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Arquivo: Novas Mídias

O poder punk das novas mídias

Basicamente um stencil no chão na frente de um orelhão em Goiânia. Não só a mídia é interessante como tem anunciante bastante qualificado espiritualmente, perceba.

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Eles não se entendem

Eu não tenho números aqui, mas acho que todo mundo vai concordar que não existiu outra época na trajetória da humanidade com tantas tecnologias surgindo num espaço tão curto de tempo. Ao menos não tecnologias que se espalhassem com tamanha rapidez pra mão dos grande público e não ficassem restritas a círculos científicos ou determinadas regiões do globo.

Em outras palavras: tá tudo uma loucura né?

Esse fenômeno criou um momento histórico de grandes inovações mas também de um sentimento de ansiedade coletiva por conta do grande número de linguagens tecnológicas que não simplesmente não se conversam. Sim, é a era da conectividade, a era da integração, mas também é a era dos cabos inúteis, dos drivers bipolares, dos técnicos que não resolvem, dos especialistas que tomam bola nas costas de hardware, do discurso dos empreendedores de tecnologia que dificilmente bate com a experiência cotidiana do usuário médio.

A batata quente do diálogo entre os aparelhos que temos em casa está sendo passada de mão em mão e sempre acaba queimando os dedos de quem menos entende do assunto. E dê-lhe cabo pra ligar o laptop na TV, que fica obsoleto quando você muda de laptop; e dê-lhe gaveta de cabos pra conectar o celular com o laptop porque o Bluetooth não funciona direito; e dê-lhe chamada de técnico doméstico pra fazer um simples roteador aceitar a conexão dos computadores da casa; e dê-lhe suor pra transferir dados pra um celular novo; e por aí vai. Isso não é justo com usuários cuja relação com a maior parte dos eletrodomésticos nos últimos 40 anos se resumiu a botões de liga e desliga e um cabo de força.

Às vezes, parece que vai chegar um dia em que todas as tecnologias vão fazer sentido juntas. É o que nos vendem por aí, mas geralmente essa idéia depende de vocês ter TODOS os aparelhos da sua casa da mesma marca (quá quá quá) e mesmo assim não sabemos se o diálogo vai acontecer de fato. Talvez a marca dos nossos tempos seja mesmo viver em um ecossistema tecnológico fragmentado que exige conhecimento específico e intervenção constante.

E não me venham com papinho Apple nos comentários, que o mundo não vai ficar indo atrás do Steve Jobs pra tudo e meu Macbook já me aprontou algumas bem feias.

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Foto: daqui.

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Meus amigos do Club Penguin

No post anterior, se você não leu, eu estava comentando sobre um certo bug que deu no meu cérebro quando comecei a ter que classificar meus amigos no Facebook. Depois de escrito, segui pensando no assunto e me lembrei de um caso bem interessante que adiciona um pouco de complexidade ao cenário.

Você conhece o Club Penguin? É uma mistura de MMPORG e rede social da Disney onde você cria um avatar de pinguim e sai por ilhas geladas jogando e interagindo com outros pinguins. Tudo dentro do padrão de segurança Disney para os pais não se preocuparem com possíveis pedófilos ou outros malandros do tipo. Interagir com o Club Penguin depois dos, sei lá, 25 anos, é um case study em si. Uma vez lá dentro (e eu tenho meu próprio pinguim, Mr. Walverde, embora não o use com frequência), você passa a fazer parte de um universo de socialização, diversão e compras. Pra comprar, você precisa de moedas. Pra ganhar moedas, você precisa jogar. Pra jogar, você acaba se engajando com outros pinguins-avatares.

Bimestralmente sai um catálogo com novas roupinhas, acessórios ou móveis para iglu, que você compra com as moedas que ganha fazendo pizzas, deslizando montanha abaixo em corridas na neve ou vencendo o Desafio Ninja. Quanto mais você jogar, mais pode comprar. (Não vou entrar aqui na questão do consumismo. No início achei esquisito a história dos catálogos, depois achei um bom gancho pra educar uma criança a não ficar comprando coisa o tempo todo).

O interessante é como a Disney trata a mídia do Club Penguin. Outro dia, estava assistindo TV com a minha enteada de 9 anos e de repente passou (não lembro em que canal infantil) um comercial sobre uma festa que ia acontecer em uma ilha dentro do ambiente do jogo. E em outra ocasião, um sobre a chegada do novo catálogo do Club Penguin. A interação on/off é simples mas interessantíssima e faz todo o sentido do mundo. A maior parte das crianças pula de uma tela pra outra sem quebra-molas.

Mas o mais legal que eu ia contar aqui é do dia que ajudei minha enteada a fazer o pinguim dela. Logo que você cria o seu avatar, o sistema gera um nome automático alfanumérico, que no caso da Stella foi PSTH1. A primeira coisa que eu lembrei quando vi PSTH1 foi o THX1138 do George Lucas e achei bacana. Mas pensei: “ela não vai querer isso, ela vai querer um nome fofo”. Aí, falei: “bom, depois a gente troca esse nome pra Tobi, Fifi ou Picolino”. E ela retrucou na hora: “Não, não, eu quero assim. Todo mundo na aula tem nome assim”.

Fiquei lá, com cara de bobo depois de tropeçar no generation gap. Nomes alfanuméricos só são frios e lembram filmes esquisitos de ficção científica pra quem tem essas referências. Pra quem mora no Club Penguin, PSTH1 é tão querido e fofinho quando Picolino.

Como diz o Frank Jorge: TÓIM.

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Meus amigos do Facebook

No momento em que escrevo esse post, eu tenho exatos mil cento e catorze amigos no Facebook. No meio dessa turma, tem de tudo: gente realmente próxima, gente que eu conheço de vista, gente que eu conheço de email, gente que eu nunca vi na vida e que nunca me viu, gente que me viu (com os Walverdes, em alguma palestra), me leu (no Conector ou em outros sites) ou ouviu (na Oi FM), mas que eu nunca vi, ouvi ou li. Pra quem mexe com música, cultura digital, mídia, essas coisas, é o tipo de configuração normal. Mas acontece que eu ainda não tinha parado pra pensar e olhar com calma o assunto em termos de Facebook, que é onde mantenho alguns canais de comunicação pessoal. Perfil de ferreiro, espeto de pau.

O que pegou pra mim é algo que já é no máximo tangenciado em análises críticas de redes sociais: a nomenclatura de “amigo”. O conceito de amigo é bem debatido, mas a nomenclatura nem tanto. Quem chama essas pessoas de amigo não sou eu, nunca fui eu: é o Facebook, que não me deixa mudar essa configuração (ou eu não achei o botão certo??). Se fosse eu, chamava tudo de contato e deixara a palavra “amigo” pra algumas pessoas especiais.

Uma certa consertada na situação pode rolar com a criação das listas. Pra poder acompanhar o newsfeed dos meus amigos de fato, sentei como quem escolhe feijão e comecei a separar os amigos dos “amigos”. E é aí que a coisa começou a ficar curiosa.

Listar os amigos não é difícil. Ao contrário do Facebook, que chama todo mundo de amigo, eu tenho bem noção de quem são meus amigos. Mas, saindo desse grupo seleto, tive que começar a inventar categorias. Os conhecidos. Os contatos do rock. Os conhecidões (aquelas pessoas de quem você não é amigo, mas seguido encontra e troca uma idéia). Os mais ou menos conhecidos. O pessoal da publicidade. Os totais desconhecidos. Os nadaver. E por aí vai.

Não é que essas classificações não aconteçam, de alguma forma, na minha mente. Sim, elas ocorrem. Mas quando eu preciso criar nomes tão específicos de grupos numa rede social que possa refletir em termos objetivos e quase matemáticos o que sinto por essas pessoas, tudo fica um pouco engraçado. Uma coisa é você entrar numa nova empresa ou fazer parte de uma nova turma e ao longo do tempo ir encontrando seu espaço, suas afinidades, colocando as pessoas em flutuantes prateleiras mentais. Outra, bem diferente, é fazer isso sentado na frente de uma tela, teclando, classificando, encontrando lugares objetivos para cenários totalmente subjetivos em um curto espaço de tempo.

E o mais interessante: não tem saída a curto prazo. Provavelmente vamos fazer isso cada vez mais nos próximos anos, não apenas nas redes sociais, mas em qualquer meio que exija a entrada de nossos dados particulares que tenhamos gerenciar. A lógica de classificação digital ainda é toda baseada em formulários, listas, caixas de diálogos, colunas, tabelas. E esse raciocínio está migrando para nossas interações pessoais. É uma necessidade de protocolos comuns para o bom diálogo entre sistemas que contamina um pouquinho a busca do bom diálogo pelos humanos.

Nada disso é motivo pra coisas como suicídio coletivo. Escrevo mais como um lembrete, uma nota, um post-it, uma passada de marca texto em uma questão que acaba despercebida muitas vezes (a da nomenclatura!). Em outras palavras, é só uma paradinha de dois minutos pra lembrar que é na tentativa de classificar as pessoas que mora a maior parte dos nossos problemas.

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Técnicos

Existe uma antiga expressão no futebol que diz que o Brasil é um país com 190 milhões de técnicos de tanto que brasileiro gosta de palpitar. Com a internet, essa expressão extrapolou o âmbito do futebol e o próprio Brasil.

Hoje, como todo mundo pode dar sua opinião na rede sobre qualquer assunto e ainda virar uma autoridade em pequenas comunidades, podemos dizer que a Terra virou um planeta com bilhões de técnicos de futebol, críticos de cinema, entendidos em vinho, comentarista de gastronomia, mestres em segurança público e por aí vai.

A democracia da internet transformou o mundo numa grande mesa de bar. E, como toda mesa de bar, ela está lotada de especialistas.

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Post inspirado num dos programas Minimalismo que eu fiz pra Oi FM.
Pra ver outros textos relacionados ao programa, vá por aqui.

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Conteúdo

Os debates em torno do futuro do consumo de conteúdo têm tomado páginas e mais páginas de blogs, portais, jornais e revistas. Todo mundo tá querendo saber se o livro vai terminar, como vamos ler e qual será o formato vencedor. Mas pouca gente está pensando no outro lado da questão: qual vai ser a cara do conteúdo que vai dentro desses dispositivos? O que a gente ler e com que tipo de histórias e informações a gente vai interagir nos novos tablets e e-readers? Quando a poeira da confusão sobre formatos e aparelhos baixar, talvez o que surja é um aparelho vencedor com a tela vazia.

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Post inspirado num dos programas Minimalismo que eu fiz pra Oi FM.
Pra ver outros textos relacionados ao programa, vá por aqui.

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Execuções

Meu texto sobre a profusão de pessoas querendo só ter idéias (em contraponto às pessoas a fim de executar idéias dos outros) rendeu algumas discussões interessantes. O post foi replicado no Update or Die e no blog da escola de atividades criativas Perestroika. Nessa última, o Marco Loco, criativo brasileiro morando em Berlim e um dos responsáveis pelo Impossible Goalkeeper da Adidas, questionou vários pontos no meu texto. O Leo, da W3Haus e o Israel da Aquiris entraram na discussão e acaba que tive que estender e revisar algumas das minhas reflexões.

Mas meu ponto continua o mesmo: tem muito preguiçoso a fim de sentar em torno de uma mesa de reuniões e jogar idéias a esmo, sem grandes compromissos com a sua produção. Quando, em torno dessas mesas, se reúnem pessoas sem o pacto da realização (ou com esse pacto balizado por agendas individuais em vez de uma única, coletiva), o sistema todo dá pau.

É chover no molhado dizer o quanto é difícil construir o equilíbrio entre motivações individuais e coletivas no desenvolvimento de um projeto criativo. O que advoguei no texto é que a participação/condução de líderes e empreendedores criativos (não que tenham vindo da área da criação, mas que tenham apreço pelos processos criativos) é fundamental pra criar um ambiente (econômico, físico e psicológico) onde esse tipo de atitude prevaleça.

Existe um outro tipo de atitude necessária no momento atual da publicidade, que é uma certa condescendência com a bagunça. O fail da Chuva de Twix no fim de semana passado e sua repercussão negativa são um exemplo excelente. O primeiro impulso que me veio ao saber do fracasso foi pensar “iiiihhh, os caras não sabem fazer a coisa, meteram os pés pelas mãos”. O segundo pensamento foi: “peraê, olha primeiro pro seu telhado. De que material ele é?” A bagunça do Twix é extremamente saudável porque coloca alguns pingos nos is. Mostra o quanto é difícil realizar ações diferentes e também como as idéias, o dinheiro ou a posição de empresas estabelecidas não necessariamente as protege de fails consideráveis. Estamos todos no mesmo barco.

Agora, depois do fail ocorrido, todo mundo vai ter mil e uma teorias sobre o que deu errado e como deveria ter sido conduzido o trabalho. Certamente a Chuva de Twix vai virar Fail Case em palestras sobre marketing de guerrilha. Mas, diferente de outras vezes onde fui mais ácido em meus pensamentos, eu me solidarizo com quem quer que tenha produzido essa ação. Por mais elementares que tenham sido alguns erros de produção e por mais que eles sejam claros a milhares de manés munidos de muitas “idéias legais” e um teclado de computador, alguém levou adiante essa ação e tentou colocar ela no mundo real, fora das mesas de reuniões. Isso, por si só, já tem mérito.

Quem já produziu uma Chuva de Twix que atire a primeira pedra.

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Leitura complementar: o making of do Impossible Goalkeeper escrito pelo Marco. Foi de onde roubei a imagem do post.

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Telas fixas, telas móveis, telas coletivas, telas íntimas

Semana retrasada, recebi na agência uma pessoa que estava fazendo uma pesquisa para a Unisinos sobre TV Digital. Não é um assunto que eu domine de cima a baixo (como todos os outros, na verdade). Mas, durante a nossa conversa, aconteceu o que sempre acontece comigo em entrevistas e debates: eu começo a falar coisas que nem sabia que pensava. As sinapses vão acontecendo à minha revelia, as informações se juntam e eu fico morrendo de vontade de correr pra cá e escrever.

Aqui estou.

Nesse caso específico, a pesquisadora me perguntou sobre os formatos de publicidade em TV Digital e eu me lembrei do comentário de um engenheiro da Rede Globo em uma palestra 2 anos atrás (escrevi bastante sobre isso aqui e aqui), quando ele falou do maior receio da emissora a respeito de comerciais interativos. Em linhas gerais, ele disse que pra uma TV com as audiências do porte da Globo era preciso ter cuidado com os comerciais interativos, porque se o telespectador começa a interagir com o primeiro comercial do break, corre-se o risco dele não ver os comerciais seguintes e, ainda mais, que ele se perca por outros caminhos na navegação, esquecendo o programa que estava assistindo.

É, amigo…

Na época, embora eu não compartilhasse de tamanho medo já que não sou dono de nenhum conglomerado, achei até uma preocupação lógica. Mas, claro, é porque não dei o devido tempo pra pensar o assunto. Esse é bem o tipo de medo que não faz o MENOR sentido uma vez que ele se baseia na idéia de que os formatos de publicidade da TV digital (no que diz respeito à interatividade) vão ser idênticos aos formatos da TV analógica. Nesse caso, está se falando, AINDA, na chamada publicidade interruptiva (aquela que é esmagada entre pedaços do conteúdo que o consumidor quer efetivamente ver), um conceito estabelecido e ainda vencedor pra gerar faturamento mas bastante controverso no que diz respeito à interação com conteúdos digitais. Lembra do pop-up? Conhece as taxas de interação com banners? Pois é.

No caso colocado pelo engenheiro da Globo, ter medo de perder audiência por causa de comerciais interativos é desprezar todas as outras formas de interação com conteúdo que vão acontecer com as telas coletivas (TVs, monitores, displays públicos). Um programa de televisão digital, diferente de um programa de TV analógica, nunca vai morar dentro de um cercadinho. Ele naturalmente vai ter vias paralelas de acesso a outros conteúdos, sejam eles comerciais ou não. A era da coerção por “inércia do sofá” está com os dias contados. Veja bem, não estou falando do fim da inércia (conteúdo ruim e público zumbi sempre vai existir), mas sim do fim do cercadinho físico e técnico da TV analógica, que mantém sua audiência em frente à TV com uma mistura de conteúdo de massa (de boa qualidade em algumas ocasiões), limitações dessa tecnologia e indolência do seu público.

Terreno lodoso, não? A questão não envolve apenas as grandes redes de televisão nacionais e suas tecnologias, mas precisa incluir também toda e qualquer pequena mudança cultural provocada pela criação, distribuição e consumo de conteúdo digital. Não é possível falar de TV Digital como um aparelho ou como um sistema isolado de distribuição de conteúdo. É preciso olhar pra todo o conjunto de práticas sociais que está se modificando no país.

Por exemplo: a chegada das telas íntimas.

Durante décadas, nossa relação de intimidade com o aparelho TV foi relegada a situações de exceção. O aparelho de TV nasceu como um objeto eminentemente social. Primeiro, se assistia TV com os vizinhos. Depois, durante muitos anos, em família ou com os amigos. Assistir um grande número de horas de TV sozinho é um hábito muito recente, que em termos de consumo de massa talvez tenha dez ou quinze anos, no máximo vinte. Que é o período de tempo em que a economia brasileira permitiu a famílias de classe mais baixa ter mais do que uma TV em casa, ou seja, colocar TVs em espaços íntimos.

O fato é: nunca fomos íntimos das telas. Durante décadas, as crianças ouviam: “fique longe da tela, a radiação faz mal!” “Não bota a mão na tela, suja tudo”. Como é nossa vida agora? Vivemos a 40 cm da tela dos nosso computadores e notebooks, vivemos debruçados em telinhas de celular e estamos sendo convidados a meter o dedo em telas de todos os tamanhos pra interagir com os conteúdos. É o tipo de mudança de paradigma que bagunça totalmente a cultura de um país calcado na televisão de massa. É outra história. É outro bicho. É fascinante, não é?

A intimidade com a tela é pressuposto básico do consumo de conteúdos digitais. A estabilização da economia colocou TVs em város cômodos, computadores em 35% dos domicílios (números de 2009) e um celular na mão de praticamente todo mundo. O conteúdo que absorvemos e com o qual interagimos passa, em maior ou menos escala de eficiência, por todas essas categorias de telas. O paredão do BBB da terça vira trending topic no Twitter e é motivo de intensa comunicação via SMS e MSN ao longo da madrugada e no dia seguinte. O conteúdo hoje é como as novas gerações: neutro de formato. Ele não quer saber por onde vai caminhar. Ele VAI caminhar. E a gente vai acompanhar essa caminhada via o mosaico de telas com o quais convivemos. Veja você, que coisa mais anos 80: nossa vida virou um grande videowall…

Nesse contexto, não podemos mais classificar a forma de interação com o conteúdo falando de TV, computador e celular, uma vez que os papéis desses aparelhos estão sendo inegavelmente borrados. Talvez faça mais sentido falar no seguinte: telas fixas, telas móveis, telas íntimas e telas coletivas.

Classificando essa coisarada toda do ponto de vista de mobilidade, temos:

Telas fixas: o aparelho de televisão que fica lá na estante de casa; o monitor do computador; o monitores em locais públicos (para publicidade e informação em prédios, lojas, restaurantes, aeroportos e outros locais de serviço).

Telas móveis: o celular, o notebook, os tablets e e-readers, os mp3/4 players, os games portáveis, as telas digitais em ônibus, etc.

Do ponto de vista de proximidade de uso:

Telas íntimas: o celular, os tablets e e-readers, o notebook (de vez em quando), os mp3/4 players, os games portáteis, etc.

Telas coletivas: os monitores em locais públicos (aeroportos, lojas, etc), o aparelho de televisão da sala de casa, telas de computadores de família, telas de computadores de lan houses e escolas, etc.

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Essa classificação (como todas classificações) não é perfeita. É preciso levar em consideração o lugar dos aparelhos e o tipo de usuário. Um aparelho de televisão no quarto de um apaixonado por games é uma tela íntima. Um celular em uma periferia de um país africano pode ser uma tela coletiva. Um tablet usado para um jogo entre amigos pode transformar uma tela íntima em coletiva durante algumas horas. Não é possível classificar definitivamente os aparelhos do ponto de vista dos aparelhos. Mas dá pra tentar por aproximação e pela maior frequência de tipo de uso.

Então, voltando ao início. Se quisermos compreender os futuros formatos de TV digital, vamos ter que esquecer uma boa parte do que aprendemos com a TV e lembrar que ela não é mais UMA tela com UM tipo de comportamento em frente a ela. Em alguns casos, a TV vai se comportar no âmbito da tela móvel, sendo acessada de telefones celulares ou notebooks. Em outros, ela vai se comportar como uma tela coletiva, caso esteja sendo consumida em um aparelho de grande porte pra uso em grupo. No caso do uso em tela coletiva, a comunicação one-to-one vendida em muitas interações digitais vai pro saco. Quem quer ligar a TV da sala com suas preferências registradas em algum tipo de cookie se tem o hábito de assistir programas pornográficos?

Provavelmente, viveremos um bom tempo de transição tosca, como a que estamos vivendo nos sites de compartilhamento de vídeo. Os velhos formatos interruptivos (links dentro do vídeo, banner transparente sobre o vídeo) ou coercivos (comerciais que precisam ser assistidos pra liberar o conteúdo) vão conviver com as frequentes tentativas de branded content (atrações com conteúdo patrocinado e ligados a marcas). Também certamente veremos a escalada do product placement (aqui chamado de merchandising) e, no caso de vingar o video-on-demand na TV aberta digital brasileira, algum tipo de patrocínio de marca pra conteúdo sob demanda. Publicidade é publicidade. E sempre vai ser publicidade, não importa os disfarces que ela use.

Mas, como eu disse pra moça da Unisinos, vocês não deviam confiar em mim. Deviam perguntar ao William que estudou isso na Inglaterra, país onde essa discussão está bem mais avançada.

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Multi

Hoje, quando se fala em conteúdo multimídia, logo a gente lembra de coisas como as notícias na internet, aquelas que trazem texto junto com vídeos, fotos, gráficos em 3D, áudios, essas coisas. Mas não é só o mundo da informação que está assim. As relações pessoais também estão se tornando mais… multimídia.

As amizades, os amores e os laços familiares hoje contam com uma série de anexos como fotos de celular, vídeos de câmeras digitais, mensagens de SMS, emoticons do MSN, perfis no Orkut, enfim, toda uma variedade de expressões digitais brilhantes, pulsantes e feitas de pixels, que já estão ajudando a contar e enriquecer a nossa biblioteca sentimental.

Haja HD pra tanta coisa…

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Texto inspirado num dos programetes “Minimalismo” que eu faço pra Oi FM.

Pra ver todos os textos, vá por aqui.

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Linear

Recomendação: o Trasel escreveu um post interessante sobre a importância da linearidade no processo educativo. Bom… pedagogia DEFINITIVAMENTE não é algo que eu possa comentar com consistência, mas o que me cativou no texto do Trasel é o tom “epa-calmalá” no que diz respeito a surtos gerais do tipo “GENTE, OS JOVENS SÃO MULTITAREFA, PRECISAMOS REMODELAR O MUNDO AO REDOR PRA QUE SEJA MULTITAREFA SENÃO FICAREMOS PARA TRÁS.”

(Comentei também algo sobre isso nesse post recente.)

Enfim. Criou-se, nos últimos anos, a idéia de que o distúrbio de atenção é uma criação das mídias digitais. E, embora elas colaborem pra isso, faz bem o Trasel em lembrar que “Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.”

Nos comentários, teve gente que gentilmente discordou e trouxe um outro ponto de vista. Mas no geral eu tendo a concordar com o Trasel pois no meu entender ele colocou a questão da educação ocidental como um lembrete de equíbrio em meio ao alarmismo e não como uma verdade definitiva. Aliás, o ponto dele, se eu bem entendi, não é fazer uma apologia da linearidade mas ressaltar que não precisamos sucumbira a essas reações exageradas no que diz respeito às novas formas de consumo de mídia, achando que tudo na pedagogia contemporânea precisa ser jogado fora de uma hora pra outra.

Como diria um sábio da antiguidade: calma, calma, não priemos cânico.

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O que aconteceria se desligassem a internet por uma semana?

O trecho acima, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu 2, além de ser um clássico momento da comédia moderna também oferece um excelente paralelo pra responder à questão proposta no título do post. No filme, a espaçonave que faz o primeiro vôo tripulado à Lua enfrenta sérios problemas técnicos enumerados pela aeromoça: asteróides e problemas no sistema de navegação, que está levando a nave direto pro Sol. Mas o caos se instala mesmo quando um passageiro se revolta e acusa a moça de estar escondendo algo. E ela admite: “Ok… é verdade… também acabou o café.” Aaaaaaaaah!!

Bom.

Digamos, então, que um dia o Al Qaeda puxe a tomada da internet e toda rede fique desativada por uma semana. Honestamente, eu não me apavoro tanto com o provável caos no mercado financeiro ou no sistema de serviços à população, seja público ou privado.

Essa semana, o @maurodorfman comentou que o Twitter é o SAC do universo. Portanto, eu fico imaginando que o verdadeiro problema no caso de um “web blackout” (uéblecáuti) seriam os bilhões de pessoas que reclamam e desabafam no Twitter, no MSN, nos blogs e redes sociais todos os dias. Onde toda essa energia vai ser depositada? O que essas pessoas vão fazer?

Aaaaaahhhh!!!

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Julie e Julia


Depois de abrir o escopo e não se restringir a livros, também trazendo artigos pra nossa coleção, a Biblioteca Conector insere o primeiro filme na sua lista de referências. E, pra surpresa de alguns, não é nenhum documentário cabeçudo sobre o cenário da comunicação (embora venha um por aí, aguarde).

Mas enfim. O que é que um filme da Nora Ephron, mais conhecida por comédias românticas como Sintonia de Amor e Mensagem para você, está fazendo aqui? Bom, eu explico direitinho e, se precisar, faço um desenho.

A publicidade, nos últimos anos, vem demandando cada vez mais dos seus profissionais a sensibilidade de uma comunicação mais próxima e menos invasiva. Em palestras e artigos, se fala muito em conversar com o consumidor em vez de tentar convencê-lo de alguma coisa a golpes de repetição intrusiva. Pra conversar, existem, sim, técnicas e tecnologias, mas muito mais eficiente e profundo do que simplesmente absorver e replicar as técnicas e as tecnologias é compreender as motivações por trás desse valioso diálogo. E, pra isso, Julie e Julia se presta muito bem.

Pra quem não sabe, o filme retrata o cruzamento de duas trajetórias: a da chef maluquete Julia Child e a da aspirante a escritora Julie Powel. A mistura realmente aconteceu na vida real em 2002 quando Julie se viu inspirada pela leitura da biografia de Julia e resolveu cozinhar as suas 524 receitas em um ano. Detalhe: Julie compartilhou sua aventura com (primeiro dezenas, depois) milhares de leitores em um diário digital, formato ainda incipiente na época mas que viria a se tornar bastante popular nos anos seguintes sob o nome de… blog.

Julie e Julia é, então, uma agradável e consistente Sessão da Tarde com um brinquedinho a la Kinder Ovo incluído pra quem se interessa por comunicação. Seus 123 minutos caem bem pra explicar a qualquer um como surge uma voz própria e relevante que cativa uma audiência de nicho na internet – e como essa autenticidade pode levar um conteúdo a conquistar espaço em outras mídias e no coração de um catatau de gente. Ver o envolvimento de Julie com seu blog, aquele derramamento de emoções em um template tosco sem garantias de qualquer retorno que não a mera expressão pessoal deve ensinar a corações duros a necessidade de vozes humanas na comunicação de marca.

Ou não. Nunca sabemos.

O mais bacana é que o blog original da Julie Powell (que depois virou livro e, mais tarde, esse filme) ainda está online, no mesmo lugar onde foi criado. Pode ser interessante vasculhá-lo, mas minhas inclinações arqueológicas não são pra tanto. O filme me parece suficiente ao menos para o ponto que eu queria estressar aqui.

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Uma última nota.

Não sei se você notou, mas a Nora Ephron deu uma de Dangermouse e pode ser que ela tenha cometido o primeiro mashup de livros na história do cinema, ao menos em nível mainstream e de forma tão clara que podemos ver as duas tracks se alternando. Legal, né?

Tchau.

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A Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis reúne livros e artigos pra quem se interessa por estudas novas manifestações e usos de meios de comunicação. Em outras palavras, pra entender essa baguncinha aí. Pra saber mais, leia a introdução.

Pra ver todos as entradas, clique aqui.

Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Reciclando Idéias por Peter Burke

Bom, na verdade essa entrada na Biblioteca não é bem um livro, mas um artigo que saiu na Folha no ano passado no qual o historiador inglês Peter Burke fala sobre processos de criação em invenções como a prensa de Guttenberg e as classificações da linguística. O ponto dele é simples: quase toda nova tecnologia se nutriu de caminhos previamente trilhados em disciplinas alheias.

Ou seja: advogar pureza de métodos e mundos na busca por uma nova solução em qualquer área é como entrar no carro e sair dirigindo com o freio de mão puxado. Os argumentos de Burke não são difíceis de serem abraçados. Seja por observação empírica, seja pelos inúmeros exemplos históricos, é bastante claro que desenvolver soluções novas e eficientes passa obrigatoriamente pela colisão de mundos e de formações.

Em publicidade, mantras como “você precisa sair da agência”, “você não pode viver só de referências de publicidade”, que no passado precisavam ser repetidos à exaustão, hoje são parte do vocabulário de qualquer estagiário. Embora ainda exista uma nefasta cultura de pessoas praticamente morando dentro de agências, todo mundo ao menos sabe que é preciso evitar a retroalimentação. Então a arte da hora é fazer a conexão entre suas experiências particulares extra-agência (praticamente todo criativo que eu conheço hoje as tem) e o trabalho dentro da agência. É muito fácil encontrar grandes obstáculos pra fazer a síntese dos dois universos e a diversidade de experiências se transformar em frustração. Digo por experiência própria.

De qualquer forma, é fundamental aprender a valorizar essas vivência extra-dayjob não como uma atividade marginal ou como hobby, mas como parte integral da formação de quem trabalha com publicidade e marketing. Por exemplo, tudo que aprendi sobre narrativa e construção de personagem eu devo à leitura massiva de quadrinhos durante anos e anos. Tudo que eu aprendi sobre as tais novas mídias e sobre comportamento em mercados de nicho eu devo a tocar e ajudar a produzir os Walverdes há 17 anos. E por aí vai.

Bom, eu falando é uma coisa. O Peter Burke falando é outra. Por isso incluí a leitura desse artigo na Biblioteca Conector. Ele provê uma plataforma bastante interessante e bem mais embasada pra reflexões nesse âmbito. Bom proveito.

Como o conteúdo do artigo na internet é restrito a assinantes da Folha, eu subi aí um scan que me mandaram aqui na agência. É só clicar em cima da imagem que abre o post que ela aumenta e dá pra ler na buena. Ou tem uma transcrição aqui.

Bom proveito.

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A Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis reúne livros e artigos pra quem se interessa por estudas novas manifestações e usos de meios de comunicação. Em outras palavras, pra entender essa baguncinha aí. Pra saber mais, leia a introdução.

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Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.

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7 coisas que eu espero que SUMAM das palestras de publicidade em 2010

Freqüentar palestras de publicidade, nos últimos, digamos, quatro ou cinco anos, têm sido desafiador para a paciência. Mesmo em eventos de porte, como o Festival de Cannes, é comum a sobreposição de assuntos e exemplos, de forma que no terceiro dia você já começa a ter intensas experiências de déjà vu, para não falar de desagradáveis flashbacks nas semanas seguintes.

Ok, os mais radicais vão me lembrar que festivais de publicidade não são lugar de novidade, novidade MESMO. Ainda assim, acho que a coisa está um pouco demais. O que posso fazer, além de tentar evitar esses assuntos e exemplos nas minha eventuais palestras, é compartilhar uma singela e sincera listinha com os temas que, sugiro, deveriam ser sumariamente DELETADOS desses encontros.

Vamos lá.

1. O consumidor está no poder.

Caso ninguém tenha percebido, o consumidor sempre esteve no poder. Agora ele só tem um megafone na mão. Megafone esse que será usado para gritar bem pertinho no ouvido dos palestrantes de publicidade: NÃO-PRECISA-MAIS-REPETIR-ISSO.

2. A internet veio para ficar*

Sério? Há controvérsias. O senhor de 112 anos que mora num casebre atrás do sítio do primo do meu amigo sem luz, telefone e água encanada acha que a internet é um modismo. Então talvez ainda vejamos alguns palestrantes por aí pregando desnecessariamente que “a internet é uma revolução sem volta”.

3. A criatividade pode vir de qualquer lugar

Frase muitas vezes dita com gosto por executivos que não sabem como coordenar suas equipes e pra quem entregar determinados trabalhos. Tira a responsabilidade das costas de muita gente e por isso espero que em 2010 ela suma das palestras de publicidade e quem sabe vire assunto de gestão no HSM Expo Management.

4. Quem não inovar, está morto.

A frase mais dita por gente sem imaginação nos últimos 200 anos. E ainda é mentira: muita gente que não inova está vivo, bem como muitas marcas e empresas. A quem duvidar, recomendo que leia a matéria sobre os Biscoitos Globo na revista Piauí número 32. E tem mais, mesmo que fosse verdade, a frase já cansou. É antiga, retrógrada e exclusivista.

5. A força do boca-a-boca

Outra incrível descoberta dos últimos tempos: o consumidor acredita mais no seu amigo de infância do que num comercial de televisão com um ator que mal chegaria perto dele dizendo frases elogiosas porque foi muito bem pago por uma multinacional com doze milhões de funcionários que investe um bilhão de dólares em publicidade pra tentar convencê-lo de que aquele amontoado de produtos químicos perigosos são um sabonete que faz bem pra pele. E você ainda se surpreende que as pessoas confiam mais na indicação de amigos? Chega né?

6. Não existe diferença entre o mundo online e offline

Existe sim. Ninguém na vida real (fora o Roberto Carlos) tem tantos amigos e vê tantas fotos deles quanto no Orkut. O mundo online e o mundo offline tem diferenças importantes e essa frase não só vem sendo repetida à exaustão como não foi pensada direito pela maior parte das pessoas que a repetem. O que não foi bem pensado, é melhor que caia fora do PPT.

7. A verdadeira agência de publicidade é on e off.

Primeiro você monta uma agência assim. Daí você constrói um bom número de cases sólidos dentro desse escopo com clientes de porte. Em seguida, você mantém essa filosofia por no mínimo 3 anos. Não, 5. Aí, só aí, você coloca essa frase na palestra.

Obrigado.

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Ah: aceito colaborações para uma segunda lista.

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Créditos dos desenhos na ordem: Robert Crumb, Allan Siber,Will Eisner, Rafael Sicca, David Mazzuchelli, Jano, Fábio Zimbres.

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* “A internet veio para ficar” is a trademark registered by Joviano Quatrin.

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O brasileiro e as novas mídias

Há pouco cheguei da Federasul onde rolou um debate sobre aquele bom e velho assunto: novas mídias, elas vieram pra ficar? Bem, não cabe aqui estender as questões do debate. Acho que todos aqui já sabemos que não dá mais ficar questionando novidade pra bancar o cowboy e nem abraçando novidade pra bancar o cowboy, mas sim oferecer algumas respostas práticas e bastante pontuais pra quem precisa resolver o que fazer com o seu orçamento de marketing de uma vez por todas. As generalizações, nesse caso, depõem contra tudo e contra todos.

Uma coisa que eu fiquei pensando no pós-debate é a quantidade delas, as generalizações, que somos meio que obrigados a fazer para tratar o assunto nesses âmbitos. Não é má intenção ou ignorância de ninguém. É realmente uma necessidade para se estabelecer certos diálogos. E aí, dê-lhe “o brasileiro está mais na internet”, ou “o brasileiro gosta muito de celular” ou então “o brasileiro passa mais tempo no Orkut que o resto do mundo” e por aí vai. Eu também falo essas coisas às vezes, não vou me fazer de louco.

Isso me remete direto àquelas matérias do Fantástico ou do Jornal Nacional que vão pela mesma linha: o “brasileiro está comendo mais feijão” ou “o brasileiro está comprando mais” ou “o brasileiro está pagando mais à vista” ou “o brasileiro está tomando mais remédio pra dormir” e por aí vai. Sempre que essas matérias passam, eu me pergunto: quem será esse brasileiro? Onde ele mora? Será que existe UM cara, o brasileiro, que a Globo vai lá e entrevista pra saber? O brasileiro um dia resolveu comprar DOIS sacos de feijão em vez de um, só porque vai ter feijoada, e o noticiário dá: “BRASILEIRO COMPRA MAIS FEIJÃO”. Deve ser um saco ser esse cara, porque ele não pode espirrar que lá vem: “BRASILEIRO ESPIRRA MAIS”.

Existem outras figuras míticas planificadas. A classe C (só pra você saber, a Classe C está acessando mais a internet, comprando mais e andando de avião), o jovem (multiconectado, assiste TV enquanto está no MSN e ouve iPod), a mulher moderna (multitarefa, desempenha diversos papéis, como mãe, executiva e esposa) e por aí vai…

Bom, quando o assunto é novas mídias, é a mesma coisa. Pra efeito de debate, falamos do novo consumidor, que “está no poder”, que “gera conteúdo”, que consome múltiplos meios, mas a grande verdade, a verdade verdadosa, é que não existe esse novo consumidor. Não existe UM novo consumidor que faz as coisas de UM jeito, mas talvez algumas dezenas de formas como as pessoas estão montando (perceba o gerúndio, é um processo em andamento) a sua forma de consumir mídia e de se relacionar com marcas.

Aí também me lembro de um trecho do Convergence Culture do Henry Jenkins no qual ele fala daquela antiga fantasia da caixinha mágica. Lembra disso? Há anos que se vem buscando um gadget universal onde as pessoas vão poder ler emails, ver filmes, fazer ligações, jogar, guardar receitas, etc, etc, etc. Não é mentira que essas caixinhas mágicas vem surgindo, cada vez mais baratas e incríveis, mas também precisamos admitir, como diz o Jenkins, que a maior parte das pessoas tem umas cinco caixinhas ao seu redor (celular, computador, DVD, console de game, som) e que a preferência por UMA caixinha é uma questão mais de comportamento individual (pessoas que gostam de UMA caixinha) do que de solução tecnológica (conseguimos enfiar tudo dentro de uma caixinha!!!). As pessoas, no geral, não estão atrás de UMA caixinha, mas montando sua coleção de caixinhas de acordo com o que precisam.

Enfim… a real a real, que poucos gostam de admitir, é que não podemos falar do novo consumidor. Não existe o novo consumidor. O novo consumidor é uma figura de linguagem. E figura de linguagem não paga contas. Pra quem acha isso um problema, não é preciso se preocupar. Se não existe o novo consumidor, existem inúmeras ferramentas (tecnológicas E conceituais) pra você olhar para a massa disforme e  sem identidade e tirar soluções viáveis, rentáveis e úteis para todos (agências, marca e consumidores).

De qualquer forma, fica a pergunta: será que o publicitário está generalizando mais?

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Tribe/Jana: New Media Art

Ano passado, de Cannes, sublinhei num post a esperta declaração de Sam Roddick (filha da Anita Roddick da Body Shop) que creditava ao ativismo social a origem do marketing de guerrilha. Concordo, mas isso é apenas parte da história, porque à influência de ações impactantes como as do Greenpeace e do PETA precisamos também agregar todo um rol de idéias fertilizadas no ambiente da arte moderna e contemporânea. Por isso esse livro veio parar aqui. Se vamos falar em new media (ou seja lá o nome que você queira chamar, tanto faz pra mim), precisamos falar em new media art. Desse ponto de vista, esse livrinho amigável da Taschen é revelador e estimulante.

Revelador porque o ensaio que abre o livro delineia, de uma forma que não dá sono, a árvore genealógica da New Media Art, colocando-a como descendente mais ou menos direta do Dadaísmo, da Pop Art, da Arte Conceitual e da Vídeo Arte. E faz sentido. Olhar para obras relacionadas a esses movimentos vai sempre nos causar uma sensação de incrível familiaridade, mesmo que a gente não domine (eu ao menos não domino) esse cânone. Lá atrás, os caras já estavam sintonizados com o que estamos vivendo hoje e acho que estamos num bom momento pra olhar pra trás,  uma vez que já tem gente demais pedindo pra você olhar pra frente. E quando muita gente pede a mesma coisa…

Em segundo lugar, a leitura de New Media Art é estimulante porque esbarramos com uma penca considerável de trabalhos cuja base é burlar sistemas, conceitos, percepções. Ok, toda boa arte deve fazer isso, mas o que chama a atenção no escopo dessas obras é uma intenção declarada na ruptura, a ruptura como forma e não apenas como conteúdo. E mais, essa ação é conduzida em suportes digitais, uma boa parte delas usando a internet e outras tantas baseadas em dispositivos móveis, instralações ou gadgets.

Quer uma palhinha? Pois eu achei o livro inteiro num wikisite da Brown University, amigo! Não sabe por onde começar? Tá com preguiça? Tudo bem, faz o seguinte. Começa pelo LifeSharing, um projeto no qual Eva e Franco Mattes permitiram que todo mundo pudesse ver TODO o conteúdo e tráfego dos seu computador pessoal durante 3 anos. Depois dá um pulo até etoy.share, uma “corporação artística” que vende ações pra financiar suas performances. Não deixe de passar por A-Trees, trabalho de Natalie Jeremijenko que criava (em 1999!) árvores em desktops a partir da emissão de carbono em escritórios. Divirta-se com a descrição de Dialtones, onde o Golan Levin (do We Feel Fine) e sua turminha usaram (em 2001!) celulares de uma platéia para um concerto. Também vale ler sobre 1 Year Performance Video, que remixa com certo sarcasmo o trabalho do Tehching (que vou comentar aqui semana que vem) ao recriar uma exaustiva performance presencial com vídeo online.

O resto, como sempre, é por sua conta.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Go Viral: The Social Metropolis

Houve um tempo em que o maior patrimônio de uma empresa de comunicação era sua metodologia de trabalho e suas ferramentas. Nessa era distante (será?), ir a público explicar detalhadamente como você fazia para resolver o problema do seu cliente era considerado suicídio. Afinal, os concorrentes podiam copiar seu esquema, replicá-lo e roubar seus clientes. Pois bem. Nada como o tempo para clarear certas questões. Falar disso hoje parece contar sobre povos antigos que tinham medo que a fotografia lhes roubasse a alma, nénão?

A Go Viral, uma empresa européia de disseminação online de conteúdo, vem representando no Festival de Cannes o oposto dessa idéia anacrônica. Em 2007 e 2008, eles não só fizeram palestras no principal auditório do evento contando sua visão de negócio e sua metodologia como distribuem no final livros aprofundando a questão. Aprofundando é pouco. Eles explicam o passo a passo de como disseminam alções globais como a do lançamento do Cavaleiro das Trevas, o Lost Experience ou o viral do Ronaldinho metendo 9 bolas na trave consecutivas. Basicamente, se você quer montar uma empresa de disseminação de conteúdo, pode usar o primeiro livro como base teórica sobre o contexto atual da comunicação e o segundo, The Social Metropolis, sobre o funcionamento dos canais de distribuição e suas peculiaridades.

Mas por que é que os caras entregam todo o jogo assim, de mão beijada? Bom, primeiro porque não sabemos o que mais eles têm escondido no cofre. Segundo porque essa é uma forma de trocar informação e de se vender. Mas o terceiro aspecto, e mais importante, é que não é difícil imaginar e descobrir o “como” das coisas. O grande negócio é conseguir FAZER, colocar em PRÁTICA. De teorias, as palestras estão cheias.

Quer saber um pouco mais sobre o livro? Dá uma olhada no post “Vai, Viral“, do ano passado. Além de comentar o conteúdo dele, também botei ali os links pra tu ler o livro online ou baixar em PDF, além de uma palestra em vídeo com um dos donos da Go Viral.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – McLuhan + Fiore: The Medium is the Massage

É um tanto quanto óbvio colocar esse livro aqui e minha idéia era evitar os óbvios. Mas eu não pude resistir: ao explicar teoria da comunicação com uma linguagem gráfica fragmentada (para a época) e mais próxima da cultura pop do que da academia, Marshall McLuhan e o designer Quentin Fiore tornaram vivo o conceito apresentado no título de sua obra.  Para isso, lançam mão de metáforas visuais e de citações de Bob Dylan, Montaigne, cartuns do The New Yorker e onomatopéias de quadrinhos a la Linchestein.

Mas é preciso tomar cuidado e não trocar a eloquência gráfica de Medium is the Massage pelo seu estofo. Há visões deliciosas e úteis neste volume, a maior parte delas oferecendo uma razoável retaguarda teórica para quem trabalha com as ditas “novas mídias”, elas que não têm ainda, ao menos com acesso universal, um corpo teórico que ajude a pensar trabalhos de forma mais estratégica e menos “vamos fazer assim pra rolar”.

Um desses conceitos, a respeito do ambiente invisível, eu explorei no post Quer Aparecer, Seja Invisível. Outros, como a dimensão mítica dos circuitos elétricos ou a necessidade de cultura participatória entre o público jovem, você vai ter que ler pra debulhar.

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Página 142: “A propaganda termina onde o diálogo começa”.

Ok?

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Duas curiosidades.

Uma: capa da edição que eu tenho, essa ai de cima, é do David Carson, um dos ícones dos anos 90 (será q o design a la Carson vai voltar também?)

Duas: o McLuhan é considerado o “santo patrono” da Wired.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – William Gibson: Idoru

A real é a seguinte: pelo pouco que li (três de dez romances, meia dúzia de muitos outros contos) acho que toda a bibiliografia do William Gibson vale a pena para quem trabalha com comunicação. O cara é o um dos idealizadores do chamado cyberpunk e conhecido por cunhar o termo ciberespaço em seu conto Burning Chrome (de 1982!), expandindo ainda mais o conceito em Neuromancer. Seu trabalho e suas idéias, desenvolvidos em conjunto com alguns outros parceiros como o Bruce Sterling, foram a origem de inúmeros produtos da cultura pop. Só pra você ter uma idéia, Neuromancer influenciou fortemente a trilogia Matrix e a fase Zooropa do U2.

Por que eu escolhi Idoru? Por que não Neuromancer se é um romance ambientado no cybersespaço, perfeito para introduzir conceitos básicos? E por que não Reconhecimento de Padrões, que trata diretamente de marcas, makerting de guerrilha e comunidades digitais obcecadas por assuntos inusitados?E por que não Johnny Mnemonic, com seu atualíssimo tema de pirataria de dados e expansão de memória?

Porque Idoru mostra a essência do problema da publicidade atual, que é deixar a era em que tentava convencer as pessoas com repetição exaustiva e presença massiva para entrar na era da conexão direta, de mão dupla, de presença discreta, relevante e significativa. Eu não acho que isso seja possível em larga escala mas não vou me estender aqui porque já escrevi sobre a importância de Idoru para se repensar a publicidade  contemporânea nesse post de 2007 – Idoru e Space Invaders – Publicitários Gerando Conteúdo. Não deixe de ler.

Idoru, Neuromancer, Reconhecimento de Padrões, Count Zero e Monalisa Overdrive têm edição no Brasil. Idoru saiu pela Conrad. Os quatro últimos são da Aleph (que também lançou Nevasca, do Neal Stephenson, que o Matias me diz ser ainda mais fundamental mas eu ainda não li).  O conto Johnny Mnemonic traduzido foi publicado como um anexo de uma General nos anos 90 (esse eu ainda vou escanear e disponibilizar, me cobrem mais adiante). Não me lembro se tem mais algum conto espalhado em algum livro por aí. Alguém sabe?

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Update! O Mateus do Ovelha Elétrica tem o Johnny Mnemonic publicado lá no Fictorama.

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – Tibor Kalman: Perverse Optimist

Tibor Kalman é um dos mais influentes designers do mundo e a forma como ele alcançou essa notoriedade ainda rende discussões mesmo depois de sua morte em 1999. Por quê? Porque esse húngaro crescido nos Estados Unidos foi um designer que rejeitou grande parte do sistema do design da sua época, criando ou levando para o mainstream uma nova forma de agir que não se restringia ao trabalho tradicional do designer, resgatando valores mais amplos e profundos ao exercer as atividades de um comunicador visual.

Kalman injetou crítica política na comunicação visual de um pequeno restaurante novaiorquino; encontrou uma identidade gráfica para os Talking Heads à altura de sua música; transformou a divulgação de seu próprio estúdo em uma sucessão de experimentos de marketing direto interativo (na era offline); atendeu clientes corporativos e viveu dilemas ideológicos; inventou para si e para seu estúdio uma mitologia que até hoje é imitada na qual é possível ver o designer como se fosse um rockstar e o estúdio como uma banda. Enfim, durante sua carreira, Tibor Kalman trilhou o caminho do design armado até os dentes com o que havia de mais provocante na cultura pop de sua época (ou de outras).


Sabendo que não faria nada sozinho, estava permanentemente contratando ou sendo contradado por pessoas talvez mais talentosas do que ele. Assim fez seu nome, mas também assim nomes se fizeram com ele (os designers Stefan Segmeister e Emily Oberman são dois exemplos). Talvez a face mais visível do trabalho colaborativo e controverso de Tibor Kalman (em parceria com o fotógrafo Olivieto Toscani) foi a revista Colors, um empreendimento editorial monstruoso bancado pela Benetton e que foi uma dos vetores definitivos da linguagem dos anos 90. A controvérsia não era devido  unicamente ao conteúdo da revista, mas às constantes críticas da proximidade de Kalman com o dinheiro grosso das marcas. O designer defendia o uso de dinheiro corporativo para experiências radicais, mas todos nós sabemos que essa área é cinza e repleta de ambiguidades.

Bom,  mas o fato é que Perverse Optimist é um livro que entrou nessa biblioteca não apenas por mostrar em mais de 400 páginas tudo o que Tibor e seus colaboradores fizeram nos mais diversos suportes e disciplinas (vídeo, design gráfico, editorial, marketing direto, etc). Mas, o mais importante, conta o como e o porquê fizeram. O como diz respeito ao espírito combativo e incansável, enquanto o porquê é resumido poeticamente em um ensaio visual na introdução do livro, cuja primeira frase pra mim é emblemática, definitiva e inspiradora: “I’m not sure”.

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Perverse Optimist custa caro e só importando. Além do que, acho que ficou raro porque você pode ter certeza que eu não paguei quase cem doletas nele! Mas procurando, acho que é possível encontrar uma edição usada em algum sebo americano. Procure que você consegue uma barbada. E lembre-se que livro não paga imposto na importação.

Outra idéia: se alguém de Porto Alegre quiser pegar o livro pra escanear todo e transformar em PDF, be my guest.

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Para saber mais sobre a Biblioteca Conector para Estudos de Mídias Variáveis, leia a introdução.

Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.

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PS:

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Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis – intro

Seja bem vindo à B.C.E.M.V. Aqui você vai encontrar uma lista de livros que eu considero nutritivos para quem está interessado em compreender melhor o momento que o mundo da comunicação (em especial a publicidade) está vivendo. O que credencia o Conector a dar essas dicas? Não muito, mas pelo menos dois pilares sustentam o prédio da B.C.E.M.V.: despretensão e empirismo.

Uma vez que meu treinamento acadêmico é extremamente limitado, não espere encontrar na B.C.E.M.V. livros fundamentais ou obrigatórios, mas sim leituras que embasaram trabalhos profissionais e estudos pessoais. Em outras palavras: não, essa não é uma lista que se pretende definitiva. Mas, sim, todos esses livros foram ÚTEIS na PRÁTICA, inclusive ajudando em trabalhos para grandes varejistas como as Lojas Renner ou indústrias no caso da Grendene. Às vezes de forma muito indireta, mas ajudaram, creia-me. Independente de você ter objetivos comerciais ou não ao lê-los, a meu ver eles servem como inspiração ou base para o simples alargamento de visão sobre o mundo contemporâneo. No fundo, sou eu dividindo minha prateleirinha com você e cabe a você decidir o quanto ela é valiosa.

Bom, pra terminar, dois recados colaboracionistas.

Primeiro, o nome da biblioteca ainda está em aberto. Mídias Variáveis foi o melhor nome que achei (tirado de uma frase de um livro que será apresentado aqui), melhor que “novas mídias” ou “mídias emergentes” ou coisa que o valha. Se alguém tiver uma idéia melhor, use os comentários, por favor.

Segundo, os comentários também estão abertos para dicas de livros que complementem a biblioteca. Nos posts eu vou publicar apenas os livros que eu li, usei e aprovei. Mas o choro é livre e já vi que tenho leitores com um ótimo conhecimento acadêmico e de mercado, o que nos dois casos certamente vai enriquecer a minha lista. Portanto, não se avexem e usem à vontade o espaço dos comentários, postando dicas e pequenas resenhas.

Acho que todo mundo sai ganhando com isso.

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Mad Men, Café da Manhã da BBC, a Dança do Siri e TV Branding

O Mini saiu de férias e me pediu pra regar as plantas nesta quinta-feira aqui no Conector.

Eu tenho um blog que fala sobre marcas de televisão na era digital, ou TV III, e tenho observado alguns fenômenos que acho que valem a pena comentar aqui (ainda mais que o Mini tem dissecado o livro do Henry Jenkins em diversos posts). Me refiro aos seqüestros, apropriações e intrusões de marcas de TV.

1. O Seqüestro de Don Draper

No dia 13 de Agosto de 2008, às 7:56 da manhã, o Twitter publica a primeira mensagem de um usuário que paradoxalmente vive nos anos 60.

“Tomando um whisky com Roger, para que ele não se sinta um alcoólatra”.

O tweet é assinado por Don Draper, o publicitário de vida dupla, personagem principal da premiada série americana Mad Men, produzida pelo canal premium AMC e transmitida no Brasil pela HBO. Vale acompanhar a série somente pela encenação da época, muito álcool, cigarro, ausência de consciência ecológica e ética, machismo e princípios de revolução feminista. A caracterização da agência de publicidade nos anos 60 é tão perfeita que é praticamente um personagem em si.


Veja também a paródia de Mad Men nos Simpsons.

Como sou fã da série, imediatamente segui os tweets de Don, e logo em seguida começo a receber convites para seguir outros personagens da série no Twitter: Roger Sterling (um dos donos da agência de publicidade fictícia Sterling Cooper), Peggy Olson (a secretária ambiciosa que vira redatora), Betty Draper (a mulher de Don) e até mesmo de Joan Holloway (a office manager voluptuosa).

Pensei eu: “que ação de marketing sensacional da AMC. Expandir a marca da série através da personificação dos personagens, permitindo que fãs dialoguem diretamente com eles, imergindo no mundo fictício de Mad Men. Bela maneira de engajar a audiência.”

No dia 25 de Agosto, menos de duas semanas depois, o Twitter bloqueia as contas de todos os personagens de Mad Men devido a uma intimação do DMCA (Digital Millennium Copyright Act) em relação aos direitos autorais de propriedade da rede AMC.

No dia seguinte, a empresa Deep Focus, responsável pelo marketing da AMC, persuasivamente convence seu cliente de que personagens do Mad Men engajando audiência via Twitter é boa publicidade, e assim as contas dos personagens são restauradas.

Depois de toda a ação, uma dúvida permanece: quem está por trás dos tweets de Don Draper e dos outros Mad Men?

O mistério vem à tona somente meses depois. Dia 16 de Novembro de 2008, Paul Isakson, estrategista e planejamento de marcas para a agência de marcas digitais Space 150 escreve um manifesto em seu blog, sob o título de Confessions of a (fake) Mad Man assumindo a paternidade dos tweets de Don Draper.

Paul confessa que tudo começou como uma um projeto pessoal de pesquisa ao pensar que seria possível estender realisticamente um personagem de um programa de TV para dentro de uma rede de relacionamentos.

A iniciativa de Paul Isakson, e dos outros fãs da série que assumiram identidades dos personagens no Twitter, é um exemplo perfeito de brand hijack (seqüestro de marca), onde usuários e fãs tomam para si uma marca e promovem sua evolução.

Paul liberou Don Draper de seu cárcere digital e o entregou para a AMC este mês, e pediu desculpas por não ter alimentado o personagem tão bem devida à falta de tempo para se dedicar a tarefa.

2. Apropriação no Café da Manhã

A apropriação de uma marca acontece quando um canal ou programa de TV refere-se ao conteúdo relacionado a outro canal ou programa com o intuito de promover sua própria marca, apropriando-se dos valores de marca alheios através dessa associação. Henry Jenkins fala brevemente disso no Convergence Culture, contando o caso dos outros canais de TV que entrevistavam os candidatos do Big Brother que haviam sido eliminados da casa.

Aqui no Reino Unido, isso acontece descaradamente todos os dias de manhã, quando a grande rede pública BBC exibe seu show matutino de notícias, o BBC Breakfast. Boa parte do show consiste em entrevistas com celebridades de programas de sucesso de outros canais de TV da Inglaterra. A desculpa é que é rede pública, sem fins lucrativos, com foco em fomentar a diversidade. Enquanto isso, o BBC Breakfast aumenta sua audiência às custa de valores de marcas de terceiros.

No Brasil, o Vídeo Show é um bom exemplo de apropriação de marca dentro do domínio de marca de um conglomerado de mídia. O formato do show é basicamente uma ferramenta de promoção dos outros conteúdos da Globo, e ao mesmo tempo, enriquece sua própria marca através dos atributos dos programas que documenta.

Mas não há nada como a sacripantice do Pânico na TV, que descaradamente ridiculariza contratados da Globo em entrevistas desconcertantes. Neste caso, a marca da Globo (ou Glóbulo, nas palavras do Sílvio) é apropriada e “torturada”. Aqui, existe uma simbiose bizarra de marcas, numa dinâmica onde a Rede TV promove brand awareness da Globo através da constante menção ao seu nome e atores, enquanto a RedeTV ganha audiência via seu freakshow de desconstrução da marca Global.

3. A Intrusão do Siri na toca da Globo

O fenômeno mais curioso é do Pânico da TV, com a Dança do Siri promovida pelos personagens Vesgo & Sílvio. A dança em si virou um forte veículo da identidade do show, e é relacionado com o programa seja onde estiver.

O mais engraçado é a intrusão da dança (e conseqüentemente da associação à marca) durante as transmissões ao vivo da Globo, feita por fãs do programa.

A Globo tem um histórico de rigidez no controle de sua marca. Mesmo assim, é difícil impedir a intrusão, ainda mais num ambiente digital, como aconteceu na sua festa da novela Sete Pecados no Second Life. O vídeo abaixo é um tanto quanto parcial, mas ilustra bem mais uma intrusão de uma marca da RedeTV no domínio da Globo.

Estaria o Conector a apropriar-se de marcas ao publicar posts de convidados neste blog?

Espertinho esse Mini, hein? Bem feliz lá curtindo umas férias.

Post escrito por Will Prestes enquanto o Mini está de férias.

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Pensando ConCulture#9

Toss up – John Winslow

Pra quem chegou hoje aqui, estou lendo Convergence Culture, do americano Henry Jenkins e fazendo um post a cada capítulo reunindo algumas reflexões/anotações/palpites (você pode resgatar os outros posts clicando aqui).

O livro é uma referência importante pra quem se interessa com os movimentos atuais quando falamos em entrelaçamento de mídias. E, o mais importante: Convergence Culture não é focado nos veículos/ferramentas de mídia, mas enfatiza o conjunto de comportamentos que brota ao redor deles. Logo na introdução, Jenkins definiu o conceito de convergência como sendo o que fazemos dentro da mente e não o que acontece fora, nas diversas mídias em que os conteúdos hoje se desenrolam. Pois o capítulo 3, Searching For the Origami Unicorn, leva essa premissa às últimas consequências ao estudar um dos cases mais interessantes e intensos de transmedia storytelling: The Matrix.

My Little Dead Dick

Pra muitos, a trilogia não passou de uma sequência de 3 blockbusters cujos criadores deveriam ser presos por formação de quadrilha ao construir uma mitologia pilhando tantas referências da cultura pop, da filosia e da religião como quem vai ao supermercado (sem dinheiro e sem cartão de crédito). Entretanto, ao olhar atento e investigativo de Jenkins (e eu concordo), a questão é muito mais rica. The Matrix é uma das mais bem sucedidas tentativas de transmedia storytelling em escala global e industrial, um esforço que misturou motivações comerciais com a paixão nerd pela construção de universos desenhados especialmente para a submersão recreativa e/ou escapista.

E aqui vai a minha primeira anotação à Bic no canto de página no livro: por estarmos ainda dando os primeiros passos nesse novo tipo de narrativa, ainda cabe aos apaixonados fazer os primeiros movimentos. O processo de dissecação que Jenkins faz do universo Matrix deixa bastante claro que, apesar de haver dinheiro grosso envolvido, é o gosto pela coisa (e não pelo dinheiro que a coisa gera) que fez os Irmãos Wachowaski fazer o que fizeram do jeito que fizeram. Em outras palavras: consultor não recomenda esse tipo de encrenca antes dela estar completamente assegurada de sua eficiência.

Por outro lado, devido à sua proximidade com os recônditos da cultura pop, os produtores de Matrix sabiam o que fazer e basearam a extensão do seu trabalho em um time de produção quadrinistas, desenvolvedores de games, animadores, coreógrafos de luta  e outros profissionais que tinham em alta conta como fãs e não como produtores. Nomes como Geof Darrow, Yoshiaki Kawajiri e Woo-ping Yuen podem não dizer nada à maior parte de nós. Mas são artistas com uma carreira consistente em suas áreas e, inclusive, uma base de audiência prontinha. Os Irmãos Wachowski faziam parte dela.

Segundo ponto: isso é bem diferente do sistema tradicional, no qual você simplesmente repete o logotipo da franquia em um sem número de apetrechos e bonecos dispostos em prateleiras de grandes magazines, adicionando praticamente zero informação nova ao universo original e desprezando nichos. Segue Jenkins dizendo que “Matrix é entretenimento para a era da convergência de mídias, integrando múltiplos textos para criar uma narrativa tão grande que não cabe em um só meio.”

Ou seja, não se trata de reproduzir logotipos ou personagens ad infinitum em todo o material que for possível vender, mas espalhar verdadeiramente pedaços da história ao longo de uma cadeia complexa capaz de atingir múltiplos níveis de engajamento. O nerdus maximus fica feliz e o tiozinho que caiu na sessão de cinema do multiplex por acaso também.

Ron Mueck

Quarto ponto: isso afeta a própria visão de licenciamento comercial, porque exige mais das partes envolvidas. É preciso uma colaboração maior, envolvimento dos licensiadores em processos de co-criaçao nos quais eles compreendam o universo e colaborem para sua expansão e não para sua redundância. Geralmente, produtos de franquia seguem uma lógica comercial, mas cada vez mais é necessária a adição de uma visão artística.

Quinto ponto: botar esse esquema pra funcionar em um produto de nicho, que busca se conectar a uma audiência bastante específica, não deve ser tão difícil. Mas arquitetar isso em escala global, atendendo aos desejos de uma Warner Brothers, são outros quinhentos. Os Irmãos Wachowski souberam brincar com os milhões que colocaram nas suas mãos, oferecendo material suficiente para uma diversidade de platéia como nunca se viu antes na história da cultura pop. Se você quisesse, podia simplesmente assistir aos filmes. Mas caso fisgasse a isca e resolvesse se engajar mais, descobriria um buraco quase sem fim com material de mineração distribuído em uma série de animação, games, graphic novels e por aí vai.

Experências de universos transmedia dessa forma não são totalmente novas. Jenkins cita o exemplo da vastidão de possibilidades que o universo Pokemón apresenta há anos. Mas Matrix transcendeu a audiência interessada em desenhos animados ou mangás, chegando no nível “Temperatura Máxima” de cultura popular. Não é pra qualquer um.

Apesar disso, Jenkins sublinha: “Relativamente poucas franquias, se é que alguma conseguiu, atingiu o completo potencial do transmedia storytelling. Os produtores de conteúdo ainda estão encontrando o seu caminho nesse sentido.”

Sexto ponto: assim como co-emerge uma nova audiência, essas mudanças também vão provocar o co-surgimento de uma nova crítica. Que sentido faz uma experiência de transmedia como The Matrix ou Heroes ser analisada ou criticada separadamente por críticos de cinema, quadrinhos, games e desenho animado? Os dois últimos segmentos de Matrix foram detonados por críticos de cinema (a meu ver, com razão). Mas talvez não o fossem por “críticos transmedia”, uma vez que a maior parte dos furos de narrativa dos filmes estavam contemplados nas outras mídias, em especial nos games. (Não posso deixar de lembrar a experiência fantástica que foi a revista Play, uma junção visionária e ainda inédita em mídia impressa de cobertura de música, games, cinema, literatura e tudo mais.)

***

Pra fechar, mais citação direta do Jenkins: “Existe um ponto além do qual as franquias não podem ser extendidas, subtramas não podem ser adicionadas, personagens secudários não podem ser identificados e referências não podem ser percebidas. Nós só ainda não sabemos qual é esse ponto.”

Aí está o cerne da questão em termos de cultura de convergência e transmedia storytelling: nessa longa fase de transição que estamos vivendo, qualquer tentativa de estabelecer um modelo é precipitada. Nesse momento de experimentação, qualquer um que diga que tem absoluta certeza de qualquer coisa ou é ingênuo ou é picareta.

Mas não tenho muito bem certeza disso.

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Pensando ConCulture#8: a essência do transmedia storytelling

Tem um frase do Woody Allen que eu adoro “Fiz um curso de leitura rápida e li “Guerra e Paz” em vinte minutos. Fala sobre a Rússia.” Dito isto, Mr. Allen me libera pra eu tentar resumir o capítulo 3 do Convergence Culture em apenas uma frase pinçada do próprio livro:

“Devido ao fato dos personagens serem pessoas reais cujas vidas transcendem os limites da série, os espectadores ficam com a sensação de que existe mais pra ser descoberto a respeito deles, o que fornece um incentivo a buscar informação adicional em diversos canais de mídia”.

Este trecho é a essência do que me interessou no capítulo inteiro. “Buyin Into American Idol”, na verdade, tem a intenção de fornecer um mergulho em profundidade na estrutura do product placement (o que aqui chamamos de merchandising) do reality show americano. A série é considerada um divisor de águas nessa disciplina, com cases de integração de marcas e trama com tamanha sinergia a ponto de diversos consumidores mais críticos questionarem a ética de tais ações.

Porém, enquanto pesquisa a relação entre as conversas de cafezinho sobre American Idol e as marcas que o patrocinam, Jenkins vai dando na paralela informações valiosasas sobre outro assunto: como funciona uma boa história que quer transcender o seu meio de nascença ou seu principal meio de difusão – o hoje famoso (talvez amanhã não) transmedia storytelling.

American Idol foi um reality show esperto, que se utilizou de tudo que era necessário para alavancar a audiência. Não aboliu a importância da transmissão massiva em televisão aberta ao mesmo tempo em que passou a jogar com novos e fundamentais recursos, como a votação por mensagem de texto*, os fóruns online e os sites de compartilhamento de vídeo.

Apesar disso tudo, a verdadeira mídia do transmedia storytelling não é o celular, a web ou a TV, mas a fofoca. Vamos lembrar um trecho da introdução do livro, no qual o modelo de mídia da historiadora Lisa Gitelman é citada: “Em um primeiro nível, um meio é a tecnologia que permite a comunicação. Em um segundo nível, um meio é um apanhado de protocolos ou de práticas sociais que crescem em torno daquela tecnologia”. Nesse sentido, a conversa sobre a vida alheia é um dos protocolos mais fortes que surgiu em torno dos reality shows. E é também a verdadeira “cola” que mantém unidos os pedaços dos universos criados em diversas mídias. A fofoca, na verdade, não é conteúdo: é meio por onde o conteúdo viaja e se expande de forma exponencial. Não vai existir obra em transmedia que não tenha um forte componente de socialização.

Eu sempre gosto de pensar no exemplo das novelas brasileiras. Embora elas não sejam transmedia por excelência (cadê o perfil dos personagens no Orkut adicionando amigos no “mundo real”? por que os personagens de Malhação não entram no MSN? Quando o Agostinho Carrara vai ter um blog sobre suas histórias do táxi? Por que não recebo SMS da Donatela?), as novelas no Brasil alimentam todo um universo editorial fora da tela que movimenta uma quantidade incrível do que Douglas Rushkoff chama de “social currency”: moeda social, feita de “assuntos”, utilizada cotidianamente pelas pessoas para comprarem atenção umas das outras.

Bom, o capítulo 3 de Convergence Culture é muito maior e mais rico que essas minhas rápidas anotações. O que eu tentei aqui foi só sublinhar o que me parece ser o elemento das boas histórias nesses tempos de transmedia (desculpa de novo, mas é a palavra do momento, calma que passa): utilizar o conteúdo – e não só os meios – para oferecer material de diálogo às pessoas. Se funciona com as revistas de fofoca de novela e com toda a mitologia do jornalismo esportivo, vai funcionar também com outras formas de ficção como a publicidade.

1 Comentário

Pensando ConCulture#7: Jenkins de graça

Lembra que eu falei que só o primeiro capítulo do Convergence Culture já valia o investimento do livro?

Pois aqui tem o primeiro capítulo em PDF pra baixar gratuitamente e em português.

Não perda.

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