OEsquema

Arquivo: Jonathan Harris

Data Visualization

Também chamam de Infoviz ou Infoesthetics. Mas, independente do rótulo, a base é a mesma: tomar uma antipática massa de dados e dar um jeito de transformá-la em amiga, algo raro em se tratando de dados. Quantas pessoas você conhece que tomariam uma cerveja ou passariam uma noite de bom grado com uma pilha de lâminas do Excel?

Por outro lado, os projetos mais arrojados de Data Visualization não são um extreme makeover de relatórios, mas sim obras em si que oferecem portas de entrada mais intuitivas na geração de insights, na busca por inspiração ou no mero ato de comunicar o que quer que seja.

Há pouco, a Slate largou um slideshow bastante instrutivo a respeito desse assunto, fazendo o que eu já tinha pensado mas deu preguiça: construiu uma linha do tempo colocando o Treemap do Ben Shneiderman como big bang (deve existir algo mais antigo, mas enfim) e abriu uma série de caminhos para os que quiserem se aprofundar.

Esse é um assunto que sempre cortejei, uma vez que eu adoro sistemas de organização, ainda mais quando acompanhados de senso estético. Por conta disso, ano passado resolvi entrevistar o Jonathan Harris para o número inaugural da +Soma, um dos nomes mais citados quando o assunto é a alquimia dos dados em poesia visual. A entrevista começa aqui, continua aqui e termina aqui.

Obviamente estava há horas tentando emplacar uma idéia na área para algum cliente da agência, mas dois projetos saíram na frente aqui no Brasil: O Rio Está Feliz e Ame Seu Coração (que em setembro teve até instalação no vão livre do Masp). São duas iniciativas bem interessantes e fico feliz de estarem sendo feitos tentativas comerciais de Data Visualization, mas também parece um prato cheio para piadas de cartunistas, especialmente a ação no Rio, não?

Aqui na agência, fizemos uma experiência. Ao longo de um mês, um grupo de pessoas acessou quase que diariamente o Emotional Cities, que cataloga o humor de cada pessoa e junta em sets visuais por cidades, países ou grupos que você monta. No meio dessa história me caiu uma ficha muito grande que a questão do Data Visualization não diz respeito só à facilidade de leitura de dados. Por ter uma interface amigável e uma proposta simpática, o Emotional Cities obriga a pessoa a parar por alguns minutos que seja e refletir a respeito do seu estado de espírito – algo que poucos fazem na correria do dia-a-dia. Isso fecha com o que o Jonathan Harris me falou na entrevista, que ele não vê problema em uma interface que exija um pouco mais envolvimento porque um maior envolvimento oferece uma maior recompensa interna ao usuário. Bom design, menos velocidade, mais recompensa. Uma equação valiosa em termos humanos.

Agora… você quer ver um cara que REALMENTE se puxou no assunto? Então dá uma olhada no Visualizing The Bible do Chris Harrison. Em parceria com um pastor, o cara transformou várias referências cruzadas da Bíblia em imagens. Beira o TOC, mas é isso aí, vam’bora. Que atire a primeira pedra…

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Mais um dia, mais umas bravatas

O dia hoje não podia começa melhor: logo que entrei no Palácio dos Festivais, encontrei meu colega e diretor de arte Diego Wortman com um sorriso no rosto porque o painel AIDS pra Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul entrou no shortlist de outdoor. Criada pelo Diego e pelo Marcelo Rosa e viabilizado pela Área de Conexões junto com a Sinergy, a idéia é absurdamente simples: o público é convidado a levar camisinhas que formam a palavra AIDS no painel. Levando as camisinhas, o AIDS vai desaparecendo. Beleza?

Além da simplicidade, outro predicado dessa ação foi ter sido criada para o Governo do Estado a partir de um briefing real e não como um semi-fantasma para uma entidade social, como é comum no meio publicitário.

Se rolar um leão para a Escala, vai ser um aproveitamento de 100%, já que foi a única peça inscrita pela agência.

Não rolou, mas beleza! O painel ainda é finalista no New York Festival!

***

Eu, por outro lado, tive um aproveitamento de 50% nos workshops e seminários hoje. Dois valeram a pena, mas outros dois foram um tanto quanto… normais…

Vamos nos que valeram a pena primeiro.

A Ogilvy fechou a tarde com a palestra Dada, Data, Alpha, Beta, cujo título remete mais a música para crianças extraterrestres do que a qualquer outra coisa. Com uma apresentação elegante, consistente e didática, Jan Leth (Vice Chairman Digital, os caras tem isso…) e Jean Phillip Marcheau (Chief Digital Officer da Ogilvy USA, ganha menos) estabeleceram o código pelo qual a Ogilvy entende e explica o mundo digital. Tudo que a gente já sabe, mas – a exemplo do material da Go Viral – empacotado com uma visão particular e bem interessante. Eu sempre gostei de rótulos e acho que é um talento construí-los com consistência.

Resumindo: Dada (sim, do Dadaísmo) é o cluster no qual eles colocam toda a história de mashup, colaboração, lateral thinking, essas coisas. Data é como eles chamaram a ascenção dos dados que saíram dos bastidores para se tornarem estrelas de projetos como We Feel Fine e as tão comuns tag clouds. Alpha é manjadaço, a já velha história de cooptar influenciadores para que eles disseminem conceitos. E Beta, também nada de novo, é o modus operandi corrente de 9 entre 10 empresas inovadoras: faz um rascunho e bota pra funcionar ainda semi-pronto na frente de todo mundo pra ver no que dá.

A versão beta, apresentada numa universidade americana – achei no Slideshare
Tudo já sabido não? Pois é, mas quando você é uma rede global de agências, precisa construir esse tipo de código para passar adiante conceitos para senhores nada acostumados com ese tipo de coisa e que definem orçamentos milionários de comunicação. Bem, quando você não é uma rede global de agências também, mas isso é outra história.

O momento que realmente mexeu comigo foi quando o Jean Phillip falou da importância de dar atenção aos dados em relação aos conteúdos das campanhas.

Primeiro ele disse que “dynamic data drives storytelling”: o caso do We Feel Fine é perfeito para definir isso (veja a entrevista que eu fiz com o Jonathan Harris). Um site que busca frases em blogs do mundo inteiro contendo os termos “I feel” and “I am feeling” cuja dinâmica de interação – e portanto a narrativa – é totalmente conduzida pela forma como você escolhe filtrar os dados.

Eu acho isso lindo, sério. Dynamic storytelling. Quantas agências estão preparadas para lidar com dynamic storytelling? Que profissionais estão preparados pra isso? Comecei a pensar no que eu tenho que aprender para lidar com esse tipo de coisa, uma vez que eu não jogo videogame (porque vicia muito fácil).

baixa a versão em pdf aqui

E já que estamos na questão dos dados, posso passar para o workshop da Wunderman, os outros 25% que valeram a pena hoje. A primeira parte do workshop How To Think Digital (que na verdade era uma palestra porque, como em todos os outros, praticamente não há interação) foi dedicada aos 21 princípios da comunicação digital. Não vou listar todos aqui (tem aí no livro), mas pego o gancho dos dados porque o princípio de número seis dizia: Dataphobe? Get over it.

Ou seja, pó pará com essa frescura de fobia de dados e mergulhar nesse mundo. Porque num paradigma de comunicação onde há diálogo constante em vez de um monólogo que se encerra quando você vira a página do anúncio, também há feedback constante e esse feedback precisa ser processado e devolvido sob a forma de uma resposta mais rica – como quando conversamos com alguém.

Vamos deixar uma coisa clara: não se trata de conversar através de estatísticas. Conversas mediados por dados pode ser inspirador e poético, como, de novo, provam experiências tipo We Feel Fine.

(Pensando agora, vejo que no mundo antes exclusivamente offline, esse diálogo também acontecia, mas de forma muito mais lenta: o consumidor lia o anúncio e respondia sob a forma de consumo – ou abstenção de consumo – ainda registrando sua percepção de marca através de pesquisas. A partir daí, a marca respondia tentando corrigir ou enriquecer a experiência de comunicação anterior. Isso também é diálogo, mas é demorado pra burro.)

O lance da Wunderman, na real, era detonar sem dó nem piedade a publicidade em mídia de massa. As primeiras lâminas enfatizavam o desperdício de dinheiro que é um comercial de produtos segmentados na televisão quando há tanta dispersão de target. O cara foi bastante convicente, mas não parava de me vir à mente o fato de que isso é uma realidade bastante européia e americana, onde os consumidores tem (por questão de maturidade mercadológica) atitudes muito mais segmentadas como um todo. O Brasil, parece ter o mainstream entranhado na sua cultura: brasileiro gosta de ser mainstream, gosta de torcer junto na cpa, gosta de fazer parte de grandes grupos, assistir ao final da novela, aquela coisa.

Ao mesmo tempo, a economia brasileira está crescendo de tal forma que a segmentação é inevitável: mais opções, mais dinhero circulando, maior possibilidade das pessoas se habituarem (lentamente) a consumir em nichos.

Mas será que o Brasil vai perder sua vocação mainstream? Ou vai existir alguma coisa tipo segmentação mainstream?

Não sei o que eu quis dizer com isso. Mas eu disse.

***

Eu sei que não estou chegando a lugar algum, mas espera que no final do festival eu vou consolidar isso tudo em algumas linhas que estou definindo.

E agora, os outros 50% meio decepcionantes.

O primeiro evento da manhã prometia: três agências de mobile marketing da escandinávia se uniram para formar uma só companhia chamada More Mobile Relations. Só que a apresentação, de novo, foi mais 0111406 do que propriamente uma visão conceitual a respeito do ambiente móvel. Não por incompetência dos caras, mas mais reflexo da imaturidade desse mercado, ainda muito recente. Grande parte das apresentações desse segmento ainda precisam contar seus princípios básicos de funcionamento (é sempre sublinhada a necessidade de se trabalhar em cima de permissão do consumidor) e provar sua crescente aceitação, não sobrando muito espaço para vôos mais inspiradores.

***

Na tarde, meio que perdi meu tempo vendo o workshop do MySpace. De novo, foi interessante pra ver como eles se vendem, mas trouxeram quase nada de novidade e, pelo menos até o ponto em que eu fiquei, não houve qualquer interação dinâmica. O ponto alto da história foi ter ganho uma pen drive.

Mas era de 1GB.

Boa noite/bom dia.

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Conector Entrevista Jonathan Harris – Apêndice


Recortes de realidade


Grande parte da beleza de We Feel Fine está em colher dados matemáticos e fazê-los brotar na tela sob a forma de uma animação lúdica, formada por pequenos objetos geométricos coloridos dançando no melhor estilo “poderia ser alguma coisa do Flaming Lips”. A colisão de matemática com estética surge no trabalho de Harris como resultado de seus interesses pessoais (que misturam computação, exploração geográfica & humana do mundo, belas artes e contar histórias), mas se alinha com toda uma tendência atual de encontrar beleza na organização de dados.

O blog Infosthetics (http://infosthetics.com) é um dos pontos de conexão mais interessantes para quem costuma retirar mais informação do desenho dos gráficos do que do papo furado que os acompanha. Mantido pelo belga Andre Vande Moere, professor-assistente de Design Computing na Universidade de Sidney, os posts do Infosthetics reúnem periodicamente novidades em visualização de dados com a informalidade que um blog permite. Isso significa textos concisos e muitas vezes bem humorados, além da correlação de assuntos próximos, como videoclips inspirados em infográficos e outras áreas de arte eletrônica. Se você curtiu o assunto da matéria, o Infostethics é um bom ponto de partida para mergulhar nesse curioso mundo.

Outra dica interessante é o projeto The Dumpster, de Golan Levin. Usando recursos parecidos com os do We Feel Fine, The Dumpster rastreia blogs de jovens americanos em busca de posts que revelem um dos pontos de maior concentração de energia na adolescência: tomar um pé na bunda do namorado ou da namorada, “being dumped”. A interface gráfica chega a ser bem humorada: os posts que revelam o pé na bunda são traduzidos em bolinhas que “caem” o tempo todo, uma referência ao “dumped”, que pode ser traduzido por ser “jogado fora”.

Já o tênis Onitsuka Tiger aproveitou a onda e lançou o site madeofjapan.com, no qual mostra seus modelos de tênis construídos com fotos que tenham alguma coisa a ver com o Japão capturadas em sites e blogs.

Na outra ponta do espectro, está o Week In Review (http://www.weekinreview.org/), criado em Los Angeles e que traduz cada semana em uma folha de papel preenchida com impressões trocadas por qualquer que se disponha a aparecer no bar onde os participantes se encontram. O resultado parece mais o desenho de uma criança do ensino fundamental, mas não deixa de trazer um insight poderoso: meia dúzia de canetinhas e uma mesa de bar são a essência da web 2.0.



Alguns projetos de Harris

universe.daylife.com – O projeto mais recente de Harris parte de representações gráficas de constelações astrais para reunir imagens, textos e frases capturadas dos sites de notícias globais. O objetivo de Universe é determinar uma espécie de mitologia relacionando as pessoas e temas mais citados nas notícias com a idéia de mitos sendo contados no céu. Ambicioso e um tanto quanto complexo de navegar, mas faz pensar bastante sobre o peso real das figuras preponderantes na mídia mundial.

tenbyten.org – O mecanismo de busca de 10×10 coleta as 100 imagens mais representativas dos sites de notícias e as transforma em um grid de dez por dez fotos. Forma, assim, um instigante panorama visual diário da situação do planeta Terra vista sob a ótica do jornalismo na web.

wordcount.org – Esse site parte do database do British National Corpus, uma compilação de 100 milhões de palavras em língua inglesa do século XX coletadas das mais diferentes fontes. O Wordcount seleciona as 86.800 mais usadas e as coloca em ordem de uso em uma linha única horizontal. O mais legal é que você pode pesquisar palavras e descobrir sequências que formam frases curiosas como “SEX CLAIMED ORGANIZATION HOLDING” ou “RAP TUMMY MONTREAL DECORATIONS”.

oralfix.com – Não é propriamente uma investigação artística na web, mas uma incursão de Harris e dois amigos no mundo das pastilhas refrescantes. Segundo ele, o objetivo era simplesmente pegar um produto comum do dia-a-dia e torná-lo mais bonito e mais interessante.

number27.org – O site que compila todos os trabalhos de Jonathan Harris. Você pode ficar dias lá. Você vai ficar dias lá.

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Eu tinha me esquecido que a matéria seguia com mais essas info… agora tá tudo aí.

Não fiz hyperlinks de propósito.

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Conector entrevista Jonathan Harris – parte 2

Jonathan Harris nasceu e cresceu na bucólica Shelburne, rodeado pelas Green Mountains e pelo Champlain Lake, encantadores acidentes geográficos que ajudam o estado de Vermont a fazer fronteira com o Canadá. Mesmo saindo de lá e passando anos estudando ciência da computação na Universidade de Princeton, Harris sempre se viu mais como um contador de histórias e um artista do que propriamente como um técnico. Na sua busca por narrar, desenvolveu websites mais humanos para setores da universidade, uma mitologia para a marca de roupas Distilled Spirit e uma revista universitária que misturava turismo com arte e literatura, combatendo a xenofobia que se instalou nos Estados Unidos após o 11 de setembro. Harris também nunca parou de tentar fazer com que interfaces gráficas amigáveis e coleta de dados convivessem harmoniosamente, tanto em projetos comerciais (Daylife.com) quanto puramente investigativos

Conector: Geralmente quem trabalha com padrões e dados são pessoas que não têm um interesse na interface visual. Padrões são geralmente estudados mais em disciplinas matemáticas. Mas o seu trabalho é mais visual. Como você relaciona a visão mais humana, intuitiva e visual com os padrões matemáticos?
Harris: A representação visual permite que os padrões sejam compreendidos por mais gente. Eu estou interessado em comunicar idéias da forma mais simples, lúdica e clara possível. Assim mais gente se interessa por essas idéias.

Conector: Enquanto eu navegava nos seus projetos, eu tive a sensação de que as pessoas precisam se educar no seu sistema para realmente se conectar com seu trabalho. Quero dizer que não basta sair clicando por alguns segundos, abrindo páginas e escaneando o conteúdo com os olhos. É preciso ler os manifestos, entender o que está por trás e se acostumar com a ferramenta. É quase como se a pessoa tivesse que imitar o seu jeito de pensar. Por que isso?
Harris: As pessoas desenvolveram um tempo de atenção muito curto na internet, então geralmente elas esperam tirar conclusões a respeito do que elas vêem em poucos segundos. Mas meu trabalho não se parece com nada que elas viram antes, então leva algum tempo até você se orientar. Isso é normal. Eu luto para produzir trabalhos que são, como diz Golan Levin, “instantâneos no reconhecimento e infinitos no potencial de maestria”. Por exemplo, o piano e o pincel: são ferramentas que uma criança pode pegar e usar, mas que um virtuose vai passar sua vida inteira tentando dominar. Além disso, eu não quero que meus trabalhos recebam a mesma atenção superficial que recebe um vídeo no You Tube. Eles demandam mais de quem entra em contato com eles, mas por outro lado também oferecem muito mais. Há muitas sutilezas, muitas camadas, há reentrâncias e fissuras a serem exploradas.

Conector: Como você separa seu trabalho comercial do trabalho comercial? Um alimenta o outro? Como funciona?
Harris: Eu tenho tido bastante sorte nisso… tenho sido pago para desenvolver trabalhos como Yahoo Time Capsule, Phylotaxis e Daylife que exploram as mesmas questões do meu trabalho mais pessoal. Tenho conseguido andar sempre na mesma direção, seja por amor ou por dinheiro.

Conector: Onde você costuma trabalhar?
Harris: A maior parte do meu processo criativo acontece em parques, caminhadas, cafés, restaurantes, observando pessoas, ouvindo pessoas. Primeiro eu desenvolvo minhas idéias no papel e só sento no computador quando estou certo do que eu quero fazer. Eu acho difícil pensar criativamente direto no computador.

Tibor Kalman, tbem uma das inspirações deste blog

Conector: Quem inspirou e quem ainda inspira você?
Harris: Bob Dylan, Tibor Kalman, Hayao Miyazaki

Conector: Eu vi que você já viajou bastante. Em que cidade você adoraria viver?
Harris: Eu sou um garoto do campo. Eu vivo em Nova Iorque agora, mas nasci em Vermont e espero me mudar de volta pra lá algum dia. Eu também adoraria morar numa casinha no morro no sul da França, com uma esposa maravilhosa (ainda estou à procura!), onde a gente pode trabalhar todos os dias, cozinhar toda noite e conversar sobre tudo bebendo um bom vinho tinto.

Conector: Por que você se considera um “contador de histórias”?
Harris: Histórias são, em última instância, sobre ajudar as pessoas a enxergar suas similaridades em vez das diferenças. E meus trabalhos tentam ilustrar as similaridades que existem no mundo – todos nós amamos ou ficamos tristes de vez em quando, todos acreditamos em alguma coisa. Quando as pessoas começam a pensar dessa forma sobre seus vizinhos do outro lado da rua e do outro lado do mundo, o sentimento de “estrangeiro” se dissipa e um âmbito comum emerge. E eu acho que esse âmbito comum, que se alcança contando histórias, é a melhor esperança que temos para o futuro.

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Conector Entrevista Jonathan Harris – parte 1


O da esquerda é o Harris. O da direita é o Kamvar. Os dois são os responsáveis pelo We Feel Fine, um dos projetos mais interessantes em termos de investigação humana da web. Entrevistei o Harris por email há alguns meses e o texto foi pra versão impressa da Mais Soma. Reproduzo-o aqui em forma de remix. Reorganizei a ordem do texto pra facilitar a leitura no blog (vc me conta se funciona ou não…) , mas sugiro que você dê um jeito de arrumar uma Mais Soma, vale conhecer a revista – que é gratuita.

Na conversa, Harris esclareceu a relação entre dados e estética, fala sobre o gap que existe entre mundo online e offline, cita suas inspirações e explica por que se define como um contador de histórias.

***

Um prenúncio de tempestade toma conta da cidade no fim do dia. As nuvens estão carregadas e o lixo é jogado de um lado para outro pelo vento que também forma redemoinhos junto ao meio fio. Pó está sendo espirrado nos nossos olhos. Está um pouco mais difícil de enxergar, de respirar, de parar pra pensar. São seis da noite. De vez em quando, um folheto vem voando até as nossas mãos. Na maior parte do tempo, é publicidade barata. Mas num dia mais iluminado, podemos ter a sorte de nos tornarmos o destino do pedaço da vida de alguém na forma de uma folha de agenda rasgada, um naco de bilhete com uma mensagem de amor ou quem sabe uma receita médica de tarja preta. Um fragmento com essa qualidade que consegue abrir caminho no meio dessa bagunça tem a propriedade de nos conectar instantaneamente com uma outra vida, com as angústias, compromissos ou amores de um outro ser.

Na rua, isso acontece de forma inesperada e caótica. Na internet, o que era pra ser um acidente pode se tornar um ato deliberado de conexão humana se você digitar wefeelfine.org. Inicialmente, você será jogado em um ambiente tomado por palavras e imagens aparentemente desconexas. Mas à medida em que sua testa se franze, seus ombros se encolhem e seu corpo se debruça física e mentalmente sobre o conteúdo do site, você começa a enxergar pontinhos coloridos que dançam na tela e reagem ao seu mouse como pequenos organismos unicelulares que carregam vidas concentradas. Você clica e uma frase é destacada.

Conector: O que move você a fazer coisas como We Feel Fine e Ten byTen?

Harris: Há tempos que eu comecei a notar que a web, geralmente vista como um espaço frio e sem humanidade, na verdade reúne uma quantidade absurda de expressão humana. E fiquei interessado em revelar essa humanidade escondida. Desde então, a maior parte do meu trabalho envolve a análise de dados em larga escala para produzir insights a respeito do mundo humano e não do mundo dos dados.

Conector: Qual sua motivação por trás da busca de padrões humanos no meio do caos de informação?

Harris: O mundo está submerso em informação e isso pode ser sufocante. Recursos como padrões, listas e “zeitgeists” permitem que a gente gerencie um pouco melhor o caos. Além disso, padrões também podem oferecer insights a respeito de quem somos, o que nos preocupa, como nos sentimos, como nos comportamos, geralmente revelando aspectos nossos que ainda não percebemos. Isso leva a uma melhor compreensão de nós mesmo e do mundo.

Conector: Então você acha que “Human behaviour is pattern recognition”, como disse William Gibson no romance Pattern Recognition?
Harris: Numa escala maior, sim. Mas numa escala menor, as pessoas são maravilhosamente surpreendentes.

Conector: Seu objetivo é tocar as pessoas ou apenas expressar seu ponto de vista?
Harris: Eu não tento forçar meu ponto de vista. O que faço é criar sistemas que têm limites, ainda que caóticos e abertos dentro desses limites. Dessa forma, cada pessoa que acessa meus sistemas os experimenta do seu próprio jeito.

Conector: O que você está tentando dizer com isso?
Harris: Em vez de apresentar conclusões sobre o mundo, eu estou mais interessado em produzir sistemas que levam as pessoas a desenhar suas próprias conclusões sobre o mundo.

Conector: Como você acha que isso toca as pessoas?
Harris: Eu acho que realidades tocam as pessoas. Então tento fazer com que meu trabalho reflita a realidade. Isso pode ser muito inspirador, porque a realidade é muito inspiradora.

Estamos compartilhando um pouco da visão de mundo de Jonathan Harris. Mas não foi Harris que escreveu a frase acima. Na verdade, junto com o Especialista em Personalização do Google Sep Kamvar, ele criou o site que pinçou esse momento particular. O projeto de Harris e Kamvar parte de um software que rastreia a internet de dez em dez minutos, buscando em blogs frases que contenham as expressões “I feel” ou “I am feeling”. O pequeno espião poético aproveita a viagem e captura também (se houver disponível) alguma imagem e informações básicas do post como local, horário e sexo de quem escreveu. Pra terminar, ainda cruza essas informações com a previsão do tempo local.

Mesmo quando não encontra todos esses dados, We Feel Fine oferece interessantes recortes da realidade. Com uma frase prosaica e uma informação simples, se contróem pontes para momentos do dia de alguém que você nunca viu e nunca verá na vida. Mas que, curiosamente, podem lembrar muito de coisas dentro de você.

Conector: Você tem mania de procurar padrões no seu dia-a-dia? Como uma prática pessoal?
Harris: Sim, eu vejo padrões em tudo.

Conector: Por exemplo…
Harris: Quando eu caminho pela cidade, ou ando de metrô, ou estou sentado no parque, eu sempre fico observando as pessoas, procurando por similaridades nas roupas, nas conversas, na postura, no comportamento. Às vezes isso até me atrapalha porque em vez de aproveitar as situações eu fico analisando, procurando padrões e significados quando geralmente o melhor é simplesmente relaxar e viver a vida. Estou tentando mudar isso.

Conector: Marshall McLuhan diz que “O ambiente é invisível”. A web é seu ambiente?
Harris: Não, não estou interessado na web desse jeito. Eu simplesmente uso a web porque atualmente é o melhor reflexo do mundo que eu posso encontrar.

Conector: Mas esse mapeamento que seu trabalho faz acaba sendo parcial porque muita gente não está conectada ainda, especialmente no terceiro mundo. Os mapas gerados pelo We Feel Fine deixam isso muito claro. Qual a sua preocupação quanto a isso? Você acha que o padrão dos blogs reflete o padrão do mundo offline?
Harris: Não. Eles representam o mundo dos blogs, que de fato não é uma representação exata do mundo offline. Mas, no momento, é a melhor representação da realidade global que existe. Eu acredito que o mundo se torne mais conectado ao longo dos próximos anos e, na medida que isso aconteça, acredito que o mundo online se aproxime mais da realidade offline.

(continua amanhã)

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