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Hanna Arendt: um bom filme pra ver nessa semana de reflexões sobre o Golpe de 64

Com a reação quase histérica dos nossos bizarros conservadores diante de tantas manifestações condenando o Golpe Civil-Militar de 64, é impossível não lembrar de Hanna Arendt, a filósofa alemã que cunhou a expressão “banalidade do mal”, e principalmente de Hannah Atendt, o filme de 2012 que resume tão bem um dos pilares de sua filosofia. Dirigido pela alemã Margarethe Von Trotta, a biopic de Arendt é considerada por Roger Berkowitz, diretor do Hannah Arendt Center, um belo veículo para a divulgação das ideias de sua protagonista. Inclusive, escreveu ele na Paris Review, “o filme deveria se chamar ‘A Mais Sofisticada Leitura de Hannah Arendt A Alcançar uma Audiência Mainstream Até Hoje’.”

A noção de “banalidade do mal” nasceu da famosa cobertura que Arendt fez do julgamento do oficial da Gestapo Adolf Eichmann para a revista The New Yorker em 1961. Nela, a filósofa desafiou a opinião pública e todo um circuito intelectual ao propôr que o mal causado por Eichmann não vinha do fato dele ser um monstro e sim uma pessoa medíocre e burocrática. O artigo se transformou em um livro seminal e detonou o que Berkowitz chamou de “guerra civil intelectual”.

Não me sinto em posição de escrever sobre o Golpe (ou sobre Hannah), mas trago a lembrança do filme mais como um complemento de reflexão em relação às pessoas que hoje defendem na internet a ditadura e toda a cultura autoritária e violenta que ela suscita. Falo por mim: acho difícil processar adequadamente a indignação com quem relativiza os atos do regime militar e sua herança nefasta, mas sinto que vale o esforço de não distribuir indiscriminadamente rótulos de monstros a quem simplesmente é impulsivo, impensado e irresponsável com seu teclado. Por que vale isso? Porque me parede que é melhor responder a essas atitudes sempre baseado em uma reflexão mais aguda, embasada em lucidez, do que também agir impulsivamente e projetar todo um cenário de “monstros do lado de lá” que inflama ainda mais o ambiente. Esse espaço de reflexão radical, de resistência à resposta automática e rotuladora é uma das grandes lições que tirei do filme.

Preste atenção quando você for assistir: uma boa percentagem da narrativa é preenchida com cenas de Arendtsimplesmente PENSANDO em seu escritório, em casa, ou em uma de suas viagens. O tempo todo, Arendt é retratada pensando, pensando, pensando. O que é muito significativo e, no texto da Paris Review, Berkowitz explica:

“Paralisada pelo perigo da falta do pensar, Arendt passou sua vida pensando sobre o pensar. Poderia o pensar, ela pergunta, nos salvar da disposição de muitos, senão da maioria, de participar de maldades burocraticamente regulamentadas como foi o extermínio administrativo de seis milhões de judeus? Pensar, como Arendt considera levanta obstáculos a supersimplificações, clichês e convenções. Apenas pensar, argumenta ela, tem o potencial de nos lembrar da nossa dignidade humana e nos libertar para resistirmos a nosso próprio servilismo. Esse tipo de pensar, do ponto de vista de Arendt, não pode ser ensinado, apenas exemplificado. Não podemos aprender o pensar através de catecismo ou estudo. Aprendemos o pensar apenas através da experiência, quando somos inspirados por aqueles cujo pensar se introjeta em nós – quando encontramos alguém que se destaca da multidão.”

Nesses tempos confusos, assistir Hannah Arendt, se não lê-la, é ser lembrado por sua própria figura de que precisamos parar e pensar, pensar, pensar, pensar, pensar, antes de distribuirmos máscaras de monstros. Desumanizar aqueles que defendem ideias autoritárias e anti-humanistas rende bons memes mas tem pouca serventia prática a longo prazo numa democracia. Não acho nada confortável considerar que os filhotes digitais do Bolsonaros sejam mesmo meus parceiros de espécie, mas colocá-los do “outro lado” pode ser também muito perigoso. Primeiro, porque denota pouco penso. Segundo, consequentemente, porque essa atitude de escolher lados tão bem definidos é o ingrediente básico na formação dos regimes totalitários e ditatoriais mesmo (ou especialmente) quando estamos “do lado certo”.

***

O filme Hanna Arendt mexeu comigo em diversos níveis. Um deles foi o estético. Além das frequentes sequências com a personagem principal pensando, chama a atenção também o ritmo sóbrio e o ar cool da produção – tanto em figurino, direção de arte e elenco quando nas escolhas narrativas, com uma ênfase em mostrar a mescla de vida social com intelectual de Arendt num clima BEM anos 60 como gostamos de imaginar os anos 60. Ou seja, pensadores fumando, bebendo e tirando conclusões em encontros informais e relações amorosas dúbias. Acredito que para um certo público (meio intelectual, meio de esquerda, diria Antônio Prata), dá vontade de estar no meio daquelas reuniões. Eu fiquei com essa vontade, pelo menos.

Ponto pra diretora, porque é aquela coisa: assuntos grotescos como o holocausto precisam às vezes do fator organizador da arte para terem algumas de suas questões melhor compreendidas e digeridas.

Ps: vale ler a crônica do Contardo Calligaris sobre o filme Hanna Arendt. A tese de mestrado dele foi desdobrando algumas ideias dela.

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Harold Ramis: o perfil da Shambala Sun

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Eu fico dividido entre decidir se a grande contribuição do recém ido Harold Ramis pro mundo foi mesmo a comédia existencialista Feitiço do Tempo ou se foram filmes ainda mais despretensiosos como Caça-Fantasmas ou o Clube dos Cafajestes. De qualquer maneira, o longo perfil que a revista budista americana Shambala Sun fez dele (que não era budista) em 2009 mostra um pouco como se formou a cabeça de uma pessoa que conseguiu se enfiar por dentro das camadas superficiais da vida e ainda fazer graça com isso. Vale a leitura (em inglês).

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Ela: a pegadinha de Spike Jonze sobre cultura digital.

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Jovem adulto ainda curando as feridas de uma separação e que vive de escrever cartas emocionantes em nome de terceiros em uma sociedade hiper-conectada resolve, um dia, atualizar o sistema operacional do seu celular para uma versão baseada em inteligência artificial. E acaba se apaixonado por ele – ou melhor, por Ela. Adicione a essa trama central o diretor de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros e você terá um filme melancólico e reflexivo sobre a solidão contemporânea baseada no uso exagerado de mídias digitais. Mas, se você lembrar que esse mesmo diretor é um dos criadores da série sem noção Jackass e que dirigiu clips sarcásticos memoráveis como Sabotage, Praise You e Buddy Holly, vai pensar duas vezes sobre o que Ela diz de verdade. E se perguntar: será que o Spike Jonze não está tirando uma com a nossa cara?

Entendido em algum nível como um filme ludita, que questiona a relação de certas pessoas com as mídias digitais e da infantilização que vem a reboque, eu prefiro enxergar Ela do ponto de vista dos bugs do amor romântico. Spoiler alert: embora envolto em todo o aparato digital que caracteriza o filme, o romance de Theodore (o homem) e Samantha (o sistema operacional) começa como todos os romances começam (com a promessa de conforto, compreensão e reconhecimento mútuo total) e uma hora termina – simplesmente termina, por causa disso ou daquilo, mas em última análise porque tudo uma hora termina. Descoberta, desejo, paixão, desejo, ciúmes, confusão, fim: a história do casal formado por um humano e um sistema operacional é tão fascinante quanto ordinária.

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O tabuleiro de Ela é armado por Jonze para que desprezemos as habilidades sociais de Theodore, mas em geral ele é gente como a gente e a meu ver foi simplesmente sacaneado pelo diretor. Retratado na primeira meia hora de filme como esquivo e anti-social, descobrimos aos poucos que ele tem motivos para isso porque, dentro de suas particularidades, ainda está vivendo o luto de uma separação. É acusado pela ex de ser auto-centrado e de ter problemas com intimidade, mas seus relatos (e as cenas em flashback) sobre os dois mostram que ele a conhecia muito bem, a entendia e a ouvia talvez muito mais do que deixasse transparecer. Os amigos e colegas de Theodore servem de pano de fundo para que a sua solidão contraste – outra sacanagem, como se eles não estivessem vivendo suas próprias dificuldades (e o filme mostra depois que estão). Na verdade, algumas poucas pistas contextuais mostram que muitas das idiossincrasias que servem para caracterizar o protagonista parecem ser traços sociais da época que o filme retrata. Talvez essa seja uma sociedade doente. Ou talvez seja apenas outra cultura. Não sabemos. A confusão é cortesia do Jonze galhofeiro de Jackass, conscientemente ou não.

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É difícil saber o que é o que em Ela. Sistemas operacionais se comportam como humanos e humanos se comportam como sistemas operacionais (preste atenção na atitude de Charles, marido de Amy, que tenta programar o comportamento da esposa). A felicidade de Theodore com Samantha soa ambígua, entre o absurdo e o convencional. A evolução d’Ela parece coisa de ficção científica tanto quanto o crescimento pessoal de um parceiro de relacionamento, quando este resolver quebrar a imagem cristalizada que tínhamos e guardávamos com tanto zelo. Mesmo o título do filme em inglês estampado no cartaz é dúbio: Her, com a carinha triste de Joaquim Phoenix, pode estar se referindo tanto à Ela, Samantha, como ser lido como o pronome posessivo Dela, o que deixa a história ainda mais interessante – Theodore foi Dela por um tempo? Essas ambiguidades são todas, a meu ver, um traço de generosidade – de novo, consciente ou não – de Spike Jonze. Há muito que nós, espectadores, podemos jogar ali dentro. Tem gancho para todo mundo fazer sua própria reflexão.

Aí está, então, a rasteira que Ela passa no espectador: você vai no cinema para assistir a uma crítica e o filme se trata de uma crônica. Como os melhores cronistas, Spike Jonze põe uma lupa no cotidiano e tenta, através de um comentário muito particular, determinar algumas moléculas básicas da cultura contemporânea universal. Como as melhores crônicas, ele (ou Ela) não fecha totalmente suas questões. E é aí que o filme funciona tão bem, porque não me consta nenhuma maneira melhor de sair de um cinema na era digital do que com as mãos cheias de dúvidas e de assunto para regar um bom bate papo nas horas e nos dias que vem a seguir.

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Algumas notas extras:

* A popularidade da interface de voz talvez seja o aspecto mais fantasioso do filme. Não apenas os softwares parecem bem resolvidos como os códigos sociais surgem adaptados para essa interface – todo mundo no filme acha normal andar por aí com um fone no ouvido falando sozinho. Taí um acerto do filme: não há inovação que se popularize sem aceitação social dos códigos de comportamento que a circundam.

* Curiosamente, Ela é o filme mais Sofia Coppola de Spike Jonze. O ritmo lentão, o figurino fashion no último, aquele monte de cenas de flashbacks a la ensaio fotográfico e a arquitetura moderninha da L.A. futura  lembram muito mais Encontros & Desencontros, As Virgens Suicidas e Um Lugar Qualquer do que John Malkovich & Adaptação. Há quem diga que Ela é a resposta da Jonze a Encontros & Desencontros, mas acho que são apenas as más línguas.

 

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Links bacanas:

- Algumas fotos no set de Ela.

- Entrevista com Jonze no Guardian.

- Uma dupla de roteiristas acusa Jonze de ter roubado a ideia deles.

- Entrevista com Spike Jonze na Interview.

- Spike Jonze compara Theodore com Lana Watchowski.

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Esconderijo

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Não tem aquela teoria do Alan Sieber que o Hitler morou no Leblon? Pois então, a foto acima dá claros indícios que o Darth Vader está morando em Porto Alegre e tem uma garagem só para seu Tie Fighter.

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Nossas historinhas safadas

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“O mundo hoje consome filmes, romances, teatro e televisão em tanta quantidade e com uma fome tão voraz que as artes da estória viraram a principal fonte de inspiração da humanidade, enquanto ela tenta organizar o caos e ter um panorama da vida. (…) Se nós pararmos para pensar nos padrões e nos significados, a vida, como uma Gestalt, dá reviravoltas: primeiro fica séria, depois cômica; estática, frenética; significativa, sem sentido. Os mais importantes acontecimentos mundiais estão além do nosso controle enquanto os acontecimentos pessoais, apesar do nossos esforço para manter nossas mãos na direção, geralmente nos controlam.”

Essas citações foram extraídas da introdução de Story, o best-seller sobre roteiro que resume um dos respeitados seminários do Robert McKee para roteiristas e escritores no mundo todo. Elas dão uma boa ideia do que significa a arte da narrativa para o ser humano há muitos séculos: narrar diverte, instrui, questiona. Mas, antes de mais nada, narrar organiza. O evento mais deprimente e horripilante pelo qual alguém tenha passado, quando contado, tem a vantagem básica de estar, ao menos, organizado no espaço e no tempo. As coisas estavam assim, então aconteceu isso, daí tudo desmoronou, ficamos desse jeito, então aconteceu uma outra coisa que afetou mais umas quantas pessoas e agora está todo mundo assim. Quando aconteceu, foi desorientador, caleidoscópico, mas ainda bem que agora, contado, tem algo parecido com início, meio e fim.

Aprendemos a narrar uns com os outros, sejam os outros nossos pais, a turma com quem crescemos ou os autores de filmes, romances e canções. Em cada cultura, em cada era, um tipo de narrativa se impõe e influencia o nosso jeito de narrar não apenas no nível profissional mas principalmente no nível pessoal – a maneira como contamos a nossa vida para nós mesmos e para os outros. Olhando para o passado distante, vamos encontrar tradições orais e pictóricas. Mais recentemente, a palavra escrita na forma de folhetins e romances teve um impacto substancial na maneira como o ocidental urbano constituiu suas histórias particulares. Hoje, vivemos sob o regime da imagem em movimento e estamos construindo um novo tipo de narrativa moldado por dois fenômenos: a fragmentação da linearidade e a quantidade de pequenas narrativas amadoras à nossa disposição.

É bastante fácil observar a linearidade fragmentada das narrativas profissionais atuais. Os games, com suas tramas abertas, e a música, com sua mistura cada vez mais desconectada do que seria um arquétipo do tempo presente, são o exemplo mais gritante. Mesmo obras que tem uma primeira camada linear, como os filmes de cinema, os seriados de TV e os romances juvenis de aventura, hoje surgem como um ponto em um ecossistema maior, que precisa de um esforço contínuo para ser acompanhado e apreendido em sua totalidade. Até aqui, pouca novidade. Esse aspecto da modernidade tem sido citado, analisado e criticado à exaustão.

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Já a multiplicação de pequenas narrativas amadoras é algo que me parece mais sutil, similar ao efeito da Lua nas marés. Não estou falando de curta-metragens de baixo orçamento que vão direto para o YouTube, mas de outra coisa ainda mais simples. Vamos chamá-las de narrativas sub-amadoras. São nossos SMS’s, emails, curtidas, compartilhamentos, vídeos, fotos, posts, notificações e status, um conjunto que gera campo gravitacional tão gigantesco que estamos, talvez, influenciando uns aos outros bem mais do que os profissionais de narrativas nos influenciam. Em outras palavras, a maneira como os dramas e comédias da sua amiga aparecem na timeline dela ou na sequência de mensagens piscando no seu celular estão mexendo mais com a sua noção de narrativa do que o roteirsta de Breaking Bad ou o autor da última novela das nove.

Isso é algo visível a olho nu. Há pouco, escrevi um post sobre o que presenciei no Dia dos Namorados de 2012 no Facebook: pessoas prestes a se separar fazendo declarações apaixonadas publicamente nas suas timelines, inundando os feeds dos amigos com sentimentos inflacionados. Como disse no post, não acho que essas pessoas estivessem sendo cínicas, apenas se inserindo na narrativa geral do “Dia dos Namorados no Facebook”. Elas não estavam imitando nada do Manoel Carlos ou do Woody Allen – mas as narrativas sub-amadoras de suas turmas de amigos, que também estavam fazendo declarações parecidas, num processo curioso de retroalimentação industrial. Já que passamos muito mais tempo recebendo sinais das narrativas sub-amadoras de amigos do que das narrativas profissionais de filmes, seriados e livros, é natural que as primeiras exerçam uma influência maior no jeito como construímos as nossas próprias narrativas sub-amadoras.

Pesa também, nesse sentido, o fato de que as narrativas sub-amadoras estão cada vez mais parecidas com as narrativas amadoras ou profissionais. Mesmo que nossos roteirozinhos safados do dia-a-dia não sejam páreo para um “Sopranos”, um “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, as fotos de férias e os pedidos de casamento em vídeo sempre tentam emular um pouco de Hollywood e os filtros de fotografia tem ajudado nessa aproximação. Também não deixemos de notar que a tela que usamos para construir e consumir nossas narrativas sub-amadoras é a mesma onde assistimos seriados e filmes, ouvimos música ou lemos livros.

O que ganhamos ou perdemos com isso tudo, ainda é cedo para dizer. Assim como as pessoas influenciam-se umas às outras na adoção de ondas de comportamento digitais, elas também se cansam com maior rapidez e pulam de uma mania à próxima com a agilidade de uma notificação de instant messenger. Embora as estejamos usando como linguagem interpessoal, não acho que as narrativas sub-amadoras vão substituir integralmente as narrativas profissionais, pelo contrário. A explosão dos roteirozinhos safados que espalhamos via redes sociais no fim só destaca as histórias contadas profissionalmente em qualquer que seja o meio. Bem, essa ao menos é minha forma de enxergar o copo meio cheio. Porque, como diz outro trecho do McKee, agora para fechar: “Estórias falsas e defeituosas substituem substância por espetáculo, verdade por artifícios. (…) Quando uma sociedade experimenta repetitivamente pseudoestórias ocas e envernizadas, ela se degenera. Precisamos de sátiras e tragédias verdadeiras, dramas e comédias que iluminem os cantos mais sombrios da psique humana e da sociedade. Senão, como Yeats avisou, ‘o centro não pode suportar’.”

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Leia também: Nossas Narrativas.

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Imagens: Gratisography & Picjumbo.

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Carta Aberta a Ben Stiller

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Caro Ben Stiller

Todos nós achamos muito bacana A Vida Secreta de Walter Mitty. A temática pertinente e conectada com nossos tempos; o roteiro engenhoso; a cinematografia exuberante (especialmente nas sequências da região nórdica e do Afeganistão); a trilha em sintonia com a cinematografia; a sua atuação milimétrica; a sensibilidade romântica…. tudo colabora para introduzi-lo na nobre e recente linhagem do “indie-realismo romântico da mente” de Michel Gondry, Spike Jonze, Charlie Kaufman e Wes Anderson.

Parabéns.

Mas, bem, agora que você já resolveu essa questão, esperamos que tenha limpado sua lista de tarefas e esteja totalmente focado no que realmente interessa – Zoolander 2.

Estamos no aguardo.

Atenciosamente,
Gustavo Berwanger Bittencourt

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2 filmes pra entender a maluquice de hoje em dia

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A ficção científica é a tropa de elite, a força especial, os SEALS, o último recurso narrativo para os paradoxos da humanidade. Quando histórias realistas não dão conta de processar as maluquices de uma determinada época, cabe à ficção científica traduzi-las com um pouco mais de liberdade e imaginação. Bem, isso não é lá muito novidade e os bons exemplos para essa tese abundam, mas resolvi resgatar essa ideia e reforçá-la a partir de dois filmes que vi recentemente.

O primeiro, sem trocadilhos, é Primer (inteiro para assistir aí em cima, com legendas em português). Ele conta a história de um grupo de quatro engenheiros que se reúne em uma garagem nas horas vagas para colaborar na criação de qualquer coisa que possa interessar a investidores e torná-los milionários. A uma certa altura da parceria, dois da turma, Aaron e Abe, resolvem separar um tempo para um projeto paralelo que parece relacionado à busca de uma nova fonte de energia renovável. No processo, alguma coisa dá errado e eles desenvolvem – por acidente – uma máquina do tempo.

A partir daí, Primer vira um bagunça: a cada uso da máquina, Abe e Aaron geram duplicatas suas e uma nova linha do tempo na história. Para evitar problemas, eles tentam regrar o uso da invenção, mas claro que começam burlar as próprias regras, criando um emaranhado de situações que nem eles e nem nós entendemos direito. O diretor e roteirista Shane Carruth nunca deixa claro qual das linhas temporais está seguindo e vai levando o filme pulando de uma pra outra, totalmente à revelia da nossa sofrida atenção. O que é justamente um dos charmes de Primer. Como disse o crítico americano Roger Egbert, “o filme me delicia com a sua confiança pretensiosa de que a audiência consegue acompanhá-lo.” De alguma maneira, Carruth carrega todo o pacote intricado que criou até o fim de uma maneira humana e interessante (ainda que só possa ser compreendida inteiramente a partir do esquema desenhado abaixo).

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Eu vi Primer em 2005 e revi agora, em 2013. Esse intervalo me ajudou a perceber o quanto ele antecipou algumas ondas que estamos vivendo. O clima “startup de garagem”, por exemplo, ainda era algo restrito a uma parcela específica da cultura americana em 2005. Hoje, o o aparato simbólico que envolve o mundo das startups é quase papo de boteco. A confusão causada pelas viagens no tempo também lembra um pouco o estado atual da cultura pop, com os códigos de décadas passadas e os revivals se entrelaçando de tal maneira que definir o que é contemporâneo se tornou uma tarefa tão complexa quanto inútil. Abe e Aaron pulando de uma linha do tempo para outra em 2004 somos nós num dia comum em 2013.

Outro bom exemplo é a web-série de 2012 patrocinada pela Intel/Toshiba. The Beauty Inside conta como vive um homem, Alex, que é sempre o mesmo por dentro mas que acorda a cada dia em um corpo diferente. Na segunda, um jovem negro, na terça uma senhora asiática obesa, na quarta um inglês branco de meia idade, na quinta uma morena alta e assim por diante. De alguma maneira, Alex nasceu e cresceu com essa questão, deu um jeito de chegar na idade adulta e quando o conhecemos está vivendo da venda de antiguidades pela internet e de casos amorosos de uma noite.

Não vou contar mais para não estragar o final (meio morno), mas não precisa ir muito longe pra fazer o paralelo entre o personagem principal de The Beauty Inside e o célebre conceito de modernidade líquida. As dificuldades de Alex são uma versão amplificada dos obstáculos que muitos tem com a noção de identidade em um tempo de códigos e costumes cada vez mais voláteis. Acordar cada dia como se fosse outro – quem nunca? Como escreveu Jonathan Franzen há pouco no Guardian (tem na última Piauí também), “A experiência de cada uma das gerações que se sucedem é tão diferente da anterior que sempre haverá quem julgue ter perdido em definitivo qualquer conexão com os valores essenciais do passado. Enquanto durar a modernidade, todos os dias parecerão a alguém os últimos dias da humanidade.”

Pois é: quem acompanha o universo da ficção científica sabe há muito tempo que, seja por conta de invasões alienígenas, erros genéticos ou inteligência artificial disfuncional, é da natureza do mundo viver em permanente estado de confusão e ameaça.

***

O episódio 1 de The Beauty Inside está ali em cima.
O dois está aqui.
O três está aqui.
O quatro aqui.
O cinco aqui.
E o seis aqui.

Cada um tem seis minutos de duração.

De nada.

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A sedução dos limites

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Em coluna na Folha no final do mês passado, o Michel Laub fez um contraponto interessante à onda de elogios ao momento fértil da televisão americana. “O Ponto Final do Cinema” lembra que não é justo comparar as boas séries dramáticas de TV com a pobreza dos blockbusters atuais do cinema principalmente porque “o mundo não é só Hollywood e a arte narrativa não é feita só de enredo.” Do ponto de vista de Laub, o cinema persistirá como arte relevante por uma liberdade que ele induz, “liberdade que começa com uma limitação: o tempo que dura um longa-metragem. Numa série, o que está em jogo é a eficiência. As coisas precisam andar para a frente, jogando iscas para que o espectador mantenha o interesse por várias temporadas ou maratonas de episódios.” É um ponto importante que quero explorar de outro ângulo.

O sucesso das boas séries dramáticas americanas não acontece no vácuo, elas não prosperam só devido a suas próprias qualidades. Além de contar com a indigência narrativa dos blockbusters atuais do cinema, elas fazem parte do espírito do nosso tempo porque tem a marca do maximalismo. Tudo é grandiloquente na narrativa pop contemporânea: os heróis infanto-juvenis já nascem com sagas inteiras construídas, os games (até por sua própria natureza) surgem com vastos universos atachados e rapidamente dão origem a franquias e extensões, os apps e sistemas operacionais se multiplicam em updates e versões, os hits musicais são lançados na internet junto com seus remixes e mesmo filmes que se esperaria serem individuais chegam aos cinemas com ganchos prontos para triologias – quando elas já não são pré-filmadas. O fã de narrativas pop de 2013 é ávido e seu apetite vem sendo sistematicamente cultivado para se acostumar a uma cultura de buffet. Em muitos casos, um excelente buffet, mas ainda assim um buffet, aberto 24h, o que permite inclusive que o fã coma tudo que quiser das 8 da noite às 6 da manhã num tiro só.

Como a história da narrativa pop vai pra frente em movimento dialéticos, quem quer que se incomode com a onipresença da narrativa seriada e expansiva não precisa se preocupar por muito tempo. A coluna do Michel Laub talvez indique um ponto de inflexão: é provável que já tenha gente por aí cansada desse maximalismo e com uma certa sede por um pouco menos de tentáculos na hora de assistir ou ler uma história. Como toda onda, essa vai marcar uma geração inteira, que deve levar para sua maturidade a lembrança de que bom mesmo é uma saga, um seriadão, um game gigantesco. Mas a ideia de limites é interna à natureza e uma voz persistente na cultura humana. Mesmo que em livros de 600 páginas, em filmes de duas partes de duas horas e meia e seriados de 8 temporadas, toda saga tem seu fim – inclusive a saga das próprias sagas.

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Imagem: Ai Kijima. Todos os direitos reservados.

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Dedicatória – um curta, um documentário, um Manoel de Barros

O Biel Gomes, diretor aqui de Porto Alegre, ia dar um livro do Manoel de Barros de presente para uma pessoa querida. Tinha que fazer, claro, uma dedicatória. Mas, como a caneta não pegava no livro, fez “Dedicatória”, um documento visual sobre a ida dele até Campo Grande em busca do ambiente da poesia do Manoel de Barros e da ajuda do próprio Manoel de Barros para conseguir escrever no livro. Bem inspirador sem ser histérico – como esses pedidos de casamento elaborados que pululam pelo Face hoje em dia.

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A recusa de Darin a Tony Scott (e não Tarantino)

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Update: inicialmente, eu havia publicado um texto fake nesse post sem saber. Cometi o erro de não chegar integralmente a fonte e nem a entrevista original. Bom, resolvi transcrever e traduzir eu mesmo o trecho da entrevista original que o Darín fala do convite recusado para trabalhar em Hollywood. Abaixo o vídeo específico do trecho e a transcrição/tradução (com meu pobre espanhol). E lááá embaixo deixei o post original errado.

A: Você foi atrás, gostaria, está atento, ou não te interessa nem o mínimo de jogar na Itália, outra analogia com futebol… o que acontece entre você e Hollywood?
D: Nada…. nada em especial, não me tira o sono nem me deixa louco… me soa muito “cholu” (tiete) (expressão que designa um índio que assume costumes brancos, se pesquisei bem).
A: Não te deixa louco isso? Não te deixa louco? Me escuta… deixa eu evoluir com isso… casa em Los Angeles…
D: Não, não…
A: Me escuta… ter um carro incrível em Los Angeles, viver cercado de estúdios, filmar dois filmes por ano, casa em Santa Mônica, esse fim de semana é de sol em Santa Mônica, tranquilo, lancha, ski, não te interessa isso? Não trabalharias…
D: Eu não sinto essa pulsão nesse momento para nada. Hollywood não me tira o sono, o Oscar não me tira o sono. (…) Me criticaram muito porque dizer que não tinha vontade de ir ao Oscar, não porque não tinha vontade, mas “como vai dizer que não tem vontade de ir ao Oscar? Cê tá brincando!’ Sim, não tenho vontade de ir no Oscar, qual é o problema? Por que tenho que ir ao Oscar? Por quê?
A: Por ser o Oscar.
D: Mas o que crêem que é o Oscar? Que querem que aconteça? Eu já fui, já vi, já deu. Já vi, não fiquei muito feliz e estou aqui. A fantasia que se tem lá de fora, que é um ambiente, uma coisa (…) é exatamente por que digo que é cholo isso. Não é sério. É cholo, entende? Tem a ver mais com a parafernália que rodeia a coisa do que com a coisa em si mesmo. A mim, ofereceram só uma vez uma coisa contundente e séria, à qual eu disse que não e depois começou a me incomodar um pouco porque não aceitavam da parte do diretor um não como resposta.
A: O que era?
D: Era um filme que fizeram que depois se chamou Chamas da Vingança, com Denzel Wahsington.
A: Quem era o diretor?
D: Tony Scott, o irmão do Ridley Scott.
A: Eu tenho que te dizer que não, hein…
D: Mas espera um segundo, antes de fazer essa cara… me escuta, me deixa argumentar. Me ofereceram fazer um traficante mexicano. E por que querem que eu faça um traficante mexicano? Parece que todos os traficantes são latino americanos… no país que tem o maior consumo da face da Terra? Primeiro, não gostei. E, segundo, eu queria vir pra casa. Fazia seis meses que estava fazendo teatro em Madri. Queria vir pra casa ver minha mulher e meus filhos. Me encheu o saco porque a agente me disse que não aceitavam um não como resposta. E automaticamente, depois de uma semana eu dizendo não, não, não, todos os dias estavam na porta do teatro, depois disso passaram à outra faceta, que era “é uma questão de dinheiro? Mas isso não é nenhum problema.” Não, não! Não me interessa!
A: Mas você ganharia mais dinheiro.
D: E? Pra que serve?
A: Para viver melhor.
D: Melhor do que eu vivo? Eu tomo dois banhos quentes por dia. Estava indo bem no teatro, estava trabalhando com gente genial, vinham me abraçar na rua. A ambição pode te levar a um lugar muito obscuro, muito desolador. Eu sou o mais feliz que posso sem olhar para outro lado. (…) Tenho uma situação privilegiada, as coisas estão bárbaras, as pessoas me querem na rua, vejo sorriso, as pessoas vem e me abraçam… o que mais você quer? Pra que mais? (…) Sou um cara muito privilegiado, tenho muita sorte. Me convidam pra trabalhar e se abrem as portas há mais de 30 anos as pessoas confiam em mim. (…) Se vou querer mais do que isso, se vou ambicionar mais do que isso, é porque estou vendo outro filme. Eu sou o mais feliz que posso ser.

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Post original errado:

Entrevistado em setembro no late show argentino Animales Sueltos, o ator e também argentino Ricardo Darín me sai com essa:

Fantino: É verdade que você recusou uma oferta para filmar em Hollywood com Tarantino?
Darín: Sim, é.
F: E por quê?
D: Porque me ofereceram o papel principal mas eu teria que fazer um traficante mexicano. E eu perguntei ao produtor por que os mexicanos sempre tem que fazer os traficantes se os maiores consumidores em nível planetário são os ianques.
F: E o que ele respondeu?
D: Bom, a resposta que ele me deu me incomodou tanto que confirmou minha escolha de não filmar com Tarantino. Me disse “Então é uma questão de dinheiro. Diga quanto você quer que pagamos. Você coloca o preço”. Quer dizer, não podem chegar a ver nem a compreender que existem códigos fora do dinheiro que alguns de nós temos… entende?
F: Mmm… não, na verdade não.
D: Como não? Ale, você é esperto, tem que entender o que falo…
F: Mas você poderia ter ganho mais dinheiro.
D: Mais dinheiro? Ser milionário? Pra quê?
F: Como pra quê? Pra ser feliz.
D: Feliz com mais dinheiro? Do que você está falando?

F: Bom, todos queremos ter mais dinheiro pra ser felizes.
D: Ale, eu tenho dinheiro, tenho um carro importado de alto nível. Como o que quero no café da manhã, no almoço e no jantar, e posso tomar dois banhos quentes por dia. Você tem ideia de quantas pessoas no mundo podem tomar dois banhos quentes por dia? Muito pouca gente, entende? E como eu não me considero um excelente ator, sempre digo a mim mesmo que foi por pura sorte, entende? Nesse mundo capitalista selvagem eu sou um cara de muita sorte. Eu sou um privilegiado entre milhões de pessoas. E mais, eu tenho a sorte de poder ver isso em mim, o que me permite ter uma boa conta bancária e não acreditar nela. Eu posso me ver de fora e dizer “Puta, que louco, que sorte você teve”.
F: Mas você filmaria em Hollywood… e não pode negar que do Tarantino ao Oscar seria um pulo…
D: Acho que eu não sei me explicar direito… eu já estive na cerimônia do Oscar e não gostei, tudo é de plástico dourado, até as relações entre as pessoas. Fui, aproveitei, mas esse mundo não é o meu, não é o que elegi nessa vida.

Errata: bom, preciso admitir que eu traduzi o texto de um blog sem ter assistido a entrevista inteira. E me alertaram que o papo, embora tenha esse teor, não é exatamente este descrito acima. Mais tarde eu corrijo o texto. Fuén! Corneta do fracasso!

Quem quiser tentar o espanhol, no vídeo ele fala a partir de 40 minutos aproximadamente.

***

Vi originalmente no Milton Ribeiro.

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Alfonso Cuarón, Neil Blomkamp e seus comerciais

Passeando por um artigo da Advertising Age sobre diretores de cinema e comerciais dirigidos por eles, encontrei essas pérolas de dois nomes que estão no cinema hoje revitalizando o sci-fi. Acima, comercial da rede de TV americana PBS pelo Alfonso Cuarón (Gravidade) em 2002. Abaixo, Nike por Neil Blomkamp (Elysium).

O artigo ainda traz exemplos do Spike Jonze, Wes Anderson e outros a serviço da publicidade.

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Frances Ha contra a obsessão contemporânea por dar certo

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Garota de vinte e poucos anos, recém formada em dança, dividindo apartamento com a melhor amiga, tenta se firmar como dançarina profissional em Nova Iorque enquanto vive tremendas confusões financeiras e amorosas. Nas mãos de outra pessoa, essa poderia ser a sinopse de uma comédia romântica de quinta categoria, pronta para ser dublada e passar na Tela Quente. Mas, como estamos falando do diretor e roteirista Noah Baumbach, Frances Ha é simplesmente… outra coisa. Não se deixe enganar pelo trailer sacana: Frances Ha é outra coisa!

Não que seja um filme difícil ou 100% experimental. A história é pop, a fotografia P&B é linda e os códigos culturais são totalmente alinhados com os de uma certa parcela da juventude global/americana (lembra pouco o seriado Girls e a edição de alguns episódios da terceira temporada de Louie). Ainda assim, como dois dos filmes anteriores de Baumbach (Margot e o Casamento e Greenberg) Frances Ha tem algo de profundamente incômodo, de impertinente, quando poderia ser bem mais amigável. E esse algo, nesse filme, está claramente localizado em pelo menos dois elementos: uma edição menos convencional, mais fragmentada, e, o mais bacana, uma personagem principal que vai contra todos os discursos prontos e clichês da cultura ocidental branca de classe média do momento.

Como bem escreveu Martha Medeiros em sua coluna de Zero Hora algumas semanas atrás, Frances Ha é uma homenagem aos errantes numa época marcada pela busca obsessiva pelo sucesso – não o sucesso yuppie dos anos 80, mas sua versão modernizada ao longo dos anos 00, que diz respeito a “aproveitar a vida ao máximo”, “trabalhar com o que se ama”, “curtir cada momento como se fosse único”, “ligar-se em rede para mudar o mundo”, enfim, todos esses clichês que saltaram dos livros de auto-ajuda para os comerciais de banco e o universo das palestras de inovação.

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Ou seja, Frances, que nos deixa nervosos na plateia enquanto apronta das suas na tela, não teria a menor condição de protagonizar um comercial de final de ano do Itaú e nunca seria convidada a subir no palco de um TED pra contar sua história. Esse sim é um feito respeitável hoje em dia. Eu iria mais longe e diria que talvez ela pudesse fazer pela década atual o que Jeffrey Lebowski fez pelo fim dos anos 90, que é condensar em um personagem icônico todas as contra-aspirações de uma geração. Mas é bem possível ela se atrapalhe e acabe não conseguindo.

***

Ah: não deixe de ler a bastante completa matéria da New Yorker sobre Noah Baumbach e sua parceira de vida e de roteiro, Greta Gerwig (que faz a Frances). Tem um bom apanhado da carreira de Baumbach e comentários sobre ele de gente como Bem Stiller, Peter Bogdanovich e seus pais – retratados parcialmente em A Lula e a Baleia.

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Marc Maron + Noah Baumbach

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Tá imperdível o episódio do podcast do comediante americano Marc Maron em que que ele recebe o Noah Bambach – popularmente conhecido como “o diretor de A Lula e a Baleia”, entre outros filmes da linha sou-itelectual-pop-novaiorquino-pagador-de-tributo-ao-Woody-Allen-e-amigo-do-Wes-Anderson. É 1 hora e 15 de um bate papo muuuito interessante, não apenas sobre o filme mais recente de Baumbach mas também cobrindo a relação dele com os pais (autênticos intelectuais novaiorquinos), com a tal cena intelectual novaiorquina, sobre um autógrafo do Bill Murray, sobre a parceria com o Wes Anderson, sobre a emotividade da página de A Lula e a Baleia na Wikipedia, enfim, essas coisas triviais. :-)

Aqui é o site do WTF, mas o negócio é pegar o episódio logo lá nos podcasts do iTunes, porque daqui a pouco sai do ar.

Mais uma boa dica do Pinheiro.

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Shelved – O Balconista encontra Wall-e

É mais ou menos nessa batida que vai o curta lindoso com efeitos produzidos por alunos da Auckland’s Media Design School. Esse Shelved nos lembra: tá faltando mesmo um longa adulto com robôs mais ácidos e menos sonsos. Em geral, os robôs no cinema são apenas escadas dramáticas ou caricatas.

(Só é chatinho de acompanhar o enrolado sotaque neozelandês processado em voz de robôs. Mas mesmo pegando uma parte do texto, dá pra sacar a malemolência da história…)

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Conversando enquanto cai o mundo

“Treze Dias que Abalaram o Mundo” (2000) é um thriller político ao estilo Supercine que cobre a Crise dos Mísseis em Cuba com a agilidade e inteligência cinematográfica clássicas do melhor cinemão mainstream hollywoodiano. A ação, conduzida pela mão firme e correta de Roger Donaldson, se passa em outubro de 1962, quando missões americanas de reconhecimento aéreo trouxeram para a mesa do presidente Kennedy fotos da instalação de mísseis russos em Cuba a uma distância que permitiria um ataque nuclear devastador aos Estados Unidos. A partir dessas fotos, seguiram-se os tais treze dias da mais pura tensão política e com um detalhe adicional assustador: diz-se que foi um dos momentos em que se chegou mais perto de uma guerra nuclear entre os EUA e a União Soviética.

Embora o contexto e os movimentos políticos retratados no filme sejam fascinantes, porque definem as linhas de força de uma era próxima e reconhecível, um outro aspecto chama a atenção – e também pela ligação com os dias de hoje. Esse aspecto é bastante bem representado pelo segmento abaixo.

Desde o início do filme, a cúpula militar americana é retratada como uma turma de cowboys nervosos que apostam no mandamento sagrado do ataque como melhor defesa. No entanto, o Secretário de Defesa Robert McNamara e o Chefe da Casa Civil Kenny O’Donnel pressentiam que o excesso de testosterona nas reuniões da Casa Branca poderia acarretar uma destruição nuclear mútua caso o Presidente se deixasse levar por bravatas belicistas. Durante a maior parte do filme, tudo que McNamara e O’Donnel fazem é criar uma área de desaceleração de opiniões precipitadas, evitando que os Estados Unidos dessem o primeiro passo em direção à catástrofe.

Um dos recursos de negociação interna entre a casa civil e os militares foi substituir a ideia de um ataque total (a primeira escolha dos cowboys) por um bloqueio à frota russa que trazia mais mísseis a Cuba. A cena acima se desenrola justamente no ponto mais crítico do bloqueio, quando os navios de ambas as nações se encontram. Os militares americanos não tem autorização para atirar e, contrariando a ordem presidencial a partir de uma interpretação tendenciosa, lançam mísseis sinalizadores de advertência. Nem todos, entre ianques e russos, sabem que aquilo são sinalizadores e não tiros de verdade. É quando McNamara interpela o general tentando fazê-lo enxergar, como ele mesmo diz, que “Isso não é um bloqueio. É uma linguagem. Um novo vocabulário, do tipo que o mundo nunca viu antes. Isso é o Presidente Kennedy e o Secretário Khrushchev conversando!”

Os oficiais ficam surpresos, tanto com a audácia de McNamara de levantar a voz em plena central de comando da Marinha quanto com o conteúdo da gritaria. Considerar movimentos militares beirando a guerra como a sintaxe de um diálogo político em escala global era, de fato, um conceito novo, típico das ações diplomáticas ambíguas da Guerra Fria e alimentado pela ascensão da mídia de massa, das transmissões em rede mundial. Desde sempre, informação sempre foi decisiva na política e nas guerras, mas até então, quando se falava em informação, se queria dizer dados táticos de campo, secretos ou não. Nesse caso, informação ganhava o significado mais amplo que usamos hoje: Kennedy e Krushchev conversavam utilizando uma multiplicidade de canais, o que incluía pesadas operações militares, e, também, um certo tempero incontrolável via editoriais, colunas e reportagens da imprensa mundial, o que adicionava novas camadas de significados e pesos ao diálogo dos dois líderes.

Por que estou escrevendo isso tudo? Porque quando revi esse filme, lembrei na hora da nossa comunicação individual e coletiva usando a internet. Mais do que nunca, estamos aptos a mandar recados uns pros outros, individual e coletivamente, da mesma forma altamente simbólica como aconteceu na cena do filme postada logo acima (não deixe de ver!). No âmbito coletivo, o compartilhamento de notícias, artigos, postcards e piadinhas sobre esse ou aquele assunto costumam se agregar em duas ou três posições polarizadas, gerando, a longo prazo e de forma muito sutil, um diálogo social. Eventos políticos de grande alcance, como o do Mensalão, são um exemplo execelente. Nesse caso, a maior parte das pessoas deu sua contribuição à conversa nacional na forma de ações indiretas – curtindo, compartilhando, passando emails adiante, numa intensidade e quantidade muito maior do que, provavelmente, o diálogo direto. No âmbito mais particular, da mesma forma, colegas de aula amigos, casais, enfim, grupos diversos também dialogam desse jeito um pouco esquivo. As curtidas, os compartilhamentos, os forwards de email, as mensagens de what’sapp, as fotos do Instagram, tudo isso somado forma blocos enormes, pesados e relevantes de opiniões e vetores culturais disfarçados de uma colcha de retalhos caótica.

O chilique do Secretário McNamara, então, nunca foi tão atual. Não se trata de uma batalha, de uma disputa campal. Se trata de “uma linguagem, um novo vocabulário do tipo que o mundo nunca viu antes”. A única e mais importante diferença de 1962 pra 2012 é que não são mais dois estadistas conversando. Somos eu e você.

***

Esse texto estava guardado há algumas semanas esperando um tempinho pra eu dar uma revisada. Entre eu terminar de escrevê-lo e essa postagem, estouraram em SP e em SC as ações dos respectivos PCCs. E, no Oriente Médio, o rolo entre Israel e Palestina. Também são casos, me parece, de conflitos que mais parecem enormes, profundos e complexos diálogos travados entre grupos liderados por dirigentes que, no caso, desaprenderam a conversar e que estão totalmente imersos em sistemas políticos ineficientes para a mediação de paz. Não que a situação fosse muito melhor em 62. Diante do meu desconhecimento de política internacional, tudo que posso pensar é que na época a humanidade simplesmente teve mais sorte. Tomara que essa sorte não tenha acabado.

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Como Woody Allen pode mudar a sua vida

O francês Éric Vartzbed é um bravo. Doutor em psicologia e psicoterapia, ele escreveu um livro bem fundamentado e bacana de ler, e na hora de batizar a criança, tacou-lhe no título uma fórmula de auto-ajuda. Cara de ponto de interrogação: por que o Sr. Vartzbed fez isso? Que estranhos motivos o moveram? Falta de imaginação? Canalhice comercial? Ou mais uma brincadeira ambígua e irônica inspirada nos clichês que Woody Allen explora tão bem em seus filmes?

Não sei. Não encontrei muita informação sobre ele na internet (que não estivesse em francês). Mas o que eu sei é que esse espírito espírito meio zombeteiro é bem o que pega nesse “Como Woody Allen Pode Mudar Sua Vida”. Rápido, simpático e elegante, em vez de enveredar pela análise pragmática (e chata) da filmografia de Allen, o que o Vartzbed fez foi a crônica do seu encontro pessoal (incluso aí sua formação de terapeuta) com a obra do nosso querido cineasta novaiorquino. O resultado disso, diferente do que o título rapidamente sugere, não se aproxima nem um pouco do formulismo da auto-ajuda. Pelo contrário, quem procurar aqui receitas prontas pra ser feliz vai encontrar, confissões, costuras, mergulhos, encaixes e sobreposições entre psicanálise, psicologia, filosofia e um cinema muito peculiar. No fundo, o livro é um pouco como as boas comédias do Woody Allen: toca em feridas profundas, mas sabe ser leve, engraçado e fluído quando necessário. Tem ritmo, consistência e bom humor. Um equilíbro raro.

O ponto de partida de Vartzbed é já sair confessando desavergonhadamente seu posto de fã de Woody Allen e o impacto que seus filmes tiveram na sua formação pessoal. Nada de posturas distantes ou falsas imparcialidades. Pra ser mais específico, ele cita emocionado a comoção que sentiu ao assistir A Outra. Nesse filme de 1988, Gena Rowlands interpreta uma professora e ensaísta fria e esquemática que se refugia em um apartamento alugado para terminar de escrever uma tese. O plano, no entanto, se mostra defeituoso pois as sessões de psicanálise em uma sala vizinha vazam para dentro do refúgio por meio do encanamento do ar-condicionado. A voz invasora acaba desencadeando na personagem Marion Post uma corrente de lembranças e reflexões que abalam os fundamentos da sua vida atual.

Vartzbed conta que usou o filme como espelho para resolver questões particulares. E que essa foi apenas a primeira vez de muitas. Capítulo após capítulo, ele mostra como o trabalho de Woody Allen se presta como parceiro de reflexão (de quem está a fim, claro) por abordar feridas universais com a principal ferramenta do seres urbanos – a palavra. Afinal, por mais bem escolhidos que sejam os diretores de fotografia, por mais cativantes que sejam as trilhas sonoras, por mais cuidadosos que sejam os planos, o cinema de Allen é reconhecidamente um cinema da palavra.

Esse é um dos principais pontos de intersecção que Vartzbed encontra entre seu ídolo e o trabalho terapêutico, mais especificamente a psicanálise, também já apelidada de “a cura pela palavra”. Ele lembra que Allen “filma o fosso que separa as palavras do ser.” Seus personagens falam, falam, falam, falam o tempo todo, usando as palavras para mediar uma negociação complexa entre seus anseios, sua formação e o ambiente social que os rodeia, na maior parte das vezes, é bom lembrar, uma classe média urbana – e novaiorquina, o que significa urbana na décima potência. A palavra, para estes habitantes, é instrumento de trabalho, organizadora da vida cotidiana e força subterrânea da ebulição inconsciente. É também uma instância de distanciamento saudável de impulsos incontrolados, como em Vicky Cristina Barcelona onde “a passagem pela língua inglesa permite que o casal formado por Maria Elena e Juan Antonio manter à distância a emoção destrutiva. (…) Várias cenas mostram como o movimento de tradução é acompanhado de um desligamento no qual a raiva se aplaca.”

Mas a primazia da palavra é um aspecto claro em Woody Allen. O que nem sempre aparece, mas que ele já sublinhou em entrevistas, e que Vartzbed faz questão de lembrar, é a visão de mundo otimista, quase redentora, do diretor. Embora pintado como ranzinza, mau humorado, garoto enxaqueca, os filmes de Allen mostram em sua maioria caminhos de pacificação ou de encontro de personagens consigo mesmo. Ainda que em muitos casos esse encontro ou essa pacificação não ocorram (ou ao menos da forma convencional), mesmo as frustrações revelam uma crença na busca por algum tipo de conforto e entendimento de si e do mundo. No já citado A Outra, Marion Post aceita uma voz estrangeira vazada ao acaso como mensageira de desejos interiores. Sandy Bates, de Memórias, termina o filme aceitando que “não posso controlar tudo na vida, a não ser a arte e a masturbação, duas áreas nas quais sou um absoluto perito”. Em Igual a Tudo na Vida, a paranóia patológica de David Dobel acaba ajudando a melhorar a vida de um pupilo. Em Zelig, o protagonista se torna parecido de seus próximos querendo aceitação. Nenhum niilista verdadeiro se permitiria tamanho luxo, tanta energia empregada em tentar se aliar a um mundo de desespero.

Segue Vartzbed: “Até quando seu discurso é sério e desiludido, o tom é tão energizante, apimentado e irriquieto que o espectador deixa a sala assobiando, revigorado.” Sim, O Sonho de Cassandra e Match Point, por exemplo, são filmes pesados, opressivos. Mas é difícil sair do cinema sem algum entusiasmo com a descarga de energia promovida pelo passeio em tal montanha russa.

Mas e aí? Quase 50 anos e mais de 40 filmes depois, Woody Allen pode mudar a sua vida? Claro que não pode. O autor fecha o livro com um capítulo chamado justamente “Como acabar com os tratados sobre a felicidade e outros manuais éticos?” E evoca Freud: “A felicidade é uma questão de economia libidinal individual. Nenhum conselho nesse terreno é válido para todos, cada um deve procurar por conta própria o seu modo de ser feliz.” De qualquer forma, olhe a foto logo acima e veja se este homem não tem uma certa credibilidade para lhe dar alguns conselhos.

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El empleo

O que me chamou a atenção nesse premiadíssimo curta não foi nem a estética e nem o conteúdo, mas o ritmo. Qualquer obra que dê uma freada nesse mundo acelerado e hiperativo é sempre digno de nota.

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Começou

Em 2009, escrevi um post ressaltando um texto do jornalista Chuck Klosterman sobre Harry Potter. A tese do Klosterman era lógica e bem bacana: assim como quem não assistiu Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas perde uma parte das piadas dos seriados e filmes atuais, quem não acompanhou minimamente a série do Harry Potter vai encontrar buracos nas narrativas pop dos próximos 20 anos.

Pois bem, a imagem acima (que, acredito, não deve impactar todo mundo) é o sinal de que isso já começou.

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Netflix

Como comentei no Face e no Twitter, assinei o Netflix há algumas semanas pra testar o serviço de “locação online” (não é bem isso, mas enfim). De cara, gostei: tem 30 dias de graça pra experimentar e a interface, apesar de tosca, dá pra navegar com mais facilidade do que os concorrentes (que eu nem sabia que existiam direito, o que mostra o que é a força de uma marca global). O acervo do Netflix nacional não é lá essas coisas, mas também não precisa ser. Aliás, esse problema é generalizado com locação online por questões contratuais com os grandes estúdios (leia o dossiê completo do Link). De minha parte, gosto de dar uma vasculhada em filmes mais antiguinhos e tou podendo assistir o Mad Men Tem Muppets, De Volta para o Futuro, Duna… tá na boa.

Uma coisa que faz toda a diferença: lá em casa temos Wii, então usamos o Netflix na TV. Se fosse pra ser só no computador, na boa, teriam que cobrar menos que 14,90 por mês. Agora, tem um lance muito engraçado e curioso que tem a ver com a foto que eu postei acima.

O botão B do controle do Wii funciona como “VOLTAR” no Netflix. E ele fica na parte de baixo do controle. Ou seja: toda vez que você dá play e se recosta pra assistir o que quer que seja, não pode simplesmente largar o controle displicentemente no sofá. Precisa tomar cuidado e colocar ele de lado, de forma que não aperte o botão B sem querer e nem o controle fique apontando pra tela (porque senão ficam aparecendo os menus).

É uma bobagem, não chega a ser um problema. Mas são essas pequenas coisas que mostram 1) como estamos acostumados a sistemas estabelecidos – no caso, jogar o controle da TV ou da NET no sofá sem receios e 2) como um pequeno detalhe não previsto originalmente coloca um pequeno empecilho na sua interação com um novo sistema.

***

Só pra não deixar de dar meu prognóstico, que é igual ao que tem saído em geral por aí: não acho que os serviços de locação online ameacem as locadoras tão cedo. Em primeiro lugar, pela questão dos lançamentos, que no DVD (original ou pirata) ainda saem antes por questões legais. Em segundo lugar, porque ainda precisa facilitar a vida do usuário médio que no geral prefere (minha intuição) ir até a locadora (ou o seu camelô) do que ficar se envolvendo com o mundo dos plugins e dos cabos (coisa de nerd).

Quando os lançamentos estiverem na mão e a experiência de compra/locação/assinatura for realmente suave, aí sim.

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Diferentes iguais

Não sei quanto a vocês, mas de minha parte não adianta: é difícil entender a extensão da encrenca dos outros a menos que eu esteja na mesma situação. Não que me falte capacidade de abstração ou criatividade para imaginar os cenários. Mas é que o poder da experiência direta, sem dúvida, continua sendo o professor mais eficiente.

Escrevo sobre isso porque há algumas semanas estive em Buenos Aires e minha mulher me proporcionou viver um desses momentos em que você, queira ou não, se coloca no lugar do outro. Ganhei de presente uma visita à… exposição? Instalação? Experiência?… enfim, ao Dialogos en La Escuridad, um… passeio? Caminho?… onde você passa pouco mais de sessenta minutos experimentando como é ser cego.

Funciona da seguinte forma: você chega, paga o ingresso, ganha uma bengala e se junta a um pequeno grupo de visitantes. É instruído a deixar mochilas e óculos num armariozinho e entra por um corredor absolutamente – ABSOLUTAMENTE – escuro. Mesmo. Não dá pra enxergar NADA. ZERO. BREU. E assim vai ser pela próxima hora.

Lá dentro, uma voz se identifica como seu guia. É um cego, um especialista em um contexto no qual somos todos, de repente, novatos. Isso já faz parte do aprendizado involuntário: de uma hora pra outra, o grupo passa a DEPENDER de alguém que costuma olhar como portador de uma deficiência em vez de portador de habilidades. Ao londo do trajeto, precisamos intensamente da orientação do nosso guia para nos locomovermos, nos entendermos, nos encontrarmos, darmos alguns passos que sejam. O guia, por outro lado, é justamente isso: um guia. Como ele não pode levar cada um pela mão – embora o faça em situações de maior dificuldade, procura orientar, acalmar e incentivar a exploração dos ambientes usando os sentidos que nos sobram.

São quatro situações pelas quais passamos: um bosque, uma rua movimentada, um barco e um bar. Em todos precisamos nos localizar, nos movimentar e tentar aproveitar. No bosque, o desfrute é mais simples. O som, os cheiros e o entorno é agradável. Somos convidados a cheirar, tocar, ouvir e sentir. Na cidade, o bicho pega com buzinas, carros e o onipresente ruído da construção civil. Nesse momento, todo meu entusiasmo com anos de leitura de Demolidor (o herói cego da Marvel que me fez pensar que eu sabia como fazer isso tudo) foram por água abaixo. A situação é opressora e estressante, mas – outra lição – o grupo se ajuda e também servimos de guia entre nós. No barco, não há grandes dificuldades. E no bar já chegamos um pouco mais “experientes”. Compramos café, água, refrigerante e alfajor com as notas de dois pesos que fomos orientados a trazer. Sentados, a última aula. Trocamos impressões, contamos o que sentimos, ainda sem podermos enxergar uns aos outros.

Lembre-se: mal nos vimos lá fora, não nos conhecemos. No entanto, a intensidade da experiência e o escuro estimulam todos a revelarem não apenas o lado agradável da experiência, mas também a angústia, as dificuldades e o medo de ficar uma hora – apenas uma hora! – desprovidos de informações visuais.

Eu pensei que experimentar um pouco da dificuldade de viver sem enxergar seria o mais tocante, o mais chocante, o mais incrível. Mas o que REALMENTE me impressionou foi ver tão claramente (desculpe o trocadilho barato) as minhas dificuldades e os meus limites no que diz respeito a entender as dificuldades e os limites dos outros, sejam eles cegos ou não.

É muito bonito saber da importância e do valor de colocar-se no lugar do outro. Mas também é muito útil saber o quanto isso é difícil e contraintuitivo.

Ainda nesse departamento.

Esses dias assistimos Yo También, cujo trailer está aqui. É também uma experiência interessante no que diz respeito a entrar um pouco no universo de uma pessoa portadora de deficiência. No caso, a história começa apresentando um rapaz sevillano com síndrome de Down que, aos 34 anos, se forma na universidade e começa a trabalhar.

O que se segue, definitivamente, NÃO é o desenrolar de um dramalhão no estilo “rapaz com dificuldades vence as adversidades, luta contra tudo e contra todos e mostra que quem vai atrás dos seus sonhos pode tudo.” Sim, as questões do preconceito, da inserção social, da família, da sexualidade dos portadores de Down, tudo isso é abordado. Mas se você quer se rasgar com choro fácil, esqueça. Os sentimentos que o filme sucita são bem mais amplos (e às vezes constrangedores) do que a clássica “pena”.

O que torna Yo También especial, na verdade, é justamente a capacidade de encontrar áreas comuns que pessoas portadoras e não portadoras de síndrome de Down compartilham, como amor não correspondido, isolamento e a dificuldade de encontrar o seu lugar no mundo. No fim das contas, quem não porta ou já não portou essas deficiências?

Resumo: o bom de Yo También não é o que nos faz diferentes, mas sim iguais ao protagonista.

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Documentário como ferramenta de marketing

Uma coisa que me chamou a atenção este ano no Festival de Cannes foi a presença constante cases que giravam em torno ou terminavam em DOCUMENTÁRIOS. O fenômeno não é novo, mas possivelmente estamos chegando no ponto onde isso está se tornando mais comum, uma espécie de item permanente no cardápio de opções de uma campanha. Acima postei alguns exemplos e dando uma olhada (e uma pensada) por cima, não é difícil descobrir por que o uso desse recurso é tão sedutor para os publicitários.

1) Diferente do comercial de 30 segundos, em um documentário (ou em micro documentários) é possível explorar por mais tempo a história da campanha. Entretanto, isso não invalida o comercial de 30 segundos, que pode muito bem ser utilizado pra divulgar o documentário.
2) Os custos de gravação e edição digital deixa bem mais acessível a produção de conteúdo audivovisual mais extenso.
3) E, claro, a internet oferece uma plataforma de exibição a um custo mas baixo do que pagar a veiculação em TV.
4) A possibilidade de compartilhamento também é outra questão indiscutível.
5) O mais importante, nos últimos anos, os documentários entraram no alfabeto pop, estão aparecendo mais não apenas na publicidade, mas no cenário cultural como um todo.

De todos esses fatores, que surgem intimamente ligados, a internet é obviamente o mais forte quando olhamos para os pilares dessa tendência. Um bom documentário na rede nasce de mãos dadas com as redes sociais – especialmente quando o assunto é socialmente relevante. O Guardian publicou um artigo sobre isso em junho, não deixe de ler.

***

Em tempo: por mais que os cases acima sejam interessantes, todos eles me deixaram com uma sensação muito esquisita. Talvez seja influência do formato documental, mas parece sempre que há uma intenção de “interferência social” da marca em uma comunidade ou em um assunto. É isso que, em todos esses cases, os documentários documentam.

Pode ser ceticismo, mas eu geralmente me incomodo com isso. Sempre achei – e continuo achando – que a melhor forma de uma empresa/marca contribuir socialmente com o que quer que seja é através de suas atividades do dia-a-dia e não SÓ através de uma campanha ou da comunicação. Pra deixar mais claro, sempre penso nesse exemplo: de nada adianta uma marca de carros fazer uma campanha para reduzir a mortalidade no trânsito e continuar a produzir comerciais que só sedimentam imagens de sucesso e excitação ligadas à velocidade. Eu sei que essa discussão é longa, que é muito fácil cair no maniqueísmo e achar que é tudo culpa da publicidade. Também sei que preciso temperar meu ceticismo com alguma dose de boa vontade e admitir que as comunidades impactadas por essas ações saem ganhando alguma coisa (os documentários, de novo, documentam isso).

Mas onde há tanto dinheiro envolvido, é preciso levantar essa lebre. Sempre.

***

Um adendo. Até o Foo Fighters tá nessa:

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#será?

Uma das grandes contribuições da série Harry Potter (que acompanhei nos filmes) à cultura pop é justamente um certo compromisso com a realidade, com o cotidiano, com os problemas mundanos. Sim, você leu direito: a série que botou a magia na pauta mundial também retorceu o próprio conceito de magia, associado, por anos, ao universo Disney, a um certo escapismo americano clássico. No universo Potter, a magia não é escapista, mas quase um catalisador para se lidar com questões de base: amor, amizade, abandono, traição, paternidade & maternidade, educação, valores humanos e, claro, a morte, o fim, a impermanência, sublinhados no slogan de encerramento. Faz todo sentido do mundo que a série TERMINE, porque, enfim, como somos lembrados repetidamente ao longo de toda a saga… tudo é uma fase, tudo termina.

A única coisa que talvez seja questionável no slogan “tudo termina” é o futuro da série como produto cultural. Pensando em quanto a indústria do entretenimento espreme suas franquias ao máximo, pensando na paixão dos fãs, pensando no atual estado (avançado) de produção de conteúdo por aficionados (e sua participação no hoje célebre conceito de transmedia storytelling), lembrando que o George Lucas abriu precedentes perigosos com a retomada do Star Wars alguns anos atrás… é de se perguntar se tudo vai terminar mesmo…. se alguém tem realmente controle pra dizer quando Harry Potter vai ou se vai mesmo “terminar”.

Veremos.

***

Aproveito a oportunidade pra ser oportunista e resgatar os posts Harry Potter Vai Chutar a Sua Bunda e Harry Potter Não Vai Chutar a Sua Bunda. Obrigado.

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Malditos Cartunistas

Vamos tirar o óbvio da frente 1: Malditos Cartunistas supre uma lacuna histórica ao documentar, de forma direta, com uma simples e bem sacada edição de entrevistas, um pedaço fundamental porém pouco valorizado na cultura brasileira. É uma hora e meia de papo pra câmera que poderia ser duas ou três horas, em parte porque os entrevistados (cartunistas, desenhistas, quadrinistas, editores ) são todos figuraças, em parte porque existe uma demanda reprimida por reflexão e referências nessa área.

Vamos tirar o óbvio da frente 2: Não estamos falando de gente que simplesmente desenha, mas de uma categoria que ajuda a moldar a forma como o país se diverte, se pensa e se enxerga. Quando não é pelas invisíveis cordas das publicações underground, que colocam os malditos cartunistas na posição de influenciadores indiretos da cultura (como a finada revista Animal que pautou editores, diretores de arte, designers, escritores, jornalistas durante sua vida), temos a atuação direta no mainstrem, como Angeli e suas 100 mil edições de Chiclete com Banana vendidas em banca, o pequeno império de Mauricio de Sousa, as tiras diárias de Caco Galhardo, Ota, Arnaldo Branco e outros espalhados por jornais brasileiros, o Reinaldo com o Casseta e Planeta na Globo (por sua vez filhotes do Pasquim de Jaguar e Ziraldo) e, claro, não podemos esquecer, da época em que o Laerte e o Adão Iturrusgarai faziam parte da equipe de roteiristas do TV Colosso. Os malditos cartunistas, na verdade, não são tão malditos assim.

Agora, além desses pontos óbvios, há um mérito extra no Malditos Cartunistas, que é juntar essa turma para que possamos ouvi-los e vê-los em sequência, comparando sua fala, sua atitude e, talvez o mais bacana, o seu visual. Sim, pode parecer futilidade, mas dentro todas as coisas bacanas do filme, o que eu mais gostei foi poder enxergar a cara, as roupas e principalmente o CENÁRIO DE FUNDO das entrevistas: a nesga da cozinha do Ota com o lixo transbordando, a pilha de livros do Angeli, a prancheta do Adão Iturrugarai, a janela de apartamento de classe média portoalegrense da Chiquinha (veja os comentários), o escritório do Ziraldo e por aí vai.

Quando você tiver a oportunidade de assistir Malditos Cartunistas (fique ligado nos festivais de cinema e nas internétes), não deixe, então, de prestar atenção nos cenários. Esse tipo de informação nem sempre entra pelo nosso canal mais racional de compreensão, mas vai ajudando a sedimentar inconscientemente uma cultura visual mais própria do brasileiro. Que aqui não é exclusividade dos entrevistados: o formato do documentário, bem punk, à base de edição de conversas com a câmera, dá o tom perfeito para contar um pedaço importante da nossa história.

O Brasil estava se devendo um trabalho como este.

BRAZIU-ZIU-ZIU-ZIUUUU…

***

Update: o Fabio postou nos comentários o link de um Documento Especial (o Globo Repórter punk) sobre os quadrinhos brasileiros nos anos 80. Ainda não tive tempo de ver (talvez eu tenha visto na época!) mas de qualquer forma, puxo aqui pro post o link.

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Besouro Verde

A exemplo de Cisne Negro, não vou me estender muito sobre Besouro Verde. Além de agradecer e parabenizar o excelente trabalho de dublagem de quem fez o Seth Rogen, preciso dividir uma paranóia com vocês.

É o seguinte.

A história do filme anda mais ou menos assim. Jovem AMERICANO mimado, cheio da grana, de repente perde o pai e precisa assumir as broncas do negócio que herdou. No entanto, ele não assume as broncas de fato, fica apenas tirando uma onda. Até que um ex-funcionário CHINÊS (interpretado por um taiwanês), extremamente HABILIDOSO em TUNAR COISAS, começa a BOTAR A MÃO NA MASSA, coisa que o americano praticamente não faz o filme todo. Não bastasse isso, o CHINÊS SE QUALIFICA e começa a CRIAR uns equipamentos incríveis que SALVAM A PELE DO AMERICANO inúmeras vezes. Ao longo de toda a função, o AMERICANO só dá UMA boa idéia pros equipamentos e isso é SUBLINHADO perto do final do filme, como se fosse a coisa mais incrível do mundo.

Viagem minha ou Besouro Verde é uma excelente metáfora sobre economia internacional?

***

Leia também: Avatar.

1 Comentário

Cisne Negro

Muito já foi, muito está sendo e muito será dito sobre este filme. Portanto, serei breve. É preciso ter visto o filme pra que meus comentários façam sentido. Logo, contém spoilers.

1.  Me chamou a atenção o quanto o Darron Aronofsky foi comedido e segurou bem a onda de não enfiar o pé no dramalhão. Cisne Negro, daqui a alguns anos, vai cair bem no Tela Quente ou no Supercine. Ou seja, é pop mas se exime, por exemplo, de flashbacks lacrimosos sobre a história da mãe da Natalie Portman ou então explorar à exaustão a tensão entre ela e o macho-alfa Vicent Cassel, ou entre ela e a Mila Kunis.

2. O lado mais mágico do filme também não faz muito alarde. A suposta transformação física da bailarina humana em um animal é tocada de leve, aqui e ali. Mais uma vez, Aronofsky poderia ter metido o pé com cenas bizarras e chocantes de Natalie se tornando de fato o cisne negro. Mas o cara manteve a compostura e limitou-se a pinceladas do bizarro.

3. Cisne Negro é o In Utero do Aronofsky.

4. No fundo, Cisne Negro é mais um dessa linhagem recente de filmes de Hollywood que se passa em grande parte dentro da mente de protagonistas, como A Origem ou Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança. Aliás, a meu ver, esse é justamente o seu mérito: é uma excelente história no sentido de mostrar a capacidade humana pra causar confusão dentro da sua própria mente e achar que ela está acontecendo fora.

Como diria John Lennon, mind games…

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