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Arquivo: Fun Home

Epilético – David B.

Até os 11 anos, a vida de Pierre François Beauchard foi a de uma criança comum, na medida em que uma infância pode ser comum. Ladeado por uma irmã menor, Florence, e um maior, Jean-Christophe, os dias dos três se resumiam a explorações lúdicas dos subúrbios de Orleans, na França, invadindo celeiros abandonados e pátios de vizinhos mal humorados. Mas a diversão despreocupada não durou muito tempo. Nem pra eles, e nem pra nós, leitores da graphic novel Epiléptico, do francês David B (nome adotado por Pierre na pós-adolescência). Já na página 9, o irmão maior,  Jean-Christophe, está brincando sobre a moto do namorado da babá quando congela, cai e começa a tremer, sob os olhos apavorados do caçula.

A cena é simples e se desenrola em seis quadrinhos de tamanho regular que não dão a dimensão da história que vem a seguir. Ainda estamos na primeira parte de Epiléptico e seu autor está ainda semeando o terreno do que vai se transformar em uma das mais intensas e ricas memórias já exorcizadas em quadrinhos.

O personagem central de Epiléptico é a doença que dá nome ao livro. De uma hora pra outra, os ataques epilépticos de Jean-Christophe Beauchard se tornam o centro nervoso da história pessoal de cada um dos membros da família. Na verdade, não é só a epilepsia que mexe com a rotina e os laços dos Beauchard, mas também (e talvez principalmente) a tortuosa, frustrante e infindável busca pela cura. Na ânsia de descobrir como resolver o problema, os pais de David empreendem com os filhos uma maratona que atravessa duas décadas e que envolve todo o tipo de médicos e curandeiros.

Todo o tipo mesmo. Nesse sentido, David B. é generoso com o leitor ao descrever com detalhes cada encontro e o background de cada área esotérica coberta pela maratona, num panorama interessante do que aconteceu em termos de medicina alternativa na Europa durante os anos 60. Dentro todas as tentativas, merece destaque as temporadas que a trupe dos Beauchard passou em comunas macrobióticas e onde David aprendeu a desconfiar de figuras “santas”.

À medida em que a história se desenrola, Epilético se movimenta de dentro para fora. As imagens objetivas dos personagens e as paisagens por onde eles navegam vão sendo substituídas pelo universo interno do autor numa das mais comoventes traduções visuais de um drama individual que eu já vi. Na imagem acima, por exemplo, testemunhamos um ataque epilético de Jean-Christophe como David enxergava: uma serpente, de tom mítico e traços tribais, que envolve e convulsiona o corpo do irmão.  Mas isso, creia-me, é só a ponta do iceberg.  Página após página, quadrinho após quadrinho, Epilético vai cada vez mais fundo.

Esse é justamente o grande predicado do livro: ele revolucionou as graphic novels de memória ao focar de forma virtuosa e atenta o universo interno do autor. Diferente da longa linhagem em que se insere e renova (trabalhos de Robert Crumb, Art Spiegelman e, mais recentemente, obras como Fun Home e Umbigo sem Fundo), Epiléptico se destaca por ir abrindo mão da história objetiva e investir pesado na construção de uma narrativa visual de forte apelo mitológico, repleta de símbolos universais (serpentes, armaduras, pássaros, esqueletos, fantasmas) traduzidos para o uso da situação particular dos Beauchard.

(Os símbolos universais ainda são uma das melhores bóias para mergulhar no caos, manter a comunicação com o mundo e voltar pra contar uma boa história.)

É lindo o paradoxo que acontece: quanto mais fundo David vai em si mesmo, mais universal e atemporal seu drama e o drama da sua família se tornam. Quanto menos interessa o que está acontecendo objetivamente, mais objetiva a história se torna, mais sentido ganha. E não apenas pra nós, mas também para o autor.

Aqui, entramos em uma área perigosa. O exorcismo de problemas pessoais via quadrinhos (ou literatura ou música ou pintura…) é um setor lodoso. Quando serve mais ao autor do que à audiência, mostra-se irrelevante como obra, não adiciona nada à arte à qual está vinculado e possivelmente é raso como gancho para descobertas pessoais de qualquer um que não tenha participado da sua concepção. Quando serve mais à audiência do que ao autor, pode ser triste do ponto de vista humano: quer coisa mais melancólica que um Nick Drake da vida, compositor de melodias incrivelmente inspiradoras mas que morreu cedo e deprimido?

Mas Epiléptico consegue o feito de ser funcional tanto como exorcismo particular quanto como referência no campo cultural que ocupa. O primeiro resultado pode ser auferido tanto durante a leitura (nos capítulos finais David conta como trabalhar no livro mudou sua visão de mundo e o salvou da força centrípeta da doença do irmão) quanto por entrevistas. O segundo depende das resenhas que você encontrar por aí bem como da sua experiência ao se relacionar com o calhamaço. Leia Epilético e coloque na sua estante mental junto com os já citados Crumb, Spielgman e outros da mesma cepa. Poucas obras tem tanta capacidade de falar por si, seja verbalmente ou visualmente.

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Epiléptico saiu no Brasil em dois volumes pela Conrad. Se você se interessou, não bobeie: faça as contas, economize e compre logo os dois de uma vez.

A edição americana vem com a história completa.

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Além de uma grande obra de arte, Epiléptico também oferece um olhar honesto e amplo sobre a epilepsia. Os relatos não são maniqueístas e a forma como David B. retrata a relação dele com seu irmão cobre uma boa gama de matizes.  Ou seja, não espere encontrar fórmulas hollywoodianas, como a do irmão são que recupera o irmão doente ou o irmão doente que oferece algum tipo de redenção ao irmão são. As coisas são mais complexas, mais feias e mais bonitas do que isso. E David não esconde o jogo nesse sentido.

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Dependendo do seu estado de espírito, Epiléptico não é uma leitura rápida. O livro foi meu companheiro por dois ou três meses não porque seja complexo ou difícil, mas porque é tão rico e tão intenso que merece uma atenção especial: vale parar, ler com atenção, desfrutar dos desenhos, deixar cada trecho descansar e dormir com você. É mais do que uma leitura, é realmente uma pequena jornada bastante recompensadora.

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Sobre ir fundo em camadas horizontais

David e Maggie Loony se conheceram, namoraram e viveram casados por 40 anos. Ao longo desse tempo, tiveram três filhos, Dennis, Claire e Peter, que foram criados em uma casa de três andares na praia. Agora, beirando os 70 anos, papai e mamãe Loony chamam os filhos de volta à casa para um último aviso: eles estão se separando. Dennis pira, Claire reflete sobre o próprio divórcio e Peter… bem, Peter é o único que não é retratado com uma cabeça humana, mas com a de um sapo. E, não sei se tem a ver com isso, Peter encontra uma oportunidade de respirar.

Umbigo sem Fundo é isso: pura investigação humana usando como ferramentas a dissolução, a manutenção e a construção de laços familiares, usando um arsenal de escolhas narrativas e estéticas que faz o livro não parecer as 720 páginas que tem. Como objeto, Umbigo Sem Fundo é pesado e chato de carregar. Mesmo assim, eu o levei pra ler na praia, porque, como obra, a densidade e o peso do assunto são temperadas com um olhar amplo que empresta leveza e espaço pra que qualquer leitor (mesmo que não seja americano e filho de pais idosos se separando) possa se identificar com algum aspecto do impacto da decisão de David e Maggie. Conscientemente ou não, o que o jovem autor Dash Shaw fez foi transformar os meandros dolorosos da micro-saga dos Loony em um buffet de pequenas questões universais que pode ser acessado – como os bons buffets – por vários lados.

E assim o mundo anda. Página após página, podemos observar o desdobramento do divórcio dos Loony através diversas camadas: temos o discurso, as palavras, o que é dito pelos personagens; temos as onomatopéias, que são tão presentes na história como os ruídos do dia-a-dia são em momentos embaraçosos; temos as escolhas anatômicas dos personagens (Dennis é meio Homer Simpson, Peter é meio Caco dos Muppets); temos as decisões estéticas e técnicas de linguagem de quadrinhos (Shaw usa quase tudo que é possível usar); temos os cenários, os móveis, o céu, a areia, o mar, todos fazendo as vezes de apoio visual para pequenos dramas; e, por fim, temos a casa dos Loony, personagem fundamental na trama por servir de território de busca física e emocional, de Dennis e sua sobrinha Jill.

Pra completar, o traço de Shaw ainda se localiza numa espécie de limbo técnico: parece rascunho, mas é detalhista; é detalhista, mas parece relapso; é relapso, mas bate fundo. Como se isso não bastasse, a edição brasileira (talvez a americana também, não sei) vem impressa (por quê?) em uma cor bege, o que é perfeito para o tom da história já que pouca coisa entre os Loony é, em termos de sentimentos, só preto ou branco.

Bom, a essa altura talvez você já tenha notado… uma família disfuncional, uma casa na praia, um narrador que oferece espaço para a história se desenrolar e gosta de usar cenários e objetos como personagens. Se você juntar A com B, vai perceber que Umbigo sem Fundo se insere em toda uma linhagem americana de autores que trabalham dessa forma. Nos quadrinhos, já falei aqui sobre a recente Fun Home (aqui e aqui), por exemplo. No cinema, não é difícil lembrar de Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia, e Tempestade de Gelo, Os Excêntricos Tennenbauns, pra ficar em algo recente (alguém lembra de coisas mais antigas nesse sentido?) Se algum desses títulos calou fundo aí, não pense duas vezes sobre adquirir o pesado tomo de Umbigo sem Fundo. Também é um bom presente de Natal para um amigo ou parente que gosta de boas histórias desenhadas.

Exemplares autografados por Shaw durante a Bienal do Rio.

Uma última nota curiosa: diferente do que esse tipo de graphic novel/filme/romance possa sugerir (e quanta terapia disfarçada de literatura se faz nesse sentido!), Dash Shaw disse em entrevista à New Yorker que o livro não é autobiográfico. A família do autor sempre foi tranquila, seus pais estão juntos até hoje e, segundo ele, tem muito pouco dos Loony. O que talvez explique a poesia de Umbigo Sem Fundo: pra enxergar com tantas nuances certas tragédias, é preciso 1) a capacidade de se distanciar ou 2) estar de fato distante delas.

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Bom, aqui tem dois links interessantes caso você queira ir um pouco mais adiante. Mas minha sugestão é a seguinte: leia o livro primeiro, depois explore as entrevistas.

Em todo caso, aqui estão elas.

Em inglês, pra New York Magazine: How Dash Shaw Wrote The Graphic Novel of The Year.

Em português, pro Grito.

E também, pra facilitar sua vida, comparação de preços no Buscapé.

Boa leitura.

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Fun Home, revisitado

Na real, na real, achei que meu post sobre o livro ficou muito burocrático. Entenda-se: eu vinha de oito dias na praia com os neurônios em pleno estado de largação nas areias de Santa Catarina e acabei me tensionando ao tentar passar para o blog minhas impressões mais emocionais sobre o livro.

A bem da verdade, não tem muito como dividir com vocês o que eu senti ao ler Fun Home. Obviamente eu revisitei minhas próprias questões familiares com o apoio da edição elegante e o olhar compassivo da Alison Bechdel. Às vezes, o calor das questões presentes nos rouba a elegância e a compaixão, mas não custa nada buscá-las na hora de revisitar tais questões. Fun Home foi um passeio interessante em um local que poderia ser assustador.

Isso é algo bonito sobre arte, quando ela entra como uma agulha através da pele e chega até alguns recantos lodosos da nossa mente incutindo um pouco de espaço. Isso pode ser feito de muitas formas, algumas divertidas, outras incômodas, melhor ainda quando são divertidas E incômodas juntas. Significa que algo está sendo mexido mas com um pouco mais de leveza. Ponto para a autora ao fazer isso comigo, loas amplificados caso isso tenha acontecido em uma escala maior (acredito que sim, ou o livro não teria sido alvo de tanta atenção qualificada).

Mais: é boa essa sensação, a de ler sem matar tempo. Não existe, lembra o lama budista e diretor de cinema Dzongsar Khyentse RInpoche, expressão mais estúpida do que “matar tempo”. Tempo é o que temos de mais valioso, a possibilidade de respirar e andar sobre essa terra. Por isso, eu me regozijo em não ter matado tempo lendo um livro, mas realmente ter aproveitado pra fazer algo interessante com meus pensamentos, minhas memórias e algumas de minhas mofadas paredes mentais.

Bom, agora eu estraguei tudo de vez. Se antes alguém se sentiu incentivado a comprar Fun Home, espero que agora eu não tenha exagerado colando o rótulo de terapia pop na capa. Não se deixe enganar pelo sentimentalismo que estou arranhando. Alison Bechdel simplesmente fez o que um bom artista deve fazer: ao abrir o seu coração e a sua mente, ofereceu ganchos para que o leitor atento também o fizesse.

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Fun Home

Alison é uma menina crescendo no interior da Pensilvânia, em uma cidadezinha conservadora. Seu pai, Bruce, professor de inglês, é apaixonado por Scott Fitzgerald, decoração e envolve os três filhos em tudo que diz respeito a cuidar da casa vitoriana, de pendurar cortinas e lustrar candelabros a cortar a grama e fechar janelas por causa de uma devastadora tempestade que se aproxima. A mãe, contrariada, não tem forças para intervir e se refugia em sua tese de mestrado bem como em sua carreira de atriz amadora de teatro. Bruce é distante. Dá mais atenção à reforma da casa do que aos filhos. Alison resigna-se e segue sua vida. Vai descobrindo-se lésbica. Ao saber, sua mãe conta que seu pai é gay. Pouco tempo depois, Bruce se suicida. Não que uma coisa tenha a ver com a outra.

Pensa bem. Bruce e Alison. Que prato incrível para um melodrama rasgado e previsível. Mas, para nossa sorte, não é o que acontece. Fun Home – Uma Tragédia em Família, desvia do dramalhão mexicano e se mostra um mergulho disciplinado e corajoso de Alison Bechdel nas águas profundas de suas relações familiares. A coragem da autora, cuja reputação vem da série de tiras lésbicas Dykes To Watch Out For, não se deve simplesmente por abrir publicamente suas feridas (com uma duvidosa anuência de sua mãe), mas sim da capacidade de explorá-las de forma dedicada e generosa, sem cair um quadrinho sequer no sarcasmo fácil ou na confissão pura e óbvia.

Durante sete anos, Bechdel trabalhou arduamente no projeto de seu álbum, revisitando seus antigos diários (alguns escritos em um período de transtorno obsessivo compulsivo), utilizando fotos de álbuns de família como referência para seus desenhos, confeccionando mapas geográficos para entendermos melhor a história, reproduzindo capas de jornais e cartas à mão e, acima de tudo, demonstrando uma empatia comovente para com a figura controversa de seu pai.

Em termos narrativos, Alison se valeu de um catatau de referências literárias (não gratuitas, mas devido às paixões intelectuais de família Bechdel) que vai de Marcel Proust a James Joyce. Entremeada de citações mas sem prejuízo para o espectador iletrado (grupo no qual me incluo), a rede de lembranças é explorada de forma não linear, com saltos para frente ou para trás que não trazem qualquer obstáculo à compreensão da história por um motivo muito simples: é assim que a nossa memória funciona.

Em termos visuais, Alison declaradamente se filia à tradição de Robert Crumb e Hergè (e eu ainda adiciono Will Eisner e também lembra o Laerte!), mestres em retratar quadros realistas com ares cartunescos, o que significa transpor a riqueza de detalhes do “mundo real” para traços firmes e de proporções levemente arredondadas. Uma escolha interessante, pois traz leveza e ingenuidade a uma história de contornos muitas vezes mórbidos. É irônico, porém bonito, que fique mais fácil enxergar a face humana dos personagens quando eles parecem ter saído de antigos desenhos animados.

No caminho disso tudo, ainda temos amostras incrivelmente ricas da cultura de classe média americana dos anos 60 e 70, tanto no âmbito interiorano como nos primeiros espasmos da cultura gay novaiorquina. É possível investigar cada quadrinho em busca de signos estéticos que numa passada de olho servem apenas para temperar a história.

Em resumo, Fun Home é uma maravilhosa história (uma experiência, na verdade) de reconstrução de identidade a partir da investigação de lembranças, sensações, sentimentos e pensamentos. Em grande parte das resenhas que você encontrar na internet, as memórias de Alison Bechdel são reduzidas à questão da homossexualidade, dela e de seu pai. Mas Fun Home transcende esse aspecto, mostrando-se um abrangente compêndio sobre os retorcidos laços que ligam as famílias e as reentrâncias que nem sempre precisam ser totalmente iluminadas para serem aceitas.

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