Toda segunda tem Autopista. Clica na imagem pra ver maior.
Toda segunda tem Autopista. Clica na imagem pra ver maior.
PS: eu refiz a tira do Jorge Ben da semana passada. Tava faltando texto, viajei…
“¿Que hay en una estrella? Nosotros mismos.
Todos los elementos de nuestro cuerpo y del planeta
Todos los elementos de nuestro cuerpo y del planeta
estuvieron en las entrañas de una estrella.
Somos polvo de estrellas.”
ERNESTO CARDENAL, “Cántico Cósmico”
Essa é a inspiração para a linda canção do Jorge Drexler, perfeita para um sábado de verão pela manhã. Ou para outro momento. Baixe a música e escolha o seu hoje mesmo!
Fleet Maull não é primo do Darth Maul. O cara, na verdade, parece mais um típico produto da contracultura americana dos anos 60. Adolescente, desafiou sua bem estruturada família se envolvendo com todos os tags do gênero: filosofia oriental, LSD, sexo livre, protestos antiguerra e por aí vai. A vida lôka de Maull o levou, em certa altura, até o Peru, onde abandonou a detonação em troca de um cotidiano pacífico lendo textos budistas e taoístas enquanto trabalhava em uma pequena fazenda junto do povo Quechua. Numa quebrada, entretanto, Fleet Maull pegou a contramão e começou a vender cocaína “inocentemente”, aqui e ali, de vez em quando, pra sustentar sua vida de vagabundo em busca da iluminação. Em 1974, ainda imerso na correria, leu na Rolling Stone um artigo sobre Naropa, a universidade budista do Colorado que teve como criador o tibetano Chogyan Trungpa Rinpoche e como professores alguns remanescentes da cena beatnik, sendo o mais conhecido o poeta Allen Ginsberg. Voltou na hora pros Estados Unidos com sua mulher peruana e o filho recém nascido. E se inscreveu em Naropa.
Mesmo estudando, praticando o budismo e em busca da sua graduação em psicoterapia contemplativa (que conquistou em 79), Maull não largou seu envolvimento pontual com o tráfico e uma hora acabou preso. A casa caiu e, pela primeira vez, seu professor, Chogyan Trungpa, e seus amigos da comunidade de praticantes budistas descobriram seu lado B. Ao se consultar com Trungpa Rinpoche sobre o que deveria fazer, se deveria fugir, o mestre foi categórico: disse que ele deveria encarar a situação de frente e que continuar suas práticas contemplativas encarcerado seria mais fácil do que em fuga. O aluno encarou, então, 14 anos de prisão nos quais aproveitou para chafurdar nos próprios demônios e transcendê-los através da meditação.
Embora palavras como “meditação” e “contemplação” levem a grande maioria das pessoas a pensar em algum tipo de letargia, inação, resignação ou ainda de um estado mental sublime, a prática em si é bem diferente. Na meditação, o praticante lida direta e cruamente com a agitação da sua mente, os pensamentos, os conceitos, os medos, as esperanças, enfim, o que é considerado o nascedouro de suas ações. Um dos predicados da meditação é eliminar as inúmeras distrações que criamos para evitarmos enxergar certos aspectos da nossa própria mente. Em um local tranqüilo e adequado, o contato nu com a essa massa turbulenta de pensamentos exige doses iguais e alternadas de firmeza e leveza. Em uma prisão, com seu cotidiano intenso, rude, amargo, o furo é bem mais embaixo.
Maull, contudo, não estava disposto a ceder e concentrou todas suas forças em familiarizar-se com o lado mais negro da sua mente e atravessá-lo com compaixão e amor em vez de multiplicar a mágoa e o ressentimento. Foi além e também não guardou suas descobertas para si, iniciando e conduzindo grupos de meditação dentro da prisão. De lá, também criou e administrou a Prison Dharma Network, uma rede de apoio a práticas contemplativas para presos.
Lendo uma entrevista de Maull à revista budista Trycicle, não pude deixar de pensar na matéria da última Rolling Stone a respeito dos eventos de violência espetacularizada na mídia brasileira em 2008. Nela, o jornalista investigativo Claudio Julio Tognolli esmiúça as implicações dos casos de Isabella Nardoni, Eloá Cristina e João Hélio conversando com médicos legistas, psicanalistas, familiares e um côro de vozes ligadas de alguma forma a cada situação. Todos batem na mesma tecla ao declarar como a humanidade nunca deixou de lidar com casos de violência juvenil desse calibre e que a teatralização, a exposição editada e intensa, é que é a grande novidade. A dita teatralização tem diversas implicações, mas duas delas são as mais tristes, a meu ver.
A primeira é retirar o impacto das mortes. Nunca vou me esquecer do escritor Guillermo Arriaga, ex-parceiro do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu e roteirista de filmes como Amores Brutos, Babel e 21 Gramas. Notório por colocar o espectador em tremendo desconforto devido à forma como inclui a morte em suas histórias, Arriaga esclareceu, em uma entrevista ao Programa Roda Vida, que deseja com isso resgatar o impacto da morte na ficção, de tanto que a sua estilização não só no cinema mas nos noticiários nos deixa anestesiados. Ao longo das últimas décadas, desenvolvemos a incrível capacidade de ver toneladas de pessoas serem metralhadas em filmes sem sentir um pingo de compaixão.
Nos noticiários de casos como os citados acima, obviamente há sempre uma sensação de tremendo desconforto e tristeza pela vítima e seus parentes. Mas o nó no estômago não vai além de um intervalo comercial e não se traduz em um significado mais profundo. Veja bem, não estou nem cobrando ação. Citando o finado diplomata José Guilherme Mequior, a matéria da Rolling Stone lembra que “as pessoas gostam da mídia porque ela em geral não produz significados, mas efeitos”. A geração de sensações em frente à TV ou à tela do cinema é sedutora porque não exige mais do que isso, um envolvimento sensorial, quase estomacal, com as equações resolvidas na hora por uma turbulenta combinação de hábitos mentais ligados à auto-proteção. Tudo é rapidamente classificado pela mente de forma a erigir muros e separações entre “eu” e a “dor”. Assim, a martirização pública não alavanca discussões, apenas emoções. E ainda ficamos reclamando de falta de ação sem nem ao menos notar que o passo anterior à ação, a reflexão, ainda não foi resolvido.
O que nos leva ao segundo aspecto perverso da teatralização: somos co-criadores da tragédia. Não ao deixar de agir, mas ao trocar a reflexão pela emoção viciante da “monstrificação”. Criar monstros não é trabalho exclusivo da mídia, mas conta com a participação ativa do espectador, que, ao “monstrificar” pessoas com comportamento ultraviolento, dão origem a poderosos personagens coletivos que traçam uma clara linha de separação: eu nunca faria isso que ele fez, logo, não sou um monstro.
Nesse processo, todos são desindividualisados, desfigurados. O criminoso é o “monstro”, a vítima e seus familiares são os “coitados”. Jornalistas, editores, câmeras, apresentadores, fotógrafos são “a mídia”. Policiais, delegados, investigadores, legistas são “a polícia”. Populares na porta da delegacia, espectadores em frente da TV, leitores de jornal são “as pessoas”. Dessa forma, o “monstro” deve ser eliminado, a “mídia” espetaculariza, a “polícia” não resolve os problemas e “as pessoas” são foda. As “vítimas”, sei lá. Elimnando-se o monstro, diminui-se a dor, quem sabe. Enfim. Desumanizamos automaticamente todo o sistema e nos retiramos dele arbitrariamente. Transformamos todos os seres envolvidos no caso em uma massa disforme de conceitos vagos. Assim fica fácil.
O que o caminho de Fleet Maull tem a ver com tudo isto? O ponto que liga os dois assuntos é a rejeição do teatro de forma clara, não se deixando levar pela indignação emotiva e inútil. Maull, ao que tudo indica, escolheu deliberadamente cortar o teatro e lidar diretamente com a negatividade da sua mente. Perseverou sistematicamente até descobrir a ponta do durex, de onde poderia puxar os aspectos mais claros do seu interior. E depois buscou uma forma de compartilhar essa liberdade que todos buscamos.
Como diz um clássico e profundo texto da filofosia budista, é difícil cobrir com couro um mundo inteiro cujo chão é feito de espinhos. Mas você pode cobrir seus pés com couro e não se machucar. Mais ainda, você pode compartilhar com outras pessoas a habilidade de procurar o courto, cortar e amarrá-lo nos pés. Não buscando cumprir o velho plano de um mundo sem espinhos, mas de oferecer a cada pessoa a liberdade de não se machucar.
***
PS:
1) as imagens desse post são de detentos ligados à Prison Dharma Network.
2) Tem mais uma entrevista transcrita com Fleet Maull (em inglês) aqui e uma em vídeo aqui.
Fui convidado pelo Secco (que ironia…) a fazer o seguinte pelas vítimas das chuvas (e das ocupações irregulares e da falta de fiscalização) em SC: depositar R$ 100,00 (vale qualquer quantia, mas estão sugerindo esta) para a Defesa Civil e convidar outros blogs pra participar da empreitada. É legal, porque não fica na mera linkagem de lamentos e fotos chocantes.
Ainda estou aguadando a respostas dos blogs que convidei (cada um tem seu jeito de doar), mas assim que obtiver as respostas, linko eles aqui. Feita a contribuição, cada um cola no blog o comprovante.
No Fotolog dos Walverdes tem uma relação do que é mais preciso em termos de doaçoes materiais.
Boa sorte a Santa Catarina.
Em agosto, o psicanalista, psicoterapeuta e ensaísata Contardo Calligaris esteve em Porto Alegre e escrevi um post a respeito de sua abordagem do viés narrativo e criativo das nossas subjetividades. Por trás do tema, uma busca pessoal de Calligaris: a reconstrução narrativa de sua relação com o pai, não inferida por mim, mas abertamente declarada em entrevistas.
Neste fim de semana, terminei de ler “O Conto do Amor“, primeiro romance do italiano radicado no Brasil dedicado a nos contar um pedaço decisivo da vida de Carlo Antonini. Carlo, como Contardo, é psicanalista, italiano, morador de Nova Iorque (Calligaris já o foi) e, no ponto da história em que chegamos, está envolvido com a resolução de enigmas pessoais a respeito de seu pai. O velho, em seus últimos dias de vida, oferece ao filho pistas que clareiam esses enigmas e Antonini não tem dúvida nenhuma: se joga no tabuleiro e mergulha nas narrativas pessoais de seu pai, partindo de seus diários, da sua paixão por arte renascentista e alcançando as áreas sombreadas que os afrescos produziram na vida em família (propositalmente ou não).
O livro é ótimo. Uma investigação psicanalítica (não estritamente, estou usandoa palavra no modo “popular”) com ritmo de thriller. Carlo passa as cerca de 120 páginas voando entre os Estados Unidos, a Itália e a França, trocando emails com uma especialista no pintor Sodoma, redesenhando a imagem do pai da forma como Calligaris acredita que os nós das relações devem ser desfeitos: na ação e não no papo. O Conto do Amor, portanto, é um livro de bastante ação, mesmo que sob a forma de conversa. As palavras do escritor e do protagonista não se resumem a refletir, mas parecem buscar a mobilização.
Como falei no post anterior, uma das coisas bonitas da visão de Contardo Calligaris é a possibilidade de liberdade que ela oferece. Ao longo do romance, noções como “verdade” e “realidade” são constantemente desafiadas. No caminho para montar o quebra-cabeças do passado obscuro do pai, Antonini precisa lidar com quadros escondidos ou roubados durante o facismo, mentiras usadas para proteger familiares de tendências suicidas, cópias de afrescos alterados, uma série de véus que são descortinados sabiamente sem mágoa, mas com a clareza de que cada pessoa não tem “uma” história pessoal, mas muitas. E além de variadas, elas são absolutmente maleáveis. É possível reescrevemos as narrativas das pessoas que amamos ou que nos amaram, porque somos ao mesmo tempo criatura e criador. O papel de criatura é óbvio e, ao tomar as cores de vítima, cômodo. O papel de criador, por sua vez, frequentemente é esquecido, pela carga de responsabilidade que traz junto. Isso é algo bastante pessoal, mas achei o livro inspirador no sentido de dividir essa visão com o leitor. Ela refresca, areja o coração.
Duas últimas anotações.
Uma: em uma entrevista por aí, vi que a idéia original do título é lembrar algo como “o conto do vigário”. Não sei bem se captei a piada ou se viajei demais, mas eu vejo como mais um elemento da reflexão em torno da noção de o que é real e o que não é real - ou se isso interessa.
Duas: em meu post de agosto, lembro dele mais uma vez, levantei as novas possibilidade de criação e recriação narrativa das nossas histórias que ferramentas como o MSN, Orkut e o email nos oferecem. É algo que em algum ponto dos próximos meses vou explorar aqui. Não sei quando e nem como. Mas vou.
Caso você se interesse, sugiro que espere lendo O Conto do Amor.
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Imagems: Heather Horton do Devian Art.
Há pouco, um post interessante no Estalo relacionou uma série de ações publicitárias que usa como tema a negação da publicidade, devido à saturação do modelo de interrupção. O resumo de tudo pode ser a ação da Doritos que oferece um software que troca todos os banners dos sites que você visita por conteúdos à sua escolha (como, por exemplo, as fotos do seu Flickr). Não deixe de ler o post do Estalo. E também o que escrevi há um tempo no post Quer Aparecer? Seja Invisível.
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O Estalo coloca a questão a partir da idéia de “compensação”, como se a publicidade estivesse começando a querer compensar seus excessos. Não tenho bem certeza se acredito nisso. A “não-publicidade”, na verdade, é parte de um alfabeto muito específico da linguagem contemporânea, forjado à base de contracultura dos anos 50/60, batido com o martelo do sonho hippie dos anos 70 e consagrado com o sarcasmo anti-comercial dos anos 90. A mistura chegou suficientemente malhada nos anos 00, totalmente incorporada ao discurso do dia-a-dia, tanto quanto os verbetes de ecologia. A ecologia é um bom ponto de comparação: pouca gente lembra o quanto já foi subversivo ser ecologista, mas hoje todo mundo fala de economia de água e separação do lixo. Felizmente, alguma atitude vem junto com o discurso em ambos os casos.
Campanhas como a da Doritos, acredito, ficam na larga linha cinza que separa a reflexão do oportunismo. Não sei determinar o ponto exato em que ela se encontra. Sempre acho válido qualquer iniciativa que provoque algum tipo de estranheza, um choque de percepção. Mas, ao mesmo tempo, é preciso questionar fortemente as motivações que estão por trás disso. Não acredito que Doritos seja uma marca com grandes aspirações humanas. Então, se for pra dar o benefício da dúvida e não tachar diretamente o projeto de uma grandessíssema esperteza conceitual, prefiro acreditar nas motivações pessoais de algum envolvido na história, que resolveu colocar na rua uma idéia realmente instigante. Essas pessoas existem e costumam sentir a necessidade de oferecer um algo a mais na comunicação comercial.
No dia em que uma marca continuar patrocinando um evento ou lutar por uma visão interessante independente das vendas ou da sua imagem (por quanto tempo a Dove segura o escorregadio conceito da real beleza?), simplesmente porque aquilo é precisa ser feito, aí sim vamos estar falando de não-publicidade. Por enquanto, até que provem o contrário, publicidade é publicidade, mesmo quando combate a publicidade.
A maior parte das vezes que visitamos fotografias antigas, não conseguimos escapar da idéia de que estamos, ali nas fotos, vestidos de um jeito ridículo. Pra não falar dos cortes de cabelo, das poses ou dos sorrisos inocentes totalmente ignorantes à passagem do tempo. O que nos escapa constantemente é que nesse exato momento, hoje, estamos vivendo as fotografias ridículas do inevitável futuro.
O tempo todo estamos sendo hoje o ridículo de amanhã.
Ok, sempre vai ter, entre as memórias registradas, uma fatia cujo gosto estético coincide com o atual (cada vez mais), mas a verdade é que o grosso das lembranças é constituído de visões inapelavelmente hilárias, ainda mais se vocês vissem a roupa que estou vestindo nessa manhã de sábado chuvosa nessa primavera esquisita de Porto Alegre.
O prmeiro capítulo de Convergence Culture começa a dar uma idéia melhor do terreno em que estamos pisando. Jenkins é um fã confesso de cultura pop e assim que se livra da necessidade de estabelecer fundamentos para suas teses, muda o tom da escrita e conta o case de spoling do Survivor quase como uma aventura.
O reality show americano viveu em sua comunidade de fãs mais ferrenhos um dos mais interessantes fenômenos da cultura digital quando um membro de boards de discussão online virou celebridade ao mexer com as regras da comunidade “spoiler”.
O “spoling”, segundo Jenkins, surgiu de diferenças geográficas. Por uma questão de fuso horário, os telespectadores da Costa Leste americana assistiam aos seriados de grandes redes três horas antes do pessoal da Costa Oeste. Séries não vendidas a grandes redes mas a estações de TV individualmente (syndicated series) iam ao ar em dias diferentes da semana em diferentes mercados. Séries americanas eram exibidas com um atraso de seis meses ou mais em outros países. Uma vez que esse povo todo não se comunicava em tempo real, cada grupo tinha uma experiência direta com cada episódio. Mas no momento em que os fãs se encontraram na internet, todo esse esquema foi por água abaixo.
Foi aí que os telespectadores que viam episódios em primeira mão começaram a postar o conteúdo dos episódios online. Outros desavisados acabavam lendo esses posts, e tendo sua experiência estragada (spoiled). A saída (uma vez que nem todo mundo queria estragar a diversão dos outros) é que esses posts com conteúdo de episódios futuros avisassem isso de antemão, trazendo a palavra SPOILER no título. Nascia aí uma nova subcultura. Um novo jogo que extendia a experiência do conteúdo na TV, que também transformava o prazer de ver uma trama se desenrolar em uma mistura de jogo de detetive com corrida armamentista.
Jenkins descreve os spoilers de Survivor como uma espécie de participantes hardcore da audiência, gente que formula teorias sobre o desenrolar da série a partir de investigações grupais envolvendo fotografias de satélite, garimpagem de informações com membros da produção, estudo quadro a quadro de cenas e por aí vai. Obviamente, a comunidade spoiler corresponde a uma fatia muito pequena da vultosa audiência do programa, mas sua força de influência é considerável. O produtor de Survivor precisou entrar em uma briga de gato e rato, semeando desinformação pra desfazer descobertas dos spoilers. E a grande mídia, assim que descobriu essa inesgotável fonte de assunto, passou a beber dela para alimentar os telespectadores mainstream com informações de primeira mão.
O thriller de Jenkins começa apresentando ChillOne, um membro anônimo de um dos discussion boards de Survivor que acidentalmente esbarrou na produção de uma das temporadas da série em um hotel no Amazonas. Circulando entre a equipe de Survivor, ChillOne se dedicou a postar uma série de dicas na comunidade online, “estragando” o serviço investigativo de outros participantes do board.
A comunidade, até então com regras e estratos sociais claros, teve seus funcionamento bagunçado. Havia gente feliz porque ChillOne quebrou a barreira que existia entre as castas de “spoilers insiders” e “spoilers espectadores”. E havia gente totalmente de cara porque ele estava revelando pistas sem oferecer o friozinho na barriga que a investigação coletiva permitia.
Jenkins usa a trajetória de ChillOne ao longo da temporada de Survivor: Amazon pra descobrir “como as comunidades reagem a uma mudança na forma convencional de processar e valorar o conhecimento. É nos momentos de crise, conflito e controvérsia que as comunidades são forçadas a articular os principios que as guiam.” E pede ajuda a Pierre Levy, um dos principais pensadores da rede, para levar o raciocínio adiante.
“O que não sabemos por nós mesmos podemos saber coletivamente” diz o intelectual francês. A necessidade de saber mais começou, através da web, a andar junto com a necessidade de associações voluntárias, temporárias e táticas. Esses três itens oferecem uma visão clara para qualquer pessoa que deseje saber como se portar no ambiente digital quando o assunto é extensão de conteúdo. ChillOne serviu de eixo para que a comunidade de spoilers de Survivor fizesse uma espécie de terapia, descobrindo que seus limites e seu funcionamento não respondiam mais às regras convencionais de relações sociais.
A mudança orgância trazida por ChillOne só corroboraram a idéias de que, em primeiro lugar, as aglutinações sempre se darão por vontade única e exclusiva dos recepctores da mensagem (que precisa ser seduzido com conteúdo interessante). Em segundo lugar, elas serão temporárias devido ao terceiro aspecto: o lado tático. Muitas comunidades surgem por necessidades objetivas e assim que essas necessidades são resolvidas, a comunidade se desfaz, migra ou, se permanecer existindo, muda completamente de composição. O modus operandi de ChillOne perverteu a organização prévia interna da comunidade bem como a sua relação com o mundo offline na interação com os produtores da série. Enfim, o cara mostrou que não havia um poder centralizado e absoluto, mas uma sofisticada inte-relação de forças. Quem não souber entendê-las, créu.
Ao investigar as motivações e funcionamento da inteligência coletiva dos spoiler, Jenkins parece delinar a nova forma de funcionamento da indústria do entretenimento. Nessa nova estrutura, uma pequena parcela da audiência se comporta de forma extremamente ativa, interagindo com o conteúdo e influenciando os produtores, obrigando-os a mexer em suas estratégias (e obviamente em orçamentos) para se adequar a essa realidade. Note que não estamos falando de uma desgastada utopia digital formada por uma audiência 100% participativa. O mito do consumidor pró-ativo esbarra na preguiça da maior parte da população, que prefere consumir passivamente (mesmo os spoilers são ativos em um âmbito mas provavelmente passivos em outro). No entanto, a pequena parcela que molda e produz novos conteúdos é influente a ponto de poder comprometer uma série de milhões de dólares de uma das maiores redes de TV dos Estados Unidos - e isso é algo novo (não pra mim e pra você, mas enfim…).
Dois outros mitos vão sendo corroídos linha após linha. O primeiro, achar que isso tudo é um problema para a indúsitra do entretenimento, quando é uma solução. O próximo capítulo, Buying Into American Idol, vai mostrar como uma outra série de TV se valeu da pró-atividade de seus fãs para incrementar a experiência do seu conteúdo.
E o outro mito será descontruído mais adiante: o de que esses novos paradigmas participativos se resringem à esfera do entretenimento. Segundo Jenkins (e eu concordo totalmente), mesmo sem sair dessa área, isso é uma nova forma de atuação política e social.
(continua, provavelmente na semana que vem, pq ainda tenho que ler o terceiro capítulo)
Bom, esse post não é EXATAMENTE sobre o livro do Henry Jenkins. Mas como eu ando meio ocupado pra fazer um post mais decente sobre o primeiro capítulo, resolvi levar vocês até o Crosstalent, que, no fim das contas, tem tudo a ver com as coisas que estão passando pela minha cabeça enquanto leio o Jenkins.
O Crosstalent é um encontro que rolou sexta à tarde, promovido pela Agadi (com grande envolvimento do Matias da Workroom e o Gustavo da Unisinos). O objetivo do negócio é reunir pessoas envolvidas com comunicação digital e tentar descobrir saída pra dilemas estratégicos ou operacionais comuns. Os temas e caminhos propostos são os mesmos de todo lugar que eu participei ou vi sendo discutido, seja salas de reuniões em São Paulo, mesas de bar em Porto Alegre, cafés em Londres ou palcos de seminários em Cannes.
O formato do Crosstalent é bem interessante. Você simplesmente junta um monte de gente envolvida com a “área digital” em um salão e coloca pra discutir em grupos de cinco pessoas questões (votadas previamente em um blog) como novo modelo de negócio pra atender clientes, papel da mobilidade, perfil das equipes de criação, etc.
Depois das discussões, absolutamente informais, mais pra papo de bar, um relator do grupo expõe as cinco conclusões do grupo. Depois de tudo exposto, rola o debate entre todos. Gostei muito do evento. Me trouxe algumas novas perspectivas e a certeza de que está todo mundo no mesmo barco sem solução mágica no bolso. No fim, ainda tivemos o Walter Iolli, diretor de criação da DDB Argentina, contanto o excelente case Palermo 180. O que deixou todo mundo de boca aberta porque era a materialização de tudo que tinha sido teorizado até então…
Bom, o blog do Crosstalent é esse aqui e aqui está o meu post, baseado na discussão e conclusões do meu grupo.
Triste coincidência: foi colocada em Foripa uma ghostbike pro Rodrigo Lucianetti. Ele foi um dos caras que alimentou musicalmente uma pá de gente (hoje distribuída em pontos influentes da indústria do entretenimento brasileiro e quiçá mundial) disponibilizando discos inteiros em mp3 quando não era tão fácil assim conseguir os arquivos. A foto da bike veio do Bianchini.
A morte do Lucianetti gerou alguns posts-tributo (comece pelo do Matias e siga as placas) que sublinham uma conexão bonita: poucos o conheceram pessoalmente mas muitos foram impactados de forma positiva pelos discos que ele disseminava de forma generosa. Eu fui um deles e espero que o cara siga pra próxima (seja qual for ela) em paz.
Estava vasculhando as lindas fotos do Takeda em NYC quando esbarrei nos comentários do Flickr dele, onde um pessoal explicou o que era essa bicicleta branca que o Tax havia fotografado. Trata-se de um memorial urbano dedicado à memória de um ciclista que morreu ali em um acidente. Em outras palavras, Ghostbikes.
De parecido por aqui, já vi nas estradas do Rio Grande do Sul cruzes de madeira enterradas ao lado da rodovia marcando o local de algum acidente, mas na cidade é raro. O que me lembro de ter visto - e achado muito interessante - são as borboletas da Fundação Thiago Gonzaga, que também marca locais de acidentes fatais.
O que me chama a atenção em tudo isso é que tanto as bicicletas quanto as borboletas (super interessantes pela simplicidade) são um tipo de apropriação espiritual do espaço urbano (artística já é mais comum), uma expressão perdida seja pela velocidade imposta às grandes metrópoles do primeiro mundo, seja pela violência e desestruturação no caso das metrópoles dos países emergentes.
***
Agora, a grande questão: vão colocar uma ghostbike pro Isaac Hayes em algum lugar?
Num mundo onde cada vez mais se tenta burlar a passagem do tempo, numa infrutífera busca de felicidade estável, as fotos da Marrie Bot tem o poder incrível de expôr com ternura a impermanência das células que compõem o nosso corpo.
A intimidade que surge nessa série de fotos pra mim não é só a intimidade dos casais em idade avançada (imagens que continuam banidas na sociedade atual, mas por pudores diferentes), mas a nossa esquecida intimidade com o fato de as coisas estarem em constante mudança e transformação rumo ao que já sabemos que vai acontecer, inevitavelmente, não interessa o quanto sejamos bons em moda, cirurgia plástica ou biotecnologia.
O grande defeito de fábrica do mau humor é que parece que ele vai durar pra sempre. Aliás, o grande defeito de fábrica do bom humor é o mesmo.
Né?

Se eu tivesse o desprendimento de resumir o Maximídia inteiro em uma palavra só, ela seria medo. Pois é. Não seria, infelizmente, ousadia, arrojo (arrojo?) ou abertura, mas medo. Era disso que era feito o ar encapsulado no centro de convenções do World Trade Center semana retrasada, quando gente de agências de publicidade, veículos e fornecedores de mídia se reuniram pra comer salgadinhos gratuitos, ganhar brindes, trocar tapinhas nas costas, conversar sobre os rumos dos investimentos e, olha só, até refletir um pouco (não muito) sobre o futuro da atividade no Brasil.
Pros não publicitários que lêem o blog, a área de mídia é tradicionalmente a que planeja e compra os espaços publicitários nos diferentes veículos. Por ter essa natureza, é uma área extremamente forte, pois hoje o grosso do faturamento das agência vem de comissões em cima da compra de espaço publicitário em tv, revista, internet, mídia externa e por aí vai.
É a área pra onde eu vim trabalhar no meio do ano, desde que deixei o posto de redator. Aqui na Escala, o nome foi trocado pra Conexões pra poder englobar as outras atividades que estão revolucionando a área em todos os lugares. Aqui a gente não só compra espaço, a gente investiga novos meios, planeja junto com o planejamento, cria junto com a criação, desenvolve projetos e expande os limites do que se vinha fazendo.
Mas por que o medo? Porque a maior parte dessas pessoas e empresas está sentada em uma montanha de dinheiro que, aparentemente, ameaça ruir. Não de todo e não logo, mas acho que se eu estivesse sentado em tamanha montanha de dinheiro, também estaria tomado pelo medo e exagerando nas previsões, evitando o novo. Essa é a grande vantagem de não estar sentado sobre uma montanha de dinheiro: você não tem grandes receios de perder o seu cercadinho.
Decepção > poucos foram os que abraçaram (nem que fosse por vaidade ou pra se fazer de moderno) o fato de que a publicidade como um todo está tendo suas estruturas corroídas. Saí no meio de um debate chamado “Novos Tempos e Novos Desafios – A Eficácia da Mídia em Mutação” depois que um participante falou: “Estamos vivendo um tsunami e em época de tsunami corremos pra nos proteger no morro. Nosso morro é a televisão, rádio, jornal e outdoor.” Tenha a santa paciência… me lembrei de uma senhora em um documentário (não vem ao caso qualé) dizendo que guardava um conselho da época da segunda guerra: “Quando você ouvir uma bomba caindo, não fuja dela. Corra em direção a ela, que ela tende a passar por cima de você”. Correr em direção à ameaça sempre me parece algo mais… interessante - ainda que apavorante.
Desespero > um cara da GM, Samuel Russel, dizendo que o posicionamento do novo carro da GM, o Prisma, saiu da boca de um cara da produtora de eventos ligada à GM. Explico: até então, esse tipo de trabalho era exclusividade da agência. Mas hoje o trabalho de comunicação está tão pulverizado que começa a aparecer neguinho de tudo quanto é lado pra trabalhar a marca. E a agência pode ter duas atitudes: se fechar e tentar defender seu cercadinho de uma revolução inevitável ou tentar aprender a trabalhar de forma colaborativa, quem sabe estudando os conceitos de compartilhamento, open source, essas coisas. Qual parece mais instigante a você? Você quer trabalhar numa agência lidando com o caos ou numa repartição pública batendo carimbo?
Surpresa > Alexandre Gama, dono da Neogama BBH, explicando como está fazendo NA PRÁTICA (na teoria é fácil) pra se inserir nesse novo momento. Dividiu o comando da agência com outros dois profissionais que não são da área de “publicidade tradicional” e anda instruindo suas duplas de criação a não pensarem peças, mas “idéias-prima” que resolvam o problema do cliente mesmo que não seja com um anúncio ou um comercial e que possa se desenvolver em qualquer plataforma. Bingo.
(continua)
“O que chamamos de inspiração tem muito a ver com conseguir estranhar a vida por um instante - não mais reconhecê-la e, apavorado, ter de lidar com isso. Escrevo porque a literatura é minha maneira de expressar esse estranhamento.”
“A categoria popular é muito pouco precisa em termos sociológicos e pressupõe uma homogeneidade que está longe de ser comprovada nos estudos existentes sobre camponeses, operários, camadas médias baixas ou outros segmentos e setores que pudessem ser incluídos nessa classificação. Da mesma forma, falar em elite pressupõe um monolitismo nas camadas mais altas da sociedade que poderia colocar na mesma categoria grandes proprietários rurais, alta burguesia, oficiais generais, setores da intelligentzia, administradores, etc. (…) A oposição elite X povo em termos de cultura é muito vaga e pouco precisa”.
“É o elemento Jack Bauer da história, ao que parece - o glamour visual é tão convincente que faz com que o espectador aceite a verdade do sujeito que faz o outro sofrer pra arrancar uma verdade - e isso parece normal e certo.”
foto daqui
“Um dia, quando um cantor chique fizer uma versão, todo mundo vai achar bacana… Mas é preciso tempo: o popular muito popular só se torna elogiável quando sua popularidade é coisa do passado, não é mesmo?”
“The way they relate to the outside world; observing it, analyzing it, dissecting it and then reconstructing and finally returning their spin on it is nothing short of unique.”
foto daqui
“Hoje (ontem) vi nos camelôs da 25 de março o DVD pirata de Tropa de Elite 2. Nao comprei, mas descobri que trata-se de um documentário sobre as favelas do Rio feito em 1999 - seria isso mesmo? Também já vi lá o DVD Procurando Nemo 2 (que a Disney nunca cogitou em lançar) e brinquedos Toy Story 3, cuja produçao nem começou e deve ser pra 2010! É muita criatividade!”
foto daqui
“Um clima de “começou a fase 2″ que aos poucos começa a contaminar o povo (Bonde e Cansei é só o começo). Vamo prestar atenção.“
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