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Arquivo: Globo

2008 para 2009: Susana Vieira

Uma das atividades a que mais me dediquei de forma regular no ano passado foi acompanhar a novela que teve Suzana Vieira como atriz principal, Marcelo Silva como ator coadjuvante (ou seria o contrário) e um verdadeiro aparato de transmedia a partir do qual os espectadores podiam construir uma história utilizando fatias narrativas geradas pelo casal e editadas por jornalistas e fotógrafos de dezenas de veículos de comunicação em várias plataformas.

(Se você não sabe nada, aqui vai um resumo: a atriz conheceu o PM quando ele fazia bico de segurança no Carnaval de 2006; engataram um namoro, casaram, foram de lua de mel pra República Dominicana, onde Marcelo teve um apendicite em plena Caras; 3 meses depois, o figura foi preso por quebra quebra em um motel com uma prostituta e expulso da PM; Susana passou por cima do incidente com a ajuda da Glória Maria em uma entrevista no Fantástico e a relação seguiu sem maiores percalços até outubro de 2008 quando veio à tona a relação extra-susanavieral que Marcelo mantinha com uma nutricionista; semanas de barraco seguiram-se, atingindo o ápice com a morte do cara por overdose de cocaína, seguido de xingamentos da Ana Maria Braga em cadeia nacional, a revolta da família do falecido e um silêncio de Susana. Fecha parênteses…)

A novela particular de Suzana Vieira veiculou em noticiários “sérios” como o Jornal Nacional, brotou com naturalidade em programas de fofoca na televisão, se expandiu de forma dramática em revistas de celebridade e tem pedaços espalhados pelo YouTube, sites de fofoca, blogs e comunidades do Orkut (poucas se comparado a outros hits midiáticos do ano, mas tem). Como grande parte dos atuais produtos de transmedia storytelling, a trama ainda pôde ser acompanhada por um único meio, mas ganhou em exuberância ao ser montada peça a peça nas diferentes mídias. Por exemplo, as fotografias silenciosas de Susana em revistas como a Contigo! após a separação eram complementadas por confissões do casal formado pelo ex-PM e a nutricionista na Sonia Abraão e, posteriormente, coloridas com declarações raivosas de Ana Maria Braga em seu programa na Globo. Para não nos deixar esquecer, o YouTube fornece cenas do passado de namoricos e beijocas entre Susana e Marcelo na praia. O quebra-cabeça não é profundo, mas as peças são numerosas. Manoel Carlos perde de longe.

Após a morte do ex-PM, Susana Vieira voltou a público tentando mostrar-se otimista e positiva, mas o que verteu de páginas de revistas como Caras, Istoé Gente e Contigo! foi a alma da celebridade brasileira atual – alto astral de fachada. Mágoas (compreensivelmente) profundas, palavras pesadas e a mais pura acidez foram mal disfarçadas com o bom e velho “bola pra frente” brazuca, que dessa vez não pôde esconder a verdade: Susana Vieira, apesar das inúmeras tentativas de posar de super mulher (com a anuência de grande parte dos veículos, inclusive os programas “sérios” da Globo) é um ser humano com todos os itens de série lodosos que costumam vir no pacote.

E, se para o leitor do Conector isso parece dizer o óbvio, lembro que é importante escarafunchar esses ícones pois eles habitam o imaginário do país e nós, os “esclarecidos” aceitamos esses rótulos da forma como nos são empurrados, mesmo que seja simplesmente para desprezar. Isso também é uma forma de compactuar com esse sistema bisonho.

Como Susana diz que desprezou intensamente Marcelo dando uma forma burlesca ao seu luto, quando desprezarmos Susana tiramos do radar pedaços importantes da nossa coletividade, que se não forem bem examinados, serão simplesmente cristalizados em algum tipo de intelectualização maniqueísta que não leva a lugar nenhum.

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Ainda sobre 2008 pra 2009: Arnaldo fala sobre Obama.

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Mad Men, Café da Manhã da BBC, a Dança do Siri e TV Branding

O Mini saiu de férias e me pediu pra regar as plantas nesta quinta-feira aqui no Conector.

Eu tenho um blog que fala sobre marcas de televisão na era digital, ou TV III, e tenho observado alguns fenômenos que acho que valem a pena comentar aqui (ainda mais que o Mini tem dissecado o livro do Henry Jenkins em diversos posts). Me refiro aos seqüestros, apropriações e intrusões de marcas de TV.

1. O Seqüestro de Don Draper

No dia 13 de Agosto de 2008, às 7:56 da manhã, o Twitter publica a primeira mensagem de um usuário que paradoxalmente vive nos anos 60.

“Tomando um whisky com Roger, para que ele não se sinta um alcoólatra”.

O tweet é assinado por Don Draper, o publicitário de vida dupla, personagem principal da premiada série americana Mad Men, produzida pelo canal premium AMC e transmitida no Brasil pela HBO. Vale acompanhar a série somente pela encenação da época, muito álcool, cigarro, ausência de consciência ecológica e ética, machismo e princípios de revolução feminista. A caracterização da agência de publicidade nos anos 60 é tão perfeita que é praticamente um personagem em si.


Veja também a paródia de Mad Men nos Simpsons.

Como sou fã da série, imediatamente segui os tweets de Don, e logo em seguida começo a receber convites para seguir outros personagens da série no Twitter: Roger Sterling (um dos donos da agência de publicidade fictícia Sterling Cooper), Peggy Olson (a secretária ambiciosa que vira redatora), Betty Draper (a mulher de Don) e até mesmo de Joan Holloway (a office manager voluptuosa).

Pensei eu: “que ação de marketing sensacional da AMC. Expandir a marca da série através da personificação dos personagens, permitindo que fãs dialoguem diretamente com eles, imergindo no mundo fictício de Mad Men. Bela maneira de engajar a audiência.”

No dia 25 de Agosto, menos de duas semanas depois, o Twitter bloqueia as contas de todos os personagens de Mad Men devido a uma intimação do DMCA (Digital Millennium Copyright Act) em relação aos direitos autorais de propriedade da rede AMC.

No dia seguinte, a empresa Deep Focus, responsável pelo marketing da AMC, persuasivamente convence seu cliente de que personagens do Mad Men engajando audiência via Twitter é boa publicidade, e assim as contas dos personagens são restauradas.

Depois de toda a ação, uma dúvida permanece: quem está por trás dos tweets de Don Draper e dos outros Mad Men?

O mistério vem à tona somente meses depois. Dia 16 de Novembro de 2008, Paul Isakson, estrategista e planejamento de marcas para a agência de marcas digitais Space 150 escreve um manifesto em seu blog, sob o título de Confessions of a (fake) Mad Man assumindo a paternidade dos tweets de Don Draper.

Paul confessa que tudo começou como uma um projeto pessoal de pesquisa ao pensar que seria possível estender realisticamente um personagem de um programa de TV para dentro de uma rede de relacionamentos.

A iniciativa de Paul Isakson, e dos outros fãs da série que assumiram identidades dos personagens no Twitter, é um exemplo perfeito de brand hijack (seqüestro de marca), onde usuários e fãs tomam para si uma marca e promovem sua evolução.

Paul liberou Don Draper de seu cárcere digital e o entregou para a AMC este mês, e pediu desculpas por não ter alimentado o personagem tão bem devida à falta de tempo para se dedicar a tarefa.

2. Apropriação no Café da Manhã

A apropriação de uma marca acontece quando um canal ou programa de TV refere-se ao conteúdo relacionado a outro canal ou programa com o intuito de promover sua própria marca, apropriando-se dos valores de marca alheios através dessa associação. Henry Jenkins fala brevemente disso no Convergence Culture, contando o caso dos outros canais de TV que entrevistavam os candidatos do Big Brother que haviam sido eliminados da casa.

Aqui no Reino Unido, isso acontece descaradamente todos os dias de manhã, quando a grande rede pública BBC exibe seu show matutino de notícias, o BBC Breakfast. Boa parte do show consiste em entrevistas com celebridades de programas de sucesso de outros canais de TV da Inglaterra. A desculpa é que é rede pública, sem fins lucrativos, com foco em fomentar a diversidade. Enquanto isso, o BBC Breakfast aumenta sua audiência às custa de valores de marcas de terceiros.

No Brasil, o Vídeo Show é um bom exemplo de apropriação de marca dentro do domínio de marca de um conglomerado de mídia. O formato do show é basicamente uma ferramenta de promoção dos outros conteúdos da Globo, e ao mesmo tempo, enriquece sua própria marca através dos atributos dos programas que documenta.

Mas não há nada como a sacripantice do Pânico na TV, que descaradamente ridiculariza contratados da Globo em entrevistas desconcertantes. Neste caso, a marca da Globo (ou Glóbulo, nas palavras do Sílvio) é apropriada e “torturada”. Aqui, existe uma simbiose bizarra de marcas, numa dinâmica onde a Rede TV promove brand awareness da Globo através da constante menção ao seu nome e atores, enquanto a RedeTV ganha audiência via seu freakshow de desconstrução da marca Global.

3. A Intrusão do Siri na toca da Globo

O fenômeno mais curioso é do Pânico da TV, com a Dança do Siri promovida pelos personagens Vesgo & Sílvio. A dança em si virou um forte veículo da identidade do show, e é relacionado com o programa seja onde estiver.

O mais engraçado é a intrusão da dança (e conseqüentemente da associação à marca) durante as transmissões ao vivo da Globo, feita por fãs do programa.

A Globo tem um histórico de rigidez no controle de sua marca. Mesmo assim, é difícil impedir a intrusão, ainda mais num ambiente digital, como aconteceu na sua festa da novela Sete Pecados no Second Life. O vídeo abaixo é um tanto quanto parcial, mas ilustra bem mais uma intrusão de uma marca da RedeTV no domínio da Globo.

Estaria o Conector a apropriar-se de marcas ao publicar posts de convidados neste blog?

Espertinho esse Mini, hein? Bem feliz lá curtindo umas férias.

Post escrito por Will Prestes enquanto o Mini está de férias.

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