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Arquivo: Limites da cultura digital

Os limites da cultura digital 3

Semana retrasada postei uma suposta frase de efeito (hábito de ex-redator) no Twitter e agora apareceu um tempo pra poder explorar um pouco mais.

A frase me surgiu enquanto eu lia o post do Cris Dias onde ele conta como o Twitter e o Iphone o ensinaram a não se estressar com o excesso de informação. Bem, eu nunca recomendaria que alguém comprasse um iPhone pra não se estressar (e não é essa a idéia de Dias), mas o post tem um ponto de partida bastante interessante, que é o fato das notícias realmente relevante acabarem aparecendo na sua frente uma hora ou outra. Tem tanta gente postando, repostando e repassando coisas, que não precisa nem se preocupar em assinar centenas de feeds (eu não assino essas nabas) ou visitar centenas de sites: um ou dois bem escolhidos dão conta do recado e abrem portas bastante interessantes que podem ser visitadas com mais calma.

(Isso me lembrou uma entrevista do Moacyr Scliar de muitos anos atrás, no qual ele declarava não andar com um bloquinho no bolso pra anotar idéias, como reza o clichê do artista inspirado. Se a idéia for realmente promissora, diz, ela fica voltando à sua mente e aí uma hora você vai poder confrontá-la com o papel e ver, aí sim, se presta. O Woody Allen, no livro de entrevistas do Eric Lax, fala a mesma coisa. E se não basta o Moacyr Scliar e o Woody Allen pra te convencer de alguma coisa, não sou eu quem vai conseguir.)

Bem, voltando à questão do excesso de informação. Regular suas fontes de informação é uma questão sua, não sou eu quem vai dizer quais são os sites que mais valem a pena. Mas uma coisa eu me dei conta ao longo dos últimos anos e vamos ver se vale pra ajudar nos seus critérios: os sites de pessoas que pensam e geram conteúdo são muito mais valiosos, têm links muito mais interessantes e pontos de vista mais frutíferos (na verdade, têm ponto de vista) do que os sites que simplesmente colam vídeos, notícias ou referências visuais sem nenhuma reflexão ou edição mais cuidadosa. Desses, eu fujo.

Aplicar tempo em sites com conteúdo bem pensado é um benefício em vários aspectos: primeiro, você é obrigado a parar por alguns minutos pra ler e entender alguma coisa em vez de ficar clicando initerruptamente feito um zebu louco; e segundo, se a pessoa pensou mais, geralmente é porque ela passou por outros lugares interessantes (digitalmente, fisicamente, mentalmente) e vai lhe oferecer alguns caminhos, tem algo a contribuir.

Ok, até aqui tudo bem.

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Contuuuuuudo… se descermos um pouco mais no espiral de sutileza dessa discussão, vamos chegar em uma camada mais complicada que é, no fundo, a raiz de toda a ansiedade: a necessidade de ter credenciais, de ser o primeiro a saber. Sem dúvida, muitos dentre nós têm profissionalmente que saber das coisas antes. Isso faz parte do trabalho de grande parte dos publicitários e designers, por exemplo. O problema, e isso eu falo por experência própria, é quando a necessidade profissional de informação de primeira mão se mistura com a necessidade de credenciais particulares e, dessa forma, o espaço de reflexão e de vivência mais humana é ocupado pela pura ansiedade de saber antes. O Eduf fala muito disso.

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É nesse ponto que entra o equipamento descrito na tal suposta frase de efeito do Twitter. A meu ver, ainda não inventaram melhor software ou hardware pra lidar com ansiedade de informação do que o simples, efetivo e gratuito botão do foda-se.

O botão do foda-se é extremamente útil em momentos de sobrecarga mental. Ao mesmo tempo, não é muito fácil acioná-lo. É fácil, na verdade, pensar que você o acionou. Sobrecarga, desespero, botão do foda-se. Sobrecarga, desespero, botão do foda-se. Sobrecarga, desespero, botão do foda-se. Epa. Se ele precisa ser apertado muitas vezes, talvez seja porque não apertei direito das primeiras vezes. O botão do foda-se é difícil porque ele PARECE ter sido apertado muitas vezes quando não realidade não foi, foi apenas acariciado.

Mas isso rende muito. Por enquanto, eu fico com o que eu posso, que é o botão do delete. Delete, delete, delete, delete, delete. O deleite do delete.

Com essa piada horrorosa e sem um fechamento decente, eu me despeço. Até.

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Os limites da cultura digital 2

Ele é incrível. Faz de tudo. Atende aos comandos dos nossos dedos. Faz barulhinhos sintetizados quando algo dá certo ou dá errado. Toca música, filminho e mostra foto. Guarda música, filminho e foto. Muita música, muito filminho e muita foto. Ah, o computador.

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O computador é distração de gente grande. Sim, informa, educa, ajuda a comunicar, a construir e derrubar governos, a terminar monografias e teses, a realizar sonhos e administrar empresas. Mas também distrai. Distrai pra cacete.

Não apenas o computador, mas seu rosto, sua interface com o mundo, as telas. Sacanas. Telas, em geral, são ladras de atenção por excelência. Desde o tempo da TV. Experimente jantar em um restaurante com uma tela por perto. Elas são irresistíveis, com suas imagens coloridas em movimento e seu brilho hipnotizante. O primeiro bem subtraído na presença de uma tela é o ambiente, o segundo patrimônio perdido são as pessoas ao redor, mas o terceiro e talvez mais problemático fator esquecido é nosso próprio corpo. Se na frente da TV o corpo facilmente vira uma geléia, um mero acessório para segurar os olhos e os ouvidos, ao menos ele geralmente se encontra em uma posição de relativo conforto, jogado no sofá ou na cama cercado de almofadas. Mas, em frente à maior parte dos computadores e celulares, o corpo geralmente se torna uma estrutura alheia, corcunda e tensa, fadada a respirar mal e a desenvolver uma série de problemas.

E é aí que entra o post anterior sobre o assunto dos limites da cultura digital: é uma cultura pouco afeita à limites e isso inclui a relação do usuário com o seu corpo. Com o olho grudado na tela, a mente é agitada de tal forma que parece não se cansar. Pulando de site em site, de arquivo em arquivo, em uma sedutora sequência aparentemente eterna de hyperlinks, é possível consumir um pouco de cada coisa sem se aprofundar em nenhuma e dessa forma perder a medida das horas, ficando ligadaço, desrespeitando completamente os avisos do corpo: ombros tensos, dedos doloridos, antebraço ardendo, respiração curta, coluna curvada para a frente. Uma hora, a fome, ou o namorado, ou o despertador, ou o cansaço extremo dão o alarme e você precisa levantar, desgrudar da tela. Mas a mente continua ali ainda por um bom tempo, ligada e amortecida ao mesmo tempo. O corpo, por sua vez, leva junto a postura ruim, o inspirar e expirar combalidos e as dores como suspeitos troféus às vezes exibidos com um questionável orgulho.

A dica para evitar esse problema, que dá origem a muitos outros, é só uma: tomar consciência do corpo. Lembrar que ele existe. Prestar atenção em como ele se acomoda. O corpo é inteligente e cada pessoa sabe de seus limites, basta prestar atenção. Esse é o problema hoje em dia. Prestar atenção.

A respiração é um guia poderoso para a atenção: se ela está curta demais, não está bem. Se está cheia de pausas demais no meio da inspiração e expiração, não está bem também. Um corpo curvado não respira bem. Uma cabeça baixa durante muitas horas faz erguer e tensionar os ombros. Não respirar direito também tensiona os ombros. Ficar horas e horas jogado numa cadeira meio torto com os olhos grudados na tela é um pedido por escrito pra se incomodar mais adiante. Mas ficamos tão dentro da tela que esquecemos completamente do corpo, da respiração, das costas. E só lembramos ao levantar suspirando pesado, soltando ais e uis com surpresa.

Parece papo new age, mas eu acho que é muito mais simples e direto: causa e consequência. Fique assim que você levantará assado. Falar em prestar atenção na respiração parece algo ridículo. Como assim prestar atenção em algo que eu faço automático? Esse é o problema. O automático. Quem faz as coisas no automático é computador. Pessoas fazendo coisas no automático, bem, acredito que para os leitores desse blog não precisamos entrar nos detalhes desta questão. Até porque isso rende outro texto.

Tentando dar um fechamento ao post, então.

1) Sobre valorizar a atenção.

A atenção é um de nossos bens mais preciosos. É o que a indústria da mídia mais preza e o que mais custa caro. A sua atenção por 30 segundos custa uma fortuna na TV e está se valorizando na internet. Faz bem escolher onde aplicar a atenção, não tratá-la como uma balinha de 10 centavos.

2) Telas são ladras de atenção.

Mas o ponto aqui não é que elas roubem atenção somente de outros aspectos do ambiente ou de outras pessoas. Telas roubam nossa atenção de nós mesmos. Mergulhamos nas telas e esquecemos completamente do nosso corpo, por exemplo. Em alguns casos, isso traz prejuízos para o corpo e para a capacidade de prestar atenção.

3) A respiração é um guia confiável

A forma como respiramos reflete nossa posição de corpo e mente. Um corpo agitado respira de forma rápida e inconstante. Uma mente agitada também. O contrário também é verdade: acalmar a respiração influi na batida do corpo e da mente. Mas nem precisamos ir tão longe. Simplesmente prestar a atenção na respiração já muda o quadro em que estamos metidos.

Por hoje é isso. Talvez eu expanda esse post mais adiante. Talvez não. Vamos ver. O que vocês acham?

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Imagens roubadas do Flickr do Guilherme Dietrich, dica do Fernando Ribeiro.

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Os limites da cultura digital

Essa imagem aí de cima é o hexagrama de número 60 do I Ching*. Chama-se Chieh. Limitação. Richard Wilhelm, tradutor e sinólogo alemão do início do século passado, cujo trabalho com o IChing é respeitado e utilizado como referência até hoje, não apenas traduziu mas explorou o conciso significado desse hexagrama em parágrafos como este:

“Possibilidades ilimitadas não são próprias do homem. Caso fossem disponíveis, levariam a vida humana a dissolver-se na indeterminação. Para que o homem se fortaleça, sua vida necessita de limites impostos pelo dever e aceitos voluntariamente. A pesoa humana só adquire relevância enquanto espírito livre quando se impõe limites e determina de forma espontânea o seu dever.

(…)

Limitações são também indispensáveis para a ordenação das circunstâncias do mundo. A natureza tem limites fixos para o verão e o inverno, para o dia e a noite, e são esses limites que dão sentido ao ano.”

Faz parte da natureza humana aprender a lidar com limites. A atual cultura digital, entretanto, está apresentando novos desafios no que diz respeito a estabelecer, burlar e equilibrar a relação com limitações. A cada dia, cerca de meio milhão de pessoas acessam a internet pela primeira vez. A cada minuto 13 horas de vídeo são disponibilizadas no YouTube. A cultura digital é uma locomotiva. Descendo a ladeira. Com um maquinista louco tocando-lhe lenha na fogueira e pedindo a todos que saiam da frente.

Traduzindo a metáfora, quero dizer que está se configurando um cenário no qual em breve muitos (ou todos) terão acesso a uma abundância virtual que não teve, não tem e nunca terá paralelo no meio físico. Muitos de nós, habitantes do planeta Terra, nunca teremos tanto dinheiro, tantos carros, tanta roupa e tantos imóveis quanto uma elite economicamente privilegiada. Mas todos logo poderemos ter, gradativamente, tantos livros, tantos vídeos, tanta música, tantos jornais e tantas revistas quanto quisermos, devido à digitalização da produção, distribuição e consumo da informação. Desse ponto de vista, estamos claramente adentrando no que alguns especialistas (e outros metidos) chamam de era da abundância. Urrú.

Por outro lado, todo sistema com abundância de um elemento leva a escassez de outro. No caso, a abundância de informação leva a escassez de atenção. Temos uma vasta oferta e uma fome interminável, porém uma capacidade cada vez mais limitada de prestar atenção e investir tempo no consumo de todo esse manancial que nos está sendo ofertado. Estamos à frente de um banquete, beliscando rapidamente um pedacinho de tudo que nos põem na frente, maravilhados com a variedade e quantidade de sabores, mas perigando perder lentamente a noção de desfrute.

Até pouco tempo atrás, a palavra consumismo era associada a um comportamento compulsivo de compra. Entretanto, é hora de alargar essa convenção e começar a incluir também o que é absorvido ou adquirido sem pagar nada. Todas as páginas de internet. Seus vídeos. Os arquivos de MP3. As imagens. Quais são as reais diferenças entre um closet abarrotado de vestidos caros que pouco serão usados e HD’s inteiros de seriados, filmes e música que, da mesma forma, precisariam de algumas centenas de anos para serem desfrutados e não apenas consumidos rapidamente?

A tendência de clouding não melhora em nada o prognóstico. Se efetivamente não precisarmos mais guardar nada em nossos HD’s, andaremos por aí como proprietários mentais de uma quantidade absurda de informação. Como crianças mimadas, o mundo será nosso e o acessaremos quando e como quisermos. Isso é excitante ou preocupante? Você já viu no que se transforma uma criança cujos pais dão tudo o que ela quer, na hora em que ela quer e na quantidade que ela quer? Agora imagine sociedades inteiras educando-se assim.

Obviamente o ponto central da questão não é, em hipótese alguma, a digitalização, mas sim os botões que ela aperta em nós. Buscar o ser sem limites foi sempre, desde o início dos tempos, uma ocupação constante tanto em termos físicos como existenciais. Mas uma coisa é buscar o ser sem limites. Outra, bem diferente é o ter sem limites. Embora nos últimos 50 anos de sociedade do consumo, esses verbos tenham se confundido, em nada sua essência foi mudada. Ser e ter são aspectos tão diferentes que nem mesmo uma incrível conexão banda larga de alta velocidade pode, de fato, uni-los.

O caminho mais inteligente não passa, lógico, por interferir ou demonizar a velocidade da evolução digital. O caminho mais inteligente, como sempre, é prestar atenção. Apenas olhar e prestar atenção. Só isso já faz toda a diferença e transforma completamente qualquer experiência.

A atenção, a presença do corpo e da respiração junto à mente (que, vagando indefinidamente não traz satisfação, só mais necessidade), são a peça de resistência contra o novo consumismo que trocou o dinheiro pelo déficit de atenção como pilar central de sua existência.

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PS: O I Ching não é da Apple e não tem nada a ver com Ipod.

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