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Arquivo: IChing

Os limites da cultura digital

Essa imagem aí de cima é o hexagrama de número 60 do I Ching*. Chama-se Chieh. Limitação. Richard Wilhelm, tradutor e sinólogo alemão do início do século passado, cujo trabalho com o IChing é respeitado e utilizado como referência até hoje, não apenas traduziu mas explorou o conciso significado desse hexagrama em parágrafos como este:

“Possibilidades ilimitadas não são próprias do homem. Caso fossem disponíveis, levariam a vida humana a dissolver-se na indeterminação. Para que o homem se fortaleça, sua vida necessita de limites impostos pelo dever e aceitos voluntariamente. A pesoa humana só adquire relevância enquanto espírito livre quando se impõe limites e determina de forma espontânea o seu dever.

(…)

Limitações são também indispensáveis para a ordenação das circunstâncias do mundo. A natureza tem limites fixos para o verão e o inverno, para o dia e a noite, e são esses limites que dão sentido ao ano.”

Faz parte da natureza humana aprender a lidar com limites. A atual cultura digital, entretanto, está apresentando novos desafios no que diz respeito a estabelecer, burlar e equilibrar a relação com limitações. A cada dia, cerca de meio milhão de pessoas acessam a internet pela primeira vez. A cada minuto 13 horas de vídeo são disponibilizadas no YouTube. A cultura digital é uma locomotiva. Descendo a ladeira. Com um maquinista louco tocando-lhe lenha na fogueira e pedindo a todos que saiam da frente.

Traduzindo a metáfora, quero dizer que está se configurando um cenário no qual em breve muitos (ou todos) terão acesso a uma abundância virtual que não teve, não tem e nunca terá paralelo no meio físico. Muitos de nós, habitantes do planeta Terra, nunca teremos tanto dinheiro, tantos carros, tanta roupa e tantos imóveis quanto uma elite economicamente privilegiada. Mas todos logo poderemos ter, gradativamente, tantos livros, tantos vídeos, tanta música, tantos jornais e tantas revistas quanto quisermos, devido à digitalização da produção, distribuição e consumo da informação. Desse ponto de vista, estamos claramente adentrando no que alguns especialistas (e outros metidos) chamam de era da abundância. Urrú.

Por outro lado, todo sistema com abundância de um elemento leva a escassez de outro. No caso, a abundância de informação leva a escassez de atenção. Temos uma vasta oferta e uma fome interminável, porém uma capacidade cada vez mais limitada de prestar atenção e investir tempo no consumo de todo esse manancial que nos está sendo ofertado. Estamos à frente de um banquete, beliscando rapidamente um pedacinho de tudo que nos põem na frente, maravilhados com a variedade e quantidade de sabores, mas perigando perder lentamente a noção de desfrute.

Até pouco tempo atrás, a palavra consumismo era associada a um comportamento compulsivo de compra. Entretanto, é hora de alargar essa convenção e começar a incluir também o que é absorvido ou adquirido sem pagar nada. Todas as páginas de internet. Seus vídeos. Os arquivos de MP3. As imagens. Quais são as reais diferenças entre um closet abarrotado de vestidos caros que pouco serão usados e HD’s inteiros de seriados, filmes e música que, da mesma forma, precisariam de algumas centenas de anos para serem desfrutados e não apenas consumidos rapidamente?

A tendência de clouding não melhora em nada o prognóstico. Se efetivamente não precisarmos mais guardar nada em nossos HD’s, andaremos por aí como proprietários mentais de uma quantidade absurda de informação. Como crianças mimadas, o mundo será nosso e o acessaremos quando e como quisermos. Isso é excitante ou preocupante? Você já viu no que se transforma uma criança cujos pais dão tudo o que ela quer, na hora em que ela quer e na quantidade que ela quer? Agora imagine sociedades inteiras educando-se assim.

Obviamente o ponto central da questão não é, em hipótese alguma, a digitalização, mas sim os botões que ela aperta em nós. Buscar o ser sem limites foi sempre, desde o início dos tempos, uma ocupação constante tanto em termos físicos como existenciais. Mas uma coisa é buscar o ser sem limites. Outra, bem diferente é o ter sem limites. Embora nos últimos 50 anos de sociedade do consumo, esses verbos tenham se confundido, em nada sua essência foi mudada. Ser e ter são aspectos tão diferentes que nem mesmo uma incrível conexão banda larga de alta velocidade pode, de fato, uni-los.

O caminho mais inteligente não passa, lógico, por interferir ou demonizar a velocidade da evolução digital. O caminho mais inteligente, como sempre, é prestar atenção. Apenas olhar e prestar atenção. Só isso já faz toda a diferença e transforma completamente qualquer experiência.

A atenção, a presença do corpo e da respiração junto à mente (que, vagando indefinidamente não traz satisfação, só mais necessidade), são a peça de resistência contra o novo consumismo que trocou o dinheiro pelo déficit de atenção como pilar central de sua existência.

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PS: O I Ching não é da Apple e não tem nada a ver com Ipod.

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