conversando com médicos legistas, psicanalistas, familiares e um côro de vozes ligadas de alguma forma a cada situação. Todos batem na mesma tecla ao declarar como a humanidade nunca deixou de lidar com casos de violência juvenil desse calibre e que a teatralização, a exposição editada e intensa, é que é a grande novidade. A dita teatralização tem diversas implicações, mas duas delas são as mais tristes, a meu ver.
A primeira é retirar o impacto das mortes. Nunca vou me esquecer do escritor Guillermo Arriaga, ex-parceiro do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu e roteirista de filmes como Amores Brutos, Babel e 21 Gramas. Notório por colocar o espectador em tremendo desconforto devido à forma como inclui a morte em suas histórias, Arriaga esclareceu, em uma entrevista ao Programa Roda Vida, que deseja com isso resgatar o impacto da morte na ficção, de tanto que a sua estilização não só no cinema mas nos noticiários nos deixa anestesiados. Ao longo das últimas décadas, desenvolvemos a incrível capacidade de ver toneladas de pessoas serem metralhadas em filmes sem sentir um pingo de compaixão.
Nos noticiários de casos como os citados acima, obviamente há sempre uma sensação de tremendo desconforto e tristeza pela vítima e seus parentes. Mas o nó no estômago não vai além de um intervalo comercial e não se traduz em um significado mais profundo. Veja bem, não estou nem cobrando ação. Citando o finado diplomata José Guilherme Mequior, a matéria da Rolling Stone lembra que “as pessoas gostam da mídia porque ela em geral não produz significados, mas efeitos”. A geração de sensações em frente à TV ou à tela do cinema é sedutora porque não exige mais do que isso, um envolvimento sensorial, quase estomacal, com as equações resolvidas na hora por uma turbulenta combinação de hábitos mentais ligados à auto-proteção. Tudo é rapidamente classificado pela mente de forma a erigir muros e separações entre “eu” e a “dor”. Assim, a martirização pública não alavanca discussões, apenas emoções. E ainda ficamos reclamando de falta de ação sem nem ao menos notar que o passo anterior à ação, a reflexão, ainda não foi resolvido.
O que nos leva ao segundo aspecto perverso da teatralização: somos co-criadores da tragédia. Não ao deixar de agir, mas ao trocar a reflexão pela emoção viciante da “monstrificação”. Criar monstros não é trabalho exclusivo da mídia, mas conta com a participação ativa do espectador, que, ao “monstrificar” pessoas com comportamento ultraviolento, dão origem a poderosos personagens coletivos que traçam uma clara linha de separação: eu nunca faria isso que ele fez, logo, não sou um monstro.
Nesse processo, todos são desindividualisados, desfigurados. O criminoso é o “monstro”, a vítima e seus familiares são os “coitados”. Jornalistas, editores, câmeras, apresentadores, fotógrafos são “a mídia”. Policiais, delegados, investigadores, legistas são “a polícia”. Populares na porta da delegacia, espectadores em frente da TV, leitores de jornal são “as pessoas”. Dessa forma, o “monstro” deve ser eliminado, a “mídia” espetaculariza, a “polícia” não resolve os problemas e “as pessoas” são foda. As “vítimas”, sei lá. Elimnando-se o monstro, diminui-se a dor, quem sabe. Enfim. Desumanizamos automaticamente todo o sistema e nos retiramos dele arbitrariamente. Transformamos todos os seres envolvidos no caso em uma massa disforme de conceitos vagos. Assim fica fácil.
O que o caminho de Fleet Maull tem a ver com tudo isto? O ponto que liga os dois assuntos é a rejeição do teatro de forma clara, não se deixando levar pela indignação emotiva e inútil. Maull, ao que tudo indica, escolheu deliberadamente cortar o teatro e lidar diretamente com a negatividade da sua mente. Perseverou sistematicamente até descobrir a ponta do durex, de onde poderia puxar os aspectos mais claros do seu interior. E depois buscou uma forma de compartilhar essa liberdade que todos buscamos.
Como diz um clássico e profundo texto da filofosia budista, é difícil cobrir com couro um mundo inteiro cujo chão é feito de espinhos. Mas você pode cobrir seus pés com couro e não se machucar. Mais ainda, você pode compartilhar com outras pessoas a habilidade de procurar o courto, cortar e amarrá-lo nos pés. Não buscando cumprir o velho plano de um mundo sem espinhos, mas de oferecer a cada pessoa a liberdade de não se machucar.
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PS:
1) as imagens desse post são de detentos ligados à Prison Dharma Network.
2) Tem mais uma entrevista transcrita com Fleet Maull (em inglês) aqui e uma em vídeo aqui.
Pô, olha que legal… eu tava desde a semana passada querendo postar esse vídeo aqui, mas meio com o pé atrás porque só tem inglês. Apesar de achar que a maior parte da audiência do Conector entende um certo inglês aê, não queria deixar ninguém de fora dessa ótima palestra. Mas então achei uma versão com legendas em português, dividida em três partes, cortesia de uma galera que vem generosamente traduzindo os vídeos do TED Talks.
Essa apresentação traz o monge budisa, escritor e fotógrafo Matthieu Ricard. Nos vinte minutos que o TED lhe concedeu, o monge Ricard destilou seu bom humor ao explicar de forma simples e útil os benefícios do treinamento sistemático da mente para buscar a tal da felicidade. O próprio conceito de felicidade é escrutinado e questionado na palestra. Acho que é o tipo de reflexão que não fazemos com muita frequencia, o que liga exclusivamente a felicidade a eventos, objetos ou circunstâncias externas à mente. Uma roubada total.
Além do background budista, Matthieu Ricard também tem proximidade com o pensamento científico por ter sido bioquímico formado no Instituto Pasteur. Isso faz dele tradutor e braço direito de S.S. Dalai Lama, especialmente em frutíferas conferências de diálogo entre a ciência e o budismo como os encontros do Mind and Life Institute.
Aproveita…
Não tenho muito bem certeza, então em vez de começar, eu continuo. Da última vez que sentei aqui para escrever eu desejei lucidez para todos, então expando um pouco mais o assunto pra deixar claro do que estou falando. Porque, afinal de contas, lucidez é como bom senso: tanto os políticos israelenses como os palestinos do Hamas acham que a sua é que é a real.
A lucidez de que eu estou falando não é a do senso comum, é outra. A lucidez em que eu acredito, de que eu tenho ouvido falar e estudado nos últimos anos diz (entre outras coisas, vou simplificar) que a nossa mente é responsável pela forma como experimentamos os ditos “fatos da vida”, seja uma gripe, uma festa, um pé na bunda ou uma guerra. Então, basicamente, essa é a lucidez que eu estou desejando: compreender como a mente experimenta o mundo, logo compreender como construímos a vida que levamos e como nos libertarmos de situações aprisionantes. Temos responsabilidade sobre o que nos acontece individual e coletivamente. Sei que essa é uma frase esquisita pra se proferir no Brasil, o país no qual a culpa é sempre DELES (sejam ELES quem forem).
A noção de que não existe uma realidade objetiva “lá fora” separada do que pensamos “aqui dentro” não é difícil de compreender e até rende boas conversas de mesa de bar. Mas se a coisa ficar nesse nível, nada muda, tudo fica na mesma. Meu desejo para dois mile nove não é, então, que a lucidez caia do céu na cabeça de todos, mas que cada um encontre exemplos vivos de lucidez (não livros ou tutoriais) que sirvam de referência (muito cuidado ao escolher as suas) para que a lucidez possa ser treinada e praticada (e não apenas lida, comentada, citada ou reclamada).
O que é lucidez pra você? Quem serve de referência? Como você a coloca em prática? Tem os comentários mas a pergunta é puramente retórica porque eu já estou quase me sentindo um escritor de auto-ajuda… não sei se é uma boa forma de começar o ano, mas enfim… vamolá…
Voltei. E voltei inspirado. Não sei exatamente inspirado pra quê. Quer dizer, até meio que sei, mas não vou contar. Você vai descobrindo ao longo dos próximos meses. Ou anos. Junto comigo.
Como disse no post de despedida, estive participando da Consagração da Terra Pura de Padmasambava, um templo tradicional do budismo tibetano construído aqui perto de Porto Alegre. O evento reuniu cerca de 600 pessoas do mundo todo. Do mundo todo MESMO: Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela, Alemanha, Austrália, Inglaterra, Nepal, Tibet, Butão, Estados Unidos e por aí vai. Foram dias históricos para os praticantes do budismo tibetano no Ocidente, não apenas pela inauguração do templo (idênticos a esse só existem mais dois no oriente) mas pela reunião de professores incríveis que raramente são vistos juntos devido a compromissos com suas próprias comunidades.
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Para alguns amigos, eu expliquei assim: é uma espécie de Tim Festival (dos bons) do budismo tibetano. Uma oportunidade única de ver e receber ensinamentos de professores que nem sempre aparecem por aqui. Melhor: é como se o Tim Festival de 2005 acontecesse em 1992, época rarefeita em termos de shows internacionais.
Tive a incrível oportunidade de voluntariar na produção do evento, ajudando nas mais diversas frentes, o que me permitiu viver uma experiência única em termos de organização de trabalho (como o Eduf vem frisando no Magaiver). Nos últimos dois anos, eu venho participando de grupos de discussões na agência a respeito de processos, produtividade, essas coisas. Por isso, me chamou a atenção a forma como a comunidade de voluntários se organizou para fazer acontecer a Consagração. Foi um exemplo de… fazer acontecer.
Não existe um grande segredo místico por trás, apenas centenas de pessoas trabalhando com um objetivo comum e, mais do que isso, acreditando profundamente nesse objetivo comum, corporificado por exemplos vivos, pessoas de carne e osso que servem como referência. Falando assim parece o mais baixo dos textos de auto-ajuda corporativa. Mas é isso mesmo. O discurso das brochuras de cursos de gestão e liderança não estão errados. A prática é que é muito difícil de ser implementada. Sobretudo pela falta de dois aspectos: uma filosofia genuína a ser compartilhada (e não imposta ou comprada) e exemplos genuínos que sirvam de real referência humana.
Todos os professores enfatizaram o aspecto inspirador e simbólico da construção da Terra Pura. Não é apenas um lugar para budistas levarem adiante suas práticas, mas uma expressão direta da pureza da mente de cada um de nós, independente da sua crença ou ausência dela. No budismo, se acredita que obstáculos como raiva, orgulho, apego, desejo, inveja e ignorância não são aspectos que fazem parte da natureza da mente, mas são obscurecimentos. A metáfora do sol é muito utilizada pra explicar isso. Vamos lá.
A natureza da mente (de todos, não apenas de budistas) é como o sol, brilhante, pervasivo, e as chamadas “emoções perturbadoras” são como as nuvens: o sol não pára de brilhar quando está nublado, nós só não o enxergamos por conta das nuvens. A intenção de construir um lugar como a Terra Pura é expressar diretamente os aspectos mais puros da mente e inspirar em cada um a busca de um caminho pra remover os obscurecimentos.
Não que seja fácil, mas taí uma bela placa de orientação na autopista.
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De volta ao Conector.
Fiquei maravilhado de ver as contribuições dos amigos que convidei pra postar enquanto estava fora. Trouxe um outro colorido pro Conector e expandiu a minha intenção no dia que criei o blog: conectar diferentes assuntos. Gostei tanto que estou pensando numa forma de regularizar as contribuições. Especialmente no departamento da Autopista. Estou pensando em colocar mais vezes por semana. Ou dar um blog só pra ela. Se você tiver uma opinião a respeito, expresse-a nos comentários.
Amanhã eu expando um pouco o assunto dos meus colaboradores.
Em 1966, o jovem Edward Esper Brown estava trabalhando na cozinha de um resort em São Franciso. Em 1967, ele continuava na mesma cozinha, no mesmo lugar, mas agora fazia parte de um centro zen budista, entremeando suas atividades culinárias com a meditação. Isso porque no fim de 66, o resort comandado por Robert e Anna Beck foi vendido a uma comunidade zen budista e transformado no Tassajara Zen Mountain Center, o primeiro monastério da linhagem Soto-Zen nos Estados Unidos.
Brown foi aluno de Suzuki Roshi, um dos pioneiros no ocidente a desbravar a floresta de longos cabelos hippe abrindo picadas de lucidez e estabelecendo a base para a exploração de uma espiritualidade que fosse além de viagens lisérgicas imersas em auto-ilusão. Em 1970, o estudante foi ordenado professor por Roshi, atividade que levou adiante em paralelo com sua carreira de chef.
Fazendo a ponte entre a visão zen e a sabedoria de chef, Ed Bronw escreveu um livro que até hoje é considerado uma bíblia de bakery (qual seria a tradução? padaria?): The Tassajara Bread Book. Na sequência, ao longo de quase duas décadas, vieram The Tassajara Cooking e The Tassajara Recipe Book. Em 2006, 36 anos depois do primeiro livro, Brown virou tema de um dos mais interessantes documentários que eu já assisti nos últimos tempos. Em How To Cook Your Life, a cineasta Doris Dörrie, aluna de Brown, registra uma das oficinas do chef/mestre na qual ele ensina que o ato de cozinhar e o ato de meditar são caminhos muito parecidos.
How To Cook Your Life não é didático tampouco moralista. Portanto, foge da prateleita da auto-ajuda e flutua entre categorias. É um documentário mas não se limita a documentar; é sobre cozinhar, mas com ingredientes que estão dentro de nós; é sobre uma religião, mas em vez de pregar, seu objetivo é muito mais derivado da origem da palavra religião, o ato de religar. Algo fundamental quando, segundo a diretora do filme, ”nós nos tornamos especialistas em nos desconectarmos.”
Cena após cena, How To Cook Your Life não só retrata o dia-a-dia no curso liderado por Edward Espe Brown como oferece uma experiência imersiva: a trilha, a edição, o clima como um todo do filme transporta você por um tempo para uma outra batida. É assustador perceber que falar na necessidade de baixar o ritmo em um mundo cada vez mais acelerado virou clichê. Mas é reconfortante ver que existem maneiras tão atraentes e eficientes de fazê-lo. Isso é How to Cook Your Life.
O filme entrega uma sequência inspiradora atrás da outra. Mas uma em especial me marcou muito.
O rosto do chef e professor aparece muito próximo de nós. Os olhos dele são calmos porém intensos. É possível ver as rugas de expressão, bem como cada vinco da pele. Esse é Justamente o assunto que ele levanta, mostrando as antigas chaleiras da cozinha. As palavras não são exatamente estas porque não estou com o filme aqui. Mas é mais ou menos isso:
“Um dia eu estava olhando para estas chaleiras e percebi como elas são marcadas, amassadas, queimadas, por terem sido usadas por tantos anos. E percebi que nós somos assim também. A vida deixa marcas. A vida faz isso com os seres humanos também, ficamos marcados. Mas…”
Os olhos de Brown se enchem de lágrimas, porém ele continua sereno e com um leve sorriso.
“… eu também percebi que mesmo amassadas e queimadas as chaleiras ainda servem às pessoas. Ainda podemos usá-las pra esquentar água ou fazer café. Então eu percebi que também poderia ajudar as pessoas.”
How To Cook Your Life não saiu no Brasil, mas dá pra comprar na Amazon ou achar algum torrent da vida por aí.
Já escrevi aqui sobre isso: a Terra Pura de Padmasambava é mais uma das séries de construções do Khadro Ling que estão sendo erguidas pra inspirar qualquer um que tenha contato com ela, seja budista ou não. O site da parada tem a mão de gente que talvez você conheça, como o Eduf, o Pinheiro e este que vos escreve.
Em dezembro vai acontecer a consagração desse monumento recheado de estátuas e pinturas incríveis que estão sendo finalizadas por artistas butaneses e nepaleses junto a um time multicultural.
A Keep Going Movies está, aos poucos, colocando uma série de vídeos que contam os bastidores do projeto. Vale a pena dar uma olhada.

A revista mais legal do Brasil conseguiu completar um ano de vida na ascendente em termos de qualidade gráfica e de conteúdo. Conector esteve presente desde o primeiro número, começando com essa entrevista do Jonathan Harris e depois estabelecendo uma coluna sem muito estilo ou assunto definido. Eu esqueci de divulgar o lançamento da número 5, então aviso que a 6 está por aí e abaixo vai o texto que saiu na 5.
foto daqui
Oficina de Zen-Shiatsu
Uma pessoa deitada à minha frente no tatame. Uma pessoa: dois braços, duas pernas, uma cabeça, tronco e, destaco, uma mente. Cobrindo uma parte considerável do corpo, há músculos enrijecidos – não por musculação ou exercícios, mas pelo simples andar intenso dos dias. É assim com todos. De diferentes maneiras, todos usamos um pouco nosso corpo como depósito do que nos acontece. Como um armário, as coisas vão se empilhando. Como um armário, existe uma parte mais aparente (que algumas pessoas costumam dar uma ajeitada rápida) e outra mais profunda, cuja limpeza demanda, mais do que atenção, um bom motivo para ser mexida.
Dois polegares, trabalhando juntos, em dupla, são instrumentos eficientes no lidar com esse armário. Eu me curvo o mais atento que é possível naquele dia (às vezes não muito), junto os polegares e deixo que o peso do meu corpo chegue até os polegares. Eles pressionam o músculo endurecido enquanto respiramos: eu, a pessoa no tatame, meus polegares, seus músculos, meus pensamentos, seus ruídos. Todos damos uma boa respirada, caso eu consiga não cruzar a linha que determina quando termina a intenção e quando começa a invasão.
Quando aplico zen-shiatsu em alguém, também recebo. Sem o músculo doente, não haveria a possibilidade de promoção dos meus polegares. O refino da minha atenção (e da minha intenção) é, nesse caso, totalmente dependente do músculo duro empurrando meu dedo de volta. Sua resistência é causa de mudança em mim também. A força contrária viaja pelos meus polegares e toma conta de toda minha pessoa. A inspiração, a expiração, a inclinação e a consciência são convidadas a dançar. Sem precisar ir a uma festa, a dança me faz mais suave, mais alegre e mais ligado.
Não dá para dizer exatamente onde começa e onde termina o zen-shiatsu. E nem qualquer atividade. Com a música é a mesma coisa. Há uma intenção de tocar, cordas sendo manipuladas, som produzido, ouvidos recebendo o som e uma mente processando tudo. Nada disso sozinho constitui um show. O ouvido que bem recebe e o ouvido que mal recebe também são responsáveis pela experiência. Nada é mérito próprio, não há um elo ou uma figura singular que possa apreender o sucesso ou mesmo o fracasso. São todos veículos fluídos.
Da mesma forma, essa é uma compreensão inútil sob a forma de estalo ou epifania. Em outras palavras: é fácil absorvê-la em nossos elaborados esquemas intelectuais. Mas é um pouco mais trabalhoso integrá-la de forma prática ao dia-a-dia. Sem a repetição continuada por anos a fio, não haverá familiaridade com a idéia de que você co-escreve essa coluna comigo a cada palavra que lê. E tudo terminará apenas como um gancho para um final espertinho de texto.
espaço
reservado
para descansar
a mente.
Em Três Coroas, a uma hora e meia de Porto Alegre, existe o Chagdud Gonpa Khadro Ling, um centro budista com diversos monumentos e um grande templo que abriga cerimônias e retiros. O complexo todo também é aberto à visitação e virou ponto turístico obrigatório no circuito da serra gaúcha. Tudo lá é construído a partir da orientação de mestres realmente roots e com a ajuda de trabalhadores voluntários que são praticantes budistas, em grande parte brasileiros e americanos. As obras mais elaboradas, no entanto, costumam exigir a presença de artistas butaneses, tibetanos ou nepaleses devido à complexidade da execução.
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Nesse último fim de semana eu tive uma oportunidade incrível: ajudei o pessoal do Khadro Ling a registrar entrevistas dos artistas butaneses e nepaleses que estão trabalhando no mais recente projeto do centro.
A “Terra Pura de Padmasambava” é um templo com 3 andares que estão sendo preenchidos com estátuas e pinturas incríveis, constituindo numa réplica perfeita da morada simbólica de Padmasambava, o mestre indiano que levou o budismo da India ao Tibet e criou toda uma classe de ensinamentos budistas que ainda hoje são praticados e fazem total sentido.
Alguns dos artistas estão há cerca de cinco anos no Brasil e a presença deles por aqui é uma pequena e discreta jóia cultural e espiritual.
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A arte desses cara é indissociável da prática espiritual. Você aprende as duas coisas juntas. Esse tipo de abordagem artística geralmente causa um certo desconforto em nós, acostumados à ditadura da expressão individual – que é uma ditadura, vamos combinar.
Na hora de construir a pauta para as entrevistas, eu sugeri que se perguntasse a eles como é fazer arte sem estar ligado à questão espiritual ou religiosa e a pessoa com quem eu estava trabalhando falou: “Nem perca seu tempo, não existe isso pra eles”.
Ou seja, não existe essa coisa de “arte pela arte”. O que eu, enquanto músico obcecado pela identidade das músicas que componho junto com meus colegas de banda, blogueiro preocupado com a linha do meu blog, acho ao mesmo tempo assustador e desafiador.
Comentando isso, não quero cair no precário clichê de que “os orientais são mais profundos que os ocidentais”, pelo contrário. Até que se prove o contrário, são todos seres humanos. Mas é justamente esse choque de possibilidades, parâmetros e visões diagonais que produz novas formas de ver as coisas.
O pensamento que mais me vinha à mente ao longo das entrevistas ou quando eu estava por lá vendo o trabalho era: “O que eu estou fazendo aqui?” Não estou falando da questão existencial da vida, mas propriamente de estar lá olhando aquelas estátuas e pinturas. O que eu estava fazendo lá? Olhar estátuas, pinturas, rezar…
O melhor é isso, não? Não existe uma boa resposta para isso. Eu posso escrever parágrafos inteiros justificando, mas e daí? Ainda assim, eu tenho esse hábito de explicar… mas vou poupá-los… pobre da minha mulher, que ouve toda a intelectualização…
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Existem outros clichês que são verdade: a paciência, a dedicação e o detalhismo na execução das tarefas. Mas isso, eu me dei conta à pouco, não é exclusividade de artistas orientais. Os bons artistas, em geral, não costumam ser vagabundos, mas gente incrivelmente focada e trabalhadora.
Vale dar uma olhada também no blog da artista brasileira Tiffani Rezende. Ela passou anos estudante arte sacra tibetana e está pintando um outro templo budista em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre.
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Esse tipo de energia, focada, direta e respaldada pelos ensinamentos de grandes mestres espirituais, têm a capacidade de construir um lugar altamente inspirador. Não é como se simplesmente qualquer um sentasse lá e começasse a tirar do papel um projeto arquitetônico tradicional do Tibet. É mais do que isso: é intenção compassiva e energia de alta qualidade moldando cimento, barro e tinta com o único intuito de inspirar as pessoas a se reconectarem com sua natureza mais básica e tranqüila.
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Pensamento vai, pensamento vem, parece que eu vou ficando em cima do muro. Mas é porque não estou conseguindo, de fato, passar algumas coisas que eu estava sentindo. O melhor é o seguinte: dêem uma boa olhada nas fotos, aguardem um novo site sobre a obra que vem por aí e se preparem que no final do ano a Terra Pura de Padmasambava vai ser consagrada e aberta à visitação pública.
Antes de mais nada, olha q barato esse clip que alguém aí fez pruma música do Grey Album. Tá ligado no Grey Album não? White Album dos Beatles + Black Album do Jay-Z pelo DJ Dangermouse (que depois criou o Gnarls Barkley e produziu o excelente segundo Gorillaz), talvez o primeiro grande clássico da cultura mashup, se é que dá pra dizer assim… john lennon no break, sensacional…
Um show inteiro do Spiritualized em versão acústico + cordas + backing gospel. Comecei a ouvir e achei meio chatinho, mas ainda vou dar uma chance, acho q vale a pena tentar.
Resumindo: o Chaves e mais outros dois ilustradores/designers fizeram uns puta desenho enormes que foram aplicados em uma enorme chapa q foi cortada de forma que virou centenas de palmilhas para a série Custom Brasil Series II. O tênis desenhado pelo Chaves leva o nome do skatista Cezar Gordo e foi inspirado na pista aqui do IAPI.
Mais aqui no site Pico dos Sonhos.
O estado das coisas pela monja budista Ven. Tenza Palmo.
Bom finde a todos.
Em 1990, Chris McCandless, filho de um cientista da Nasa, se formou em História e Antropologia, doou sua poupança de 24 mil dólares para a caridade, e partiu para uma viagem pelas estradas da America sem avisar sua família. Nos dois anos seguintes, ele queimou todo o dinheiro restante na carteira, abandonou sua identidade, assumiu o nome de Alexander Supertramp e passou a viver anônimo entre os espaços abertos & selvagens dos Estados Unidos, as beiras das estradas e os sub-empregos que são o sustentáculo da parte menos glamourosa e mais dura da sociedade americana.
Em 1992, sua jornada à base das idéias de Jack London, Leon Tolstoi e Henry David Thoreau terminou de forma trágica após se meter numa floresta fechada e gelada do Alaska. Chris/Alex foi encontrado por caçadores, morto dentro de seu saco de dormir em um ônibus abandonado que lhe servira de morada. Até hoje é incerta a causa mortis, que fica entre a inanição (devido à falta de habilidade de Alex em conseguir alimento na natureza selvagem) e a intoxicação (por ter comido sementes cobertas por fungos tóxicos).
Do boca-a-boca na comunidade alasqueana, a história pulou para as páginas da prestigiada revista Outside nas mãos do editor Jon Krakauer. A matéria gerou polêmica e alguma revolta: se para nós, seres urbanos, havia algum tipo de fascínio na viagem anti-materialista de Mc Candless (o tipo de aura que só se acentuou com sua morte), para os experientes caçadores e habitantes do Alaska, Krakauer foi condescendente demais com a imaturidade e o entusiamos juvenil de McCandless, que poderia ter evitado a morte tomando cuidados simples e básicos conhecidos por qualquer um acostumado a regiões extremas. Um guarda florestal chegou a declarar que McCandless não morreu, mas praticamente cometeu suicídio ao não atentar para alguns fatores básicos.
A matéria na Outside gerou Na Natureza Selvagem, best-seller que refaz todos os passos de Chris de forma tão minuciosa e interessante (eu já li no mínimo seis vezes o livro) que acabou amplificando tanto o mito quanto as críticas. Krakauer não esconde em nenhum momento sua empatia por Chris, a ponto de dedicar um capítulo de Na Natureza Selvagem a uma experiência própria bastante similar à jornada do jovem aventureiro.
Mas mais do que justificar a morte de McCandless, o que Krakauer faz é buscar dentro de si uma substância, uma pergunta, um buraco que Chris e todos nós temos também. Alguns escondem isso pra sempre. Outros se engajam em arriscados ritos de passagem que levam a dois caminhos: voltar fisicamente intacto e construir uma vida sobre a compreensão que isso nos fornece ou, como Chris, perecer, deixando um rastro de sofrimento e incompreensão para os mais próximos (o encontro dos pais de Chris com o ônibus onde seu filho morreu é de cortar o coração), um alívio na solidão para alguns parceiros de jornada e a possibilidade de mitificação para os mais distantes.
O culto em torno de McCandless acabou criando distorções também tradicionais na cultura americana, como tours de helicóptero que levam ao ônibus abandonado e não exigem nem ao menos uma caminhada para conhecer o local. Hoje, também é possível encontrar por aí relatos e filmes como esse aí em cima, de curiosos e interessados que começaram a visitar o último refúgio de Chris.
Discussões que andavam esquecidas voltam à tona agora com o lançamento de um filme baseado no livro, ainda bem que pelas mãos cuidadosas do Sean Penn. Uma história dessas se presta perfeitamente para um blockbuster maniqueísta e simplista, no qual um garoto valente luta contra a sociedade materialista colocando o pé na estrada dando a todos uma grande lição de moral. Nas mãos do Sean Penn, no entanto, acho eu que a coisa não vai ficar tão rasa. Tendo visto Acerto Final e, especialmente Unidos pelo Sangue, dá pra confiar no taco do cara. Vamos ver né… ainda não fui atrás de nenhum review… estréia aqui dia 22 de fevereiro.
O site do filme é lindo de se navegar e é possível deixar tocando de fundo a trilha composta por Eddie Vedder.
A título de curiosidade, Chris no filme é interpretado por Emile Hirsch, que deve estourar por aí já que também é o Speed Racer dos Wachowski.
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Enfim, é a grande tradição americana de exploração do espaço aberto e deserto, com a subsequente criação de uma narrativa que se espalha sob a forma de lenda, perpetuando assim o mito da conquista do oeste selvagem. Dos cowboys, passando pelos beatnkis e chegando nos astronautas, me parece que esse é sempre o ponto: levar ao extremo a exploração da vastidão interna do ser humano por intermédio da vastidão externa (bem mais limitada).
Embora tudo possa ser subvertido, a discussão e o filme vem bem a calhar nessa época de absoluto excesso, de tudo à disposição - especialmente à disposição dos americanos, vamos combinar. Nunca foi tão difícil falar de uma cultura de renúncia, praticada por aventureiros e homens santos em todas as épocas da humanidade. E aí a gente encontra um segundo ponto de dificuldade: a mitificação da renúncia que acaba virando fuga - o que me parece, em parte, ser o caso de Chris Mc Candless. Embora seja perigoso simplificar a questão dessa forma, McCandless sempre foi extremamente revoltado com questões familiares mal resolvidas.
A chave aqui é um trecho do filme Words of My Perfect Teacher, documentário a respeito do professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche. Nele, Bernardo Bertolucci (pra quem Rinpoche trabalhou como consultor em O Pequeno Buda) conta um diálogo que os dois tiveram a respeito do conceito de renúncia.
“Não seria a renúncia última… a renúncia da renúncia?” ri Bertolucci, parafraseando seu consultor.

Vídeo emocionante sobre as freiras budistas de Nangchen, um lugar ermo e inóspito do Tibet. O vídeo busca apoio financeiro para manter a prática das freiras viva, um verdadeiro tesouro espiritual para o mundo.
Palestra do John Maeda a respeito do seu livro “As Leis da Simplicidade”. Levemente hiperativo e encantador.

E isso é apenas uma bolacha pintada. Eu comia muito umas que a minha vó comprava. Encontrei de novo na estrada esses dias. Não era tão boa, mas, enfim. Bolacha pintada. Eu acho bonito.
O IG anda bastante saidinho, cheio de comerciais, salamaleques e invencionices pra vender seu conceito, que dá nome ao post. Apesar de não curtir os comerciais (essa coisa manifesto já deu, né) e de admirar o esforço da agência em criar alternativas pra correr atrás da máquina do tal do conteúdo gerado pelo consumidor, eu comecei a sentir uma coceira do tipo “não tá certo esse lance de o mundo é de quem faz”… não é bem assim… o mundo tá cheio de gente interessante que não faz coisas e talvez em muitos casos não fazer seja mais relevante do que propriamente fazer.
Eu não sou, estabeleça-se, a pessoa mais indicada pra levantar qualquer bandeira de que o mundo é de quem não faz porque eu vivo fazendo coisas. Tantas coisas que nos últimos meses comecei a pesquisar alguns sistemas de organização tipo o famoso “Getting Things Done” ou GTD do tal do David Allen.

Navegando por blogs a respeito do assunto, acabei conhecendo por alto toda a cultura do LifeHacking, uma espécie de comunidade mundial de gente que troca informações a respeito de eficiência em tarefas cotidianas de modo que sobre mais tempo pra vida pessoal. O termo lifehacking vem de atalhos que os programadores usam pra facilitar sua vida de escritores de códigos. Mas acabou se tornando uma subcultura própria.
É um assunto que eu achei fascinante e assustador, acabei escrevendo uma coluna pra Mais Soma que deve sair mais pro final do ano. Quando sair eu coloco aqui. Aliás, eu tou pra colocar a coluna da edição impressa atual, mas eu perdi o texto, não sei onde coloquei.
Há pouco rolou uma grande matéria na Wired a respeito do criador do GTD (em inglês). Eu na minha cabecinha oca achava que o Allen era tipo um cara oriundo (adoro essa palavra) do meio corporativo, uma história repleta de sucessos gravados em ouro a ferro e fogo no Power Point. Contudo, entretanto, todavia, ocorre que o cara é o maior gonzo, passou uma parte da vida se detonando, foi parar na heroína e de lá num hospital psiquiátrico. Ou seja, ziguezagueou intensamente antes de se encontrar na vida por intermédio de um guru new age que no meio dos anos 80 estava metido num programa de auto-aprimoramento pra gente corporativa, uma mania na época.
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RESUMO DA ÓPERA.
É como um grande mashup de Um Estranho no Ninho com O Aprendiz.
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No Brasil, um dos sites dedicados a esse lance todo de culto da hiper-eficiência, como chama a Wired, é o Efetividade, de onde eu tirei essa frase ótima: “As coisas estão sempre tramando contra a sua organização doméstica e pessoal.” Sério, eu gostei dessa frase. As coisas não são fáceis!
Tá mas, afinal, o mundo é ou não é de quem faz? Se é pra responder, adorei esse texto, que recebi numa lista de emails e que originalmente saiu num livro do Chogyam Trungpa Rinpoche.
“Podemos realmente sentar numa almofada sem finalidade alguma, sem qualquer objetivo. É ultrajante. É impensável. É terrível — estaríamos desperdiçando nosso tempo. Agora, este é o ponto: desperdiçar nosso tempo. Talvez seja algo a se pensar: desperdiçar nosso tempo. Dar um descanso ao tempo. Deixar que ele se desperdice. Criar tempo virgem, tempo não contaminado, tempo que não foi importunado pela agressão, paixão e velocidade. Que criemos tempo puro. Sentemos e criemos tempo puro.”
Pois é. Por aqui, segue-se tentando.
“Quando ligarem os neurônios a chips, teremos mais hardware. E a iluminação se dá a nível de software. Nossa mente é um software que tem a capacidade da adaptar-se a diferentes hardwares e de auto transformar-se. Agora, como se vê, dispõe também do poder de mudar e expandir o hardware como quiser. Pelos comandos elétricos, o próprio corpo foi sendo criado pelo software-mente, que se desenvolveu junto. A iluminação está ligada a um processo ainda mais básico: é quando o software decide que suas funções de auto-indulgência e auto-satisfação e proteção não são mais o foco. Ele decide ‘morrer’ enquanto identidade e reintegra-se, abandona-se na confiança à natureza básica e luminosa que o produziu e o sustenta. Somos como que robôs autoconscientes e auto-sustentados que enlouquecem através de seus circuitos de satisfação vazia e de proteção também vazia. A iluminação é o retorno à realidade.”
Entrevista que eu fiz com o Lama Samtem em 2002 para a finada revista Play.
Uau.
O capítulo 2 é o segundo predileto do livro porque fala de um assunto que eu adoro: organização. O título do capítulo já é uma beleza: “Organização: faz muita coisa parecer pouca coisa.” Não é lindo?
O cerne do capítulo, no entanto, não é nada sobre arrumação de armários e mesas, mas sim a trajetória da “rodinha de controle” do iPod (sempre ele…), essa da imagem aí em cima. O ponto do Maedovski aqui é que a primeira rodinha era assim “mais ou menos”, mas resolvia. Um controle simplificado, de compreensão não muito difícil, bastava o cara se acostumar com o lance e pronto. Porém, talvez o lobby das pessoas com dedos gordos tenha agido e os designers da Apple tiraram os controles da rodinha e jogaram pra fora. O que era pra simplificar acabou complicando porque desintegrou a experiência intuitiva do dedão. O dedão antes circulava tranqüilo, resolvendo seus problemas de “ir pra frente” ou “ir pra trás” só na rodinha e de repente se viu obrigado a SAIR da rodinha e subir até os controles SEPARADOS. É muita mão!!!!
Finalmente, a Apple sossegou o facho e chegou ao controle atual, que parece não ter tido grandes reclamações - simplificou tudo, jogou tudo pra dentro da rodinha (sem leituras maldosas) e voalá! Temos agora (temos não porque eu não tenho iPod) um controle integrado, com todas as funções numa rodinha sem separações – desculpe pelo uso excessivo de termos técnicos.
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Eu tenho uma dica para os engenheiros da Apple.
E é de graça, aproveitem.
Sentaí e fica quieto!
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E por aí segue o livro, trazendo inúmeros exemplos de design industrial e da indústria da computação pra provar ponto a ponto a visão do Maeda sobre simplicidade. Em cada capítulo você encontra dois ou três insights bem valiosos, mas meio que precisam ser descontextualizados e recontextualizados pra valer a pena.
Por quê? Porque não tem nada de simples na maior parte dos exemplos. Ok, a interface do Google e do iPod são incrível e bem-vindamente simples. Mas olha toda a complicação que existe para essas coisas serem simples! Basicamente, para termos à disposição a interface do Google e a interface do iPod, você precisa ter à mão um Estados Unidos e uma China.
foto daquiIsso não quer dizer que o Maeda não tenha consciência das coisas. Outro capítulo interessante é o de nome “Algumas coisas nunca podem ser simples”, onde ele faz um bonito mea culpa aceitando que nem todo mundo gosta de minimalismo como ele. Para exemplificar, fala de suas filhas, que costumam escrever EU TE AMO PAPAI num email cheio de letras coloridas, enormes, fontes misturadas e imagens. Toda teoria minimalista cai por terra por uma declaração de amor bem colorida e cheia de enfeites. “A simplicidade pode ser feia” diz o Maeda. “Uma certa dose de MAIS é sempre melhor do que MENOS. Mais amor, mais cuidado, mais ações significativas.”
Snif.
Passei a leitura toda me lembrando de um outro livro: “O Lama e o Economista – Diálogos sobre Budismo, Economia e Ecologia” onde o Lama Padma Samtem debate com o economista Victor Caruso Jr. O Lama Samtem, que costuma advogar a simplicidade como base para o caminho espiritual, aqui traduz sua visão ao oferecer saídas econômicas para o brete em que nos metemos todos hoje em dia.
“Em vez de maximizar os números da economia, seria maximizada a satisfação em um sentido mais profundo, e os números da economia seriam literalmente reduzidos. Hà vantagens em reduzir esses índices: a redução do impacto ambiental é uma delas. A tendência seria associar a simplicidade com a maximização da satisfação, e assim melhorar a saúde, a lucidez mental, o equilíbrio, o acesso à informação e à previdência. Seria ampliada a capacidade de apoio social às maias diversas necessidades e seriam beneficiados os processo em que as pessoas interagissem positivamente.”
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Sentaí e fica quieto!!
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Quer ouvir algo bem interessante sobre isso? Dá um pulo no podcast do Dzongsar Khyentse Rinpoche. “Zen, Sitting”. Em inglês.
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Esse assunto é complexo. Porque dá margem pra muita distorção. Porque o cara pode querer se livrar de tudo na vida externamente, jogar coisas fora, botar o pé na estrada, procurar uma casinha em cima do morro, plantar alface, e achar que está simplificando. Mas a simplificação pode significar fuga também, e aí tem problema. Porque uma hora tudo que não foi resolvido pode voltar. E se o cara é apegado DEMAIS à simplicidade externa, vai ficar nervoso. Não saber conviver com a complexidade é o maior inimigo da simplicidade.
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Ontem eu tava vendo House e lá pelas tantas ele, pra variar, sendo ácido com alguém. Não me lembro exatamente da fala, mas era algo assim.
“Não é fácil.”
“Eu não disse que era fácil, eu disse que era simples”.
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Chega de complicação!
Tá aqui o blog do Maeda.
Aqui tem uma entrevista bem interessante.
Aqui um link pra comprar o livro dele.
E esse aqui é pra comprar o livro do Lama Samtem.
TCHAU!
ATÉ SEGUNDA-FEIRA.
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