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Arquivo: Issan Dorsey

Street Zen: The Life and Work of Issan Dorsey

Issan se preparando para a ação.

Espiritualidade é um tema complicado de abordar num país como o Brasil. Vivemos uma espécie de paradoxo. Se temos uma população que se diz majoritariamente católica (83%), no dia-a-dia ela se ampara mais no sincretismo, na crença em santos particulares ou então na boa e velha reza aleatória na hora do desespero. Para deixar tudo ainda mais ambíguo, apesar de muitos não praticarem formalmente o cristianismo, a moral cristã meio que paira sobre a cultura do país. Ela não rege os desejos e não dá as cartas claramente, mas funciona como o eixo médio da nossa moral coletiva e qualquer duas horas de televisão aberta mostram isso. Mesmo os intelectuais do país costumam frequentemente se comportar como carolas: apontam, acusam, pedem punição.

No outro extremo do espectro, existe também, claro, uma adoração dos loucos desvairados como oposição à moral instituída, mas isso é apenas o outro lado da moeda. 99% das vezes que vejo alguém puxar o saco de algum “rebelde”, me parece mais birra do que qualquer outra coisa. A verdade é que raramente ambos conceitos, suposta perfeição e suposta imperfeição, convivem em harmonia.

Se na vida cotidiana eles são obrigados a conviver, o mesmo não acontece no imaginário popular. A ambiguidade no Brasil, acredito, é sutilmente bem vinda na prática, mas na teoria, no discurso ou na iconografia ela não pega bem. Somos um país de mulatos práticos que gosta do preto no branco teórico. Ainda que saibamos de todos os detalhes sórdidos sobre nossos santos/modelos/salvadores/representantes, preferimos os relegar a um papel secundário de seu caráter, recusando-nos a acreditar que o lado escuro da mente e do coração de alguém possa realmente fazer parte do seu todo.

Por isso, enquanto virginiano inverterado e maniqueísta eventual, achei tão inspiradora a leitura de Street Zen. O livro é a biografia do mestre zen budista Issan Dorsey escrito por um jornalista, colega praticante e amigo que escolheu abordar todos os aspectos da vida de Dorsey sem deixar nada de fora. Tudo é exposto, desde seu homossexualismo, seu trampo de drag queen e eventual garoto de programa, sua relação com anfetaminas, heroína e LSD, sua convivência com estratos baixos e considerados pervertidos da sociedade até sua trajetória como praticante zen, criador de um hospice pioneiro para pacientes de AIDS e reconhecido professor que… morreu de AIDS. Pra resumir, um outro mestre zen americano, Bernie Glassman, escreveu no prefácio que via Issan como “uma mistura de Lenny Bruce e S.S. Dalai Lama”.

O interessante da abordagem de Street Zen é que a primeira etapa da vida do biografado em momento algum é colocada como oposição à segunda. A jornada descrita no livro não segue o roteiro comum de “degradação, descida ao inferno, expiação dos pecados por meio do sacrifício e redenção”. É mais como se fosse tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. O lado outsider de Issan Dorsey, em vez de contraponto ao lado religioso, funcionou como base, como fundação, como fonte de incríveis ferramentas sociais e espirituais que ele utilizou mais tarde para ajudar os que habitavam as margens da conservadora sociedade americana dos anos 60, 70 e 80.

A trupe da qual Issan fazia parte como Tommy Dee.

A mensagem aqui é uma só: por conta de nossas limitações, achamos que só os perfeitos alcançam a perfeição e Issan Dorsey vem para torcer completamente essa lógica injusta e inútil. A compaixão mais ampla não deixa nada nem ninguém de fora. Nem as pessoas que marginalizamos socialmente, nem nossos sentimentos e aspectos pessoais que marginalizamos mentalmente, escondendo no fundo do baú. Dorsey, segundo o livro, foi a personificação desse tipo de compaixão. Justamente por sua convivência com pessoas marginalizadas, por ter experimentado e visto de tudo, ele serviu de referência para os sem-referência. Ele abraçou tudo. O próprio autor da biografia diz que, se não fosse pelo amigo, talvez não se sentisse apto a praticar o budismo.

Como pano de fundo pra tudo isso, recebemos de brinde uma série de rápidas porém valiosas contextualizações: o surgimento da cena psicodélica em San Francisco; a chegada de Suzuki Roshi (um grande mestre zen budista) aos Estados Unidos e o desenvolvimento de sua comunidade, com direito a escândalos cabeludos protagonizados pelo seu sucessor; a intersecção do mundo gay de San Francisco com as comunidades espirituais; e os primeiros baques ali causados pela AIDS.

Street Zen é de escrita simples, fluída e direta. Uma boa parte das histórias vêm contada em primeira pessoa, por Issan ou por companheiros próximos. Dessa forma, em dois ou três capítulos você já se sente íntimo dele e lá pela página 200 bate uma certa melancolia porque os dois estão chegando ao fim: o livro e o protagonista. Issan morreu em 6 de setembro de 1990 de complicações ligadas à AIDS, no próprio hospice que criou, cercado de amigos e experimentando na prática lições básicas do budismo que vinha ensinando: compaixão e, principalmente, a impermanência.

Vertido das páginas do diário pessoal do autor, o relato dos últimos dias de Issan são crus e perturbadores. Sensacionalismo? Não. Uma narrativa que se pretendia tão aberta quanto seu personagem principal realmente não poderia se eximir e deixar de fora o momento de maior significado da história de Issan e que Suzuki Roshi chama de “O maior professor”: a morte.

Desesperador, desagradável e incômodo, muitas vezes é melhor nem tocar nesse assunto. Mas, se for pra tocar, melhor que seja assim, como Issan fez, de forma completa. Mesmo sofrendo e com dificuldades físicas, ele deixou sua última lição ao abraçar a morte da mesma forma que abraçou a vida.

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