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Viajante

Jabazão: fotos do meu amigo Daniel Martins. Sempre fui fã das imagens produzidas pelo cara, mesmo antes dele não assumir sua porção fotógrafo.

A grande questão é que o Daniel sempre foi um viajante. Desde sempre. E isso aparece nas fotos dele. Não são fotos com um olhar de viajante.

São fotos de alguém que tem alma de viajante.

E finalmente reunidas num livro.

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O livro, até onde sei, não está à venda por aí. Se alguém quiser saber como conseguir uma cópia, deixe um recado nos comentários.

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Crooked Cucumber

Shunryu Suzuki foi um mestre budista da tradição Soto Zen enviado de uma área rural do Japão pra San Francisco, nos EUA, em 1959. Sua missão: ministrar alguns poucos rituais semanais e tomar conta dos funerais e casamentos de uma congregação de imigrantes japoneses . Ou seja, o cardápio básico da atividade na maior parte dos templos e congregações da época.

Mas, veja bem, estamos falando de 1959 e da cidade de San Francisco. Nessa época, o budismo começava a extrapolar as tradições imigrantes nos Estados Unidos, especialmente através de intelectuais universitários e escritores beat. Um ano antes, Jack Kerouac publicou seu segundo romance, Os Vagabundos do Dharma, no qual o poeta (e em seguida mestre zen budista) Gary Snyder aparecia como figura central da história, com uma retórica marcada pela filosofia oriental. O também poeta beat Allen Ginsberg aproximava seu texto e sua vida do budismo tibetano. E isso era apenas a ponta do tal do iceberg. Ali, a cidade já cozinhava a mudança cultural que viria marcar sua história, efetivando a transição da geração beat, acelerada, urbana, insone e ácida, para os hippies e sua batida lisérgica, mágica e transcedental.

A busca pela quebra de hierarquias conceituais e sociais, bem como a luta pelas liberdades civis, davam o tom da juventude daquela era. Pra uma audiência esfomeada por ideais, os ensinamentos do Buda sobre liberdade formavam um exótico e atraente banquete. Mas a congregação de imigrantes que Suzuki Roshi deveria liderar não compartilhava dessa efusividade. Sendo assim, um ponto de tensão instalou-se rapidamente no Soko-ji. Até então o único templo zen budista da região, o Soko-ji também mostrou-se pequeno demais pra acomodar a) uma comunidade sinceramente mais interessada em tradições do que na luta contra elas b) uma turma de jovens americanos de classe média buscando liberdade de padrões.

Essa tensão é o ponto central de Crooked Cucumber (47 moedas na Cultura!), biografia de Suzuki Roshi escrita com um bom humor e uma riqueza de relatos impressionantes pelo seu aluno David Chadwick. Nem de perto essa tensão é o único atrativo do livro, muito embora eu, garoto ingênuo, achasse que sim. Confesso, como vou mentir sobre isso?, que abri o livro em busca da história rocambolesca de um velhinho oriental e sua trajetória em meio à efervescência da cena beat. Mas encontrei muito, muito mais. A vida de Suzuki Roshi, como a dos grandes mestres e praticantes espirituais, desafia o conceito hollywoodiano de aventura que está encrustrado na minha mente.

Na verdade, pelo menos metade do livro explora a infância, a adolescência e parte da vida adulta do Suzuki Roshi no Japão, contando seu treinamento monástico, seu histórico familar e as imensas dificuldades de ser um líder religioso em um país conturbado. O mito do mestre zen que vive isolado em um cotidiano tranquilo e sem sobressaltos é sumariamente desfeito, página após página. Pra deixar mais claro: o cara comeu o pão que o diabo amassou, enfrentando a burocracia e o conservadorismo do sistema religioso da época no Japão, as dificuldades inerentes de um país em guerra, os desafios de ser chefe de família e líder religioso simultaneamente e, o mais impressionante, encarou uma série de eventos trágicos na sua família ou entre seus alunos alunos que transformaria a maior parte de nós em pessoas amargas e desesperançosas, duas palavras que não passam nem perto de refletir o espírito de Crooked Cucumber.

A partir da chegada nos Estados Unidos, o livro fica mais familiar – surge o contexto cultural americano e californiano da época – mas não menos surpreendente. No início, são poucos alunos ocidentais dividindo espaço com a congregação de imigrantes. As diferenças culturais são claras, mas as atividades não são tão intensas a ponto de causar uma cisão. Com o passar de algum tempo, entretanto, a disposição crescente de alguns dedicados jovens americanos para sentar e meditar contrasta de forma desconfortável com os rituais mais tradicionais dos imigrantes. Assim, as diferenças se acirram, Suzuki Roshi é chamado a fazer uma escolha e a preferência pela meditação como caminho escolhe por ele: sua nova casa é um grupo de jovens praticantes ocidentais leigos dispostos a entregar-se a uma exigente prática que no Japão era exclusiva de monges.

A partir daí, é tudo como um recomeço. Um eterno recomeço. Uma nova comunidade em uma nova cultura com novos desafios. O fato de ter encontrado alunos dedicados à sua visão de prática espiritual não quer dizer que o caminho tenha sido menos pedregoso para Suzuki Roshi.

O mais incrível, nessa biografia cheia de histórias curiosas e pitorescas, não é o que nos faz diferentes do seu protagonista, mas tudo aquilo que nos liga a ele, que nos faz parecido com ele. E isso é uma coisa bonita, porque justamente uma das crenças básicas do budismo é que todos – todos mesmo, budistas ou não budistas, amáveis ou violentos- temos a capacidade inata de despertar, de alcançar a liberdade de identidades e visões estreitas. Como nós, Suzuki Roshi veio, nasceu, cresceu, passou por dores comuns à raça humana, errou e acertou, foi criticado, foi elogiado, enfrentou obstáculos que vão de guerras a problemas domésticos. Por isso, o livro é rico. É uma biografia, mas também são ensinamentos vivos. Mostra o lado misterioso e insondável do mestre bem como seus aspectos mais humanos – os detalhes em dourado e as rachaduras.

Como é comum na tradição do zen budismo, Crooked Cucumber traz mais de 400 páginas que poderiam tranquilamente ser traduzidas em uma frase:

“Nem sempre assim”.

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Alguns toques finais ao post.

A tradição Soto Zen, de Suzuki Roshi, tem centros de prática, templos e professores reconhecidos no Brasi. Mesmo não-budistas devem ser familiares com a figura da Monja Coen. O site da comunidade Soto Zen no Brasil é o Zendo Brasil.

Aqui na região de Porto Alegre, conheço bem o trabalho do Via Zen e um pouco do Zen Vale dos Sinos.

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Ano passado, publiquei meia dúzia de posts sobre biografias de praticantes budistas, um tipo de leitura que tem me feito muito bem no sentido de aprender com o exemplo, com a sabedoria viva de quem confronta os ensinamentos do Buda com questões eminentemente práticas e cotidianas. Já escrevi aqui sobre os relatos de vida de Issan Dorsey (ordenado na linhagem de Suzuki Roshi), sobre as idéias do Fleet Maull, sobre o livro do Jack Kornfeld que conta o lado b da espiritualidade, sobre as histórias de um ex-monge na India, de um chef-mestre-zen (outro da linhagem de Roshi) e também comentei a biografia e o documentário sobre a monja Tenzin Palmo.

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Feliz Páscoa

Esse é o tipo de doce que eu desejo pra vocês nesse feriadão.

(Peguei aqui.)

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Sobre ir fundo em camadas horizontais

David e Maggie Loony se conheceram, namoraram e viveram casados por 40 anos. Ao longo desse tempo, tiveram três filhos, Dennis, Claire e Peter, que foram criados em uma casa de três andares na praia. Agora, beirando os 70 anos, papai e mamãe Loony chamam os filhos de volta à casa para um último aviso: eles estão se separando. Dennis pira, Claire reflete sobre o próprio divórcio e Peter… bem, Peter é o único que não é retratado com uma cabeça humana, mas com a de um sapo. E, não sei se tem a ver com isso, Peter encontra uma oportunidade de respirar.

Umbigo sem Fundo é isso: pura investigação humana usando como ferramentas a dissolução, a manutenção e a construção de laços familiares, usando um arsenal de escolhas narrativas e estéticas que faz o livro não parecer as 720 páginas que tem. Como objeto, Umbigo Sem Fundo é pesado e chato de carregar. Mesmo assim, eu o levei pra ler na praia, porque, como obra, a densidade e o peso do assunto são temperadas com um olhar amplo que empresta leveza e espaço pra que qualquer leitor (mesmo que não seja americano e filho de pais idosos se separando) possa se identificar com algum aspecto do impacto da decisão de David e Maggie. Conscientemente ou não, o que o jovem autor Dash Shaw fez foi transformar os meandros dolorosos da micro-saga dos Loony em um buffet de pequenas questões universais que pode ser acessado – como os bons buffets – por vários lados.

E assim o mundo anda. Página após página, podemos observar o desdobramento do divórcio dos Loony através diversas camadas: temos o discurso, as palavras, o que é dito pelos personagens; temos as onomatopéias, que são tão presentes na história como os ruídos do dia-a-dia são em momentos embaraçosos; temos as escolhas anatômicas dos personagens (Dennis é meio Homer Simpson, Peter é meio Caco dos Muppets); temos as decisões estéticas e técnicas de linguagem de quadrinhos (Shaw usa quase tudo que é possível usar); temos os cenários, os móveis, o céu, a areia, o mar, todos fazendo as vezes de apoio visual para pequenos dramas; e, por fim, temos a casa dos Loony, personagem fundamental na trama por servir de território de busca física e emocional, de Dennis e sua sobrinha Jill.

Pra completar, o traço de Shaw ainda se localiza numa espécie de limbo técnico: parece rascunho, mas é detalhista; é detalhista, mas parece relapso; é relapso, mas bate fundo. Como se isso não bastasse, a edição brasileira (talvez a americana também, não sei) vem impressa (por quê?) em uma cor bege, o que é perfeito para o tom da história já que pouca coisa entre os Loony é, em termos de sentimentos, só preto ou branco.

Bom, a essa altura talvez você já tenha notado… uma família disfuncional, uma casa na praia, um narrador que oferece espaço para a história se desenrolar e gosta de usar cenários e objetos como personagens. Se você juntar A com B, vai perceber que Umbigo sem Fundo se insere em toda uma linhagem americana de autores que trabalham dessa forma. Nos quadrinhos, já falei aqui sobre a recente Fun Home (aqui e aqui), por exemplo. No cinema, não é difícil lembrar de Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia, e Tempestade de Gelo, Os Excêntricos Tennenbauns, pra ficar em algo recente (alguém lembra de coisas mais antigas nesse sentido?) Se algum desses títulos calou fundo aí, não pense duas vezes sobre adquirir o pesado tomo de Umbigo sem Fundo. Também é um bom presente de Natal para um amigo ou parente que gosta de boas histórias desenhadas.

Exemplares autografados por Shaw durante a Bienal do Rio.

Uma última nota curiosa: diferente do que esse tipo de graphic novel/filme/romance possa sugerir (e quanta terapia disfarçada de literatura se faz nesse sentido!), Dash Shaw disse em entrevista à New Yorker que o livro não é autobiográfico. A família do autor sempre foi tranquila, seus pais estão juntos até hoje e, segundo ele, tem muito pouco dos Loony. O que talvez explique a poesia de Umbigo Sem Fundo: pra enxergar com tantas nuances certas tragédias, é preciso 1) a capacidade de se distanciar ou 2) estar de fato distante delas.

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Bom, aqui tem dois links interessantes caso você queira ir um pouco mais adiante. Mas minha sugestão é a seguinte: leia o livro primeiro, depois explore as entrevistas.

Em todo caso, aqui estão elas.

Em inglês, pra New York Magazine: How Dash Shaw Wrote The Graphic Novel of The Year.

Em português, pro Grito.

E também, pra facilitar sua vida, comparação de preços no Buscapé.

Boa leitura.

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Imperfect Basterds

A noção de lixo reciclável acaba de ganhar um novo significado. Foi lançado este ano pela editora americana Mark Batty o livro Glitch: Designing Imperfections. Glitch traz 206 imagens de telas de erros de computador formaram desenhos interessantes sem querer. Por exemplo: sistemas que deram pau, programas que travaram ou desenhos que foram corrompidos pela máquina. São pixels desorganizados, problemas que aos olhos de um bom editor foram reunidos como um material gráfico inspirador.

A bem da verdade, eu ainda não botei as mãos nesse livro. Mas adorei o conceito. Porque acho que é bom a gente se acostumar com esse tipo de coisa. Com tanta tecnologia nova surgindo, durante muito, muito tempo o erro vai acontecer com mais frequência do que o acerto. E, embora seja cool falar que “erro é legal”, o fato é que erro geralmente dá frio na barriga e perna mole. Então ao menos é bom ver o desconforto compensado por um olhar benevolente e positivo.

Mas, vamos ver pelo lado bom: ao poucos, estamos nos tornando especialistas nesses erros. É isso aí minha gente! Nenhuma geração vai errar tão bem nos meios digitais como nós!

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Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

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O underground da espiritualidade

Caminho espiritual é um assunto complicado. Pra começar, é um pouco como a noção de “bom senso”: cada um tem o seu. Em segundo lugar, muita gente tem aversão a termos como “caminho espiritual” ou “espiritualidade” porque lembram de péssimas experiências religiosas de infância, geralmente mais ligadas a protocolos sociais do que propriamente a uma busca sua, genuína e de coração. E, por último, falar de caminho espiritual também traz junto conceitos difusos e errôneos como passividade lacônica (“hoje não fiz nada o dia todo, fiquei bem zen”), idealismo ingênuo ou relações bastante superficiais com coisas como maconha e ácidos meia boca.

Pra efeito de você ir adiante nesse post, vamos tentar fazer um acordo que vale ao menos aqui no Conector: caminho espiritual não é aquela missa de domingo que você ia quando criança e nem tampouco as lajotas se liquefazendo depois que você tomou aquele AC no carnaval. Também não vale aquela discussão sobre Matrix ou aquela super ficha que caiu quando você resolveu TODOS seu problemas depois de ficar olhando o mar de cima do Morro da Guarita em Torres por duas horas.

O caminho espiritual de que vou falar aqui, combinemos, tá mais pra 1) quando a gente procura resolver nossas questões mais profundas olhando pra dentro e não pra fora, e 2) faz isso de forma mais ou menos constante, como parte do dia-a-dia e não apenas como uma experiência de fim de semana ou como um tipo de férias da vida comum.

Bom, se você mais ou menos concorda com esse postulado e o acha simpático, vamos lá: é sobre isso que fala Jack Kornfield em “Depois do Êxstase, Lave a Roupa Suja”. Reconhecido professor de meditação nos Estados Unidos, Kornfield entrevistou dezenas de outros mestres e contemplativos do budismo, hinduísmo, judaísmo, sufismo e outros ismos pra falar dos descaminhos, acostamentos, desvios, obstáculos, enfim, do “Lado B” da busca pelo fio da meada da mente e do coração humanos.

São cerca de 250 páginas com centenas de depoimentos costurados pelo texto simples e direto de Kornfield. Grande parte das histórias traz revelações íntimas, algumas pesadas, como problemas com a família, períodos de vida depressivos, cisões em comunidades espirituais, desprezo ao corpo, entre tantos quebra-molas que aparecem e que, como os relatos insistem em ratificar, devem ser trazidos para o caminho em vez de serem tratados como anomalias. Parágrafo após parágrafo, essa parece brotar como a grande mensagem de “Depois do Êxtase…”: o caminho espiritual é um caminho de inclusão dos obstáculos, de desenvolver a habilidade de lidar, dançar com eles e não de eliminá-los. Como diz Kornfield a certa altura, “não existe aposentadoria iluminada”.

A busca por respostas internas, segundo vários depoimentos, pode até passar por experiências de êxtase ou de transcendência (seja lá o que isso significa). Mas ficar preso a uma dessas experiências, sublinha-se repetidamente, pode trazer mais apego e mais dificuldades em vez da tão almejada liberdade. Na essência dos caminhos espirituais genuínos está uma mente aberta e inclusiva. Diz um mestre entrevistado:

“Sob vários aspectos, a transformação espiritual das décadas passadas é diferente do que eu havia imaginado. Sou ainda a mesma pessoa esquisita, com o mesmo estilo e maneira de ser. Por fora, não sou aquela pessoa incrivelmente transformada e iluminada que eu queria ser. Mas por dentro a transformação é grande. (…) Minha vida era como uma garagem entulhada, onde eu ficava trombando com os móveis e me julgando. E agora parece que eu mudei para um hangar que está sempre com as portas abertas. Tenho as mesmas coisas, mas elas não me limitam mais como antes.”

Essas não são apenas idéias de religiosos. Além de pessoas ligadas a caminhos espirituais formais, Konrfield se vale de constantes citações de outros buscadores, como escritores (Walt Withman, Alice Walker, Rainer Maria Rilke, TS Elliot), ativistas (Martin Luther King, As Mães da Praça de Maio) e outras referências célebres (Anne Frank, Carl Sagan, Joseh Campbell). O mosaico pode parecer indigesto e um tanto quanto new age, mas funciona para abrir um pouco o escopo de experiências e mostrar que, por mais diferentes que sejam as trilhas, os calos nos pés são comuns a todos os caminhantes. Não existe ninguém especial. Todos são especiais.

Conclusão da história: o mundano e o espiritual não são excludentes. E, provavelmente, talvez não sejam nem mesmo duas coisas separadas. Ou, como diz o poeta beat, pai e professor zen Gary Snider:

“Todos nós aprendemos com o mesmo professor – a realidade… pôr as crianças na perua escolar todas as manhãs é tão difícil quanto cantar os sutras no salão do Buda nas manhãs frias. Uma coisa não é melhor que a outra, as duas podem ser aborrecidas e ambas têm a virtuosa qualidade da repetição. A repetição e seus bons resultados transformam as atividades da vida no caminho.”

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Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey, da biografia da monja inglesa Tenzin Palmo e das memórias do ex-monge búlgaro Nikolai Grozni.

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Turtle Feet: The Making and Unmaking of a Buddhist Monk

Nikolas Grozni era um simples jovem búlgaro, estudante prodigioso de jazz, treinado desde os 4 anos em piano clássico e mais tarde aceito na famosa faculdade de música de Berkeley. Como qualquer jovem, búlgaro, estudante e prodigioso, Grozni passava seus dias às voltas com os bundalelês da faculdade, tocando a vida à base de bebida, maconha, sexo, Coltrane e muito questionamento existencial.

Porém, enquanto as buscas existenciais de muitos eram sufocadas com os anestésicos comuns à idade, Grozni acordou um dia com seu bichinho da curiosidade atiçado e foi atrás de respostas mais decentes. Foi assim que se aproximou do budismo e foi assim que começou a ler filosofia budista e praticar meditação por conta própria. A certa altura do campeonato, entretanto, algumas fichas mais pesadas caíram e ele acabou abandonando o dia-a-dia de universitário pra pedir ajuda aos universitários, abraçando a vida monástica na India.

Turtle Feet é o livro de memórias do período indiano de Grozni e cobre seus três anos de estudo de tibetano e dialética budista, bem como sua ordenação de monge do Budismo Tibetano e suas tremendas confusões ao lado de habitantes do underground de Dharamsala. À primeira vista, a contracapa de Turtle Feet engana pois promete uma visão ácida do autor a respeito das instituições monásticas. Mas, mesmo com opiniões contundentes e fatos curiosos pra sustentar seu ponto de vista, no fim o que Grozni faz é reforçar a necessidade de uma mente crítica e aberta para quem quiser ir além de um olhar superficial da vida, seja dentro de uma estrutura religiosa ou não.

Grande parte do livro, na verdade, é calcada nas muitas desventuras vividas por Grozni ao lado das figuraças que formavam seu círculo social em Dharamsala. A principal delas é Tsar, um refugiado da guerra da Iugoslávia sem documentos e nem dinheiro que também se ordenou monge mas que largou os mantos pra viver da ajuda de eventuais namoradas ou de negócios bizarros. O melhor de todos, sem dúvida, é a padaria que improvisa no seu barraco, instalando resistências elétricas direto no assoalho para usar o cômodo principal como forno.

Tsar é a grande estrela de Turtle Feet e, como personagem, serve de porta-voz das idéias mais dissonantes de Grozni. Durante toda a segunda metade da narrativa, Tsar discursa incansavalmente sobre o absurdo da existência humana enquanto procura por sexo e se mete em problema atrás de problema no que parece ser o roteiro perfeito para uma Sessão da Tarde. Sem passaporte, por ter jogado fora o seu durante uma crise de identidade, Tsar é um cara flutuando entre definições, sem nacionalidade, sem destino, sem plano de vida concreto, sem futuro. Ou seja, no fundo é como qualquer um de nós.

Ou seja, o que faz de Turtle Feet um livro interessante e cômico não são as dificuldades particulares que um ocidental enfrentou para se tornar um monge budista, mas sim as dificuldades universais de quem tenta se encontrar. Por mais bizarras e únicas que sejam as situações que Grozni viveu na India, a impressão que se tem é que por baixo de todas as cascas culturais e circunstanciais de cada capítulo, temos contato direto com o dramático e hilário recheio que se encontra dentro de qualquer pessoa em qualquer coordenada deste estranho planetinha.

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Cave in the Snow

Falar sobre longos retiros geralmente causa uns calafrios não é mesmo? Imagina deixar o conforto da sua casa, desfazer os laços (físicos) familiares, abrir mão de todo o vasto leque de distrações disponíveis e de todo o sistema social e psicológico em que crescemos em troca de ficar consigo mesmo, convivendo, conhecendo e se aprofundando na própria mente e seu vasto potencial durante mais de uma década em uma caverna pedregosa na India. Não é pra qualquer um, né? E não é mesmo.

Existem muitas boas lições na biografia da monja budista Tenzin Palmo, mas o fato de ser especificamente ela a protagonista de sua história é uma das mais importantes. Calma que eu já explico. Palmo nasceu Diane Perry no East London em 1943 e cresceu em uma família humilde, porém feliz, que se estruturou ao redor da figura materna após a morte do pai. Até os 20 anos, viveu uma vida “normal”. Brincou, estudou, namorou, dançou na swinging london, mas o bichinho da curiosidade espiritual a corroeu desde pequena. Buscou alimento para o bichinho em diversas religiões, mas a ficha caiu mesmo quando ela encontrou os primeiros e escassos ensinamentos budistas disponíveis no Ocidente através de alguns livros e conexões com intelectuais interessados no Tibet. A partir daí, uma peça começou lentamente a encaixar na outra: Diane conheceu os primeiros lamas budistas a aportarem na Inglaterra, se mandou pra India, quase casou na viagem de barco, se instalou em uma escola fundada por uma inglesa, deu aulas de inglês para lamas e finalmente encontrou o professor que a guiaria uma boa parte da vida.

A sede por realizar o potencial mais perfeito de sua mente a lançou numa busca constante por conhecimento e espaço para praticar o conhecimento adquirido. Para unir os dois, pediu ordenação de monja e, depois de alguns anos de estudo e serviços para a comunidade monástica local, partiu para meditar em uma caverna nos himalaias indianos. Desencorajada por muitos colegas (que julgavam uma mulher ocidental incapaz da empreitada) porém apoiada por seu professor, a agora monja Tenzin Palmo concentrou sua energia em uma série de retiros fechados nos quais ficava até oito meses sem ver ninguém (nem mesmo o sol no duríssimo inverno dos Himalaias). Na etapa final de sua trajetória de retirante, Palmo completou três anos em total isolamento até ser despejada da India por problemas legais com seu visto.

A volta à vida em sociedade, entretanto, não foi um fardo. Pelo contrário, a monja abraçou o novo capítulo em sua vida, colocando sua experiência a serviço de causas interessantes. Por um lado, Palmo passou a militar ativamente no meio religioso pelo reconhecimento dos direitos e das nuances femininas dentro das comunidades espirituais, geralmente organizações mais masculinas e de contornos patriarcais. Em outro âmbito, menos político e mais prático, viajou o mundo levantando fundos para a construção de um mosteiro para monjas tivessem condições de receber os ensinamentos completos, algo negado a muitas mulheres em determinadas tradições budistas.

Contada assim, rapidamente, a história de Tenzin Palmo tem sementes de fantasia. Tipo…. mulher-ocidental-larga-tudo-e-vai-viver-o-misticismo-oriental-na-caverna. Porém, Cave in The Snow dificilmente passa como conto da carochinha. A ida de Tenzin Palmo para a India não foi uma fuga repentina de alguém estressado com seu cotidiano ou a tentativa de realização de uma idéia juvenil. Foi, isso sim, uma peça no lego particular de uma menina desde cedo bastante encucada com os mistérios não exatos do universo. Quando ela falou para sua mãe que estava pensando em ir à India buscar ensinamentos, não recebeu olhares de espanto ou reprimendas, mas uma simples pergunta: “Quando você vai?”. A dona de casa de Bethnal Green conhecia bem a filha e sempre apoiou sua busca.

Esses e muitos outros detalhes tornam Cave In The Snow uma leitura interessante mesmo pra quem não sente nenhuma vontadezinha de ter um envolvimento tão intenso com a prática espiritual. Ao contrário do que poderia ser, o livro é dedicado a desmistificar os anos na caverna. Eles recheiam o livro mas não são de forma alguma o único fator de reflexão. Página após página, um paradoxo se constrói: por mais particular que seja a história de Tenzin Palmo, ela também é temperada fortemente com o viés das questões humanas universais: insegurança acerca de nossa identidade, medo da morte, a necessidade de recursos financeiros pra viver, amores não correspondidos, relações complicadas, as diferenças entre o mundo masculino e feminino, e a velha pergunta… no que vale a pena investir tempo da sua vida?

Para Tenzin Palmo, encontrar a resposta passava por ficar um bom tempo em retiro. Ela nunca teve dúvidas disso. Não sofreu com o isolamento. Encontrou sua vocação. Mas depois, ao precisar fazer uma difícil escolha, se viu de volta ao mundo cotidiano, viajando em turnês mundiais, dando ensinamentos e buscando fundos para a construção de um mosteiro. Dividindo o que descobriu na caverna.

Talvez cada um de nós tenha uma caverna nos esperando. Para alguns ela pode até estar nos Himalaias. Para outros, ela pode significar simplesmente algumas horas sem banda larga. Ainda há os que vão encontrar sua caverna ao se retirar de situações de isolamento e ao engajar-se em uma atividade. Quem sabe? A autora do livro e jornalista Vicky Mackenzie delega ao leitor, com a ajuda de livros inspiradores como esse, encontrar os paralelos e descobrir o seu caminho.

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Mais três coisas.

1. A Elka, que morava aqui no templo de Três Coroas, se mandou há alguns meses pra India com sua filha pequena. Ela vem escrevendo em um blog pra TPM sobre as experiências que está vivendo lá e também falou da Tenzin Palmo em um post de junho, que também traz algumas palavras sobre a situação das monjas e das mulheres na India.

2. O Guardian também fez uma matéria sobre ela (a monja) recentemente.

3. Existe um documentário bem simples mas bem bom sobre a trajetória de Tenzin Palmo. Se chama Cave in The Snow. Me foi copiado por um amigo. Não sei se você vai encontrar um torrent. Mas se encontrar, faça com eu: depois doe o valor de um DVD nacional pra causa da Tenzin Palmo.

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Uma última: estou numa pilha de ler biografias de praticantes budistas. Se você curtiu esse texto, talvez curta também a resenha que fiz do livro sobre o americano Issan Dorsey.

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Street Zen: The Life and Work of Issan Dorsey

Issan se preparando para a ação.

Espiritualidade é um tema complicado de abordar num país como o Brasil. Vivemos uma espécie de paradoxo. Se temos uma população que se diz majoritariamente católica (83%), no dia-a-dia ela se ampara mais no sincretismo, na crença em santos particulares ou então na boa e velha reza aleatória na hora do desespero. Para deixar tudo ainda mais ambíguo, apesar de muitos não praticarem formalmente o cristianismo, a moral cristã meio que paira sobre a cultura do país. Ela não rege os desejos e não dá as cartas claramente, mas funciona como o eixo médio da nossa moral coletiva e qualquer duas horas de televisão aberta mostram isso. Mesmo os intelectuais do país costumam frequentemente se comportar como carolas: apontam, acusam, pedem punição.

No outro extremo do espectro, existe também, claro, uma adoração dos loucos desvairados como oposição à moral instituída, mas isso é apenas o outro lado da moeda. 99% das vezes que vejo alguém puxar o saco de algum “rebelde”, me parece mais birra do que qualquer outra coisa. A verdade é que raramente ambos conceitos, suposta perfeição e suposta imperfeição, convivem em harmonia.

Se na vida cotidiana eles são obrigados a conviver, o mesmo não acontece no imaginário popular. A ambiguidade no Brasil, acredito, é sutilmente bem vinda na prática, mas na teoria, no discurso ou na iconografia ela não pega bem. Somos um país de mulatos práticos que gosta do preto no branco teórico. Ainda que saibamos de todos os detalhes sórdidos sobre nossos santos/modelos/salvadores/representantes, preferimos os relegar a um papel secundário de seu caráter, recusando-nos a acreditar que o lado escuro da mente e do coração de alguém possa realmente fazer parte do seu todo.

Por isso, enquanto virginiano inverterado e maniqueísta eventual, achei tão inspiradora a leitura de Street Zen. O livro é a biografia do mestre zen budista Issan Dorsey escrito por um jornalista, colega praticante e amigo que escolheu abordar todos os aspectos da vida de Dorsey sem deixar nada de fora. Tudo é exposto, desde seu homossexualismo, seu trampo de drag queen e eventual garoto de programa, sua relação com anfetaminas, heroína e LSD, sua convivência com estratos baixos e considerados pervertidos da sociedade até sua trajetória como praticante zen, criador de um hospice pioneiro para pacientes de AIDS e reconhecido professor que… morreu de AIDS. Pra resumir, um outro mestre zen americano, Bernie Glassman, escreveu no prefácio que via Issan como “uma mistura de Lenny Bruce e S.S. Dalai Lama”.

O interessante da abordagem de Street Zen é que a primeira etapa da vida do biografado em momento algum é colocada como oposição à segunda. A jornada descrita no livro não segue o roteiro comum de “degradação, descida ao inferno, expiação dos pecados por meio do sacrifício e redenção”. É mais como se fosse tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. O lado outsider de Issan Dorsey, em vez de contraponto ao lado religioso, funcionou como base, como fundação, como fonte de incríveis ferramentas sociais e espirituais que ele utilizou mais tarde para ajudar os que habitavam as margens da conservadora sociedade americana dos anos 60, 70 e 80.

A trupe da qual Issan fazia parte como Tommy Dee.

A mensagem aqui é uma só: por conta de nossas limitações, achamos que só os perfeitos alcançam a perfeição e Issan Dorsey vem para torcer completamente essa lógica injusta e inútil. A compaixão mais ampla não deixa nada nem ninguém de fora. Nem as pessoas que marginalizamos socialmente, nem nossos sentimentos e aspectos pessoais que marginalizamos mentalmente, escondendo no fundo do baú. Dorsey, segundo o livro, foi a personificação desse tipo de compaixão. Justamente por sua convivência com pessoas marginalizadas, por ter experimentado e visto de tudo, ele serviu de referência para os sem-referência. Ele abraçou tudo. O próprio autor da biografia diz que, se não fosse pelo amigo, talvez não se sentisse apto a praticar o budismo.

Como pano de fundo pra tudo isso, recebemos de brinde uma série de rápidas porém valiosas contextualizações: o surgimento da cena psicodélica em San Francisco; a chegada de Suzuki Roshi (um grande mestre zen budista) aos Estados Unidos e o desenvolvimento de sua comunidade, com direito a escândalos cabeludos protagonizados pelo seu sucessor; a intersecção do mundo gay de San Francisco com as comunidades espirituais; e os primeiros baques ali causados pela AIDS.

Street Zen é de escrita simples, fluída e direta. Uma boa parte das histórias vêm contada em primeira pessoa, por Issan ou por companheiros próximos. Dessa forma, em dois ou três capítulos você já se sente íntimo dele e lá pela página 200 bate uma certa melancolia porque os dois estão chegando ao fim: o livro e o protagonista. Issan morreu em 6 de setembro de 1990 de complicações ligadas à AIDS, no próprio hospice que criou, cercado de amigos e experimentando na prática lições básicas do budismo que vinha ensinando: compaixão e, principalmente, a impermanência.

Vertido das páginas do diário pessoal do autor, o relato dos últimos dias de Issan são crus e perturbadores. Sensacionalismo? Não. Uma narrativa que se pretendia tão aberta quanto seu personagem principal realmente não poderia se eximir e deixar de fora o momento de maior significado da história de Issan e que Suzuki Roshi chama de “O maior professor”: a morte.

Desesperador, desagradável e incômodo, muitas vezes é melhor nem tocar nesse assunto. Mas, se for pra tocar, melhor que seja assim, como Issan fez, de forma completa. Mesmo sofrendo e com dificuldades físicas, ele deixou sua última lição ao abraçar a morte da mesma forma que abraçou a vida.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Tribe/Jana: New Media Art

Ano passado, de Cannes, sublinhei num post a esperta declaração de Sam Roddick (filha da Anita Roddick da Body Shop) que creditava ao ativismo social a origem do marketing de guerrilha. Concordo, mas isso é apenas parte da história, porque à influência de ações impactantes como as do Greenpeace e do PETA precisamos também agregar todo um rol de idéias fertilizadas no ambiente da arte moderna e contemporânea. Por isso esse livro veio parar aqui. Se vamos falar em new media (ou seja lá o nome que você queira chamar, tanto faz pra mim), precisamos falar em new media art. Desse ponto de vista, esse livrinho amigável da Taschen é revelador e estimulante.

Revelador porque o ensaio que abre o livro delineia, de uma forma que não dá sono, a árvore genealógica da New Media Art, colocando-a como descendente mais ou menos direta do Dadaísmo, da Pop Art, da Arte Conceitual e da Vídeo Arte. E faz sentido. Olhar para obras relacionadas a esses movimentos vai sempre nos causar uma sensação de incrível familiaridade, mesmo que a gente não domine (eu ao menos não domino) esse cânone. Lá atrás, os caras já estavam sintonizados com o que estamos vivendo hoje e acho que estamos num bom momento pra olhar pra trás,  uma vez que já tem gente demais pedindo pra você olhar pra frente. E quando muita gente pede a mesma coisa…

Em segundo lugar, a leitura de New Media Art é estimulante porque esbarramos com uma penca considerável de trabalhos cuja base é burlar sistemas, conceitos, percepções. Ok, toda boa arte deve fazer isso, mas o que chama a atenção no escopo dessas obras é uma intenção declarada na ruptura, a ruptura como forma e não apenas como conteúdo. E mais, essa ação é conduzida em suportes digitais, uma boa parte delas usando a internet e outras tantas baseadas em dispositivos móveis, instralações ou gadgets.

Quer uma palhinha? Pois eu achei o livro inteiro num wikisite da Brown University, amigo! Não sabe por onde começar? Tá com preguiça? Tudo bem, faz o seguinte. Começa pelo LifeSharing, um projeto no qual Eva e Franco Mattes permitiram que todo mundo pudesse ver TODO o conteúdo e tráfego dos seu computador pessoal durante 3 anos. Depois dá um pulo até etoy.share, uma “corporação artística” que vende ações pra financiar suas performances. Não deixe de passar por A-Trees, trabalho de Natalie Jeremijenko que criava (em 1999!) árvores em desktops a partir da emissão de carbono em escritórios. Divirta-se com a descrição de Dialtones, onde o Golan Levin (do We Feel Fine) e sua turminha usaram (em 2001!) celulares de uma platéia para um concerto. Também vale ler sobre 1 Year Performance Video, que remixa com certo sarcasmo o trabalho do Tehching (que vou comentar aqui semana que vem) ao recriar uma exaustiva performance presencial com vídeo online.

O resto, como sempre, é por sua conta.

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Philip Roth: O Animal Agonizante

Faz três semanas que eu li o Animal Agonizante em duas sentadas (metade num hotel, outra metade num vôo RJ-Poa) e até hoje tive uma série de pudores para escrever qualquer coisa sobre o livro. Muitos pensamentos me ocorreram,  mas nenhum faz jus porque O Animal Agonizante oferece um panorama tão claro e feroz (já acusado de misoginia) do desejo masculino que quase deveria estar nas prateleiras de auto-ajuda junto daqueles livros tipo “Homens são de Marte, Mulheres São de Vênus.”

Logo que terminei a leitura, a única coisa que tive condições foi rabiscar esse gráfico aí de cima, que vale tanto para o Animal Agonizante quanto para outros livros de Roth: o cruzamento da potência masculina (não apenas sexual, mas social também) com a passagem do tempo. O rabisco marrom, no caso, é de David Kepesh, professor sessentão de crítica literária, um solteirão sensualista e fundamentalista (com páginas e páginas de proselitismo hardcore). O rabisco rosa é de Consuela Castillo, uma de suas alunas seduzidas, porém a primeira que abala uma série de fortificações emocionais e físicas de Kepesh.

No gráfico acontece mais ou menos o que acontece no livro: por duas vezes em suas vidas as necessidades e desejos do professor e da aluna se encontram e se tocam. Por duas vezes são produzidos efeitos devastadores. O ponto um é o encontro clássico entre o homem “experiente” e a mulher “sendo iniciada”. As aspas são cortesia das sutilezas desses conceitos nada concretos, desnundados por Roth ao soterrar qualquer romantismo em relação à toda carga de ansiedade que essa intersecção traz consigo. O ponto dois é a pá de cal nesse romantismo: ambos os protagonistas enfrentam junto a perda de suas potências (sexuais e sociais), muito embora em idades e por motivos diferentes. Dentre tantas generosas bordoadas distribuídas pelo autor, uma é taxativa: a incompetência do desejo em produzir satisfação.

Bom, não vou contar mais pra não estragar a bela experiência que é ler o livro. Mas, mais uma vez, o que Roth faz é cruzar questões humanas milenares e universais (sexo, morte, tempo, vida) dentro de âmbitos específicos (o surgimento da contracultura nos EUA, a vida em um meio cultural restrito). A colisão de temas amplos com contextos delimitados não produz apenas uma boa narrativa,  mas oferece faíscas poderosas e uma franqueza comovente e necessária. Não é que muita gente por aí não tenha experiência de vida e não tenha condições de dar “a real”. Mas é que poucos o fazem com tanto talento pra escrita.

Boas obras são assim: parecem escape, mas na verdade te colocam cara a cara com o que precisa ser dito e repetido um milhão de vezes até que um dia entre nessa cabecinha dura.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Go Viral: The Social Metropolis

Houve um tempo em que o maior patrimônio de uma empresa de comunicação era sua metodologia de trabalho e suas ferramentas. Nessa era distante (será?), ir a público explicar detalhadamente como você fazia para resolver o problema do seu cliente era considerado suicídio. Afinal, os concorrentes podiam copiar seu esquema, replicá-lo e roubar seus clientes. Pois bem. Nada como o tempo para clarear certas questões. Falar disso hoje parece contar sobre povos antigos que tinham medo que a fotografia lhes roubasse a alma, nénão?

A Go Viral, uma empresa européia de disseminação online de conteúdo, vem representando no Festival de Cannes o oposto dessa idéia anacrônica. Em 2007 e 2008, eles não só fizeram palestras no principal auditório do evento contando sua visão de negócio e sua metodologia como distribuem no final livros aprofundando a questão. Aprofundando é pouco. Eles explicam o passo a passo de como disseminam alções globais como a do lançamento do Cavaleiro das Trevas, o Lost Experience ou o viral do Ronaldinho metendo 9 bolas na trave consecutivas. Basicamente, se você quer montar uma empresa de disseminação de conteúdo, pode usar o primeiro livro como base teórica sobre o contexto atual da comunicação e o segundo, The Social Metropolis, sobre o funcionamento dos canais de distribuição e suas peculiaridades.

Mas por que é que os caras entregam todo o jogo assim, de mão beijada? Bom, primeiro porque não sabemos o que mais eles têm escondido no cofre. Segundo porque essa é uma forma de trocar informação e de se vender. Mas o terceiro aspecto, e mais importante, é que não é difícil imaginar e descobrir o “como” das coisas. O grande negócio é conseguir FAZER, colocar em PRÁTICA. De teorias, as palestras estão cheias.

Quer saber um pouco mais sobre o livro? Dá uma olhada no post “Vai, Viral“, do ano passado. Além de comentar o conteúdo dele, também botei ali os links pra tu ler o livro online ou baixar em PDF, além de uma palestra em vídeo com um dos donos da Go Viral.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – McLuhan + Fiore: The Medium is the Massage

É um tanto quanto óbvio colocar esse livro aqui e minha idéia era evitar os óbvios. Mas eu não pude resistir: ao explicar teoria da comunicação com uma linguagem gráfica fragmentada (para a época) e mais próxima da cultura pop do que da academia, Marshall McLuhan e o designer Quentin Fiore tornaram vivo o conceito apresentado no título de sua obra.  Para isso, lançam mão de metáforas visuais e de citações de Bob Dylan, Montaigne, cartuns do The New Yorker e onomatopéias de quadrinhos a la Linchestein.

Mas é preciso tomar cuidado e não trocar a eloquência gráfica de Medium is the Massage pelo seu estofo. Há visões deliciosas e úteis neste volume, a maior parte delas oferecendo uma razoável retaguarda teórica para quem trabalha com as ditas “novas mídias”, elas que não têm ainda, ao menos com acesso universal, um corpo teórico que ajude a pensar trabalhos de forma mais estratégica e menos “vamos fazer assim pra rolar”.

Um desses conceitos, a respeito do ambiente invisível, eu explorei no post Quer Aparecer, Seja Invisível. Outros, como a dimensão mítica dos circuitos elétricos ou a necessidade de cultura participatória entre o público jovem, você vai ter que ler pra debulhar.

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Página 142: “A propaganda termina onde o diálogo começa”.

Ok?

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Duas curiosidades.

Uma: capa da edição que eu tenho, essa ai de cima, é do David Carson, um dos ícones dos anos 90 (será q o design a la Carson vai voltar também?)

Duas: o McLuhan é considerado o “santo patrono” da Wired.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – William Gibson: Idoru

A real é a seguinte: pelo pouco que li (três de dez romances, meia dúzia de muitos outros contos) acho que toda a bibiliografia do William Gibson vale a pena para quem trabalha com comunicação. O cara é o um dos idealizadores do chamado cyberpunk e conhecido por cunhar o termo ciberespaço em seu conto Burning Chrome (de 1982!), expandindo ainda mais o conceito em Neuromancer. Seu trabalho e suas idéias, desenvolvidos em conjunto com alguns outros parceiros como o Bruce Sterling, foram a origem de inúmeros produtos da cultura pop. Só pra você ter uma idéia, Neuromancer influenciou fortemente a trilogia Matrix e a fase Zooropa do U2.

Por que eu escolhi Idoru? Por que não Neuromancer se é um romance ambientado no cybersespaço, perfeito para introduzir conceitos básicos? E por que não Reconhecimento de Padrões, que trata diretamente de marcas, makerting de guerrilha e comunidades digitais obcecadas por assuntos inusitados?E por que não Johnny Mnemonic, com seu atualíssimo tema de pirataria de dados e expansão de memória?

Porque Idoru mostra a essência do problema da publicidade atual, que é deixar a era em que tentava convencer as pessoas com repetição exaustiva e presença massiva para entrar na era da conexão direta, de mão dupla, de presença discreta, relevante e significativa. Eu não acho que isso seja possível em larga escala mas não vou me estender aqui porque já escrevi sobre a importância de Idoru para se repensar a publicidade  contemporânea nesse post de 2007 – Idoru e Space Invaders – Publicitários Gerando Conteúdo. Não deixe de ler.

Idoru, Neuromancer, Reconhecimento de Padrões, Count Zero e Monalisa Overdrive têm edição no Brasil. Idoru saiu pela Conrad. Os quatro últimos são da Aleph (que também lançou Nevasca, do Neal Stephenson, que o Matias me diz ser ainda mais fundamental mas eu ainda não li).  O conto Johnny Mnemonic traduzido foi publicado como um anexo de uma General nos anos 90 (esse eu ainda vou escanear e disponibilizar, me cobrem mais adiante). Não me lembro se tem mais algum conto espalhado em algum livro por aí. Alguém sabe?

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Update! O Mateus do Ovelha Elétrica tem o Johnny Mnemonic publicado lá no Fictorama.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Tibor Kalman: Perverse Optimist

Tibor Kalman é um dos mais influentes designers do mundo e a forma como ele alcançou essa notoriedade ainda rende discussões mesmo depois de sua morte em 1999. Por quê? Porque esse húngaro crescido nos Estados Unidos foi um designer que rejeitou grande parte do sistema do design da sua época, criando ou levando para o mainstream uma nova forma de agir que não se restringia ao trabalho tradicional do designer, resgatando valores mais amplos e profundos ao exercer as atividades de um comunicador visual.

Kalman injetou crítica política na comunicação visual de um pequeno restaurante novaiorquino; encontrou uma identidade gráfica para os Talking Heads à altura de sua música; transformou a divulgação de seu próprio estúdo em uma sucessão de experimentos de marketing direto interativo (na era offline); atendeu clientes corporativos e viveu dilemas ideológicos; inventou para si e para seu estúdio uma mitologia que até hoje é imitada na qual é possível ver o designer como se fosse um rockstar e o estúdio como uma banda. Enfim, durante sua carreira, Tibor Kalman trilhou o caminho do design armado até os dentes com o que havia de mais provocante na cultura pop de sua época (ou de outras).


Sabendo que não faria nada sozinho, estava permanentemente contratando ou sendo contradado por pessoas talvez mais talentosas do que ele. Assim fez seu nome, mas também assim nomes se fizeram com ele (os designers Stefan Segmeister e Emily Oberman são dois exemplos). Talvez a face mais visível do trabalho colaborativo e controverso de Tibor Kalman (em parceria com o fotógrafo Olivieto Toscani) foi a revista Colors, um empreendimento editorial monstruoso bancado pela Benetton e que foi uma dos vetores definitivos da linguagem dos anos 90. A controvérsia não era devido  unicamente ao conteúdo da revista, mas às constantes críticas da proximidade de Kalman com o dinheiro grosso das marcas. O designer defendia o uso de dinheiro corporativo para experiências radicais, mas todos nós sabemos que essa área é cinza e repleta de ambiguidades.

Bom,  mas o fato é que Perverse Optimist é um livro que entrou nessa biblioteca não apenas por mostrar em mais de 400 páginas tudo o que Tibor e seus colaboradores fizeram nos mais diversos suportes e disciplinas (vídeo, design gráfico, editorial, marketing direto, etc). Mas, o mais importante, conta o como e o porquê fizeram. O como diz respeito ao espírito combativo e incansável, enquanto o porquê é resumido poeticamente em um ensaio visual na introdução do livro, cuja primeira frase pra mim é emblemática, definitiva e inspiradora: “I’m not sure”.

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Perverse Optimist custa caro e só importando. Além do que, acho que ficou raro porque você pode ter certeza que eu não paguei quase cem doletas nele! Mas procurando, acho que é possível encontrar uma edição usada em algum sebo americano. Procure que você consegue uma barbada. E lembre-se que livro não paga imposto na importação.

Outra idéia: se alguém de Porto Alegre quiser pegar o livro pra escanear todo e transformar em PDF, be my guest.

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PS:

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Watchmen, Milk e o ocaso do heroísmo

Como eu já disse aqui, em hipótese alguma me considero uma fonte confiável para falar de Watchmen. Meu envolvimento emocional com a minissérie não chega a derrubar meu senso crítico, mas deixa bastante tonta minha capacidade de abstração ao tentar imaginar como é a experiência de assistir ao filme sendo alguém que não leu umas quatro vezes a série e não é fã do Alan Moore. Então, de qualquer forma, feitas as ressalvas… vamoslá…

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Ah: você pode ler o texto todo mesmo que não tenha visto o filme. Não contém spoilers, nem sobre o final.

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Pois bem.

Watchmen é um filme realmente fantástico em muitos aspectos. Todos eles ligados à noção de heroísmo. Antes de mais nada, é preciso aplaudir o heroísmo do diretor Zac Snyder, que conseguiu colocar quase tudo que importa da densa obra de Alan Moore e Dave Gibbons em um filme de 2h40min. E o que é quase tudo que importa? É o amálgama de referências audiovisuais da cultura americana dos últimos 60 anos (o início do fim do maximalismo?). É também a excelente trama conspiratória que questiona o papel dos super heróis no imaginário popular. Mas, acima de tudo, o que importa e o que vou tratar aqui são os ganchos que Zac Snyder ofereceu para que a audiência possa questionar a própria noção de heroísmo. Isso poderia se perder na adaptação para as telas, mas não. Está tudo lá, bastando prestar atenção.

Watchmen, nesse sentido, vem em boa hora. Como nação, tenho a impressão que os Estados Unidos estão vivendo um momento em que a idéia de heroísmo dá sinais de cansaço. A eleição de Barack Obama, apesar de cercada de ares redentores, marcou o rechaço de uma parte da população americana à cultura do caubói, do herói de guerra, do maverick que vai lá, dá umas porradas e umas canetadas e resolve os seus problemas e os de todo mundo.

O que me leva automaticamente às anotações mentais que fiz de Milk. O filme de Gus Van Sant que deu o Oscar a Sean Penn é um relato intenso e emocionante sobre um herói civil americano, que lutou com tenacidade, bom humor e inteligência política para salvaguardar os direitos dos homossexuais. Harvey Milk, como a maior parte dos heróis civis, foi um homem que utilizou intuitivamente as noções básicas de ativismo para ativar o senso de comunidade de seus pares. Um detalhe, portanto, pode passar despercebido pelos que se apegam à figura do homem entusiasmado e dado a subir em caixotes e discursar com um megafone: os colaboradores de Milk, sua rede de parceiros políticos, amigos e amantes que sustentaram seu caminho e se tornaram tão importantes quanto sua liderança. Milk não seria nada sem sua rede. Sua rede não seria nada sem Milk. Todos estão interligados. Por isso também vem em boa hora a cinebiografia de Milk, pois estamos entrando, como cultura global, em uma era onde a colaboração horizontal e o trabalho de formiguinha vai fazer muito mais diferença do que os atos de grandiosidade e espalhafato.

De volta a Watchmen, tudo começa (cronologicamente, não na trama) com um grupo de pessoas interessadas em complementar o trabalho da justiça e da polícia de forma anônima. O recurso é um velho conhecido nosso no campo da fantasia: um uniforme chamativo, algumas habilidades especiais (humanas ou sobre-humanas) e os criminosos que se cuidem. Quem dera fosse tão fácil resolver os problemas do mundo. Infelizmente, como mostra Watchmen, não podemos solucionar a maior parte dos nossos problemas pessoais ou coletivos como se estivéssemos nos preparando para um baile de carnaval.

Os super heróis de Moore são, como vemos ao longo do filme, seres com incríveis capacidades físicas mas com capacidades psicológicas extremamente limitadas, não muito diferentes de qualquer um de nós. Mesmo Dr. Manhattan, o super-homem capaz de se teletransportar, ver o futuro e manipular a matéria, trava ao tentar resolver as questões mais básicas de relacionamento. Toda sua inteligência e racionalismo só o colocam em uma encrenca atrás da outra, muito embora os mais materialistas possam o cultuar em uma espécie de teísmo bizarro.

As cenas de violência de Watchmen são outro gancho revelador do caráter problemático dos heróis. Propositalmente ou não, Zac Snyder escolheu manter o naturalismo do traço do desenhista Dave Gibbons, ou seja, quando alguém toma uma porrada, vemos muito sangue, fraturas expostas, crânios rachados ao meio. E mais. Vemos os envolvidos, os chamados heróis, sentindo prazer ou alívio com a violência. Não é como em Homem Aranha ou Quarteto Fantástico. São cenas chocantes, extremamente físicas e pesadas, que vão além do que se poderia chamar de justiça ou  autodefesa, parecendo servir mais para exorcizar fantasmas particulares. Assim são os heróis de Moore: humanos, sensíveis, confusos, esperançosos. Na maior parte do tempo, eles se comportam como pitboys em um bloco de rua.

A suposta redenção ao final de Watchmen existe, mas é absolutamente questionável uma vez que baseada na clássica lógica americana: um indivíduo se considera apto a executar um plano que envolve milhões de pessoas sem o poder de escolher e joga sobre si a responsabilidade da vida delas como se isso atenuasse o sofrimento pela qual elas passam. Curiosamente, os americanos sempre chamaram isso de “democracia”. É impressionante, mais uma vez, como a história da Alan Moore é atual e profunda. Não trata apenas da psiquê deformada e problemática dos heróis individualmente, mas da psiquê deformada de uma sociedade inteira e suas crenças em uma justiça individualista e arbitrária.

A impressão que dá, no fim das contas, é que todos os heróis precisam de apoio terapêutico especializado e não apenas o psicopata Rorschach. Cada um na tela representa com perfeição um aspecto do mundo atual: Dr Manhattan é o existencialista-materialista-ateu convicto, cujo Deus é a física quântica. Rorschach é o tiozão de churrasco de domingo, que fica violento ao reclamar da degradação do mundo; Daniel é o homem médio resignado diante de sua impotência de lidar com os seus fantasmas e os do mundo, precisando literalmente de fantasias para funcionar; Adrian Veidt é o semi-deus cujo dinheiro e inteligência asseguraram a seu egocentrismo condições para manipular pilares econômicos e militares… e por aí vai. Nenhum deles tem a menor condição de atuar como juiz ou defensor da humanidade. Nenhum deles traz felicidade e harmonia sem um custo enorme e questionável. Eles apenas geram mais dor e sofrimento com sua própria confusão.

Em resumo.

Ao  Sr. Snyder, os meus parabéns. E quanto aos super heróis: todo mundo já pra terapia!

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Watchquem?

Eu andava evitando escrever sobre o Watchmen por dois motivos. Primeiro porque o Matias vem debulhando o assunto com intensidade no Trabalho Sujo e não é preciso chover no molhado aqui n’Oesquema. Segundo porque, à medida que fui vendo os vídeos que surgiam, percebi que minhas ligações emocionais com Watchmen provavelmente me fariam escrever como um guri de 8 anos de idade (embora, a saber, li pela primeira vez com 15 – sim, eu tenho a primeira edição nacional!).

Masssss… vamoslá…

Pra começar, diferente do Matias eu penso que, em grande parte, Watchmen é Watchmen também por conta de Dave Gibbons. Toda idéia ganha força com um contexto visual adequado à sua proliferação na mente de quem tem contato com ela (e a história inteira da cultura pop está aí para me ajudar a defender essa tese). Gibbons foi o responsável por dois aspectos fundamentais de Watchmen: o primeiro diz respeito a crer que estávamos lendo uma história passada em um “mundo real”. Ele fez isso através do traço realista e elegante, suprimindo onomatopéias e linhas de movimento, pra não falar da incrível coleção de detalhes visuais (fachadas, figurinos, carros, apetrechos domésticos) que colocaram os dois pés da narrativa no chão. O segundo aspecto é o fato dele simplesmente ter saído da frente da história da Alan Moore. Como um bom diretor de cinema cujos cortes e movimentos de câmera são imperceptíveis em detrimento de um bom texto, Gibons usou um grid fixo de quadros por página, dando espaço para que as idéias de Alan Moore fizessem sua evolução na avenida com total desenvoltura sem maximalismo pra atrapalhar.

Quanto a isso, já vimos que não precisamos nos preocupar. O diretor de Watchmen, Zac Snyder, vem deixando bastante claro sua dedicação em reconstruir visualmente o que Gibbons concebeu. Entretanto, o que vai impedir que o filme vire uma mera caricatura da graphic novel não é a fidelidade de Snyder a Gibbons, mas sim a Moore. Fica a pergunta: Snyder vai sair da frente de Moore? O visual incrível que estamos apreciando nos vídeos disponíveis estarão a serviço da boa história? Uma coisa é adaptar 300, espetáculo visual do estético Frank Miller. Outra, bem diferente, é Watchmen, uma tour de force narrativo com ares literários e realistas.

Mas eu sou um homem de boa vontade. Creio que Snyder fez um bom trabalho. Quero que Snyder tenha feito um bom trabalho. O que nos leva, automaticamente, ao problema seguinte: quantos dos frequentadores do shopping terão paciência com um bom trabalho feito de homens mascarados com roupas colantes? Mesmo com uma cultura de magia e ficção científica se espalhando por grupos sociais menos restritos (Lost na Globo, novela de mutantes e Heroes na Record, Harry Potter em tudo quanto é lugar), mesmo com o assunto “super heróis na vida normal” sendo levantado em filmes mais leves (Hancock; Bolt, o Supercão; Minha Super Ex-Namorada) quantos estarão dispostos a assistir homens fantasiados destilando questionamentos morais, existenciais, políticos e sociais? Aqui eu concordo com o Matias: é muito mais fácil ver um cara de cueca por cima da calça dando porrada do que filosofando. Faz mais sentido.

Para fazer com que um projeto que vem atravessando as décadas na indústria cinematográfica aconteça nas bilheterias, a campanha de marketing nos Estados Unidos vem sendo intensa, com um trabalho forte de educação a respeito dos personagens e da trama. No Brasil, por outro lado, Wacthmen vem no embalo normal de estréia blockbuster e sua contextualização vai depender do jornalista aficionado que existe em cada caderno cultural.

Esses recursos garantem, com certeza, um bom fluxo inicial de audiência. A questão passa a ser o que o boca a boca vai dizer a partir daí. A tarefa de Zac Snyder, desse ponto e vista, é conseguir manter o grosso caldo original da trama e, ao mesmo tempo, permitir que o espectador médio consiga definir aos amigos sobre o que é o filme. Ou então ativar uma quantidade considerável de influenciadores apaixonados que vão direcionar todos seus contatos sociais aos cinemas. Sei lá.

Voltando à obra, Watchmen é um trabalho tão interessante e complexo que, mesmo mais de 20 anos depois de seu lançamento, ainda não surgiram paralelos, mesmo num ecossistema tão rico quanto os quadrinhos. Sua intrincada mitologia, na época condensada em um único meio, é perfeita para espalhar-se em uma teia transmedia storytelling com todas as possibilidades de conexão que a cultura digital atual propicia. Já temos promessas de um game com uma narrativa prévia à original e um extra de DVD que explora uma célebre história paralela.  O que mais vem por aí?

Mas isso é outro assunto. Se o Alan Moore já tem dores de cabeça com o que vai acontecer com seu trabalho em uma tela, imagina em todas as outras.

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Fun Home, revisitado

Na real, na real, achei que meu post sobre o livro ficou muito burocrático. Entenda-se: eu vinha de oito dias na praia com os neurônios em pleno estado de largação nas areias de Santa Catarina e acabei me tensionando ao tentar passar para o blog minhas impressões mais emocionais sobre o livro.

A bem da verdade, não tem muito como dividir com vocês o que eu senti ao ler Fun Home. Obviamente eu revisitei minhas próprias questões familiares com o apoio da edição elegante e o olhar compassivo da Alison Bechdel. Às vezes, o calor das questões presentes nos rouba a elegância e a compaixão, mas não custa nada buscá-las na hora de revisitar tais questões. Fun Home foi um passeio interessante em um local que poderia ser assustador.

Isso é algo bonito sobre arte, quando ela entra como uma agulha através da pele e chega até alguns recantos lodosos da nossa mente incutindo um pouco de espaço. Isso pode ser feito de muitas formas, algumas divertidas, outras incômodas, melhor ainda quando são divertidas E incômodas juntas. Significa que algo está sendo mexido mas com um pouco mais de leveza. Ponto para a autora ao fazer isso comigo, loas amplificados caso isso tenha acontecido em uma escala maior (acredito que sim, ou o livro não teria sido alvo de tanta atenção qualificada).

Mais: é boa essa sensação, a de ler sem matar tempo. Não existe, lembra o lama budista e diretor de cinema Dzongsar Khyentse RInpoche, expressão mais estúpida do que “matar tempo”. Tempo é o que temos de mais valioso, a possibilidade de respirar e andar sobre essa terra. Por isso, eu me regozijo em não ter matado tempo lendo um livro, mas realmente ter aproveitado pra fazer algo interessante com meus pensamentos, minhas memórias e algumas de minhas mofadas paredes mentais.

Bom, agora eu estraguei tudo de vez. Se antes alguém se sentiu incentivado a comprar Fun Home, espero que agora eu não tenha exagerado colando o rótulo de terapia pop na capa. Não se deixe enganar pelo sentimentalismo que estou arranhando. Alison Bechdel simplesmente fez o que um bom artista deve fazer: ao abrir o seu coração e a sua mente, ofereceu ganchos para que o leitor atento também o fizesse.

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Fun Home

Alison é uma menina crescendo no interior da Pensilvânia, em uma cidadezinha conservadora. Seu pai, Bruce, professor de inglês, é apaixonado por Scott Fitzgerald, decoração e envolve os três filhos em tudo que diz respeito a cuidar da casa vitoriana, de pendurar cortinas e lustrar candelabros a cortar a grama e fechar janelas por causa de uma devastadora tempestade que se aproxima. A mãe, contrariada, não tem forças para intervir e se refugia em sua tese de mestrado bem como em sua carreira de atriz amadora de teatro. Bruce é distante. Dá mais atenção à reforma da casa do que aos filhos. Alison resigna-se e segue sua vida. Vai descobrindo-se lésbica. Ao saber, sua mãe conta que seu pai é gay. Pouco tempo depois, Bruce se suicida. Não que uma coisa tenha a ver com a outra.

Pensa bem. Bruce e Alison. Que prato incrível para um melodrama rasgado e previsível. Mas, para nossa sorte, não é o que acontece. Fun Home – Uma Tragédia em Família, desvia do dramalhão mexicano e se mostra um mergulho disciplinado e corajoso de Alison Bechdel nas águas profundas de suas relações familiares. A coragem da autora, cuja reputação vem da série de tiras lésbicas Dykes To Watch Out For, não se deve simplesmente por abrir publicamente suas feridas (com uma duvidosa anuência de sua mãe), mas sim da capacidade de explorá-las de forma dedicada e generosa, sem cair um quadrinho sequer no sarcasmo fácil ou na confissão pura e óbvia.

Durante sete anos, Bechdel trabalhou arduamente no projeto de seu álbum, revisitando seus antigos diários (alguns escritos em um período de transtorno obsessivo compulsivo), utilizando fotos de álbuns de família como referência para seus desenhos, confeccionando mapas geográficos para entendermos melhor a história, reproduzindo capas de jornais e cartas à mão e, acima de tudo, demonstrando uma empatia comovente para com a figura controversa de seu pai.

Em termos narrativos, Alison se valeu de um catatau de referências literárias (não gratuitas, mas devido às paixões intelectuais de família Bechdel) que vai de Marcel Proust a James Joyce. Entremeada de citações mas sem prejuízo para o espectador iletrado (grupo no qual me incluo), a rede de lembranças é explorada de forma não linear, com saltos para frente ou para trás que não trazem qualquer obstáculo à compreensão da história por um motivo muito simples: é assim que a nossa memória funciona.

Em termos visuais, Alison declaradamente se filia à tradição de Robert Crumb e Hergè (e eu ainda adiciono Will Eisner e também lembra o Laerte!), mestres em retratar quadros realistas com ares cartunescos, o que significa transpor a riqueza de detalhes do “mundo real” para traços firmes e de proporções levemente arredondadas. Uma escolha interessante, pois traz leveza e ingenuidade a uma história de contornos muitas vezes mórbidos. É irônico, porém bonito, que fique mais fácil enxergar a face humana dos personagens quando eles parecem ter saído de antigos desenhos animados.

No caminho disso tudo, ainda temos amostras incrivelmente ricas da cultura de classe média americana dos anos 60 e 70, tanto no âmbito interiorano como nos primeiros espasmos da cultura gay novaiorquina. É possível investigar cada quadrinho em busca de signos estéticos que numa passada de olho servem apenas para temperar a história.

Em resumo, Fun Home é uma maravilhosa história (uma experiência, na verdade) de reconstrução de identidade a partir da investigação de lembranças, sensações, sentimentos e pensamentos. Em grande parte das resenhas que você encontrar na internet, as memórias de Alison Bechdel são reduzidas à questão da homossexualidade, dela e de seu pai. Mas Fun Home transcende esse aspecto, mostrando-se um abrangente compêndio sobre os retorcidos laços que ligam as famílias e as reentrâncias que nem sempre precisam ser totalmente iluminadas para serem aceitas.

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Alfabetização do olhar

“Não que eu me achasse um grande desenhista, mas me dava a sensação de que estava pondo ordem no caos ao meu redor (…) Notei que, de uma maneira estranha, aquilo purificava a experiência do meu olho (…)”

- Bob Dylan, em ‘Crônicas: volume 1′, sobre quando ele começou a desenhar, no início dos anos 60.

Eu terminei hoje a leitura do ‘Crônicas’ [que é excelente, mas isso é outro assunto], e é claro que uma passagem sobre desenho ia chamar minha atenção. Não pelo fato do Dylan desenhar, mas pela relação dele com o desenho como algo que ajuda ele, de certa forma a afiar sua percepção. Na hora eu lembrei de algumas entrevistas que li com o Richard Serra, escultor que também tem um trabalho sensacional de desenho e que é dos meus favoritos. Sem contar que ele fala muito bem, de forma muito direta, sobre o trabalho dele. Entre as coisas que eu encontrei nas minhas anotações:

“Isso se tornou algo que eu sabia fazer, (…) como um modo de manter meu olho e minha mão coordenados em relação ao que eu via. (…) Acho que o olho é um tipo de músculo: quanto mais você desenha, mais definido fica o músculo, melhor você vê, na verdade.”

Uma coisa interessante é que ele nunca desenha suas esculturas em projeto, mas somente depois de prontas. Em um video que assisti [desse documentário] ele aparece com o caderno nas mãos, desenhando em pé, enquanto uma escultura de algumas toneladas é colocada no lugar por um guindaste. Infelizmente, o trecho que eu me refiro não está online. Pra piorar, o plugin é aquele realplayer que eu nunca consigo instalar.

Outra frase dele: “Olhamos para desenhos através dos desenhos que já vimos.” Pensa nisso. Vale pra muita coisa na vida. Soa óbvio, mas como tantas obviedades, a gente passa por ela batido a maior parte do tempo.

Tive um professor que diz que desenhar não é uma questão de coordenação motora, mas uma questão perceptiva. E, ao começar a desenhar, a gente se dá conta rapidinho disso.

Pesquisando um pouco sobre um outro escultor que faz desenhos sensacionais, Antony Gormley, encontrei esse post sobre uma palestra dele chamada “Desenhando o que você não consegue ver” [ó o que eu falei sobre percepção aí]. algumas frases que o autor desse post destacou da palestra:

“Desenhar é como pensar alto.”

“Desenhar é uma forma de explicar, é uma anotação de uma viagem.”

“O imediatismo do que está acontecendo é mais importante do que a acuidade. Você está tentando fazer uma anotação sobre algo que você não tem certeza sobre e é isso que faz [desenhar] ser valioso.”

“Você tem que desistir de todas as suas idéias de com o que determinada coisa se parece.”

Eu ainda queria fazer algumas relações entre percepção e a resistência ao novo que todos nós temos, mas acho melhor deixar pras próximas férias do Mini.

As imagens do post são alguns dos meus desenhos. Dá pra conhecer um pouco mais do meu trabalho de artista aqui, e um portfolio defasado pacas de ilustrador no Flickr. O título do post é uma definição de desenho que ouvi uma vez do Flávio Gonçalves, amigo e artista.

Post escrito por Guilherme Dable enquanto o Mini está de férias.

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O conto do amor

Em agosto, o psicanalista, psicoterapeuta e ensaísata Contardo Calligaris esteve em Porto Alegre e escrevi um post a respeito de sua abordagem do viés narrativo e criativo das nossas subjetividades.  Por trás do tema, uma busca pessoal de Calligaris: a reconstrução narrativa de sua relação com o pai, não inferida por mim, mas abertamente declarada em entrevistas.

Neste fim de semana, terminei de ler “O Conto do Amor“, primeiro romance do italiano radicado no Brasil dedicado a nos contar um pedaço decisivo da vida de Carlo Antonini. Carlo, como Contardo, é psicanalista, italiano, morador de Nova Iorque (Calligaris já o foi) e, no ponto da história em que chegamos, está envolvido com a resolução de enigmas pessoais a respeito de seu pai. O velho, em seus últimos dias de vida, oferece ao filho pistas que clareiam esses enigmas e Antonini não tem dúvida nenhuma: se joga no tabuleiro e mergulha nas narrativas pessoais de seu pai, partindo de seus diários, da sua paixão por arte renascentista e alcançando as áreas sombreadas que os afrescos produziram na vida em família (propositalmente ou não).

O livro é ótimo. Uma investigação psicanalítica (não estritamente, estou usandoa palavra no modo “popular”) com ritmo de thriller. Carlo passa as cerca de 120 páginas voando entre os Estados Unidos, a Itália e a França, trocando emails com uma especialista no pintor Sodoma, redesenhando a imagem do pai da forma como Calligaris acredita que os nós das relações devem ser desfeitos: na ação e não no papo. O Conto do Amor, portanto, é um livro de bastante ação, mesmo que sob a forma de conversa. As palavras do escritor e do protagonista não se resumem a refletir, mas parecem buscar a mobilização.

Como falei no post anterior, uma das coisas bonitas da visão de Contardo Calligaris é a possibilidade de liberdade que ela oferece. Ao longo do romance, noções como “verdade” e “realidade” são constantemente desafiadas. No caminho para montar o quebra-cabeças do passado obscuro do pai, Antonini precisa lidar com quadros escondidos ou roubados durante o facismo, mentiras usadas para proteger familiares de tendências suicidas, cópias de afrescos alterados, uma série de véus que são descortinados sabiamente sem mágoa, mas com a clareza de que cada pessoa não tem “uma” história pessoal, mas muitas. E além de variadas, elas são absolutmente maleáveis. É possível reescrevemos as narrativas das pessoas que amamos ou que nos amaram, porque somos ao mesmo tempo criatura e criador. O papel de criatura é óbvio e, ao tomar as cores de vítima, cômodo. O papel de criador, por sua vez, frequentemente é esquecido, pela carga de responsabilidade que traz junto. Isso é algo bastante pessoal, mas achei o livro inspirador no sentido de dividir essa visão com o leitor. Ela refresca, areja o coração.

Duas últimas anotações.

Uma: em uma entrevista por aí, vi que a idéia original do título é lembrar algo como “o conto do vigário”. Não sei bem se captei a piada ou se viajei demais, mas eu vejo como mais um elemento da reflexão em torno da noção de o que é real e o que não é real – ou se isso interessa.

Duas: em meu post de agosto, lembro dele mais uma vez, levantei as novas possibilidade de criação e recriação narrativa das nossas histórias que ferramentas como o MSN, Orkut e o email nos oferecem. É algo que em algum ponto dos próximos meses vou explorar aqui. Não sei quando e nem como. Mas vou.

Caso você se interesse, sugiro que espere lendo O Conto do Amor.

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Imagems: Heather Horton do Devian Art.

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Conector entrevista Liniers

Complementando o post da semana passada, abaixo estão as cinco perguntinhas que eu mandei pro Liniers. Procurei, na medida do possível, perguntar coisas complementares a outras entrevistas locais como a do Universo HQ, do Overmundou ou da Folha. Confereaê.

***

Conector: Depois de seis Macanudos, um pequeno livro pra crianças, um diário de viagens e um “cuaderno“, você tem planos para expandir sua linguagem? Alguma idéia para uma graphic novel ou algo mais extenso?
Liniers: Eu espero no próximo ano encontrar tempo pra desenvolver uma história no formato de graphic novel. Ela está já há algum tempo na minha cabeça, mas as tiras diárias acabam deixando pouco espaço para fazer outras coisas.

Conector: Você recebe muitas propostas de licenciamento? Existe um limite que você não gostaria de cruzar nesse sentido, para não expôr demais seus personagens?
Liniers: Eu faço muito pouco licenciamento, apenas para alguns amigos que fazem camisetas e cadernos. Não me sinto muito confortável em perder o controle sobre o meu trabalho.

Conector: Como você vivia antes do Macanudo pagar suas contas?
Liniers: Eu casei com uma advogada… felizmente, minha mulher não é mais advogada, ela é escritora agora.

Conector: De que forma o nascimento de sua filha vem influenciando seu trabalho? Pergunto isso porque você sempre pareceu ter uma abordagem infantil da realidade (no bom sentido!).
Liniers: Gosto muito dessa ponte bem construída que tenho com a minha infância. É uma parte emblemática das nossas vidas. A presença de Matilda certamente reforça minha relação com essa época incrível. Com certeza ela tem me influenciado de toda forma possível, das mais alegres formas possíveis.

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Legal né? É.

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OESQUEMA

3. Bruno posta clip do Of Montreal. E eu concordo: “An Elurdian Instance” é A música do disco.

2. Arnaldo é obrigatório nos colégios. Mas não vai ficar rico como o Peninha.

1. Matias resgata a mixtape do Costa a Costa, rap cearense buscando a relevância do gênero.

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Proximidade

O sócio Will, além de continuar compondo singles pra Wonkavision lá de Londres, encerrou o mestrado e resolveu fazer o que? Um blog. A idéia do Will é continuar no TV Branding as reflexões que ele começou por conta da sua tese. Mesmo que você não saiba e nem queira saber o que é TV Branding, eu recomendo a visita, porque ele começou explanando os conceitos bases da disciplina que estudou e estou achando muito útil pra qualquer um que se interesse pelo estado das coisas em termos de mídia. Vários posts do Conector foram inspirados em conversas (em pessoa ou por google talk) com o Will.

Já a colega e escritora Magali Moraes também virou aquela coisa que ninguém sabe muito bem definir o que é: blogueira. Há algumas semanas que ela vem postando textos já publicados em colunas e livros, bem como se exercitando na frente de todo mundo no Eu Leio Magali Moraes.

A outra colega, Gabriela Oliveira, ás da pesquisa de referência, costuma fazer a felicidade de um grupo seleto através de emails cheios de quitutes interessantes. Atendendo a pedidos (um deles foi meu), ela resolveu dividir seus achados comquem mais quiser no Gabe Refs.

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Foto: daqui.

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Dilemas Universais da Pessoa Humana

É curioso isso: toda vez que um entrevistado responde à pergunta “O que você faz no seus momentos de lazer?”, ele sempre frisa assim:

“Gosto de ler um bom livro.”

“Adoro ficar em casa e tomar um bom vinho.”

“Ah, eu adoro assistir a um bom filme.”

Ninguém diz assim.

“Adoro ficar em casa com a minha família e ler um livro ruim que não diz coisa com coisa.”

Ou então.

“Meu programa predileto no final de semana é reunir os amigos pra tomar um vinho horroroso, que dá azia. Engolimos o mais rápido possível pra não sentir o gosto, é um stress. Mas fazer o que, precisamos relaxar.”

Perceba que, se analisarmos os relatórios de venda de vinho e livros, veremos enormes colunas coloridas no Excel onde diz “livros chatos que não dizem coisa com coisa” e “vinhos horrorosos que dão azia”, de forma que algo me diz que, se depender das entrevistas, a matemática toda do universo não está fechando.

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