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Arquivo: Colin

Zumbis

O texto abaixo não me pertence, ele é do UOL. Eu ia só linká-lo aqui, mas não o encontrei numa página decente, que desse pra vocês lerem direito (só num site wap, bizarro), então copiei e colei aqui. É o melhor texto de zumbis que já li e ficou vários dias na minha mente. Bem, na verdade, acho que foi único texto de zumbis que eu já li. Mas, independente disso, pela primeira vez vejo alguém ir um pouco além da tradicional clichê de comparar os zumbis com os cidadãos dominados pela sociedade de consumo, hipnotizados pela tv, toda essa lenga-lenga. Agradeço ao amigo @acarlucci por me ter enviado a matéria (e todas as outras).

Preste atenção ao ponto principal do ensaísta Chuck Klosterman: lidar com zumbis se parece muito com lidar com as repetitivas e automultiplicadoras tarefas do cotidiano contemporâneo. A caixa de emails, como já comentei aqui, é um dos melhores exemplos. Lidar com os emails é mais ou menos como lidar com zumbis. Você senta e fica atento. À medida em que eles chegam, você precisa eliminá-los sob pena de ser soterrado, mordido e se transformar num deles. Um tanto quanto drástico, não? Talvez não seja a verdade inteira, mas é uma visão bacana e frutífera, rende uma reflexãozinha básica.

(Ah: se você gosta de zumbis, talvez curta ler minha resenha de Colin , um filme de zumbis diferente, porque toda a narrativa é feita do ponto de vista de um zumbi e não dos seres humanos não infectados. O filme é bem interessante.)

Sem mais, ao texto:

O iminente apocalipse de zumbis: por que o mundo moderno parece morto-vivo
por Chuck Klosterman

Os zumbis são um patrimônio valioso. Eles são mudos, lentos e sem cérebro, mas são um mercado em constante expansão e sem obstáculos. Os zumbis são um ambiente muito rico, literalmente e figurativamente. Quanto mais você os enche de balas, mais interessantes eles se tornam.

Cerca de 5,3 milhões de pessoas assistiram ao primeiro episódio de “The Walking Dead” na AMC, surpreendentes 83% a mais do que os 2,9 milhões que assistiram à estréia da quarta temporada de “Mad Men”. Isso significa que existem pelo menos 2,4 milhões de norte-americanos com TV a cabo que talvez prefeririam ver Christina Hendricks se ela fosse um defunto animado.

Estatística e esteticamente essa dissonância parece perversa. Mas provavelmente não deveria. O interesse da cultura de massa pelos zumbis aumentou constantemente durante os últimos 40 anos. Os zumbis são um produto que avançou lentamente e sem uma grande evolução. Eles são parecidos com as criaturas chocantes que George Romero popularizou em seu filme “Noite dos Mortos-Vivos” de 1968.

O que torna essa ampliação curiosa são as limitações inerentes ao próprio zumbi: não é possível acrescentar muita profundidade a uma criatura que não pode falar, não pensa e cuja única razão de ser é comer carne. Você não pode humanizar um zumbi, a menos que o torne menos zumbi. Há zumbis lentos, há zumbis rápidos – e este é praticamente todo o espectro da diversidade dos zumbis. Não é que todos os zumbis estejam mudando para se adaptar à condição do mundo; é que a condição do mundo se parece mais com uma ofensiva de zumbis. Alguma coisa a respeito dos zumbis está se tornando mais intrigante para nós. E acho que sabemos o que é essa coisa.

Os zumbis são simplesmente muito fáceis de matar.

Quando pensamos criticamente sobre monstros, tendemos a classificá-los como personificações do que tememos. O monstro de Frankenstein ilustra nossa trepidação em relação à ciência descontrolada; Godzilla nasceu do medo da era atômica; lobisomens se alimentam de um pânico instintivo da predação e da alienação do homem em relação à natureza. Vampiros e zumbis compartilham uma ansiedade arraigada em relação às doenças. É fácil projetar uma relação simbólica entre os zumbis e a raiva (ou entre os zumbis e as armadilhas do consumismo), assim como é fácil projetar uma relação simbólica entre o vampirismo e a Aids (ou o vampirismo e a perda da pureza). Do ponto de vista criativo, essas projeções de medo são narrativas fundamentais; elas transformam as criaturas em ideias, e este é o ponto.

Mas e se o público deduzir uma metáfora totalmente diferente?

E se as pessoas contemporâneas estiverem menos interessadas em ver retratos de seus medos inconscientes e mais atraídas pelas alegorias de como se sentem em sua existência cotidiana? Isso explicaria porque tantas pessoas assistiram ao primeiro episódio de “The Walking Dead”: elas sabiam que seriam capazes de se relacionar com aquilo.

Boa parte da vida moderna é exatamente como assassinar zumbis.

Se há uma coisa que todos nós entendemos sobre matar zumbis, é que o ato não é complicado: você explode o cérebro de um bem de perto (de preferência com uma arma de fogo). Este é o primeiro passo. O segundo é fazer a mesma coisa com o próximo zumbi que aparecer. O terceiro passo é idêntico ao segundo, e o quarto não é nem um pouco diferente do terceiro. Repita o processo até que (a) você é derrotado, ou (b) os zumbis acabam. Esta é de fato a única estratégia viável.

Cada guerra com zumbis é uma guerra desgastante. É sempre um jogo de números. E é mais repetitiva do que complexa. Em outras palavras, matar zumbis é filosoficamente semelhante a ler e deletar 300 e-mails de trabalho numa manhã de segunda-feira ou preencher documentos que apenas geram mais documentos, ou acompanhar fofocas no Twitter por obrigação, ou fazer tarefas entediantes nas quais o único risco verdadeiro é ser consumido pela avalanche. O principal problema em qualquer ataque de zumbis é que eles nunca pararão de aparecer; o principal problema da vida é que você nunca vai terminar com o que quer que seja que você faça.

A internet nos lembra disso todos os dias.

Eis uma passagem de uma jovem escritora chamada Alice Gregory, retirada de um ensaio recente sobre o livro distópico de Gary Shteyngart, chamado “Super Sad True Love Story” na revista literária n (PLUS)1: “É difícil não pensar ‘pulsão de morte’ toda vez que entro na internet”, ela escreveu. “Abrir o Safari é uma decisão ativamente destrutiva. Estou pedindo que a consciência seja tirada de mim.”

O temor auto-dirigido de Gregory é tematicamente semelhante a como o cérebro do zumbi é descrito por Max Brooks, autor da história oral ficcional “World War Z” e do manual de autoajuda que o acompanha, “The Zombie Survival Guide”: “Imagine um computador programado para executar uma função. Esta função não pode entrar em pausa, ser modificada ou apagada. Nenhum dado novo pode ser guardado. Nenhum novo comando pode ser instalado. Este computador fará apenas aquela função, repetidas vezes, até que sua fonte de energia eventualmente se esgote.”

Esta é a projeção do nosso medo coletivo: de que seremos consumidos. Os zumbis são como a internet e a mídia e todas as conversas que não queremos ter. Tudo isso chega a nós incessantemente (e irrefletidamente), e – se nos rendermos – seremos tomados e absorvidos. Mas esta guerra é administrável, se não necessariamente vencível. Desde que continuemos deletando o que quer que esteja à nossa frente, sobreviveremos. Nós vivemos para eliminar os zumbis de amanhã. Nós somos capazes de continuar sendo humanos, pelo menos por enquanto. Nosso inimigo é incansável e colossal, mas também estúpido e sem criatividade.

Lutar contra zumbis é como lutar contra qualquer coisa … ou contra tudo.

Por causa da série “Twilight” é fácil argumentar que os zumbis estão meramente substituindo os vampiros como monstros do momento, uma designação que deveria ser importante por motivos metafóricos, não monstruosos. Mas esse tipo de pensamento é enganador. O aumento de interesse por vampiros durante os últimos cinco anos diz respeito apenas ao sucesso da série multiplataformas “Twilight”, uma marca que não tem nada a ver com o vampirismo. Ela diz respeito à nostalgia pela castidade adolescente, à atração causada pelo elenco do filme e ao fato de que os consumidores de ficção contemporâneos tendem a preferir livros longos e em série que são lidos rapidamente.

Mas isso ainda assim criou um efeito dominó. O filme sueco de vampiros “Let the Right One In”, de 2008, não teria sido refilmado nos Estados Unidos se “Twilight” nunca tivesse existido. “The Gates” foi uma tentativa aberta da ABC de atrair o público pré-adolescente que não sai de casa; “True Blood” da HBO é uma reação à sinceridade direta de Robert Pattinson.

A diferença com os zumbis, é claro, é que é possível gostar de um tipo específico de vampiro temporariamente, o que não é uma opção em se tratando de mortos-vivos. Personagens como Edward Cullen de Pattinson em “Twilight” e o Lestat de Lioncourt de Anne Rice, e até mesmo o velho e chato Conde Drácula, podem ser multidimensionais e eróticos; é possível descobrir quem eles são e quem foram um dia. O amor por vampiros pode ser singular. O amor do zumbi, entretanto, é sempre comunal.

Se você gosta de zumbis, você gosta do conceito inteiro de zumbi. Nunca é algo pessoal. Você se interessa pelo significado dos zumbis, você gosta do jeito que eles se movem e entende o que é necessário para detê-los. E essa é uma atração confortável, porque esses aspectos não mudam na verdade. Eles se tornaram um conhecimento arquetípico compartilhado.

Poucos dias antes do Halloween eu estava no estado de Nova York com três outras pessoas. Nós acabamos indo parar no Celeiro do Terror, nos arredores de uma cidade chamada Lake Katrine. Entrar no celeiro era levemente perturbador, embora talvez não tão assustador quanto entrar num verdadeiro celeiro abandonado que não cobrasse US$ 20 e não tem seu próprio domínio na internet.

Independente disso, a melhor parte foi quando saímos do celeiro do terror e fomos imediatamente conduzidos a um ônibus escolar que nos levou a uma plantação de milho a cerca de 40 quilômetros dali. A plantação estava repleta de atores amadores, alguns interpretando militares e outros fazendo o papel de “infectados”.

Disseram-nos para correr pelo campo à luz da lua se quiséssemos sobreviver. Enquanto corríamos, soldados armados gritavam instruções contraditórias enquanto zumbis emergiam do meio da escuridão da plantação. Era para ser divertido, e foi. Mas pouco antes de entrarmos no meio do milharal, um de meus companheiros criticou sardonicamente a realidade de nossa situação.

“Sei que isso deveria meter medo”, disse ele. “Mas estou muito confiante na minha capacidade de lidar com um apocalipse de zumbis. Sinto-me estranhamento informado sobre o que fazer nesse tipo de cenário.”

Eu não poderia discordar. Nesse ponto, quem não está informado. Todos nós sabemos como é: se você acordar do coma, e não ver imediatamente um membro da equipe do hospital, assuma que os zumbis tomaram o local durante sua incapacitação. Não viaje à noite e mantenha suas cortinas fechadas. Não deixe zumbis cuspirem em você. Se você derrubar um zumbi, atire uma segunda bala em seu cérebro. Mas acima de tudo, não assuma que a guerra está vencida, porque ela nunca está.

Os zumbis que você mata hoje serão meramente substituídos pelos zumbis de amanhã. Mas você pode fazer isso, meu amigo. É desencantador, mas não é difícil. Mantenha seu dedo no gatilho. Continue com o extermínio. Não deixe de acreditar. Não deixe de deletar. Responda às suas mensagens de voz e cumpra com seus acordos. Este é o mundo dos zumbis, e nós apenas vivemos nele. Mas podemos viver melhor.

Chuck Klosterman é autor de “Eating the Dinosaur” [“Comendo o Dinossauro”] e “Sex, Drugs, and Cocoa Puffs” [Sexo, Drogas e Cereal de Chocolate]


Tradução: Eloise De Vylder

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Colin em Cannes

Os anos 00 (ou 10) já descobriram seu Robert Rodriguez. Ele atende por Marc Price, tem 30 anos e uma história pronta pra entrar para os classicos “do underground para o mainstream”: como fã de terror, Marc fez seu filmes de zubmis por pura vontade de fazer e, diz ele, investiu apenas 45 libras na producao.

Colin foi sensação no Festival de Cinema de Cannes mas não tanto aqui no Festival de Publicidade. Ontem, a agência britânica Saathi & Saatchi, célebre por incentivar novos talentos das câmeras, trouxe Price para a apresentação do décimo nono Saatchi & Saatchi Director`s Showcase. Price teve seus quinze minutos de fama entre os publicitários e anunciou uma projeção exclusiva do filme pra hoje. Às 18h no auditório Debussy do Palais, entretanto, havia apenas eu, um amigo e mais cinco ou seis pessoas na platéia. Ao que parece, filmes de zumbis feitos com 45 libras não são atraentes para a maior parte do mercado publicitário.

É uma pena que poucos tenham ido assistir. Não que Colin seja propriamente uma obra prima: a história tem uma estrutura narrativa um pouco confusa e pelo menos 20 minutos de cenas sobando. Por outro lado, é um representante clássico da cultura do it yourself com todos os méritos que isso traz, como uma energia visceral e um claro frescor. Mais do que isso, Price introduziu na história do cinema de terror a perspectiva do zumbi. Em vez de acompanharmos a trajetória de sobreviventes que tentam fugir dos zumbis, pegamos carona mesmo é no no cotidiano de Colin, desde seus primeiros minutos como zumbi até seu vagar trôpego por uma Londres imersa no caos. Na sua viagem pela cidade, Colin encontra a irmã, que não foi afetada pela praga e tenta trazê-lo de volta a normalidade levando-o pra casa da mãe, buscando ativar sua memória afetiva.

Há pouca explicação e muitas vísceras, bem como uma trilha sonora absolutamente claustrofóbica, responsável por metade do clima do filme. A outra metade fica por conta da câmera tosca e da edição nervosa, que Price confessou ser um recurso de compensação pelo baixo orcamento.

Como não havia ninguém no auditorio, minutos antes da projeção meu amigo chamou Price pra bater um papo. Nervoso com a pouca platéia, deu seu primeiro autógrafo da vida e disse que adorou a semana em Cannes, uma vez que segunda feira precisava voltar para seu dayjob burocrático. Também queria saber nossa impressão sobre o filme e eu tinha meia dúzia de perguntas pra entrevistá-lo, mas o cara simplesmente sumiu durante a projeção. Com 30 anos, aparentava 21 e seu filme de certa forma reflete esse paradoxo.

Uma ultima anotação: ao longo do filme, não parei de pensar em como a cultura pop geralmente funciona como um sintoma dos climas sociais dos países. Me lembrei que ano passado a revista Monocle publicou um artigo falando sobre um certo estado de depressão que estava pairando sobre a Inglaterra devido aos problemas econômicos que o Reino Unido estava enfrentando. Durante o festival aqui em Cannes, muitos foram os altos executivos de agências do primeiro mundo que se referiram a crise com um certo tom depressivo. Não está sendo fácil pra “eles” do primeiro mundo e tenho certeza que a falação em torno de Colin tem uma certa ressonância com o momento problemático que as finanças da elite do planeta esté vivendo. É ou não é?

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Minhas impressoes sobre o Festival de Publicidade de Cannes continuam sendo publicadas diariamente no blog da Escala.

Tem lá o video do Roger Daltrey cantando em voz e violão a poucos metros de mim… foi massa…

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