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Arquivo: Harry Potter

Galgando a hierarquia

O comercial acima (que eu peguei no Matias) é mais um exemplo daquilo que conversamos aqui e aqui a respeito da saga do Harry Potter (também pesquei uma evidência aqui). Um comercial desses sendo criado, aprovado e veiculado é fruto do envelhecimento de toda uma geração, que agora tem alguns representantes em posição de poder (no mínimo, aqui, no marketing da indústria automobilística e, claro, em agências de propaganda). No futuro, Star Wars certamente será esquecido e conviveremos com esquetes desse tipo relacionados a novos personagens, sendo Harry Potter o mais provável e em seguida, quem sabe?

Ah: não sei se você tem notado, mas Senhor dos Anéis também teve um poder de gerar memes no mainstream. Agora me deu preguiça de procurar no YouTube, mas tenho visto o bordão “my precious” em diversos seriados, inclusive alguns programas de TV aberta…

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Lembrando: não é a primeira vez que a VW fuça no baú de Star Wars. No ano passado rolou o premiado e comentado comercial The Force também.

Nerd power…

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Começou

Em 2009, escrevi um post ressaltando um texto do jornalista Chuck Klosterman sobre Harry Potter. A tese do Klosterman era lógica e bem bacana: assim como quem não assistiu Jornada nas Estrelas e Guerra nas Estrelas perde uma parte das piadas dos seriados e filmes atuais, quem não acompanhou minimamente a série do Harry Potter vai encontrar buracos nas narrativas pop dos próximos 20 anos.

Pois bem, a imagem acima (que, acredito, não deve impactar todo mundo) é o sinal de que isso já começou.

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#será?

Uma das grandes contribuições da série Harry Potter (que acompanhei nos filmes) à cultura pop é justamente um certo compromisso com a realidade, com o cotidiano, com os problemas mundanos. Sim, você leu direito: a série que botou a magia na pauta mundial também retorceu o próprio conceito de magia, associado, por anos, ao universo Disney, a um certo escapismo americano clássico. No universo Potter, a magia não é escapista, mas quase um catalisador para se lidar com questões de base: amor, amizade, abandono, traição, paternidade & maternidade, educação, valores humanos e, claro, a morte, o fim, a impermanência, sublinhados no slogan de encerramento. Faz todo sentido do mundo que a série TERMINE, porque, enfim, como somos lembrados repetidamente ao longo de toda a saga… tudo é uma fase, tudo termina.

A única coisa que talvez seja questionável no slogan “tudo termina” é o futuro da série como produto cultural. Pensando em quanto a indústria do entretenimento espreme suas franquias ao máximo, pensando na paixão dos fãs, pensando no atual estado (avançado) de produção de conteúdo por aficionados (e sua participação no hoje célebre conceito de transmedia storytelling), lembrando que o George Lucas abriu precedentes perigosos com a retomada do Star Wars alguns anos atrás… é de se perguntar se tudo vai terminar mesmo…. se alguém tem realmente controle pra dizer quando Harry Potter vai ou se vai mesmo “terminar”.

Veremos.

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Aproveito a oportunidade pra ser oportunista e resgatar os posts Harry Potter Vai Chutar a Sua Bunda e Harry Potter Não Vai Chutar a Sua Bunda. Obrigado.

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French Milk – Lucy Knisley

Nos últimos anos, algum bichinho me mordeu e tenho preferido muito mais ler não-ficção do que ficção. Biografias e diários de viagem, em especial, tem me chamado a atenção e não vou aborrecer vocês com possíveis detalhes psicanalíticos sobre os motivos que me levaram a gestar essa nova preferência.

Mais especificamente, diários de viagem em quadrinhos passaram a ocupar mais espaço na minha biblioteca e a razão é muito simples: embora escritores, em geral, tenham um olhar rico para relatos estrangeiros, quando eles são produzidos por cartunistas, esse olhar é de fato um olhar (com os olhos!) Mais do que isso, é quase um processo de transferência,  uma relação interativa porque como leitores a gente compartilha não só as impressões verbais mas também um pouco do universo visual visitado, mediado pela sensibilidade plástica e pelo traço particular de quem desenha. Ou seja, a gente viaja um pouco mais no relato de viagem ilustrado.

Enfim, foi por isso (e impulsionado pela capa adorável) que acabei comprando French Milk, da Lucy Knisley (tem pro Kindle!). O livro é o relato do período de um mês que a cartunista americana passou com sua mãe em Paris na dobra da adolescência para os primeiros passos do mundo adulto. É durante French Milk, flanando por Paris, que Lucy começa a ter pequenos lampejos das dúvidas práticas e existenciais que vão permear sua década pós-faculdade. E embora sem muita profundidade, o traço simpático beirando o clássico (lembra um pouco Craig Thompson e Will Eisner, bem como antigos cartunistas americanos) e a boa noção de Lucy ao selecionar recortes de sua estadia sem necessariamente montar uma narrativa com focos dramáticos (de dramatização, não de dramalhão) – essa equação que acabou me ganhando.

Nesse sentido, ler French Milk é bem diferente de ler os relatos de Guy Deslile ou Conejo de Viaje do Liniers (cartunistas em diferente estágio de maturidade artística e pessoal). Também não dá pra colocar Lucy na mesma área de gente com densos ares autobiográficos como o Dash Shaw e a Alison Bechdel. Mas essa despretensão não chega a diminuir o prazer de folhear a crise de 1/4 de idade de Lucy. Ainda mais uma crise que come croissant e visita o túmulo do Oscar Wilde. Se não é chique no último, deve ser pelo menos no antepenúltimo. E já tá de bom tamanho.

Bom, disto isto, não deixe de dar uma olhada no blog da Lucy, onde você também vai encontrar mais uma história confessional sobre a separação com o namorado (que aparece em French Milk). São 20 páginas com uma série de pequenos insights bacanas sobre a participação de objetos pessoais em separações e que poderiam muito bem render um disco emo caso fossem mal lapidados – e não são. Salvaged Parts está pra download em PDF (dá pra carregar no Kindle também e fica bem decente) por míseros dois dólares.Eu baixei e vale os R$ 3,50.

Além do mais, o blog é recheado com ilustrações doces e divertidas como essa:

Ou então, o trabalho que ela teve de compactar um filme inteiro do Harry Potter em um único poster:

Alô, Zarabatana Books! Ficadica!

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Não, Harry Potter não vai chutar a sua bunda

(Continuação desse post.)

Harry Potter não vai chutar a sua bunda porque, e isso é uma suposição ainda, ele não tem nada contra você. O problema do Harry Potter, até onde entendi, é com aquele de quem não se diz o nome. Mais curiosamente, Harry Potter não vai chutar a bunda do pai dele ou da sociedade, porque ele não tem grandes problemas com o pai ou com mais ninguém. Talvez os tios, mas ele tira de letra. O problema de convivência com os tios e o primo é facilmente sublimado com pequenas transgressões mágicas, nada de muito pesado. Não é necessário. Harry Potter não vai chutar sua bunda porque não é preciso. A grande questão da série Harry Potter é lutar com os próprios demônios com o suporte da amizade (esse é um dos grandes temas da série, não é mesmo?). De alguma forma que não sei explicar, isso me parece bastante mais leve do que a temporada de Luke Skywalker em Dagobah. Perto de Harry, Luke é muito mais birrento. A geração Harry Potter pode ser mais mal acostumada com certos confortos, mas me parece menos birrenta. Atenção: não estou falando das pessoas ou de casos individuais. Estou falando da cultura pop como um todo. A cultura dos anos 00 é mais blasé, menos birrenta, mais inclusiva. Não é?

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É incrível que a obra musical que serviu de porta-voz para uma revolução latente no início dos anos 90 se chame Nevermind. Tradução livre: deixa quieto. Deixa pra lá. Dá nada. Entende a ironia? Nevermind não deixou nada quieto. Foi o catalisador de um movimento que vinha se ensaiando durante todos os anos 80, naquele tradicional movimento de contração e expansão da cultura pop, no qual a onda vigente é sempre uma negação radical da anterior. Nevermind! Não dá nada. E deu tudo. A geração chamada de slacker, preguiçosa, sub-empregada apesar de over-educada, sem querer acabou mexendo com tudo. Nunca a preguiça foi tão ativa e presente. Nunca a largação foi tão eloquente. Nem mesmo no punk: ali havia raiva, havia uma energia clara sendo exposta. Com todo aquele papo de grunge, foi a letargia que virou vetor de transformação. Quem diria! Não lembro de alguém ter sublinhado essa ironia tão clara. Eles vieram, disseram Nevermind, mas todo mundo “mind”. E deu no que deu.

Os anos 90 acabaram sendo a última década em que era preciso escolher um lado. As cansativas discussões em listas sobre o mundo “corporativo” e o “mundo indie”. O Cobain aparecendo na capa da Spin com uma camiseta dizendo “Corporative rock magazines suck”. A questão das bandas que assinavam ou não assinavam com majors. Filmes independentes contra filmes de grandes estúdios. Todas as dicotomias, ao longo dos anos 00, se tornaram anacrônicas.

A partir de 2001 tudo ficou mais bagunçado. É um ano emblemático nesse sentido. Obrigado por avisar, Kubrick & Clarke! 2001, afinal, foi o ano em que:

- a Apple lançou o iPod, inaugurando uma era em que as coleções de música abrigavam sem constrangimento Strokes, Ivete Sangalo, Chico Buarque e Rick e Renner lado a lado.
- os Strokes lançaram o EP com Modern Age/Last Nite/Barely Legal, botando os indies pra dançar nas pistas novamente e não apenas se balançar com músicas sem ritmo ou pular ao som de funk metal.
- caiu na roda A Stroke of Genius, o mashup de Christina Aguillera com Strokes do Freelance Hellraiser, fato auto-explicativo
- saiu As Heard on Radio Soulwax, album do 2ManyDjs que regurgitava em um único set 45 músicas de diferentes frentes do pop, dando a cara esquizofrênica das pistas da década que começava.
- Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro filme da série, foi lançado nos cinemas (se não me engano desbancando no Brasil um recorde do Rambo III), atingindo um público que os livros não atingiam.
- as Torres Gêmeas e a noção de que os Estados Unidos eram uma ilha no mundo caíram.

(No Brasil, não me lembro bem de cabeça. Mas também foi uma época de queda de barreiras. Acho que foi nessa época que os festivais fora do eixo Rio/SP começaram a se fortalecer. Foi uma época em que viajamos bastante com a banda, vários produtores independentes começaram a trazer bandas menores pro Brasil com shows em cidades inusitadas. Mudhoney no Brasil foi em 2001. Jon Spencer, Luna, Cat Power, Nebula (pra quem abrimos quatro ou cinco shows) também. Os sorocabanos do Wry foram pra Londres em 2001. O Festival Calango, que botou Cuiabá no mapa, começou em 2001. Acho que foi por esse ano que bandas como MQN, Forgotten Boys e Autoramas começaram a ter uma base de fãs mais respeitável. E por aí vai.

Mas a questão aqui é a seguinte. Olhe para os exemplos citados na lista acima. Todos eles têm a marca da inclusão e não da exclusão. O punk, o new wave e o grunge traziam a marca da exclusão. O punk brigava com o “sistema”, a new wave com a simplicidade, o grunge com o sistema de novo. Os anos 2001 não vieram pra brigar com ninguém. Sua arma foi a inclusão. Tá todo mundo no mesmo barco. Strokes com Cristina Aguillera, guitarras com pista de dança, 45 músicas onde Emerson Lake and Palmer convivem com Basement Jaxx, um aparelho que permite carregar toda sua biblioteca musical junta, um filme no qual um garoto com poderes mágicos transita entre o mundo da magia e o mundo dos trouxas, festivais e bandas relevantes em locais tradicionalmente excluídos do circuito cultural brasileiro.

Harry Potter não vai chutar a sua bunda porque uma antiga batalha acabou. O sarcasmo, a combatividade e a desilusão dos anos 90 hoje são mainstream. Não são mais tão relevantes, não fazem mais cosquinha. Depois de dez anos aprendendo a misturar e incluir, vamos cozinhar nos próximos dois anos novos conceitos e novos sabores que vão dar o tom da década vindoura. Eu não sei bem quais são eles, mas sabe o que mais? Deixa quieto…

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Harry Potter vai chutar a sua bunda

Há um tempão li um artigo muito legal na Esquire a respeito da importância do Harry Potter para a cultura pop contemporânea. O ponto do jornalista Chuck Klosterman era muito simples: se você não está acompanhando a série agora em algum nível, prepare-se para ser excluído: você vai perder o fio da meada da maior parte dos produtos da cultura pop dos próximos trinta anos.

Como isso? Bem, acompanhe o gráfico. Se você tem aí entre 25 e 35 anos, com certeza teve algum nível de contato com a série Guerra nas Estrelas ou Os Trapalhões. Da mesma forma, deve ter amigos que não absorveram essas referências e hoje têm dificuldades em serem engajados por determinadas músicas, programas de televisão, filmes ou seriados produzidos hoje. Tenho um amigo que passou batido pelos Trapalhões por morar nos Estados Unidos e o melhor do Hermes e Renato não faz nem coceirinha nele.

Estamos falando aqui de Unidades Básicas de Cultura Pop. Guerra nas Estrelas e Trapalhões são Unidades Básicas de Cultura Pop, átomos fundamentais que serviram de espinha dorsal para uma série de estruturas nas décadas subsequentes. A disco music e o Monthy Pyton são outros exemplos clássicos. Sem o Monty Phyton, não existiria TODA a publicidade contemporânea, especialmente a produzida entre 95 e 2005. Sem a disco music, não teríamos uma cinzenta área sexual que permite a homens chegarem perto do limiar da homossexualidade sem se comprometer demais, mas isso é outro assunto. Também tenho vontade de expandir esse tópico para os filmes do trio Zucker, Abrahams and Zucker como Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu e a obra prima Top Secret, mas isso também rende um blog inteiro…

De volta ao cerne da questã.

A princípio, parecemos estar falando a respeito de um universo bastante restrito formado pelo entretenimento masculino jovem de classe média ocidental. Mas isso é o suficiente para causar uma fissão nuclear. Piadas internas de Star Wars não ficaram presas à órbita desses imberbes. Elas ganharam o mundo, chegaram a paródias de Bollywood e letras de funk carioca. Isso acontece porque os representantes mais intensos dessa cultura, à medida que crescem, passam de fãs a pessoas extremamente bem posicionadas na indústria cultural, chegando ao posto de produtores de cultura pop mainstream. Eu vi isso acontecer com meus próprios olhos. Eu participei de uma lista de emails em 1995 com pessoas que hoje ocupam postos chave da cultura pop (em diferentes níveis, ok). As “bobagens” discutidas naquela lista hoje pautam investimentos substanciais de alguns players relevantes nessa área – inclusive em nível gringo.

Resumindo: quem vai escrever, produzir, dirigir e criticar os seriados, as músicas, os filmes e os games das próximas décadas passou as últimas se embebendo da cultura da magia, especialmente em Harry Potter mas também através da trilogia Senhor dos Anéis, pra não falar de todo o caldo esotérico-tecnológico de Matrix. Se você, como eu e o Chuck Kloterman, não tem uma afinidade muito grande com o mundo das varinhas mágicas, dos elfos, das vassouras que voam, você está FORA. Para quem trabalha com comunicação, isso pode ser impeditivo.

Existem três saídas clássicas pra esse problema que me ocorrem no momento. A primeira é ler os livros da série Harry Potter, um investimento de tempo e paciência talvez muito grande pra quem, como eu, não tem pendor pelo universo de magia. O segundo é ver os filmes, embora você corra o risco de pegar uma fatia mais superficial daquele universo. E o terceiro é o que acabou me beneficiando: conviver com crianças. Minha enteada de 8 anos não é propriamente maluca por Harry Potter, mas tem os filmes e os vê com uma certa regularidade. Ela é minha esperança. Meu salvo-conduto. Meu visto americano. Minha memória expandida em termos de Unidade Básica de Cultura Pop.

(continua semana que vem)

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