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Arquivo: NYC

American Widow

Esses dias a Época publicou uma matéria reunindo obras no que poderia se configurar uma certa onda de literatura dedicada ao luto. Podiam ter incluído o trabalho da Alissa Torres, viúva cujo marido morreu no World Trade Center no 9 de setembro e que transformou seu luto em uma graphic novel. Não li ainda, mas parece promissor.

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Conector em Gotham parte 10

Eu acho até que alguns brasileiros tem esse hábito, mas percebo que calça com chinelo é basicamente coisa de gringo. Eu tenho um problema conceitual com calça com chinelo porque o chinelo indica que o tempo está quente, mas a calça indica que o tempo está frio. Calça com chinelo indica que está frio e quente ao mesmo tempo, o que me deixa meio tonto e maluco da cabeça então:

a) Se está quente, por que a pessoa não está de bermuda ou saia?

b) Se está frio, por que não usar tênis em vez do chinelo?

Mas eu realmente não vou me aprofundar no assunto porque meu conhecimento de física quântica é limitado.

Essa foto de uma muda de hidrante em crescimento, por sua vez, demonstra o grau de seriedade com que os americanos estão levando a questão ambiental. Provavelmente, os hidrantes estão também sendo plantados  pra entrar na conta da compensação de carbono. Um hidrante, por fornecer água, deve valer por dez ou mais árvores nessa matemática.

Por outro lado, a questão do preconceito com alienígenas ainda é problemática, como você pode ver acima. Os americanos continuam com essa paranóia a respeito da agressividade da vida em outros planetas, mesmo que os extraterrestres, em 98% dos casos, falem inglês e conheçam perfeitamente o mapa e o presidente dos Estados Unidos. O Obama deve dar atenção a esse item nos próximos meses.

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Leia toda a série sobre Nova Iorque aqui.

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Conector em Gotham parte 9: Sonic Youth no United Palace Theater

Foi difícil pra mim começar a escrever sobre esse show. O Sonic Youth é uma banda fundamental na minha formação, tanto de fã quanto de tocador de música, então toda e qualquer informação traz junto a marca da emoção mais desbragada. Também é complicado porque já faz alguns anos que eu não escuto regularmente os discos da banda. Acho que o último que eu efetivamente ouvi de cabo a rabo foi  A Thousand Leaves (muito embora eu tenha me apaixonado por The Emtpy Page do Murray Street) e depois, como acontece com qualquer namoro, acabamos indo cada um pra um lado por divergência de interesses. O problema não é você, Sonic Youth, eu é que mudei…

Na minha época de desinteresse pela banda, cheguei ao ponto de desprezar as duas vindas deles para o Brasil. Na primeira (um show incrível no Free Jazz em 2000 que vi pela TV) me arrependi. Mas consertei pegando um excelente show dos caras depois no T In The Park em 2001 ou 2002 na Escócia. Na segunda vez, não me arrependi: várias almas declararam o show do Claro Q É Rock simplesmente chato.

O show da semana passada em Nova Iorque, a meu distante ver, cai na segunda vala. Eu passei quase todo o show entediado, à medida em que a banda ia enfileirando músicas do novo The Eternal (que eu deixara pra conhecer ao vivo) misturadas com composições bem antigas (coisas incríveis e perenes como Death Valley 69, Pacific Coast Highway e Tom Violence), uma parte delas concentrada no bis. Este, por sinal, um show à parte. Na primeira volta ensaiada da banda, o vocalista e ainda intenso frontman Thurston Moore incitou a platéia a sair das cadeiras (aquele velho clichê de show na gringa, quase todo mundo fica sentado) e tomar a frente do palco. Todo mundo obedeceu, menos nós da platéia superior que apenas pudemos nos levantar. A pequena quebra de decoro parlamentar e o repertório contraditoriamente refrescado por canções antigas, deu um pouco mais de vida a um show difuso.

Pensei que essa seria apenas uma impressão minha derivada de um período de afastamento, mas encontrei por aí algumas resenhas que também falam sobre esse sentimento. Uma, em especial, levanta inclusive a problemática acústica do United Palace, que não privilegiou muito quem estava na platéia alta. Longe de estar inaudível, o mix que subia vinha com um reverber adicional que dificulta o entrelaçamento das três guitarras empunhadas por Moore, Ranaldo e Gordon (o baixo ficou a cargo do ex-Pavement Mark Ibold na grande maioria das músicas).

Não é uma questão de falta de entrega ou de energia. Pelo contrário, a banda que tem quase 30 anos de atividade se apresenta como se seus integrantes tivessem 20 anos de idade. Moore, em especial, se balança e chacoalha como um adolescente e é bem recebido pela platéia, inclusive quando resgata mais um hábito para o revival dos anos 90: o mosh. Sim, Thurston Moore teve a petulância de se jogar em cima do público a essa altura do campeonato. Há de se tirar o chapéu pro cara por conta dessa… quanta disposição.

Mas então, qual é o problema? Já disse lá em cima. Quase certo que não há nada de errado com a banda, eu é que estava a fim de ouvir a) Os hits mais palatáveis de Goo, Dirty, Experimental Jet Set e Daydream Nation ou b) o trabalho mais lustrado e lírico a la The Empty Page. Não rolou a química, tudo bem. É a vida. Me contentei com a cerveja, a pipoca (sim!) e o bis (a melhor parte do show, muito embora eu não consiga entender por que uma banda sai e volta três vezes pra dar três bis de duas músicas cada… por que não fazer um bis de seis? ou dois de três? Whatever…) Eu só não conseguia parar de pensar que minha mulher e minha enteada estavam se divertindo mais vendo The Blue Man Group.

Uma última nota. O United Palace, onde aconteceu o show, foi um espetáculo à parte, com sua arquitetura bizarra e opulenta que mistura estilos bizantino, hindu, romano, entre outros delineados na Wikipedia. Inaugurado em 1930, ao longo de 4 décadas abrigou espetáculos de vaudeville e projeções cinematográficas, foi comprado em 1969 por um reverendo de uma igreja cristã. Desde então, o teatro tem sido utilizado mais para fins religiosos (todo mundo tem a sua Igreja Universal) até que a partir de 2007 começou a ser alugado novamente para shows. Bjork, Stooges e Arcade Fire são alguns dos nomes que passaram pelo United antes do Sonic Youth.

A localização do Palace também não é muito óbvia. Ele fica numa área bem ao norte da ilha de Manhattan que muito provavelmente não recebe com frequência o tipo de público que vai a esses shows. O cara que estava sentado ao meu lado veio do Brooklyn (bem ao sul) e comentou que o Sonic Youth poderia tocar em qualquer lugar da cidade, mas escolheu este como uma forma de ajudar a comunidade. Eu adicionaria ainda o fator estético/inusitado do local e talvez um aluguel mais barato como motivos complementares.

Minhas fotos foram feitas com o celular e são meio podres. Então não deixe de ir aqui pra ver fotos massa do shows, do lugar e do setlist.

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Conector em Gotham parte 8: high line

É engraçado. A série Gotham na verdade começou há um anos e pouco, quando passei dez dias com minha mulher em Nova Iorque. Como você pode ler aqui, eu fiquei bastante impressionado com minha primeira vez nos Estados Unidos. Da mesma foma que a maior parte das pessoas de classe média no Brasil, cerca de 70% da minha formação cultural se deu por intermédio de produtos americanos (de todas as qualidades). Fora isso, tenho algumas ligações sentimentais com a língua e o jeito como os americanos organizam sua sociedade.

Essa segunda viagem a Nova Iorque só veio confirmar as sensações misturadas da primeira: adoro o lado cosmopolita e cultural da cidade, mas aquela correria e aquela ansiedade no ar definitivamente não me fazem tão bem. De modo que meus dois lugares prediletos são o Central Park (como achei no ano passado) e a recém inaugurada High Line. O Central Park você conhece bem de todos aqueles filmes que já viu. Mas a High Line é uma jóia fresca, foi inaugurada há algumas semanas, uma alternativa de passeio poética e inteligente em uma cidade cravada de pequenos prédios e arranha céus que parece ter se tornado o novo orgulho dos novaiorquinos (ou ao menos os representados pela mídia…).

A idéia tem mais de dez anos e foi declinada pelo prefeito da tolerância zero, Rudolph Giuliani. Basicamente, o que se pretendia era pegar uma linha de trem “aérea” e transformá-la em um… parque. Parte da linha original foi derrubada muito antes, mas o que sobrou recebeu um redesenho completo, com passeio, uma vegetação que simula o verde selvagem que cresce em torno de ferrovias e facilidades como bancos, telefones de emergência, escadas de acesso e um curiosíssimo anfiteatro com uma enorme vitrine que dá para a rua.

Passear na High Line foi certamente uma das coisas mais especiais que fizemos. Ela literalmente eleva o seu passeio, o coloca em um outro nível numa cidade onde a maior parte das caminhadas do circuitomais turístico (a não ser aquelas na orla da ilha de Manhattan) são sufocadas por prédios por todos os lados. Ok, os prédios ainda estão lá, mas o pedestre parece ganhar um outro status, ao menos ao conseguir enxergar a rua de cima e o segundo ou terceiro andares dos prédios ao redor olho no olho. Pra completar, a High Line fica a poucos quarteirões da orla do Rio Hudson, o que oferece algumas vistas incríveis quando a prediarada (coletivo para prédios) dá um tempo.

Aqui em Porto Alegre temos um projeto chamado Aeromóvel que chegou a ser construído mas nunca foi utilizado comercialmente. O projeto piloto foi instalado próximo ao centro da cidade e até hoje está lá, jogado às moscas. Daria uma boa High Line para nós.

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Curiosidade: fui pesquisar sobre o Aeromóvel e descobri que ele é uma tecnologia brasileira. Existe apenas uma outra linha operando no mundo em Jakarta.

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A série sobre Nova Iorque continua nos próximos dias.

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Conector em Gotham parte 7

As escadas de incêndio me impressionaram. Não apenas pelo desenho geométrico e hipnotizante ou pela aparência de armaduras vestindo os prédios. Mas principalmente pelas lembranças de dezenas de histórias do Demolidor, Batman e Homem Aranha lidas nas primeiras duas décadas da minha vida. Vi muita coisa acontecer nessas escadas e quando me deparei com elas de verdade, confesso que fiquei meio sentimental.

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Conector em Gotham parte 6 e Fuerza Bruta em SP

É realmente complicado escrever sobre Fuerza Bruta. Por isso eu vou deixar somente umas fotos que catei por aí e uma quase súplica: se você gosta de experimentar um espetáculo, mora ou estiver passando por SP, não deixe de ir nisso.

A gente foi em Nova Iorque (pagamos mais barato do que vai ser aqui…) e foi simplesmente o melhor espetáculo que eu fui na minha vida. Não dá pra dizer que é teatro nem música, nem sei lá o quê. Não dá pra dizer que é “performance” porque senão acham que é chato. E a última coisa que Fuerza Bruta parece é um exercício intelectual. Na verdade é um exercício dos instintos e dos sentidos. Tem gente correndo em cima de plataformas, uma piscina com ninfas/bruxas que flutua sobre o público e techno molhado. Contar mais do que isso é estragar a história dos caras e não fazer jus à experiência que eu tive (bem como revelar que eu não entendo nada desse tipo de coisa). Não veja vídeos no YouTube! Vá direto!

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Conector em Gotham – parte 5

Eis que ao pesquisar pra repassar umas dicas de Nova Iorque pra um amigo, descubro que eu e minha mulher pegamos os últimos suspiros do Florent: o restaurante idiossincrático do aventureiro Florent Morellet fechou suas portas cerca de um mês depos de passarmos por lá.

Olha o que foi a despedida do bistrô: uma série de eventos tresloucados ao longo de cinco semanas, cada uma delas correspondendo ao estágio de luto do modelo Kubler-Ross: uma semana de Negação, outra de Raiva, mais uma de Negociação, a seguinte de Depressão e a final de Aceitação.

Por aí dá pra ter uma idéia do motivo (nada gastronômico) pelo qual eu quis ir ao Florent: descobri ele no livro Perverse Optimist, que reúne os principais trabalhos do designer Tibor Kalman, fundador da M&CO, influência direta do Stefan Segmeister e co-criador da Colors junto com o Oliviero Toscani. A M&CO foi responsável não só pela identidade gráfica do Florent como também pela divulgação através de pôsteres, anúncios e brindes carregados de ironia e crítica política/cultural. O trecho do livro dedicado ao trabalho de Kalman ao Florent é tão interessante (uma aula de conceituação e de atenção consistente aos detalhes) que quando decidimos ir pra Nova Iorque, incluí o pequeno bistrô no roteiro.

O Florent foi um dos primeiros (senão o primeiro) empreendimento não ligado ao comércio atacadista de carne (seja gado ou travestis) a se instalar no Meatpacking District, vizinhança totalmente degradada lá em 1986. O aventureiro Molleret resolveu colocar ali seu bistrozinho que passou a receber sequelados quase uma década antes de boutiques, restaurantes chiques e clubs iniciarem uma espécie de revalorização da área, uma revalorização tão tão eficiente que o aluguel do Florent ficou impraticável, acarretando o fechamento do lugar.

Fomos lá duas vezes durante nossa estadia e na primeira desistimos por causa da fila enorme. O público, claro, já não era mais aquela coisa underground que deve ter sido nos anos 80, mas ainda assim fazia jus ao que eu li no Perverse Optimist: “Eu queria abrir um restaurante que, se possível, não precisasse de design nenhum. Um lugar que já existisse, que parecesse que sempre existiu e que parecesse ficar lá pra sempre.” Com certeza parte da ironia de ocupar um american dining e colocar um espelhão em frente ao balcão (característica de bistrôs franceses), bem como a localização inicialmente obscura se perderam no tempo. Mas esse clima meio indefinível de irreverência com nostalgia me pareceu estar lá ainda.

foto daqui

Mas o que que isso interessa? Eu não queria deixar esse post como uma dica duplamente inútil (primeiro porque o lugar fechou, segundo porque não é bem assim pra ir ali em Nova Iorque comer num restaurante…).

O que me atraiu no Florent foi o fato de ser um lugar com raiz, com alma, com uma história interessante que sustenta opções estéticas e não o contrário. Toda vez que essa equação é invertida e se colocam as opções meramente estéticas (ou sensoriais, etc, etc, etc) como base para um conceito surgido sabe-se lá de onde, o resultado é menos criativo, menos instigante e, em última análise, menos humano.

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Ghostbikes

Estava vasculhando as lindas fotos do Takeda em NYC quando esbarrei nos comentários do Flickr dele, onde um pessoal explicou o que era essa bicicleta branca que o Tax havia fotografado. Trata-se de um memorial urbano dedicado à memória de um ciclista que morreu ali em um acidente. Em outras palavras, Ghostbikes.

De parecido por aqui, já vi nas estradas do Rio Grande do Sul cruzes de madeira enterradas ao lado da rodovia marcando o local de algum acidente, mas na cidade é raro. O que me lembro de ter visto – e achado muito interessante – são as borboletas da Fundação Thiago Gonzaga, que também marca locais de acidentes fatais.

O que me chama a atenção em tudo isso é que tanto as bicicletas quanto as borboletas (super interessantes pela simplicidade) são um tipo de apropriação espiritual do espaço urbano (artística já é mais comum), uma expressão perdida seja pela velocidade imposta às grandes metrópoles do primeiro mundo, seja pela violência e desestruturação no caso das metrópoles dos países emergentes.

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Agora, a grande questão: vão colocar uma ghostbike pro Isaac Hayes em algum lugar?

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Conector em Gotham parte 4

Retomando as coisas que eu ainda tenho a dizer sobre Nova Iorque, me lembrei hoje da visita às lojas do Marc Jacobs. Jacobs é daqueles estilistas que, se você tem um problema com gostar de moda, pode evocar o Sonic Youth pra te dar credibilidade. Afinal o clip de Sugar Kane foi filmado em meio a um desfile de uma coleção do figura, que deu seus primeiros passos de ícone contemporâneo ao desenhar uma coleção “grunge” pra Perry Ellis em 93. Jacobs tem por hábito acompanhar sua vida e sua, por que não dizer, arte, de outros símbolos da cultura pop da hora tipo Michael Stipe, M.IA., o fotógrafo Jurgen Teller, a Chloé Sevigne, entre outros tantos.

Dito isto, eu tinha uma grande curiosidade de conhecer as lojas. Minha mulher me levou primeiro na loja “cara”, no Soho, a Marc Jacobs. Assim que eu botei os olhos nas roupas, fiquei realmente impressionado com o desenho de tudo e por força do hábito acabei tendo que explicar pra mim mesmo sob a forma de uma comparação com certas músics do Sonic Youth: uma mistura de dissonância com elegância como poucos podem fazer. Ali na minha frente estava uma combinação do que existe de melhor na moda com um universo de referências de certa forma próximo aos meus… gostos. Simples assim. No fim tudo se resume à montanha de técnica, talento e dedicação que consigam passar pelo estreito funil das suas referências, não é mesmo?

Bom, o fato é que um blusãozinho gola V custava tipo 600 dólares então tudo muito bonito de se olhar. Nisso, minha mulher me levou até as outras duas lojas “Marc by Marc Jacobs”, onde ele vende coleções mais simples, mais baratas, mas nem um pouco piores do que as que estão nas lojas Marc Jacobs em termos de qualidade e design. Comprei um blaser de reunião (fundamental pra eu sentir que sei do que estou falando no meio de engravatados – ainda não atingi o estágio Carlos Eduardo Miranda) pela metade do preço de um blaser sem graça no Brasil (mesmo pagando em dólar) e na loja feminina havia roupas e acessórios de tudo quanto é preço a partir de 3 dólares.

O que me fez pensar em como é interessante esse sistema de democracia pelo consumo: você pode ser um pé rapado e ter apenas 25 dólares na carteira, mas você vai sair da loja do cara com qualquer treco dele, com o design e a qualidadedele. Duas coisas me chamam a atenção nisso. A primeira, que eu acho muito legal, é um certo tom anti-exclusivista (todo mundo pode ter algo do Marc Jacobs, ainda que seja da segunda marca, algo pouco dissemindo no Brasil ainda). A segunda, menos benéfica, é que isso em grande escala ajuda bastante a construir um país consumista e poluente.

Por outro lado, minha fascinação pela obra do Marc Jacobs esbarrou um pouco no documentário que eu vi sobre o trabalho do cara à frente da Louis Vuitton. Não há nada de errado no filme, é fascinante porque mostra o trabalho de alguém realmente excepcional, um cara que parece simplesmente trabalhar muito e, se tem chiliques, deixaram de fora da edição. Mas ao mesmo tempo, um clima meio triste permeia a história. Uma espécie de nuvem densa que eu não sei explicar muito bem. É muito comum eu ficar entusiasmado quando vejo esse tipo de documentário e me sentir compelido a seguir o exemplo desse tipo de artista (embora nem sempre eu considere esse um caminho válido pra minha vida). Mas dessa vez foi diferente, havia um tom de solidão e melancolia. O cara não parava de comer umas barras de proteína meio sinistras… aquela magreza meio cadavérica… pode ser total viagem minha, pode ser o momento em que eu assisti, não conheço a biografia dele a fundo. Mas fiquei com um pé atrás.

De todo modo, se você tiver a oportunidade, vale a pena ver um grande designer trabalhando. Sempre se tira alguma coisa, nénão?

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Conector em Gotham – parte 3 de muitas

Acho que a coisa que você mais faz em Nova Iorque é perder atrações e barbadas. Por exemplo, nós perdemos o Hypnotic Brass Ensemble pra ir no Fred Wesley tocando com um clarinetista e um rapper judeus. Também perdi de ir na loja de instrumentos freqüentada pela galera do Sonic Youth. Pra não falar de uns dois ou três museus que perdemos de propósito porque não havia mais perna e cérebro disponível na casa.

Mas uma coisa eu fiz questão de não perder: qualquer show de stand up comedy que aparecesse pela frente.

Mitch Fatel: “oh my god”

Não sei como a coisa anda no seu mundo, mas no meu universo de amizade o stand up comedy anda em franca ascensão. Dois amigos meus se pilharam pra começar a escrever textos e ensaiar uma carreira underground de comediantes. Links de you tube voam de um lado para o outro. E, algo que merece um post à parte, o Brasil começa a ser invadido por esse hábito americano de fazer comédia em bar escudado apenas por um microfone e uma platéia alcoolizada.

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Bom, o fato é que calhou de estarmos parando a uma quadra de um dos principais clubes de comédia de Nova Iorque, o Stand Up NY (o link até dias atrás tava funcionando, hoje não está, vamos ver se vc dá sorte quando ler esse post). O Seinfeld e o Chris Rock já passaram por lá, só pra elencar alguns poucos nomes. Trechos de apresentação da volta do Seinfeld aos palcos no documentário Comedian, por sinal, se passam no Stand Up NY. Ou seja, um lugar cheio da mística.

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Fomos num sábado, dia de sessão tripla: os 7 comediantes da noite se apresentavam às 20h, às 22h e à meia-noite. Assim que uma sessão terminava, a platéia era enxotada gentilmente pra fora, o bar era limpo e a fila que esperava era acomodada rapidamente.

Fomos colocados em uma mesa junto com um casal mais novo de Long Island (uma ilha ao lado de Manhattan que contém alguns bairros de Nova Iorque e também uma região praiana). Ali já começou a comédia, porque, apesar de muito simpático, o casalzinho não era muito versado em geografia e pediu confirmação a respeito de suas suspeitas sobre o Brasil ser na América do Sul e do francês ser nossa língua oficial.

James Smith: “I make the posters”

Antes de tudo começar, rolou um certo nervosismo de nossa parte. Será que vamos entender o inglês? Será que vamos entender as piadas? Será que vai valer a fortuna que custa a brindadeira toda?

(20 dólares de entrada + 20 dólares de consumação + taxas + gorjetas = 100 dólares o casal)

No início, ainda tivemos nossas dúvidas. O mestre de cerimônias era bem engraçado. Mas os primeiros humoristas não muito. Cada set durava em média 20 minutos e uma mulher usou praticamente todo o seu tempo detonando seu filho recém nascido, falando das dificuldades da maternidade de um jeito meio mórbido. Outros dois caras eram tão rápidos que a gente não entendia nada. Ríamos de nervosos ou junto com as outras pessoas, só por rir.

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Na verdade, a platéia inteira ria de qualquer coisa que os caras falassem, o tempo todo. No início ainda pensamos que o problema era nosso entendimento do inglês, mas à medida em que o show foi indo adiante, percebemos que eles riem de tudo mesmo! De qualquer coisa! Talvez seja uma espécie de atitude de consumidor de primeiro mundo tipo “estou pagando por esse troço, então eu vou rir, ah eu vou rir muito!!”.

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Felizmente lá pela metade da sessão a coisa começou a melhorar, especialmente quando um australiano radicado em NYC chamado James Smith começou seu set desancando a cultura americana – o que fez as pessoas rirem ainda mais.

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Outra surpresa incrível foi um tal de Mitch Fatel. Foi o meu preferido da noite, não só pelo texto do cara, mas pelo personagem que ele encarna. Diferente de todos os outros comediantes, que baseiam suas apresentações em uma aura cool de esperteza e desprezo (por outros ou auto-desprezo), o Mitch Fatel constrói todo seu ato em cima de um personagem tímido, com movimentos discretos, um fiapo de voz mongol, sussurros bizarros e orgulho disso tudo.

O site do cara merece uma visita, especialmente por um texto que dá dicas de como se tornar um comediante

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Outro cara muito bom, mas que aí eu peguei na tv, num especial do Comedy Central, foi o George Lopez. Como o Russel Peters faz tudo em cima da sua ascendência indiana, grande parte do material do George Lopez é baseado nas peculiaridades da cultura mexicana dentro dos Estados Unidos. Em quarenta minutos de show que eu assisti, eu aprendi mais a respeito da America e dos mexicanos lá instalados do que talvez aprendesse em qualquer enciclopédia…

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Não tenho nada engraçado pra dizer no fim do post.

Talvez eu só devesse citar o Mitch Fatel: “oh my god…”

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Conector em Gotham – parte 2 de muitas

Um dos programas mais legais que fizemos em Nova Iorque foi pegar o metrô até o Brooklyn e procurar um restaurante chamado Habana Outpost. A primeira pequena atração do passeio foi meio que estar perdido logo que descemos do metrô e caminhar algumas quadras a esmo em um lugar bem diferente de Manhattan, berço de uma série de expressões multiculturais, tema de música do Beastie Boys, cenário de filmes do Spike Lee, ponto central de uma recente efervescência musical indie, especialmente na área de Williamsburgh.

Mas, enfim, o que interessa é que paramos numa esquina pra pedir informação a um policial e enquanto a Lucia fazia as perguntas eu me entretia em espiar o carro do officer, fascinado com o fato de que os caras tem um laptop dentro do carro. Minhas fantasias mais infantis foram ativadas e fiquei imaginando que eles devem usar o Google pra pegar ladrão. Por exemplo, eles recebem um chamado de assalto em uma rua e colocam: “Assalto na esquintal tal com tal” no Google Images e vem uma foto do cara. A partir da foto pegam o nome, buscam na agenda do Google o próximo compromisso do cara (“Levar gato pra tomar banho na pet shop do Silveira”), colocam “Pet Shop do Silveira” no Google Maps e vão lá prender o cara. Polícia de primeiro mundo é outra coisa.

(Epa, agora lembrei de uma: quando estava lá, li num jornal gratuito a notícia de um bombeiro que havia sido pego roubando um banco tinha um perfil no MySpace com comentários e piadinhas detonando a polícia e os bombeiros de nova iorque… e isso é especialmente grave porque os bombeiros parecem ser meio heróis por lá… agora os cadetes tem suas vidas online devidamente vasculhadas por olheiros digitais da polícia…)

Bom, o guardinha nos deu a indicação e caminhamos meia dúzia de quarteirões naquele bairro com mais cara de bairro do que de cenário de filme (muito embora tudo lá pareça um cenário de filme, depende do filme…) até chegar no Habana Outpost.

E por que diabos fomos atrás desse lugar? Porque um mês antes eu havia vasculhado um site de shows e passado um pente fino em quem estaria tocando na cidade naquela semana. No meio de incontáveis bandas de folk indie, encontrei uma deliciosa novidade (novidade pra mim, ao menos): The Hungry March Band.

Mais do que uma banda, é praticamente uma comunidade multicultural, um squat ambulante cuja população pode variar de 5 a 50 artistas entre músicos e performers. A parada dos caras é aquela coisa de parada: uma espécie mutante de fanfarra, com o som baseado em bumbos, taróis e metais tocando uma música de banda marcial, jazz, funk, música cigana, essas coisas. Com a cabeça cansada de tudo que eu andei ouvindo até hoje, foi um convite para mergulhar em uma coisa nova e divertida.

A cereja do bolo é que o show não só era gratuito como fazia parte de uma “block party”, uma festa daquele quarteirão específico celebrada no simpático pátio do Habana Outpost. Como a festa, o restaurante foi uma atração à parte. Com uma decoração colorida e elaborada de forma a parecer não elaborada, o Habana Outpost mistura comida cubana/mexicana com experiências ecológicas.

Pelo lugar vimos coisas como coletores de água da chuva para a descarga do chuveiro, uma bicicleta para fazer smoothies e evitar o uso de energia elétrica, lixo separado por tipo para a reciclagem, tudo indicado de forma lúdica na decoração, sem muito daquele ranço ambiental clássico. No site, eles chamam isso de “ecoaeatery”.

Uma banda de música cubana, três margueritas, um prato de nachos e alguns milhos assados com queijo e pimenta depois da nossa chegada, a Hungry March Band apareceu no pátio. Todos vestidos a caráter, com aquela pompa de banda marcial, mas um detalhe: a única uniformização eram as cores vermelho e preto. Fora isso, cada um com seu próprio conceito de pompa e circunstância, misturando tênis, casacos de almirante completamente detonados, quepes aleatórios, saias caóticas e inclusive uma fantasia de gorila.

Foi uma função: todo mundo teve que sair do pátio porque a banda começava a tocar na rua. Levantamos, fomos lá pra fora e acompanhamos a Hungry March Band entrar de volta no pátio. Fez todo o sentido do mundo, porque banda marcial que se preze não pode entrar no palco e tocar, precisa entrar marchando!

À frente da trupe de metais e percussão vinham duas animadoras. Uma delas segurava e girava um bastão de um jeito que me fez pensar no conceito de “punk baliza”, um tipo de versão Ramones das coreografias abre-alas. Ela estava mais interessada em fazer grau e provocar a platéia do que propriamente acertar os movimentos, o que deixava tudo mais interessante. Ao lado, seguindo de perto, vinha a segunda “baliza”, vestindo uma fantasia podre de gorila, assustando as crianças e temperando a cena com breakdance tosca, espasmos primatas e alguns golpes de karatê.

Ao fundo, a banda seguia tocando impávida. Foi um dos shows mais legais que eu vi nos últimos anos e juro que as margueritas não tem nada a ver com isso. A verdade é que um bom naipe de metais, um bumbo e um tarol bem ajuntados têm total condição de dar conta de um bando de neurônios que não eram chacoalhados decentemente há algum tempo.

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Conector em Gotham – parte 1 de muitas

Pôr do sol na sétima avenida

Onde eu andei todo esse tempo? Eu estava em Nova Iorque. The Big Apple. Gotham. Nova Iorque Contra o Crime. Lar do Demolidor.

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Foram 8 dias da melhor forma possível: com a minha mulher, que além de ser minha amada, já foi meia dúzia de vezes pra cidade. Ou seja, em nenhum momento precisei me preocupar com aquela coisa de mapas ou direções. Tudo que eu precisava fazer era ficar boquiaberto com a quantidade absurda de informação que meu cérebro tentava absorver. O principal efeito de Nova Iorque sobre mim: fazer eu me sentir com oito anos de idade.

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Por muitos motivos me senti dessa forma. Primeiro por isso, por estar sendo levado de um lado para o outro feito sem precisar nem olhar nome de rua. Segundo porque estar na cidade ativou um sem número de lembranças sentimentais ligadas a filmes e quadrinhos que entraram pelos meus olhos e ouvidos especialmente na infância. Terceiro porque tudo na cidade parece ser tão farto e estar tão à mão em uma variedade tão grande que me senti uma criança numa loja de brinquedos.

frio na sétima avenida

Durante os primeiros três dias parecia que eu tinha fumado haxixe. Não consegui entrar na vibe aceleradíssima da cidade, como uma espécie de distanciamento, mas ao mesmo tempo me sentia meio em casa com tantas esquinas e prédios já visitados através das história do Demolidor ou dos filmes do Woody Allen. É uma sensação muito esquisita e várias outras pessoas que já foram pra lá me confirmaram esse efeito.

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Mas isso foi uma espécie de proteção. Porque, na real, a impressão que eu tive é que o ar da cidade cheirou cocaína. Em todo lugar tem gente andando rápido, indo de um lugar para outro. Muita gente. O tempo todo. “The city that never sleeps”, diz um slogan local. Não sei se isso deveria ser motivo de orgulho.

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A grande questão é: pra onde essas pessoas todas estavam indo? Pra outro lugar não é porque, até onde sei, a população da cidade está crescendo e não diminuindo. Então temos mais de oito milhões de pessoas trabalhando duro, trabalhando muito mesmo (parece que mesmo os ricos trabalham bastante lá, vai entender), correndo o tempo todo e não indo a lugar algum. A cidade nunca dorme mas também está sempre lá, parada no mesmo lugar. Não há notícias de que as ilhas que formam Nova Iorque tenham se movido em alguma direção que seja. De alguma forma, não parece fazer sentido toda essa velocidade. É um verdadeiro paradoxo de física moderna.

(continua…)

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