6 de outubro de 2008 às 15h04
Just Be Kind
Quando o nome Michel Gondry vem à tona, a primeira coisa que eu penso é como ele borra completamente a fronteira entre a “vida real” (o mundo supostamente externo que experimentamos) e a “mente” (nosso mundo interno que supostamente só experimenta). De Human Behaviour, seu primeiro clip de maior repercussão, passando pelo megapremiado comercial da Levi’s, Drugstore, até chegar a seu terceiro longa, The Science of The Sleep, sempre ficou clara a intenção do diretor de transformar a realidade em playground. Ou, para ser mais preciso, em uma oficina de artesanato misturada com hora do conto.
Na sua trajetória, mesmo mantendo um modus operandi marcante, Gondry ainda mostrou uma diversidade de abordagens, especialmente nos videoclips. No cinema, seus três primeiros longas são um pequeno retrato desse espectro: Human Nature (se bem me lembro) vai mais pela senda do sarcasmo, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança é busca esperança ao mergulhar na melancolia e The Science of The Sleep, bem… The Science of The Sleep só se livra do tedioso estigma de egotrip porque, apesar do ego atrapalhar, a trip é visualmente interessante.
Mas aí, para salvar a pátria que parecia perdida com “The Science”, chega Be Kind Rewind. Apesar da controvérsia nos escritórios d’Oesquema, eu sustento que o filme tem tudo aquilo que fez Gondry célebre no baixo-mainstream (aquela região situada no início da Cauda Longa) mas com um toque sensacional de Sessão da Tarde.
Pela primeira vez, o jeitão Mr. Maker de Michel Gondry entra com louvor no gênero “tremenda confusão”. A história, de certa forma, você já conhece: um sujeito responsável que cuida do negóco de um tiozinho tem um amigo vagabundo que quer resolver uma encrenca e acaba botando todo mundo numa tremenda confusão. Na prática, Mos Def cuida de uma falida locadora de VHS do Danny Glover. O Jack Black, ao fracassar na tentativa de sabotar uma estação elétrica, volta energizado e apaga todas as fitas do Glover, obrigando a dupla de trapalhões a refilmar clássicos pop com seus próprios recursos.
Rocamboles visuais e ingenuidades temáticas à parte, Be Kind Rewind é simplesmente isso e se você sentar pra assistir assim, não vai se decepcionar. Mas, pra mim, o filme também funcionou como uma ode à criatividade, à noção de que todo mundo pode ser criativo em qualquer circunstância. Em uma época em que boa parte da população brasileira tem um celular com câmera na mão e que acompanhar certos drama no Orkut rende mais do que certas novelas, um filme desse tipo é estimulante. Não apenas a noção de produção lo-fi é celebrada em Be Kind Rewind. Assuntos tangentes como autoria, ficção vs. realidade, processo criativo, ética e direitos autorais são salpicados de forma esperta ao longo da trama.
Como todos os outros filmes de Michel Gondry, este também trasncende a questão da “mente”. Mas, aqui, aborda mais a “mão”. Para ser mais preciso, a necessidade de se botar a MÃO na massa pra fazer as idéias da mente ganharem representação no que chamamos de vida real. O veículo para isso em Be Kind Rewind é a criação artesã, onde as mãos e os objetos físicos cotidianos, que estão ao alcance de qualquer um, se transformam em ferramentas sofisticadas do pensamento. (E a ironia aqui fica por conta do conhecido envolvimento do diretor com alta tecnologia para criar visual de artesanato.)
Seja ao se relacionar de forma mais íntima com telas sensíveis ao toque, ou ao transformar o cargo de chef em algo similar ao rockstar underground, as mãos vem ganhando importância na cultura pop. Lembre-se de todos os pôsteres de filme que vem sendo feitos à mão, do vídeo do Daft Punk com os dedinhos ou dos bonequinhos da capa do Dirty (à beira do revival). As mãos são uma parte importante da nossa cultura contemporânea. Não é propriamente isso que o Michel Gondry nos diz exatamente em Be Kind Rewind. Mas é isso que eu vi ali. Ah eu vi.






Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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