Se o ser humano se reprograma por repetição e contexto, o acesso diário (repetição) no Twitter ou no Facebook (contexto) sem dúvida deixa marcas na mente. Não vou nem entrar no assunto do cérebro, a neuroplastia e muito menos criar exóticos sub-factóides dizendo que quem acessa o Twitter todos os dias só vai saber se expressar em até 140 caracteres, mas com certeza estamos vivenciando algum tipo de troca entre nossa mente e as interfaces que utilizamos de forma mais intensa.
A construção da identidade do indivíduo pré era digital não se limitava, obviamente, a suas atividades psicológicas e sempre incluiu relação com objetos e aparelhos. Mas quando um número considerável de horas da nossa semana é passada preenchendo pequenos formulários ou tentando condensar nossos dramas e comédias em mensagens rápidas entremeadas de gifs animados dentro de caixinhas flutuantes e piscantes, precisamos admitir que estamos transformando nossas narrativas internas em experiências vivas de transmedia storytelling.
Isso implica na lenta construção de um novo alfabeto psicológico, mais complexo, espalhado, fragmentado e, acima de tudo, ligado a interfaces que nos levam a narrar nossos pensamentos e sentimentos de uma forma ainda não experimentada na história humana. Não é raro, por exemplo, uma discussão entre casal ou uma conversa entre amigos começar ao vivo, continuar por email, atravessar uma tarde no msn (entrecortada por uma série de outras atividades) e se desenvolver em frases cifradas de Fotolog ou mensagens de SMS.
Para fazer o eixo narrativo desse papo ter sentido (se é que algum dia ele fez ou vai fazer), é preciso preciso saber comunicar o que você está sentindo ou pensando em meia dúzia diferente de linguagens (o que acaba configurando uma única linguagem fragmentada e fluída). Nesse contexto, um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos - com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas. Aquele smile estava sorrindo com alegria genuína ou com o mais puro sarcasmo? Quem decide?
Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas está desenvolvendo um novo talento (o MIT chama de New Media Literacies) ao disparar em um único dia uma dúzia de mensagens de SMS para pessoas diferentes com diferentes conteúdos, tons e significados, todos dentro de um frame muito rigoroso formado por um número limitado de caracteres e uma interface gráfica ainda bastante rudimentar. No fundo, estamos aprendendo a tirar leite de pedra e não é pra menos que tanto rolo aconteça devido a mal entendidos em scraps e comments por aí na vida.
Tá, mas e daí? Não sei. Continuo no próximo post.
Eu já tangenciei esse assunto duas vezes. Primeiro num post sobre uma entrevista do Contardo Calligaris e depois escrevendo sobre o livro dele também. Me sinto um poquito em dívida com a questão, então vou começar a explorá-lo de leve, mesmo não sabendo muito bem por onde seguir. Vamos partir do começo mais comum: conversas descompromissadas que eu tive com alguns amigos e parceiros de trocar idéia.
Um dos papos que me vem à cabeça rolou no ano passado, quando eu estava acompanhando o William em uma entrevista que ele estava dando para uma colega de mestrado. Não lembro bem o foco da tese dela, mas a entrevista consistia em tentar detectar nele as nuances de comportamento frente ao Facebook. Não apenas a edição mais conhecida que claramente fazemos, como selecionar bem as fotos, músicas, vídeos e os links ao construir e manter nosso perfil assim ou assado, mas também as escolhas que estão implícitas ao decidirmos fazer uma foto, ouvir um som ou ir a um determinado evento bem antes de adicionar isso ao nosso lifestream - por assim dizer.
Aí brota um dos primeiros aspectos da influêcia da cultura digital em nosso comportamento: a quantidade imensa de material que temos que gerenciar. Seja produzida por nós (fotos de viagem, vídeos caseiros) ou não (mp3, filmes, seriados, games), essa quantidade absurda de produtos digitais vem fazendo do nosso “editor mental” um dos pilares mais marcantes da nossa identidade. Em outras palavras, estamos nos definindo menos pelo que ouvimos e compramos e fazemos, mas cada vez mais pelo “como” escolhemos e classificamos automaticamente nossas interações.
O ponto aqui é perceber, primeiro, como nossas metodologias implícitas de selecionar e organizar nossas interações digitais estão crescendo como parte da nossa personalidade. E, segundo e mais importante, como isso está determinando não somente padrões do nosso comportamento no ambiente digital, mas nosso comportamento como um todo.
Um exemplo bastante simples mas bastante significativo é o fato das pessoas como um todo estarem menos cuidadosas para tirar fotos. Há pouco tempo, as fotos de uma viagem precisavam caber em um determinado número de filmes - nem todo mundo podia arcar com dez filmes e ter 360 fotos de uma viagem de fim de semana e hoje qualquer um com uma câmera digital tosca tem 360 fotos de uma festa. Isso gera um comportamento mental diferente, uma relação de abundância e disponibilidade. No caso, é o device transferindo sua memória expandida (se comparando à câmera analógica) para o nosso jeito de pensar.
Da mesma forma como a memória da câmera expandida se mistura à nossa mente, uma série de outros aparelhos, softwares e suas interfaces estão exercendo uma influência bastante sutil mas muito poderosa sobre nosso olhar e nossas relações conosco, com os outros e com o mundo.
Algo que vou explorar no próximo post um pouco mais.
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