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Arquivo: MSN

O que aconteceria se desligassem a internet por uma semana?

O trecho acima, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu 2, além de ser um clássico momento da comédia moderna também oferece um excelente paralelo pra responder à questão proposta no título do post. No filme, a espaçonave que faz o primeiro vôo tripulado à Lua enfrenta sérios problemas técnicos enumerados pela aeromoça: asteróides e problemas no sistema de navegação, que está levando a nave direto pro Sol. Mas o caos se instala mesmo quando um passageiro se revolta e acusa a moça de estar escondendo algo. E ela admite: “Ok… é verdade… também acabou o café.” Aaaaaaaaah!!

Bom.

Digamos, então, que um dia o Al Qaeda puxe a tomada da internet e toda rede fique desativada por uma semana. Honestamente, eu não me apavoro tanto com o provável caos no mercado financeiro ou no sistema de serviços à população, seja público ou privado.

Essa semana, o @maurodorfman comentou que o Twitter é o SAC do universo. Portanto, eu fico imaginando que o verdadeiro problema no caso de um “web blackout” (uéblecáuti) seriam os bilhões de pessoas que reclamam e desabafam no Twitter, no MSN, nos blogs e redes sociais todos os dias. Onde toda essa energia vai ser depositada? O que essas pessoas vão fazer?

Aaaaaahhhh!!!

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A vida (hoje) sem MSN

Trim, trim.

“Lunara, comercial.”
“Oi Lunara.”
“Quem tá falando?”
“Você não sabe? Eu estou piscando pra você agora.”
“O quê? Piscando? Quem…”
“E agora eu sou um Bart Simpson fazendo uma dancinha.”
“Quem tá falando? Eu vou desligar.”
“Agora estou piscando de novo.”

Pá.

Trim, trim.

“Lunara, comercial.”
“Lunara, é o Marcos. De ontem à noite.”
“Aahh… não reconheci sua voz. Por que você não falou que era você?”
“Ah eu sou um pouco tímido.”
“Ontem não parecia.”
“Eu tava bêbado.”
“Você até fez várias fotos.”
“…”
“Alô?”
“Oi, tô aqui. Tô com as bochechas vermelhas de vergonha e olhando de soslaio.”
“Tá, tá. Me diz uma coisa. Por que você não me manda uma foto de ontem pra eu ver?”
“Certo. Peraí que vou mandar um motoboy. Quando chegar você me liga.”

Duas horas depois.

Trim, trim.

“Lunara, comercial.”
“Chegou a foto?”
“Chegou, mas não posso falar com você, estou fazendo outra coisa, não posso falar com você no telefone e preencher os formulários ao mesmo tempo.”
“Quem sabe um dia inventam algo que dê né?”

Pá.

Vinte minutos depois.

Trim, trim.

“Oi, Marcos, é a Lunara. Agora eu posso falar.”
“…”
“Alô? Você tá aí?”
“Tô. Tô fazendo uma carinha fofa.”
“Você é um querido Marcos. Queria pode enviar um coração que cresce pra você.”
“Ah que bonito. Estou fazendo uma carinha feliz agora. E a foto, o que você achou?”
“Linda né? Adorei! Estou fazendo uma carinha feliz. E também estou pensando num arco-íris. A foto é bem daquela hora que a gente tava dançando aquela música que eu adoro.”
“Eu tenho todos os CDs dessa banda.”
“Me manda uma cópia pra eu ouvir?”
“Mando sim. Só que motoboy agora só amanhã. Mando amanhã tá.”
“Tá certo. Olha, preciso ir. Meu chefe tá chegando e eu preciso terminar de preencher os formulários.”
“…”
“Alô?”
“Eu tô mandando beijos pra você agora. Beijos que voam.”
“Ah tá. Obrigado. Mais arco-íris, corações que crescem e personagens infantis fofos dando tchau pra você.”
“Carinha que pisca!”
“Carinha que pisca, tchau!”

Pá.

***

Leia também A vida (hoje) sem internet.

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Como desatar nós

Não sei se o nó na garganta tem registro na literatura médica. Mas sei que todo mundo conhece e que ele é assunto em diversas terapias corporais, especialmente aquelas que consideram o corpo como algo além do que um amontoado de células, uma estrutura que também guarda e elabora emoções. Falar sobre a conexão entre elas (as emoções) e o corpo físico não é exatamente minha especialidade. Minha experiência é muito mais empírica, de paciente, do que propriamente a de um estudioso formal. É com esse espírito que toco no assunto nó na garganta x MSN.

Ambos, acredito, são bem conhecidos por você. O nó é aquela sensação de algo entalado na garganta: uma discussão não elaborada, uma raiva mal digerida ou um “sapo engolido” – e coloco aspas aqui porque, ao contrário do que reza a expressão popular, é da natureza dos sapos se agarrar nas paredes da laringe em vez de descer para o estômago.

Existem muitas formas de lidar com o nó na garganta. Vocalizações, exercícios posturais, massagens e visualizações fazem parte do cardápio, mas a maior parte das pessoas gosta mesmo é de falar sobre o assunto que causou o nó na garganta (muitas vezes na companhia de uma cerveja). Mais intenso ainda e talvez mais eficiente (ao menos a curto prazo) é chorar. Falar e chorar não apenas mexe fisicamente com a garganta, mas também libera o peito, provavelmente mexe com todo o corpo. Não sei bem. Mas acho eu que todo mundo (ou quase todo mundo) conhece o alívio de falar ou chorar sobre algo que está trancado.

Acontece que há alguns anos entraram em cena os instant messengers como ICQ, AOL Messenger, o mais popular no Brasil, o MSN. Vamos combinar que o MSN talvez devesse ser estudado por faculdades de psicologia pois está substituindo muitas mesas de bar no quesito local-de-desabafo. Quantas pessoas você não conhece que já teclaram cachoeiras e mais cachoreiras de letras e emoticons na tentativa desesperada de desaguar alguma mágoa?

O MSN é prático para desabafos pois pode ser utilizado a qualquer hora do dia ou da noite, durante o trabalho, enquanto você assiste TV, enquanto come, até mesmo enquanto outra pessoa envolvida no problema está circulando pela casa. O desague pode incluir imagens, links ou músicas que tenham a ver com o assunto. Melhor ainda, tem à disposição uma grande variedade de winks que exprimem sentimentos difíceis de serem colocados em palavras. O MSN oferece anonimato a quem precisa, proteção para que olhos inchados e vermelhos não sejam vistos por mais ninguém, bem como uma lista de “ouvintes” a que você pode recorrer: alguém sempre vai estar disponível pra “ouvir” você e, diante da intimidade instantânea de alguns contatos digitais, nem sempre precisa ser um grande amigo.

(Agora eu vou me dar o direito de pular toda aquele blablablá a respeito das conexões reais e virtuais, sobre quem é amigo de verdade e quem não é, sobre a fraqueza de muitos laços digitais, todos esses clichês do momento. Não vamos pensar dentro desse contexto!)

O ponto é: o MSN é eficiente pra desfazer nó na garganta? Eu acredito que não totalmente. Não há como negar que qualquer contato humano é melhor do que nenhum contato e que um pouco de atenção às vezes basta para detonar um processo de elaboração de um obstáculo. Mas também é preciso dar atenção ao fato de que um longo desabafo pelo MSN geralmente é feito por DEDOS e não usando a garganta. Da mesma forma, o corpo, em frente ao computador, geralmente está tenso ou mal acomodado. Os sentimentos expressos no desabafo pelo MSN percorrem um caminho confuso: rebatem entre o peito e a garganta enquanto os dedos e o cérebro funcionam a todo vapor. Sem um complemento de trabalho físico que ajude a dissolver os nós, uma hora vai dar problema na máquina.

ESSA máquina, não aquela.

O post termina aqui sem terminar. Não é um post-resposta, nem um post-proposta. É um post-pergunta. Juro que não é um post-preguiça, só não quero escrever besteira demais.

Os comentários estão à disposição dos terapeutas e pacientes.

***

Imagens gentilmente roubadas daqui.

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A mente & os protocolos da cultura digital (2)

Se o ser humano se reprograma por repetição e contexto, o acesso diário (repetição) no Twitter ou no Facebook (contexto) sem dúvida deixa marcas na mente. Não vou nem entrar no assunto do cérebro, a neuroplastia e muito menos criar exóticos sub-factóides dizendo que quem acessa o Twitter todos os dias só vai saber se expressar em até 140 caracteres, mas com certeza estamos vivenciando algum tipo de troca entre nossa mente e as interfaces que utilizamos de forma mais intensa.

A construção da identidade do indivíduo pré era digital não se limitava, obviamente, a suas atividades psicológicas e sempre incluiu relação com objetos e aparelhos. Mas quando um número considerável de horas da nossa semana é passada preenchendo pequenos formulários ou tentando condensar nossos dramas e comédias em mensagens rápidas entremeadas de gifs animados dentro de caixinhas flutuantes e piscantes, precisamos admitir que estamos transformando nossas narrativas internas em experiências vivas de transmedia storytelling.

Isso implica na lenta construção de um novo alfabeto psicológico, mais complexo, espalhado, fragmentado e, acima de tudo, ligado a interfaces que nos levam a narrar nossos pensamentos e sentimentos de uma forma ainda não experimentada na história humana. Não é raro, por exemplo, uma discussão entre casal ou uma conversa entre amigos começar ao vivo, continuar por email, atravessar uma tarde no msn (entrecortada por uma série de outras atividades) e se desenvolver em frases cifradas de Fotolog ou mensagens de SMS.

Para fazer o eixo narrativo desse papo ter sentido (se é que algum dia ele fez ou vai fazer), é preciso preciso saber comunicar o que você está sentindo ou pensando em meia dúzia diferente de linguagens (o que acaba configurando uma única linguagem fragmentada e fluída). Nesse contexto, um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos – com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas. Aquele smile estava sorrindo com alegria genuína ou com o mais puro sarcasmo? Quem decide?

Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas está desenvolvendo um novo talento (o MIT chama de New Media Literacies) ao disparar em um único dia uma dúzia de mensagens de SMS para pessoas diferentes com diferentes conteúdos, tons e significados, todos dentro de um frame muito rigoroso formado por um número limitado de caracteres e uma interface gráfica ainda bastante rudimentar. No fundo, estamos aprendendo a tirar leite de pedra e não é pra menos que tanto rolo aconteça devido a mal entendidos em scraps e comments por aí na vida.

Tá, mas e daí? Não sei. Continuo no próximo post.

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Nossas Narrativas

O psicanalista Contardo Calligaris esteve aqui em Porto Alegre na segunda pro Fronteiras do Pensamento. Eu não fui, mas minha mulher foi e o que ela me contou me deixou com idéias pipocando por tudo quanto é lado. Calligaris trouxe suas idéias a respeito da “ficção como linha de conduta pra inventar a vida”, um assunto que ele explorou dias antes em uma entrevista pra Zero Hora.

“Nossa subjetividade é fundamentalmente uma história, a história que nós contamos a nós mesmos, a história da nossa vida, digamos assim, e a história que contamos aos outros como sendo a nossa, eventualmente a que os outros nos contam como sendo a nossa e que no fundo é uma história só. E uma história que é construída de maneira sempre dinâmica. (…) É a vida como criação de uma narrativa e, portanto, regrada muito mais por uma necessidade estética do que ética.”

Bom, começa que eu acho linda essa noção da vida como uma história, não pelo aspecto poético, mas pelo aspecto prático de liberdade que esse conceito oferece. Nós somos educados a enxergar o universo dentro de termos objetivos e a reboque vão juntos todas nossas subjetividades. Pra deixar mais claro: vivemos como se existissem fatos concretos acontecendo em uma sequência temporal lógica e que tudo aquilo que cerca essa construção objetiva (nossas percepções, sensações, conceitos mentais, nossas memórias, etc) são uma mera narrativa da trajetória objetiva. E isso é tão pouco, é olhar a vida de forma tão afunilada, fecha muitas portas, tolhe a nossa liberdade de nos reconstruírmos.

A idéia atual é que somos fundamentalmente uma história que vamos compondo a partir do que acontece, mas também a partir das várias histórias com as quais cruzamos ao longo da nossa vida – as contadas por outros, as que lemos ou às quais assistimos e que constituem um imenso patrimônio das histórias possíveis.

A crença na concretitude dos fatos externos leva à criação da necessidade de encontrar concretitude na história interna. E é aí que perdemos nossa maior liberdade, ficando preso nas nossas identidades. O bonito no que o Contardo Calligaris frisa não é podermos nos narrarmos, mas sim lembrar que essas narrativas não estão – e nunca estarão completas. Elas são mais parecidas com um perfil de Orkut do que com um livro: são editadas constantemente à medida em que vamos nos relacionando com outras pessoas e entrecruzando nossos caminhos.

Somos essa história em progresso, uma maneira de traduzir a expressão “in the making”, algo que vai se fazendo. E isso é um traço dito “específico da modernidade”, o que é verdade apenas para os últimos 250 anos, e mesmo assim na cultura ocidental.

Hoje, se quisermos falar de um novo léxico das narrativas internas, vamos obrigatoriamente ter que passar pelas conversas de MSN, pelos SMS, pelos perfis do Orkut e pelos Fotolog. A cada novo scrap, a cada nova edição do perfil, a cada novo diálogo no MSN, vamos transformando nossos “fatos” em “narrativas”. Nesse processo, as peculiaridades de cada ferramenta desempenham um papel fundamental, moldando a forma como nos relacionamos não só com outras pessoas mas especialmente com a nossa própria narrativa interna.

Por exemplo, eu acho fascinante que a forma como os Orkuts, Fotologs e Facebooks da vida estão organizados nos fazem mudar o jeito como pensamos sobre nós mesmos. Preecher um profile, determinar níveis de privacidade, selecionar o que vai e o que não vai para os álbuns de foto, agregar aplicativos, escolher de que forma você vai usar a página de recados são todos diálogos internos que moldam não apenas o perfil que os outros vão ver mas também a forma como cada um de nós se vê. Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que grande parte das fotos digitais tiradas por aí hoje têm seu ângulo e seu conteúdo determinado pelo destino final de upload. E não vejo isso como problema. É um traço da cultura contemporânea.

Os perfis de redes sociais (ou qualquer outro tipo de banco de dados que gerenciamos, como a agenda do celular) estão lentamente transferindo sua arquitetura daquele software para o nosso software – a mente. Estamos internalizando esse tipo de pensamento, tornando-as a nossa forma coletiva de organização de dados.

O ponto aqui não é entrar numa paranóia orwelliana a respeito do Google e afins. Eu não estou nem aí pra isso. O ponto é a liberdade perante as nossas identidades. Seja emulando a estrutura dos folhetins, seja o editar repetido de perfis, o upload regular de fotos, os diálogos constantes no MSN ou as mensagens de SMS, o fato é que a nossa identidade e a nossa história não são estruturas fixas, o que oferece um amplo campo de possibilidades no que diz respeito a viver melhor.

***

Imagens: Heather Horton.

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