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Arquivo: Budismo

Quitutes pro Finde

Antes de mais nada, olha q barato esse clip que alguém aí fez pruma música do Grey Album. Tá ligado no Grey Album não? White Album dos Beatles + Black Album do Jay-Z pelo DJ Dangermouse (que depois criou o Gnarls Barkley e produziu o excelente segundo Gorillaz), talvez o primeiro grande clássico da cultura mashup, se é que dá pra dizer assim… john lennon no break, sensacional…

Um show inteiro do Spiritualized em versão acústico + cordas + backing gospel. Comecei a ouvir e achei meio chatinho, mas ainda vou dar uma chance, acho q vale a pena tentar.

Resumindo: o Chaves e mais outros dois ilustradores/designers fizeram uns puta desenho enormes que foram aplicados em uma enorme chapa q foi cortada de forma que virou centenas de palmilhas para a série Custom Brasil Series II. O tênis desenhado pelo Chaves leva o nome do skatista Cezar Gordo e foi inspirado na pista aqui do IAPI.

Mais aqui no site Pico dos Sonhos.

O estado das coisas pela monja budista Ven. Tenza Palmo.

Bom finde a todos.

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Na Natureza Selvagem

Chris McCandless de fato

Em 1990, Chris McCandless, filho de um cientista da Nasa, se formou em História e Antropologia, doou sua poupança de 24 mil dólares para a caridade, e partiu para uma viagem pelas estradas da America sem avisar sua família. Nos dois anos seguintes, ele queimou todo o dinheiro restante na carteira, abandonou sua identidade, assumiu o nome de Alexander Supertramp e passou a viver anônimo entre os espaços abertos & selvagens dos Estados Unidos, as beiras das estradas e os sub-empregos que são o sustentáculo da parte menos glamourosa e mais dura da sociedade americana.

Em 1992, sua jornada à base das idéias de Jack London, Leon Tolstoi e Henry David Thoreau terminou de forma trágica após se meter numa floresta fechada e gelada do Alaska. Chris/Alex foi encontrado por caçadores, morto dentro de seu saco de dormir em um ônibus abandonado que lhe servira de morada. Até hoje é incerta a causa mortis, que fica entre a inanição (devido à falta de habilidade de Alex em conseguir alimento na natureza selvagem) e a intoxicação (por ter comido sementes cobertas por fungos tóxicos).

Do boca-a-boca na comunidade alasqueana, a história pulou para as páginas da prestigiada revista Outside nas mãos do editor Jon Krakauer. A matéria gerou polêmica e alguma revolta: se para nós, seres urbanos, havia algum tipo de fascínio na viagem anti-materialista de Mc Candless (o tipo de aura que só se acentuou com sua morte), para os experientes caçadores e habitantes do Alaska, Krakauer foi condescendente demais com a imaturidade e o entusiamos juvenil de McCandless, que poderia ter evitado a morte tomando cuidados simples e básicos conhecidos por qualquer um acostumado a regiões extremas. Um guarda florestal chegou a declarar que McCandless não morreu, mas praticamente cometeu suicídio ao não atentar para alguns fatores básicos.

A matéria na Outside gerou Na Natureza Selvagem, best-seller que refaz todos os passos de Chris de forma tão minuciosa e interessante (eu já li no mínimo seis vezes o livro) que acabou amplificando tanto o mito quanto as críticas. Krakauer não esconde em nenhum momento sua empatia por Chris, a ponto de dedicar um capítulo de Na Natureza Selvagem a uma experiência própria bastante similar à jornada do jovem aventureiro.

Mas mais do que justificar a morte de McCandless, o que Krakauer faz é buscar dentro de si uma substância, uma pergunta, um buraco que Chris e todos nós temos também. Alguns escondem isso pra sempre. Outros se engajam em arriscados ritos de passagem que levam a dois caminhos: voltar fisicamente intacto e construir uma vida sobre a compreensão que isso nos fornece ou, como Chris, perecer, deixando um rastro de sofrimento e incompreensão para os mais próximos (o encontro dos pais de Chris com o ônibus onde seu filho morreu é de cortar o coração), um alívio na solidão para alguns parceiros de jornada e a possibilidade de mitificação para os mais distantes.

O culto em torno de McCandless acabou criando distorções também tradicionais na cultura americana, como tours de helicóptero que levam ao ônibus abandonado e não exigem nem ao menos uma caminhada para conhecer o local. Hoje, também é possível encontrar por aí relatos e filmes como esse aí em cima, de curiosos e interessados que começaram a visitar o último refúgio de Chris.

Discussões que andavam esquecidas voltam à tona agora com o lançamento de um filme baseado no livro, ainda bem que pelas mãos cuidadosas do Sean Penn. Uma história dessas se presta perfeitamente para um blockbuster maniqueísta e simplista, no qual um garoto valente luta contra a sociedade materialista colocando o pé na estrada dando a todos uma grande lição de moral. Nas mãos do Sean Penn, no entanto, acho eu que a coisa não vai ficar tão rasa. Tendo visto Acerto Final e, especialmente Unidos pelo Sangue, dá pra confiar no taco do cara. Vamos ver né… ainda não fui atrás de nenhum review… estréia aqui dia 22 de fevereiro.

O site do filme é lindo de se navegar e é possível deixar tocando de fundo a trilha composta por Eddie Vedder.

A título de curiosidade, Chris no filme é interpretado por Emile Hirsch, que deve estourar por aí já que também é o Speed Racer dos Wachowski.

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Enfim, é a grande tradição americana de exploração do espaço aberto e deserto, com a subsequente criação de uma narrativa que se espalha sob a forma de lenda, perpetuando assim o mito da conquista do oeste selvagem. Dos cowboys, passando pelos beatnkis e chegando nos astronautas, me parece que esse é sempre o ponto: levar ao extremo a exploração da vastidão interna do ser humano por intermédio da vastidão externa (bem mais limitada).

Embora tudo possa ser subvertido, a discussão e o filme vem bem a calhar nessa época de absoluto excesso, de tudo à disposição – especialmente à disposição dos americanos, vamos combinar. Nunca foi tão difícil falar de uma cultura de renúncia, praticada por aventureiros e homens santos em todas as épocas da humanidade. E aí a gente encontra um segundo ponto de dificuldade: a mitificação da renúncia que acaba virando fuga – o que me parece, em parte, ser o caso de Chris Mc Candless. Embora seja perigoso simplificar a questão dessa forma, McCandless sempre foi extremamente revoltado com questões familiares mal resolvidas.

A chave aqui é um trecho do filme Words of My Perfect Teacher, documentário a respeito do professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche. Nele, Bernardo Bertolucci (pra quem Rinpoche trabalhou como consultor em O Pequeno Buda) conta um diálogo que os dois tiveram a respeito do conceito de renúncia.

“Não seria a renúncia última… a renúncia da renúncia?” ri Bertolucci, parafraseando seu consultor.

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Quitutes pro feriadão


Mark Jenkins.


Vídeo emocionante sobre as freiras budistas de Nangchen, um lugar ermo e inóspito do Tibet. O vídeo busca apoio financeiro para manter a prática das freiras viva, um verdadeiro tesouro espiritual para o mundo.

Palestra do John Maeda a respeito do seu livro “As Leis da Simplicidade”. Levemente hiperativo e encantador.


E isso é apenas uma bolacha pintada. Eu comia muito umas que a minha vó comprava. Encontrei de novo na estrada esses dias. Não era tão boa, mas, enfim. Bolacha pintada. Eu acho bonito.

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O mundo é de quem faz ou de quem não faz?

O IG anda bastante saidinho, cheio de comerciais, salamaleques e invencionices pra vender seu conceito, que dá nome ao post. Apesar de não curtir os comerciais (essa coisa manifesto já deu, né) e de admirar o esforço da agência em criar alternativas pra correr atrás da máquina do tal do conteúdo gerado pelo consumidor, eu comecei a sentir uma coceira do tipo “não tá certo esse lance de o mundo é de quem faz”… não é bem assim… o mundo tá cheio de gente interessante que não faz coisas e talvez em muitos casos não fazer seja mais relevante do que propriamente fazer.

Eu não sou, estabeleça-se, a pessoa mais indicada pra levantar qualquer bandeira de que o mundo é de quem não faz porque eu vivo fazendo coisas. Tantas coisas que nos últimos meses comecei a pesquisar alguns sistemas de organização tipo o famoso “Getting Things Done” ou GTD do tal do David Allen.


Navegando por blogs a respeito do assunto, acabei conhecendo por alto toda a cultura do LifeHacking, uma espécie de comunidade mundial de gente que troca informações a respeito de eficiência em tarefas cotidianas de modo que sobre mais tempo pra vida pessoal. O termo lifehacking vem de atalhos que os programadores usam pra facilitar sua vida de escritores de códigos. Mas acabou se tornando uma subcultura própria.

É um assunto que eu achei fascinante e assustador, acabei escrevendo uma coluna pra Mais Soma que deve sair mais pro final do ano. Quando sair eu coloco aqui. Aliás, eu tou pra colocar a coluna da edição impressa atual, mas eu perdi o texto, não sei onde coloquei.

Há pouco rolou uma grande matéria na Wired a respeito do criador do GTD (em inglês). Eu na minha cabecinha oca achava que o Allen era tipo um cara oriundo (adoro essa palavra) do meio corporativo, uma história repleta de sucessos gravados em ouro a ferro e fogo no Power Point. Contudo, entretanto, todavia, ocorre que o cara é o maior gonzo, passou uma parte da vida se detonando, foi parar na heroína e de lá num hospital psiquiátrico. Ou seja, ziguezagueou intensamente antes de se encontrar na vida por intermédio de um guru new age que no meio dos anos 80 estava metido num programa de auto-aprimoramento pra gente corporativa, uma mania na época.

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RESUMO DA ÓPERA.

É como um grande mashup de Um Estranho no Ninho com O Aprendiz.

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No Brasil, um dos sites dedicados a esse lance todo de culto da hiper-eficiência, como chama a Wired, é o Efetividade, de onde eu tirei essa frase ótima: “As coisas estão sempre tramando contra a sua organização doméstica e pessoal.” Sério, eu gostei dessa frase. As coisas não são fáceis!



Tá mas, afinal, o mundo é ou não é de quem faz? Se é pra responder, adorei esse texto, que recebi numa lista de emails e que originalmente saiu num livro do Chogyam Trungpa Rinpoche.

“Podemos realmente sentar numa almofada sem finalidade alguma, sem qualquer objetivo. É ultrajante. É impensável. É terrível — estaríamos desperdiçando nosso tempo. Agora, este é o ponto: desperdiçar nosso tempo. Talvez seja algo a se pensar: desperdiçar nosso tempo. Dar um descanso ao tempo. Deixar que ele se desperdice. Criar tempo virgem, tempo não contaminado, tempo que não foi importunado pela agressão, paixão e velocidade. Que criemos tempo puro. Sentemos e criemos tempo puro.”

Pois é. Por aqui, segue-se tentando.

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Toda realidade é virtual

“Quando ligarem os neurônios a chips, teremos mais hardware. E a iluminação se dá a nível de software. Nossa mente é um software que tem a capacidade da adaptar-se a diferentes hardwares e de auto transformar-se. Agora, como se vê, dispõe também do poder de mudar e expandir o hardware como quiser. Pelos comandos elétricos, o próprio corpo foi sendo criado pelo software-mente, que se desenvolveu junto. A iluminação está ligada a um processo ainda mais básico: é quando o software decide que suas funções de auto-indulgência e auto-satisfação e proteção não são mais o foco. Ele decide ‘morrer’ enquanto identidade e reintegra-se, abandona-se na confiança à natureza básica e luminosa que o produziu e o sustenta. Somos como que robôs autoconscientes e auto-sustentados que enlouquecem através de seus circuitos de satisfação vazia e de proteção também vazia. A iluminação é o retorno à realidade.”

Entrevista que eu fiz com o Lama Samtem em 2002 para a finada revista Play.

Uau.

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Simplicidade – parte dois

O capítulo 2 é o segundo predileto do livro porque fala de um assunto que eu adoro: organização. O título do capítulo já é uma beleza: “Organização: faz muita coisa parecer pouca coisa.” Não é lindo?

O cerne do capítulo, no entanto, não é nada sobre arrumação de armários e mesas, mas sim a trajetória da “rodinha de controle” do iPod (sempre ele…), essa da imagem aí em cima. O ponto do Maedovski aqui é que a primeira rodinha era assim “mais ou menos”, mas resolvia. Um controle simplificado, de compreensão não muito difícil, bastava o cara se acostumar com o lance e pronto. Porém, talvez o lobby das pessoas com dedos gordos tenha agido e os designers da Apple tiraram os controles da rodinha e jogaram pra fora. O que era pra simplificar acabou complicando porque desintegrou a experiência intuitiva do dedão. O dedão antes circulava tranqüilo, resolvendo seus problemas de “ir pra frente” ou “ir pra trás” só na rodinha e de repente se viu obrigado a SAIR da rodinha e subir até os controles SEPARADOS. É muita mão!!!!

Finalmente, a Apple sossegou o facho e chegou ao controle atual, que parece não ter tido grandes reclamações – simplificou tudo, jogou tudo pra dentro da rodinha (sem leituras maldosas) e voalá! Temos agora (temos não porque eu não tenho iPod) um controle integrado, com todas as funções numa rodinha sem separações – desculpe pelo uso excessivo de termos técnicos.

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Eu tenho uma dica para os engenheiros da Apple.

E é de graça, aproveitem.

Sentaí e fica quieto!

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E por aí segue o livro, trazendo inúmeros exemplos de design industrial e da indústria da computação pra provar ponto a ponto a visão do Maeda sobre simplicidade. Em cada capítulo você encontra dois ou três insights bem valiosos, mas meio que precisam ser descontextualizados e recontextualizados pra valer a pena.

Por quê? Porque não tem nada de simples na maior parte dos exemplos. Ok, a interface do Google e do iPod são incrível e bem-vindamente simples. Mas olha toda a complicação que existe para essas coisas serem simples! Basicamente, para termos à disposição a interface do Google e a interface do iPod, você precisa ter à mão um Estados Unidos e uma China.

foto daqui

Isso não quer dizer que o Maeda não tenha consciência das coisas. Outro capítulo interessante é o de nome “Algumas coisas nunca podem ser simples”, onde ele faz um bonito mea culpa aceitando que nem todo mundo gosta de minimalismo como ele. Para exemplificar, fala de suas filhas, que costumam escrever EU TE AMO PAPAI num email cheio de letras coloridas, enormes, fontes misturadas e imagens. Toda teoria minimalista cai por terra por uma declaração de amor bem colorida e cheia de enfeites. “A simplicidade pode ser feia” diz o Maeda. “Uma certa dose de MAIS é sempre melhor do que MENOS. Mais amor, mais cuidado, mais ações significativas.”

Snif.

Passei a leitura toda me lembrando de um outro livro: “O Lama e o Economista – Diálogos sobre Budismo, Economia e Ecologia” onde o Lama Padma Samtem debate com o economista Victor Caruso Jr. O Lama Samtem, que costuma advogar a simplicidade como base para o caminho espiritual, aqui traduz sua visão ao oferecer saídas econômicas para o brete em que nos metemos todos hoje em dia.

“Em vez de maximizar os números da economia, seria maximizada a satisfação em um sentido mais profundo, e os números da economia seriam literalmente reduzidos. Hà vantagens em reduzir esses índices: a redução do impacto ambiental é uma delas. A tendência seria associar a simplicidade com a maximização da satisfação, e assim melhorar a saúde, a lucidez mental, o equilíbrio, o acesso à informação e à previdência. Seria ampliada a capacidade de apoio social às maias diversas necessidades e seriam beneficiados os processo em que as pessoas interagissem positivamente.”

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Sentaí e fica quieto!!

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Quer ouvir algo bem interessante sobre isso? Dá um pulo no podcast do Dzongsar Khyentse Rinpoche. “Zen, Sitting”. Em inglês.

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Esse assunto é complexo. Porque dá margem pra muita distorção. Porque o cara pode querer se livrar de tudo na vida externamente, jogar coisas fora, botar o pé na estrada, procurar uma casinha em cima do morro, plantar alface, e achar que está simplificando. Mas a simplificação pode significar fuga também, e aí tem problema. Porque uma hora tudo que não foi resolvido pode voltar. E se o cara é apegado DEMAIS à simplicidade externa, vai ficar nervoso. Não saber conviver com a complexidade é o maior inimigo da simplicidade.

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Ontem eu tava vendo House e lá pelas tantas ele, pra variar, sendo ácido com alguém. Não me lembro exatamente da fala, mas era algo assim.

“Não é fácil.”
“Eu não disse que era fácil, eu disse que era simples”.

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Chega de complicação!

Tá aqui o blog do Maeda.
Aqui tem uma entrevista bem interessante.
Aqui um link pra comprar o livro dele.
E esse aqui é pra comprar o livro do Lama Samtem.

TCHAU!

ATÉ SEGUNDA-FEIRA.

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Simplicidade – parte 1

foto daqui

Talvez não exista hoje artigo mais valioso nesse mundo doente, caótico e saturado. Na real, nem todo mundo valoriza, a maioria não quer nem saber, mas eu sou um tanto quanto obcecado por simplicidade. O que não quer dizer que eu seja bom no assunto, que eu seja uma pessoa simples, de hábitos simples, de cotidiano simples. Na verdade, muito antes pelo contrário. Muito antes pelo contrário, meus amigos. “Menos é mais” pra mim não é nem uma filosofia de vida e nem uma habilidade, é um peso no outro lado da balança.

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Mas não foi por falta de aviso. Não posso, de jeito e maneira, reclamar das instruções que eu recebi. Talvez a melhor delas veio no meu pouco contato com o zen-budismo e o zen-shiatsu. Diferente do budismo tibetano, repleto de cores, rituais, sabores e matizes, o zen-budismo é muito direto ao responder as principais questões da existência. O sentido da vida, a solução para problemas cotidianos, saúde, prosperidade e sabedoria respondem a uma só ordem: sentaí e fica quieto.

Pode parecer simplista, mas vamos combinar que o mundo seria muito melhor se umas 50 pessoas específicas atendessem a essa singela recomendação.

Sentaí e fica quieto.

foto daqui

Por exemplo.

O autor de The Laws of Simplicity, John Maeda, é cientista do MIT. E designer gráfico. E artista. Anda com figurões de grandes empresas, dá palestras no circuito mundial do business e dirige o SIMPLICITY CONSORTIUM do MIT.

Quem sou eu pra falar. Mas, pô, Maeda. Sentaí e fica quieto!

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Por não ficar quieto, Maeda acabou com um livro nas mãos. Um livro interessante. Não exatamente uma obra prima. Mas antes de mais nada, um livro que parece ter sido escrito com o coração.

Os três primeiros capítulos são os melhores. Diretos e práticos, definem 3 leis básicas da simplicidade: redução, organização e uso do tempo. O capítulo da redução, em especial, é o mais legal de todos e foi o que fez eu sair falando pra várias pessoas sobre o livro. Na verdade, me arrependi um pouco depois porque fui continuando a leitura e me frustrando um pouco. Tudo começa muito claro e promissor, mas aos poucos vai ficando um tanto quanto sistemático demais até para o meu gosto.

foto daqui

Ainda assim vale a pena.

Maeda começa tudo apontando: “A melhor maneira de alcançar a simplicidade é reduzindo”. Isso soa como sublinhar o óbvio, mas vivemos em tempos em que o óbvio precisa desesperadamente ser sublinhado. O exemplo mais clássico sobre isso é o tal do Google, uma página simples com uma caixa onde você faz sua busca e clica no botãozinho, beijo e tchau, sem toda aquela poluição visual dos outros buscadores até então. Como comando prático para se atingir esse tipo de “simplicidade”, Maeda joga na área o acrônimo SHE: Shrink, Hide, Embed – Encolha, Esconda, Incorpore.

Encolha. Não é preciso lembrar a tendência de encolhimento de tudo no mundo. Daqui um pouco vai acontecer de você mexer num bolso da calça e dizer “bah, aquele celular que eu tinha no ano passado!!!!” Mas o lance mais curioso que o Maeda traz a respeito de “Encolher” é o poder que um objeto ganha ao ser reduzido. Por exemplo, você pega um iPod e fica olhando aquela caixinha ridícula, chega a dar pena. Mas aí você descobre que o troço guarda, organiza e executa um bilhão de músicas, mais meio bilhão de vídeos e tudo mais. Se ele tivesse o triplo do tamanho, não causaria tanto furor. Maeda afirma: “Um objeto maior que um ser humano demanda respeito, enquanto que um objeto minúsculo parece merecer pena” diz ele. Quanto menor, menor o tamanho e a expectativa, maior o assombro se o pequenino fizer coisas interessantes. Hm.

foto daqui


Esconda.
Do canivete suíço às janelas de computador que você minimiza, “esconder” é um antigo truque indígena que funciona para ajudar a simplificar o uso de uma ferramenta: você utiliza uma e as outras ficam escondidas. Nos dois exemplos acima, “esconder” significa “gerenciar”: você decide qual lâmina deixar aberta e quais outros apetrechos deixar fechados. É o mesmo no computador. Enquanto Encolher tem a ver com o gerenciamento das expectativas, Esconder diz respeito ao gerenciamento direto da complexidade. Viu como a coisa toda é meio complicada?

foto daqui


Incorpore.
Aqui o Maedinha começa a entrar total no psicológico da galera. “Os consumidores apenas vão ser atraídos por um produto pequeno e aparentemente menos funcional (encolhido & escondido) se ele for percebido como de mais valor que um produto maior e com mais features. Ou seja, aqui é uma questão de uma “sensação” que está incorporada ao produto que faz ele emanar um significado que o deixa mais importante e relevante do que objetos maiores e mais enfeitados. Essa sensação nem sempre vem de uso de materiais específicos, mas de um culto em torno do produto/objeto, seja um culto criado por meios de marketing ou não. Mais uma vez me vem o exemplo da Apple: muito marketing permite que as pessoas aceitem pouco enfeite, minimalismo, aquele lance cool minimalista que os tunadores de carro, os punks, os indianos, as escolas de samba e os budistas tibetanos rejeitam completamente.

(continua amanhã)

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