Ele é incrível. Faz de tudo. Atende aos comandos dos nossos dedos. Faz barulhinhos sintetizados quando algo dá certo ou dá errado. Toca música, filminho e mostra foto. Guarda música, filminho e foto. Muita música, muito filminho e muita foto. Ah, o computador.
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O computador é distração de gente grande. Sim, informa, educa, ajuda a comunicar, a construir e derrubar governos, a terminar monografias e teses, a realizar sonhos e administrar empresas. Mas também distrai. Distrai pra cacete.
Não apenas o computador, mas seu rosto, sua interface com o mundo, as telas. Sacanas. Telas, em geral, são ladras de atenção por excelência. Desde o tempo da TV. Experimente jantar em um restaurante com uma tela por perto. Elas são irresistíveis, com suas imagens coloridas em movimento e seu brilho hipnotizante. O primeiro bem subtraído na presença de uma tela é o ambiente, o segundo patrimônio perdido são as pessoas ao redor, mas o terceiro e talvez mais problemático fator esquecido é nosso próprio corpo. Se na frente da TV o corpo facilmente vira uma geléia, um mero acessório para segurar os olhos e os ouvidos, ao menos ele geralmente se encontra em uma posição de relativo conforto, jogado no sofá ou na cama cercado de almofadas. Mas, em frente à maior parte dos computadores e celulares, o corpo geralmente se torna uma estrutura alheia, corcunda e tensa, fadada a respirar mal e a desenvolver uma série de problemas.
E é aí que entra o post anterior sobre o assunto dos limites da cultura digital: é uma cultura pouco afeita à limites e isso inclui a relação do usuário com o seu corpo. Com o olho grudado na tela, a mente é agitada de tal forma que parece não se cansar. Pulando de site em site, de arquivo em arquivo, em uma sedutora sequência aparentemente eterna de hyperlinks, é possível consumir um pouco de cada coisa sem se aprofundar em nenhuma e dessa forma perder a medida das horas, ficando ligadaço, desrespeitando completamente os avisos do corpo: ombros tensos, dedos doloridos, antebraço ardendo, respiração curta, coluna curvada para a frente. Uma hora, a fome, ou o namorado, ou o despertador, ou o cansaço extremo dão o alarme e você precisa levantar, desgrudar da tela. Mas a mente continua ali ainda por um bom tempo, ligada e amortecida ao mesmo tempo. O corpo, por sua vez, leva junto a postura ruim, o inspirar e expirar combalidos e as dores como suspeitos troféus às vezes exibidos com um questionável orgulho.
A dica para evitar esse problema, que dá origem a muitos outros, é só uma: tomar consciência do corpo. Lembrar que ele existe. Prestar atenção em como ele se acomoda. O corpo é inteligente e cada pessoa sabe de seus limites, basta prestar atenção. Esse é o problema hoje em dia. Prestar atenção.
A respiração é um guia poderoso para a atenção: se ela está curta demais, não está bem. Se está cheia de pausas demais no meio da inspiração e expiração, não está bem também. Um corpo curvado não respira bem. Uma cabeça baixa durante muitas horas faz erguer e tensionar os ombros. Não respirar direito também tensiona os ombros. Ficar horas e horas jogado numa cadeira meio torto com os olhos grudados na tela é um pedido por escrito pra se incomodar mais adiante. Mas ficamos tão dentro da tela que esquecemos completamente do corpo, da respiração, das costas. E só lembramos ao levantar suspirando pesado, soltando ais e uis com surpresa.
Parece papo new age, mas eu acho que é muito mais simples e direto: causa e consequência. Fique assim que você levantará assado. Falar em prestar atenção na respiração parece algo ridículo. Como assim prestar atenção em algo que eu faço automático? Esse é o problema. O automático. Quem faz as coisas no automático é computador. Pessoas fazendo coisas no automático, bem, acredito que para os leitores desse blog não precisamos entrar nos detalhes desta questão. Até porque isso rende outro texto.
Tentando dar um fechamento ao post, então.
1) Sobre valorizar a atenção.
A atenção é um de nossos bens mais preciosos. É o que a indústria da mídia mais preza e o que mais custa caro. A sua atenção por 30 segundos custa uma fortuna na TV e está se valorizando na internet. Faz bem escolher onde aplicar a atenção, não tratá-la como uma balinha de 10 centavos.
2) Telas são ladras de atenção.
Mas o ponto aqui não é que elas roubem atenção somente de outros aspectos do ambiente ou de outras pessoas. Telas roubam nossa atenção de nós mesmos. Mergulhamos nas telas e esquecemos completamente do nosso corpo, por exemplo. Em alguns casos, isso traz prejuízos para o corpo e para a capacidade de prestar atenção.
3) A respiração é um guia confiável
A forma como respiramos reflete nossa posição de corpo e mente. Um corpo agitado respira de forma rápida e inconstante. Uma mente agitada também. O contrário também é verdade: acalmar a respiração influi na batida do corpo e da mente. Mas nem precisamos ir tão longe. Simplesmente prestar a atenção na respiração já muda o quadro em que estamos metidos.
Por hoje é isso. Talvez eu expanda esse post mais adiante. Talvez não. Vamos ver. O que vocês acham?
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Imagens roubadas do Flickr do Guilherme Dietrich, dica do Fernando Ribeiro.
Uma das questões que ainda quero tratar no blog é sobre o efeito fragmentador de trabalhar muitas horas na frente do computador, ainda mais quem lida com comunicação e publicidade, áreas dinâmicas nas quais há pouco prazo para tudo e os projetos acontecem em curtos espaços de tempo. Nossa mente, que já temos por costume manter agitada e ocupada mesmo quando não fazemos nada, adora esse monte de janelas abertas simultaneamente e o caminho quase infinito que os hyperlinks permitem. Tenho dificuldades com isso. É distração que não acaba mais, um buffet atraente. Só que não é a distração, ao contrário do que o senso comum prega, a base da satisfação e sim a atenção.
O vídeo acima traz informações mais exatas sobre a prática de meditação. No primeiro vídeo o repórter fala sobre “tentar não pensar” e eu, particularmente, não aprendi dessa forma. Tentar não pensar é lutar e treinar luta dentro da mente não dá certo.
Existem muitas técnicas de meditação dentro de muitas tradições. Existe até mesmo meditação caminhando, uma prática que parece coisa de bicho grilo mas que é muito interessante e eficiente, especialmente pra quem tem dificuldade de ficar sentado, parado.
Se alguém se interessar, o ideal é buscar orientação adequada de um professor confiável e não ficar só nas reportagens de TV e de revistas semanais, ou mesmo tomar um livro como mestre. Bom proveito.
Fleet Maull não é primo do Darth Maul. O cara, na verdade, parece mais um típico produto da contracultura americana dos anos 60. Adolescente, desafiou sua bem estruturada família se envolvendo com todos os tags do gênero: filosofia oriental, LSD, sexo livre, protestos antiguerra e por aí vai. A vida lôka de Maull o levou, em certa altura, até o Peru, onde abandonou a detonação em troca de um cotidiano pacífico lendo textos budistas e taoístas enquanto trabalhava em uma pequena fazenda junto do povo Quechua. Numa quebrada, entretanto, Fleet Maull pegou a contramão e começou a vender cocaína “inocentemente”, aqui e ali, de vez em quando, pra sustentar sua vida de vagabundo em busca da iluminação. Em 1974, ainda imerso na correria, leu na Rolling Stone um artigo sobre Naropa, a universidade budista do Colorado que teve como criador o tibetano Chogyan Trungpa Rinpoche e como professores alguns remanescentes da cena beatnik, sendo o mais conhecido o poeta Allen Ginsberg. Voltou na hora pros Estados Unidos com sua mulher peruana e o filho recém nascido. E se inscreveu em Naropa.
Mesmo estudando, praticando o budismo e em busca da sua graduação em psicoterapia contemplativa (que conquistou em 79), Maull não largou seu envolvimento pontual com o tráfico e uma hora acabou preso. A casa caiu e, pela primeira vez, seu professor, Chogyan Trungpa, e seus amigos da comunidade de praticantes budistas descobriram seu lado B. Ao se consultar com Trungpa Rinpoche sobre o que deveria fazer, se deveria fugir, o mestre foi categórico: disse que ele deveria encarar a situação de frente e que continuar suas práticas contemplativas encarcerado seria mais fácil do que em fuga. O aluno encarou, então, 14 anos de prisão nos quais aproveitou para chafurdar nos próprios demônios e transcendê-los através da meditação.
Embora palavras como “meditação” e “contemplação” levem a grande maioria das pessoas a pensar em algum tipo de letargia, inação, resignação ou ainda de um estado mental sublime, a prática em si é bem diferente. Na meditação, o praticante lida direta e cruamente com a agitação da sua mente, os pensamentos, os conceitos, os medos, as esperanças, enfim, o que é considerado o nascedouro de suas ações. Um dos predicados da meditação é eliminar as inúmeras distrações que criamos para evitarmos enxergar certos aspectos da nossa própria mente. Em um local tranqüilo e adequado, o contato nu com a essa massa turbulenta de pensamentos exige doses iguais e alternadas de firmeza e leveza. Em uma prisão, com seu cotidiano intenso, rude, amargo, o furo é bem mais embaixo.
Maull, contudo, não estava disposto a ceder e concentrou todas suas forças em familiarizar-se com o lado mais negro da sua mente e atravessá-lo com compaixão e amor em vez de multiplicar a mágoa e o ressentimento. Foi além e também não guardou suas descobertas para si, iniciando e conduzindo grupos de meditação dentro da prisão. De lá, também criou e administrou a Prison Dharma Network, uma rede de apoio a práticas contemplativas para presos.
Lendo uma entrevista de Maull à revista budista Trycicle, não pude deixar de pensar na matéria da última Rolling Stone a respeito dos eventos de violência espetacularizada na mídia brasileira em 2008. Nela, o jornalista investigativo Claudio Julio Tognolli esmiúça as implicações dos casos de Isabella Nardoni, Eloá Cristina e João Hélio conversando com médicos legistas, psicanalistas, familiares e um côro de vozes ligadas de alguma forma a cada situação. Todos batem na mesma tecla ao declarar como a humanidade nunca deixou de lidar com casos de violência juvenil desse calibre e que a teatralização, a exposição editada e intensa, é que é a grande novidade. A dita teatralização tem diversas implicações, mas duas delas são as mais tristes, a meu ver.
A primeira é retirar o impacto das mortes. Nunca vou me esquecer do escritor Guillermo Arriaga, ex-parceiro do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu e roteirista de filmes como Amores Brutos, Babel e 21 Gramas. Notório por colocar o espectador em tremendo desconforto devido à forma como inclui a morte em suas histórias, Arriaga esclareceu, em uma entrevista ao Programa Roda Vida, que deseja com isso resgatar o impacto da morte na ficção, de tanto que a sua estilização não só no cinema mas nos noticiários nos deixa anestesiados. Ao longo das últimas décadas, desenvolvemos a incrível capacidade de ver toneladas de pessoas serem metralhadas em filmes sem sentir um pingo de compaixão.
Nos noticiários de casos como os citados acima, obviamente há sempre uma sensação de tremendo desconforto e tristeza pela vítima e seus parentes. Mas o nó no estômago não vai além de um intervalo comercial e não se traduz em um significado mais profundo. Veja bem, não estou nem cobrando ação. Citando o finado diplomata José Guilherme Mequior, a matéria da Rolling Stone lembra que “as pessoas gostam da mídia porque ela em geral não produz significados, mas efeitos”. A geração de sensações em frente à TV ou à tela do cinema é sedutora porque não exige mais do que isso, um envolvimento sensorial, quase estomacal, com as equações resolvidas na hora por uma turbulenta combinação de hábitos mentais ligados à auto-proteção. Tudo é rapidamente classificado pela mente de forma a erigir muros e separações entre “eu” e a “dor”. Assim, a martirização pública não alavanca discussões, apenas emoções. E ainda ficamos reclamando de falta de ação sem nem ao menos notar que o passo anterior à ação, a reflexão, ainda não foi resolvido.
O que nos leva ao segundo aspecto perverso da teatralização: somos co-criadores da tragédia. Não ao deixar de agir, mas ao trocar a reflexão pela emoção viciante da “monstrificação”. Criar monstros não é trabalho exclusivo da mídia, mas conta com a participação ativa do espectador, que, ao “monstrificar” pessoas com comportamento ultraviolento, dão origem a poderosos personagens coletivos que traçam uma clara linha de separação: eu nunca faria isso que ele fez, logo, não sou um monstro.
Nesse processo, todos são desindividualisados, desfigurados. O criminoso é o “monstro”, a vítima e seus familiares são os “coitados”. Jornalistas, editores, câmeras, apresentadores, fotógrafos são “a mídia”. Policiais, delegados, investigadores, legistas são “a polícia”. Populares na porta da delegacia, espectadores em frente da TV, leitores de jornal são “as pessoas”. Dessa forma, o “monstro” deve ser eliminado, a “mídia” espetaculariza, a “polícia” não resolve os problemas e “as pessoas” são foda. As “vítimas”, sei lá. Elimnando-se o monstro, diminui-se a dor, quem sabe. Enfim. Desumanizamos automaticamente todo o sistema e nos retiramos dele arbitrariamente. Transformamos todos os seres envolvidos no caso em uma massa disforme de conceitos vagos. Assim fica fácil.
O que o caminho de Fleet Maull tem a ver com tudo isto? O ponto que liga os dois assuntos é a rejeição do teatro de forma clara, não se deixando levar pela indignação emotiva e inútil. Maull, ao que tudo indica, escolheu deliberadamente cortar o teatro e lidar diretamente com a negatividade da sua mente. Perseverou sistematicamente até descobrir a ponta do durex, de onde poderia puxar os aspectos mais claros do seu interior. E depois buscou uma forma de compartilhar essa liberdade que todos buscamos.
Como diz um clássico e profundo texto da filofosia budista, é difícil cobrir com couro um mundo inteiro cujo chão é feito de espinhos. Mas você pode cobrir seus pés com couro e não se machucar. Mais ainda, você pode compartilhar com outras pessoas a habilidade de procurar o courto, cortar e amarrá-lo nos pés. Não buscando cumprir o velho plano de um mundo sem espinhos, mas de oferecer a cada pessoa a liberdade de não se machucar.
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PS:
1) as imagens desse post são de detentos ligados à Prison Dharma Network.
2) Tem mais uma entrevista transcrita com Fleet Maull (em inglês) aqui e uma em vídeo aqui.
E David Lynch conseguiu mais uma vez: criou um ambiente surreal, mas dessa vez de um jeito que ninguém esperava (apesar do claro título da palestra). Sua participação na conferência Fronteiras do Pensamento estava mais pra “A História Real” do que pra “Cidade dos Sonhos”. Em vez de enfatizar o lado bizarro e obscuro do ser humano, como faz na maior parte dos seus filmes, Lynch veio subilnhar a natureza pura e brilhante da mente humana que ele declara experienciar regularmente por ser praticante da Meditação Transcedental.
Técnica divulgada pelo mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi, a Meditação Transcedental se tornou célebre nos anos 60 e 70 quando os Beatles, o cantor folk Donovan e Mike Love dos Beach Boys (que virou professor de MT) se conectaram com os ensinamentos de Maharishi. Uma história controversa no retiro de seis semanas dos Beatles jogou sombras sobre a experiência durante um tempo, mas tanto Lennon quanto George e outros presentes desmentiram a maledicência creditada ao “mago da eletrônica” da Apple Records Alexis Mardas. O que há por trás de tudo isso, não sei dizer ao certo, teria que pesquisar mais.
O fato é que a Meditação Transcedental é uma das práticas contemplativas que mais ganhou notoriedade no ocidente. Eu, particularmente, não conheço e vejo algumas diferenças básicas com as práticas budistas que eu pratico, mas fiquei muito feliz de ver um cara como o David Lynch chegar aqui e subverter o clichê do gênio atormentado que cria obras dementes e divulgar amplamente uma prática de meditação. Para algumas pessoas, ouvir certas palavras de um cara imerso na cultura pop faz mais sentido do que se elas fossem ditas por um senhor de barbas, cabelos, roupas brancas e chinelos. São nossas limitações. Eu sou meio assim às vezes.
Lynch contou que pratica Meditação Transcedental há 35 anos e que a considera uma chave para acessar um nível de consciência mais claro, infinito, repleto de potencial criativo e amoroso. Falou de estados de bem aventurança que experimenta graças à sua prática e também das soluções criativas que ela traz para determinados filmes.
“Cidade dos Sonhos foi rodado para ser um piloto de TV. Um executivo da ABC assistiu ao copião às seis e meia da manhã, com uma caneca de café numa mão e um telefone na outra. Ele detestou o filme e eu fiquei com aquelas histórias abertas todas sem saber o que fazer. Demorou um ano para termos a liberação legal do que foi filmado e quando conseguimos eu precisava transformar aquilo em um filme pra cinema. A solução criativa veio em uma sessão de Meditação Transcedental, como um colar de pérolas que brotou do meu interior”.
O diretor de Veludo Azul também defendeu que uma técnica contemplativa como a Meditação Transcedental ajuda as pessoas a procurarem a felcidade e a criatividade dentro de si e jogou uma pá de cal sobre a imagem de artista sofrido dizendo que a negatividade é inimiga da criatividade, que você não pode criar em estados depressivos e, em voz firme, pausada e clara que “o ser humano não existe para sofrer. Nossa natureza básica é a felicidade. O indivíduo é cósmico”, slogan que repetiria ainda umas duas vezes ao longo da noite. Contou do trabalho de sua fundação, que levantou mais de 5 milhões de dólares nos últimos dois anos para divulgar e implantar programas de meditação em escolas públicas e privadas, contribuindo para a diminuição da ansiedade, stress e violência.
A uma certa altura, uma pergunta bem colocada veio da platéia: “Por que então seus personagens sofrem tanto?” A resposta veio sem constrangimento: “Em todo lugar as pessoas me perguntam isso. Acontece que todas as histórias tem conflitos. Mas o artista não precisa sofrer pra mostrar sofrimento”. Ainda trouxeram à tona os exemplos de Van Gogh e Artaud, mas ele não arredou o pé: “Garanto que enquanto Vang Gogh e Artaud criavam, eles experimentavam felicidade.”
Sobre cinema, falou pouco e ninguém pareceu sentir muita falta. A respeito das limitações de certos equipamentos digitais, comentou que a má qualidade pode ser uma ferramenta: “Você acaba mostrando na tela menos coisas e isso aguça a imaginação de quem assiste.” Também declarou que no momento não tem planos para um longa e que o meio ideal para histórias contínuas como Twin Peaks é a internet. E que tem se dedicado a divulgar a Meditação Transcedental, a pintar e a fotografar.
A platéia se mostrou bastante receptiva às idéias contemplativas de Lynch, provavelmente encantada por sua figura carismática, calma e elegante. No final da palestra, entrou em cena o parceiro de Lynch na tour de divulgação da Meditação Transcedental, o trovador escocês Donovan. Armado apenas com um violão e um amplificador, tocou seus clássicos entremeados com histórias dos Beatles e de Maharishi. Uma vibe boa invadiu o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, mas tive que sair antes do final, perdendo a recitação do mantra de Maharishi pelo David Lynch. Ainda pude pegar, ao menos uma pergunta do mediador Gilberto Perin sobre a relação entre drogas e auto conhecimento. Donovan falou na boa: “As drogas são um caminho de fora pra dentro. A meditação é um caminho de dentro pra fora”.
Enfim. Fazendo jus à sua imagem de cineasta altamente criativo, Lynch teve a manha de inverter algumas lógicas do seu meio. Mesmo sem ter uma câmera ao seu comando, criou uma atmosfera e fez mais do que falar de sua obra e contar histórias. Mesmo a quem não se conectar com seu caminho, deixou um recado claro e importante a respeito da necessidade de paz interior como eixo fundamental de uma paz no “mundo externo”. Também é interessante alguém falar de técnica, regularidade e disciplina no que diz respeito à contemplação. A vasta literatura e o jornalismo de auto-ajuda falam, falam, falam em buscar a felicidade interior, mas muito pouco é dito sobre a necessidade de treinamento de práticas contemplativas. Quando vemos uma reportagem em uma revista ou na TV, parece que “basta você simplesmente querer”, mas esse tipo de coisa é como aprender a tocar um instrumento, uma nova língua ou desenhar ou tocar: é preciso treino, prática constante e, o mais importante e diferente de tocar guitarra, um professor.
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Um disclaimer necessário: não conheço a tradição da Meditação Transcedental e seus professores e acho muito delicado sugerir algo desse tipo às pessoas sem um contato mais próximo. Portanto, se alguém quiser alguma dica de centro de meditação ligado à tradição budista, que é o que eu conheço, é só escrever: gustavomini(arroba)gmail.com.
espaço
reservado
para descansar
a mente.
O capítulo 2 é o segundo predileto do livro porque fala de um assunto que eu adoro: organização. O título do capítulo já é uma beleza: “Organização: faz muita coisa parecer pouca coisa.” Não é lindo?
O cerne do capítulo, no entanto, não é nada sobre arrumação de armários e mesas, mas sim a trajetória da “rodinha de controle” do iPod (sempre ele…), essa da imagem aí em cima. O ponto do Maedovski aqui é que a primeira rodinha era assim “mais ou menos”, mas resolvia. Um controle simplificado, de compreensão não muito difícil, bastava o cara se acostumar com o lance e pronto. Porém, talvez o lobby das pessoas com dedos gordos tenha agido e os designers da Apple tiraram os controles da rodinha e jogaram pra fora. O que era pra simplificar acabou complicando porque desintegrou a experiência intuitiva do dedão. O dedão antes circulava tranqüilo, resolvendo seus problemas de “ir pra frente” ou “ir pra trás” só na rodinha e de repente se viu obrigado a SAIR da rodinha e subir até os controles SEPARADOS. É muita mão!!!!
Finalmente, a Apple sossegou o facho e chegou ao controle atual, que parece não ter tido grandes reclamações - simplificou tudo, jogou tudo pra dentro da rodinha (sem leituras maldosas) e voalá! Temos agora (temos não porque eu não tenho iPod) um controle integrado, com todas as funções numa rodinha sem separações – desculpe pelo uso excessivo de termos técnicos.
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Eu tenho uma dica para os engenheiros da Apple.
E é de graça, aproveitem.
Sentaí e fica quieto!
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E por aí segue o livro, trazendo inúmeros exemplos de design industrial e da indústria da computação pra provar ponto a ponto a visão do Maeda sobre simplicidade. Em cada capítulo você encontra dois ou três insights bem valiosos, mas meio que precisam ser descontextualizados e recontextualizados pra valer a pena.
Por quê? Porque não tem nada de simples na maior parte dos exemplos. Ok, a interface do Google e do iPod são incrível e bem-vindamente simples. Mas olha toda a complicação que existe para essas coisas serem simples! Basicamente, para termos à disposição a interface do Google e a interface do iPod, você precisa ter à mão um Estados Unidos e uma China.
foto daquiIsso não quer dizer que o Maeda não tenha consciência das coisas. Outro capítulo interessante é o de nome “Algumas coisas nunca podem ser simples”, onde ele faz um bonito mea culpa aceitando que nem todo mundo gosta de minimalismo como ele. Para exemplificar, fala de suas filhas, que costumam escrever EU TE AMO PAPAI num email cheio de letras coloridas, enormes, fontes misturadas e imagens. Toda teoria minimalista cai por terra por uma declaração de amor bem colorida e cheia de enfeites. “A simplicidade pode ser feia” diz o Maeda. “Uma certa dose de MAIS é sempre melhor do que MENOS. Mais amor, mais cuidado, mais ações significativas.”
Snif.
Passei a leitura toda me lembrando de um outro livro: “O Lama e o Economista – Diálogos sobre Budismo, Economia e Ecologia” onde o Lama Padma Samtem debate com o economista Victor Caruso Jr. O Lama Samtem, que costuma advogar a simplicidade como base para o caminho espiritual, aqui traduz sua visão ao oferecer saídas econômicas para o brete em que nos metemos todos hoje em dia.
“Em vez de maximizar os números da economia, seria maximizada a satisfação em um sentido mais profundo, e os números da economia seriam literalmente reduzidos. Hà vantagens em reduzir esses índices: a redução do impacto ambiental é uma delas. A tendência seria associar a simplicidade com a maximização da satisfação, e assim melhorar a saúde, a lucidez mental, o equilíbrio, o acesso à informação e à previdência. Seria ampliada a capacidade de apoio social às maias diversas necessidades e seriam beneficiados os processo em que as pessoas interagissem positivamente.”
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Sentaí e fica quieto!!
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Quer ouvir algo bem interessante sobre isso? Dá um pulo no podcast do Dzongsar Khyentse Rinpoche. “Zen, Sitting”. Em inglês.
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Esse assunto é complexo. Porque dá margem pra muita distorção. Porque o cara pode querer se livrar de tudo na vida externamente, jogar coisas fora, botar o pé na estrada, procurar uma casinha em cima do morro, plantar alface, e achar que está simplificando. Mas a simplificação pode significar fuga também, e aí tem problema. Porque uma hora tudo que não foi resolvido pode voltar. E se o cara é apegado DEMAIS à simplicidade externa, vai ficar nervoso. Não saber conviver com a complexidade é o maior inimigo da simplicidade.
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Ontem eu tava vendo House e lá pelas tantas ele, pra variar, sendo ácido com alguém. Não me lembro exatamente da fala, mas era algo assim.
“Não é fácil.”
“Eu não disse que era fácil, eu disse que era simples”.
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Chega de complicação!
Tá aqui o blog do Maeda.
Aqui tem uma entrevista bem interessante.
Aqui um link pra comprar o livro dele.
E esse aqui é pra comprar o livro do Lama Samtem.
TCHAU!
ATÉ SEGUNDA-FEIRA.
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