OEsquema

Arquivo: Francis Alÿs

File à Pé – encerramento

A idéia inicial era fazer uma boa pesquisa a respeito do último trabalho do Francis Alÿs que eu ia comentar. Mas mudei de idéia e vou escrever tudo de cabeça mesmo, sem link pra lugar nenhum, baseado no único gancho físico que eu tenho: esse postalzinho aí em cima que peguei no Malba em Buenos Aires há uns 3 anos. Ele, pobrecito, está todo amassado e meio detonado. Já foi o olhar de boas vindas da porta do banheiro do meu ex-apartamento, mas hoje descansa embaixo da minha tela no trabalho pra me lembrar dos espejismos. Você já leu o texto embaixo da foto?

O negócio é o seguinte: você entrava no Malba, descia as escadas e, à direita, lá embaixo, havia um salão com diversas mesas. Sobre elas, umas vinte ou trinta peças entre mapas, esquemas e desenhos. Em uma sala contígua, um filme em loop mostrava uma estrada da Patagônia do ponto de vista do motorista de um carro. Ou um pouco mais à frente, pois o motorista enxergaria o volante e nós, assistindo ao filme, é como se  fôssemos uma câmera presa no capô. Então o panorama era esse: uma larga faixa que se afinava até chegar ao horizonte, encontrando o céu, e os dois (a larga faixa e o céu) confundiam-se a partir de uma terceira faixa intermediária de calor, sabe aquela faixa de calor na estrada? Ela mesma, tratando de cozinhar sem cerimônias o arroz e feijão da terra e do céu.

Era um loop. Uma viagem interminável que levava a lugar nenhum.

Os mapas e esquemas, pelo que me recordo, diziam respeito ao planejamento dessa viagem feita pelo Francis Alÿs. O nome do projeto todo: The Story of a Deception / Historia de um Desegaño. Não sei se decepção e desengaño são correspondentes diretos na tradução inglês/espanho. Mas lembre-se que desengano em português é muito usado pra classificar a morte. “Ele foi desenganado pelos médicos.” Cara, de onde saiu essa expressão? Quer dizer que ele estava se enganando? Que os médicos o estavam enganando? Que estamos todos enganados? Smart people…

Eninuêi, apesar do filme em loop indicar claramente uma viagem de carro, o registro no cartão postal (a melhor coisa do projeto todo, a meu ver, o gancho necessário e massa) falava da tribo dos tehuelches, que caçava o ñandú caminhando (você ainda não leu o texto?). Pelo que me lembro, havia também um outro texto em alguma parede da exposição contando que o Francis Alÿs esbarrou nesse hábito dos tehuelches enquanto trabalhava no projeto do filme em loop. Ele não foi atrás dos tehuelches, mas, como muitos artistas, cientistas e buscadores, encontrou o que estava procurando sem ter procurado. Vai ver ele, de carro, perseguindo espejismos, cruzou com um tehuelche perseguindo ñandú. Os dois se olharam e se sentiram em frente a um espelho. O gringo e o índio. O caçador e o artista.

“We, of our time, must chase mirages”.

Sem mais perguntas. A testemunha, agora, é sua.

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Filé à pé 2

Eu não sei bem qual é a reputação do Francis Alÿs no mundo das artes – e minha pesquisa no Google não foi muito longe. Mas no meu mundo o trabalho do Alÿs se equilibra realmente no limiar entre a reflexão consistente e o mero factóide, a mera construção de uma imagem ou uma história pra gerar bochicho. Uns poucos centímetros mais pro lado e o cara já passaria por uma coisa assim meio pra gerar excitação em vez de gerar significado.

Felizmente, tenho a impressão de que seu trampo tem um pouco dos dois: quase sempre ele gera imagens icônicas, bacanas, atraentes, que servem de gancho para um mergulho mais profundo. Por exemplo, esse adorável cãozinho de material magnetizado que ele puxou atrás de si, como quem passeia com um cachorro de verdade, pelas ruas da cidade do México.

Como era de se esperar, o cão de metal atraiu uma série de detritos metálicos, gerando uma espécie de carapaça. Assim, sem mais nem menos, “The Collector” é uma metáfora tão simples da interação das pessoas com o espaço urbano que chega a ser comovente: todo mundo que caminha por uma cidade leva consigo resquícios da caminhada, seja um pouco da poluição sonora, visual ou atmosférica; sons, cheiros, imagens que preenchem o espaço físico e mental do sujeito, criando também uma espécie de carapaça cuja presença fica bem clara quando ela some depois de um puta ducha no fim do dia – você sabe do que eu estou falando, não?

Bem, o fato é que na tal exposição do Macba que eu vi, o cãozinho de metal recoberto de trecos estava lá, exposto, junto com mapas detonados e marcados com os trajetos de Alÿs na construção da sua “obra”. Se como idéia e como processo o “The Collector” (não vamos esquecer que uma das primeiras atividades do ser humano para sua sobrevivência foi justamente a coleta) é interessantinho, com a presença daquele objeto meio “cão do robocop de terceiro mundo” dava um outro colorido à obra. Ele era mais do que o objeto central da ação, mas, ali no museu, se transformava num gancho muito mais simpático do que os mapas ou qualquer outro material de apoio pro espectador se apoiar em busca de entender o que havia acontecido.

***

Nenhum artista deveria negar uma muletinha que seja ao público. Não precisa ser grande, pode ser uma muletinha do tamanho de um palito de dentes. Já ajuda.

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O caso de Paradox of Praxis é covardia. Nele, o Francis Alÿs empurrou uma barra de gelo pela cidade até ela se derreter completamente. Mais uma vez, embora a ação em si seja poderosa, o que conta, o que pega o espectador pelo cangote é a imagem gerada. Uma coisa é você ler ou alguém lhe contar sobre um artista empurrando uma barra de gelo das 9h15min às 18h47min. Outra bem diferente é ver a foto acima.

Esse é bem o tipo de obra que despera desconfiança em muita gente quanto ao objetivo da arte contemporânea. É muito fácil fazer piada com The Paradox of Praxis (veja o vídeo aqui), mas eu acredito que seja mais difícil de rir quando se percebe que ela espelha grande parte das ações humanas face a conceitos como morte e impermanência. Tipo… HOHEUAHAOPEUAHEEHEOEUAHEUAHEUHOUHA…. HAHAOPEUEHASUHAHOPUIEHAH…. HAUEHOHAUA… HAHAHA… HA… HA HA….. HA…. ahn…. bem…

Quem aqui, de certa forma, não está empurrando uma barra de gelo?

(continua)

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Filé à pé

Engraçado essas coisas: eu demorei 35 anos pra descobrir que adoro caminhar. E como uma boa parte das coisas que eu gosto na minha vida, eu primeiro recebi isso com um ponta de decepção (“putz, eu gosto de caminhar e não caminho tanto”) pra depois perceber que, ei, de alguma forma, na verdade, eu sempre caminhei bastante, mesmo quando achava que não. O que acontecia é que eu só inventava desculpas pra caminhar e agora que eu descobri isso, não preciso: eu posso simplesmente sair caminhando.

Caminhar também é parte fundamental do meu processo criativo, seja no trabalho, seja pra resolver qualquer outra questão pessoal. E não é que na caminhada eu pense ou raciocine, muito antes pelo contrário. Eu gosto de pensar sentado. Vejo o caminhar como aquela folga dos pensamentos, aquele espaço aberto onde as peças talvez possam se encaixar, caso estejam prontas pra se encaixar. É um espaço criativo no sentido mais passivo. Você abre espaço e deixa que os elementos da sessão anterior de pensamento laborioso façam o que têm que fazer – e se não tiverem que fazer nada, azar o meu.

Descobri que é por isso também que gosto tanto dos trabalhos do Francis Alÿs. Mas o cara, esse artista belga que mora na Cidade do México e de quem já falei aqui, leva a questão da caminhada um pouco além do “simples” processo criativo. Uma boa parte do que ele faz usa o caminhar como linguagem ou como ferramenta. Não é que o Alÿs curta uma caminhadinha. Ele é um caminhante, um botânico da calçadas (essa é do Baudelaire) que flutua entre o envolvimento e o distanciamento com o espaço à sua volta.

Em 2005, eu estava em Barcelona e, depois de caminhar bastante, fui visitar o MACBA numa pilha “o que tiver aí eu vejo”. E o que “tinha lá” era a mostra “A pie desde el estudio”, do sujeito supracitado. A exposição reunia uma série de obras em diferentes suportes todas geradas, segundo as palavras do próprio Alÿs, a partir de “tudo que vi, ouvi, fiz, não fiz, entendi ou não entendi num raio de dez quarteirões a partir do meu atelier no centro histórico da Cidade do México”. Ou seja, pra falar mais tecnicamente, produtos de passeadinhas.

Mas uma passeadinha do Alÿs não é como as minhas passeadinhas. O cara tem a manha, por exemplo, de entrar em uma loja, comprar uma arma e sair caminhando durante doze minutos com um parceiro filmando até que a polícia seja chamada, o aborde e o prenda. Mais do que isso, ele ainda consegue convencer os policiais de que é um… artista e a re-encenar a caminhada COM a participação dos “tiras”. E o que a gente assiste no museuzinho não é o vídeo do primeiro passeio e nem da re-encenação, mas os dois reunidos em uma única projeção, cada um de um lado da tela. Os últimos minutos de “Re-enactement” estão aí em cima.

Coisas de gringo no terceiro mundo. Ou você acha que na Bélgica, terra natal do Alÿs, ele ia conseguir essa mamata? Ou será que assistimos a um típico ato de prevaricação de policiais do hemisfério sul? Ou a um caso isolado de homens da lei fanfarrões sobre o qual estou aplicando meus preconceitos menos sutis? Bom, meu amigo, aí…

(continua)

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Complementando o preguiçoso post anterior

paradox of praxis: alÿs empurra um cubo de gelo até derreter – é a vida…

A duna do Francis Alÿs não sai da minha cabeça. E eu esqueci de falar do trabalho do Dario Robleto. Eu pensei, inicialmente, que o cara fosse brasileiro. Pelo nome. Dario. Mas não é, é do Texas.

A sala dele na Bienal consistia só em textos escritos na parede. Textos que descreviam ações que ele pôs em prática nos últimos dez ou mais anos. Coisas como pegar todas as lâmpadas dos alpendres de casas da vizinhança onde ele nasceu e trocar por lâmpadas bem mais fortes. Tudo feito durante a noite. Sem as pessoas perceberem, ele trouxe mais brilho para o neigbourúd. Isso era uma obra. Resgate da magia no cotidiano. Tão necessário…

Outra. Ele vem se dedicando há anos a mudar as datas do fim do mundo em livros de bibliotecas. O objetivo, com isso, é fazer com que todos nós ganhemos mais tempo de vida. Outra obra. Vontade de permanência. Inocência. Ingenuidade. Melhor que o sarcasmo e a frieza. Coração puro.

Quatrocentos estudantes da Universidade de Lima são convidados a mudar uma duna de lugar. Isso é uma obra? É uma mão-de-obra, sem dúvida. Ha ha ha. Eu achei isso maravilhoso. É tão inútil, mas também diz tanto. Na falta de opiniões melhores de minha autoria, eu copio. No desespero para encaixar meus sentimentos em relação ao que vi, fui pra internet procurar artigos e entrevistas. Achei uma frase num artigo do Artforum a respeito do lance da duna: “O trabalho de Alÿs nunca conta nenhuma história em particular mas, antes de mais nada, cristaliza uma imagem que dá origem a uma história a ser contada como um processo ativo de interpretação. Um dia, uma montanha se moveu 4 polegadas. E então começa a história que nós, a audiência, temos que contar.

A duna continua se movendo, você vê?

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Bienal


Chiho Aoshima. City Glow. Tentei ir atrás do vídeo, mas no You Tube não tem nenhum muito bom.


Então olha pra essas imagens e imagina que isso é um grande aquário. É mais ou menos isso. Mas quem é o peixe? Eu sou o peixe.


O Francis Alÿs, que já andou empurrando um cubo de gelo por aí, juntou 400 estudantes de engenharia da Universidade de Lima para mudar uma duna de lugar com pás. Chama “Quando a fé move montanhas” e pode parecer a bobagem do mundo.


Mas eu acho que não é. E o brilho nos olhos das pessoas que participaram é um argumento que eu usaria para defender o meu ponto de vista.


E tem a sala do William Kentridge. Tudo escuro. Muito escuro. Projeções em todas as paredes. Ele desenhando. Ele desenhando ao contrário. Re-encenação do Viagem à Lua dos Irmãos Lumière… opa… quer dizer, como corrigiu o Sapo, Geroge Meliès. Formigas em negativo vivendo na tela. Tinta, uma mulher nua, um homem desenhando. É tipo um quebra-molas de percepção. Ou você freia, sobe e desce, tendo que olhar tudo ao seu redor com mais atenção, ou vem o baque – e a atenção à força.


E nem os mapas da Rivane Neunschwander. Pintados em cima de restos de papel destruídos pela chuva. Com uma espécie de nuvem sobre as nossa cabeças. Literalmente.


Steve Roden. Sai som desse troço. Sons cujas notas musicais estão ordenadas de acordo com uma codificação que relaciona o desenho ao nome das constelações estelares. Tu vê só.

***

O cara sai depois de ver tudo isso – e muito mais – com vontade de compartilhar. E de fazer coisas.

E eu saí pensando muito na variedade de explicações e perguntas e visões sobre o problema básico humano, que é a instabilidade das coisas.

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