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Cinco conteúdos sobre Robin Williams que valem a pena (em inglês)

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A essa altura do campeonato, já sabemos: mortes de figuras públicas são seguidas de intenso ruído nas mídias sociais, de forma que é preciso paciência e muito critério para escolher onde vale realmente a pena clicar e ler. Entre dezenas de links que passaram pela minha timeline na semana passada, aqui vai uma seleção do que mais me interessou em algum nível.

1) Abaixo, o comediante inglês Russel Brand (mais para o final do vídeo) comenta que, se há alguma conclusão ou sentido a fazer do suicídio de alguém talentoso e engraçado como Robin Williams é que não devemos nos isolar uns dos outros, nos fechar para a coletividade.

2) Maria Popova, no seu Brainpickings, ressalta a conexão entre Robin Williams, David Foster Wallace e Walth Withman. E sem deixar que o ângulo cultural faça sombra sobre o fato de que o suicídio é um problema social.

3) Lodro Rinzler, colunista de budismo e meditação no Huffington Post, lembra: meditação não é o suficiente.

4) O escritor Stephen Marceh ressalta: existe uma crise de suicídios nos Estados Unidos.

5) A psicoterapeuta Katie Hurley, que escreve também no Huffington Post, destaca: não existe nada de egoísta no suicídio.

Boa leitura.

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PS: se alguém sentiu falta de textos em português, não é necessariamente porque esteja em falta. É que eu fiz a seleção a partir do que apareceu de mais significativo na minha própria timeline. E meus contatos de Facebook publicaram ou colunas em inglês ou muita nota de informação em português.

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Foto: Wikipedia.

O tema de Star Trek tocado numa serra pela moça do Another Earth

Bem coisa de internet. A Natalia Paruz, que toca SERRA no metrô de Nova Iorque, achou de alguma maneira meu post sobre o Another Earth e me escreveu no Twitter pra lembrar que é ela que toca o som original da “cena da serra” do filme. Então aí vai um pouco de Natalia pra vocês. Acima, ela tocando o tema de Star Trek. Abaixo, o William Mapother dublando o som dela.

Another Earth: como seria ter uma segunda chance em uma segunda Terra?

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A divulgação, na semana passada, da descoberta de um exoplaneta com dimensões parecidas com as da Terra, atiçou a curiosidade mundial e deu corda à imaginativa audiência da internet. O que se sabe sobre o distante Kepler 186-F não é muito: ele tem o raio de tamanho muito próximo ao da Terra, orbita uma estrela “anã vermelha” e está no limite da chamada Zona Habitável, ou seja, a região do seu sistema solar que permitiria a existência de água em estado líquido, uma condição pra existir também vida como conhecemos. Nada disso significa que o Kepler 186-F seja uma réplica da Terra ou então habitada por algum tipo de extraterreste humanóide. Mas o que se descobriu bastou pra espalhar pela rede manchetes sugestivas falando, em geral, do “planeta mais habitável e mais parecido com a Terra já identificado até hoje”.

Quando as manchetes tomaram conta do Facebook, automaticamente me lembrei de Another Earth, um filme meio indie, meio esquisitinho, sobre os desdobramentos da presença de uma segunda Terra na órbita da nossa Terra. Another Earth começa na noite em que a jovem Rodha Williams comemora sua entrada no curso de Astrofísica do MIT. Dirigindo pra casa, bêbada, ela ouve no rádio a notícia da descoberta da Terra 2, procura pela novidade no céu, se distrai e bate violentamente no carro de uma família qualquer, matando a mãe, o filho e deixando o pai em coma. Anos depois, após cumprir sua pena, Rodha tenta reconstruir a vida e acaba tomando dois caminhos excludentes: se aproxima do pai sobrevivente, já saído do coma, e se inscreve em um concurso que vai distribuir as primeiras viagens à ainda inexplorada e desconhecida Terra 2.

Um dos grandes charmes do filme é a ausência de explicitações: não sabemos como é que a força gravitacional da Terra 2 não afeta a nossa Terra; não sabemos exatamente o que Rodha pretende ao procurar o pai-viúvo; não sabemos o que ela planeja fazer ao desembarcar no segundo planeta; e, o melhor de tudo, não sabemos muito bem que esforços os governos e empresas da Terra 1 estão empreendendo para saber mais sobre a Terra 2, o que significa que não há cena alguma do Salão Oval da Casa Branca, de laboratórios com cientistas heróicos e muito menos de hangares da Força Aérea se preparando para o combate. O único ponto mais ou menos óbvio em Another Earth é a temática da segunda chance e da estranha gravidade que atrai pessoas que estão, por algum motivo, fora de lugar. Nem mesmo a outra Terra está onde deveria estar, em termos narrativos clássicos de Hollywood: ela aparece o tempo todo no filme estampando o céu como um poderosíssimo coadjuvante e não no eixo principal do roteiro.

Another Earth não é um filme do quilate de um 2001 ou (como escreveu Roger Ebert) de um Solaris. Mas tem uma trama e um clima totalmente conectados com a questão de fundo da cultura contemporânea: como lidar com a fluidez compulsória a que estamos todos submetidos, com essa necessidade nos reinventarmos periodicamente diante da enxurrada veloz de mudanças que parecem ter acelerado o curso da história. Em qualquer outra época, a mera possibilidade de exisitir um planeta similar à Terra produziria frenesi, mas dessa vez as reações parecem ter sido mais comedidas mesmo que numerosas.

Claro: antigamente, essa era uma ideia de ficção científica, do fantástico, do inconcebível. Hoje, ela é estranhamente familiar, já que o conceito de segunda chance se tornou um item de uso diário, algo que se almeja e se exercita cotidianamente e não em condições de pressão insustentável como aconteceu com Rodha Williams em Another Earth.

Hanna Arendt: um bom filme pra ver nessa semana de reflexões sobre o Golpe de 64

Com a reação quase histérica dos nossos bizarros conservadores diante de tantas manifestações condenando o Golpe Civil-Militar de 64, é impossível não lembrar de Hanna Arendt, a filósofa alemã que cunhou a expressão “banalidade do mal”, e principalmente de Hannah Atendt, o filme de 2012 que resume tão bem um dos pilares de sua filosofia. Dirigido pela alemã Margarethe Von Trotta, a biopic de Arendt é considerada por Roger Berkowitz, diretor do Hannah Arendt Center, um belo veículo para a divulgação das ideias de sua protagonista. Inclusive, escreveu ele na Paris Review, “o filme deveria se chamar ‘A Mais Sofisticada Leitura de Hannah Arendt A Alcançar uma Audiência Mainstream Até Hoje’.”

A noção de “banalidade do mal” nasceu da famosa cobertura que Arendt fez do julgamento do oficial da Gestapo Adolf Eichmann para a revista The New Yorker em 1961. Nela, a filósofa desafiou a opinião pública e todo um circuito intelectual ao propôr que o mal causado por Eichmann não vinha do fato dele ser um monstro e sim uma pessoa medíocre e burocrática. O artigo se transformou em um livro seminal e detonou o que Berkowitz chamou de “guerra civil intelectual”.

Não me sinto em posição de escrever sobre o Golpe (ou sobre Hannah), mas trago a lembrança do filme mais como um complemento de reflexão em relação às pessoas que hoje defendem na internet a ditadura e toda a cultura autoritária e violenta que ela suscita. Falo por mim: acho difícil processar adequadamente a indignação com quem relativiza os atos do regime militar e sua herança nefasta, mas sinto que vale o esforço de não distribuir indiscriminadamente rótulos de monstros a quem simplesmente é impulsivo, impensado e irresponsável com seu teclado. Por que vale isso? Porque me parede que é melhor responder a essas atitudes sempre baseado em uma reflexão mais aguda, embasada em lucidez, do que também agir impulsivamente e projetar todo um cenário de “monstros do lado de lá” que inflama ainda mais o ambiente. Esse espaço de reflexão radical, de resistência à resposta automática e rotuladora é uma das grandes lições que tirei do filme.

Preste atenção quando você for assistir: uma boa percentagem da narrativa é preenchida com cenas de Arendtsimplesmente PENSANDO em seu escritório, em casa, ou em uma de suas viagens. O tempo todo, Arendt é retratada pensando, pensando, pensando. O que é muito significativo e, no texto da Paris Review, Berkowitz explica:

“Paralisada pelo perigo da falta do pensar, Arendt passou sua vida pensando sobre o pensar. Poderia o pensar, ela pergunta, nos salvar da disposição de muitos, senão da maioria, de participar de maldades burocraticamente regulamentadas como foi o extermínio administrativo de seis milhões de judeus? Pensar, como Arendt considera levanta obstáculos a supersimplificações, clichês e convenções. Apenas pensar, argumenta ela, tem o potencial de nos lembrar da nossa dignidade humana e nos libertar para resistirmos a nosso próprio servilismo. Esse tipo de pensar, do ponto de vista de Arendt, não pode ser ensinado, apenas exemplificado. Não podemos aprender o pensar através de catecismo ou estudo. Aprendemos o pensar apenas através da experiência, quando somos inspirados por aqueles cujo pensar se introjeta em nós – quando encontramos alguém que se destaca da multidão.”

Nesses tempos confusos, assistir Hannah Arendt, se não lê-la, é ser lembrado por sua própria figura de que precisamos parar e pensar, pensar, pensar, pensar, pensar, antes de distribuirmos máscaras de monstros. Desumanizar aqueles que defendem ideias autoritárias e anti-humanistas rende bons memes mas tem pouca serventia prática a longo prazo numa democracia. Não acho nada confortável considerar que os filhotes digitais do Bolsonaros sejam mesmo meus parceiros de espécie, mas colocá-los do “outro lado” pode ser também muito perigoso. Primeiro, porque denota pouco penso. Segundo, consequentemente, porque essa atitude de escolher lados tão bem definidos é o ingrediente básico na formação dos regimes totalitários e ditatoriais mesmo (ou especialmente) quando estamos “do lado certo”.

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O filme Hanna Arendt mexeu comigo em diversos níveis. Um deles foi o estético. Além das frequentes sequências com a personagem principal pensando, chama a atenção também o ritmo sóbrio e o ar cool da produção – tanto em figurino, direção de arte e elenco quando nas escolhas narrativas, com uma ênfase em mostrar a mescla de vida social com intelectual de Arendt num clima BEM anos 60 como gostamos de imaginar os anos 60. Ou seja, pensadores fumando, bebendo e tirando conclusões em encontros informais e relações amorosas dúbias. Acredito que para um certo público (meio intelectual, meio de esquerda, diria Antônio Prata), dá vontade de estar no meio daquelas reuniões. Eu fiquei com essa vontade, pelo menos.

Ponto pra diretora, porque é aquela coisa: assuntos grotescos como o holocausto precisam às vezes do fator organizador da arte para terem algumas de suas questões melhor compreendidas e digeridas.

Ps: vale ler a crônica do Contardo Calligaris sobre o filme Hanna Arendt. A tese de mestrado dele foi desdobrando algumas ideias dela.

Harold Ramis: o perfil da Shambala Sun

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Eu fico dividido entre decidir se a grande contribuição do recém ido Harold Ramis pro mundo foi mesmo a comédia existencialista Feitiço do Tempo ou se foram filmes ainda mais despretensiosos como Caça-Fantasmas ou o Clube dos Cafajestes. De qualquer maneira, o longo perfil que a revista budista americana Shambala Sun fez dele (que não era budista) em 2009 mostra um pouco como se formou a cabeça de uma pessoa que conseguiu se enfiar por dentro das camadas superficiais da vida e ainda fazer graça com isso. Vale a leitura (em inglês).

Ela: a pegadinha de Spike Jonze sobre cultura digital.

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Jovem adulto ainda curando as feridas de uma separação e que vive de escrever cartas emocionantes em nome de terceiros em uma sociedade hiper-conectada resolve, um dia, atualizar o sistema operacional do seu celular para uma versão baseada em inteligência artificial. E acaba se apaixonado por ele – ou melhor, por Ela. Adicione a essa trama central o diretor de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros e você terá um filme melancólico e reflexivo sobre a solidão contemporânea baseada no uso exagerado de mídias digitais. Mas, se você lembrar que esse mesmo diretor é um dos criadores da série sem noção Jackass e que dirigiu clips sarcásticos memoráveis como Sabotage, Praise You e Buddy Holly, vai pensar duas vezes sobre o que Ela diz de verdade. E se perguntar: será que o Spike Jonze não está tirando uma com a nossa cara?

Entendido em algum nível como um filme ludita, que questiona a relação de certas pessoas com as mídias digitais e da infantilização que vem a reboque, eu prefiro enxergar Ela do ponto de vista dos bugs do amor romântico. Spoiler alert: embora envolto em todo o aparato digital que caracteriza o filme, o romance de Theodore (o homem) e Samantha (o sistema operacional) começa como todos os romances começam (com a promessa de conforto, compreensão e reconhecimento mútuo total) e uma hora termina – simplesmente termina, por causa disso ou daquilo, mas em última análise porque tudo uma hora termina. Descoberta, desejo, paixão, desejo, ciúmes, confusão, fim: a história do casal formado por um humano e um sistema operacional é tão fascinante quanto ordinária.

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O tabuleiro de Ela é armado por Jonze para que desprezemos as habilidades sociais de Theodore, mas em geral ele é gente como a gente e a meu ver foi simplesmente sacaneado pelo diretor. Retratado na primeira meia hora de filme como esquivo e anti-social, descobrimos aos poucos que ele tem motivos para isso porque, dentro de suas particularidades, ainda está vivendo o luto de uma separação. É acusado pela ex de ser auto-centrado e de ter problemas com intimidade, mas seus relatos (e as cenas em flashback) sobre os dois mostram que ele a conhecia muito bem, a entendia e a ouvia talvez muito mais do que deixasse transparecer. Os amigos e colegas de Theodore servem de pano de fundo para que a sua solidão contraste – outra sacanagem, como se eles não estivessem vivendo suas próprias dificuldades (e o filme mostra depois que estão). Na verdade, algumas poucas pistas contextuais mostram que muitas das idiossincrasias que servem para caracterizar o protagonista parecem ser traços sociais da época que o filme retrata. Talvez essa seja uma sociedade doente. Ou talvez seja apenas outra cultura. Não sabemos. A confusão é cortesia do Jonze galhofeiro de Jackass, conscientemente ou não.

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É difícil saber o que é o que em Ela. Sistemas operacionais se comportam como humanos e humanos se comportam como sistemas operacionais (preste atenção na atitude de Charles, marido de Amy, que tenta programar o comportamento da esposa). A felicidade de Theodore com Samantha soa ambígua, entre o absurdo e o convencional. A evolução d’Ela parece coisa de ficção científica tanto quanto o crescimento pessoal de um parceiro de relacionamento, quando este resolver quebrar a imagem cristalizada que tínhamos e guardávamos com tanto zelo. Mesmo o título do filme em inglês estampado no cartaz é dúbio: Her, com a carinha triste de Joaquim Phoenix, pode estar se referindo tanto à Ela, Samantha, como ser lido como o pronome posessivo Dela, o que deixa a história ainda mais interessante – Theodore foi Dela por um tempo? Essas ambiguidades são todas, a meu ver, um traço de generosidade – de novo, consciente ou não – de Spike Jonze. Há muito que nós, espectadores, podemos jogar ali dentro. Tem gancho para todo mundo fazer sua própria reflexão.

Aí está, então, a rasteira que Ela passa no espectador: você vai no cinema para assistir a uma crítica e o filme se trata de uma crônica. Como os melhores cronistas, Spike Jonze põe uma lupa no cotidiano e tenta, através de um comentário muito particular, determinar algumas moléculas básicas da cultura contemporânea universal. Como as melhores crônicas, ele (ou Ela) não fecha totalmente suas questões. E é aí que o filme funciona tão bem, porque não me consta nenhuma maneira melhor de sair de um cinema na era digital do que com as mãos cheias de dúvidas e de assunto para regar um bom bate papo nas horas e nos dias que vem a seguir.

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Algumas notas extras:

* A popularidade da interface de voz talvez seja o aspecto mais fantasioso do filme. Não apenas os softwares parecem bem resolvidos como os códigos sociais surgem adaptados para essa interface – todo mundo no filme acha normal andar por aí com um fone no ouvido falando sozinho. Taí um acerto do filme: não há inovação que se popularize sem aceitação social dos códigos de comportamento que a circundam.

* Curiosamente, Ela é o filme mais Sofia Coppola de Spike Jonze. O ritmo lentão, o figurino fashion no último, aquele monte de cenas de flashbacks a la ensaio fotográfico e a arquitetura moderninha da L.A. futura  lembram muito mais Encontros & Desencontros, As Virgens Suicidas e Um Lugar Qualquer do que John Malkovich & Adaptação. Há quem diga que Ela é a resposta da Jonze a Encontros & Desencontros, mas acho que são apenas as más línguas.

 

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Links bacanas:

- Algumas fotos no set de Ela.

- Entrevista com Jonze no Guardian.

- Uma dupla de roteiristas acusa Jonze de ter roubado a ideia deles.

- Entrevista com Spike Jonze na Interview.

- Spike Jonze compara Theodore com Lana Watchowski.

Nossas historinhas safadas

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“O mundo hoje consome filmes, romances, teatro e televisão em tanta quantidade e com uma fome tão voraz que as artes da estória viraram a principal fonte de inspiração da humanidade, enquanto ela tenta organizar o caos e ter um panorama da vida. (…) Se nós pararmos para pensar nos padrões e nos significados, a vida, como uma Gestalt, dá reviravoltas: primeiro fica séria, depois cômica; estática, frenética; significativa, sem sentido. Os mais importantes acontecimentos mundiais estão além do nosso controle enquanto os acontecimentos pessoais, apesar do nossos esforço para manter nossas mãos na direção, geralmente nos controlam.”

Essas citações foram extraídas da introdução de Story, o best-seller sobre roteiro que resume um dos respeitados seminários do Robert McKee para roteiristas e escritores no mundo todo. Elas dão uma boa ideia do que significa a arte da narrativa para o ser humano há muitos séculos: narrar diverte, instrui, questiona. Mas, antes de mais nada, narrar organiza. O evento mais deprimente e horripilante pelo qual alguém tenha passado, quando contado, tem a vantagem básica de estar, ao menos, organizado no espaço e no tempo. As coisas estavam assim, então aconteceu isso, daí tudo desmoronou, ficamos desse jeito, então aconteceu uma outra coisa que afetou mais umas quantas pessoas e agora está todo mundo assim. Quando aconteceu, foi desorientador, caleidoscópico, mas ainda bem que agora, contado, tem algo parecido com início, meio e fim.

Aprendemos a narrar uns com os outros, sejam os outros nossos pais, a turma com quem crescemos ou os autores de filmes, romances e canções. Em cada cultura, em cada era, um tipo de narrativa se impõe e influencia o nosso jeito de narrar não apenas no nível profissional mas principalmente no nível pessoal – a maneira como contamos a nossa vida para nós mesmos e para os outros. Olhando para o passado distante, vamos encontrar tradições orais e pictóricas. Mais recentemente, a palavra escrita na forma de folhetins e romances teve um impacto substancial na maneira como o ocidental urbano constituiu suas histórias particulares. Hoje, vivemos sob o regime da imagem em movimento e estamos construindo um novo tipo de narrativa moldado por dois fenômenos: a fragmentação da linearidade e a quantidade de pequenas narrativas amadoras à nossa disposição.

É bastante fácil observar a linearidade fragmentada das narrativas profissionais atuais. Os games, com suas tramas abertas, e a música, com sua mistura cada vez mais desconectada do que seria um arquétipo do tempo presente, são o exemplo mais gritante. Mesmo obras que tem uma primeira camada linear, como os filmes de cinema, os seriados de TV e os romances juvenis de aventura, hoje surgem como um ponto em um ecossistema maior, que precisa de um esforço contínuo para ser acompanhado e apreendido em sua totalidade. Até aqui, pouca novidade. Esse aspecto da modernidade tem sido citado, analisado e criticado à exaustão.

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Já a multiplicação de pequenas narrativas amadoras é algo que me parece mais sutil, similar ao efeito da Lua nas marés. Não estou falando de curta-metragens de baixo orçamento que vão direto para o YouTube, mas de outra coisa ainda mais simples. Vamos chamá-las de narrativas sub-amadoras. São nossos SMS’s, emails, curtidas, compartilhamentos, vídeos, fotos, posts, notificações e status, um conjunto que gera campo gravitacional tão gigantesco que estamos, talvez, influenciando uns aos outros bem mais do que os profissionais de narrativas nos influenciam. Em outras palavras, a maneira como os dramas e comédias da sua amiga aparecem na timeline dela ou na sequência de mensagens piscando no seu celular estão mexendo mais com a sua noção de narrativa do que o roteirsta de Breaking Bad ou o autor da última novela das nove.

Isso é algo visível a olho nu. Há pouco, escrevi um post sobre o que presenciei no Dia dos Namorados de 2012 no Facebook: pessoas prestes a se separar fazendo declarações apaixonadas publicamente nas suas timelines, inundando os feeds dos amigos com sentimentos inflacionados. Como disse no post, não acho que essas pessoas estivessem sendo cínicas, apenas se inserindo na narrativa geral do “Dia dos Namorados no Facebook”. Elas não estavam imitando nada do Manoel Carlos ou do Woody Allen – mas as narrativas sub-amadoras de suas turmas de amigos, que também estavam fazendo declarações parecidas, num processo curioso de retroalimentação industrial. Já que passamos muito mais tempo recebendo sinais das narrativas sub-amadoras de amigos do que das narrativas profissionais de filmes, seriados e livros, é natural que as primeiras exerçam uma influência maior no jeito como construímos as nossas próprias narrativas sub-amadoras.

Pesa também, nesse sentido, o fato de que as narrativas sub-amadoras estão cada vez mais parecidas com as narrativas amadoras ou profissionais. Mesmo que nossos roteirozinhos safados do dia-a-dia não sejam páreo para um “Sopranos”, um “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, as fotos de férias e os pedidos de casamento em vídeo sempre tentam emular um pouco de Hollywood e os filtros de fotografia tem ajudado nessa aproximação. Também não deixemos de notar que a tela que usamos para construir e consumir nossas narrativas sub-amadoras é a mesma onde assistimos seriados e filmes, ouvimos música ou lemos livros.

O que ganhamos ou perdemos com isso tudo, ainda é cedo para dizer. Assim como as pessoas influenciam-se umas às outras na adoção de ondas de comportamento digitais, elas também se cansam com maior rapidez e pulam de uma mania à próxima com a agilidade de uma notificação de instant messenger. Embora as estejamos usando como linguagem interpessoal, não acho que as narrativas sub-amadoras vão substituir integralmente as narrativas profissionais, pelo contrário. A explosão dos roteirozinhos safados que espalhamos via redes sociais no fim só destaca as histórias contadas profissionalmente em qualquer que seja o meio. Bem, essa ao menos é minha forma de enxergar o copo meio cheio. Porque, como diz outro trecho do McKee, agora para fechar: “Estórias falsas e defeituosas substituem substância por espetáculo, verdade por artifícios. (…) Quando uma sociedade experimenta repetitivamente pseudoestórias ocas e envernizadas, ela se degenera. Precisamos de sátiras e tragédias verdadeiras, dramas e comédias que iluminem os cantos mais sombrios da psique humana e da sociedade. Senão, como Yeats avisou, ‘o centro não pode suportar’.”

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Leia também: Nossas Narrativas.

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Imagens: Gratisography & Picjumbo.

Carta Aberta a Ben Stiller

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Caro Ben Stiller

Todos nós achamos muito bacana A Vida Secreta de Walter Mitty. A temática pertinente e conectada com nossos tempos; o roteiro engenhoso; a cinematografia exuberante (especialmente nas sequências da região nórdica e do Afeganistão); a trilha em sintonia com a cinematografia; a sua atuação milimétrica; a sensibilidade romântica…. tudo colabora para introduzi-lo na nobre e recente linhagem do “indie-realismo romântico da mente” de Michel Gondry, Spike Jonze, Charlie Kaufman e Wes Anderson.

Parabéns.

Mas, bem, agora que você já resolveu essa questão, esperamos que tenha limpado sua lista de tarefas e esteja totalmente focado no que realmente interessa – Zoolander 2.

Estamos no aguardo.

Atenciosamente,
Gustavo Berwanger Bittencourt

2 filmes pra entender a maluquice de hoje em dia

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A ficção científica é a tropa de elite, a força especial, os SEALS, o último recurso narrativo para os paradoxos da humanidade. Quando histórias realistas não dão conta de processar as maluquices de uma determinada época, cabe à ficção científica traduzi-las com um pouco mais de liberdade e imaginação. Bem, isso não é lá muito novidade e os bons exemplos para essa tese abundam, mas resolvi resgatar essa ideia e reforçá-la a partir de dois filmes que vi recentemente.

O primeiro, sem trocadilhos, é Primer (inteiro para assistir aí em cima, com legendas em português). Ele conta a história de um grupo de quatro engenheiros que se reúne em uma garagem nas horas vagas para colaborar na criação de qualquer coisa que possa interessar a investidores e torná-los milionários. A uma certa altura da parceria, dois da turma, Aaron e Abe, resolvem separar um tempo para um projeto paralelo que parece relacionado à busca de uma nova fonte de energia renovável. No processo, alguma coisa dá errado e eles desenvolvem – por acidente – uma máquina do tempo.

A partir daí, Primer vira um bagunça: a cada uso da máquina, Abe e Aaron geram duplicatas suas e uma nova linha do tempo na história. Para evitar problemas, eles tentam regrar o uso da invenção, mas claro que começam burlar as próprias regras, criando um emaranhado de situações que nem eles e nem nós entendemos direito. O diretor e roteirista Shane Carruth nunca deixa claro qual das linhas temporais está seguindo e vai levando o filme pulando de uma pra outra, totalmente à revelia da nossa sofrida atenção. O que é justamente um dos charmes de Primer. Como disse o crítico americano Roger Egbert, “o filme me delicia com a sua confiança pretensiosa de que a audiência consegue acompanhá-lo.” De alguma maneira, Carruth carrega todo o pacote intricado que criou até o fim de uma maneira humana e interessante (ainda que só possa ser compreendida inteiramente a partir do esquema desenhado abaixo).

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Eu vi Primer em 2005 e revi agora, em 2013. Esse intervalo me ajudou a perceber o quanto ele antecipou algumas ondas que estamos vivendo. O clima “startup de garagem”, por exemplo, ainda era algo restrito a uma parcela específica da cultura americana em 2005. Hoje, o o aparato simbólico que envolve o mundo das startups é quase papo de boteco. A confusão causada pelas viagens no tempo também lembra um pouco o estado atual da cultura pop, com os códigos de décadas passadas e os revivals se entrelaçando de tal maneira que definir o que é contemporâneo se tornou uma tarefa tão complexa quanto inútil. Abe e Aaron pulando de uma linha do tempo para outra em 2004 somos nós num dia comum em 2013.

Outro bom exemplo é a web-série de 2012 patrocinada pela Intel/Toshiba. The Beauty Inside conta como vive um homem, Alex, que é sempre o mesmo por dentro mas que acorda a cada dia em um corpo diferente. Na segunda, um jovem negro, na terça uma senhora asiática obesa, na quarta um inglês branco de meia idade, na quinta uma morena alta e assim por diante. De alguma maneira, Alex nasceu e cresceu com essa questão, deu um jeito de chegar na idade adulta e quando o conhecemos está vivendo da venda de antiguidades pela internet e de casos amorosos de uma noite.

Não vou contar mais para não estragar o final (meio morno), mas não precisa ir muito longe pra fazer o paralelo entre o personagem principal de The Beauty Inside e o célebre conceito de modernidade líquida. As dificuldades de Alex são uma versão amplificada dos obstáculos que muitos tem com a noção de identidade em um tempo de códigos e costumes cada vez mais voláteis. Acordar cada dia como se fosse outro – quem nunca? Como escreveu Jonathan Franzen há pouco no Guardian (tem na última Piauí também), “A experiência de cada uma das gerações que se sucedem é tão diferente da anterior que sempre haverá quem julgue ter perdido em definitivo qualquer conexão com os valores essenciais do passado. Enquanto durar a modernidade, todos os dias parecerão a alguém os últimos dias da humanidade.”

Pois é: quem acompanha o universo da ficção científica sabe há muito tempo que, seja por conta de invasões alienígenas, erros genéticos ou inteligência artificial disfuncional, é da natureza do mundo viver em permanente estado de confusão e ameaça.

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O episódio 1 de The Beauty Inside está ali em cima.
O dois está aqui.
O três está aqui.
O quatro aqui.
O cinco aqui.
E o seis aqui.

Cada um tem seis minutos de duração.

De nada.

A sedução dos limites

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Em coluna na Folha no final do mês passado, o Michel Laub fez um contraponto interessante à onda de elogios ao momento fértil da televisão americana. “O Ponto Final do Cinema” lembra que não é justo comparar as boas séries dramáticas de TV com a pobreza dos blockbusters atuais do cinema principalmente porque “o mundo não é só Hollywood e a arte narrativa não é feita só de enredo.” Do ponto de vista de Laub, o cinema persistirá como arte relevante por uma liberdade que ele induz, “liberdade que começa com uma limitação: o tempo que dura um longa-metragem. Numa série, o que está em jogo é a eficiência. As coisas precisam andar para a frente, jogando iscas para que o espectador mantenha o interesse por várias temporadas ou maratonas de episódios.” É um ponto importante que quero explorar de outro ângulo.

O sucesso das boas séries dramáticas americanas não acontece no vácuo, elas não prosperam só devido a suas próprias qualidades. Além de contar com a indigência narrativa dos blockbusters atuais do cinema, elas fazem parte do espírito do nosso tempo porque tem a marca do maximalismo. Tudo é grandiloquente na narrativa pop contemporânea: os heróis infanto-juvenis já nascem com sagas inteiras construídas, os games (até por sua própria natureza) surgem com vastos universos atachados e rapidamente dão origem a franquias e extensões, os apps e sistemas operacionais se multiplicam em updates e versões, os hits musicais são lançados na internet junto com seus remixes e mesmo filmes que se esperaria serem individuais chegam aos cinemas com ganchos prontos para triologias – quando elas já não são pré-filmadas. O fã de narrativas pop de 2013 é ávido e seu apetite vem sendo sistematicamente cultivado para se acostumar a uma cultura de buffet. Em muitos casos, um excelente buffet, mas ainda assim um buffet, aberto 24h, o que permite inclusive que o fã coma tudo que quiser das 8 da noite às 6 da manhã num tiro só.

Como a história da narrativa pop vai pra frente em movimento dialéticos, quem quer que se incomode com a onipresença da narrativa seriada e expansiva não precisa se preocupar por muito tempo. A coluna do Michel Laub talvez indique um ponto de inflexão: é provável que já tenha gente por aí cansada desse maximalismo e com uma certa sede por um pouco menos de tentáculos na hora de assistir ou ler uma história. Como toda onda, essa vai marcar uma geração inteira, que deve levar para sua maturidade a lembrança de que bom mesmo é uma saga, um seriadão, um game gigantesco. Mas a ideia de limites é interna à natureza e uma voz persistente na cultura humana. Mesmo que em livros de 600 páginas, em filmes de duas partes de duas horas e meia e seriados de 8 temporadas, toda saga tem seu fim – inclusive a saga das próprias sagas.

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Imagem: Ai Kijima. Todos os direitos reservados.

Dedicatória – um curta, um documentário, um Manoel de Barros

O Biel Gomes, diretor aqui de Porto Alegre, ia dar um livro do Manoel de Barros de presente para uma pessoa querida. Tinha que fazer, claro, uma dedicatória. Mas, como a caneta não pegava no livro, fez “Dedicatória”, um documento visual sobre a ida dele até Campo Grande em busca do ambiente da poesia do Manoel de Barros e da ajuda do próprio Manoel de Barros para conseguir escrever no livro. Bem inspirador sem ser histérico – como esses pedidos de casamento elaborados que pululam pelo Face hoje em dia.

A recusa de Darin a Tony Scott (e não Tarantino)

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Update: inicialmente, eu havia publicado um texto fake nesse post sem saber. Cometi o erro de não chegar integralmente a fonte e nem a entrevista original. Bom, resolvi transcrever e traduzir eu mesmo o trecho da entrevista original que o Darín fala do convite recusado para trabalhar em Hollywood. Abaixo o vídeo específico do trecho e a transcrição/tradução (com meu pobre espanhol). E lááá embaixo deixei o post original errado.

A: Você foi atrás, gostaria, está atento, ou não te interessa nem o mínimo de jogar na Itália, outra analogia com futebol… o que acontece entre você e Hollywood?
D: Nada…. nada em especial, não me tira o sono nem me deixa louco… me soa muito “cholu” (tiete) (expressão que designa um índio que assume costumes brancos, se pesquisei bem).
A: Não te deixa louco isso? Não te deixa louco? Me escuta… deixa eu evoluir com isso… casa em Los Angeles…
D: Não, não…
A: Me escuta… ter um carro incrível em Los Angeles, viver cercado de estúdios, filmar dois filmes por ano, casa em Santa Mônica, esse fim de semana é de sol em Santa Mônica, tranquilo, lancha, ski, não te interessa isso? Não trabalharias…
D: Eu não sinto essa pulsão nesse momento para nada. Hollywood não me tira o sono, o Oscar não me tira o sono. (…) Me criticaram muito porque dizer que não tinha vontade de ir ao Oscar, não porque não tinha vontade, mas “como vai dizer que não tem vontade de ir ao Oscar? Cê tá brincando!’ Sim, não tenho vontade de ir no Oscar, qual é o problema? Por que tenho que ir ao Oscar? Por quê?
A: Por ser o Oscar.
D: Mas o que crêem que é o Oscar? Que querem que aconteça? Eu já fui, já vi, já deu. Já vi, não fiquei muito feliz e estou aqui. A fantasia que se tem lá de fora, que é um ambiente, uma coisa (…) é exatamente por que digo que é cholo isso. Não é sério. É cholo, entende? Tem a ver mais com a parafernália que rodeia a coisa do que com a coisa em si mesmo. A mim, ofereceram só uma vez uma coisa contundente e séria, à qual eu disse que não e depois começou a me incomodar um pouco porque não aceitavam da parte do diretor um não como resposta.
A: O que era?
D: Era um filme que fizeram que depois se chamou Chamas da Vingança, com Denzel Wahsington.
A: Quem era o diretor?
D: Tony Scott, o irmão do Ridley Scott.
A: Eu tenho que te dizer que não, hein…
D: Mas espera um segundo, antes de fazer essa cara… me escuta, me deixa argumentar. Me ofereceram fazer um traficante mexicano. E por que querem que eu faça um traficante mexicano? Parece que todos os traficantes são latino americanos… no país que tem o maior consumo da face da Terra? Primeiro, não gostei. E, segundo, eu queria vir pra casa. Fazia seis meses que estava fazendo teatro em Madri. Queria vir pra casa ver minha mulher e meus filhos. Me encheu o saco porque a agente me disse que não aceitavam um não como resposta. E automaticamente, depois de uma semana eu dizendo não, não, não, todos os dias estavam na porta do teatro, depois disso passaram à outra faceta, que era “é uma questão de dinheiro? Mas isso não é nenhum problema.” Não, não! Não me interessa!
A: Mas você ganharia mais dinheiro.
D: E? Pra que serve?
A: Para viver melhor.
D: Melhor do que eu vivo? Eu tomo dois banhos quentes por dia. Estava indo bem no teatro, estava trabalhando com gente genial, vinham me abraçar na rua. A ambição pode te levar a um lugar muito obscuro, muito desolador. Eu sou o mais feliz que posso sem olhar para outro lado. (…) Tenho uma situação privilegiada, as coisas estão bárbaras, as pessoas me querem na rua, vejo sorriso, as pessoas vem e me abraçam… o que mais você quer? Pra que mais? (…) Sou um cara muito privilegiado, tenho muita sorte. Me convidam pra trabalhar e se abrem as portas há mais de 30 anos as pessoas confiam em mim. (…) Se vou querer mais do que isso, se vou ambicionar mais do que isso, é porque estou vendo outro filme. Eu sou o mais feliz que posso ser.

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Post original errado:

Entrevistado em setembro no late show argentino Animales Sueltos, o ator e também argentino Ricardo Darín me sai com essa:

Fantino: É verdade que você recusou uma oferta para filmar em Hollywood com Tarantino?
Darín: Sim, é.
F: E por quê?
D: Porque me ofereceram o papel principal mas eu teria que fazer um traficante mexicano. E eu perguntei ao produtor por que os mexicanos sempre tem que fazer os traficantes se os maiores consumidores em nível planetário são os ianques.
F: E o que ele respondeu?
D: Bom, a resposta que ele me deu me incomodou tanto que confirmou minha escolha de não filmar com Tarantino. Me disse “Então é uma questão de dinheiro. Diga quanto você quer que pagamos. Você coloca o preço”. Quer dizer, não podem chegar a ver nem a compreender que existem códigos fora do dinheiro que alguns de nós temos… entende?
F: Mmm… não, na verdade não.
D: Como não? Ale, você é esperto, tem que entender o que falo…
F: Mas você poderia ter ganho mais dinheiro.
D: Mais dinheiro? Ser milionário? Pra quê?
F: Como pra quê? Pra ser feliz.
D: Feliz com mais dinheiro? Do que você está falando?

F: Bom, todos queremos ter mais dinheiro pra ser felizes.
D: Ale, eu tenho dinheiro, tenho um carro importado de alto nível. Como o que quero no café da manhã, no almoço e no jantar, e posso tomar dois banhos quentes por dia. Você tem ideia de quantas pessoas no mundo podem tomar dois banhos quentes por dia? Muito pouca gente, entende? E como eu não me considero um excelente ator, sempre digo a mim mesmo que foi por pura sorte, entende? Nesse mundo capitalista selvagem eu sou um cara de muita sorte. Eu sou um privilegiado entre milhões de pessoas. E mais, eu tenho a sorte de poder ver isso em mim, o que me permite ter uma boa conta bancária e não acreditar nela. Eu posso me ver de fora e dizer “Puta, que louco, que sorte você teve”.
F: Mas você filmaria em Hollywood… e não pode negar que do Tarantino ao Oscar seria um pulo…
D: Acho que eu não sei me explicar direito… eu já estive na cerimônia do Oscar e não gostei, tudo é de plástico dourado, até as relações entre as pessoas. Fui, aproveitei, mas esse mundo não é o meu, não é o que elegi nessa vida.

Errata: bom, preciso admitir que eu traduzi o texto de um blog sem ter assistido a entrevista inteira. E me alertaram que o papo, embora tenha esse teor, não é exatamente este descrito acima. Mais tarde eu corrijo o texto. Fuén! Corneta do fracasso!

Quem quiser tentar o espanhol, no vídeo ele fala a partir de 40 minutos aproximadamente.

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Vi originalmente no Milton Ribeiro.

Alfonso Cuarón, Neil Blomkamp e seus comerciais

Passeando por um artigo da Advertising Age sobre diretores de cinema e comerciais dirigidos por eles, encontrei essas pérolas de dois nomes que estão no cinema hoje revitalizando o sci-fi. Acima, comercial da rede de TV americana PBS pelo Alfonso Cuarón (Gravidade) em 2002. Abaixo, Nike por Neil Blomkamp (Elysium).

O artigo ainda traz exemplos do Spike Jonze, Wes Anderson e outros a serviço da publicidade.

Frances Ha contra a obsessão contemporânea por dar certo

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Garota de vinte e poucos anos, recém formada em dança, dividindo apartamento com a melhor amiga, tenta se firmar como dançarina profissional em Nova Iorque enquanto vive tremendas confusões financeiras e amorosas. Nas mãos de outra pessoa, essa poderia ser a sinopse de uma comédia romântica de quinta categoria, pronta para ser dublada e passar na Tela Quente. Mas, como estamos falando do diretor e roteirista Noah Baumbach, Frances Ha é simplesmente… outra coisa. Não se deixe enganar pelo trailer sacana: Frances Ha é outra coisa!

Não que seja um filme difícil ou 100% experimental. A história é pop, a fotografia P&B é linda e os códigos culturais são totalmente alinhados com os de uma certa parcela da juventude global/americana (lembra pouco o seriado Girls e a edição de alguns episódios da terceira temporada de Louie). Ainda assim, como dois dos filmes anteriores de Baumbach (Margot e o Casamento e Greenberg) Frances Ha tem algo de profundamente incômodo, de impertinente, quando poderia ser bem mais amigável. E esse algo, nesse filme, está claramente localizado em pelo menos dois elementos: uma edição menos convencional, mais fragmentada, e, o mais bacana, uma personagem principal que vai contra todos os discursos prontos e clichês da cultura ocidental branca de classe média do momento.

Como bem escreveu Martha Medeiros em sua coluna de Zero Hora algumas semanas atrás, Frances Ha é uma homenagem aos errantes numa época marcada pela busca obsessiva pelo sucesso – não o sucesso yuppie dos anos 80, mas sua versão modernizada ao longo dos anos 00, que diz respeito a “aproveitar a vida ao máximo”, “trabalhar com o que se ama”, “curtir cada momento como se fosse único”, “ligar-se em rede para mudar o mundo”, enfim, todos esses clichês que saltaram dos livros de auto-ajuda para os comerciais de banco e o universo das palestras de inovação.

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Ou seja, Frances, que nos deixa nervosos na plateia enquanto apronta das suas na tela, não teria a menor condição de protagonizar um comercial de final de ano do Itaú e nunca seria convidada a subir no palco de um TED pra contar sua história. Esse sim é um feito respeitável hoje em dia. Eu iria mais longe e diria que talvez ela pudesse fazer pela década atual o que Jeffrey Lebowski fez pelo fim dos anos 90, que é condensar em um personagem icônico todas as contra-aspirações de uma geração. Mas é bem possível ela se atrapalhe e acabe não conseguindo.

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Ah: não deixe de ler a bastante completa matéria da New Yorker sobre Noah Baumbach e sua parceira de vida e de roteiro, Greta Gerwig (que faz a Frances). Tem um bom apanhado da carreira de Baumbach e comentários sobre ele de gente como Bem Stiller, Peter Bogdanovich e seus pais – retratados parcialmente em A Lula e a Baleia.