Tag: Mobilidade


quarta-feira, 3 de fevereiro, 2010

A cor do som

Os celulares são aparelhos difíceis de serem customizados por fora, na sua estrutura física, a grande maioria deles, pelo menos. Ainda assim, todo mundo dá um jeito de deixar o telefone com a sua cara. Uma vez que papéis de parede e fotinhos são limitadas pra um raio de ação mais amplo, o som é que é, hoje, um dos grande fatores de diferenciação do aparelho. É por isso que os ringtones são tão importantes e geram tanto dinheiro no mundo todo pra operadoras e gravadoras. É o toque pessoal de cada um, seja uma música, uma voz gravada ou uma piadinha qualquer que faz dois aparelhos iguais parecerem de donos tão diferentes.

Em resumo, o som é hoje a cara do celular.

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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.

Ilustra: daqui

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terça-feira, 19 de janeiro, 2010

A volta dos que não foram - 2

Um dos efeitos colaterais da disseminação de novas tecnologias, curiosamente, é o retorno a velhos hábitos. Por exemplo, já foi dito que o mp3 trouxe de volta a era dos singles e que o email também trouxe de volta o diálogo escrito entre as pessoas depois de um longo declínio na troca de cartas.

(Embora alguns hoje decretem a morte do email, eu não acredito. Pra mim, é que nem a morte do cinema, do rádio, da televisão…)

Bom, mas a questão é que o celular também é responsável por um desses fenômenos. No século passado, antes da criação do relógio de pulso, era comum alguém puxar um aparelho do bolso pra saber as horas. Hoje, tu vê só, é igualzinho. Pra se situar e não ficar perdidão, a maior parte das pessoas precisa ir no bolso em busca das horas, consultando o celular.

Pobre pulso: perdeu status no que diz respeito a nos conectar com o fluxo do tempo. E pro bolso, que nem parte do corpo é!!!

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Leia também A volta dos que não foram - 1.

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

Imagem daqui.

Postado por Gustavo Mini às 9:56 | 5 Comentários | Permalink

quinta-feira, 7 de janeiro, 2010

A volta dos que não foram

A imagem acima eu vi num post do PSFK falando de um selo inglês que está lançando edições limitadas de seus artistas somente em fita cassete. Num primeiro e rápido olhar, a notícia tem cara de revival: “as boas e velhas fitas cassete estão de volta” (muito embora eu, como um cara prático para escutar som, não vejo muita vantagem na volta da fita cassete).

Depois do primeiro e rápido olhar, vem a pergunta: as fitas cassete estão de volta pra quem? Para os “omanenses” é que não. Pra eles, as fitinhas nunca foram embora.

Assim que botei os olhos no texto do PSFK, me lembrei desse post do Jan Chipcase, pesquisador da Nokia que anda por lugares fora dos grandes centros em busca de insighst de mobilidade. Em Oman (um sultanato árabe), diz Jan, 90% do conteúdo à venda é música local, e quase toda ela no formato de fitas cassete. Ainda. Hoje.

(E em uma rápida busca na minha memória, lembro de ver ainda muitas fitas cassete presente em vários bares de beira de estrada em várias partes do Brasil, provavelmente pra alimentar os toca-fitas dos caminhoneiros. As fitinhas disputando espaço com os CDs piratas…)

Bem… o caso é que 99% das matérias a respeito do comportamento frente às novas tecnologias tem por base o cotidiano de americanos e ingleses descolados. Que, já faz algum tempo, não têm mais o mesmo impacto no que diz respeito a exportar tendências para o resto do mundo. O trabalho de gente como Jan Chipcase, só pra dar um exemplo mais mainstream, é justamente de garimpar insights em locais e estratos sociais com necessidades muito mais variadas do que simplesmente ter o mais novo gadget à disposição. No mesmo blog, se você procurar bem, vai achar um estudo que ele fez pra Nokia em favelas de várias partes do mundo buscando um novo olhar sobre questões de mobilidade.

Enfim…

O ponto aqui é algo que me lembro de ter aprendido vendo filmes de ficção científica: o que caracteriza um determinado cenário como futurista não é o fato de haver novíssimas tecnologias bem estabelecidas e espalhadas por tudo quanto é lado. O futuro, creio, é feito da convivência (nunca bem resolvida) de novas e antigas tecnologias que insistem em não arredar o pé porque simplesmente resolvem muito bem o problema de determinados grupos sociais ou de certas regiões geográficas.

A necessidade é a mãe da invenção e madrasta da manutenção.

Postado por Gustavo Mini às 13:56 | 3 Comentários | Permalink

sábado, 22 de novembro, 2008

Blast Theory em BH

Está rolando desde quinta em Minas o Arte.Mov, 3º festival de mídias móveis. Entre as várias atrações do festival está um game criado pelo grupo britânico Blast Theory especialmente para o evento (mas q é bastante similar a outras coisas que eles fizeram, pelo q me lembro). O “Can You See Me Now” funciona da seguinte forma: tu te cadastra no site e tem que fugir dos “pegadores” do Blast Theory que aparecem na tela.

Detalhe: eles não estão propriamente na tela, mas nas ruas do bairro Santa Tereza, em BH, munidos de dispositivos móveis, rádio e GPS. O que significa que eles, em carne e osso, estão perseguindo você em bits. Sacou? Não sacou? Vai lá e entende.

O horário do jogo hoje é das 11h às 15h. Ontem eu tentei jogar, mas não teve jeito, carregava a interface e trancava o browser… muita gente tentanto, eu acho.

O Arte.Mov segue em São Paulo no fim da semana que vem com uma série de palestras e debates sobre questões relacionadas à mobilidade com uma abordagem mais conceitual (um saudável respiro pra quem, como eu, convive demais com os aspectos comerciais das mídidas móveis). Porém, a menos que caia uma passagem aérea dos céus na semana que vem, não tenho a perspectiva de participar…

Postado por Gustavo Mini às 8:00 | 1 Comentário | Permalink

sexta-feira, 7 de novembro, 2008

TV Digital - pois é

Continuando o post anterior, eu dexei de citar um dispositivo que permite o consumo móvel da tv digital aberta: o pen drive-antena. É uma solução mais barata (cerca de 200 patacas) do que a TV portátil (entre 600 e 800 realitos por agora), que o celular (mais de um milhar de pitombas). Certo que vai fazer a felicidade de muito torcedor de futebol que precisa viajar com o notebook pra cima e pra baixo.

Mas, enfim.. vamos aos tópicos restantes…

4) Paciência

O Governo e a mídia televisiva em geral precisaram fazer esse auê inicial como forma de impulsionar a cultura da TV digital não só para a população, mas também para a indústria e o meio publicitário. Entretanto, como tudo no Brasil, o crescimento da penetração dessa nova tecnologia vai acontecer de uma maneira disforme e provavelmente contra a maior parte dos prognósticos.

O brasileiro é um tanto quanto imprevisível no consumo de tecnologia (perfis conservadores e inovadores não respeitam muito uma visão demográfica). Mas acho que dá pra dizer que teremos algo muito próximo do WAP no celular: uma super promessa espetacularizada no iníco que decepcionou ao longo dos primeiros anos. Lembra disso? O WAP foi vendido como a internet no celular, mas não passa de uma rede muito lenta, que exige uma paciência absurda pra acessar.

Da mesma forma, a TV digital vai demorar um bom tempo pra ter seu grande potencial (interatividade) explorado de forma interessante. Até lá, o maior trabalho será dos engenheiros das emissoras, dos maquiadores e cinegrafistas (que estão precisando se adaptar ao detalhismo da imagem em alta definição), das produtoras de comerciais e, especialmente, dos departamentos comerciais que vão ter que quebrar a cabeça com modelos de remuneração futuros…

5) Interatividade

Esse é o ponto de maior fraqueza da TV digital. Por motivos que não sei explicar bem, a faixa de frequência de transmissão da TV digital brasileira não permite interatividade de duas vias. Pra ser mais claro, vão ser precisos acordos com TVs a cabo ou redes de telefonia fixa ou móvel para que o telespectador interaja com o conteúdo de forma mais dinâmica. Coisas simples como acesso à informação básica na tela, seleção de ângulos ou de canais de som estarão, com o tempo, disponíveis no controle remoto. Mas operações mais complexas como compras de produto ou experiências de maior profundidade dependerão sempre de um pareceiro telecom.

Sobre isso, um outro aspecto fundamental foi levantado quarta por um cara da Globo: o quanto a interatividade compromete a noção convencional audiência. Digamos que você está assistindo a uma novela. Entra o intervalo e você dá de cara com um comercial interativo de carro. Interessado, você mergulha na interatividade que o comercial lhe permite: olha o carro de todos os ângulos, verifica as ofertas de parcelamento, investiga reviews da imprensa especializada e se perde naquele mergulho. Ótimo para o consumidor, péssimo para a emissora, que vê sua audiência se fragmentar e ir se perdendo ao longo do break, podendo até nem retornar para o programa que estava assistindo.

Emissoras de TV até hoje só souberam vender grandes fatias de audiência de programas. Lidar com mergulhos invididuais de profundidade e com telespectadores que criam seus próprios caminhos no conteúdo será um aprendizado demorado e duro para as emissoras.

Mas é isso aí, meu velho! Los que pariu que los crie!

6) Abundância, Editabilidade, Sociabilidade

A maior parte das reflexões que vi serem feitas nas palestras a respeito da da TV digital sempre trataram o telespectador como um ser estático, que não muda sua relação com a TV por conta do avanço da internet especialmente. Esse é um assunto muito delicado, geralmente tratado com um certo desdém, como se a televisão estivesse cercada por hábitos intocáveis. O celular, uma vez que vai poder receber o sinal da TV digital, é sempre lembrado. Mas a internet é totalmente ignorada. E eu entendo por quê.

O problema é que todas essas reflexões e objeções vem de pessoas que cresceram tendo uma relação umbilical com a TV. O que provavelmente não vai se repetir com essa intensidade nas pessoas que estão crescendo com um computador e uma banda larga dentro do quarto. Os chamados “nativos digitais” têm motivações e formas de interagir com conteúdo que fogem à compreensão absoluta de nós, “migrantes digitais”. É preciso admitir. Não acho que todos os “migrantes” não possam entender os “nativos”, mas é preciso um salto no escuro, um abandonar de crenças básicas, uma capacidade de abstração que não vejo na maior parte dos executivos da indústria da comunicação.

Não acho que a internet vá substituir a TV. São dois meios que tem a forma de consumo completamente diferente. A TV oferece sociabilidade analógica: quatro, cinco, oito, dez pessoas podem assistir juntas a um programa. A internet, por sua vez, é um meio de sociabilidade digital: você compartilha o que descobre e o que assiste com vinte, trinta, cinquenta, cem mil, um milhão de pessoas que não estão ao seu lado. São dois momentos de consumo de conteúdo completamente diferente, complementares e não excludentes. Ao que tudo indica, um não vai poder oferecer tudo que o outro oferece. Por isso eles terão que dialogar. E, desculpe Rede Globo, dividir sua audiência.

A TV digital aberta, por muitos e muitos anos, não vai poder oferecer três elementos básicos que os nativos digitais estão se acostumando: abundância, editabilidade e sociabilidade. O engorde na audiência da TV digital não depende apenas de pegar mais gente por conta da mobilidade e portabilidade, mas de oferecer ou conversar com esses três conceitos que estão se enraizando nas novas gerações.

Não é um assunto que mereça um fechamento. Na verdade ele precisa se manter aberto. Mas pra não deixar o post sem um finalzito interessante, teclo uma última anotação: as pessoas estão construindo novas formas de consumir conteúdo. Novas formas, no plural. Não acredito que vai existir UMA forma de se consumir TV digital, internet, revista ou o que quer que seja, mas no mínimo uma centena. Não acredito, como o Henry Jenkins, que vai existir um aparelho universal em todas as casas, mas sim um universo vasto de aparelhos que vão ser configurados e montados de acordo com a vontade e necessidade de cada indivíduo ou de cada família.

É pra isso, eu acredito, que precisamos nos preparar.

Postado por Gustavo Mini às 10:37 | 2 Comentários | Permalink

sexta-feira, 10 de outubro, 2008

Oi, velocidade

Um dos clichês mais comuns que se ouve em elevadores e restaurantes a quilo é ouvir comentários sobre como “as coisas estão aceleradas”: o ano passa mais rápido, as crianças crescem mais rápido, os carros correm mais rápido, os computadores estão mais rápidos, os celulares ficam descartáveis mais rápido, as bandas surgem e somem mais rápido, as tendências brotam e se dissolvem mais rápido.

Pois é. Estamos correndo tanto que não é preciso nem mesmo correr para estar rápido. Mesmo quem está chapado na cama, vendo televisão e ouvindo vinil com um celular de 2005 que só manda e recebe mensagens, está correndo. Qualquer um que hoje fique parado no seu lugar está indo mais rápido do que seus antepassados recentes. Não tem jeito. Estamos dentro de um trem bala e ninguém ousaria puxar a cordinha do freio de emergência. Isso afetaria de modo irreversível o lançamento do próximo iPhone.

Existe uma série de explicações para esse fenômeno. Elas podem vir com o viés da economia, da tecnologia, da biologia, da física ou da história. Como eu não domino nenhuma dessas disciplinas e nem li Paul Virilio (considerado o filósofo da velocidade), tive que inventar minha própria tese.

A velocidade tonteia, mas também dá barato. Oferece uma sensação maior de suposta solidez dos nossos mundos interno e externo. É a vida feito flip-book: se continuarmos folheando rapidamente, poderemos ver nossa história se desenrolar. Se pararmos, só sobrarão desenhos estáticos em seqüência – uma série de fotogramas pintados à mão que, pausados, surgem com detalhes. Olhar esses detalhes é o ônus de estancar a velocidade. Mas é também o bônus. É possível enxergar os contornos, as pinceladas de cor, a textura do papel – veja você, se percebe até que havia papel envolvido na história.

É difícil tratar do assunto sem resvalar em um moralismo que leve à apologia da lentidão. A velocidade está aí e ponto final. Mas pelo menos, por uma questão de educação, a gente podia parar por um segundo, nem que seja pra olhar na cara dela e fazer o que não fizemos ainda: dar “oi”.

(clique nas imagens para obter os créditos)

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Isso foi a coluna da +Soma número 6.

Postado por Gustavo Mini às 16:18 | 2 Comentários | Permalink

quarta-feira, 1 de outubro, 2008

Quando o “digital” sumir

“O momento ideal para a tecnologia será quando ela desaparecer para o usuário, quando elas se tornar invisível. Quando as mulheres usam um secador de cabelos, elas não dizem assim… ‘vou me conectar na rede elétrica para secar meus cabelos’. Elas simplesmente ligam um botão e secam os cabelos, sem se preocupar com como aquilo é possível.”

Trecho da entrevista com o sociólogo e pesquisador do Mit Federico Casalegno na última Meio Digital. É um raciocínio bastante simples e até disseminado entre publicitáros ligados à tecnologia. Mas também é algo que vai demorar um tempo pra acontecer e até lá temos que ter paciência e conviver com aberrações. E ser aberrações. A revista Meio Digital é uma aberração, ela não deveria existir, deveria ser parte da Meio & Mensagem. Assim como é aberração o meu cargo na agência. E o termo “agências digitais” também é uma aberração. Mas somos aberrações necessárias. Aberração de transição. Não tem outro jeito. Não dá pra ter noção de ridículo a essa altura do campeonato. Temos que ser meio palhaços. E ter dignidade de palhaço.

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Outra aberração interessante.

Esses dias alguém me contou que o nome popular do telefone móvel, “celular”, veio do jargão de engenharia. Cada célula é o raio de ação das estações base (antenas) e o desenho técnico delas se assemelha a uma coolméia. O apelido do figura foi dado por engenheiros. Imagina se publicitário ia criar o nome “celular”. Iam dizer que é “frio”.

Esse tipo de caso e exemplos tipo “Paralamas do Sucesso”, “Coca-Cola” e “Chaves” sempre me fazem pensar que o nome das coisas não influi tanto no seu sucesso.

Postado por Gustavo Mini às 16:34 | 6 Comentários | Permalink

quarta-feira, 17 de setembro, 2008

Pensando ConCulture #1

Ao longo das próximas semanas, resolvi “pensar blogando” esse livro. Ler Henry Jenkins já me havia sido indicado por duas pessoas e agora que estou inciando o terceiro capítulo do Convergence Culture só posso pensar “demorô”.

Jenkins é Fundador e Diretor da área de Comparative Media Studies do MIT e autor ou editor de 11 livros a respeito de convergência, transmedia storytelling, fan-fiction, cultura gamer, essas coisas modernas. Basicamente o cara é uma peça rara: um fã-estudioso. A parte do fã traz paixão e visão insider, a parte estudioso oferece distanciamento e contextualização. Pra quem estiver por São Paulo em outubro, ele vem ao Maximídia falar. Fui no ano passado, mas não vou poder ir nesse ano. Gastei meus créditos na agência indo a Cannes.

Quem se conectar com a forma de pensar do cara também pode fazer um Open Courseware na área. O MIT oferece mais de 30 cursos online de grátis em Media Comparative Studies pra absolutamente qualquer um que saiba ler inglês. Não é a mesma coisa que ter aula com professores e colegas, mas você pode programas suas leituras e estudos, bem como tem acesso a anotações de aula feitas por algum aluno mais aplicado e, em alguns casos, podcasts e outros materiais multimídia de apoio. Estou pensando seriamente em “cursar” New Media Literacies nos próximos meses.

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Mas vamos ao livro. Pra começar, temos que estabelecer que essa capa é um tanto quanto clichezuda, não? Se fosse por essa capa, eu nunca compraria esse livro. Ainda bem que boas pessoas me indicaram, porque colocar um iPod e um videowall a la Matrix, embora personifique bem o espírito do Convergence Culture, também tem a maior cara de picaretagem.

Mas, veja você, o máximo de picaretagem a que o Jenkins chega é aquilo que o Matias chama de picaretagem do bem: o autor deliberadamente pula cercas convencionais, rouba assuntos daqui e dali e mistura tudo com um jeito pop de escrever. Em certo sentido, me lembra um pouco o estilo do Malcom Gladwell. Em vez de se sentir submerso em uma linguagem acadêmica impenetrável, é muito mais como se você estivesse passeando pelo assunto, lendo uma reportagem de revista semanal extendida - uma boa revista, não a Veja.

No caso, o assunto dessa imensa reportagem investigativa começa por corrigir a noção popular de convergência, essa palavrinha tão surrada e mal usada. Logo na página 3 da introdução, Jenkins larga um pequeno parágrafo que faz valer a grana investida no livro e, eu arrisco a dizer, se você entender bem esse trecho pode até não ler mais nada do livro ou do cara.

“A convergência não acontece através de aparelhos por mais sofisticados que eles sejam. A convergência acontece no cérebro dos indivíduos e nas suas interações sociais. Cada um de nós constrói sua própria mitologia a partir de bits e fragmentos de informação extraídos do fluxo na mídia e transformado em recursos através dos quais construímos sentido para nossa vida.”

Bom, eu não sei quanto a vocês e vou suplantar minha vergonha em admitir: eu nunca havia pensado nesse conceito tão óbvio, a convergência como uma ação ligada à mente de quem assiste e não a um suposto aparelho universal. A convergência é um assunto da mente e das interações sociais, não da tecnologia. Convergência é o que cada um de nós faz juntar o que assistimos/lemos/ouvimos vindo de diversas fontes de mídia e não o que a Sony ou a Nokia fazem nos seus laboratórios.

Enxergar a questão da convergência desse ponto de vista sob a luz da indústria brasileira de publicidade ou de mídia causa um enorme desconforto, porque o Brasil sempre foi o país do tiro de canhão: um comercial em um só canal de televisão sempre resolveu grande parte do trabalho sujo. Esse canal e esse comercial sempre foram os grandes eixos do conteúdo que seria convergido na mente de cada consumidor. Como telespectador, não havia muito trabalho a se fazer. Mas com a crescente disponibilidade de meios digitais nas mãos do grosso da população, o modelo de convergência proposto por Jenkins (que na verdade simplesmente retrata a forma como as coisas estão de fato acontecendo) bagunça tudo pra quem não souber enxergar dessa forma.

Colocar a mente das pessoas no centro da equação da convergência também derruba outro mito não falado: o entendimento da tecnologia à frente do entendimento da psicologia. Ou, melhor, o entendimento de uma coisa em detrimento de outra. Entender a convergência significa, justamente, entender de muita coisa ao mesmo tempo. Significa saber derrubar hierarquias dentro da nossa forma de pensar, conectando áreas de forma não vertical. Na prática, isso também quer dizer que chegou a era das pessoas que fizeram várias faculdades pela metade!

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A cultura da convergência é a cultura do transmedia storytelling. Pedaços de informação e entretenimento captados em diversas mídias que servem para construir mundos na mente de cada receptor e compartilhados em certa medida pelos receptores com interesses em comum. Convergência é mais sobre criar mundos. E mundos não são - nunca foram e nunca serão - estáticos. São dinâmicos e, a rigor, sem possibilidade de controle total sobre o que acontece neles. Se você não quer se basear em exemplos rigorosamente da cultura anglo-saxônica (fan-fiction do Harry Potter ou todo o universo derivativo de Guerra nas Estrelas), pode começar a buscar exemplos bem brasileiros como a extensão de Duas Caras, novela das oito que tinha um braço dramático acontecendo no mundo real e protagonizado pelo autor, Aguinaldo Silva, em seu blog. Ou os inúmeros funks criados a partir de reportagens de emissoras obscuras com personagens bizarros vindos dos grotões do país.

Jenkins também cita muito uma suposta caixa preta mágica, que há alguns anos parecia que seria inventada. Um aparelho universal que substituiria todos os aparelhos que temos em casa. Uma só caixa preta para tocar música, mostrar vídeos, fazer café, massagem, buscar as pantufas e esquentar a pizza. Mas, como ele frisa, o que vem acontecendo é que os aparelhos estão se multiplicando dentro de casa, na gaveta do escritório ou na mochila.

Mais um sinal de que a convergência é mental e não tecnológica. Ninguém será capaz de criar um aparelho universal quando as pessoas estão encontrando cada vez mais condições de consumir de forma individualizada. Nem todo mundo quer tudo em um aparelho. Essa vontade de ter um tudo-em-um não é um desejo universal, mas de nicho. O processo industrial de criação de novos aparelhos está seguindo o modelo propost por Jenkins para interação com conteúdo: não é top-bottom (da indústria ao consumidor) nem bottom-top (do consumidor à indústria), mas ambos, acontecendo de forma dinâmica, fluída. E, apesar de muitos sugerirem ser o celular o “aparelho da convergência” (será? vc tá a fim de perder todos seus aparelhos qdo perder seu celular?), enquanto o voto do povo não atinge um consenso, a necessidade de muitos consumidores vai sendo suprida por muitos aparelhos.

Jenkisn cita um relatório de uma tal Cheskin Research: “O que nós estamos vendo agora é que enquanto o hardware diverge, o conteúdo converge.” Vai se dar bem quem souber fazer os diferentes conteúdos expostos nos diferentes aparelhos dialogarem. Os conteúdos que não dialogarem na mente das pessoas morrerão. Os aparelhos que não dialogarem entre si morrerão. Ou viverão em nicho, o que também não é um grande problema.

Já nas últimas frases do primeiro capítulo, o pesquisador americano decreta: “Estamos entrando numa era de prolongada transição”. Eu iria adiante. O que chamamos de transição é o novo cenário. Não haverá “solução” da forma como se está esperando. Não haverá um momento de “estabilidade”, onde todos saberemos exatamente o que fazer com o conteúdo que precisamos criar e distribuir. Precisamos desenvolver uma certa amizade com essa instabilidade.

Isso me lembra uma história dessas de “sabedoria oriental”. Certa vez, a monja Pema Chodron falou ao seu mestre Chogyan Trungpa Rinpoche: “acho que estou vivendo uma fase de transição”. O professor respondeu: “estamos sempre vivendo uma fase de transição.”

(continua)

Postado por Gustavo Mini às 10:52 | 19 Comentários | Permalink

segunda-feira, 25 de fevereiro, 2008

Celular

Eu adoro esse comercial (especialmente desenhado pra trintões, vai dizer…) porque pra mim ele resume não só a chegada do 3G no Brasil, mas todo o encanto em torno dos celulares. Muito embora o meu não seja dos mais avançados (já cheguei a pensar em investir num iPhone ou num Blackberry, mas felizmente me recobrei a tempo), estou sempre de olho nesses aparelhinhos e mesmo os mais toscos me despertam um sentimento de magia quase infantil: como pode algo tão pequetito fazer tantas coisas?

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Os aspectos lo-fi dos celulares me encantam mais do que os aspectos mais avançados. Por exemplo, acho que já escrevi aqui: os celulares transformaram o mundo numa imensa cabine telefônica.

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É isso. As incríveis “coisas” que eu acho que o celular faz não são propriamente tocar música ou tirar fotos, mas tipo servir como inclusor (existe essa palavra?) digital e econômico de toda uma parcela da população brasileira. Hoje, grande parte dos 130 milhões de aparelhos no país estão nas mãos de profissionais liberais que se comunicavam de forma rudimentar com seus clientes. Por exemplo, o eletricista ou o pintor do seu bairro, na época do telefone fixo caro, precisava de um ponto de recados como uma ferragem. Você ia lá, deixava recado pro cara te procurar. Quando ele aparecesse por lá pra pegar os recados, iria até você.

Pouco mais de 80% desses celulares são pré-pagos, o que não deixa muita margem de dúvida desse papel que o celular está tendo na economia informal brasileira.

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Outra função incrível do celular é tontear publicitário.

O mundo das agências e dos departamentos de marketing está tentando desesperadamente compreender esse cenário. Mas a grande verdade é que poucas estão conseguindo entrar na dança com a velocidade necessária. E uma verdade maior ainda é que tem gente que não está nem aí, perdendo o trem sem nenhum constrangimento.

Oportunidades estão sendo perdidas, mas ainda bem: o quanto mais o marketing demorar a entrar no celular dos brasileiros, menos violento e mais pertinente talvez ele venha. Um dos ganhos que já tivemos com a lentidão do cresciemento marketing móvel foi a decisão da ANATEL de exigir que qualquer publicidade por celular demande OPT-IN. Ou seja, você precisa concordar com o início da comunicação entre uma empresa e você. Do contrário, os celulares sofreriam o que as caixas de email sofrem até hoje, que é a quantidade absurda de SPAM. E teríamos que usar filtros nos celulares, e toda aquela função.

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No meio disso tudo, pequenas empresas de conteúdo e tecnologia para marketing móvel estão ganhando espaço. Nem sempre por seu brilhantismo, mais pelo pioneirismo. Há alguns cases bastante interessantes (como o já bastante falado lançamento do Fiat Idea Adventure, que permitia às pessoas montarem uma versão de um comercial no cinema por SMS), mas eles não ganham muita repercussão no mercado publicitário - ainda zonzo, preocupado em entender o que está acontecendo e também não muito afeito a ações que atingem um número reduzido de pessoas.

Essa é outra característica dos celulares: não faz sentido dar tiro de canhão como se faz na TV. O trabalho é sempre em cima de conteúdo e comunidades. Duas áreas que as estruturas tradicionais de publicidade ainda patinam pra sacar DE FACTO.

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Enquanto isso, quem gosta de dinheiro GROSSO (em vários aspectos) está fazendo pequenas fortunas com coisas como os leilões reversos por SMS (que vem fazendo a alegria de operadoras, a Rede TV! e os seus parceiros tecnológicos na empreitada) ou marketing de pirâmide por celular.

Mas, honestamente: esse tipo de coisa só me interessa por sua natureza pitoresca.

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E o iPhone? Tem dois colegas aqui na agência que tem. É uma lindeza. Incrível mesmo. Mas apesar de tudo, acho que seu grande predicado é puxar pra cima os outros celulares. Que nem painel de carro caro, sabe? O painel do meu Palio é igual ao painel do Fiat Stilo. Única diferença é que o Stilo é recheado de coisas e o do Palio é cheio de locais de plástico onde deveria haver coisas. Eu não tenho as coisas, mas tenho um painel bonitinho.

Que venham painéis bonitinhos para todos nós.

Postado por Gustavo Mini às 16:23 | 4 Comentários | Permalink

quarta-feira, 21 de dezembro, 2005

Mobilidade

Há algum tempo eu desprezaria textos como o abaixo porque na real quase ninguém tem dinheiro para comprar isso no Brasil. Mas hoje lembro que há cerca de 4 anos, meu ex-chefe chegou todo feliz pois havia comprado um DVD “de barbada” por 900 reais de um amigo e eu pensei “Nunca vou ter um DVD”. Anos depois, comprei o meu DVD por 500 e hoje é possível adquiri-lo por 10 vezes de 25 reais na véspera de natal, uma combinação explosiva mesmo para famílias que tenham sua renda de tipo dois ou três salários mínimos. Ou seja, daqui um tempo o descrito abaixo vai ser uma realidade como a TV em praticamente todos os lares ou como os quase 88 milhões de celulares nas mãos de brasileiro (obviamente cerca de 70 milhões são pré-pagos). Então vale sempre prestar atenção nas novas relações sociais e mesmo pessoais que surgem com novos equipamentos:

“Levado a um novo lugar por uma TV na palma da mão
David Carr - NYT

Na noite da última terça-feira, eu entrei na fila para pegar o ônibus para voltar para casa. Mais à frente na fila eu viu uma vizinha -uma mulher inteligente e engraçada com quem eu adoraria dividir a desagradável viagem.

Mas me esquivei, correndo para o fundo do ônibus porque a primeira temporada da série de mistério e aventura “Lost” estava aguardando no meu iPod. Claire estava prestes a dar à luz e John Locke, o sábio da série, vinha agindo de forma estranha. A série portátil significava que minha volta para casa, que eu sempre odiava com a força de 10 mil sóis, tinha se tornado um momento um pouco dedicado a mim mesmo.Muito se falou de quão idiota era a Apple acreditar que pessoas assistiriam televisão em uma tela de 2,5 polegadas. Mas os consumidores fizeram o download de três milhões de programas de vídeo no iTunes desde que o novo video iPod chegou ao mercado em outubro. Como isto é possível?O novo iPod é um meio viciante por si só. Suas limitações -a experiência de assistir que exige fone de ouvido e uma tela handheld- criam um grau de intimidade que remonta a infância da televisão, quando o objeto luminoso era tão maravilhoso que estimulava uma fantasia silenciosa.Você agora assiste cores vistosas e imagens nítidas traduzidas em miniatura. A capacidade de realizar o download de programação da minha escolha me dá uma nova espécie de privacidade, recuperação de tempo, um terceiro local virtual entre o frenesi do local de trabalho e o lar cheio de atividade.

Mas eu me sinto um pouco sujo. Como uma pessoa do meio editorial, eu sempre achei que jornais e revistas eram a mídia portátil suprema -eu até mesmo aprendi uma forma particular de dobrar o jornal para lê-lo sem perturbar meu companheiro de assento no metrô ao virar a página. E se estou vivendo em um pequeno mundo próprio, isto não está colaborando para minha conexão com o mundo à minha volta.Muitas vezes no trem ou no ônibus, antes do novo iPod, eu repassava coisas em minha cabeça - realmente pensando em vez do processamento de dados que faço ao longo do dia e da noite. Minha viagem no transporte coletivo se transformou de uma parte do dia comunal e ocasionalmente meditativa a um momento em que olho para um controle remoto de televisão que por acaso contém uma imagem inserida nele.Ainda assim, eu faço a troca. “Lost” sempre soou como uma série que eu gostaria, mas como pai de três com um emprego que exige longas horas e uma doa dose de transporte coletivo, assistir programação de TV em uma hora determinada nunca funcionava. O trem “Lost” partiu sem que eu conseguisse embarcar.Com o novo iPod, eu pude começar do início da série e a assistir “Lost” quando quisesse. Cada episódio dura em média 44 minutos, cerca da duração da minha viagem. Assistir “Lost” no ônibus ao lado de um homem gordo comendo amendoim é uma experiência profundamente satisfatória. Adeus gordo comendo amendoim. Olá Claire e John Locke. (É um bônus o homem não conseguir ver a imagem de lado, por mais que tente.)

Assim é como terminamos sozinhos juntos. Nós compartilhamos o espaço do café, mas estamos todos concentrados em nossos laptops com conexão sem fio. O metrô é uma sinfonia de silêncio de fones de ouvido enquanto a viagem da família se tornou um momento para as crianças assistirem DVD no banco traseiro da minivan. O papo do cafezinho, o nexo de conversa sobre o programa da noite anterior, poderá silenciar à medida que criamos ambientes de mídia personalizados, díspares.Ao descartar a chance de sentar ao lado da minha vizinha no ônibus, eu perdi toda sorte de fofocas e intrigas. E aquela revista “New Yorker” na minha bolsa, com o artigo sobre a criação de Osama Bin Laden? Ela ainda está lá, assim como o novo livro de Joan Didion, “The Year of Magical Thinking”. Assim como aqueles mp3 dos Concretes que baixei tão empolgadamente quando comprei o iPod há um mês.Há outros reveses para o vídeo portátil, personalizado. “Lost” é um programa com uma subtrama cheia de pistas visuais que não são perceptíveis em um iPod, e uma hora e meia de duração de bateria parece precisamente projetada para frustrar quem quer assistir a um filme. Mas como aparelho para assistir a um único episódio de uma série, sitcom ou novela, o video iPod parece concebido sob medida.Eu realmente assisto muito pouca televisão em casa. Entre os telefonemas, tanto em aparelho fixo e celular, lição de casa das crianças e outras necessidades, e uma conexão sem fio de banda larga que me mantém ligado ao trabalho, a TV freqüentemente acaba se tornando uma peça silenciosa da mobília.

O iPod, por outro lado, é carregado, programado e usado quase que diariamente. Eu perdi minha parada do ônibus porque o video iPod é uma experiência altamente envolvente. O ato de espiar para uma pequena tela handheld com fone de ouvido exclui o restante do mundo - ainda mais do que a experiência de escutar música.Eu sou uma anomalia, um maluco superestimulado e trabalhando em excesso necessitando de alívio digital olhando para uma curiosidade? A Apple não pensa assim. Lembre que a loja iTunes da empresa começou em 2003 com apenas 200 mil músicas e agora conta com mais de 2 milhões, e os consumidores já realizaram 500 milhões de downloads a 99 centavos de dólar cada.Há cinco programas da rede “ABC”, ou de sua dona, a Disney, disponíveis pela Apple. E a “NBC Universal” seguiu oferecendo 11 séries novas e clássicas -incluindo “Law & Order” e “The Office”- para download. (Há também 2 mil videoclipes disponíveis, mas eu tenho um pouco de consciência sobre ficar sentado no ônibus com Shakira girando na palma da minha mão.)Ainda assim, que tipo de idiota pagaria por programas que são exibidos gratuitamente? Eu estou pagando a chamada taxa de conveniência.

Eu poderia ir ao BitTorrent ou algum outro onde conteúdo de vídeo está disponível para quem quiser, mas não estou interessado nas piruetas morais e tecnológicas exigidas para obter programação gratuita -eu acho que o termo técnico, legal, é “roubada”- para meu iPod. Em vez disso, eu me tornei um presente que é dado continuamente à Apple. A empresa tem meu cartão de crédito e continuarei gastando US$ 1,99 por episódio para descobrir o que acontecerá na segunda temporada de “Lost”. Quando ela terminar, eu provavelmente darei uma chance para “Monk”.A Apple está trabalhando na próxima versão do iPod, que poderá envolver a ampliação da largura do aparelho vertical, para uma imagem horizontal, maior. E agora que já há um precedente -a Apple convenceu as emissoras a abandonarem um modelo de negócios de meio século- a oferta de programas apenas aumentará.Até lá, me procure no ônibus. Só não tente conversar comigo.”

Não sou exatamente um tecnófilo, mas lá vai. Esses dias estava conversando com uma pessoa e era bem o tipo de primeira questão que surge com um novo aparelho: quem vai querer ver coisas desse tamanho? Quem vai querer andar por aí com seus seriados? Alguém além dos mal acostumados americanos? Bom, novamente lembro dos celulares e de como no mundo todo eles transformaram qualquer lugar, da rua a um restaurante, em uma cabine telefônica sem paredes.

Em alguns anos muitas das questões técnicas estarão resolvidas ou nós estaremos acostumados a novos formatos. Quem reclama hoje em dia que as capas de CD são muito pequenas? Em breve não haverá nem mesmo mais capas de CDs. A grande maioria dos jovens se relaciona com a parte visual da míusica através dos clips ou dos telões nos shows, das fotos nas revistas, etc. A capa, é provável, vai deixar de ter este papel (sem trocadilhos). Da mesma forma, os vídeos portáteis vão encontrar seu espaço e seu meio de uso, com todas as implicações que isso tem.

Outra. Que os portáteis isolam, sabemos desde o surgimento do walkman e não há muito por que lutar com isso. Mais uma vez: o isolamento e a criação de mundos paralelos não foram inventados pela mobilidade. Qualquer um que já tenha se refugiado em seus devaneios durante uma reunião chatíssima sabe disso. A imaginação continua sendo o portátil mais eficiente, discreto e polivalente e fãs de quadrinhos ou livros devem concordar que não há algo que coloque você MAIS dentro de uma bolha do que uma boa leitura.

Ou seja, assim como a mobilidade não criou os mundos internos, a tecnologia não inventou a mobilidade. Outro dia, ouvi uma pesquisadora se mostrar abisamada com a possibilidade dos garotos levarem vídeos pornô para o banheiro no tal iPod vídeo e na hora a primeira coisa que me ocorreu foi “Ei, isso sempre foi feito com revistas, não é algo tão maluco assim, só muda a mídia e talvez a qualidade da, er… diversão”.

Minha principal experiência com tecnologia móvel é um Creative Zen de 5GB e, rapaz, realmente muda sua relação com música ter tanto conteúdo disponível num lugar tão pequeno. O mero fato de viajar e circular sem um trambolho que é (ou que virou na minha concepção) o discman e o case de CDs já faz a diferença. Além do que, dá menos vontade de ir à loja de CDs e mais vontade de ter um site decente do qual baixar bons discos oficialmente. Ano passado, isso era tudo novidade, mas agora já começamos a ver mp3 players nos camelôs - estes que infelizmente fazem o papel de inserir as novidades tecnológicas nas mãos da galera por aqui.

Outra rápida experiência de mobilidade: por 3 semanas fui dono de um Palm III antigo junto com um tecladinho GoType, que convertia o Palm numa mini-máquiina de escrever - não digo laptop porque o Palm IIIé tão antigo que só servia mesmo pra escrever - e sem acentos. A princípio, a idéia de poder escrever onde eu bem entendesse, como na beira da piscina de um sítio, como fiz, pareceu tentadora e libertadora. Por outro lado, depois que perdi algumas horas na beira da piscina escrevendo, mudei um pouco de idéia. A mobilidade às vezes pode prender você, porque você não fica esperando mais para escrever quando estiver à frente do seu desktop. Falo por mim, mas quantas pessoas não acabam fazendo MAIS coisas por conta da mobilidade? Enfim, isso tudo leva um novo jeito de enxergar as coisas.

Postado por Gustavo Mini às 14:23 | Sem comentários | Permalink

terça-feira, 13 de dezembro, 2005

Maxadu!

“Alg1 tmpo hesitei c dvia abrir stas memorias plo principio ou plo fim, i.eh, c poria em 1ro lugar o meu nasc ou minha mort. Suposto o uso vulgar sja comecar plo nasc, 2 considercoes m levaram a adotar dferent metodo: a 1ra eh n sou propriament 1 autor defunto, mas 1 defunt autor, pra kem a campa foi outro berco; a 2da eh q o scrito fikria assim + galant e + novo. Moises, q tb contou sua mort, n a pos no introlito, mas no cabo; diferenca radcal entr este livro e o pentateuco.”

Um universitário paulista está vertendo Memórias Póstumas de Brás Cubas para “ddonês”, a linguagem dos torpedos. A obra vai estar disponível aqui, onde o autor dá a real: “Naum ha regras. Eh impossivel fzer 1 “dcionario d ddones”.

Obviamente eu não vou ler isso, mas achei sensacional, muito interessante. Pena que tantas professoras de literatura vão morrer de desgosto ao longo do processo.

Postado por Gustavo Mini às 17:52 | Sem comentários | Permalink


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