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Corrida-dô

Do Que Estou Falo Quando Eu Falo de Corrida é aquela coletânea de elegantes ensaios em que o escritor japonês Haruki Murakami divaga sobre os meandros do hábito que mantém há mais de 25 anos: correr. O livro tem diversos predicados, mas talvez o mais impressionante seja criar um nexo popularmente acessível para a associação entre exercícios físicos e tarefas intelectuais.

A surpresa começa assim: em pleno 2011, quando se discute largamente preconceitos de raça, vontades sexuais e opção religiosa, o clichê do escritor de vida insalubre reina sólido entre nós. Não sou eu que digo, é o próprio autor num dos ensaios, corroborado pelo fato do livro surgir como exceção, como objeto de curiosidade. Que autoridade tem um romancista para escrever sobre corrida?

Murakami dá suas credenciais: além de correr quase que diariamente, ele costuma participar de uma maratona por ano e ainda inclui alguns triatlos no currículo. Não é, certamente, daquele pelotão de elite e nem quer ser. Embora não despreze os companheiros de esporte nem os eventos de que participa, não é tanto a corrida que o interessa e sim o caminho. Típico de um japonês.

Aprendi com uma shiatsuterapeuta e monja zen que caminho em japonês é DÔ. Daí os termos Judô (caminho suave) e Aikidô (caminho da harmonização da energia), por exemplo. Vem da cultura oriental, acho, a noção de que toda e qualquer atividade pode ser tomada como “caminho”, como um meio de autoconhecimento, de consciência e domínio das sua própria capacidade. Desde tomar chá até jogar flechas em um alvo (e fica aqui a recomendação do excelente A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen), tudo pode ser utilizado como método de investigação da própria mente e da realidade que ela tricota. É aquela história: um caminho que tem por objetivo ser percorrido mais do que levar a algum lugar.

Mas o livro vai bem além da filosofia barata que estou engendrando aqui. Ele é, na verdade, o relato sóbrio e racional de um homem experiente que já escreveu mais de 12 romances (fora os contos, ensaios e traduções) e correu perto de 30 maratonas, uma lista de feitos que o colocaram tempo suficiente em contato consigo mesmo para conhecer seus limites e suas potencialidades, bem como reentrâncias da consciência que a maior parte de nós não costuma visitar.

É aqui que reside o argumento que abre o post: pouco se vê escrito por aí, ainda mais composto de forma tão poética, sobre a sutil conexão entre mente e corpo. O segredo da Murakami é o seguinte: estamos lendo sobre uma experiência de primeira mão cujo resultado é a investigação. A corrida é parte do seu processo de trabalho, uma forma, segundo ele, de lidar com as toxinas da mente que um romancista acessa quando se vale da introspecção profunda como ferramenta de mineração.

Esse, a meu ver, é o aspecto mais bonito do livro. Embora ele fale de mente e fale de corpo, à medida em que avançamos na leitura vai ficando mais difícil dissociar um do outro – assim como a linha de chegada se mescla ao percurso de quem transforma tudo em caminho.

Preguiça

O Gay Talese é um desses caras de quem eu já li várias entrevistas e nenhum livro. Sei da importância, mas não conheço o trabalho. O que talvez não seja um grande problema: tem vários artistas que eu gosto de ler as entrevistas mas não sou muito fã do trabalho.

Enfim, nem era disso que eu queria falar e sim justamente de uma ótima entrevista que ele deu para o site Sul21. Segundo Talese, os jornalistas estão muito preguiçosos porque não querem viver seus assuntos e sim pesquisar sobre eles, perguntar sobre eles. É fácil cair no clichê de botar a culpa na internet, mas é bacana porque ele justamente traça esse comportamento até o início do uso do GRAVADOR para entrevistas. Ou seja, ainda que ele jogue, sim, um pouco da responsabilidade em tecnologias, não chega a incorrer no lugar comum de botar toda a culpa no Google.

Mas se a gente cavocar um pouco mais a superfície da entrevista vai ver uma proposta quase espiritual ou artística para o ofício de jornalista – ou de qualquer pessoa envolvida em comunicação. Viver o assunto e não simplesmente pesquisar à distância sobre ele. O que, obviamente, contraria o ritmo, a velocidade em que vivemos atualmente. Nessa situação, é curioso, levar tempo pra fazer alguma coisa se transforma quase num ato de resistência. Se você por algum motivo não fizer algo pra ontem, está automaticamente militando.

Forma-se um paradoxo (eita palavrinha surrada!): diante do fluxo acelerado, não fazer nada dá trabalho e fazer tudo correndo é sinal de preguiça.

Calças Cáqui

Por acaso, continuo escrevendo sobre roupas. O assunto está me perseguindo. Ou eu a ele, certamente. Freud explica. Ou Jung. Ou Lacan. Ou Perls. Ou eu.

Enfim.

Neste fim de semana, entrei na reta final da biografia do Allen Ginsberg – cuja leitura vem se estendendo desde outubro passado – e me deparei com mais uma passagem que merece uma escrevinhadinha aqui.

O trecho conta um episódio de 1994 quando a Gap, clássico magazine da classe média americana, botou na rua uma campanha com nomes proeminentes da cultura e da contracultura que haviam… usado calças cáqui. As chamadas “khakis” são um dos ícones mais perenes da história da moda, tendo origem na vestimenta militar e chegando ao uso civil como parte do uniforme “business casual”.

Segundo o blog Listology…

“Arthur Miller wore kakhis.
Kerouac wore khakis.
Andy Warhol wore khakis.
James Dean wore khakis.
Isamu Noguchi wore khakis.
Miles Davis wore khakis.
Howlin’ Wolf wore khakis.
Marlene Dietrich wore khakis.
Amelia Earhart wore khakis.
Allen Ginsberg wore khakis.
Pablo Picasso wore khakis.
Marilyn Monroe wore khakis.
Jean Cocteau wore khakis.
Chet Baker wore khakis.
Hemingway wore khakis.
Steve McQueen wore khakis.
Frank Lloyd Wright wore khakis.
Zsa Zsa wore khakis.”

A idéia da Gap com a campanha não é difícil de decodificar: apimentar um pouco o status das calças cáqui, que haviam se transformado (e ainda são, de certa forma) em sinônimo de caretice e yuppismo. No voraz mercado consumidor americano, forjado à base de consumo como forma de rebeldia, não tinha como dar errado. Deve ter vendido horrores.

Mas, ao mesmo tempo, claro que um monte de gente caiu matando em cima do Allen Ginsberg. Como um dos pais da contracultura aceitou 20 mil dólares pra pousar pra anúncios da Gap? É mais ou menos como se o Lourenço Mutarelli daqui a pouco aparecesse num comercial da Renner.

Mas no livro do Bill Morgan, esse que tô lendo, conta-se que a motivação do velho beat era nobre: o dinheiro seria – e foi – todo doado à Escola Jack Kerouac para Poetas Desencarnados, parte da universidade budista de Naropa no Colorado. Não adiantou muito. Mesmo com a doação integral do cachê citada no anúncio, Ginsberg foi alvo de uma onda de críticas por “ter se vendido”. Qualquer defesa diante de turbas contraculturais enfurecidas é sempre inútil e o poeta se limitou a lamentar (e talvez aproveitar o fuzuê, pois era conhecido tanto por sua generosidade quanto por seu ego tamanho família). O curioso é que Ginsberg sempre viveu de forma materialmente muito mais simples do que nomes como o amigo Bob Dylan ou Mick Jagger, também ícones da contracultura mas que raramente foram criticados por seus luxos.

Coisas do mundo pop, que obedece a uma lógica, mas não necessariamente serve a algum tipo de justiça. Ou seria o contrário?

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Nos anos 90, a Levi’s também fez anúncio usando trechos de livros (e grandes fotos) de Kerouac, Ken Kesey e Hunter Thompson onde eles citavam a marca no meio da história. Não achei numa busca rápida do Google Images, mas lembro claramente de ver isso em algum anuário de publicidade. Se eu achar um dia desses, escaneio as peças.

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O Crushable fez uma brincadeira – não tão brincadeira – com a primeira imagem do On The Road do Walter Salles Jr. De fato, como coloca o blog, é uma foto que se presta perfeitamente para anúncios.

A foto original:

Versão Levi’s:

Versão Converse:

Mais uma prova da bagunça que se tornou a iconografia contemporânea. Ninguém é mais de ninguém – e isso, ainda que assustador, tem aí um componente de liberdade.

Crônicas de Gelo, Fogo e Sangue do Autor

Deu na The New Yorker semana passada: o escritor George R.R. Martin vem sofrendo há anos bullying dos seus próprios fãs. Roteirista da série Além da Imaginação e premiado escritor de ficção científica, Martin já vendeu mais de 15 milhões de livros ao redor do mundo com Crônicas de Gelo e Fogo, um descomunal épico de fantasia soturno e violento que vem sendo publicado desde 1996 e deve ser encerrar em alguns anos com a contagem total de sete populdos volumes. Os quatro primeiros já foram lançados nos EUA, sendo que Game of Thrones, que inaugura a coleção, também está para estrear semana que vem como série na HBO gringa. No Brasil, A Game of Thrones chegou às livrarias só no ano passado, o segundo segmento chegou agora no início do ano e a série estréia na nossa HBO em maio.

Como é de se esperar, o criador de um verdadeiro universo a la Tolkien (com mais sangue e lágrimas, segundo relatos) tem um séquito de apaixonados que costuma esmiuçar a obra e discuti-la nos mínimos detalhes em fóruns e blogs internet afora. Até aí tudo bem. Martin, ele mesmo, é um clássico fã de ficção científica e frequentador de convenções do gênero desde sempre, o que o coloca em posição de igualdade com seus leitores em muitos aspectos.

Os problemas começaram quando o intervalo entre o lançamento mais recente e o próximo começou a se estender. A Feast for Crows é de 2005 e A Dance With Dragons está previsto apenas para julho deste ano. Para nós, que não estamos nem aí pra tudo isso, tudo bem. Mas para uma série de fãs exaltados, o assunto é sério. Tão sério que eles começaram a vigiar digitalmente o ex-ídolo. Postando com certa frequência sobre futebol, política e suas viagens particulares em seu blog, Martin começou a ser xingado em comunidades de fãs sobre sua suposta preguiça. Quando os revoltados mais desbocados foram expulsos dos fóruns oficiais, passaram a criar seus próprios espaços para cultivar a ira de quem se sentiu… hmmm… bem… traído. Chegou-se ao ponto de alguns ex-fãs calcularem o número de horas que o autor supostamente utilizou em suas atividades cotidianas e mostrar que esse tempo poderia ter sido utilizado para adiantar o lançamento de A Dance With Dragons.

Muito há o que se dizer e o que se pensar desse caso.

Martin com alunos de uma oficina literária em 2004

Primeiro, numa certa altura, a matéria da New Yorker levanta uma questão fundamental que atravessa o tema como uma lança medieval: muitas pessoas hoje se consideram não exatamente público de um artista ou de uma obra, mas CLIENTES. Não estamos falando de processos colaborativos, da aproximação e troca entre audiência e artista, mas sim da redução da relação entre as partes a uma mera transação comercial. Em outras palavras, gente que acha que pode qualquer coisa só porque “está pagando.” Por mais que a divisão entre artistas e público esteja cada vez mais borrada, “Eu estou pagando” é uma frase arrogante e que pouco contribui para o aprofundamento desses laços. Não sou a favor da canonização de artistas, mas também não defendo de forma alguma a dessacralização pelo poder financeiro. Aliás, derrubar pedestais a golpes de maços de dinheiro não é um bom negócio pra ninguém em área alguma.

É importante frisar, como bem lembrou o repórter, que quem pagou pelos livros de Martin teve sua mercadoria entregue. O que se começou a cobrar foi uma espécie de capital futuro, como se o investimento emocional absolutamente voluntário e particular no universo criado por Martin o obrigasse a devolver certos dividendos para os “investidores”. Já dizia Exupery que “és responsável pelo que cativas”, mas talvez as coisas estejam um pouco fora de controle aqui.

(Uma digressão: infelizmente, a atitude dos fãs enfurecidos não é um fato isolado. Preste atenção e perceba como cada vez mais tem gente dando uma de “estou pagando” nas ruas ou na internet. Tem um lado certamente saudável de nós, brasileiros, começarmos a lutar por nossos direitos. Mas em algumas situações, desajeitados com essa nova idéia, talvez estejamos nos perdendo. Precisamos cuidar para não nos tornarmos mimados e birrentos como alguns povos do tal primeiro mundo.)

Vamos adiante.

Em segundo lugar, lembrei do debate do qual participei ano passado no Fórum Música Brasil, onde um dos assuntos era a divisão de tempo de artistas que também fazem as vezes de produtores. Alguém da platéia foi direto ao ponto: o artista que fica muito tempo interagindo com seus fãs nas redes sociais,  uma atividade extremamente absorvente, não perde tempo de criação?

Antes de mais nada, é preciso reconhecer a variedade de formatos de atuação artística que existe hoje. De um lado do espectro, temos artistas que se dedicam apenas a compor, tocar, escrever, filmar e se envolvem o mínimo possível em questões alheias ao processo criativo por uma opção ideológica ou por simplesmente terem construído essa condição. Na outra ponta, temos artistas que precisam, por questão de sobrevivência, gerenciar completamente sua carreira, produzir seus shows, vender seus quadros, fazer contatos telefônicos, pagar seus impostos (caso não sejam anarquistas roots) e também manter contato constante com os fãs, seja pra efeito artístico ou de divulgação.

Entre um pólo e outro, há toda uma gama de combinações: artistas que gostam e fazem com talento a ponte com os fãs, artistas que tem a mão para os negócios, artistas que se autoproduzem para ter controle de todos os aspectos do seu trabalho e por aí vai. Podemos inclusive chegar ao ponto de encontrar artistas que transformam a produção do seu trabalho e de sua carreira como uma obra em si, senão uma obra artística ao menos uma peça interessante de comunicação social. O Emicida é o que me vem à mente como exemplo disso. Sua presença na internet é quase como um processo constante de rimar, não necessariamente a rima da música, mas a rima da labuta artística.O Radiohead é outro exemplo constante há muito anos. Lembram quando um dos guitarristas abriu um blog pra falar do processo de produção de Kid A?

O tabuleiro do jogo A Game of Thrones.

Voltando à questão do público, não é exatamente novo o caso de fãs que sentem-se donos da vida particular do artista, bem como de sua arte. O que vem mudando, já faz algum tempo, são as imensas possibilidades de colaboração e vigilância que a internet permite. No caso do autor de Crônicas de Gelo e Fogo, obviamente a coisa tomou proporções épicas. Podemos olhar como um épico do Monthy Pyton, rindo à distância dos exageros dos detratores de George R. R. Martin. Ou podemos buscar uma via mais interessante e pensar em como toda essa função é quase uma extensão do processo criativo do autor (como essa pressão interferiu na trama que está pra ser publicada?) e até mesmo das batalhas travadas em Westeros, o continente místico-medieval que serve de palco para as aventuras da saga. Onde começa e termina Westeros? São os fãs personagens vivos de uma trama paralela de Crônicas de Fogo e Gelo? É tudo um grande RPG bizarro que fugiu do controle de Martin?

Meu veredicto, se é que ele é necessário: Martin e seus fãs são vítimas do tempo em que vivem, do tempo em que todos vivemos. Um tempo em que a maior parte das pessoas não desenvolveu suas ferramentas sociais internas na mesma velocidade em que evoluíram as ferramentas sociais digitais – externas. Um tempo em que os códigos que servem pra mediar as relações pessoais são influenciados por softwares e redes ainda novos, quase ingênuos, e que não estão organizados ainda pra suportar – sem causar uma boa porção de tensão – o amplo escopo da experiência humana.

Boa sorte a todos os envolvidos!

Jeffrey Brown

Numa rápida folheada, o que mais chama a atenção em um livro do Jeffrey Brown são aspectos que provavelmente vão afastar a maior parte das pessoas. Afinal, estamos falando de 1) quadrinhos 2) autobiográficos 3) desenhados toscamente, uma combinação que não fica em pé na sua estante ou na sua memória a menos que 1) o cara seja muito bom contador de histórias e 2) os desenhos toscos sejam mera fachada.

Esse é o golpe ao contrário de Jeffrey Brown que, de fato, me enganou direitinho. Não fosse minha mulher, que nem é fã de quadrinhos mas que teve a sensibilidade de comprar dois livretos dele, eu não teria ultrapassado esse esquisito pedágio estético e não teria tido 3 das leituras mais bacanas dos últimos tempos.

Vamos começar por Clumsy, primeiro livro publicado por Brown e também o primeiro que eu li dele. Curiosamente, também é o tipo de livro do qual eu fujo: cansei de quadrinhos sobre caras desajeitados (uma das traduções pra clumsy) e suas desventuras sentimentais. Mas, por algum motivo, Clumsy me prendeu do início ao fim e nem tanto porque eu queria saber o fim da história (o rompimento da relação de Brown com uma namorada à distância, anunciado logo de cara) nem tampouco porque eu precisasse ir até o fim para terminar a narrativa (Clumsy é uma coleção de pequenas cenas cotidianas).

O grande atrativo do Clumsy (e, na verdade, também dos outros dois livros dele que eu li) é a sensibilidade de Brown pra escolher a dedo que momentos da vida privada rendem uma cena interessante. Em uma época em que o escangalhamento da privacidade é regra, se torna ainda mais difícil criar narrativas a partir de momentos privados, já que muita gente passou a acreditar que todo momento privado fosse naturalmente uma narrativa. É aí que entra o treinamento exaustivo a que o autor se submeteu.

Em Funny Misshapen Body, Brown deixa de focar apenas sua vida sentimental pra nos entregar fartas e bem servidas sequências de sua formação. Lá descobrimos que ele se alimentou durante anos de uma dieta consistente de quadrinhos, começando com os super heróis mas passando, mais adiante, para a seara das graphic novels independentes. Nomes como Chris Ware e Daniel Clowes são frequentemente citados e, no caso de Ware, ele mesmo é personagem de algumas historietas deste volume: o respeitado autor de Jimmy Corrigan é quem dá o primeiro empurrão na carreira de quadrinista de Brown, orientando o rapaz a investir na autopublicação de Clumsy depois de repetidas rejeições editoriais.

Isso é bacana: após acompanharmos o autor em momentos de sua infância, da vida na escola, da escolha pela educação formal em arte (tô dizendo que esses desenhos toscos são só pra nos enganar…), pelos seus clássicos subempregos de Geração X e até por alguns relacionamentos, o livro termina com a história da concepção e publicação de Clumsy, o primeiro livro. Algum ciclo certamente se fecha aí.

O título Funny Misshapen Body é inspirado em grande parte na doença crônica de intestinos que acompanha Brown num bom pedaço da sua vida até então. Essa passagem é ao mesmo tempo exercício e prova do talento do cartunista: transformar um episódio médico de intestinos em algo a ser acompanhado exige mais do que meia dúzia de câmeras escondidas e uma audiência adestrada no mundo dos reality shows. É preciso, de fato, ter o olhar detalhista que revela (ou induz) as nuances escondidas no cotidiano mais intragável. Não estamos falando de um mero relato, mas quase de um trabalho de escultura, de retirar os excessos e deixar o essencial, tanto em termos verbais quanto visuais.

Little Things pende mais para Body do que para Clumsy. Continuam, aqui e ali, as aventuras sentimentais, mas está mais para uma coleção de fatias (como diz o subtítulo) da vida cotidiana. Apesar de ser mais do mesmo, é um pouco como Ramones: se você curte o jeito como ele resolve as coisas no papel (que não deixa de ser meio Ramones, à base do 1-2-3-4), não é enjoativo.

A história que fecha Little Things, assim como em Body, também é simbólica. Deixando pra trás os rolos de relacionamento, as doenças crônicas, as viagens de acampamento e a vida de gerente de loja de CD pra dar as primeiras pinceladas da paternidade. De novo, o tema de concepção fecha um volume do autor. Não sei dizer se esse padrão se repete no resto da obra, mas assim que eu for voltando aos livros de Brown, o que pretendo fazer aos poucos, vou contando pra vocês.

Deixo aqui, então, mais essa indicação dessa tecla que tenho insistido em bater: quadrinhos de não-ficção. Em temos de investigação endêmica da vida alheia, como já disse, por meio de reality shows e redes sociais, é bacana ver uma abordagem que se insere nesse traço forte da cultura contemporânea conseguindo fugir da vulgaridade. Ou seja, não precisamos negar nossa inserção no zetgeist, no espírito do tempo, e nem precisamos chafurdar na superficialidade.

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Algumas notas finais.

A produção de Brown é relativamente grande. Não deixe de dar uma olhada na página dedicada a ele na Amazon ou, se preferir, compre direto nas editoras. O site do autor tem os links.

Ele inclusive já publicou material de ficção e humor, fora do escopo das próprias memórias. Mas esses, confesso, ainda não conheço.

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Cheguei no trabalho do Jeffrey Brown de um jeito muito bacana e meio do avesso. Em outubro, eu e minha mulher estávamos em Montreal (ainda sai um post sobre a cidade) quando encontramos por acaso (juro) a loja da Drawn & Quaterly, uma das mais importantes editoras de quadrinhos independentes do mundo, uma espécie de Fantagraphics menorzinha e canadense. Lamentavelmente, me esqueci de tirar uma foto na frente da loja.

Bem, na primeira esbarrada com a D&Q, fizemos uma visita rápida pois nossa caminhada tinha outros objetivos e também tinha tanta coisa pra comprar que fiquei meio tonto e não gosto de comprar nada logo de cara. Alguns dias depois, voltamos lá dedicados a explorar a loja de fato e saímos com duas sacolas de material muito bom. Foi lá que comprei, por exemplo, o French Milk e o New Orleans After the Deluge, já comentados aqui.

Minha mulher, que não é tão fã de quadrinhos, também fez seu pequeno rancho e levou dois pequenos livros do Jeffrey Brown, além de um outro álbum bacana que ainda não li e que certamente será comentado aqui em breve. Devo a ela a descoberta. É como se eu, inapto para o mundo gourmet, tivesse apresentado um bom restaurante a ela, que domina os prazeres da mesa.

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Se você também curte quadrinhos, explore a categoria LIVROS do blog. Eu não faço distinção entre livros “escritos” e livros “desenhados”. Pra mim é tudo LIVROS.

Kindle na praia

Uma das primeiras questões que vieram à minha mente quando comprei o Kindle foi como levá-lo em segurança pra praia. O Nasi já tinha me comentado que não havia problema, também vi que existem uns cases à prova d’água (meio caro e bizarros) e, outro dia, o próprio Jeff Bezzos contou sua estratégia pra ler o Kindle na banheira – colocá-lo dentro de um saquinho zip-lock.

Bom, eu esqueci de levar um zip-lock pra praia, então tive que me virar com um saquinho qualquer que o pessoal da cozinha da pousada me forneceu. E sabe que resolveu bem a parada? Assim, eu pude ler na boa, sem precisar ficar cuidando se ia entrar areia ou água no aparelho. Mais uma vez o Kindle se mostrou prático, mas eu fico meio de cara com essas manias dos aparelhos digitais. No geral, eles são muito frescos, cheio de dedos (especialmente os de tela touch). Não pode molhar, não pode derrubar, não pode abrir site em flash, não pode, não pode…

Com livros e revistas, se o DONO não é fresco, pode tudo. Os meios impressos não tem frescuras: eles se deitam com qualquer um em qualquer lugar, apanham, se molham, se sujam e, mesmo desbragados e amarrotados, ficam lá com sua empáfia. Têm sua dignidade. Na cama, se são muito pesados, ficam por baixo sem neura. Se pegamos no sono enquanto lemos, podemos jogá-los no chão sem muita cerimônia que eles não vão ficar magoadinhos e se recusar a ligar no dia seguinte. Estão sempre disponíveis pra nós, sua bateria está sempre carregada. São limitados, mas também servis e disponíveis.

Moral da história: costuma-se defender os meios impressos pela sua suposta nobreza, o que é um grave erro. O grande predicado de livros e revistas é justamente sua vagabundagem.

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Leia também: Minhas Impressões sobre o Kindle.

New Orleans After the Deluge

Como todos sabemos, é da cultura televisiva diária privilegiar o impacto, bem como é do telespectador menos curioso tomar o impacto pelo conteúdo. Tem sobrado para alguns meios pouco tradicionais o fardo da grande reportagem, que aprofunda e revela os meandros, as ambigüidades e os desdobramentos que o pico de adrenalina da notícia diária muitas vezes oblitera.

Uma das formas mais eficientes de fazer isso têm sido os quadrinhos jornalísticos e analíticos, representados em sua forma mais popular nos últimos anos pelo americano Joe Sacco e seu mergulho no universo do Oriente Médio. No Brasil, o Allan Sieber também tem feito, à sua maneira, o trabalho de contar histórias verídicas de um ponto de vista não muito visto por aí.

Como fã de Sacco (essa frase não pega bem, né), estou sempre à cata de relatos nessa área. Nessa busca, esbarrei, ano passado, com o execelente New Orleans A.D. do americano Josh Neufeld. O livro (que vem infelizmente a calhar nessa semana em que o Brasil acompanha o drama das chuvas na serra carioca) trata dos fatos que acompanharam a passagem do furacão Katrina pela região de Nova Orleans em 2005, especialmente o drama de quem ficou ilhado devido às inundações que inviabilizaram a fuga da cidade no meio do caos.

Neufeld é fonte de primeira mão: ele esteve no pós-Katrina como voluntário da Cruz Vermelha e blogou sobre seu trabalho lá. Essa impressões se transformaram em uma webcomic (ainda no ar), que é a semente do livro. Mas, diferente de Sacco, que costuma se colocar como o centro de seus relatos, Neufeld escolheu focar todo seu olhar em cinco personagens que sofreram em diferentes níveis a passagem do Katrina. A diversidade de experiências e de background social mapeia de forma bastante pessoal um drama coletivo e de forma direta e de maneira quase serena um evento que costuma sucitar histeria midiática.

Tudo isso, faz de New Orleans A.D. um trabalho que não interessa apenas ao leitor tradicional de quadrinhos, mas a todo aquele que gosta de mergulhar um pouco mais na história de um evento que, quanto mais você conhece suas particularidades, mais o considera universal. Que o digam os moradores da serra do Rio de Janeiro, que também mereciam um Josh Neufeld ou um Joe Sacco para contar uma história que não se resume a imagens impactantes e choros convulsivos transmitidos em rede nacional.

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Ah: tem pra encomenta na Cultura por um preço humano.

Ou vai na Amazon mesmo.

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Outros posts sobre quadrinhos de não-ficção:

- French Milk por Lucy Knisley

- Fun Home por Alison Bechdel

- Conejo de Viaje por Liniers

- Pyongyang por Guy Deslile

French Milk – Lucy Knisley

Nos últimos anos, algum bichinho me mordeu e tenho preferido muito mais ler não-ficção do que ficção. Biografias e diários de viagem, em especial, tem me chamado a atenção e não vou aborrecer vocês com possíveis detalhes psicanalíticos sobre os motivos que me levaram a gestar essa nova preferência.

Mais especificamente, diários de viagem em quadrinhos passaram a ocupar mais espaço na minha biblioteca e a razão é muito simples: embora escritores, em geral, tenham um olhar rico para relatos estrangeiros, quando eles são produzidos por cartunistas, esse olhar é de fato um olhar (com os olhos!) Mais do que isso, é quase um processo de transferência,  uma relação interativa porque como leitores a gente compartilha não só as impressões verbais mas também um pouco do universo visual visitado, mediado pela sensibilidade plástica e pelo traço particular de quem desenha. Ou seja, a gente viaja um pouco mais no relato de viagem ilustrado.

Enfim, foi por isso (e impulsionado pela capa adorável) que acabei comprando French Milk, da Lucy Knisley (tem pro Kindle!). O livro é o relato do período de um mês que a cartunista americana passou com sua mãe em Paris na dobra da adolescência para os primeiros passos do mundo adulto. É durante French Milk, flanando por Paris, que Lucy começa a ter pequenos lampejos das dúvidas práticas e existenciais que vão permear sua década pós-faculdade. E embora sem muita profundidade, o traço simpático beirando o clássico (lembra um pouco Craig Thompson e Will Eisner, bem como antigos cartunistas americanos) e a boa noção de Lucy ao selecionar recortes de sua estadia sem necessariamente montar uma narrativa com focos dramáticos (de dramatização, não de dramalhão) – essa equação que acabou me ganhando.

Nesse sentido, ler French Milk é bem diferente de ler os relatos de Guy Deslile ou Conejo de Viaje do Liniers (cartunistas em diferente estágio de maturidade artística e pessoal). Também não dá pra colocar Lucy na mesma área de gente com densos ares autobiográficos como o Dash Shaw e a Alison Bechdel. Mas essa despretensão não chega a diminuir o prazer de folhear a crise de 1/4 de idade de Lucy. Ainda mais uma crise que come croissant e visita o túmulo do Oscar Wilde. Se não é chique no último, deve ser pelo menos no antepenúltimo. E já tá de bom tamanho.

Bom, disto isto, não deixe de dar uma olhada no blog da Lucy, onde você também vai encontrar mais uma história confessional sobre a separação com o namorado (que aparece em French Milk). São 20 páginas com uma série de pequenos insights bacanas sobre a participação de objetos pessoais em separações e que poderiam muito bem render um disco emo caso fossem mal lapidados – e não são. Salvaged Parts está pra download em PDF (dá pra carregar no Kindle também e fica bem decente) por míseros dois dólares.Eu baixei e vale os R$ 3,50.

Além do mais, o blog é recheado com ilustrações doces e divertidas como essa:

Ou então, o trabalho que ela teve de compactar um filme inteiro do Harry Potter em um único poster:

Alô, Zarabatana Books! Ficadica!

Cachalote – Rafael Coutinho e Daniel Galera

Queiramos ou não, a distância é uma questão recorrente no mundo contemporâneo. Começou com aquele papo de globalização nos anos 90, com as distâncias comerciais e culturais erodindo devido à queda de algumas barreiras econômicas. Nos anos 00, a digitalização dos meios de comunicação elevaram o clichê da “redução de distâncias” a um novo patamar e entramos os anos 10 com uma cultura consolidada de crítica sistemática ao tal “distanciamento entre as pessoas” causado pelo ambiente urbano conturbado e pelos meios digitais. Conversa vai, conversa vem, a distância acabou tornou-se praticamente uma criminosa no nosso léxico. Ela, que no passado já foi motivação para explorações e aventuras, que já foi estopim de grandes movimentos humanos, que é a base química da palavra mais brasileira do mundo – saudade – agora é persona non grata nos círculos intelectuais.

Eis que surge Cachalote, obra gráfico-literária que, de forma enviesada, contrasta totalmente com o pânico da distância que tomou conta da nossa sociedade. Querendo ou não, Rafael Coutinho e Daniel Galera escreveram uma ode à distância e nos proporcionaram um saudável contrapeso à pichação impensada e automática que rola por aí. Nesse sentido, Cachalote talvez tenha vindo para consolidar uma contratendência, uma reação natural ao hipermedo da distância que está em vias de se tornar uma endemia.

O trabalho de Galera e Coutinho, na verdade, resgata uma equação esquecida, a da distância como fator de intimidade. É dessa forma que os personagens e seus dramas nos são apresentados: o escultor que mantém uma devota companheira a uma distância em busca de integridade artística; um ator asiático cumprindo obrigações promocionais no Brasil, distante milhares de quilômetros de casa, distanciando-se também da sua lucidez; um mauricinho que é obrigado a se distanciar do seu tio que o sustentava, refugiando-se na Europa com um “amigo” de tempos distantes; um funcionário de uma loja de ferragens cuja proximidade com uma nova namorada apenas deixa mais aguda a óbvia distância entre os dois; um casal separado cuja distância conjugal serve de ponte para uma relação mais estreita do que a anterior.

Enfim, distância, distância, distância, mas sempre como elo de ligação, como elemento de perspectiva e não propriamente de abandono ou de desconhecimento. Em Cachalote, as pessoas se afastam umas das outras, mesmo inconscientemente, mas ganham perspectiva, como o pintor que de vez em quando dá um passo atrás para olhar o que está fazendo com uma visão mais ampla. Não sem dor, não sem perdas, mas levando de brinde uma visão mais ampla.

Em Cachalote, os espaços entre as pessoas, entre os cenários, entre os quadrinhos e entre os focos de ação narrativa são imensos. Sabiamente, Coutinho e Galera escolheram manter esses espaços abertos. Todos os personagens vivenciam esses espaços em vez de preenchê-los, um toque sutil que faz toda a diferença. O fato dos autores declararem em entrevistas que as histórias não são conectadas – também diferenciando-se de uma tradição recente da literatura e do cinema – só embasa essa idéia. As histórias, na verdade, são sim conectadas. Mas por espaços e distâncias e não por nexos ou qualquer outro tipo de preenchimento. Em resumo, os personagens de Cachalote tem muito em comum e sua história é a mesma. Uma história de distâncias vividas em plenitude, não por opção espiritual ou estética, mas por ser a única possibilidade do momento.

Ao leitor é relegado o mesmo destino. Somos mantidos a uma certa distância do universo dos personagens, a ponto de nos ser negado conhecer o rosto de uma das figuras mais enigmáticas do livro. Mas, em vez de nos afastar, esse recurso nos torna íntimo do núcleo central de Cachalote. Ao sermos afastados, somos paradoxal e incontestavelmente colocados dentro da história. Mais uma vez, a equação se confirma e abre a porta para uma leitura otimista e humanista de um livro que pode, ao primeiro olhar, parecer pessimista e misógino.

Ou seja, não é que Cachalote tenha sido escrito como uma campanha de apologia da distância. Mas, a meu ver, ele não está longe de servir como um forte libelo pela sua descriminalização.

O Fator Nevermind

“Este paper tem por objetivo fazer um rápido apanhado das descobertas que levaram à construção do Sistema Nevermind de Classificação – SNC. O SNC surgiu da necessidade de abreviar e lubrificar interações sociais relacionadas à cultura pop. Durante muitos e muitos anos, os envolvidos nesse estudo sentiram que perderam um valioso tempo de sua vida com discussões subjetivas a respeito de determinados produtos culturais que não raramente terminavam em frustração alcoolizada e bate boca generalizado.

O desenvolvimento do SNC, baseado na descoberta do Fator Nevermind, foi totalmente inspirado nos antigos cursos por correspondência do Instituto Universal Brasileiro.

Talvez a melhor forma de apresentar o Fator Nevermind e o Sistema de Classificação Nevermind seja a partir de um testemunhal. Em uma de nossas pesquisas de campo, um entrevistado afirmou categoricamente em meio ao grupo de estudos sobre cinema que, “queiram vocês ou não” (SIC), JIM CARREY = JERRY LEWIS. Ora, qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento científico sabe que não existem E.P. (Equivalentes Perfeitos) em cultura pop. Os E.P. são produtos naturais de mentes apaixonadas e/ou embriagadas. Além disso, a afirmação de que JIM CARREY = JERRY LEWIS foi empreendida com a clara intenção de DESQUALIFICAR JIM CARREY. Entretanto, quando é colocado JIM CARREY = JERRY LEWIS, é preciso aceitar a equação inversa, ou seja, que JERRY LEWIS = JIM CARREY, o que acaba desqualificando o elemento JERRY LEWIS e também o que, por si só, é o que o pensamento científico classifica como DÃ, NADAVER. Essa equação, portanto, tem sérios problemas estruturais. O teor de contradição na proposição é gritante.

Por outro lado, a investigação é o cerne do pensamento científico. Logo, em vez de desprezarmos tamanho DÃ, NADAVER, tomamos a equação original de nosso entrevistado e criamos um postulado mais adequado: JIM CARREY = (JERRY LEWS + X), sendo X uma variável pop qualquer. Começamos os experimentos postulando que JIM CARREY = (JERRY LEWIS + JACK NICHOLSON), experimento que naufragou em laboratório e que nos levou a um segundo composto, JIM CARREY = [JERRY LEWIS + (JACK NICHOLSON - DRAMATICIDADE)]. Os resultados utilizando-se esse segundo postulado não são conclusivos ainda, mas estabeleceram as bases para a decodificação do elemento JIM CARREY.

Esse experimento foi conduzido e abandonado antes da VIDA INDIE do elemento JIM CARREY, o que deixou o trabalho claramente incompleto. Mas, na mesma época, nosso laboratório desenvolvia em paralelo um Sistema Abrangente para esse tipo de classificação, cujo objetivo era clarificar conversas de mesa de bar e reduzir o tempo perdido em discussões inúteis, conforme já colocado. Esse segundo projeto teve mais êxito que o primeiro e o batizamos de FATOR NEVERMIND.

O FATOR NEVERMIND foi construído em laboratório a partir de observações clínicas da cultura dos ANOS 90, objeto hoje de largo estudo da Arqueologia. O FATOR NEVERMIND era, na época, facilmente identificável no tecido sócio-cultural pela sobreposição de ondas da mesma qualidade. Todas essas ondas (em inglês, WAVE) traziam duas características genéticas cruciais:

1. FAP – Forte Apelo Popular

É quando o objeto examinado ganha as ruas da forma mais vulgar possível. Fica constatado seu caráter massivo. A manifestação material em que esse elemento aparecia de forma mais assertiva nos anos 90 era a conhecida CAMISETA DE CAMELÔ. Quando um elemento cultural chegava na CAMISETA DE CAMELÔ, ele era considerado dotado de FAP.

2. RCP – Respeito Com a Patota

É quando o objeto examinado é aceito com louvor pelos meios especializados e os chatos do âmbito em que surgiu. Diferente do FAP, o RCP é conquistado em um círculo pequeno de atuação e tem motivos relacionados à história do segmento em que está inserido. Quanto maior for o seu significado para a história do segmento, maior o RCP. Também inclui profundidade de conteúdo.

Quando a curva ascedente do AP cruza a mediana do RCP, temos a posição exata do PONTO NEVERMIND, onde começa a se desdobrar o FATOR NEVERMIND. Dentro do campo de cobertura do FATOR NEVERMIND, o objeto cultural examinado ganha o status de código comum a uma gama enorme de atores sociais. Ainda que a experiência individual seja bastante diferente em cada caso, existe sempre uma percepção comum, cuja obra que dá nome ao fator exemplifica com perfeição.

Em setembro de 1991, foi lançado nos Estados Unidos o álbum NEVERMIND, do conjunto de rock NIRVANA. Por uma convergência de condições que não cabe examinar agora, o álbum foi alçada rapidamente do underground (onde havia adquirido um bom quociente de RCP) ao mainstream (performando bem na curva de AP). Quando essas duas curvas se encontraram, começamos a ver uma série de eventos clássicos do FATOR NEVERMIND, como, por exemplo, office-boys comprando camisetas do Nirvana em camelôs enquanto garotos de classe média alta as importavam de lojas norte-americanas.

Mesmo que o consumo fizesse seu caminho passando por percepções diferentes, a experiência de intensidade e qualidade ao escutar o álbum NEVERMIND era sempre presente. Neste nível, todos tornavam-se iguais, não interessando se na coleção de CDs do proprietário, ao lado do Nirvana houvesse um CD do Pixies ou uma deliciosa coletânea de Pagode, efeito que se reproduzida nas paradas de sucessos das rádios.

O FATOR NEVERMIND APLICADO

Não houve investimentos para compor uma teoria muito extensa pois logo nosso laboratório teve que ser fechado. No entando, chegamos a aplicar o FATOR NEVERMIND a outros produtos culturais para confirmar nossas descobertas. Os mais célebres são:

PULP FICTION – O FATOR NEVERMIND DE QUENTIN TARANTINO

ALTA FIDELIDADE – O FATOR NEVERMIND DE NICK HORNBY

HERE COMES YOUR MAN – O FATOR NEVERMIND DO PIXIES.”

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Escrevi a versão original desse texto entre 99 e 00, se não me engano. Mexi nele pra publicar aqui. Originalmente, ele deve ter sido compartilhado na Poplist e também foi publicado no “fanzine de luxo” Lo-Fi, editado pelo Augusto Oliviani. Junto com essa ótima edição do Lo-Fi vinha um CD-coletânea com bandas como Elf Power, Lucksmiths, Black Heart Procession e Of Montreal, entre muitos outros. Uma edição histórica, que eu guardo com carinho. Depois falo mais do fanzine.

Epilético – David B.

Até os 11 anos, a vida de Pierre François Beauchard foi a de uma criança comum, na medida em que uma infância pode ser comum. Ladeado por uma irmã menor, Florence, e um maior, Jean-Christophe, os dias dos três se resumiam a explorações lúdicas dos subúrbios de Orleans, na França, invadindo celeiros abandonados e pátios de vizinhos mal humorados. Mas a diversão despreocupada não durou muito tempo. Nem pra eles, e nem pra nós, leitores da graphic novel Epiléptico, do francês David B (nome adotado por Pierre na pós-adolescência). Já na página 9, o irmão maior,  Jean-Christophe, está brincando sobre a moto do namorado da babá quando congela, cai e começa a tremer, sob os olhos apavorados do caçula.

A cena é simples e se desenrola em seis quadrinhos de tamanho regular que não dão a dimensão da história que vem a seguir. Ainda estamos na primeira parte de Epiléptico e seu autor está ainda semeando o terreno do que vai se transformar em uma das mais intensas e ricas memórias já exorcizadas em quadrinhos.

O personagem central de Epiléptico é a doença que dá nome ao livro. De uma hora pra outra, os ataques epilépticos de Jean-Christophe Beauchard se tornam o centro nervoso da história pessoal de cada um dos membros da família. Na verdade, não é só a epilepsia que mexe com a rotina e os laços dos Beauchard, mas também (e talvez principalmente) a tortuosa, frustrante e infindável busca pela cura. Na ânsia de descobrir como resolver o problema, os pais de David empreendem com os filhos uma maratona que atravessa duas décadas e que envolve todo o tipo de médicos e curandeiros.

Todo o tipo mesmo. Nesse sentido, David B. é generoso com o leitor ao descrever com detalhes cada encontro e o background de cada área esotérica coberta pela maratona, num panorama interessante do que aconteceu em termos de medicina alternativa na Europa durante os anos 60. Dentro todas as tentativas, merece destaque as temporadas que a trupe dos Beauchard passou em comunas macrobióticas e onde David aprendeu a desconfiar de figuras “santas”.

À medida em que a história se desenrola, Epilético se movimenta de dentro para fora. As imagens objetivas dos personagens e as paisagens por onde eles navegam vão sendo substituídas pelo universo interno do autor numa das mais comoventes traduções visuais de um drama individual que eu já vi. Na imagem acima, por exemplo, testemunhamos um ataque epilético de Jean-Christophe como David enxergava: uma serpente, de tom mítico e traços tribais, que envolve e convulsiona o corpo do irmão.  Mas isso, creia-me, é só a ponta do iceberg.  Página após página, quadrinho após quadrinho, Epilético vai cada vez mais fundo.

Esse é justamente o grande predicado do livro: ele revolucionou as graphic novels de memória ao focar de forma virtuosa e atenta o universo interno do autor. Diferente da longa linhagem em que se insere e renova (trabalhos de Robert Crumb, Art Spiegelman e, mais recentemente, obras como Fun Home e Umbigo sem Fundo), Epiléptico se destaca por ir abrindo mão da história objetiva e investir pesado na construção de uma narrativa visual de forte apelo mitológico, repleta de símbolos universais (serpentes, armaduras, pássaros, esqueletos, fantasmas) traduzidos para o uso da situação particular dos Beauchard.

(Os símbolos universais ainda são uma das melhores bóias para mergulhar no caos, manter a comunicação com o mundo e voltar pra contar uma boa história.)

É lindo o paradoxo que acontece: quanto mais fundo David vai em si mesmo, mais universal e atemporal seu drama e o drama da sua família se tornam. Quanto menos interessa o que está acontecendo objetivamente, mais objetiva a história se torna, mais sentido ganha. E não apenas pra nós, mas também para o autor.

Aqui, entramos em uma área perigosa. O exorcismo de problemas pessoais via quadrinhos (ou literatura ou música ou pintura…) é um setor lodoso. Quando serve mais ao autor do que à audiência, mostra-se irrelevante como obra, não adiciona nada à arte à qual está vinculado e possivelmente é raso como gancho para descobertas pessoais de qualquer um que não tenha participado da sua concepção. Quando serve mais à audiência do que ao autor, pode ser triste do ponto de vista humano: quer coisa mais melancólica que um Nick Drake da vida, compositor de melodias incrivelmente inspiradoras mas que morreu cedo e deprimido?

Mas Epiléptico consegue o feito de ser funcional tanto como exorcismo particular quanto como referência no campo cultural que ocupa. O primeiro resultado pode ser auferido tanto durante a leitura (nos capítulos finais David conta como trabalhar no livro mudou sua visão de mundo e o salvou da força centrípeta da doença do irmão) quanto por entrevistas. O segundo depende das resenhas que você encontrar por aí bem como da sua experiência ao se relacionar com o calhamaço. Leia Epilético e coloque na sua estante mental junto com os já citados Crumb, Spielgman e outros da mesma cepa. Poucas obras tem tanta capacidade de falar por si, seja verbalmente ou visualmente.

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Epiléptico saiu no Brasil em dois volumes pela Conrad. Se você se interessou, não bobeie: faça as contas, economize e compre logo os dois de uma vez.

A edição americana vem com a história completa.

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Além de uma grande obra de arte, Epiléptico também oferece um olhar honesto e amplo sobre a epilepsia. Os relatos não são maniqueístas e a forma como David B. retrata a relação dele com seu irmão cobre uma boa gama de matizes.  Ou seja, não espere encontrar fórmulas hollywoodianas, como a do irmão são que recupera o irmão doente ou o irmão doente que oferece algum tipo de redenção ao irmão são. As coisas são mais complexas, mais feias e mais bonitas do que isso. E David não esconde o jogo nesse sentido.

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Dependendo do seu estado de espírito, Epiléptico não é uma leitura rápida. O livro foi meu companheiro por dois ou três meses não porque seja complexo ou difícil, mas porque é tão rico e tão intenso que merece uma atenção especial: vale parar, ler com atenção, desfrutar dos desenhos, deixar cada trecho descansar e dormir com você. É mais do que uma leitura, é realmente uma pequena jornada bastante recompensadora.

Viajante

Jabazão: fotos do meu amigo Daniel Martins. Sempre fui fã das imagens produzidas pelo cara, mesmo antes dele não assumir sua porção fotógrafo.

A grande questão é que o Daniel sempre foi um viajante. Desde sempre. E isso aparece nas fotos dele. Não são fotos com um olhar de viajante.

São fotos de alguém que tem alma de viajante.

E finalmente reunidas num livro.

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O livro, até onde sei, não está à venda por aí. Se alguém quiser saber como conseguir uma cópia, deixe um recado nos comentários.

Crooked Cucumber

Shunryu Suzuki foi um mestre budista da tradição Soto Zen enviado de uma área rural do Japão pra San Francisco, nos EUA, em 1959. Sua missão: ministrar alguns poucos rituais semanais e tomar conta dos funerais e casamentos de uma congregação de imigrantes japoneses . Ou seja, o cardápio básico da atividade na maior parte dos templos e congregações da época.

Mas, veja bem, estamos falando de 1959 e da cidade de San Francisco. Nessa época, o budismo começava a extrapolar as tradições imigrantes nos Estados Unidos, especialmente através de intelectuais universitários e escritores beat. Um ano antes, Jack Kerouac publicou seu segundo romance, Os Vagabundos do Dharma, no qual o poeta (e em seguida mestre zen budista) Gary Snyder aparecia como figura central da história, com uma retórica marcada pela filosofia oriental. O também poeta beat Allen Ginsberg aproximava seu texto e sua vida do budismo tibetano. E isso era apenas a ponta do tal do iceberg. Ali, a cidade já cozinhava a mudança cultural que viria marcar sua história, efetivando a transição da geração beat, acelerada, urbana, insone e ácida, para os hippies e sua batida lisérgica, mágica e transcedental.

A busca pela quebra de hierarquias conceituais e sociais, bem como a luta pelas liberdades civis, davam o tom da juventude daquela era. Pra uma audiência esfomeada por ideais, os ensinamentos do Buda sobre liberdade formavam um exótico e atraente banquete. Mas a congregação de imigrantes que Suzuki Roshi deveria liderar não compartilhava dessa efusividade. Sendo assim, um ponto de tensão instalou-se rapidamente no Soko-ji. Até então o único templo zen budista da região, o Soko-ji também mostrou-se pequeno demais pra acomodar a) uma comunidade sinceramente mais interessada em tradições do que na luta contra elas b) uma turma de jovens americanos de classe média buscando liberdade de padrões.

Essa tensão é o ponto central de Crooked Cucumber (47 moedas na Cultura!), biografia de Suzuki Roshi escrita com um bom humor e uma riqueza de relatos impressionantes pelo seu aluno David Chadwick. Nem de perto essa tensão é o único atrativo do livro, muito embora eu, garoto ingênuo, achasse que sim. Confesso, como vou mentir sobre isso?, que abri o livro em busca da história rocambolesca de um velhinho oriental e sua trajetória em meio à efervescência da cena beat. Mas encontrei muito, muito mais. A vida de Suzuki Roshi, como a dos grandes mestres e praticantes espirituais, desafia o conceito hollywoodiano de aventura que está encrustrado na minha mente.

Na verdade, pelo menos metade do livro explora a infância, a adolescência e parte da vida adulta do Suzuki Roshi no Japão, contando seu treinamento monástico, seu histórico familar e as imensas dificuldades de ser um líder religioso em um país conturbado. O mito do mestre zen que vive isolado em um cotidiano tranquilo e sem sobressaltos é sumariamente desfeito, página após página. Pra deixar mais claro: o cara comeu o pão que o diabo amassou, enfrentando a burocracia e o conservadorismo do sistema religioso da época no Japão, as dificuldades inerentes de um país em guerra, os desafios de ser chefe de família e líder religioso simultaneamente e, o mais impressionante, encarou uma série de eventos trágicos na sua família ou entre seus alunos alunos que transformaria a maior parte de nós em pessoas amargas e desesperançosas, duas palavras que não passam nem perto de refletir o espírito de Crooked Cucumber.

A partir da chegada nos Estados Unidos, o livro fica mais familiar – surge o contexto cultural americano e californiano da época – mas não menos surpreendente. No início, são poucos alunos ocidentais dividindo espaço com a congregação de imigrantes. As diferenças culturais são claras, mas as atividades não são tão intensas a ponto de causar uma cisão. Com o passar de algum tempo, entretanto, a disposição crescente de alguns dedicados jovens americanos para sentar e meditar contrasta de forma desconfortável com os rituais mais tradicionais dos imigrantes. Assim, as diferenças se acirram, Suzuki Roshi é chamado a fazer uma escolha e a preferência pela meditação como caminho escolhe por ele: sua nova casa é um grupo de jovens praticantes ocidentais leigos dispostos a entregar-se a uma exigente prática que no Japão era exclusiva de monges.

A partir daí, é tudo como um recomeço. Um eterno recomeço. Uma nova comunidade em uma nova cultura com novos desafios. O fato de ter encontrado alunos dedicados à sua visão de prática espiritual não quer dizer que o caminho tenha sido menos pedregoso para Suzuki Roshi.

O mais incrível, nessa biografia cheia de histórias curiosas e pitorescas, não é o que nos faz diferentes do seu protagonista, mas tudo aquilo que nos liga a ele, que nos faz parecido com ele. E isso é uma coisa bonita, porque justamente uma das crenças básicas do budismo é que todos – todos mesmo, budistas ou não budistas, amáveis ou violentos- temos a capacidade inata de despertar, de alcançar a liberdade de identidades e visões estreitas. Como nós, Suzuki Roshi veio, nasceu, cresceu, passou por dores comuns à raça humana, errou e acertou, foi criticado, foi elogiado, enfrentou obstáculos que vão de guerras a problemas domésticos. Por isso, o livro é rico. É uma biografia, mas também são ensinamentos vivos. Mostra o lado misterioso e insondável do mestre bem como seus aspectos mais humanos – os detalhes em dourado e as rachaduras.

Como é comum na tradição do zen budismo, Crooked Cucumber traz mais de 400 páginas que poderiam tranquilamente ser traduzidas em uma frase:

“Nem sempre assim”.

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Alguns toques finais ao post.

A tradição Soto Zen, de Suzuki Roshi, tem centros de prática, templos e professores reconhecidos no Brasi. Mesmo não-budistas devem ser familiares com a figura da Monja Coen. O site da comunidade Soto Zen no Brasil é o Zendo Brasil.

Aqui na região de Porto Alegre, conheço bem o trabalho do Via Zen e um pouco do Zen Vale dos Sinos.

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Ano passado, publiquei meia dúzia de posts sobre biografias de praticantes budistas, um tipo de leitura que tem me feito muito bem no sentido de aprender com o exemplo, com a sabedoria viva de quem confronta os ensinamentos do Buda com questões eminentemente práticas e cotidianas. Já escrevi aqui sobre os relatos de vida de Issan Dorsey (ordenado na linhagem de Suzuki Roshi), sobre as idéias do Fleet Maull, sobre o livro do Jack Kornfeld que conta o lado b da espiritualidade, sobre as histórias de um ex-monge na India, de um chef-mestre-zen (outro da linhagem de Roshi) e também comentei a biografia e o documentário sobre a monja Tenzin Palmo.

Sobre ir fundo em camadas horizontais

David e Maggie Loony se conheceram, namoraram e viveram casados por 40 anos. Ao longo desse tempo, tiveram três filhos, Dennis, Claire e Peter, que foram criados em uma casa de três andares na praia. Agora, beirando os 70 anos, papai e mamãe Loony chamam os filhos de volta à casa para um último aviso: eles estão se separando. Dennis pira, Claire reflete sobre o próprio divórcio e Peter… bem, Peter é o único que não é retratado com uma cabeça humana, mas com a de um sapo. E, não sei se tem a ver com isso, Peter encontra uma oportunidade de respirar.

Umbigo sem Fundo é isso: pura investigação humana usando como ferramentas a dissolução, a manutenção e a construção de laços familiares, usando um arsenal de escolhas narrativas e estéticas que faz o livro não parecer as 720 páginas que tem. Como objeto, Umbigo Sem Fundo é pesado e chato de carregar. Mesmo assim, eu o levei pra ler na praia, porque, como obra, a densidade e o peso do assunto são temperadas com um olhar amplo que empresta leveza e espaço pra que qualquer leitor (mesmo que não seja americano e filho de pais idosos se separando) possa se identificar com algum aspecto do impacto da decisão de David e Maggie. Conscientemente ou não, o que o jovem autor Dash Shaw fez foi transformar os meandros dolorosos da micro-saga dos Loony em um buffet de pequenas questões universais que pode ser acessado – como os bons buffets – por vários lados.

E assim o mundo anda. Página após página, podemos observar o desdobramento do divórcio dos Loony através diversas camadas: temos o discurso, as palavras, o que é dito pelos personagens; temos as onomatopéias, que são tão presentes na história como os ruídos do dia-a-dia são em momentos embaraçosos; temos as escolhas anatômicas dos personagens (Dennis é meio Homer Simpson, Peter é meio Caco dos Muppets); temos as decisões estéticas e técnicas de linguagem de quadrinhos (Shaw usa quase tudo que é possível usar); temos os cenários, os móveis, o céu, a areia, o mar, todos fazendo as vezes de apoio visual para pequenos dramas; e, por fim, temos a casa dos Loony, personagem fundamental na trama por servir de território de busca física e emocional, de Dennis e sua sobrinha Jill.

Pra completar, o traço de Shaw ainda se localiza numa espécie de limbo técnico: parece rascunho, mas é detalhista; é detalhista, mas parece relapso; é relapso, mas bate fundo. Como se isso não bastasse, a edição brasileira (talvez a americana também, não sei) vem impressa (por quê?) em uma cor bege, o que é perfeito para o tom da história já que pouca coisa entre os Loony é, em termos de sentimentos, só preto ou branco.

Bom, a essa altura talvez você já tenha notado… uma família disfuncional, uma casa na praia, um narrador que oferece espaço para a história se desenrolar e gosta de usar cenários e objetos como personagens. Se você juntar A com B, vai perceber que Umbigo sem Fundo se insere em toda uma linhagem americana de autores que trabalham dessa forma. Nos quadrinhos, já falei aqui sobre a recente Fun Home (aqui e aqui), por exemplo. No cinema, não é difícil lembrar de Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia, e Tempestade de Gelo, Os Excêntricos Tennenbauns, pra ficar em algo recente (alguém lembra de coisas mais antigas nesse sentido?) Se algum desses títulos calou fundo aí, não pense duas vezes sobre adquirir o pesado tomo de Umbigo sem Fundo. Também é um bom presente de Natal para um amigo ou parente que gosta de boas histórias desenhadas.

Exemplares autografados por Shaw durante a Bienal do Rio.

Uma última nota curiosa: diferente do que esse tipo de graphic novel/filme/romance possa sugerir (e quanta terapia disfarçada de literatura se faz nesse sentido!), Dash Shaw disse em entrevista à New Yorker que o livro não é autobiográfico. A família do autor sempre foi tranquila, seus pais estão juntos até hoje e, segundo ele, tem muito pouco dos Loony. O que talvez explique a poesia de Umbigo Sem Fundo: pra enxergar com tantas nuances certas tragédias, é preciso 1) a capacidade de se distanciar ou 2) estar de fato distante delas.

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Bom, aqui tem dois links interessantes caso você queira ir um pouco mais adiante. Mas minha sugestão é a seguinte: leia o livro primeiro, depois explore as entrevistas.

Em todo caso, aqui estão elas.

Em inglês, pra New York Magazine: How Dash Shaw Wrote The Graphic Novel of The Year.

Em português, pro Grito.

E também, pra facilitar sua vida, comparação de preços no Buscapé.

Boa leitura.