O psicanalista Contardo Calligaris esteve aqui em Porto Alegre na segunda pro Fronteiras do Pensamento. Eu não fui, mas minha mulher foi e o que ela me contou me deixou com idéias pipocando por tudo quanto é lado. Calligaris trouxe suas idéias a respeito da “ficção como linha de conduta pra inventar a vida”, um assunto que ele explorou dias antes em uma entrevista pra Zero Hora.
“Nossa subjetividade é fundamentalmente uma história, a história que nós contamos a nós mesmos, a história da nossa vida, digamos assim, e a história que contamos aos outros como sendo a nossa, eventualmente a que os outros nos contam como sendo a nossa e que no fundo é uma história só. E uma história que é construída de maneira sempre dinâmica. (…) É a vida como criação de uma narrativa e, portanto, regrada muito mais por uma necessidade estética do que ética.”
Bom, começa que eu acho linda essa noção da vida como uma história, não pelo aspecto poético, mas pelo aspecto prático de liberdade que esse conceito oferece. Nós somos educados a enxergar o universo dentro de termos objetivos e a reboque vão juntos todas nossas subjetividades. Pra deixar mais claro: vivemos como se existissem fatos concretos acontecendo em uma sequência temporal lógica e que tudo aquilo que cerca essa construção objetiva (nossas percepções, sensações, conceitos mentais, nossas memórias, etc) são uma mera narrativa da trajetória objetiva. E isso é tão pouco, é olhar a vida de forma tão afunilada, fecha muitas portas, tolhe a nossa liberdade de nos reconstruírmos.
A idéia atual é que somos fundamentalmente uma história que vamos compondo a partir do que acontece, mas também a partir das várias histórias com as quais cruzamos ao longo da nossa vida - as contadas por outros, as que lemos ou às quais assistimos e que constituem um imenso patrimônio das histórias possíveis.
A crença na concretitude dos fatos externos leva à criação da necessidade de encontrar concretitude na história interna. E é aí que perdemos nossa maior liberdade, ficando preso nas nossas identidades. O bonito no que o Contardo Calligaris frisa não é podermos nos narrarmos, mas sim lembrar que essas narrativas não estão - e nunca estarão completas. Elas são mais parecidas com um perfil de Orkut do que com um livro: são editadas constantemente à medida em que vamos nos relacionando com outras pessoas e entrecruzando nossos caminhos.
Somos essa história em progresso, uma maneira de traduzir a expressão “in the making”, algo que vai se fazendo. E isso é um traço dito “específico da modernidade”, o que é verdade apenas para os últimos 250 anos, e mesmo assim na cultura ocidental.
Hoje, se quisermos falar de um novo léxico das narrativas internas, vamos obrigatoriamente ter que passar pelas conversas de MSN, pelos SMS, pelos perfis do Orkut e pelos Fotolog. A cada novo scrap, a cada nova edição do perfil, a cada novo diálogo no MSN, vamos transformando nossos “fatos” em “narrativas”. Nesse processo, as peculiaridades de cada ferramenta desempenham um papel fundamental, moldando a forma como nos relacionamos não só com outras pessoas mas especialmente com a nossa própria narrativa interna.
Por exemplo, eu acho fascinante que a forma como os Orkuts, Fotologs e Facebooks da vida estão organizados nos fazem mudar o jeito como pensamos sobre nós mesmos. Preecher um profile, determinar níveis de privacidade, selecionar o que vai e o que não vai para os álbuns de foto, agregar aplicativos, escolher de que forma você vai usar a página de recados são todos diálogos internos que moldam não apenas o perfil que os outros vão ver mas também a forma como cada um de nós se vê. Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que grande parte das fotos digitais tiradas por aí hoje têm seu ângulo e seu conteúdo determinado pelo destino final de upload. E não vejo isso como problema. É um traço da cultura contemporânea.
Os perfis de redes sociais (ou qualquer outro tipo de banco de dados que gerenciamos, como a agenda do celular) estão lentamente transferindo sua arquitetura daquele software para o nosso software - a mente. Estamos internalizando esse tipo de pensamento, tornando-as a nossa forma coletiva de organização de dados.
O ponto aqui não é entrar numa paranóia orwelliana a respeito do Google e afins. Eu não estou nem aí pra isso. O ponto é a liberdade perante as nossas identidades. Seja emulando a estrutura dos folhetins, seja o editar repetido de perfis, o upload regular de fotos, os diálogos constantes no MSN ou as mensagens de SMS, o fato é que a nossa identidade e a nossa história não são estruturas fixas, o que oferece um amplo campo de possibilidades no que diz respeito a viver melhor.
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Imagens: Heather Horton.


Brincadeira do site Brand Singularities, via Dorje.
Dei uma testada nesse Cuil. Não veio nada do que eu precisava… e achei confusa a interface. O Google ainda tem a qualidade da simplicidade, uma listinha, é tudo que se precisa no momento. Pode até ser que um dia eu morda minha língua e a interface do Cuil pegue… mas hoje ele ainda faz algo que o mundo não precisa: muita informação em pouco espaço.
Mas os caras são espertos. Espalharam essa de “Cuil melhor que o Google” e os blogueiros como eu caem nessa divulgando a ferramenta. Não é o caso se é melhor ou não, mas ganharam sua divulgaçãozinha… veja você…

Mais uma bola dentro da Wired: depois de traduzir a lógica do comércio digital com a teoria de Long Tail e consolidar o jeito DDA como estamos consumido informação e entretenimento com o rótulo Snack Culture, agora é a vez da cultura da distribuição gratuita ser digerida e cuspida de volta sob a forma de um agradável viés pop.
Free é o artigo da última Wired que vai dar origem ao próximo livro de Chris Anderson, editor-em-chefe da revista e autor também da história toda do Long Tail. Ao lado do Malcom Gladwell, talvez o Anderson venha se firmando como um dos nomes mais interessantes do mundo do marketing e da comunicação ao fazer a ponte entre ciências exatas (e seu mundo de tabelas e dados) e a cultura pop (com seus rótulos amigáveis e de fácil compreensão). O desafio de unir conceitos econômicos com códigos de conduta contemporâneos utilizando exemplos e uma linguagem acessível pode ser meio comparado à boa música pop: em três minutos é possível divertir e prender a atenção com ganchos ao mesmo tempo em que se traz consistência, compreensão e um pouco de alimento para o coração. Se uma música faz isso abrindo vias sentimentais por meio de ritmo e melodia, esses artigos e livros abrem certas caixas de pandora atuais, tentando explicar como está funcionando um mundo que, me perdoem o clichê, muda com tamanha velocidade e profundidade. E isso é sempre útil.
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O exemplo do Google é inevitável: uma empresa que oferece todos os seus serviços de graça para os usuários. Todos. Serviços valiosos, como busca de dados, email, postagem de dados, programas baseados na web, analisadores de dados, blablablá. E quem paga a conta disso tudo? Os próprios usuários. Não com dinheiro, mas com o bem mais valioso e disputado do mundo atual: atenção.
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O parágrafo que, pra mim, resume a essência do artigo ressalta que “A palavra chave é externalidade, um conceito que diz que o dinheiro não é o único bem escasso no mundo. Primeiro, temos tempo e respeito em falta, dois fatores que sempre foram reconhecidos como valiosos, mas que só há pouco tempo pudemos medir. A economia da atenção e a economia da reputação são muito nebulosas para ganhar um departamento acadêmico, mas há algo de sólido em sua essência. Graças ao Google, hoje temos um jeito simples de converter reputação (PageRank) em atenção (tráfego) e esta em dinheiro (AdWords). Qualquer coisa que você possa transformar em dinheiro é uma moeda em si e o Google se tornou o banco central da nova economia.”
Oferecer serviços e produtos de graça, portanto, nunca é de graça. Mas isso não quer dizer que você esteja pagando com dinheiro a barbada. A sua atenção, sua fidelidade e sua capacidade de falar bem de uma marca ou produto são muito mais valiosos que seus merrequentos reais na fatura do fim do mês. Porque com a sua atenção, se eu fizer tudo direitinho, eu posso manter sua fidelidade. Com a sua fidelidade, você vai não apenas gastar mais comigo como também vai sugerir que outras pessoas invistam sua atenção em mim - pois está valendo a pena. O ciclo viral se inicia.
Se as empresas sabem como fazer isso decentemente, são outros quinhentos.
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Só um exemplo pra mostrar como funciona a economia da atenção. Vamos pegar a revista da Gol Linhas Aéreas. Uma revista com um conteúdo bem razoável que você leva de graça pra casa, se quiser. Ou lê tudo no avião, sei lá. O fato é que a revista é uma espécie de comercial da empresa. Um comercial com conteúdo, com entretenimento, com informação. Mas um comercial. Se você demora 40 minutos com a revista, eles estão oferecendo algumas matérias e fotos em troca de 40 minutos da sua vida, pra você passar com a marca deles, com um conteúdo curado a partir do conteúdo de marca da Gol.
Entendeu?
Continua na segunda-feira.
Bom finde.
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