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Cinco conteúdos sobre Robin Williams que valem a pena (em inglês)

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A essa altura do campeonato, já sabemos: mortes de figuras públicas são seguidas de intenso ruído nas mídias sociais, de forma que é preciso paciência e muito critério para escolher onde vale realmente a pena clicar e ler. Entre dezenas de links que passaram pela minha timeline na semana passada, aqui vai uma seleção do que mais me interessou em algum nível.

1) Abaixo, o comediante inglês Russel Brand (mais para o final do vídeo) comenta que, se há alguma conclusão ou sentido a fazer do suicídio de alguém talentoso e engraçado como Robin Williams é que não devemos nos isolar uns dos outros, nos fechar para a coletividade.

2) Maria Popova, no seu Brainpickings, ressalta a conexão entre Robin Williams, David Foster Wallace e Walth Withman. E sem deixar que o ângulo cultural faça sombra sobre o fato de que o suicídio é um problema social.

3) Lodro Rinzler, colunista de budismo e meditação no Huffington Post, lembra: meditação não é o suficiente.

4) O escritor Stephen Marceh ressalta: existe uma crise de suicídios nos Estados Unidos.

5) A psicoterapeuta Katie Hurley, que escreve também no Huffington Post, destaca: não existe nada de egoísta no suicídio.

Boa leitura.

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PS: se alguém sentiu falta de textos em português, não é necessariamente porque esteja em falta. É que eu fiz a seleção a partir do que apareceu de mais significativo na minha própria timeline. E meus contatos de Facebook publicaram ou colunas em inglês ou muita nota de informação em português.

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Foto: Wikipedia.

Harold Ramis: o perfil da Shambala Sun

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Eu fico dividido entre decidir se a grande contribuição do recém ido Harold Ramis pro mundo foi mesmo a comédia existencialista Feitiço do Tempo ou se foram filmes ainda mais despretensiosos como Caça-Fantasmas ou o Clube dos Cafajestes. De qualquer maneira, o longo perfil que a revista budista americana Shambala Sun fez dele (que não era budista) em 2009 mostra um pouco como se formou a cabeça de uma pessoa que conseguiu se enfiar por dentro das camadas superficiais da vida e ainda fazer graça com isso. Vale a leitura (em inglês).

2013 em 13 posts

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1. Espero que 2013 seja o último ano da ascensão da “auto-ajuda de startup” também conhecida como “auto-ajuda hipster”. A aposta na proliferação de iniciativas empreendedoras pequenas, ágeis e extremamente inovadoras como salvação do universo sem dúvida tem seus méritos e dividendos sociais. Mas, como toda onda, também gera uma excedente cultural superficial, uma massa de conteúdos narrativos que pregam comportamentos específicos como se fossem valores. Sobre isso, escrevi em janeiro no post Softer, Worser, Slower, Weaker – que acabou publicado também no Estadão.

2. Tragédias acontecem todos os anos. Mas, por uma série de motivos culturais, o horrível incêndio da boate Kiss mexeu com o Brasil de um jeito novo. Esses motivos tem a ver em parte com as especificidades do incidente e em parte com uma mistura de novos traços culturais brasileiros: como nação, estamos mais indignados, mais alertas, mais reativos, mais energéticos. As redes sociais reverberaram a tristeza e a confusão como nunca. Escrevi sobre isso no post Santa Maria: tentando entender e tentando comunicar.

3. Parece que foi há mais tempo, mas foi ainda em 2013 que a blogueira cubana Yoani Sánchez esteve no Brasil cercada de polêmica por todos os lados, especialmente o direito e o esquerdo. Todo mundo quis tirar uma casquinha de Yoani, literal ou figurativamente. Mas, a meu ver, o que importou da sua vinda e da celeuma que ela causou foi a maneira como todo mundo martelou a alcunha de “blogueira”. Yoani é um fenômeno da cultura digital e sobre isso escrevi no post A contribuição pouco comentada de Yoani.

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4. A morte do Chorão não me dizia respeito musicalmente, mas culturalmente sim. Chorão simbolizou todo um segmento da juventude brasileira, quando a “nova classe média” ainda estava subindo a rampa – e isso diz respeito a todos nós. Mas o que mais pegou pra mim, como sempre pega nesses casos, foi ver tamanho desamparo de uma figura humana. Escrevi sobre isso no post Chorão não se fez ouvir e hoje me pergunto o que a morte dele diz sobre todos os que ele representou. Algum recado está sendo dado e não foi decodificado ainda.

5. Uma das primeiras datas da nova turnê de Ney Matogrosso foi aqui em Porto Alegre. Apesar de saber, eu ainda não tinha visto ao vivo o poder de um artista que consegue se manter relevante e marcante por tanto tempo. A relevância do Ney é em muitos níveis: em termos de música, plasticidade e atitude, ele ainda tem o que dizer no Brasil de 2013. Escrevi sobre isso no post Minha primeira vez com Ney.

6. Embora alguns setores religiosos insistam em falar e fazer besteira em nome de seus deuses e santos, continuo achando que as religiões tem uma contribuição interessante para dar ao mundo, especialmente no que diz respeito a uma prática auto-reflexiva estruturada – uma demanda constante da contemporaneidade, ainda não totalmente resolvida por outros tipos de organização. Escrevi sobre isso no post Razões para seguir uma religião.

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7. Muito já foi dito e há muito ainda o que se dizer e explicar sobre as Jornadas de Junho. De minha parte, repito o que escrevi num post no dia 17 de junho: precisamos de uma revolução cool.

8. Uma semente perigosa foi plantada em 2013: escrevi no post Consulta Popular e Linguagem que todo e qualquer zé mané iria se apropriar de forma dantesca dos conteúdos dos protestos na propaganda política de 2014. Na verdade, nem demorou tanto, pois os horários gratuitos dos partidos nesse final de ano já começaram com a palhaçada.

9. Relacionado ao item 1: Frances Ha, filme mais recente do Noah Baumbach, talvez esteja muito mais ligado a um momento looser da cultura americana do que brasileira. Mas as desventuras da garota que derrapa nas esquinas de nova iorque tentando dar certo trazem um recado importante ao tratar o erro como poesia. Escrevi sobre isso no post Frances Ha e a obsessão contemporânea por dar certo. Outro traço importante num 2013 que viu a derrocada do mito Eike Batista.

10. O Daniel Galera levantou a bola em coluna do Globo: a linguagem publicitária anda muito infantil. Resolvi expandir o assunto no post Sobre a infantilização da comunicação, conectando o insight do Galera com alguns aspectos da cultura digital. A criancice é mais ampla do que se imagina. Fico imaginando o que a Copa nos traz em 2014 nessa linha.

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11. Relacionado aos itens 1 e 9: questionar o sentido do trabalho é um exercício que parece estar crescendo culturalmente – a até atravessando classes sociais. Em novembro, completei um ano de vida de frila depois de 19 de carteira assinada. Lendo muitos depoimentos semelhantes em 2013, senti falta de um que falasse um pouco mais dos perrengues e menos das epifanias. Escrevi sobre isso no post A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

12. Em setembro, o ator argentino Ricardo Darín deu uma entrevista num late show local contando sobre seus motivos para não aceitar um convite de Hollywood. Postei uma transcrição errada de uma fonte confiável e me dei mal: o texto teve quase dois mil compartilhamentos no Facebook e foi visto cerca de 200.000 vezes no meu blog. Mesmo depois de corrigir o post, fui intensamente corrigido e xingado solenemente pelo meu erro. Sendo o Conector um blog de nicho, fui pego de surpresa. Nunca um post meu tinha repercutido tanto. Foi minha entrada no maravilhoso mundo da internet mainstream pela porta dos fundos.

13. Um mês depois, escrevi o post Ter filhos é uma droga, que me deu outro gostinho do efeito das grandes audiências. O texto até agora atingiu 68 mil compartilhamentos no Facebook e ultrapassou os 200.000 views no blog, o que, de novo, atraiu para os comentários do Conector um tipo que não aparece muito – o comentarista raivoso. Outra experiência interessante que me fez sentir na carne o que se passa na internet mainstream.

Nos vemos em 2014!

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Imagem 1: Gratisography
Imagem 4: Buro North

A desconquista do espaço pelos Darma Lóvers

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Conquistar o espaço é uma antiquíssima obsessão humana que se manifestou na história primeiro misticamente, a seguir filosoficamente e, por último, literalmente. A ideia de trilhar o vácuo entre as estrelas chegou ao ápice possível no século passado com a ida & volta do homem à Lua, mas ganhou contornos inteiramente novos no século corrente. Hoje, os espaços que se busca ocupar são mentais, internos, e estes, de fato, estão se transformando em verdadeiros “territórios ocupados” com o derrame sistemático e paramilitar de informação, de demandas cognitivas e de estímulos sensoriais que caracteriza a vida do cidadão médio. O que parece é que, como percebemos que umas navezinhas e algumas estações espaciais não fazem frente à imensidão sideral, resolvemos colonizar o nosso espaço interno – também desconhecido e assustador.

Espaço, o novo disco do Os The Dárma Lóvers, soa como se compreendesse e se alinhasse com a direção coletiva que tomamos, essa pra dentro, mas resgatando um espírito mais exploratório do que colonizador – o único espírito que realmente traz recompensas. Suas 11 músicas convidam e acompanham o ouvinte em uma viagem aos confins do espaço interno tendo por combustível a mistura de folk & rock anglo-americano com os sabores da música urbana porto-alegrense que lhes caracteriza. A cada disco, os Lóvers incluem um novo elemento que colore a sua química básica, como os produtores Frank Jorge e Kassim ou a bateria de Moreno Veloso em esforços anteriores. Agora foi a vez de um jovem gaiteiro responsável pelos acordeons & pianos que injetaram espaço no Espaço, resultando numa sonoridade própria ao disco, também cortesia do parceiro de longa data 4Nazo (o Marcelo Fornazier (do De Falla e do Astaroth).

As pistas da expedição proposta pelos Lóvers são oferecidas pelas letras. Nenung admite que “Nem em um milhão de anos eu daria conta da confusão em que fui me meter, mas tenho a oportunidade de unir as pontas achando o ponto mais aberto pra sentir”. Sabendo que o importante é “olhar tudo de frente” e aceitar que “nada fica dois instantes”, a dupla canta a “frágil felicidade que ninguém sabe onde vai parar” e “a conquista do espaço que ainda insisto tanto tanto em desejar”. Descobre que a chave é “saber saltar e não ser jogado”, “amar mais do que / só por querer possuir” e reconhece que, no fundo, estamos falando apenas de “outro dia e eu aqui, novo, vasto e infinito”. O espaço, enfim, é o que sustenta o contraditório necessário para a sanidade: não fechar os olhos para as dificuldades gigantescas da vida, mas perceber que “para a terra somos faíscas, o tempo todo a brilhar”.

É bonito demais de ver como, ao longo de sua carreira, os DL conseguiram estabelecer as bases de uma psicodelia pé no chão, de um deslumbre lúcido, que absorve o mundo de hoje mas não sucumbe ao espetáculo pirotécnico que somos induzidos a engolir como sendo a cultura pop contemporânea. A verdadeira resistência artística e poética do momento parece estar em não enxergar espaços vazios como inimigos. Nem todas as folham precisam ser desenhadas, nem todas as telas precisam de imagens em movimento, nem todos os silêncios precisam ser preenchidos. E isso inclui as folhas, as telas e os silêncios internos de cada um. Nesse contexto, Espaço como um manifesto em favor do espaço é um recado mais do que bem-vindo, é um pouco necessário.

Você pode ouvir o Espaço inteiro na Rádio Uol. E tem pra vender os downloads no OneRPM.

2 anos olhando a própria mente

O praticante de meditação Henrique Lemes ficou em retiro entre 2010 e 2012 em um centro budista em Pernambuco. Nesse valioso vídeo de 30 minutos, editado pelo pessoal do Olugar, ele revela como foi a experiência de conviver (e conhecer) intensamente a própria mente e o que isso implica.

Além de satisfazer a curiosidade sobre questões práticas, ele brinca com a ideia de que, saindo do retiro, teria direito a um posto mais alto no “funcionalismo budista”; conta como é ficar em retiro com a companheira/esposa/namorada; e oferece uma outra perspectiva sobre as motivações de muitos movimentos sociais.

Vale o play – mas não esqueça de, antes, fechar todas as outras abas do browser.

Um lugar especial em construção

É tanto estrupício que constroem nas nossas cidades que um lugar desses, que se pretenda refúgio e alternativa, precisa ser conhecido e celebrado. O vídeo acima mostra cenas do Vila Zen, um complexo Zen Budista em construção na zona rural de Viamão, aqui ao lado de Porto Alegre. Um grupo de praticantes do zen vem se virando para erguer um templo, banheiros, cozinha, acomodações e uma grande estátua do Buda.

A paz que Vila induz é flagrante no vídeo. Já a energia, o esforço incansável e os obstáculos enfrentados pelos praticantes que estão colocando tudo isso de pé (muitas vezes com as próprias mãos) ficam só nos bastidores – mas merece menção. E tem gente que ainda acha que budista só fica sentado meditando…

Se você se sentir inspirado em ajudar, participe da Campanha das Portas e Janelas do Vila Zen. Toda contribuição é bem-vinda.

Depoimento sobre Retiro de Rua em SP

No vídeo acima, Adriana Muniz, designer e praticante zen budista de Minas, conta como foi sua experiência no Retiro de Rua de São Paulo no ano passado. Nessa modalidade de retiro, o retirar-se espiritualmente não acontece em algum vale distante, em meio às árvores, mas no meio da cidade mesmo, vivendo mais ou menos como um sem teto ou como um “Playboy de Papelão” como ouviu Adriana na rua.

Os Retiros de Rua são uma tradição de uma linhagem zen chamada Zen Peacemakers, do mestre americano Bernie Glassman, sobre o qual já escrevi algumas vezes aqui no blog.

Neuromarketing e Comunicação

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Mês passado, estive no Festival de Publicidade de Gramado participando como debatedor no painel “Como a Mente Humana Toma Decisões”. A fala principal nesse segmento foi do Dr. André Palmini, professor adjunto de neurologia da Faculdade de Medicina da PUC e chefe do serviço de neurologia do hospital da PUC. Junto comigo, também debatedores, estavam o André Foresti, Diretor de Planejamento da F/Nazca Saatchi & Saatchi e o Mauro Dorfman, Presidente do Festival e da Dez Comunicação. Antes de mais nada, preciso agradecer o convite do Mauro: como eu postei que ia estar nesse painel no Facebook e depois coloquei na minha Timeline a foto do evento, tem gente achando que eu entendo de neuromarketing. Mas eu sou, no máximo, um curioso furungador (escrevi muito rapidamente sobre uma palestra do Martin Lindstrom que vi em 2011 em Cannes). Ou um reprodutor de informações, como farei abaixo.

O Dr. Palmini abriu o painel dando uma geral no funcionamento básico do cérebro. Explicou as funções das diferentes partes, falou sobre as etapas de amadurecimento, sobre o que acontece quando perdemos determinado naco do cérebro ou se a formação dele se dá de forma inadequada. Na maior parte do tempo, ressaltou a importância do lobo frontal, mais especificamente do córtex pré-frontal: sabe-se hoje que é a área que organiza nossas ações. Ali ocorrem, do ponto de vista da neurologia, as tomadas de decisões, a modulação do comportamento social, os planejamentos e assim por diante. Um córtex pré-frontal problemático significa uma pessoa com dificuldades de tomar decisões ou de funcionar socialmente.

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Mais para o final, Palmini reverberou o trabalho do cientista Antônio Damasio, em especial o que foi publicado em O Erro de Descartes. Resumindo bem resumido, o que Damásio defende nesse livro é que fomos induzidos a acreditar, por muito tempo, que razão e emoção são faculdades distintas e isoladas. Entretanto, as suas linhas de pesquisa podem estar transformando o dualismo do filósofo francês René Descartes em uma espécie de mito retroativo. A hipótese de Damasio diz que o que chamamos de emoções e razão são, na verdade, construções arbitrárias, marcas em um espectro cheio de nuances. Sua linha de pesquisa vem buscando comprovar cientificamente que uma decisão “racional” é sempre moldada por marcações emocionais prévias as quais condicionam a suposta racionalidade do processo. O budismo tem uma forma bem simples de colocar isso em um dito clássico: “as pessoas acham que controlam suas emoções, mas isso é mais ou menos como achar que é o rabo que abana o cachorro”. Mesmo quem é considerado mais frio e racional tem, provavelmente, marcadores emocionais que condicionam esse modo de funcionamento.

E o marketing nisso tudo?

Em primeiro lugar, essa visão desmonta qualquer tipo de comunicação que se pretenda 100% racional e justifica décadas de reclamações de publicitários intuitivos contra as famigeradas pesquisas e pré-testes frios que servem de base para grandes empresas tomarem certas decisões. O entrelaçamento dos conceitos de razão e emoção como pressuposto para a tomada de decisão de escolha valoriza o passe dos publicitários (ou comunicadores em geral) de perfil mais intuitivo em uma era de adoração irrestrita aos dados.

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Em segundo lugar, a intersecção entre neurologia e comunicação traz uma perspectiva social assustadora, pois o chamado neuromarketing é a onda do momento em certos círculos. Por neuromarketing entenda-se usar o escaneamento de imagens para olhar as reações do cérebro de pesquisados enquanto lhes são mostrados comerciais ou embalagens de produtos, por exemplo. As reações cerebrais, acredita-se, ofereceriam caminhos mais confiáveis para pesar razão e emoção nos resultados de pesquisa do que a fala pura e simples dos pesquisados, em geral recheada de contradições e respostas prontas.

Particularmente, acho difícil olhar para essa ideia com simpatia. A imagem de pessoas assistindo a comerciais ou analisando protótipos de produtos com eletrodos na cabeça é muito parecida com certos pesadelos culturais propagados em filmes de ficção científica (assista a esse vídeo de uma pesquisa da sopa americana Campbell’s) e veja se não dá um certo arrepio). Esse é um background que tenho e que não posso ignorar. Agora vão espionar o nosso cérebro para vender mais e melhor? Será possível que não há limites? Os desdobramentos disso parecem apavorantes, mas um comentário do André Foresti no momento do debate me acalmou: como acontece com todas as ferramentas de pesquisa, chega uma hora em que ela se dissemina de tal forma que se torna parte do jogo e não faz mais muita diferença. O neuromarketing é uma onda e, como toda onda, cresce quando chega perto da praia, mas quebra e retorna ao mar. Como todas as outras ferramentas de pesquisa, ele provavelmente vai se agigantar, brilhar, impressionar, assustar e encontrar o seu lugar. Cabe ficar de olho, fiscalizar, mas eu não me preocuparia tanto depois de ouvir outro comentário, no caso do Dr. Palmini: “isso é assunto de vocês, publicitários. Nós neurologistas temos ainda muita coisa importante para estudar antes com esses recursos.”

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Em terceiro lugar, fecho com uma fala que fiz na minha parte do debate. Não diz respeito ao neuromarketing diretamente, mas a um paralelo entre o cérebro e a toda e qualquer empresa de mídia: o ideal seria que elas funcionassem como o córtex pré-frontal, uma área de civilidade e organização do pensamento. Diante da avassaladora quantidade de mensagens a que o cérebro humano urbano é submetido hoje, caberia aos produtores de parte dessas mensagens uma certa filtragem e um cuidado com o que se chama ecologia da informação. Se uma indústria de metais pesados é obrigada a tratar com o que despeja no meio ambiente, caberia à indústria da comunicação agir de forma semelhante e redobrar os cuidados com o que despeja nas mídias – uma antiga utopia de alguns teóricos da comunicação que merece ser atualizada.

Aprendi com o Dr. Palmini que um córtex pré-frontal danificado ou mal formado implica em um problema de filtragem nos impulsos e nas relações sociais. Sem dúvida é o que acontece hoje na maior parte das mídias. Desde grandes empresas até indivíduos, hoje classificados como pequenas centrais de mídia, quase todos agem impulsivamente, despejando nos canais disponíveis a primeira coisa que lhes vem à cabeça, que lhes parece necessária, ignorando que suas ações e emissões compõem um ecossistema muito mais amplo, complexo e que está indiscutivelmente poluído. A imagem dos nossos cérebros, hoje impactados massivamente com tudo isso, não deve ser muito agradável de se ver numa experiência de neuromarketing.

Precisamos de uma Revolução Cool

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Muito está sendo dito nesses últimos dias a respeito dos protestos que vem tomando conta de todo o Brasil. Existem evidências, números, fotos, vídeos e textos que vem abordando uma série de ângulos e permitem defender diferentes pontos de vista. Cada pessoa ou cada pequeno grupo parece estar fazendo a sua leitura, tentando construir um sentido mais consistente para algo que, nos momentos mais calorosos, baseia seu sentido nos atos de urgência: marchar, brandir, gritar.

Mas esse tipo de convulsão, se funciona maravilhosamente bem como sinalização ou como sintoma, tem o perigo inerente de cristalizar a ideia de que atitudes violentas são indispensáveis e eficientes num processo de mudança. Nas ruas, em plena batalha campal, com uma PM mandando bala, essa reflexão pode ser mais complicada. Mas não há desculpas para não exercermos um pouco mais de ponderação no âmbito digital, por mais adrenalinante e sedutor que seja acompanhar os protestos via redes sociais (e eu acho que é). Ceder à tentação de incentivar a violência contra as polícias que estão sendo violentas é mais do que entregar de bandeja uma boa oportunidade a comandantes e policiais sem noção – é, de certa forma, obedecer ao comando deles.

Nas redes sociais e nos blogs, fazemos isso não apenas diretamente, com palavras de ordem ou bravatas contra a polícia, mas também compartilhando conceitos que construam esse cenário. Músicas anti-polícia, por exemplo, fartamente disponíveis no imaginário do rock, são excelentes como catarse mas talvez contraproducentes para o distensionamento de um cenário de guerra (que, repito, serve mais ao militares que são sem noção). Eu sei que é praticamente irresistível, em certas situações, compartilhar “Polícia” dos Titãs, mas não sei se esse ato vale na construção de uma nova ideia de viabilidade social. Me soa um pouco como um requentamento que nos puxa para trás.

Talvez precisemos o que o pensador e atvista americano Robert Thurman chama de Revolução Cool, sendo que cool aqui é utilizado no sentido de “frio”, de ter a cabeça fria para decidir, momento a momento, qual é de fato a melhor atitude a se tomar. E, embora exista toda uma cultura constituída a respeito dos supostos benefícios de “explodir” (a cultura pop, inclusive, é pródiga nisso), em geral dificilmente se toma boas atitudes de cabeça quente. No livro “Inner Revolution” (Revolução Interna), Thurman defende que “Explodir de ódio não é sinal de resistência justa à opressão – é a capitulação final à opressão, a rendição da consciência livre e da força de vontade ao impulso cego.” Também diz que “Nós não percebemos que podemos ser muito mais assertivos sem ódio (…). Essa é primeira lição de qualquer arte marcial autêntica. Você se desidentifica do papel de vítima e não identifica o outro como propositalmente atacando. Você percebe o ataque contra você como uma força cega e impessoal que saiu de controle. Você pode, então, intervir friamente (…).”

Como eu disse ali em cima, é claro que pensar dessa forma sendo ameaçado em batalha campal é algo muito difícil, um visão reservada a pessoas extremamente treinadas. Mas eu, que não tenho ido às ruas, me sinto na obrigação de participar da onda sem me deixar levar pelo calor da situação. Aqui, sentado em frente ao computador, tenho certos privilégios que pretendo usar a favor do que acredito que seja o melhor caminho – e o mais importante desses privilégios é ter tempo e espaço mental para poder refletir e não insuflar um clima de agressão mútua.

Meu principal cuidado nesse sentido tem sido não compartilhar imagens, músicas ou filmes que possam corroborar a ideia de retaliação violenta. Isso não é fácil, pois a maior parte das manifestações culturais revolucionárias estão dentro desse escopo e são esteticamente bacanas, sedutoras e interessantes. No entanto, sigo pensando que uma construir uma revolução cool – no sentido de “fria” – ainda é o melhor caminho para uma revolução cool – no sentido de “interessante”, de “condizente com uma linguagem nova e contemporânea”. E precisamos, mais do que nunca, do novo.

Experiências com a Vida

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A Síndrome de Prader-Willi é uma condição genética rara que se caracteriza por uma série bastante variada de sintomas que você pode conhecer melhor nessa apresentação rápida. Mas o mais marcante, e o que traz alguns dos maiores desafios para os portadores e seus próximos, é a chamada hiperfagia: quem tem Prader-Willi não recebe, quando come, a informação de saciedade mo cérebro. Logo, a pessoa tende a comer sem parar se não for controlada por alguém ou por um ambiente previamente regulado.

Como maio é o Mês da Consciência sobre Prader-Willi nos Estados Unidos, a Fundação para Pesquisa em Prader-Willi propôs a seus associados e simpatizantes uma lista de tarefas para ajudar a espalhar informações sobre a síndrome, ainda desconhecida e muitas vezes tratada de forma caricatural em uma cultura que não precisa de predisposição genética para ser obcecada por comida. As “missões” de conscientização foram divididas por semana e por público-alvo. Uma semana era dedicada à ação nas redes sociais, a outra aos vizinhos,a terceira ao ambiente de trabalho e assim por diante.

De todas as missões, a que mais me chamou a atenção pela criatividade e pela efetividade foi uma proposta para a terceira semana, que dizia “Pule seu almoço”, e que tinha dois objetivos: doar o dinheiro do almoço para a pesquisa sobre Prader-Willi e colocar a pessoa na pele de quem tem a Síndrome. Acho que todo mundo já passou por alguma situação que precisou pular uma refeição e, em geral poucos lidam razoavelmente bem com isso. Quase todo mundo fica mais nervoso, ansioso ou, no mínimo, com um certo mau humor. “Pule seu almoço”, então, é um convite a entrar no universo de quem tem Prader-Willi e convive com essa sensação todos os dias, o tempo todo.

(Uma campanha americana do chocolate Snickers inclusive resumiu muito bem isso no conceito “Você não é você quando está com fome.)

A questão deste post, na verdadem não é nem entrar muito nos detalhes da Síndrome de Prader-Willi, mas de sublinhar a inteligência dessa pequena proposta de ação de consciência. Uma das coisas mais difíceis que existem é se colocar MESMO no lugar dos outros e no caso de ativismo social este é um objetivo fundamental para sacudir as pessoas quando se precisa de fundos ou de disseminação de informação. Tive um bom exemplo disso alguns anos atrás, quando participei de uma exposição-instalação com minha mulher em Buenos Aires que colocava os visitante na situação de cegos. A experiência foi muito marcante. Além de ter escrito e publicado meu relato aqui, nunca mais passei por um cego sem deixar de prestar atenção se ele precisa de ajuda.

Outra anotação que achei importante: o conceito de fazer pequenas (ou médias ou grandes) experiências com a vida parece estar se entranhando no espírito do nosso tempo com um certo verniz pop. São iniciativas como a do jornalista Paul Miller, que ficou um ano sem usar internet para recalibrar sua relação com a tecnologia, com a cultura e com as pessoas. Tem também o blog Um Ano Sem Zara, criado pela publicitária Joanna Moura numa tentativa de refazer seus laços com a moda. O blogueiro David Cain, que recentemente teve uma postagem bastante comentada no Brasil (O seu estilo de vida já foi projetado), coloca os experimentos de vida como centrais no seu blog Raptitude. Até agora, ele já publicou o relatório de 15 deles, que cobrem premissas do tipo “21 dias sem reclamar”, “Vegan por 30 dias”, “Trabalhar 8 horas por dia em casa” e “Abandonar a máquina de lavar louça”. Todos esses casos me vieram à mente quando vi a proposta do “Pule Seu Almoço”.

É claro que esse tipo de atitude não é nova. Muita gente já experimentou com a sua vida de maneira parecida. Uma vez, escrevi rapidamente sobre as performances do artista taiwanês Tehchin Hsieh e não faltam exemplos semelhantes no mundo das artes e da filosofia (assim, de cabeça, penso em escritores como Henry David Thoreau em seus retiros naturais). As religiões e práticas espirituais também são férteis em métodos de treinamento semelhante, geralmente baseada em votos que se tomam e se observam durante um período de tempo – ou, em alguns casos, por toda a vida.

O que é novo, nos casos que cito acima, é o engajamento de pessoas “comuns” nessa modalidade, pessoas que não necessariamente são artistas ou cientistas, e que se valem das ferramentas digiais contemporâneas para criar um registro ao vivo de suas experiências, gerando automaticamente tutoriais de alternativas de comportamento, de campos temporários de vivência em outros padrões. Esse registro e sua posterior disseminação em redes sociais amplifica a ideia da experimentação e parece imprimi-la no panorama contemporâneo de forma bastante particular.

A meu ver, esse é um traço importante e positivo que vem se instalando na cultura pop. Com o tempo, é possível que se agrege esse tipo de experimento como algo de valor que a pessoa carrega consigo. Daria pra dizer, inclusive, que algumas pessoas já olham para quem faz “experiências com a vida” da mesma forma como se olhava um tempo atrás uma pessoa “com experiência na vida”. A diferença é sutil, mas diz bastante sobre para onde podemos estar caminhando – com sorte, para um olhar mais flexível, menos sólido do que seria uma trajetória de vida.

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Andei atrás de outros exemplos de experiências com a vida que foram documentadas digitalmente, mas não muito. Toda contribuição é bem-vinda nos comentários.

Infelizmente, não achei o crédito da imagem do Dr. Emmet Brown lá em cima.

Documentário sobre mais um pedacinho do Tibet no Brasil

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Acabou de sair um pequeno documentário em DVD com as cerimônias de 2008 que consagraram a Terra Pura de Padmasambava, o primeiro templo budista desse tipo no Ocidente construído de maneira totalmente tradicional. Pra resumir, é um pedacinho do Tibet aqui do lado, em Três Coroas, na serra gaúcha.

Além de cobrir as tais cerimônias, que duraram cinco dias, o filme também traz o depoimento de lamas budistas sobre o significado desse templo e entrevistas com artistas nepaleses e butaneses que trabalharam nas estátuas, nas pinturas e nos adornos. Só essa residência artística, na verdde, já mereceria um documentário em si, pois esses escultores, marceneiros e pintores deixaram um legado inusitao entre seus pares locais. Na verdade, alguns deles inclusive se casaram e hoje moram no Brasil. Estão por aí, espalhando técnicas e sensibilidades milenares que não costumam ser passadas adiante com facilidade por aqui.

No vídeo acima, tem uma palhinha, com o lama (e talentoso diretor de cinema) Dzongsar Khyentse Rinpoche explicando como funciona a noção de bem e mal, céu e inferno. Enfim, esse DVD é um documento único de uma feliz conjunção de fatores um tanto quanto inusitados.

Mais informações sobre o DVD e sobre como comprar aqui no site da Fundação Chagdud Gonpa.

Razões para seguir uma religião

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Estava com esse post encrencado há muitas semanas, mas a vinda de Karen Armstrong a Porto Alegre me deu um impulso final pra terminá-lo de uma vez. Armstrong é uma das poucas vozes que tem aparecido nos veículos culturais pra defender a ideia de que as religiões institucionalizadas não são exatamente uma coisa indesejável. Do ponto de vista mainstream, não parece que as religiões precisem de advogado: o número de praticantes das grandes disciplinas espirituais mundiais ainda é gigantesco e sua influência, maior ainda. Mas, ao menos nos círculos (físicos e digitais) que eu frequento, a palavra “religião” vem sendo proferida com uma mistura de desdém e desconfiança, o que me causa um certo desconforto já que eu sou o que se poderia classificar como uma pessoa religiosa. Sei que a maior parte das pessoas que me conhecem provavelmente não me colocaria na mesma turma daquela tia carola, mas vamos ver: eu rezo diariamente, eu vou a templos regularmente, participo de cerimônias, leio livros considerados sagrados, sigo preceitos, tomo votos e respeito autoridades religiosas. Desse ponto de vista (e apenas desse…), eu acabo mais perto da tia carola dos meus amigos do que dos meus amigos.

Para muita gente, ser uma pessoa religiosa hoje significa que você compactua com uma forma de manipulação, uma estrutura de poder, um sistema de pilhagem em grande escala, uma visão arcaica do mundo ou, na melhor das hipóteses, uma instituição caduca. Na base dessas acepções, geralmente estão experiências particulares com a Igreja Católica, o contato midiático com as Evangélicas, a ideia de que o Budismo no Ocidente é um hype e a péssima propaganda gerada por radicais tresloucados que se consideram representantes do Islã (quando, em geral, representam projetos de poder geopolítico). Outros vetores importantes na construção desse conceito de religião são a cruzada de certos intelectuais pelo ateísmo (Richard Dawkins e Christolher Hitchens sendo os mais pop deles), a recente adoção do ateísmo e da ciência como uma espécie de religião laica por muita gente, a disseminação de documentários amparando essa ideia (Zetgeist) e os infindáveis memes anti-clericais que tomaram conta das redes sociais.

A religião e a linhagem que eu sigo não tem qualquer apreço por proselitismo e evangelização mas, justamente por conta das minhas experiências positivas, me sinto compelido a defender a ideia de que a prática espiritual sistematizada traz imensos benefícios. Infelizmente, não tenho muito para oferecer em termos de argumentos a não ser essas experiências que citei, com certeza bastante subjetivas. Que me desculpem, então, os discípulos de Dawkins e Hitchens: esse texto é construído unicamente a partir das minhas observações e reflexões. Suponho que não há muito método científico aqui que não seja o empirismo.

Mas, enfim, diante dos conhecidos perigos da burocratização do caminho espiritual, qual é a grande vantagem que eu vejo em seguir um método organizado? Eu elegi quatro pontos que são importantes na minha prática espiritual pessoal: 1) O método 2) Ter aonde ir 3) Parceria 4) Referenciais vivos.

Em primeiro lugar, é justamente o fato de se existir um método. Para quem compreende o caminho espiritual como um processo de investigação a respeito de si, do mundo, do universo, da sociedade e do que regeria tudo isso, ter um método à mão coloca questões existenciais, por definição bagunçadas, dentro de uma moldura. O papel dessa moldura, a meu ver, não é (ou não deveria ser) congelar as dúvidas para pregá-las na parede e venerá-las emolduradas, mas sim confrontar o que nos é internamente nebuloso com uma estrutura de pensamento, o que costuma jogar alguma luz sobre a nebulosidade. O método, quando legítimo, também fornece fundamentais ferramentas de navegação interna. Como ferramenta, aliás, a moldura não tem uma utilidade final, ela não é o objetivo. Todos os mestres budistas que ouvi disseram que, resolvido o que o caminho se propõe, a ferramenta deveria ser abandonada, se torna desnecessária.

Uma curiosidade adicional: a convivência com um caminho espiritual que tem métodos muito bem delineados me fez perceber que, na maior parte das vezes, as pessoas que criticam os métodos religiosos vivem cercadas de outros tipos de métodos. E, frequentemente, submetem-se a esses métodos de forma absolutamente dogmática. O ambiente das artes e o mundo corporativo, dois exemplos que eu conheço bem, são pródigos nesse tipo de comportamento.

Bom, vamos adiante.

Em segundo lugar, um caminho espiritual formal traz o benefício de ter aonde ir. A criação de templos e centros de prática oferece um destino geográfico, um lugar de reunião e também um intervalo dos lugares que frequentamos cotidianamente. Os locais urbanos para prática espiritual são, via de regra, pequenos oásis de tranquilidade em meio ao caos. Os centros que ficam fora das cidades costumam oferecer contato com a natureza e com uma vida mais simplificada, dois elementos por si só catalisadores de reflexão e de cura psíquica. É claro que não é preciso vincular-se a uma religião para ter esse tipo de experiência. Mas é diferente quanto ela vem acompanhada do item anterior, o método, e de todo um contexto que induz à contemplação e não apenas a mais alienação sensorial.

Em terceiro lugar, um caminho espiritual formal provê parceria na busca. No momento em que você encontra a estrutura que lhe serve, automaticamente tem contato com outras pessoas que tiveram a mesma necessidade e o mesmo encontro. O contato com um grupo de praticantes do mesmo método permite que você contemple as questões cruciais que o levaram até ali sendo examinadas por outras pessoas, à luz de suas próprias dificuldades e de todo seu cardápio próprio de condicionamentos. É claro que emoldurar a diversidade com o método gera o risco de aplainar as inclinações e manifestações pessoais. Mas, por outro lado, se estamos falando de um método e de um local genuínos, a diversidade do grupo surge ainda mais flagrante, colorida e interessante. Não existe grupo de busca espiritual isento de diferenças, embates e dissidências. Pelo contrário, muitas vezes o método tende a exacerbar as diferenças de forma que as pessoas se obriguem a se flexibilizarem e a trabalhar com elas. Em duas ou três palestras, já vi a Monja Coen, da tradição zen budista, colocar da seguinte forma sua experiência de treinamento intenso em um mosteiro no Japão: as monjas são como bolinhas de ferro cheias de pontas colocadas em um mesmo recipiente fechado. Aquele recipiente, então, é sacudido. As bolinhas se chocam umas com as outras freneticamente até que, pelo atrito, as pontas sejam aparadas e fiquem lisinhas, lisinhas… Claro: para que o atrito não termine em guerra, é preciso método, objetivos comuns e muito manejo.

Em último lugar, o que talvez seja o mais importante, uma religião formal de tradição confiável costuma oferecer pessoas que são a referência viva do caminho. Em entrevista para a Zero Hora no último sábado, Karen Armstrong faz essa observação importante: “Devo falar sobre a natureza do conhecimento religioso, lembrando que é um conhecimento derivado da prática – especialmente a prática da compaixão – e não da correção doutrinária. É como nadar ou dirigir, algo que só é possível aprender através da prática diligente e não pela leitura de livros e textos.” Ou seja, uma referência é alguém que colocou em prática os ensinamentos da religião de forma tão íntegra que se tornou os ensinamentos. Se levarmos em consideração os aspectos mais essenciais de todo método espiritual que possa se dizer humano, que são o amor e a compaixão*, qualquer pessoa que queira ser uma referência desse método deveria necessariamente ser a corporificação do amor e da compaixão, não de forma particular e apenas servindo ao seu método, mas de maneira verdadeiramente ampla e universal.

Pra fechar, então.

Não é preciso chover no molhado: vivemos numa época em que as principais questões sociais perderam seu esquema de regulagem. As religiões institucionalizadas, em muitos casos, eram a baliza principal desse esquema. Talvez essa desconexão entre certas instituições religiosas e a sociedade tenha alguns frutos interessantes. Um deles é a necessidade de reformas e adequações na relação com as pessoas em geral. Outro, mais importante, seria o resgate do papel essencial das religiões de promover caminhos universais de amor e compaixão por meio do trabalho interno.

***

* Uma vez que amor e compaixão são palavras de significados amplos, ressalto que usei aqui as definições que aparecem em textos do budismo tibetano. Nesse caso, amor seria “o desejo de que o outro encontre a felicidade e as causas da felicidade” e compaixão, “o desejo de que o outro se livre do sofrimento e das causas do sofrimento.”

Imagem: daqui.

Retiro de Rua no Brasil

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Retiros de rua são uma tradição espiritual recente, uma espécie de revisão dos antigos retiros em florestas ou montanhas criada por Bernie Glassman, sobre quem já escrevi algumas vezes aqui. Essa modalidade de retiros é muito simples: vive-se e medita-se nas ruas por alguns dias. Dorme-se ao relento (para evitar ocupar um lugar de um sem teto nos abrigos) e come-se onde os sem teto indicarem. Em 2011 e 2012 aconteceram os primeiros retiros de rua no Brasil e resgatei aqui embaixo o relato de um participante que foi publicado numa Vida Simples no ano passado. Leitura altamente indicada para quem se interessa pelas novas relações que estão se formando com os espaços urbanos.

Ps: originalmente eu tinha colocado imagens pequenas aqui, que não dava pra ler. É melhor ir direto no blog do Monge Koho, participante dos retiros e agora autorizado a liderá-los no Brasil.

Educação e budismo

Colégios e trabalhos sociais de orientação católica são comuns no Brasil. Acho que a maioria de nós passou por um deles ou conhece alguém que passou. Já colégios e ações baseados em ideias de outras religiões são obviamente mais raros. Pra quem quiser conhecer, o vídeo acima (transcrição aqui) mostra o Lama Padma Samtem falando sobre a experiência de uma escola baseada em metodologias budistas que surgiu há alguns anos aqui na região metropolitana de Porto Alegre. Não conheço iniciativa semelhante no Brasil (deve haver, se alguém conhece e quiser iluminar minha ignorância, avise).

A Escola Caminho do Meio atende crianças do entorno do Centro de Estudos Budistas Bodisatva em Viamão/RS, especialmente de uma comunidade chamada Jardim Castelo. Por enquanto, cobre apenas Educação Infantil, mas ela está sendo expandida pra cobrir também Educação Fundamental. Tudo com base em valores humanos universais, que no fim não são exclusivamente budistas, claro.

O Lama Samtem inclusive brinca com a imaginação das pessoas quando o assunto é unir budismo com educação.


“Então a gente imagina que a escola tem crianças de 07 ou 12 anos e vão passar por uma prova final de levitação, medindo o brilho da aura com câmera e se ele não obtiver a iluminação significa que a escola falhou em alguma coisa.”

A Escola tem uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco através do Núcleo de Pesquisas em Educação e Espiritualidade, o que gera material de trabalho não apenas para as partes envolvidas, mas também pra nós. No link do blog da Escola, tem um PDF com os diálogos entre o Lama Samtem e o pesquisador-professor-doutor Alexandre Freitas.

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Outra iniciativa interessante é no interior de Minas, em Lambari. O Sítio Esperança (fotos acima) nasceu da aspiração do lama tibetano Chagdud Tulku Rinpoche de também disseminar valores humanos universais através da educação. Não é pra menos que a iniciativa é parecida com a descrita acima: o Lama Samtem foi ordenado Lama por Chagdud Rinpoche há mais ou menos 20 anos.

Em Minas, o enfoque passa muito pela ensino agroecológico, uma vez que as crianças atendidas são de uma região eminentemente rural. Além da Escola Infantil, o Sítio também oferece uma colônia de férias e workshops baseados na metodologia da Escola. O eixo da história é um dos ensinamentos do budismo que eu mais gosto, chamado As Quatro Qualidades Incomensuráveis: a equanimidade, o amor, a compaixão e o regozijo, que é a alegria com a alegria dos outros.

Tanto a Escola do Caminho do Meio quanto o Sítio Esperança atendem gratuitamente os alunos. As duas instituições sobrevivem praticamente de doações e estão habilidadas a oferecer a possibilidade de dedução do imposto de renda para doadores.

Numa época em que se discute tanto a educação, mas muito do ponto de vista numérico, estatístico e ferramental, é bom também dar uma olhada em visões alternativas que, mesmo que não sejam formatadas para experiências em grande escala, servem de laboratório pra repensar os paradigmas atuais – claramente precisando de revisão.