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Arquivo: Indie

Ligue os pontos

É como diz aí em cima: simplesmente reuni os textos (que considerei) mais interessantes da discussão recente sobre cultura independente num só lugar. Não tem análise, no máximo um viés de escolha e um discurso que acaba se montando com os trechos que escolhi pra servirem de guia para cada link. A conclusão é de cada um.

Está aqui no tumblr Discurso Alternativo.

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Música e Mercado

Olhaí, matéria na Folha daquele lance que eu falei na semana restrasada.

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Mallu Magalhães em Porto Alegre

Eu ia dizer que tive a impressão de estar vivendo um momento especial. Mas me recuso: na verdade eu tenho certeza de que vivi um momento muito especial. Tudo ali parecia ter sido pinçado cuidadosamente para construir um cenário bastante específico e totalmente contemporâneo.

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A começar pelo lugar do show, o Porão do Beco, terceiro bem-sucedido empreendimento das “organizações Beco”. A casa que hoje traz o carimbo “Beco” atravessou quatro décadas como Encouraçado Butikin recebendo desde Roberto Carlos e Elizete Cardoso até a revolução disco. Hoje, é o lar simbólico (porque há outros) e factual (porque é o que ficou marcado) do underground portoalegrense. Há pelo menos 4 anos, nas suas sucessivas versões, o Beco vem funcionando (ao lado das extintas festas da antiga Funhouse e segundas no Jeckyll) como eixo do resgate do rock na cidade e da criação de novos pilares construídos por bandas como Superguidis, Pata de Elefante, Pública, Damn Laser Vampires e por aí vai. Sobre esses pilares, toda uma cena se criou, agregando ao palco uma pista de dança e os hoje célebres DJ’s de rock.

Apesar de fazer todo sentido do mundo que “a tal da Mallu Magalhães” fizesse sua estréia gaudéria no Porão do Beco, a sincronia com essa linhagem histórica que eu descrevi termina por aqui. E então começo a sublinhar os elementos de ruptura: um show às nove e meia da noite, com a galera praticamente sóbria e calma (tem se cheirado muito em Porto Alegre) e uma atmosfera leve, sem aquela espessa nuvem de fumaça e energia pesada que costuma tomar conta do ar lá pela uma e meia manhã – horário normal de entrada no palco da primeira banda.

De repente, depois de enfrentar uma fila de 400 metros em nosso primeiro sábado frio e chuvoso, a menina entra no palco. Menina mesmo. Quinze anos, metida num terno não muito apertado, mais para David Byrne do que para Strokes. Não é tímida, se comunica bastante com a platéia. Mas é duas. Quando começa a cantar, interpreta, se entrega, se mistura ao violão, às sequências de notas bem colocadas, às boas letras de psicodelia infantil (um pleonasmo?) em inglês e português, às referências bem pescadas (Beatles, Dylan, Johnny Cash). Nos intervalos, gagueja, pontua as frases com “né?” e “meu”, ri e conta histórias. Às vezes mistura as duas coisas.

Cada detalhe é sorvido por um Porão do Beco lotado de pessoas e de uma alegria sincera. “Mallu, casa comigo” grita uma menina. Sim, o cinismo está presente. Mas a naturalidade de Mallu vence o cinismo e pode-se notar isso no ar. Todo mundo presta atenção no show inteiro, se envolve com as brincadeiras infantis, entra no clima. Porque Mallu é a antítese do que se convencionou como o indie nacional. Ela é serelepe e saltitante, algo que combina mais com meninas de 15 anos do que com meninos de 27 anos (deixemos a Lovefoxxx fora disso). Ela foi na Globo e no programa do Lucio Ribeiro da mesma forma. Ela parece vir de outro planeta (a infância) sem se esforçar pra isso. Ela gosta de platéia (!!!!) mas conversa de igual pra igual e não com aquele surrado diálogo de estádio tipo “boa noooooite portooo alegreeeee” ou “estou muito feliz que vocês estão aqui, beijo no coração de vocês”, essas coisas.

Penso que se o show rolasse às 2 da madrugada com todo mundo bêbado, chapado e cheirado, a coisa seria bem diferente. Mas percebo que aí também reside parte do encanto. Mallu fez cerca de 600 indies saírem de casa mais cedo, beeeeem mais cedo, e participarem de uma experiência diferente das suas vidas.

Ok, ela não fez isso sozinha. Teve ajuda forte. Da internet. Do hype do momento disparado por blogueiros influentes. Da curiosidade em torno de sua história pitoresca. Bem como do estado atual das coisas, tendendo fortemente ao folk. Tudo bem. Fomos até lá também por causa disso. Mas ficamos, assistimos e degustamos o show porque o show é bom. Porque o repertório é bem montado, as músicas são bem interpretadas e a menina consegue o que muito marmanjo não tem condições (eu não tenho): segurar uma platéia só na voz e viola, com bom humor e coração aberto, sem maldade.

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A Mallu, então, é tudo isso? Não, é o contrário: tudo isso é que é a Mallu.

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Porto Alegre, um lugar qualquer

Adorei o novo clip da Pública, banda daqui cujo release escrevi ano retrasado. Originalmente, ele surgiu do convite da MTV pra bandas do Brasil todo fazerem vinhetas mostrando suas cidades. Das vinhetas derivou-se o vídeo, que tem como cenário uma série de postais de Porto Alegre vistos a partir do ônibus “double-decker” da Prefeitura que faz a Linha Turística. A maior parte da galera que está no passeio está ligada a alguma banda ou outra atividade independente na cidade. Ou seja, se o ônibus tivesse virado, perderíamos uma parte da tal “cena”.

Imagens legais à parte (sou suspeito, adoro essa cidade), o clima de camaradagem é amplificado pela linda canção, uma das minhas preferidas do Polaris.

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Tem gente nos comentários do YouTube fazendo a conexão Porto Alegre-Inglaterra. Inicialmente, parece um excessivo entusiasmo-anglófilo-juvenil, mas na real não é uma relação tão esquisita já que uma boa parte da nossa cultura urbana é muito influenciada pelo rock inglês. O clip da Pública apenas reflete uma forma de olhar bastante presente por aqui, goste-se ou não… Acho que escrevi uma vez em algum lugar que Pública consegue soar como uma mistura de Nei Lisboa com Stone Roses. E isso é um elogio.

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Juno

De começo, pensei em não escrever sobre o filme porque parecia que quase tudo tinha sido dito, especialmente as frases de efeito. A mais comum resume tudo: Juno foi o Pequena Miss Sunshine desse ano, a produção barata (para os padrões hollywoodianos) que conseguiu equilibrar consistência, coração e apelo pop; agrada a quem curte um cinema feito com mais cuidado mas também quem não tá nem aí pro que rola na tela – desde que divirta.

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Toda vez que surge um filme assim eu me pergunto que elementos são necessários pra que mais vezes isso ocorra, mas a verdade é que essas conjunções não têm como acontecer de forma mais freqüente. São muitas variáveis necessárias: um diretor que não confunda diversão com idiotice ou ironia com distribuição gratuita de ácido; um roteiro que apresente uma visão particular de questões universais mas que dialogue com um público amplo; referências estéticas que situem o filme no contexto pop atual mas que também ofereça snacks de novidades para os menos ligados.

Pequena Miss Sunshine teve tudo isso. Primeiro, a dupla de diretores/roteirista soube tratar de questões básicas familiares com um bom humor levemente ácido e muito coração. Segundo, foi capaz de cobrir tudo com pinceladas de ícones pop que apresentavam vários níveis de compreensão: um adolescente indie-quase-emo que lia filosofia, um pai de família ligado à indústria da auto-ajuda, um acadêmico de literatura suicida e um carro que mesmo meio fora de uso vem servindo de simbologia para campanhas publicitárias e marcas de roupa (a kombi).

Até o Melvins é citado em Juno

Juno vem embalado da mesma forma, só que já atualizado.

Por exemplo, a onda de música folk que tomou conta dos fãs indie de música no mundo nos últimos anos começa lentamente a colocar a cara no mainstream: ela está não só na trilha de Juno, como no Altas Horas da Globo com uma estrela pop mirim em formação, no comercial do MacAir e por aí vai.

A ironia, que nos anos 90 vinha como força destrutiva, em Juno também é quase que um personagem simpático, servindo de apoio à personagem principal. É através de uma fina e elaborada ironia que ela lida com seus cabeludos problemas e isso me soa como outro traço geracional. Segundo a própria Hellen Page (a Juno) muitos críticos não acreditavam que existem adolescentes assim, mas qualquer um que conviva um pouco mais com adolescentes sabe o que anos e anos de seriados americanos fizeram no DNA do mundo.

Um terceiro aspecto de contemporaneidade em Juno é o fato do filme assumir descaradamente o há horas engatilhado revival dos anos 90. Um dos principais parceiros da menina no filme é um trintão que teve banda, excursionou com o Melvins e que se envolve em discussões e reminiscências musicais invocando sua participação ativa na “era de ouro do grunge”. A oitentização dos anos noventa é cada vez mais inevitável. Normal.

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Aparentemente, eu estou aqui falando de verniz. Mas acredito que hoje verniz também é essência, por fazer a ligação entre o conteúdo e o público. O verniz de Juno é fortemente calcado em cultura pop americana, mas isso não é problema para a maior parte dos brasileiros de classe média alta – o grande público de cinema hoje em dia. Todos fomos e somo submetidos ao bombardeio ianque (embora, aos poucos, isso vá mudando) e no dia que Juno chegar ao Temperatura Máxima, coisas como indie folk, ironia como estilo e noventismo já vão estar completamente absorvidas por todo mundo – como hoje os códigos do revival anos 80 está.

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Mas e a história? Se você não sabe, Juno é uma adolescente que fica grávida numa noite de sexo com um homo nerdus da escola – o ótimo Michael Cera do palha Superbad – e resolve oferecer o bebê para adoção para um casal que botou um anúncio no jornal. Ao contrário de filmes do passado, que dariam origem a um dramalhão sem fim, em Juno simplesmente não há dúvidas a respeito do que fazer com a criança. É tudo muito simples: se Juno não tem maturidade emocional para cuidar do bebê, que se ofereça o rebento ao tal casal. A cena em que Juno conta da gravidez para o pai e a madrasta é emblemática. Assim que a garota sai da sala, os adultos respiram aliviados, pensando que a notícia seria algo muito pior como “drogas ou expulsão da escola”. Ou seja, não há conflitos nesse sentido e eu, com meu sangue e apegos latinos, confesso que fiquei meio chocado com a naturalidade dessa resolução de simplesmente entregar o bebê. É seu filho! Seu neto! Arriba!

de menina má.com a mothern

Entenda-se: o filme é muito menos da relação de Juno com o bebê do que da relação de Juno com os futuros pais, dos futuros pais com o bebê, do futuro pai com Juno e de todo mundo com suas próprias limitações. Na verdade, Juno é o eixo de equilíbrio entre razão e sensibilidade no meio de adultos perdidos em feridas mais antigas. Meio esquisito, mas talvez seja eu ficando velho e começando a duvidar da capacidade de pessoas mais jovens…

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Curiosamente, Juno está em cartaz na mesma época em que propõe no Brasil um projeto de lei para o parto anônimo e evitar a repetição de cenas bizarras no Jornal Nacional, como aquela do bebê encontrado vivo dentro de um saco de lixo na Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte. Com nossas raízes enlameadas de culpa católica, que impedem ações mais abertas como a atitude de Juno e sua família, talvez seja uma boa idéia regulamentar uma prática que já acontece e que vai preservar a vida de uma criança que talvez fosse parar em uma lagoa projetada pelo Oscar Niemeyer.

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Bom, na verdade eu falei mal de nossas raízes católicas, mas lembrei que um antigo subterfúgio parecido com o parto anônimo já foi praticado no país com apoio de conventos: desde a época do Império até bem pouco tempo atrás, era comum haver uma roda giratória de madeira que recebia filhos bastardos anonimamente na calada da noite.

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Resumo da história: como toda boa pepita pop, quem entrar em sintonia e deixar-se levar na viagem de Juno vai empreender um caminho surpreendente pra dentro de si mesmo.

Se você estiver a fim e for fisgado, boa viagem.

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Walverdes 15 Anos


Conforme já comentado aqui, os Walverdes estão fazendo 15 anos de vida. Ao longo de 2008, como nas grandes corporações, vamos fazer uma série de esforços comemorativos. Não sei quais vão ser eles exatamente, mas os primeiros já estão no ar.

WALVERDES15.BLOGSPOT.COM - começamos a catar nas memórias os causos, historietas e as pequenas façanhas que compõem o breviário walverdiano. O primeiro registro, com fotos, já está estampado lá. Ao longo do ano vamos alimentando o blog e certamente uma boa parte da trajetória do rock independente brasileiro vai estar ali de pano de fundo, então se liga

CARTAZES & FLYERS de eras passadas – os primeiros exemplares também já estão presentes.

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Além disso, vem por aí o relançamento do nosso EP de 1999, o 90 GRaus e algum show de aniversário.

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Isso não significa que vamos ficar olhando para os restos mortais de nossos umbigos passados. Temos shows em São Paulo e Campinas em março com as músicas do disco novo, a gravação do mesmo deve rolar em maio e na sequência também vamos ter shows em Santa Catarina.

Aguardai.

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Quitutes pro finde


O nome chique é “outtake”. Pois é: em 2005 gravamos duas músicas a mais para o álbum mais recente dos Walverdes, “Playback”. Uma delas foi para uma coletânea em CD-R da Mono e agora ela também está disponível no nosso MySpace. O “outtake” se chama Again e é uma regravação com letra nova da Again que está no nosso primeiro disco, “Walverdes” – esgotado e ainda bem porque é um disco meio esquisito. No entanto, Again é massa, ainda mais nessa nova gravação, com todo o peso que faltava na outra.

PS: essa foto aí eu roubei do set do incrível Eugênio Vieira.


Believe the hype: o som da Mallu Magalhães é realmente legal! A guria tem só 14 anos (e daí?) mas já conquistou o coração do mundo indie: o Lucio Ribeiro e o Matias assinaram embaixo nos seus blogs. O Du Ramos, ex-empresário do Cansei de Ser Sexy e pensando na vida enquanto faz drum and bass demente com o Sérgio do Debate, também. Como disse o Fabrício Nobre, na mesma noite em que o Du me falou da Mallu: “Mini, é música bem feita, cheia de partes, não é que nem as nossas toscas”. Pois é, Walverdes não tem nem refrão às vezes, quanto mais bridge.

Confere lá e tira tuas próprias conclusões.


Eu adoro nuvens. Uma vez escrevi um enorme conto de ficção científica envolvendo nuvens. Não sei onde foi parar. Pois bem, o Tatu fez umas fotos de nuvens e colocou .

Falando em Tatu, foi ele que me deu a dica: a biblioteca do Congresso Americano tá colocando três mil fotos no Flickr. Ele tirou a dica de outro blog interessante, o The Year in Pictures.

Começou que caiu no meu email um link com o vídeo novo do Supergrass: os caras se autodenominando Diamond Hoo Hoo Men e tocando sem o baixista Mick Quinn. Ué, brigas numa banda que sempre pareceu tão parceria?

Não! É que o baixista quase ficou paraplégico num acidente doméstico: saiu da cama pra ir ao banheiro durante férias com a família, não acendeu a luz, errou o caminho e caiu de uma janela do primeiro andar, machucando seriamente as costas.

Os outros membros da banda, enquanto esperam a recuperação de Mick, então andam fazendo show sob o nome de Diamond Hoo Hoo Men, também o nome do novo single do trio. Que doença.

Bom finde!

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