“Não que eu me achasse um grande desenhista, mas me dava a sensação de que estava pondo ordem no caos ao meu redor (…) Notei que, de uma maneira estranha, aquilo purificava a experiência do meu olho (…)”
- Bob Dylan, em ‘Crônicas: volume 1′, sobre quando ele começou a desenhar, no início dos anos 60.
Eu terminei hoje a leitura do ‘Crônicas’ [que é excelente, mas isso é outro assunto], e é claro que uma passagem sobre desenho ia chamar minha atenção. Não pelo fato do Dylan desenhar, mas pela relação dele com o desenho como algo que ajuda ele, de certa forma a afiar sua percepção. Na hora eu lembrei de algumas entrevistas que li com o Richard Serra, escultor que também tem um trabalho sensacional de desenho e que é dos meus favoritos. Sem contar que ele fala muito bem, de forma muito direta, sobre o trabalho dele. Entre as coisas que eu encontrei nas minhas anotações:
“Isso se tornou algo que eu sabia fazer, (…) como um modo de manter meu olho e minha mão coordenados em relação ao que eu via. (…) Acho que o olho é um tipo de músculo: quanto mais você desenha, mais definido fica o músculo, melhor você vê, na verdade.”
Uma coisa interessante é que ele nunca desenha suas esculturas em projeto, mas somente depois de prontas. Em um video que assisti [desse documentário] ele aparece com o caderno nas mãos, desenhando em pé, enquanto uma escultura de algumas toneladas é colocada no lugar por um guindaste. Infelizmente, o trecho que eu me refiro não está online. Pra piorar, o plugin é aquele realplayer que eu nunca consigo instalar.
Outra frase dele: “Olhamos para desenhos através dos desenhos que já vimos.” Pensa nisso. Vale pra muita coisa na vida. Soa óbvio, mas como tantas obviedades, a gente passa por ela batido a maior parte do tempo.
Tive um professor que diz que desenhar não é uma questão de coordenação motora, mas uma questão perceptiva. E, ao começar a desenhar, a gente se dá conta rapidinho disso.
Pesquisando um pouco sobre um outro escultor que faz desenhos sensacionais, Antony Gormley, encontrei esse post sobre uma palestra dele chamada “Desenhando o que você não consegue ver” [ó o que eu falei sobre percepção aí]. algumas frases que o autor desse post destacou da palestra:
“Desenhar é como pensar alto.”
“Desenhar é uma forma de explicar, é uma anotação de uma viagem.”
“O imediatismo do que está acontecendo é mais importante do que a acuidade. Você está tentando fazer uma anotação sobre algo que você não tem certeza sobre e é isso que faz [desenhar] ser valioso.”
“Você tem que desistir de todas as suas idéias de com o que determinada coisa se parece.”
Eu ainda queria fazer algumas relações entre percepção e a resistência ao novo que todos nós temos, mas acho melhor deixar pras próximas férias do Mini.
As imagens do post são alguns dos meus desenhos. Dá pra conhecer um pouco mais do meu trabalho de artista aqui, e um portfolio defasado pacas de ilustrador no Flickr. O título do post é uma definição de desenho que ouvi uma vez do Flávio Gonçalves, amigo e artista.
Post escrito por Guilherme Dable enquanto o Mini está de férias.
Também chamam de Infoviz ou Infoesthetics. Mas, independente do rótulo, a base é a mesma: tomar uma antipática massa de dados e dar um jeito de transformá-la em amiga, algo raro em se tratando de dados. Quantas pessoas você conhece que tomariam uma cerveja ou passariam uma noite de bom grado com uma pilha de lâminas do Excel?
Por outro lado, os projetos mais arrojados de Data Visualization não são um extreme makeover de relatórios, mas sim obras em si que oferecem portas de entrada mais intuitivas na geração de insights, na busca por inspiração ou no mero ato de comunicar o que quer que seja.
Há pouco, a Slate largou um slideshow bastante instrutivo a respeito desse assunto, fazendo o que eu já tinha pensado mas deu preguiça: construiu uma linha do tempo colocando o Treemap do Ben Shneiderman como big bang (deve existir algo mais antigo, mas enfim) e abriu uma série de caminhos para os que quiserem se aprofundar.
Esse é um assunto que sempre cortejei, uma vez que eu adoro sistemas de organização, ainda mais quando acompanhados de senso estético. Por conta disso, ano passado resolvi entrevistar o Jonathan Harris para o número inaugural da +Soma, um dos nomes mais citados quando o assunto é a alquimia dos dados em poesia visual. A entrevista começa aqui, continua aqui e termina aqui.
Obviamente estava há horas tentando emplacar uma idéia na área para algum cliente da agência, mas dois projetos saíram na frente aqui no Brasil: O Rio Está Feliz e Ame Seu Coração (que em setembro teve até instalação no vão livre do Masp). São duas iniciativas bem interessantes e fico feliz de estarem sendo feitos tentativas comerciais de Data Visualization, mas também parece um prato cheio para piadas de cartunistas, especialmente a ação no Rio, não?
Aqui na agência, fizemos uma experiência. Ao longo de um mês, um grupo de pessoas acessou quase que diariamente o Emotional Cities, que cataloga o humor de cada pessoa e junta em sets visuais por cidades, países ou grupos que você monta. No meio dessa história me caiu uma ficha muito grande que a questão do Data Visualization não diz respeito só à facilidade de leitura de dados. Por ter uma interface amigável e uma proposta simpática, o Emotional Cities obriga a pessoa a parar por alguns minutos que seja e refletir a respeito do seu estado de espírito - algo que poucos fazem na correria do dia-a-dia. Isso fecha com o que o Jonathan Harris me falou na entrevista, que ele não vê problema em uma interface que exija um pouco mais envolvimento porque um maior envolvimento oferece uma maior recompensa interna ao usuário. Bom design, menos velocidade, mais recompensa. Uma equação valiosa em termos humanos.
Agora… você quer ver um cara que REALMENTE se puxou no assunto? Então dá uma olhada no Visualizing The Bible do Chris Harrison. Em parceria com um pastor, o cara transformou várias referências cruzadas da Bíblia em imagens. Beira o TOC, mas é isso aí, vam’bora. Que atire a primeira pedra…
“EU NÃO TENHO QUE ESPERAR POR INSPIRAÇÃO
Eu costumo dizer que inspiração é pra amadores; o resto de nós simplesmente vai trabalhar. Trabalhar abre portas. No processo de fazer alguma coisa, outras coisas surgem e você acaba em lugares onde não planejava estar.”
É mais ou menos isso que o pintor americano Chuck Close diz sobre inspiração.
“O que chamamos de inspiração tem muito a ver com conseguir estranhar a vida por um instante - não mais reconhecê-la e, apavorado, ter de lidar com isso. Escrevo porque a literatura é minha maneira de expressar esse estranhamento.”
“A categoria popular é muito pouco precisa em termos sociológicos e pressupõe uma homogeneidade que está longe de ser comprovada nos estudos existentes sobre camponeses, operários, camadas médias baixas ou outros segmentos e setores que pudessem ser incluídos nessa classificação. Da mesma forma, falar em elite pressupõe um monolitismo nas camadas mais altas da sociedade que poderia colocar na mesma categoria grandes proprietários rurais, alta burguesia, oficiais generais, setores da intelligentzia, administradores, etc. (…) A oposição elite X povo em termos de cultura é muito vaga e pouco precisa”.
“É o elemento Jack Bauer da história, ao que parece - o glamour visual é tão convincente que faz com que o espectador aceite a verdade do sujeito que faz o outro sofrer pra arrancar uma verdade - e isso parece normal e certo.”
foto daqui
“Um dia, quando um cantor chique fizer uma versão, todo mundo vai achar bacana… Mas é preciso tempo: o popular muito popular só se torna elogiável quando sua popularidade é coisa do passado, não é mesmo?”
“The way they relate to the outside world; observing it, analyzing it, dissecting it and then reconstructing and finally returning their spin on it is nothing short of unique.”
foto daqui
“Hoje (ontem) vi nos camelôs da 25 de março o DVD pirata de Tropa de Elite 2. Nao comprei, mas descobri que trata-se de um documentário sobre as favelas do Rio feito em 1999 - seria isso mesmo? Também já vi lá o DVD Procurando Nemo 2 (que a Disney nunca cogitou em lançar) e brinquedos Toy Story 3, cuja produçao nem começou e deve ser pra 2010! É muita criatividade!”
foto daqui
“Um clima de “começou a fase 2″ que aos poucos começa a contaminar o povo (Bonde e Cansei é só o começo). Vamo prestar atenção.“
Não sei quem é exatamente a moça. Mas a frase - “Escrever é sempre um processo de eliminação” - é boa.
Evamulá.
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