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A mente & os protocolos da cultura digital (2)

Se o ser humano se reprograma por repetição e contexto, o acesso diário (repetição) no Twitter ou no Facebook (contexto) sem dúvida deixa marcas na mente. Não vou nem entrar no assunto do cérebro, a neuroplastia e muito menos criar exóticos sub-factóides dizendo que quem acessa o Twitter todos os dias só vai saber se expressar em até 140 caracteres, mas com certeza estamos vivenciando algum tipo de troca entre nossa mente e as interfaces que utilizamos de forma mais intensa.

A construção da identidade do indivíduo pré era digital não se limitava, obviamente, a suas atividades psicológicas e sempre incluiu relação com objetos e aparelhos. Mas quando um número considerável de horas da nossa semana é passada preenchendo pequenos formulários ou tentando condensar nossos dramas e comédias em mensagens rápidas entremeadas de gifs animados dentro de caixinhas flutuantes e piscantes, precisamos admitir que estamos transformando nossas narrativas internas em experiências vivas de transmedia storytelling.

Isso implica na lenta construção de um novo alfabeto psicológico, mais complexo, espalhado, fragmentado e, acima de tudo, ligado a interfaces que nos levam a narrar nossos pensamentos e sentimentos de uma forma ainda não experimentada na história humana. Não é raro, por exemplo, uma discussão entre casal ou uma conversa entre amigos começar ao vivo, continuar por email, atravessar uma tarde no msn (entrecortada por uma série de outras atividades) e se desenvolver em frases cifradas de Fotolog ou mensagens de SMS.

Para fazer o eixo narrativo desse papo ter sentido (se é que algum dia ele fez ou vai fazer), é preciso preciso saber comunicar o que você está sentindo ou pensando em meia dúzia diferente de linguagens (o que acaba configurando uma única linguagem fragmentada e fluída). Nesse contexto, um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos – com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas. Aquele smile estava sorrindo com alegria genuína ou com o mais puro sarcasmo? Quem decide?

Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas está desenvolvendo um novo talento (o MIT chama de New Media Literacies) ao disparar em um único dia uma dúzia de mensagens de SMS para pessoas diferentes com diferentes conteúdos, tons e significados, todos dentro de um frame muito rigoroso formado por um número limitado de caracteres e uma interface gráfica ainda bastante rudimentar. No fundo, estamos aprendendo a tirar leite de pedra e não é pra menos que tanto rolo aconteça devido a mal entendidos em scraps e comments por aí na vida.

Tá, mas e daí? Não sei. Continuo no próximo post.

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Pensando ConCulture#9

Toss up – John Winslow

Pra quem chegou hoje aqui, estou lendo Convergence Culture, do americano Henry Jenkins e fazendo um post a cada capítulo reunindo algumas reflexões/anotações/palpites (você pode resgatar os outros posts clicando aqui).

O livro é uma referência importante pra quem se interessa com os movimentos atuais quando falamos em entrelaçamento de mídias. E, o mais importante: Convergence Culture não é focado nos veículos/ferramentas de mídia, mas enfatiza o conjunto de comportamentos que brota ao redor deles. Logo na introdução, Jenkins definiu o conceito de convergência como sendo o que fazemos dentro da mente e não o que acontece fora, nas diversas mídias em que os conteúdos hoje se desenrolam. Pois o capítulo 3, Searching For the Origami Unicorn, leva essa premissa às últimas consequências ao estudar um dos cases mais interessantes e intensos de transmedia storytelling: The Matrix.

My Little Dead Dick

Pra muitos, a trilogia não passou de uma sequência de 3 blockbusters cujos criadores deveriam ser presos por formação de quadrilha ao construir uma mitologia pilhando tantas referências da cultura pop, da filosia e da religião como quem vai ao supermercado (sem dinheiro e sem cartão de crédito). Entretanto, ao olhar atento e investigativo de Jenkins (e eu concordo), a questão é muito mais rica. The Matrix é uma das mais bem sucedidas tentativas de transmedia storytelling em escala global e industrial, um esforço que misturou motivações comerciais com a paixão nerd pela construção de universos desenhados especialmente para a submersão recreativa e/ou escapista.

E aqui vai a minha primeira anotação à Bic no canto de página no livro: por estarmos ainda dando os primeiros passos nesse novo tipo de narrativa, ainda cabe aos apaixonados fazer os primeiros movimentos. O processo de dissecação que Jenkins faz do universo Matrix deixa bastante claro que, apesar de haver dinheiro grosso envolvido, é o gosto pela coisa (e não pelo dinheiro que a coisa gera) que fez os Irmãos Wachowaski fazer o que fizeram do jeito que fizeram. Em outras palavras: consultor não recomenda esse tipo de encrenca antes dela estar completamente assegurada de sua eficiência.

Por outro lado, devido à sua proximidade com os recônditos da cultura pop, os produtores de Matrix sabiam o que fazer e basearam a extensão do seu trabalho em um time de produção quadrinistas, desenvolvedores de games, animadores, coreógrafos de luta  e outros profissionais que tinham em alta conta como fãs e não como produtores. Nomes como Geof Darrow, Yoshiaki Kawajiri e Woo-ping Yuen podem não dizer nada à maior parte de nós. Mas são artistas com uma carreira consistente em suas áreas e, inclusive, uma base de audiência prontinha. Os Irmãos Wachowski faziam parte dela.

Segundo ponto: isso é bem diferente do sistema tradicional, no qual você simplesmente repete o logotipo da franquia em um sem número de apetrechos e bonecos dispostos em prateleiras de grandes magazines, adicionando praticamente zero informação nova ao universo original e desprezando nichos. Segue Jenkins dizendo que “Matrix é entretenimento para a era da convergência de mídias, integrando múltiplos textos para criar uma narrativa tão grande que não cabe em um só meio.”

Ou seja, não se trata de reproduzir logotipos ou personagens ad infinitum em todo o material que for possível vender, mas espalhar verdadeiramente pedaços da história ao longo de uma cadeia complexa capaz de atingir múltiplos níveis de engajamento. O nerdus maximus fica feliz e o tiozinho que caiu na sessão de cinema do multiplex por acaso também.

Ron Mueck

Quarto ponto: isso afeta a própria visão de licenciamento comercial, porque exige mais das partes envolvidas. É preciso uma colaboração maior, envolvimento dos licensiadores em processos de co-criaçao nos quais eles compreendam o universo e colaborem para sua expansão e não para sua redundância. Geralmente, produtos de franquia seguem uma lógica comercial, mas cada vez mais é necessária a adição de uma visão artística.

Quinto ponto: botar esse esquema pra funcionar em um produto de nicho, que busca se conectar a uma audiência bastante específica, não deve ser tão difícil. Mas arquitetar isso em escala global, atendendo aos desejos de uma Warner Brothers, são outros quinhentos. Os Irmãos Wachowski souberam brincar com os milhões que colocaram nas suas mãos, oferecendo material suficiente para uma diversidade de platéia como nunca se viu antes na história da cultura pop. Se você quisesse, podia simplesmente assistir aos filmes. Mas caso fisgasse a isca e resolvesse se engajar mais, descobriria um buraco quase sem fim com material de mineração distribuído em uma série de animação, games, graphic novels e por aí vai.

Experências de universos transmedia dessa forma não são totalmente novas. Jenkins cita o exemplo da vastidão de possibilidades que o universo Pokemón apresenta há anos. Mas Matrix transcendeu a audiência interessada em desenhos animados ou mangás, chegando no nível “Temperatura Máxima” de cultura popular. Não é pra qualquer um.

Apesar disso, Jenkins sublinha: “Relativamente poucas franquias, se é que alguma conseguiu, atingiu o completo potencial do transmedia storytelling. Os produtores de conteúdo ainda estão encontrando o seu caminho nesse sentido.”

Sexto ponto: assim como co-emerge uma nova audiência, essas mudanças também vão provocar o co-surgimento de uma nova crítica. Que sentido faz uma experiência de transmedia como The Matrix ou Heroes ser analisada ou criticada separadamente por críticos de cinema, quadrinhos, games e desenho animado? Os dois últimos segmentos de Matrix foram detonados por críticos de cinema (a meu ver, com razão). Mas talvez não o fossem por “críticos transmedia”, uma vez que a maior parte dos furos de narrativa dos filmes estavam contemplados nas outras mídias, em especial nos games. (Não posso deixar de lembrar a experiência fantástica que foi a revista Play, uma junção visionária e ainda inédita em mídia impressa de cobertura de música, games, cinema, literatura e tudo mais.)

***

Pra fechar, mais citação direta do Jenkins: “Existe um ponto além do qual as franquias não podem ser extendidas, subtramas não podem ser adicionadas, personagens secudários não podem ser identificados e referências não podem ser percebidas. Nós só ainda não sabemos qual é esse ponto.”

Aí está o cerne da questão em termos de cultura de convergência e transmedia storytelling: nessa longa fase de transição que estamos vivendo, qualquer tentativa de estabelecer um modelo é precipitada. Nesse momento de experimentação, qualquer um que diga que tem absoluta certeza de qualquer coisa ou é ingênuo ou é picareta.

Mas não tenho muito bem certeza disso.

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Pensando ConCulture#8: a essência do transmedia storytelling

Tem um frase do Woody Allen que eu adoro “Fiz um curso de leitura rápida e li “Guerra e Paz” em vinte minutos. Fala sobre a Rússia.” Dito isto, Mr. Allen me libera pra eu tentar resumir o capítulo 3 do Convergence Culture em apenas uma frase pinçada do próprio livro:

“Devido ao fato dos personagens serem pessoas reais cujas vidas transcendem os limites da série, os espectadores ficam com a sensação de que existe mais pra ser descoberto a respeito deles, o que fornece um incentivo a buscar informação adicional em diversos canais de mídia”.

Este trecho é a essência do que me interessou no capítulo inteiro. “Buyin Into American Idol”, na verdade, tem a intenção de fornecer um mergulho em profundidade na estrutura do product placement (o que aqui chamamos de merchandising) do reality show americano. A série é considerada um divisor de águas nessa disciplina, com cases de integração de marcas e trama com tamanha sinergia a ponto de diversos consumidores mais críticos questionarem a ética de tais ações.

Porém, enquanto pesquisa a relação entre as conversas de cafezinho sobre American Idol e as marcas que o patrocinam, Jenkins vai dando na paralela informações valiosasas sobre outro assunto: como funciona uma boa história que quer transcender o seu meio de nascença ou seu principal meio de difusão – o hoje famoso (talvez amanhã não) transmedia storytelling.

American Idol foi um reality show esperto, que se utilizou de tudo que era necessário para alavancar a audiência. Não aboliu a importância da transmissão massiva em televisão aberta ao mesmo tempo em que passou a jogar com novos e fundamentais recursos, como a votação por mensagem de texto*, os fóruns online e os sites de compartilhamento de vídeo.

Apesar disso tudo, a verdadeira mídia do transmedia storytelling não é o celular, a web ou a TV, mas a fofoca. Vamos lembrar um trecho da introdução do livro, no qual o modelo de mídia da historiadora Lisa Gitelman é citada: “Em um primeiro nível, um meio é a tecnologia que permite a comunicação. Em um segundo nível, um meio é um apanhado de protocolos ou de práticas sociais que crescem em torno daquela tecnologia”. Nesse sentido, a conversa sobre a vida alheia é um dos protocolos mais fortes que surgiu em torno dos reality shows. E é também a verdadeira “cola” que mantém unidos os pedaços dos universos criados em diversas mídias. A fofoca, na verdade, não é conteúdo: é meio por onde o conteúdo viaja e se expande de forma exponencial. Não vai existir obra em transmedia que não tenha um forte componente de socialização.

Eu sempre gosto de pensar no exemplo das novelas brasileiras. Embora elas não sejam transmedia por excelência (cadê o perfil dos personagens no Orkut adicionando amigos no “mundo real”? por que os personagens de Malhação não entram no MSN? Quando o Agostinho Carrara vai ter um blog sobre suas histórias do táxi? Por que não recebo SMS da Donatela?), as novelas no Brasil alimentam todo um universo editorial fora da tela que movimenta uma quantidade incrível do que Douglas Rushkoff chama de “social currency”: moeda social, feita de “assuntos”, utilizada cotidianamente pelas pessoas para comprarem atenção umas das outras.

Bom, o capítulo 3 de Convergence Culture é muito maior e mais rico que essas minhas rápidas anotações. O que eu tentei aqui foi só sublinhar o que me parece ser o elemento das boas histórias nesses tempos de transmedia (desculpa de novo, mas é a palavra do momento, calma que passa): utilizar o conteúdo – e não só os meios – para oferecer material de diálogo às pessoas. Se funciona com as revistas de fofoca de novela e com toda a mitologia do jornalismo esportivo, vai funcionar também com outras formas de ficção como a publicidade.

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Pensando ConCulture#7: Jenkins de graça

Lembra que eu falei que só o primeiro capítulo do Convergence Culture já valia o investimento do livro?

Pois aqui tem o primeiro capítulo em PDF pra baixar gratuitamente e em português.

Não perda.

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Pensando ConCulture #5: Jenkins no Maximídia

Diferente de 2007, esse ano assisti ao Maximídia pela transmissão via satélite que rola aqui em Porto Alegre mesmo. A distância não atrapalhou em nada a verborragia e o despejo de referências nerd de Jenkins, mas a tradução simultânea deu uma esfriada na história toda, já que a voz da (boa) tradutora foi mixada direto em cima da voz do cientista de mídia do MIT. Mas, enfim…

Como é o jeito dos americanos, basicamente Jenkins tratou de discorrer sobre o conteúdo de seu livro que está sendo lançado no Brasil. No entanto, as comparações com palestrantes falcatruas páram por aí. Vê-se claramente no olhar e na forma como o americano trata do assunto que não estamos diante de um ornitólogo falando de pássaros e sim de um integrante da quadrilha.

O fã confesso de cultura pop começou colocando a visão errônea que muita gente tem da tal web 2.0: “Você faz todo o conteúdo e eu ganho todo o dinheiro”. Pra contrapôr essa visão, Jenkins mostrou claramente  que as relações em um mundo no qual o conteúdo é cada vez mais distribuído de forma não linear tem mais áreas cinzas do que pretas e brancas. Ícones de palestras do gênero como Lost, iPhone e Heroes foram misturados a um conhecimento profundo de fenômenos mais específicos como games e animes. Desses últimos, Jenkins extraiu uma idéia que oferece uma perspectiva esclarecedora.

Antes de gerar milhões de dólares em negócios altamente lucrativos para diversas indústrias, o anime foi uma poderosa subcultura com revistas e vídeos de VHS sendo copiados e contrabandeados por todo o mundo nas mãos de fãs extremamente ativos. Embora alguns possam argumentar que isso foi pirataria, Jenkins chama esse tipo de iniciativa como a “tropa de choque” de produtos culturais. Em outras palavras, se hoje corporações ganham milhões com derivados de produtos japoneses (e ganham), é porque há muito tempo os fãs mais ardorosos estabeleceram as bases desse gosto no tecido social de seus países. Gostei muito disso. É óbvio, mas nunca alguém tinha explicado de forma tão clara.

Mas o grande assunto da palestra foi mesmo a convergência e, por consequência, o tal do transmedia storytelling. O moderador Luis Fernando Vieira, diretor de mídia da Africa, começou fazendo uma ceninha pedindo autógrafo mas depois largou uma pergunta simples e interessante: qual a diferença entre cross-media, integração e transmedia storytelling? Jenkins primeiro respondeu algo que também eu acho: esses são termos intercambiáveis. Muitas vezes as pessoas ficam discutindo os termos certos quando na verdade estão falando da mesma coisa. Depois explicou que o que ele chama de transmedia storytelling se caracteriza pela expansão de um conteúdo em diversas plataformas e não sua mera repetição. Ok?

Mais dois tópicos interessantes.

Um foi a eterna tecla que precisa ser batida em relação às comunidades que surgem em tornos de marcas. O conselho de Jenkins para isso é que as marcas prestem mais atenção nas comunidades que formam à revelia dos seus planos de marketing e não que fiquem tentando criar e fortalecer comunidades formais.

O outro foi a notícia de que o C3 (Convergence Culture Consortium) está arrumando parceiros e clientes no Brasil. A cultura pop do Brasil, com sua vastidão e funcionamento tão livres, são um prato cheio para estudos de mídia comparada. Qual é o potencial de transmedia storytelling em nosso produto cultural de maior sucesso, as novelas? E o que vai acontecer com as milhares de celebridades regionais que estão começando a ter exposição nacional com YouTube? Pra onde, afinal de contas, vai o Orkut?

Se eu fosse americano, realmente corria rapidinho pro Brasil pra aprender o que é cultura livre, mashup e criação colaborativa.

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PS: as duas imagens acima eu achei digitando CONVERGENCE no Google Image. A primeira foi usada por Jenkins na palestra pra mostrar a sua visão de convergência: as coisas precisam fazer sentido, mas não serem idênticas…

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Quando o “digital” sumir

“O momento ideal para a tecnologia será quando ela desaparecer para o usuário, quando elas se tornar invisível. Quando as mulheres usam um secador de cabelos, elas não dizem assim… ‘vou me conectar na rede elétrica para secar meus cabelos’. Elas simplesmente ligam um botão e secam os cabelos, sem se preocupar com como aquilo é possível.”

Trecho da entrevista com o sociólogo e pesquisador do Mit Federico Casalegno na última Meio Digital. É um raciocínio bastante simples e até disseminado entre publicitáros ligados à tecnologia. Mas também é algo que vai demorar um tempo pra acontecer e até lá temos que ter paciência e conviver com aberrações. E ser aberrações. A revista Meio Digital é uma aberração, ela não deveria existir, deveria ser parte da Meio & Mensagem. Assim como é aberração o meu cargo na agência. E o termo “agências digitais” também é uma aberração. Mas somos aberrações necessárias. Aberração de transição. Não tem outro jeito. Não dá pra ter noção de ridículo a essa altura do campeonato. Temos que ser meio palhaços. E ter dignidade de palhaço.

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Outra aberração interessante.

Esses dias alguém me contou que o nome popular do telefone móvel, “celular”, veio do jargão de engenharia. Cada célula é o raio de ação das estações base (antenas) e o desenho técnico delas se assemelha a uma coolméia. O apelido do figura foi dado por engenheiros. Imagina se publicitário ia criar o nome “celular”. Iam dizer que é “frio”.

Esse tipo de caso e exemplos tipo “Paralamas do Sucesso”, “Coca-Cola” e “Chaves” sempre me fazem pensar que o nome das coisas não influi tanto no seu sucesso.

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Pensando ConCulture#2

Um dos paralelos que estou fazendo automaticamente a cada parágrafo de Convergence Culture é com a forma de funcionamento das agências de publicidade. Nos últimos seis meses, tenho feito parte de um grupo ligado ao planejamento estratégico da Escala que está definindo os rumos da agência em termos de escopo. Aquela coisa: quais disciplinas serão incorporadas ao pensamento estratégico ou operação? Que tipos de serviços vamos entregar e que tipo vamos terceirizar, gerenciando o conteúdo de marca?

Em meio a essas discussões, obviamente surgiram muitas questões a respeito do perfil dos profissionais e da forma de trabalho dentro da agência quando as disciplinas atendidas vão além da tradicional campanha de TV/Jornal/Rádio/Outdoor. Enquanto os veículos que cobrem o setor se debruçam sobre a necessidade de se compreender as tecnologias, remuneração e linguagem de disciplinas correlatas à publicidade “convencional” (mobile marketing, guerrilha, ativação etc), eu não paro de pensar que esse é o menor dos problemas.

Venho insistindo que existem certas habilidades interpessoais tão importantes quanto conhecimento técnico ou habilidade criativa. Pessoas chave, detentoras de conhecimentos específicos que precisam ser espalhados por toda a agência, por exemplo, não podem fazer o gênero “gênio isolado”. Porque grande parte do trabalho delas é justamente espalhar conhecimento. Portanto elas precisam fazer mais o tipo “gênio pimpão”.

Mas antes de tudo, em geral os profissionais de agência hoje precisam de paciência. Paciência para suportar a ambiguidade dos papéis de empresas e pessoas ao seu redor; paciência de precisar desmontar e remontar briefings de acordo com o surgimento de novos pontos de contato periodicamente; paciência em trabalhar com um número maior de pessoas do que antes era possível para criar uma campanha; paciência em buscar consenso entre esse número maior de pessoas; paciência de ver pessoas que não entendem nada do seu campinho tendo idéias melhores que a sua; enfim, paciência.

A segunda habilidade é a capacidade de misturar mentalidade de criador e estrategista com mentalidade de produtor. Hoje, saber o “como” se faz qualquer coisa é parte fundamental do processo criativo. Não é mais possível montar um projeto complexo, que envolve novas tecnologias ou pontos de contato sem saber como essas tecnologias ou pontos de contato funcionam. Isso é uma mudança brutal de paradigma especialmente para a área de criação, que durante décadas não precisou se preocupar demais com o COMO, mas mais com O QUÊ. Hoje, se o criativo (e os planners, diga-se de passagem) não sabe o COMO, não tem muito como fazer um novo O QUÊ. Além disso, existem muitos novos COMO para serem explorados e descobertos. O que exige uma nova capacidade generalista, que inclui a habilidade de flutuar sobre áreas ainda mais vastas do que o costume e captar a essência do COMO de cada uma, bem como saber trabalhar em total parceria com quem sabe mais COMO de ALGUMA COISA do que você.

Não entendeu nada? Paciência…

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Imagens: esculturas do Antony Gormley

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Pensando ConCulture #1

Ao longo das próximas semanas, resolvi “pensar blogando” esse livro. Ler Henry Jenkins já me havia sido indicado por duas pessoas e agora que estou inciando o terceiro capítulo do Convergence Culture só posso pensar “demorô”.

Jenkins é Fundador e Diretor da área de Comparative Media Studies do MIT e autor ou editor de 11 livros a respeito de convergência, transmedia storytelling, fan-fiction, cultura gamer, essas coisas modernas. Basicamente o cara é uma peça rara: um fã-estudioso. A parte do fã traz paixão e visão insider, a parte estudioso oferece distanciamento e contextualização. Pra quem estiver por São Paulo em outubro, ele vem ao Maximídia falar. Fui no ano passado, mas não vou poder ir nesse ano. Gastei meus créditos na agência indo a Cannes.

Quem se conectar com a forma de pensar do cara também pode fazer um Open Courseware na área. O MIT oferece mais de 30 cursos online de grátis em Media Comparative Studies pra absolutamente qualquer um que saiba ler inglês. Não é a mesma coisa que ter aula com professores e colegas, mas você pode programas suas leituras e estudos, bem como tem acesso a anotações de aula feitas por algum aluno mais aplicado e, em alguns casos, podcasts e outros materiais multimídia de apoio. Estou pensando seriamente em “cursar” New Media Literacies nos próximos meses.

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Mas vamos ao livro. Pra começar, temos que estabelecer que essa capa é um tanto quanto clichezuda, não? Se fosse por essa capa, eu nunca compraria esse livro. Ainda bem que boas pessoas me indicaram, porque colocar um iPod e um videowall a la Matrix, embora personifique bem o espírito do Convergence Culture, também tem a maior cara de picaretagem.

Mas, veja você, o máximo de picaretagem a que o Jenkins chega é aquilo que o Matias chama de picaretagem do bem: o autor deliberadamente pula cercas convencionais, rouba assuntos daqui e dali e mistura tudo com um jeito pop de escrever. Em certo sentido, me lembra um pouco o estilo do Malcom Gladwell. Em vez de se sentir submerso em uma linguagem acadêmica impenetrável, é muito mais como se você estivesse passeando pelo assunto, lendo uma reportagem de revista semanal extendida – uma boa revista, não a Veja.

No caso, o assunto dessa imensa reportagem investigativa começa por corrigir a noção popular de convergência, essa palavrinha tão surrada e mal usada. Logo na página 3 da introdução, Jenkins larga um pequeno parágrafo que faz valer a grana investida no livro e, eu arrisco a dizer, se você entender bem esse trecho pode até não ler mais nada do livro ou do cara.

“A convergência não acontece através de aparelhos por mais sofisticados que eles sejam. A convergência acontece no cérebro dos indivíduos e nas suas interações sociais. Cada um de nós constrói sua própria mitologia a partir de bits e fragmentos de informação extraídos do fluxo na mídia e transformado em recursos através dos quais construímos sentido para nossa vida.”

Bom, eu não sei quanto a vocês e vou suplantar minha vergonha em admitir: eu nunca havia pensado nesse conceito tão óbvio, a convergência como uma ação ligada à mente de quem assiste e não a um suposto aparelho universal. A convergência é um assunto da mente e das interações sociais, não da tecnologia. Convergência é o que cada um de nós faz juntar o que assistimos/lemos/ouvimos vindo de diversas fontes de mídia e não o que a Sony ou a Nokia fazem nos seus laboratórios.

Enxergar a questão da convergência desse ponto de vista sob a luz da indústria brasileira de publicidade ou de mídia causa um enorme desconforto, porque o Brasil sempre foi o país do tiro de canhão: um comercial em um só canal de televisão sempre resolveu grande parte do trabalho sujo. Esse canal e esse comercial sempre foram os grandes eixos do conteúdo que seria convergido na mente de cada consumidor. Como telespectador, não havia muito trabalho a se fazer. Mas com a crescente disponibilidade de meios digitais nas mãos do grosso da população, o modelo de convergência proposto por Jenkins (que na verdade simplesmente retrata a forma como as coisas estão de fato acontecendo) bagunça tudo pra quem não souber enxergar dessa forma.

Colocar a mente das pessoas no centro da equação da convergência também derruba outro mito não falado: o entendimento da tecnologia à frente do entendimento da psicologia. Ou, melhor, o entendimento de uma coisa em detrimento de outra. Entender a convergência significa, justamente, entender de muita coisa ao mesmo tempo. Significa saber derrubar hierarquias dentro da nossa forma de pensar, conectando áreas de forma não vertical. Na prática, isso também quer dizer que chegou a era das pessoas que fizeram várias faculdades pela metade!

***

A cultura da convergência é a cultura do transmedia storytelling. Pedaços de informação e entretenimento captados em diversas mídias que servem para construir mundos na mente de cada receptor e compartilhados em certa medida pelos receptores com interesses em comum. Convergência é mais sobre criar mundos. E mundos não são – nunca foram e nunca serão – estáticos. São dinâmicos e, a rigor, sem possibilidade de controle total sobre o que acontece neles. Se você não quer se basear em exemplos rigorosamente da cultura anglo-saxônica (fan-fiction do Harry Potter ou todo o universo derivativo de Guerra nas Estrelas), pode começar a buscar exemplos bem brasileiros como a extensão de Duas Caras, novela das oito que tinha um braço dramático acontecendo no mundo real e protagonizado pelo autor, Aguinaldo Silva, em seu blog. Ou os inúmeros funks criados a partir de reportagens de emissoras obscuras com personagens bizarros vindos dos grotões do país.

Jenkins também cita muito uma suposta caixa preta mágica, que há alguns anos parecia que seria inventada. Um aparelho universal que substituiria todos os aparelhos que temos em casa. Uma só caixa preta para tocar música, mostrar vídeos, fazer café, massagem, buscar as pantufas e esquentar a pizza. Mas, como ele frisa, o que vem acontecendo é que os aparelhos estão se multiplicando dentro de casa, na gaveta do escritório ou na mochila.

Mais um sinal de que a convergência é mental e não tecnológica. Ninguém será capaz de criar um aparelho universal quando as pessoas estão encontrando cada vez mais condições de consumir de forma individualizada. Nem todo mundo quer tudo em um aparelho. Essa vontade de ter um tudo-em-um não é um desejo universal, mas de nicho. O processo industrial de criação de novos aparelhos está seguindo o modelo propost por Jenkins para interação com conteúdo: não é top-bottom (da indústria ao consumidor) nem bottom-top (do consumidor à indústria), mas ambos, acontecendo de forma dinâmica, fluída. E, apesar de muitos sugerirem ser o celular o “aparelho da convergência” (será? vc tá a fim de perder todos seus aparelhos qdo perder seu celular?), enquanto o voto do povo não atinge um consenso, a necessidade de muitos consumidores vai sendo suprida por muitos aparelhos.

Jenkisn cita um relatório de uma tal Cheskin Research: “O que nós estamos vendo agora é que enquanto o hardware diverge, o conteúdo converge.” Vai se dar bem quem souber fazer os diferentes conteúdos expostos nos diferentes aparelhos dialogarem. Os conteúdos que não dialogarem na mente das pessoas morrerão. Os aparelhos que não dialogarem entre si morrerão. Ou viverão em nicho, o que também não é um grande problema.

Já nas últimas frases do primeiro capítulo, o pesquisador americano decreta: “Estamos entrando numa era de prolongada transição”. Eu iria adiante. O que chamamos de transição é o novo cenário. Não haverá “solução” da forma como se está esperando. Não haverá um momento de “estabilidade”, onde todos saberemos exatamente o que fazer com o conteúdo que precisamos criar e distribuir. Precisamos desenvolver uma certa amizade com essa instabilidade.

Isso me lembra uma história dessas de “sabedoria oriental”. Certa vez, a monja Pema Chodron falou ao seu mestre Chogyan Trungpa Rinpoche: “acho que estou vivendo uma fase de transição”. O professor respondeu: “estamos sempre vivendo uma fase de transição.”

(continua)

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