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Nós, os toscos do futuro

Estava eu, sozinho em casa, deitadão na cama, TV desligada, vendo um episódio do Curb Your Enthusiasm no laptop, quando, sem mais nem menos, vem aquele avisinho que a bateria está prestes a cair. Era uma quinta à noite, meio tarde,  eu também já na última barrinha da bateria e tive que fazer AQUELA mão: sair debaixo das cobertas no frio, ir até a sala, abrir o armário, pegar o cabo de força, grudar no computador, acender a luz de cima, desligar o abajur, afastar o criado-mudo, plugar o cabo de força na luz, voltar pra baixo das cobertas, soltar o pause e terminar de assistir ao seriado.

Acompanhe o gráfico: todo aquele processo de levanta e vai até a sala pra carregar o laptop é o tipo de questão que já foi resolvida há décadas no aparelho de televisão. Pra assistir a qualquer coisa na TV, você se joga no sofá, agarra o controle remoto e com dois ou três toque nos botões está assistindo ao que está passando no canal. É coisa de segundos. Tente o mesmo processo no laptop e você vai ver que tem muito mais passos pra cumprir, mais janelas pra abrir, mais arquivos ou folders pra navegar. É o preço que se paga por viver em uma época de tão brutal transição.

Não tenho dúvidas que isso soa como reclamação de preguiçoso e conservador, mas acho que vale o gancho pra lembrar o quanto estamos em uma era primitiva e tosca. Nós nos achamos OS CARAS porque lemos emails no celular e falamos com amigos pelo Skype com imagem, mas a verdade é que somos uns brucutus da pós-modernidade, gente maravilhada e ansiosa, cercada por aparelhos carentes, que precisam da nossa constante atenção pra funcionar direito, que não são maduros ainda pra se conversar (sem que você seja um especialista em conectividade) e que nem mesmo compartilham linguagens de interface (de modo que você tem que aprender diferentes sets de interface a cada novo aparelho). Os gadgets atuais são, em linhas gerais, adolescentes egoístas, cheios de energia e boas idéias, mas com os hormônios a mil, dotados de pouca desenvoltura social e pouca praticidade.

Tá e daí? E daí não sei.

Só acheio graça no pensamento de que, pode ter certeza, um dia nós vamos olhar para isso…

… da mesma forma como hoje olhamos pra isso:

Né?

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O preço absoluto das coisas

É algo que todo mundo pensa mas ninguém fala abertamente. É uma espécie de tabu conceitual. Um assunto pairando, um vespeiro que é melhor não mexer. O preço absoluto das coisas é como, já falei aqui, o bom senso: cada um tem o seu. É o seu preço do coração, que não obedece a qualquer lei de mercado ou lógica cartesiana. Na minha opinião, por exemplo, é ridículo que muitos carros custem mais do que apartamentos.

Portanto, eu, Gustavo Bittencourt, declaro que acho que as seguintes coisas deveriam custar os seguintes preços.

CD – 5 reais.

Ipod – 50 reais.

Laptop – 800 reais

Computador de mesa – 500 reais.

Camiseta básica da Hering – 10 reais.

Um Palio completo (ar, direção hidráulica, trio elétrico) – 10.000 reais

Um blackberry – 50 reais

Um iPhone – 80 reais

Mp3 Player de camelô – 15 reais

Pen Drive 2GB  – 15 reais

Pen Drive 4GB – 18 reais

Apartamentos de três quartos em geral – 50.000 reais

Apartamentos de um quarto em geral (com cozinha americana) – 10.000 reais

Carrão importado – preço máximo de 40 mil reais.

Uma consulta médica particular (qualquer)  – 50 reais

Um bom jantar num restaurante fino – 30 reais por pessoa

Um jantar razoável num restaurante qualquer – 10 reais

Uma pizza BOA grande – 18 reais

Uma pizza RUIM grande – 5 reais

Uma água sem gás (500ml) – 50 centavos

Uma água com gás (500ml) – 45 centavos (tem menos água devido ao gás)

Um ingresso de cinema – 10 reais (todos os horários, todas as idades)

Um ingresso pra filmes como Transformers – 2 reais

Um ingresso pra show do Queens of The Stone Age em Porto Alegre – 25 reais

Um pacote com seis pares de meias das BOAS – 12 reais

Um pacote com seis pares de meias que estragam rápido – 3 reais

Um saco de pipoca BOA – um real

Uma revista Veja – dois reais

Uma revista Época – quatro e cinquenta

Uma graphic novel – 12 reais

Um casacão pro inverno gaúcho – 80 reais

Um amplificador Fender valvulado (que dê pra tocar no Jeckyll): 1.200 reais

Assinatura do Net Combo – 45 reais

Assinatura do Net Combo com HBO – 55 reais

Passagem aérea Porto Alegre – São Paulo (Congonhas) – 100 reais ida e volta

Passagem aérea Porto Alegre – São Paulo (Guarulhos) – 80 reais ida e volta

Passagem aérea Porto Alegre – Florianópolis – 20 reais ida e volta

Cerveja 600 ml – 1 real

Latinha – 50 centavos

Uma calça Levi’s – 75 reais

Um livro bom e grosso do Phillip Roth – 25 reais

Um livro bom e fino do Phillip Roth – 15 reais

Um livro meia boca qualquer – 5 reais

Cachecol preto básico de lã – 15 reais

Tênis Adidas Originals – 30 reais

Havaianas basicona – 2 reais

Havaianas de estilista – 10 reais

Havaianas de cartunista – 10 reais

Havaianas com desenho fashion – 8 reais

Havaianas da Coca Cola – você recebe 100 reais pra usar um verão

Chá Twinnings – 5 reais uma caixa grande

Uma cola bastão Pritt – 1 real

Um pacote com mil canetas bic – 12 reais

Pedágio pra praia – 1 real

Pedágio pro interior – 50 centavos

Diária no Formule 1 da Consolação – 12 reais

Download de 1 mp3 – 75 centavos

Dowload de 10 mp3 – 5 reais

Um HD externo de 500GB – 30 reais

Ingresso pra qualquer museu do país – 10 centavos

Meio quilo de damasco seco – 5 reais

Uma cartela de Tylenon 750 – 50 centavos

Pãozinho com manteiga no couvert do restaurante – 1 real (em todo Brasil)

Água de Côco – 50 centavos em todo Brasil

Biquínis legais – 35 reais

Bermuda de entrar no mar – 30 reais

Bermuda cargo boa – 25 reais

E por aí vai.

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Cardápio de Revivals Conector

Você, amigo que trabalha com publicidade, marketing ou design, não se sente absolutamente cansado da velocidade com que as novidades estão aparecendo? Pois é! A coisa tá feia! E parece que não vai parar de descer a ladeira!

Mas o negócio é não se estressar. Ficar parado é o movimento mais contemporâneo e inovador que existe. Se você estiver parado, todas as tendências passam e você fica! Uma hora, você e as tendências se encontram.

Por isso, aqui vão algumas sugestões de algumas coisas que você não deve se desfazer em hipótese alguma, porque mais dia menos dia, não se preocupe: elas vão voltar! E valendo muito mais!!!

1) TV PRETA

Não corra pra comprar um plasma ou LCD! Assim que você terminar de pagar, a velha TV PRETA vai voltar. Então deixe a sua exatamente onde está! Lembra da trabalheira que foi encontrar de novo som pra tocar vinil?

2) WEB 2.0


O coitado do uso de internet baseado em colaboração dinâmica e redes sociais é a Mallu Magalhães da cultura web: tão rapidamente quanto surgiu já apareceu gente detonando e dizendo que já era. Que web semântica o quê! Não se engane! Muito em breve você vai encontrar a web 2.0 em brechós. Ela vai ser utilizada por garotos descolados, aparecer em festas grunge e logo depois se tornará tão cool quanto a fita cassete é hoje.

3) COMIC SANS


O documentáro da Helvetica que saiu ano passado é a prova: em breve será a vez da Comic Sans. Portanto, pare de torcer o nariz.

4) iPhone


Eu sei que você acabou de comprar. Mas a hora dele vai chegar. Ou por acaso você guardou seu G4? E o seu iMac? Ou seja: guarde bem seu iPhone! Porque como o G4 e o iMac, uma hora ele vai voltar!!

5) Strokes


Depois do grunge, houve uma época meio paradinha no rock. Aí em 2000 o single de Modern Age surgiu em tudo que é lista de emails e logo a banda novaiorquina inaugurou o novo hábito de estourar sem ter gravadora, sem ter disco e quase sem ter música.

Como o revival dos anos 90 está tomando espaço do revival dos anos 80, os próximos da fila são os anos 00, então pode tirar a poeira do seu CD-R (lembra CD-R?) do Strokes.

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Celular

Eu adoro esse comercial (especialmente desenhado pra trintões, vai dizer…) porque pra mim ele resume não só a chegada do 3G no Brasil, mas todo o encanto em torno dos celulares. Muito embora o meu não seja dos mais avançados (já cheguei a pensar em investir num iPhone ou num Blackberry, mas felizmente me recobrei a tempo), estou sempre de olho nesses aparelhinhos e mesmo os mais toscos me despertam um sentimento de magia quase infantil: como pode algo tão pequetito fazer tantas coisas?

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Os aspectos lo-fi dos celulares me encantam mais do que os aspectos mais avançados. Por exemplo, acho que já escrevi aqui: os celulares transformaram o mundo numa imensa cabine telefônica.

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É isso. As incríveis “coisas” que eu acho que o celular faz não são propriamente tocar música ou tirar fotos, mas tipo servir como inclusor (existe essa palavra?) digital e econômico de toda uma parcela da população brasileira. Hoje, grande parte dos 130 milhões de aparelhos no país estão nas mãos de profissionais liberais que se comunicavam de forma rudimentar com seus clientes. Por exemplo, o eletricista ou o pintor do seu bairro, na época do telefone fixo caro, precisava de um ponto de recados como uma ferragem. Você ia lá, deixava recado pro cara te procurar. Quando ele aparecesse por lá pra pegar os recados, iria até você.

Pouco mais de 80% desses celulares são pré-pagos, o que não deixa muita margem de dúvida desse papel que o celular está tendo na economia informal brasileira.

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Outra função incrível do celular é tontear publicitário.

O mundo das agências e dos departamentos de marketing está tentando desesperadamente compreender esse cenário. Mas a grande verdade é que poucas estão conseguindo entrar na dança com a velocidade necessária. E uma verdade maior ainda é que tem gente que não está nem aí, perdendo o trem sem nenhum constrangimento.

Oportunidades estão sendo perdidas, mas ainda bem: o quanto mais o marketing demorar a entrar no celular dos brasileiros, menos violento e mais pertinente talvez ele venha. Um dos ganhos que já tivemos com a lentidão do cresciemento marketing móvel foi a decisão da ANATEL de exigir que qualquer publicidade por celular demande OPT-IN. Ou seja, você precisa concordar com o início da comunicação entre uma empresa e você. Do contrário, os celulares sofreriam o que as caixas de email sofrem até hoje, que é a quantidade absurda de SPAM. E teríamos que usar filtros nos celulares, e toda aquela função.

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No meio disso tudo, pequenas empresas de conteúdo e tecnologia para marketing móvel estão ganhando espaço. Nem sempre por seu brilhantismo, mais pelo pioneirismo. Há alguns cases bastante interessantes (como o já bastante falado lançamento do Fiat Idea Adventure, que permitia às pessoas montarem uma versão de um comercial no cinema por SMS), mas eles não ganham muita repercussão no mercado publicitário – ainda zonzo, preocupado em entender o que está acontecendo e também não muito afeito a ações que atingem um número reduzido de pessoas.

Essa é outra característica dos celulares: não faz sentido dar tiro de canhão como se faz na TV. O trabalho é sempre em cima de conteúdo e comunidades. Duas áreas que as estruturas tradicionais de publicidade ainda patinam pra sacar DE FACTO.

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Enquanto isso, quem gosta de dinheiro GROSSO (em vários aspectos) está fazendo pequenas fortunas com coisas como os leilões reversos por SMS (que vem fazendo a alegria de operadoras, a Rede TV! e os seus parceiros tecnológicos na empreitada) ou marketing de pirâmide por celular.

Mas, honestamente: esse tipo de coisa só me interessa por sua natureza pitoresca.

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E o iPhone? Tem dois colegas aqui na agência que tem. É uma lindeza. Incrível mesmo. Mas apesar de tudo, acho que seu grande predicado é puxar pra cima os outros celulares. Que nem painel de carro caro, sabe? O painel do meu Palio é igual ao painel do Fiat Stilo. Única diferença é que o Stilo é recheado de coisas e o do Palio é cheio de locais de plástico onde deveria haver coisas. Eu não tenho as coisas, mas tenho um painel bonitinho.

Que venham painéis bonitinhos para todos nós.

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